A vida perfeita O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 9 de 15
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A vida perfeita

Caio segurou a fotografia pelas bordas. A camada retirada por Malena ainda estava úmida e curvada sobre a mesa. Sob o arranjo que cobrira o fundo, ele aparecia diante de Rebeca perto da porta de vidro. Ela erguia o envelope branco entre os dois. Caio tinha uma das mãos aberta, voltada para cima.

— Eu não me lembro disso — disse.

Malena ampliou a imagem com uma lente.

— Foi às vinte e duas e dezessete. Rebeca anotou a hora no arquivo.

— Você falou que jamais a tinha visto — disse Olívia.

— Eu nunca associei a mulher do casamento à funcionária do hotel.

— Está olhando para o rosto dela.

— Eu falei com garçons, fotógrafos, parentes que ainda não reconheço. Foi uma conversa de segundos.

Sônia retirou o álbum de perto da filha.

— Caio passou a noite resolvendo problemas porque o cerimonial era incapaz de cuidar de uma porta. Isso pode ter sido qualquer coisa.

— Rebeca tinha uma prova na mão — disse Malena.

— Tinha um envelope. A diferença ainda existe.

Sônia fechou a capa e alisou o couro branco. No relógio da sala eram onze e quarenta. Em pouco mais de vinte e quatro horas, vinte e seis convidados chegariam para o almoço de aniversário que ela organizara.

— O almoço está cancelado — disse Caio.

— Já paguei o bufê.

— Uma pessoa entrou neste apartamento e roubou o disco do casamento.

Sônia olhou para Olívia.

— Você deixou essa mulher entrar e agora ela está desmontando fotografias na sua mesa. Tem certeza de quem pegou o disco?

Malena começou a guardar as ampliações.

— Eu saio quando Olívia pedir.

— Ela vai pedir.

— Mãe, pare.

Olívia pegou o álbum das mãos de Sônia. Na capa havia apenas as iniciais do casal e a data do casamento. O objeto pesava mais do que lembrava. Durante o primeiro mês, ficara aberto sobre um suporte na sala; depois da morte de Rebeca, Olívia o guardara no armário. Sônia o trazia de volta em cada reunião de família, escolhendo uma página diferente para provar que o casal continuava igual às imagens.

— Quem pediu ao fotógrafo as correções? — perguntou Olívia.

— Eu pedi um álbum sem funcionários atravessando as fotos principais.

— Quem indicou quais pessoas deveriam sair?

— Mandei o material para o cerimonial.

— Nome.

Sônia olhou para a janela.

— Augusto ajudou. A Rede Ferraz era parceira do evento e se ofereceu para tratar diretamente com o fotógrafo.

Caio largou a fotografia.

— Você entregou o envelope de Rebeca e o álbum a ele.

— Eu entreguei documentos da rede ao representante da rede. Depois pedi que retirassem estranhos das fotografias da família. Na época, ninguém tinha morrido.

— Ela morreu quatro dias depois — disse Malena.

Sônia puxou a alça da bolsa sobre o ombro.

— Eu sinto muito por sua irmã. Isso não autoriza você a transformar cada decisão de uma festa numa conspiração.

— Sônia — chamou Olívia.

A mãe parou junto à porta.

— Deixe a chave do apartamento.

Sônia segurou a alça da bolsa, olhou para a filha e para Malena. Então retirou o molho e soltou a chave sobre o aparador. O metal bateu na madeira ao lado da fotografia do casal na praia.

— Amanhã, ao meio-dia, as pessoas estarão aqui — disse. — Decida se quer que encontrem uma casa ou uma investigação.

Olívia recolheu a chave do aparador. Sônia mandara fazer aquela cópia antes mesmo da mudança, quando ajudava a receber móveis e escolher cortinas. Depois continuou entrando para regar plantas, deixar comida e corrigir detalhes antes de visitas. A chave nunca fora discutida; passara de solução temporária a direito familiar.

