A chave de serviço O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 11 de 15
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A chave de serviço

Renato envolveu o disco rígido numa toalha e o colocou dentro de uma caixa metálica. O estalo cessara, deixando no estúdio o cheiro leve de plástico aquecido. Malena retirou o cartão de memória da câmera antes de desligá-la. As fotografias da tela preservavam a sequência que Augusto tentara apagar.

— M-17 — disse Caio. — Era o cartão de Rebeca na suíte.

— Era o número no crachá de Vera — respondeu Olívia.

Renato guardou a caixa no armário onde mantinha negativos antigos. Malena pediu uma cópia das gravações externas e anotou a placa do carro que esperava do outro lado da rua desde a ligação. Quando saíram pelos fundos, o veículo já não estava lá.

Na oficina Luz de Prata, Malena abriu a documentação enviada por Davi. Entre os recibos havia uma planilha protegida, intitulada manutenção de fechaduras. A senha usada no cartão de Rebeca também abriu o arquivo.

A primeira aba listava quartos, trocas de bateria e falhas de leitura. A segunda reunia cartões mestres por número. M-04 aparecia atribuído à administração, sob assinatura de Augusto. M-17 pertencia à governança e tinha Vera Bastos como responsável. Havia ainda cartões de segurança, recepção e manutenção.

— Rebeca entrou na suíte com o cartão de Vera — disse Olívia.

— Ou com uma cópia — respondeu Malena.

Na terceira aba, Davi preservara o registro das fechaduras durante a semana da lua de mel. Os dados oficiais começavam às 03h01, depois da saída da ambulância. Um arquivo oculto continha as leituras anteriores.

Às 02h18, M-17 abrira a porta da escada de serviço no segundo andar. Às 02h19, M-04 entrara no quarto 306. Às 02h21, M-17 abrira a suíte 307. Às 02h25, o cartão de hóspede de Caio destrancara a porta do casal. Às 02h32, M-17 aparecia novamente na escada de serviço, agora no térreo.

— Rebeca estava conosco às duas e trinta e dois — disse Caio.

Malena conferiu a hora da fotografia feita na suíte. Rebeca aparecia ao lado da varanda às 02h34, com o cartão de memória na mão.

— O mesmo cartão estava em dois lugares — falou.

— Cópia — disse Olívia.

Às 02h39, M-17 abrira a porta do pátio. Um minuto depois, M-04 registrara acesso à cozinha desativada. Às 02h48, os dois cartões subiram pela escada de serviço. O M-04 chegou ao terceiro andar. O M-17 parou no segundo.

Caio aproximou o rosto da planilha.

— Vera ficou no pátio.

— E Augusto nos levou de volta — disse Olívia.

O registro confirmava movimentos que nenhum dos dois incluíra no depoimento. Também revelava uma terceira pessoa atuando antes da queda: alguém usara o original de Vera enquanto Rebeca carregava a cópia.

Malena abriu as propriedades do arquivo oculto. Davi preservara a planilha dentro de um pacote de diagnóstico elétrico e substituíra os nomes das portas por números de circuitos. A coluna de voltagem guardava a duração de cada abertura. A escada de serviço às 02h18 permanecera destrancada por onze segundos; a suíte 307, por quatro; o pátio, por um minuto e vinte.

Uma linha às 02h37 indicava queda de tensão no circuito da varanda. Caio conferiu o relatório antigo do hotel. A falha aparecia como oscilação causada pela tempestade.

— Foi quando liberaram o gradil — disse.

Às 02h50, um circuito identificado como cozinha sul fora desligado manualmente. Era o momento em que Jonas isolara a passagem e Augusto conduzia o casal de volta à suíte. Os horários mostravam que o sistema continuara sendo usado durante o intervalo que o hotel descrevera como pane geral.

