Dezenove minutos
A sombra na varanda do 306 avançou até a luz revelar um paletó escuro e a mão apoiada no trinco. Augusto Ferraz não demonstrou surpresa ao encontrar Rebeca do outro lado do gradil. Esperava junto ao trinco.
— Volte para dentro — disse ele. — Você está ferida.
Rebeca segurou o corrimão. A água descia de seu cabelo para o rosto, diluindo o sangue junto à orelha. Entre as duas varandas havia um vão estreito, e abaixo dele o pátio de pedras claras aparecia três andares mais abaixo, recortado por toldos fechados e vasos de palmeira.
— O cartão — pediu ela, sem olhar para Olívia. — Pegue o cartão.
Olívia se abaixou. A peça escura quase desaparecia no tapete molhado, cercada pelos cubos de gelo. Antes que seus dedos a alcançassem, a porta do corredor cedeu alguns centímetros e a corrente de segurança estalou contra o batente.
Caio segurou a maçaneta da varanda.
— Rebeca, entre. Eu posso examinar você.
Ela apoiou um pé na base do gradil. Augusto abriu a porta de vidro do 306 e estendeu o braço como quem oferecia ajuda. O gesto fez Rebeca recuar. O salto do sapato raspou no piso molhado.
Olívia apanhou o cartão e o fechou na mão. A corrente da porta da suíte rangeu outra vez. Caio deu um passo para a varanda, tentando manter a voz estável.
— Olhe para mim. Solte o gradil devagar.
— Ele tem tudo — disse Rebeca. — O quarto, o casamento, vocês dois.
Caio olhou para Olívia. A pergunta veio inteira em seu rosto, ainda que ele não a pronunciasse. Olívia guardou o cartão no bolso do robe e se aproximou.
— O que você tem do nosso casamento?
— Eu estava lá.
Augusto agarrou o pulso de Rebeca através das barras. Ela puxou o braço com violência, perdeu o apoio e ficou suspensa por um instante entre o gradil e o vazio. Caio alcançou sua outra mão. Olívia segurou o tecido do uniforme junto à cintura.
O peso de Rebeca os lançou contra a mureta. Caio prendeu o antebraço dela com as duas mãos, os joelhos apoiados no piso. Olívia sentiu a costura do uniforme abrir sob seus dedos. Augusto ainda segurava Rebeca pelo pulso, transformando o corpo dela numa corda esticada entre as varandas.
— Solte-a — gritou Caio.
Augusto obedeceu.
O movimento repentino arrancou Rebeca das mãos de Caio. Olívia fechou os dedos sobre o tecido, que se rasgou do quadril até a barra. Rebeca bateu a perna na mureta, girou no ar e caiu.
O impacto chegou depois de um intervalo impossível de medir. Primeiro houve o ruído do toldo de lona se rompendo; em seguida, um som seco nas pedras do pátio. Às 02h38, o relógio sobre a mesa de cabeceira mudou de minuto.
Caio correu para a porta. A corrente se soltou com o terceiro puxão. Augusto já não estava no quarto ao lado. No corredor, a porta do 306 permanecia fechada, sem luz sob a soleira.
— Ligue para a recepção — disse Caio enquanto calçava os sapatos sem meias. — Diga que houve uma queda. Peça uma ambulância.
Olívia pegou o telefone do quarto. O aparelho não deu sinal. Apertou o botão da recepção duas vezes e ouviu apenas a própria respiração no fone.
— A linha está morta.
— Seu celular.
Ela procurou sobre a mesa, entre as taças e a bolsa. O bolso do robe pesava contra sua coxa. O cartão de memória estava ali. O celular, usado minutos antes para gravar o ruído da parede, continuava dentro do outro bolso.
— Vou com você.
Caio já corria pelo corredor. Olívia o seguiu descalça, segurando a frente do robe. O elevador estava parado no térreo, e a luz do botão não respondeu. Eles entraram pela escada de serviço. No segundo andar, um carrinho de roupas bloqueava metade da passagem. No primeiro, uma porta corta-fogo estava presa por um calço de madeira. Nenhum funcionário apareceu.