Olívia colocou-a num envelope e escreveu o nome da mãe. A partir dali, Sônia teria de tocar a campainha antes de preparar a casa para uma conversa.

Depois que ela saiu, Malena pediu para ver o cofre. Olívia mostrou os recortes, o recibo do gelo, a fotografia das 02h47 e o cartão do 306. Deixou o áudio oculto no telefone. Também escondeu o botão de madrepérola na caixa de convites antes que Malena entrasse no corredor.

Caio acompanhou com os olhos o botão que ela escondera.

— Ainda faltam coisas — disse.

— Vamos organizar primeiro o que pode ser copiado.

Malena fotografou cada documento com uma câmera sem conexão. Quando encontrou a matéria em que contestava a versão do hotel, leu até o fim.

— Esta foi a única vez que publicaram minhas palavras — disse. — No dia seguinte, retiraram a parte sobre as câmeras.

— A Vértice pediu a alteração — falou Olívia.

Malena levantou os olhos.

— Você sabe disso?

— Reconheço o procedimento. A Rede Ferraz alegou risco jurídico e falta de prova.

— Você participou?

— Eu não atendia a conta naquele mês.

Caio encostou no batente.

— Você autorizou a nota sobre atendimento imediato.

Malena fechou a câmera na mão e se virou para Olívia.

— A nota chegou aprovada — disse. — Eu permiti a distribuição.

— Quando?

— Uma semana depois da morte.

Malena recolheu a câmera e fechou o cofre.

— Vocês escolheram a versão mais de uma vez.

Ela foi embora levando cópias das fotografias e dos documentos. O cartão de memória permaneceu com Olívia. Antes de entrar no elevador, Malena entregou um pequeno cartão da oficina a Caio.

— Quando lembrar da conversa no casamento, ligue para mim. Lembrar depois que eu provar vale menos.

Caio guardou o cartão sem responder.

O apartamento ficou com cheiro de lírios e vapor. Olívia abriu as janelas, retirou as flores da mesa e as colocou na área de serviço. Caio encontrou no armário uma caixa com sobras do material da festa: marcadores de lugar, fitas, velas, uma cópia dos votos impressa em papel grosso.

— Você ainda quer cancelar? — perguntou ela.

— Quero contar à polícia.

— Hoje?

— Hoje.

— Com um cartão que contém quarenta e sete fotografias do casamento, uma imagem do pátio enviada por alguém morto e um depoimento assinado por nós dois?

— Com o áudio de Augusto.

Olívia não perguntou como ele sabia que o arquivo continuava no telefone. Caio acompanhara seus movimentos naquela manhã com atenção suficiente para perceber cada objeto omitido.

— O áudio também registra nossa escolha — disse.

— É justamente o que precisamos contar.

— Augusto esteve no prédio. Entraram aqui. Se entregarmos tudo sem copiar e mapear as pessoas envolvidas, ele recebe aviso antes que a polícia alcance o hotel.

— Você quer tempo outra vez.

— Quero quarenta e oito horas.

Caio pegou o paletó que usara no casamento, guardado numa capa ao fundo do armário. Sônia insistira em conservar a roupa para uma fotografia no aniversário. Ele passou a mão pela lapela e encontrou o furo onde a flor fora presa.

— Amanhã essas pessoas virão aqui repetir como nos conheceram, como eu chorei no altar, como você parecia calma — disse. — A gente vai servir vinho em cima de uma fotografia adulterada.

— Se cancelarmos horas depois de Malena aparecer, minha mãe liga para metade dos convidados. A outra metade trabalha comigo ou com você. Augusto saberá que reagimos.

— Então o almoço é vigilância.

— É tempo. E uma chance de ouvir Sônia diante das pessoas que participaram do casamento.

Caio devolveu o paletó ao armário.

— Quarenta e oito horas.

Olívia anotou o prazo no calendário: segunda-feira, meio-dia. Pela primeira vez, um limite do casal ficou escrito.