Olívia criou uma cópia somente de leitura e anotou o método de Davi num arquivo separado. Lembrou-se dos relatórios de crise em que sua equipe transformava ações humanas em termos técnicos: falha, oscilação, inconsistência, indisponibilidade. Na planilha, Davi fizera o percurso inverso. Sob cada defeito elétrico, conservara uma porta aberta por alguém.

Malena procurou o histórico funcional de Vera. O último endereço ficava em Mangaratiba. Havia um telefone fixo desligado e uma ação trabalhista arquivada sob sigilo. Nos dados do processo, o advogado representava outros seis ex-funcionários da Rede Ferraz.

— Posso pedir ao advogado que encaminhe um contato — disse Olívia.

— Como sócia da Vértice? — perguntou Malena.

— Como pessoa citada nos registros.

— Diga que temos o M-17 — falou Caio. — Se Vera sabe da cópia, vai entender.

O advogado respondeu à mensagem duas horas depois. Não forneceu telefone nem endereço. Pediu um número seguro e disse que sua cliente decidiria se faria contato.

Às dezenove e quarenta, um telefone público ligou para Malena.

— Vocês abriram o arquivo errado no computador errado — disse uma mulher. — Augusto já sabe que Davi guardou os registros.

Malena colocou no viva-voz.

— Vera?

— Levem os cartões e o relatório interno para a rodoviária de Itaguaí amanhã, seis da manhã. Plataforma nove. Sem polícia.

— Rebeca usou sua chave — disse Caio.

A mulher ficou em silêncio.

— Rebeca morreu porque acreditou que uma cópia bastava — respondeu. — Se quiserem saber quem estava no corredor, cheguem antes do primeiro ônibus.

A chamada terminou.

Olívia enviou os relatos gravados a um advogado indicado por uma antiga professora, fora dos círculos da Vértice. O homem confirmou o recebimento e marcou uma reunião para segunda-feira. Escreveu que qualquer deslocamento deveria ser comunicado à polícia. Olívia leu a recomendação, arquivou e separou o cartão original do 306.

— Vamos avisar a Malena quando chegarmos — disse Caio.

— Ela vai conosco.

Malena já colocava documentos numa pasta impermeável.

— Rebeca era minha irmã. Vera pediu os cartões. Eu levo as cópias.

Saíram de São Paulo às três da manhã. Caio dirigiu. Malena ocupou o banco traseiro, cercada por caixas. Olívia levou no colo o álbum corrigido e a fotografia das 02h47. A rodovia estava vazia até a serra; depois, caminhões formaram uma fila lenta sob a neblina.

Durante a descida, passaram pelo posto onde Olívia e Caio haviam tomado café a caminho da lua de mel. A placa azul continuava acesa, e as mesmas mesas de plástico ocupavam a varanda. Na viagem anterior, Caio comprara dois cafés e escrevera no guardanapo três promessas para o casamento: falar antes de supor, pedir ajuda antes de decidir pelo outro e voltar para casa depois de toda briga.

O guardanapo ficara meses preso à geladeira do primeiro apartamento. Sônia o substituíra por uma cópia plastificada antes de uma festa, alegando que a gordura manchava a porta. Olívia guardara o original numa caixa, embora já não soubesse onde.

— Você lembra do que escreveu naquele posto? — perguntou.

Caio manteve os olhos na faixa branca.

— Lembro da primeira.

— Nós quebramos as três naquela noite.

Malena não participou da conversa. Fotografava os lacres das caixas sempre que o carro parava, registrando a viagem como continuação da cadeia de prova.

Às cinco e cinquenta e dois, chegaram à plataforma nove. Vera esperava junto a um ônibus para Angra dos Reis. Usava boné, máscara e uma jaqueta larga. Era a mulher que ficara com Rebeca no pátio e depois empurrara o carrinho de limpeza até a suíte.

— Mostrem o M-17 — pediu.

Olívia retirou o cartão do envelope pardo. Vera examinou o risco na borda e devolveu.

