O pacto O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 6 de 15
Obra Menu

O pacto

A sirene parou no pátio. Caio abriu a porta da suíte no silêncio que se seguiu. Augusto permaneceu diante dela.

— A equipe precisa trabalhar — disse o administrador. — Vocês serão chamados para prestar esclarecimentos.

— Eu vou descer — respondeu Caio.

— Você já examinou a vítima e deixou uma orientação. Se aparecer agora com sangue nas mãos, terá de explicar a presença dela neste quarto antes que possamos preservar qualquer registro.

Caio tentou passar. Augusto não se moveu. A distância entre os dois diminuiu até Olívia enxergar o músculo tenso no maxilar do marido.

— Saia da frente.

— A polícia chegará depois do resgate. Minha obrigação é impedir que hóspedes circulem numa área isolada.

— Sua obrigação era chamar a ambulância às duas e trinta e oito.

Augusto consultou o relógio.

— Minha equipe informará que a queda foi percebida às duas e cinquenta e três. O chamado saiu quatro minutos depois. Se o senhor discordar, podemos entregar o vídeo da varanda e deixar que o delegado reconstrua o restante.

Olívia aproximou-se dos dois. O robe úmido colava em suas pernas. Pela abertura da porta, viu uma camareira parada junto ao carrinho no fim do corredor. A mulher fingia conferir toalhas, embora mantivesse o rosto voltado para a suíte.

— Feche a porta — disse Olívia.

Caio recuou.

Augusto entrou e girou a chave. Tirou do bolso um bloco de capa preta, abriu numa página em branco e colocou-o sobre a mesa.

— Antes de qualquer depoimento, preciso registrar a ocorrência interna. Vocês estavam dormindo quando ouviram um impacto no pátio. O doutor Ventura desceu para ajudar. A senhora Sampaio permaneceu na suíte.

Caio soltou uma risada curta, sem humor.

— E o sangue dela no tapete?

Augusto observou as manchas junto à varanda.

— A equipe de limpeza entrou durante a confusão e trouxe resíduos no calçado. É uma hipótese plausível, caso ainda exista algum vestígio quando a perícia chegar.

Ele foi ao corredor e chamou a camareira. A mulher entrou empurrando o carrinho. Tinha a mesma expressão ausente dos funcionários que haviam recebido o casal na tarde anterior. Augusto apontou para o gelo derretido, as marcas de sangue e o tecido rasgado.

— Vazamento do frigobar e taças quebradas — disse. — Troque o tapete. Recolha tudo em saco separado.

A camareira abriu o compartimento de produtos. Caio segurou a alça do carrinho.

— Ninguém toca nisso.

Ela parou. Augusto fechou o bloco.

— Então chamaremos a polícia agora e mostraremos a suíte como está.

Olívia pensou no cartão escondido dentro da mala. Entregá-lo podia levar a polícia ao quarto 306 e às câmeras. Também podia devolvê-lo a Augusto, que controlava funcionários, registros e passagens. Escondê-lo manteria a prova longe dos dois.

— Espere no corredor — disse Olívia à camareira.

A mulher olhou para Augusto. Ele assentiu. Quando a porta se fechou, Olívia pegou uma toalha no banheiro e a estendeu a Caio.

— Lave as mãos.

Ele não recebeu a toalha.

— Quer limpar o quarto com ela no pátio?

— Quero guardar o cartão e sair vivos daqui com uma chance de entender o que aconteceu.

— Ela caiu porque nós a seguramos.

— Ela caiu quando ele soltou o braço.

— Eu também soltei.

— Você perdeu a mão dela.

Caio olhou para a varanda. Na cortina fechada, a luz do abajur desenhava uma faixa amarela. A poucos passos dali, o tapete conservava o formato do joelho de Rebeca e a água do gelo espalhava o sangue por uma área maior.

— Às duas e quarenta e uma ela respirava — disse ele. — Às duas e quarenta e sete falou. Eu tinha um telefone. Você tinha outro.

Olívia colocou a toalha sobre a bancada.

— E você voltou comigo.

A frase os imobilizou. Augusto abriu novamente o bloco e escreveu a hora no alto da página.