Na manhã seguinte, Sônia chegou com o bufê às dez. Tocou a campainha porque já não tinha chave. Trazia outra cópia do álbum e agia como se a conversa anterior tivesse terminado de forma satisfatória. Dois funcionários cobriram a mesa com linho claro, posicionaram as taças e montaram um painel de fotografias na sala.

Olívia examinou cada imagem. Sônia usara as versões corrigidas. Rebeca não aparecia em nenhuma.

— Tire o painel — pediu.

— É a história do casamento.

— Tire.

Sônia chamou os funcionários e mandou que levassem a estrutura para o corredor. Dez minutos depois, Olívia a trouxe de volta e a colocou perto da janela.

— O que você está fazendo? — perguntou Caio.

— Se Augusto estiver observando, quero que veja o álbum que conhece.

Ao meio-dia, a campainha tocou sem intervalo. Antes de abrir a porta, Olívia fotografou a sala inteira: posição do painel, cartões sobre a mesa, caixa de provas dentro do cofre. Malena receberia as imagens se qualquer objeto mudasse. Em seguida, guardou o telefone no bolso e recebeu os convidados com o sorriso que usava em lançamentos da Vértice.

Chegaram os pais de Caio, dois casais de amigos, médicos do São Gabriel, a sócia de Olívia e antigos clientes da Vértice. Cada pessoa trazia uma lembrança do casamento. Uma amiga contou que Caio perdera as alianças vinte minutos antes da cerimônia. O pai dele jurou que as encontrara no bolso do próprio paletó. Sônia corrigiu os dois: as alianças estiveram o tempo inteiro com o cerimonial.

Olívia ouviu as versões se sobreporem. O acontecimento era pequeno, cercado de testemunhas, e ainda assim ninguém concordava sobre a sequência.

Caio permaneceu perto do painel. Quando alguém elogiava as fotografias, ele olhava para a imagem corrigida da dança. Na camada visível, o arranjo de flores ocupava o lugar de Rebeca.

Durante o almoço, Sônia ergueu a taça.

— Há um ano, eu disse que casamento feliz exige que duas pessoas protejam a mesma história.

A mão de Caio deixou o joelho de Olívia sob a mesa.

— Você disse confiança — falou ele.

Sônia manteve a taça erguida.

— Confiança na história que constroem juntos.

A sócia de Olívia sorriu e comentou que aquela frase parecia saída de uma campanha. Os convidados brindaram. Caio apenas tocou a borda do copo na de Olívia.

Um médico do São Gabriel pediu a palavra. Contou que Caio entrara no plantão durante um incêndio e reorganizara a emergência antes mesmo de vestir o jaleco. Segundo ele, a serenidade do amigo fazia todos acreditarem que ainda havia tempo. Os colegas bateram palmas. Caio agradeceu com um movimento curto e bebeu água.

Olívia conhecia a história. O incêndio ocorrera na cozinha de um restaurante, e Caio recebera sete feridos em menos de quinze minutos. Durante meses, ele descrevera a noite como prova de que treinamento servia para impedir escolhas emocionais. Agora mantinha os olhos no guardanapo enquanto os convidados celebravam exatamente a qualidade que abandonara no pátio do hotel.

A sócia de Olívia contou outra história. Na primeira grande crise da Vértice, uma indústria tentara ocultar a contaminação de um rio. Olívia recusara a versão preparada pelo cliente, exigira a divulgação dos laudos e quase levara a empresa à falência.

— Foi quando entendi que ela jamais venderia uma mentira — concluiu a sócia.

Sônia apertou o ombro da filha. Fotografias foram feitas. Olívia sorriu até sentir a pele rígida nas bochechas. A nota sobre Rebeca tinha sido enviada do mesmo computador em que escrevera a denúncia da indústria. Ninguém à mesa conhecia as duas versões dela.