— É a cópia de Rebeca. Davi fez duas. Uma abria o 306; a outra, as portas de serviço. Augusto nunca percebeu porque o sistema registrava tudo no meu nome.

Vera contou que conhecera Rebeca durante uma auditoria de enxoval. O hotel registrava lençóis descartados em quartos que permaneciam vazios, e Rebeca insistira em contar peça por peça. Durante três noites, as duas abriram sacos de lavanderia e encontraram cabos, baterias e embalagens de lentes escondidos entre toalhas condenadas.

— Eu mandei que ela esquecesse — disse Vera. — Tinha uma filha de doze anos e precisava do emprego. Rebeca respondeu que esquecer era o trabalho que Augusto pagava a todo mundo para fazer.

Davi criou o primeiro M-17 depois que Vera perdeu o cartão durante um turno. Rebeca encontrou a cópia na oficina e percebeu que o sistema não distinguia original de clone. Passou a usá-la para entrar no 306 quando Augusto saía. Vera descobriu e ameaçou contar. Na semana seguinte, viu na tela uma hóspede sendo filmada enquanto trocava de roupa.

— Foi quando entreguei a segunda chave — continuou. — Eu escolhia os horários em que a governança constava num andar e Rebeca entrava por outro. Davi escondia os acessos na manutenção elétrica.

Vera contou que Rebeca levava um rolo de etiquetas azuis e outro vermelho. Marcava os cabos sem desconectá-los, fotografava a posição e devolvia poeira às superfícies tocadas para que Augusto não percebesse a entrada. Em três meses, identificou câmeras em vinte e seis quartos. Depois começou a relacionar datas de hospedagem com crises que apareciam nos jornais.

Na última semana, Davi descobriu uma rotina que copiava automaticamente os vídeos da 307 para um servidor externo. Rebeca concluiu que Augusto preparara a suíte antes da chegada do casal.

— Ela queria avisar vocês no primeiro dia — disse Vera. — Eu pedi que esperasse. Jonas revistava os funcionários e Augusto mantinha alguém no 306 o tempo inteiro.

— Foi você que passou com o carrinho na segunda madrugada? — perguntou Olívia.

— Fui. Rebeca estava dentro do 306 copiando o índice. Quando vocês bateram, eu tirei vocês do corredor.

— E a ligação às duas e cinco?

— Rebeca usou o ramal da governança. Perguntou se a fotografia continuava no lugar. Jonas ouviu e mandou o balde de gelo para tirar Caio da suíte.

Caio abaixou os olhos. O trajeto até o gelo havia sido aberto por pessoas que acompanhavam cada resposta.

— Quantas pessoas sabiam? — perguntou Malena.

— Sabiam de partes. Camareiras viam equipamentos. Técnicos instalavam cabos. Segurança recolhia gravações. Augusto fazia cada um acreditar que o resto era procedimento da rede.

Rebeca tentara construir uma lista. Começou com funcionários demitidos depois de presenciarem câmeras, hóspedes abordados por intermediários e pagamentos descritos como compensação de privacidade. Vera guardou nomes num livro de receitas; Davi, nos arquivos elétricos. Nenhum deles conservava o quadro inteiro.

— No casamento, eu fui para ajudar Rebeca a retirar o envelope se Augusto percebesse — disse Vera. — Quando Caio entregou a ele, entendi que o plano tinha acabado. Rebeca continuou porque acreditava que Olívia ainda podia receber outra cópia no hotel.

Caio ficou imóvel diante dela.

— Você me viu entregar.

— Vi. Também vi Augusto mandar esconder as alianças e criar o problema do vinho. Vocês foram cercados por distrações. Ainda assim, o envelope passou pela sua mão.

Caio assentiu. Vera não usou a preparação de Augusto para retirar a responsabilidade dele.

— Você estava no corredor às duas e trinta e dois — disse Caio.

— Eu desci pela escada para abrir o pátio. Rebeca tinha combinado fugir pela cozinha se conseguisse entregar o arquivo.