Olívia lembrou a primeira briga em que Caio conhecera Sônia. A mãe chegara antes ao restaurante, escolhera uma mesa distante e preparado uma explicação para o atraso. Na saída, Caio dissera que a família de Olívia tratava conflito como vazamento: fechava a porta e depois decidia o que tinha acontecido.

Na suíte, ele aceitava a porta fechada porque a alternativa incluía Olívia. Ela aceitava porque a alternativa incluía Caio. Augusto precisava manter os dois dentro da mesma ameaça.

— O resgate saiu com a vítima — disse após ouvir o rádio. — Ela será levada ao Hospital Municipal. O quadro é grave.

Caio foi ao banheiro e abriu a torneira. A água ganhou uma cor rosada ao passar por seus dedos. Olívia o viu esfregar as mãos como fazia antes de uma cirurgia, palma, dorso, espaços entre os dedos, unhas. Nem a água cor-de-rosa o fez alterar a sequência.

Ela voltou à varanda. Encontrou o botão de madrepérola de Rebeca junto ao rodapé e o recolheu. Havia um fio azul preso nos furos. Guardou-o com o cartão no forro da mala. Em seguida, dobrou o pedaço maior do uniforme e o colocou no fundo do cesto de roupas do banheiro.

Caio fechou a torneira.

— Você está escondendo provas.

— Estou impedindo Augusto de levá-las.

— A perícia também deixa de encontrá-las.

— Escolha em quem confia.

Ele secou as mãos e tomou o celular dela. Abriu a gravação interrompida no pátio. O arquivo começava com o ruído abafado da parede, captava a entrada de Rebeca, a voz de Augusto do corredor, a corrida e parte da conversa depois da queda. Caio avançou até a frase em que Augusto garantia que a equipe já fora acionada.

— Isto prova que ele mentiu sobre a hora.

— Também grava Rebeca dizendo que veio falar comigo. Grava você perguntando onde estava a cópia. Grava nós dois aceitando voltar.

— Uma mulher está morrendo porque avaliamos reputação durante uma emergência.

— Ela ainda está viva.

Caio ergueu o celular.

— Então enviamos agora.

Augusto fez menção de intervir. Olívia tomou o aparelho antes que ele se aproximasse. O arquivo tinha vinte e nove minutos e um tamanho grande demais para o sinal instável do hotel. Havia Wi-Fi, porém a rede exigia novo login. Ela poderia sair ao corredor, procurar recepção, insistir até o envio terminar. Em vez disso, abriu as opções e transferiu a gravação para a pasta oculta do aplicativo.

— Fica conosco — disse. — Até sabermos quem mais está envolvido.

Caio reconheceu a decisão. Era o mesmo mecanismo que Olívia usava em crises de clientes: conservar o material, mapear os riscos, escolher a hora. A diferença estava na maca que acabara de sair do pátio.

— Você trabalha para a Rede Ferraz — disse ele.

— A Vértice trabalha. Eu vi esse contrato pela primeira vez esta semana.

— Rebeca conhecia você.

— Rebeca apareceu no nosso casamento. Talvez conhecesse nós dois.

— Ela disse “seu marido”.

— E perguntou se você sempre demorava quando sabia que alguém estava esperando.

Caio franziu a testa.

— Eu nunca a vi antes desta noite.

— Eu também nunca falei com ela.

Os dois sustentaram o olhar. Olívia quis acreditar no homem diante dela. Caio a encarava como se pedisse a mesma crença, sob condições idênticas. O pacto começou ali, antes de qualquer frase conjunta: cada um aceitou deixar uma pergunta para depois.

Augusto empurrou o bloco na direção deles.

— A polícia está subindo.

Olívia leu o registro. O texto dizia que, às 02h53, um hóspede não identificado avisara a recepção sobre uma pessoa caída; o administrador acionara o resgate às 02h57; Caio descera ao ouvir a movimentação e prestara primeiros socorros; Olívia permanecera no quarto. A camareira, chamada para um vazamento de gelo, encontrara o tapete molhado.

— Tire a parte do hóspede — disse Olívia. — Se ninguém aparecer, a versão cai.

Augusto riscou a linha.

— Coloque que um funcionário ouviu o impacto — continuou ela. — Alguém da manutenção, com acesso à área lateral.