Quando o bolo chegou, Sônia distribuiu cartões nos quais cada convidado deveria escrever uma lembrança do casal. Uma amiga escreveu que Olívia chorara durante os votos. Ela lembrava os olhos secos e a preocupação com o microfone. Um colega de Caio afirmou que os dois escolheram juntos cada palavra da cerimônia; os votos haviam sido escritos separadamente e revisados por Sônia. A sócia registrou que Olívia desligara o telefone durante toda a lua de mel. No segundo dia, ela atendera três chamadas da empresa dentro do banheiro.

Cada cartão oferecia uma versão mais limpa que a experiência. Alguns registraram fatos; outros repetiram histórias ouvidas tantas vezes que acreditavam ter presenciado. Uma prima descreveu o primeiro encontro de Olívia e Caio num restaurante, embora estivesse viajando naquele mês. O pai de Caio escreveu que o filho escolhera o hotel da lua de mel. Olívia lembrava-se de ter recebido a indicação no contrato da Rede Ferraz.

Quando terminou de separar os cartões, havia três grupos sobre a mesa: testemunho, repetição, invenção. Caio observou a organização e virou para baixo o cartão do pai.

— Depois — disse ele.

— Foi você que escolheu o Mirante?

— Sua mãe trouxe três opções. Eu concordei com aquela.

Sônia chamou os dois para cortar o bolo antes que a conversa continuasse. Do outro lado da sala, o painel corrigido recebia a luz direta da janela. O arranjo inserido sobre Rebeca tinha uma borda mais nítida que as flores verdadeiras.

Às duas e quinze, um entregador trouxe uma caixa de madeira enviada pela Rede Ferraz. Dentro havia uma garrafa do mesmo vinho servido no casamento e um cartão assinado por Augusto.

Ao casal que sabe preservar o que importa.

Olívia guardou o cartão antes que Sônia o lesse. A garrafa tinha um lacre de cera com o emblema da meia-lua. Caio a levou para a cozinha e examinou o fundo contra a luz.

— Tem alguma coisa dentro — disse.

Sob o vidro escuro, um ponto metálico deslizava quando ele inclinava a garrafa. Caio removeu o lacre com uma faca. A rolha saiu sem resistência. Um cilindro fino estava preso à parte inferior por fio transparente.

Olívia usou uma pinça do estojo de primeiros socorros. O cilindro era um cartão de memória protegido por plástico. Tinha uma etiqueta: 22h17.

Na sala, os convidados pediam que o casal repetisse a dança. A música do casamento começou nas caixas de som. Sônia apareceu na porta da cozinha.

— Estão esperando vocês.

Olívia fechou a mão sobre o cartão.

— Já vamos.

Ela e Caio voltaram para a sala. Dançaram entre as mesas enquanto telefones se erguiam para filmar. Caio apoiou a mão em sua cintura no mesmo ponto da fotografia corrigida. Olívia contou os passos, consciente do cartão escondido na manga e das pessoas sorrindo ao redor.

Depois do último convidado sair, conectaram o arquivo num notebook sem rede. Havia apenas um vídeo de vinte e seis segundos. A imagem vinha da câmera acima da porta de vidro do salão.

Rebeca se aproximava de Caio e mostrava o envelope. O áudio começava no meio da fala.

— ...chegar à sua mulher antes que ele encontre.

Caio olhava para o salão.

— Entregue à Sônia. Ela está cuidando dos presentes.

— Já tentei. Ele fica perto dela.

Rebeca segurava o braço de Caio quando alguém surgia fora do quadro. Ele retirava a mão dela e tomava o envelope.

O vídeo terminava.

Olívia esperou que Caio dissesse que a gravação estava cortada, que a imagem omitia o que ocorrera antes ou depois. Ele permaneceu sentado diante da tela.

— Eu me lembro da flor — disse.

— Que flor?

— Ela derrubou a flor da minha lapela quando segurou meu braço. Eu fui ao banheiro prender outra.

— O que fez com o envelope?

Caio fechou o notebook.

— Entreguei a Augusto.

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