O pátio lateral era acessado por uma cozinha desativada. Caio empurrou duas folhas de aço e encontrou a porta externa trancada. Bateu com o ombro, procurou uma barra antipânico e viu apenas uma fechadura antiga.
— Para trás.
Olívia recuou. Caio chutou a madeira junto ao trinco. Na segunda tentativa, a moldura se abriu e os dois saíram sob a chuva.
Rebeca estava deitada de lado sobre as pedras, a poucos metros do toldo rasgado. Uma das pernas permanecia dobrada sob o corpo. A mão direita tocava o chão, os dedos curvados como se ainda procurassem algo. A chuva lavava uma faixa de sangue em direção ao ralo.
Caio se ajoelhou. Pediu que Olívia iluminasse o rosto com o celular e apoiou dois dedos no pescoço de Rebeca. Depois aproximou o ouvido da boca dela, observou o tórax e tocou com cuidado a base do crânio.
— Ela respira — disse às 02h41. — Pulso fraco. Ligue agora. Cento e noventa e dois.
Caio pediu a hora em voz alta e repetiu 02h41, como fazia na emergência quando precisava fixar o início de uma conduta. Verificou a boca de Rebeca, procurou sinais de obstrução e apoiou as mãos dos dois lados da cabeça para impedir movimento do pescoço. A respiração vinha irregular, com pausas que ele contou até três.
— Diga queda de altura, trauma de crânio, respiração espontânea e alteração de consciência — orientou. — Peça suporte avançado.
Olívia conhecia aquele modo de falar. Cada instrução eliminava uma escolha de quem o auxiliava. No pátio, porém, ela continuava com todas as escolhas diante da tela.
Olívia abriu o teclado do celular. Havia uma notificação de gravação em andamento. O áudio iniciado na suíte continuava correndo: vinte e três minutos, vinte e quatro, vinte e cinco. O botão vermelho ocupava a parte superior da tela. Abaixo dele, três algarismos bastariam.
— Olívia.
Ela digitou 1 e 9.
Uma porta metálica se abriu atrás dos vasos. Augusto surgiu com um guarda-chuva grande e um rádio preso ao cinto. Atravessou o pátio sem correr.
— A equipe já foi acionada — disse ele.
Caio continuou a avaliar Rebeca.
— Quando?
— Assim que ouvi o impacto. Há uma unidade a caminho.
— Preciso da hora da ligação e de uma prancha. Traga oxigênio, colar cervical, o que houver na enfermaria.
Augusto tirou o rádio do cinto.
— Jonas, libere o acesso dos fundos. O resgate está chegando.
Uma voz respondeu em meio à estática, confirmando. Olívia apagou o número que havia começado a digitar. Augusto viu o movimento.
— A recepção perdeu a linha durante a tempestade — disse ele. — Uma ligação duplicada pode mandar a unidade para a entrada errada. Deixe a coordenação conosco.
Caio levantou os olhos.
— Dê seu telefone para ela confirmar o chamado.
Augusto guardou o rádio e retirou um celular do bolso interno do paletó. Em vez de abrir a tela de chamadas, mostrou um vídeo. A imagem granulada vinha de cima da porta da varanda. Rebeca aparecia suspensa no vazio, Caio segurava um de seus braços e Olívia puxava o uniforme. A gravação começava no instante em que os três se tocavam. Augusto não aparecia no enquadramento.
— A câmera também registra som — disse ele. — Há uma discussão, seu marido manda alguém soltá-la e, em seguida, a funcionária cai.
Olívia aproximou o rosto da tela. O vídeo voltava ao início sem mostrar Rebeca entrando na suíte, o transmissor no balde ou o homem na varanda ao lado.
— Você cortou antes.
— O sistema grava por movimento. Foi o trecho disponível.
Caio posicionou a mão junto ao maxilar de Rebeca para manter a passagem de ar.
— Guarde isso. Quando a polícia chegar, você entrega o arquivo inteiro.
— Entregarei tudo o que o sistema registrou. Também precisarei explicar por que um médico deixou uma paciente cair e invadiu uma área fechada do hotel.
— Eu arrombei a porta para chegar até ela.