Caio a encarou.

— Você está editando.

— Estou mostrando quanto controle ele tem da história.

Augusto escreveu “um funcionário em ronda”.

— O nome será informado após conferência da escala.

Olívia apontou para o trecho sobre Caio.

— Ele não desceu ao ouvir a movimentação. Viu luzes pela janela, perguntou à recepção e foi orientado a aguardar. Quando soube da queda, desceu para ajudar.

— Isso cria uma ligação — disse Augusto.

— Cria um médico agindo depois de informado. Se alguém o viu na escada, a sua versão atual o transforma em mentiroso.

Caio fechou a mão em torno da toalha. Olívia esperou que ele recusasse. Ele se sentou na beira da cama.

— Escreva que fui chamado às duas e cinquenta e três — disse. — Quando cheguei, ela tinha pulso e respiração espontânea. Orientei imobilização até o resgate.

Augusto registrou cada palavra.

— A senhora Sampaio ouviu alguma discussão? — perguntou.

Olívia escutou novamente as três pancadas lentas em sua memória, a corrente esticando, a voz de Rebeca. Podia sentir o cartão contra a palma, mesmo depois de guardá-lo.

— Ouvi a tempestade e o carrinho de serviço — respondeu. — Depois meu marido saiu.

Augusto fez um risco no papel e pediu que assinassem. Caio leu duas vezes. Olívia assinou primeiro. Ele olhou para a assinatura dela, pegou a caneta e escreveu o próprio nome logo abaixo.

Quando a polícia entrou, às 03h26, o tapete já havia sido retirado. A camareira deixara outro da mesma cor, ainda com as pontas erguidas. Um agente jovem fotografou a varanda e tentou abrir a porta do 306. Augusto explicou que o quarto estava interditado por infiltração e procurou a chave num molho pesado. Nenhuma serviu.

— A fechadura travou com a queda de energia — disse ele. — A manutenção abre pela manhã.

O delegado tomou os depoimentos separadamente. Caio foi levado ao pequeno salão de leitura. Olívia ficou na suíte com o agente jovem e Augusto, que trouxe café numa bandeja. Ela contou a versão do bloco: tempestade, barulho no corredor, Caio chamado para prestar auxílio. Quando lhe perguntaram se conhecia Rebeca Nogueira, disse que só aprendera o nome naquela madrugada.

— Ela entrou neste quarto? — perguntou o delegado pelo viva-voz.

Olívia olhou para o tapete novo.

— Não.

Do outro lado da parede, alguma coisa pesada foi arrastada no 306.

O agente ergueu o rosto.

— Achei que estivesse fechado.

Augusto serviu café para Olívia.

— Tubulação antiga. A pressão faz os móveis vibrarem.

Às 04h12, Caio voltou. O delegado conferiu as duas declarações lado a lado. As horas coincidiam. O chamado às 02h53, a descida, a orientação dada à funcionária, a ambulância às 02h57. A única diferença estava no lugar onde Caio deixara os sapatos. Ele disse que os calçara antes de descer; Olívia dissera que ele saíra descalço. Augusto explicou que a senhora estava abalada. O delegado fez uma anotação e seguiu adiante.

Pouco antes das cinco, um telefonema chegou ao celular do administrador. Ele ouviu em silêncio, agradeceu e desligou.

— Rebeca faleceu durante a transferência para a unidade cirúrgica — informou. — O hospital registrará traumatismo craniano decorrente da queda.

Caio se apoiou no encosto da cadeira.

— Que horas?

— Quatro e cinquenta e seis.

— Ela chegou consciente?

— Não tenho essa informação.

Caio saiu para a varanda. Olívia foi atrás dele. O céu começava a clarear sobre o mar, revelando telhados molhados e a faixa escura das ilhas. No pátio, dois funcionários lavavam as pedras com uma mangueira. O toldo rasgado já havia sido retirado.

— Temos de entregar o áudio — disse Caio.

— Entregaremos quando houver uma cópia segura do cartão.

— Você ainda pensa que existe uma maneira correta de administrar isto.

— Penso que Augusto espera uma reação precipitada. Se o cartão prova o que ela disse, ele tentou matar a prova durante anos. Precisamos sair do alcance dele.