— Sabia que ela entraria na nossa suíte? — perguntou Olívia.

— Sabia que procurava você. Ela já tentara no casamento.

Malena abriu a pasta com as planilhas.

— Por que não contou isso depois da morte?

Vera olhou para os ônibus estacionados.

— Augusto tinha imagens minhas retirando equipamentos do 306. Também sabia onde minha filha estudava. Prometeu que Rebeca seria atendida e que a polícia receberia tudo. Quando percebi que a ambulância ainda não tinha sido chamada, vocês já estavam no pátio.

— Você ficou com ela — disse Caio.

— Você me ensinou a segurar o rosto. Eu fiz o que mandou.

— Disse que era enfermeira.

— Augusto disse. Eu trabalhei seis meses como auxiliar num asilo. Nunca fui enfermeira.

O primeiro ônibus encostou na plataforma. Passageiros formaram uma fila, obrigando os quatro a se aproximarem da parede.

— Rebeca falou alguma coisa depois que saímos? — perguntou Olívia.

Vera retirou do bolso uma folha dobrada. Era a cópia de uma declaração escrita três dias após a morte e jamais anexada ao inquérito.

— Ela abriu os olhos uma vez. Disse “gaveta vermelha” e “a mulher já tem a primeira parte”. Eu achei que falava de você.

Malena leu o documento.

— Quem mais estava no corredor?

— Jonas Moraes, chefe da segurança. Ele seguiu Rebeca do 306 até a suíte. Foi a sombra que vocês viram na varanda com Augusto.

— Havia dois homens no quarto ao lado? — perguntou Caio.

— Augusto estava na varanda. Jonas ficou na porta do corredor técnico. Quando Rebeca caiu, ele desceu pelo elevador de carga e isolou a cozinha.

— O registro dele não aparece — disse Olívia.

— S-09. Cartão de segurança. Procurem na aba que Davi chamou de energia. Jonas usava o sistema elétrico para abrir portas sem lançar número de quarto.

Malena encontrou a aba no notebook. Linhas apresentadas como oscilações de tensão correspondiam a aberturas manuais. Às 02h17, S-09 acessara o 306. Às 02h37, a porta da varanda fora liberada. Às 02h50, o corredor técnico fechara por dentro.

— Jonas ainda trabalha no hotel? — perguntou Caio.

— Virou gerente de segurança da rede. Está no Mirante esta semana.

Vera abriu a bolsa e entregou a Olívia uma chave comprida, de metal escurecido. Não tinha número, apenas uma meia-lua gravada perto dos dentes.

— A fechadura eletrônica do 306 foi trocada. Esta abre a passagem de serviço atrás da rouparia. Davi manteve uma cópia quando instalou o sistema.

— O que ainda existe lá dentro? — perguntou Malena.

— Augusto desmontou as câmeras visíveis. O servidor auxiliar ficou na parede porque retirava energia da ala inteira. Rebeca escondeu uma gaveta vermelha no móvel de controle.

— Você viu?

— Ajudei a fechar o fundo falso.

Vera olhou para o relógio da plataforma. Um homem de camisa bege acabara de entrar pelo portão e fingia consultar os horários.

— Preciso ir.

Malena segurou seu braço.

— Venha conosco à polícia.

— Depois que encontrarem a gaveta. Sem o arquivo, minha declaração vira a palavra de uma camareira que limpou a cena.

Ela entrou no ônibus para Angra. O homem de bege acelerou o passo. Caio se colocou diante da porta até o motorista fechar. O veículo saiu da plataforma levando Vera e metade dos passageiros ainda procurando lugar.

O homem parou perto deles. Tinha um rádio preso à cintura, escondido sob a camisa.

— O doutor Ventura? — perguntou.

Caio não respondeu.

O homem sorriu e apontou para o álbum nas mãos de Olívia.

— O senhor Ferraz pediu que avisassem antes de chegar ao hotel. Ele gostaria de preparar o quarto de núpcias.

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