— A porta da cozinha foi arrombada. A do quarto 306 também apresenta marcas. Sua esposa tem um cartão de acesso que pertence à segurança do hotel. E existe sangue da funcionária na suíte de vocês.
Olívia tocou o bolso do robe. O cartão formava um quadrado rígido contra sua coxa.
— Como sabe que está comigo?
Augusto apontou para o celular dela.
— A gravação ainda está ligada. Talvez queira cuidar do que está registrando.
O áudio marcava vinte e oito minutos. Olívia interrompeu a gravação. Ninguém falou. A chuva batia no toldo rasgado e na lona dos demais. Caio olhou para a entrada do pátio, esperando luzes, passos, qualquer sinal de uma equipe.
— Há quanto tempo você ligou? — perguntou.
— Quatro minutos.
— Qual unidade respondeu?
— A de Paraty.
Caio consultou o próprio relógio. Rebeca emitiu um ruído baixo. As pálpebras se moveram. Ele se inclinou sobre ela.
— Rebeca, meu nome é Caio. Você caiu. Fique imóvel. O socorro está chegando.
Os olhos se abriram por uma fresta. Ela pareceu procurar o rosto de Olívia. A mão direita raspou as pedras, avançando poucos centímetros na direção da porta metálica.
— Cópia — murmurou.
Caio aproximou o ouvido.
— Onde está a cópia?
Rebeca tentou respirar. O som seguinte se perdeu sob um trovão. A mão continuou avançando, unha após unha, até tocar a soleira da porta. Olívia ergueu o celular por impulso e viu, na parte alta da parede, um pequeno brilho vermelho.
Uma câmera apontava para o pátio.
O relógio de Caio mostrava 02h47.
Seis minutos haviam passado desde o primeiro exame. Caio tornou a verificar o pulso e pediu uma lanterna. Augusto não trouxe. Olívia poderia usar a luz do celular, ligar para o socorro ou filmar a câmera acima do pátio. Alternou entre as três funções sem concluir nenhuma. A tela conservou uma fotografia tremida da parede e o número 19 ainda incompleto no histórico de digitação.
— Ela precisa sair daqui agora — disse Caio.
— A unidade está na estrada — respondeu Augusto.
— Diga o tempo estimado.
Augusto consultou o rádio e recebeu apenas estática. Caio olhou para o portão de serviço. A ausência da ambulância já era informação suficiente, embora ele continuasse pedindo confirmação.
Augusto se colocou entre Olívia e a lente.
— Agora vocês precisam sair daqui.
— Ela está consciente — disse Olívia.
— E sendo atendida por um médico. Há funcionários vindo com equipamento.
— Não veio ninguém — disse Caio.
Augusto agachou perto dele, preservando a distância do corpo.
— Sua esposa está molhada, descalça e coberta com um robe do hotel. Vocês foram vistos correndo pela área de serviço. Quanto mais tempo permanecerem, mais difícil será separar o acidente de tudo o que aconteceu antes.
Caio apoiou a palma sobre o peito de Rebeca e contou a respiração outra vez. Olívia sabia o que ele estava esperando: a sirene que justificaria os minutos já perdidos, o rádio que voltaria a falar, uma maca atravessando a porta. Nenhum desses sons veio.
— Você prometeu que chamou — disse ela.
Augusto sustentou seu olhar.
— Assumi essa responsabilidade.
O cartão pesava no bolso. Olívia poderia discar naquele instante. Poderia gravar Augusto, fotografar a câmera, entrar no saguão gritando. Também enxergava a manchete pronta: sócia da consultoria contratada pela Rede Ferraz envolvida na queda de funcionária durante a lua de mel. Caio perderia o hospital antes de conseguir explicar por que sua mão aparecia soltando a vítima. A mãe receberia telefonemas antes do amanhecer. O casamento começaria sob uma investigação.
Rebeca inspirou com dificuldade. Caio fechou os olhos durante um segundo.
— Se voltarmos, alguém fica com ela — disse ele.