— E se ela tivesse sido socorrida às duas e quarenta e uma?

Olívia olhou para os homens no pátio. Um deles esfregava a soleira onde Rebeca tocara a mão.

— Não sei.

— Eu sei. Cada minuto contava.

— Então por que voltou para o quarto?

Caio se virou. A pergunta chegara ao limite da defesa de ambos: se ele acusasse Olívia, teria de explicar por que voltara ao quarto; se ela o acusasse, teria de incluir a própria assinatura.

— Porque achei que estava protegendo você — disse ele.

— Eu achei a mesma coisa.

— De quê?

— De você conhecer Rebeca.

Caio soltou o ar, surpreso.

— Eu achei que ela conhecia você.

Na praia, um barco de pesca ligou o motor. Os dois permaneceram diante um do outro enquanto a explicação mais simples para o primeiro erro finalmente aparecia. Ela não apagava o atraso, a assinatura ou o tapete trocado.

— A partir de agora, nenhuma pergunta fica para depois — disse Olívia.

Caio estendeu a mão.

— A partir de agora, contamos tudo um ao outro antes de contar a qualquer pessoa.

Olívia segurou sua mão. O sangue já saíra da pele, e ainda havia uma linha escura sob a unha do polegar.

Eles deixaram o hotel às oito da manhã. Augusto providenciou um carro até o aeroporto e entregou um envelope com o relatório interno assinado. No carro, Caio repetiu os horários do documento. Olívia corrigiu duas palavras até ambos recitarem a sequência sem consultar o papel. Quando ele confundiu 02h53 com 02h52, ela pediu que recomeçasse.

A fotografia instantânea da chegada continuava presa ao espelho quando Olívia fechou a mala. No instante em que se virou para conferir o banheiro, a camareira entrou para recolher as últimas taças.

Em São Paulo, Olívia escondeu o cartão de memória no fundo de uma caixa de convites do casamento. Tentou abri-lo no computador do escritório dois dias depois. O sistema pediu uma senha e iniciou uma contagem de três tentativas. Ela fechou a janela na primeira.

Na semana seguinte, a Vértice distribuiu uma nota em nome da Rede Ferraz. “O Hotel Mirante do Sal lamenta profundamente o acidente envolvendo uma colaboradora e informa que prestou atendimento imediato, além de colaborar integralmente com as autoridades.” O texto chegou à caixa de Olívia já aprovado pelo diretor da conta. Ela reconheceu a construção das frases e pediu para saber quem fornecera as informações.

— O próprio cliente — respondeu a coordenadora. — Augusto Ferraz. Disse que você estava hospedada lá. Que coincidência terrível.

Olívia releu “atendimento imediato”. Poderia suspender a divulgação, relatar conflito de interesse, entregar o áudio. Autorizou o envio às redações às 11h03.

Caio soube da nota pela televisão da sala médica. À noite, perguntou se ela participara. Olívia respondeu que o texto passara por outra equipe. Ele aceitou a frase sem pedir acesso aos e-mails. Era a primeira pergunta deixada para depois sob o pacto que deveria impedir isso.

Um mês mais tarde, o inquérito concluiu que Rebeca se desorientara durante uma tempestade, acessara área restrita e caíra ao tentar atravessar entre varandas. O relatório mencionava consumo de álcool, embora o exame toxicológico viesse anexado sem resultado conclusivo. O quarto 306 aparecia como interditado. A câmera do pátio, como inoperante entre 02h31 e 02h53 por falha elétrica.

Olívia abriu a caixa de convites e tocou o cartão escondido. Caio estava no banho. Pensou em contar que a prova continuava com ela. Fechou a tampa antes que a água parasse.

No primeiro aniversário da viagem, a fotografia instantânea do hotel desapareceu do álbum da lua de mel. Restou um retângulo mais claro sob as cantoneiras e, no plástico da página, a marca de um polegar.

Olívia perguntou a Caio se ele a retirara. Caio perguntou por que ela guardaria uma imagem daquele lugar. Nenhum dos dois acreditou na resposta do outro.

Na manhã seguinte, o envelope pardo chegou ao apartamento.

1/1
Menu

Fazer anotação