Augusto falou ao rádio. Desta vez uma mulher respondeu que estava descendo com o kit. Pouco depois, uma funcionária de uniforme branco surgiu pela porta da cozinha com uma maleta e uma manta térmica. Caio a orientou a não mover Rebeca, indicou como sustentar a mandíbula e pediu que contasse as respirações.
— Eu fico até a ambulância chegar — disse a mulher.
Caio se levantou devagar. Tinha sangue nos joelhos e nas mãos. Rebeca tornou a fechar os olhos.
Antes de se afastar, ele retirou o próprio relógio e o colocou sobre a maleta da funcionária, com o mostrador visível.
— Se ela parar de responder, marque a hora e me chame imediatamente.
A mulher assentiu. Caio deixou o relógio no pátio e subiu sem ele. Durante o ano seguinte, afirmou que perdera o objeto na correria. Só ao encontrar o recibo do gelo se lembrou de que deixara o mostrador ao lado de Rebeca e subira antes da ambulância.
— Se ela vomitar, vire em bloco. Se parar de respirar, me chame.
— Sim, doutor.
Augusto abriu o guarda-chuva sobre Olívia e indicou a cozinha. Ela deu dois passos, parou e olhou para trás. A mão de Rebeca permanecia encostada na soleira. A funcionária de branco colocou a manta sobre o corpo e cobriu o braço, apagando o gesto.
No corredor de serviço, Augusto caminhou na frente. Caio vinha atrás de Olívia, sem tocar nela. Subiram um lance inteiro em silêncio. Quando alcançaram o segundo andar, o rádio anunciou que a unidade tinha sido avisada.
Caio segurou o ombro de Augusto.
— Avisada agora?
Augusto se desvencilhou.
— Confirmada agora.
— Você disse que havia ligado antes de chegar ao pátio.
— A recepção tentou. A linha caiu. Por isso usamos o rádio para alcançar a guarita.
Caio procurou o celular no bolso da calça. Estava com ele desde que saíra para buscar gelo. A tela tinha sinal suficiente para duas barras. Olívia viu o instante em que ele compreendeu que também poderia ter telefonado. Ele bloqueou a tela e guardou o aparelho.
Às 02h52, entraram novamente na suíte 307. A porta permanecia aberta. O gelo derretido formara uma mancha larga no tapete; perto da varanda havia sangue, fios escuros de cabelo e o pedaço rasgado do uniforme. O telefone do quarto repousava fora do gancho. A luz do 306 estava apagada.
Augusto fechou as cortinas.
— Em cinco minutos a chamada oficial aparecerá no sistema. Até lá, decidam se querem ser o casal que encontrou uma funcionária caída ou o casal filmado discutindo com ela segundos antes da queda.
Caio avançou até ficar a um palmo dele.
— Você deixou uma mulher no chão para fabricar uma escolha.
— Eu deixei uma médica sob orientação de outro médico junto a uma vítima, enquanto o hotel mobilizava o socorro. O restante será definido pelos registros.
— Ela é enfermeira?
Augusto não respondeu. Olívia foi até a mesa e abriu a mão. O cartão de memória deixara uma marca quadrada em sua palma. Guardá-lo significava conservar a única prova que Rebeca tentara entregar. Entregá-lo a Augusto poderia encerrar a ameaça. Ela o colocou dentro do forro rasgado da mala, por trás da placa rígida, e fechou o zíper.
Caio viu.
— O que era aquilo?
— A razão pela qual ela entrou aqui.
— Você a conhecia.
— Eu a vi no casamento. É tudo o que sei.
— Ela disse que estava lá.
— E falou do seu marido antes de você voltar.
Augusto recolheu o transmissor entre os cubos com um lenço. Depois apontou para o tecido do uniforme no chão.
— Se a polícia encontrar a suíte assim, nenhum de vocês controlará a primeira versão.
Do pátio veio uma sirene curta, seguida pelo ronco de um veículo entrando pela lateral do hotel. O relógio sobre a mesa marcou 02h57.
Caio olhou para a hora. Depois olhou para as próprias mãos, ainda manchadas de sangue.
Dezenove minutos separavam a queda daquele som.
Durante todo o intervalo, os dois haviam carregado um telefone.