O que Rebeca sabia O Segredo da Lua de Mel · Capítulo 13 de 15
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O que Rebeca sabia

Augusto ligou o primeiro monitor. A imagem do pátio apareceu sem som, marcada com 02h38. Rebeca atravessava o quadro depois de romper o toldo e caía sobre as pedras. A gravação seguia por três segundos e voltava ao início.

— Abra a porta — disse Caio.

A voz veio pelo alto-falante.

— A polícia já foi informada de que três hóspedes invadiram uma área técnica, destruíram equipamento e subtraíram arquivos privados.

Malena segurou a gaveta contra o corpo.

— Arquivos de pessoas filmadas dentro dos quartos.

— A senhorita Nogueira herdou o hábito da irmã de confundir cópia com autorização.

No monitor, a queda repetiu. Olívia examinou o conjunto de chaves retirado da gaveta. Havia sete modelos, cada um marcado com fita colorida. Um tinha barbante vermelho preso ao furo.

Um segundo monitor acendeu sozinho. Mostrava o corredor diante da porta, com Jonas no elevador de serviço e dois seguranças subindo pela escada. No canto da tela, um contador descia de quatro minutos. Olívia procurou entre os cabos algum sinal de bateria e encontrou uma caixa cinza presa sob a bancada. Augusto preparara a interrupção da energia como parte do cerco. Mesmo se desligassem o quadro, as câmeras continuariam transmitindo até o fim da carga.

Caio aproximou o ouvido da parede. O ruído de passos vinha de dois lados.

— A passagem que usamos termina na rouparia — disse. — Se Jonas entrar por ali, ficamos entre ele e a porta principal.

Malena abriu o caderno vermelho numa página marcada por um clipe. Havia um desenho simplificado do 306, três setas e a palavra vermelho escrita junto ao armário elétrico.

— Rebeca deixou uma saída — disse.

Olívia voltou os olhos para a imagem da queda. A repetição fazia o corpo de Rebeca obedecer a um comando, surgir no alto, atravessar o toldo e retornar à varanda. Augusto queria reduzir a noite a um movimento inevitável. O desenho no caderno devolvia a Rebeca uma ação tomada antes de morrer.

— A chave de Anselmo — disse Malena.

— Ele falou em armário.

Caio testou a chave vermelha numa porta estreita atrás do servidor. A fechadura girou, revelando um quadro elétrico e uma abertura grande o suficiente para um braço. Dentro havia disjuntores, cabos e uma alavanca mecânica identificada como liberação de emergência.

— Se desligarmos, a ala inteira perde energia — disse ele.

— E as fechaduras liberam — respondeu Olívia.

Augusto ouviu.

— A senhora sabe que uma queda de energia apagará o restante da cópia.

Malena verificou o disco sob a camisa. Quarenta por cento do servidor já estava preservado. A gaveta continha dois cartões e o caderno. O que faltava podia incluir a gravação integral.

— Ele quer que escolhamos de novo — disse Caio.

— Desta vez sabemos o que está do outro lado — respondeu Olívia.

Ela puxou a alavanca.

Os monitores apagaram. O servidor emitiu um ruído descendente, e a luz de emergência tingiu o quarto de vermelho. No corredor, portas eletrônicas começaram a apitar. Caio empurrou a saída técnica. A trava cedeu alguns centímetros, presa ainda por uma corrente colocada do lado de fora.

Malena encontrou no conjunto uma chave curta. Ajoelhou-se junto à fresta, passou a mão e alcançou o cadeado da corrente. Alguém correu pelo corredor. A chave entrou na segunda tentativa.

Quando a porta abriu, Jonas estava no fim da passagem com uma lanterna e um rádio. Caio fechou o corpo entre ele e as mulheres. Jonas não avançou. Apertou o botão do rádio.

— Estão saindo pelo corredor sul.

Olívia acionou o alarme de incêndio. Uma sirene ocupou a ala, seguida por portas abrindo e hóspedes perguntando o que acontecia. Os três entraram no salão junto com funcionários e famílias retiradas dos quartos. Malena manteve a gaveta escondida sob uma manta de emergência retirada do armário.

Augusto apareceu na escada principal.

— Houve uma falha elétrica — anunciou. — Pedimos que todos sigam para o jardim.

Olívia ergueu o telefone e começou a filmar.

— O quarto 306 contém câmeras ligadas às suítes — disse alto o suficiente para os hóspedes próximos ouvirem. — Verifiquem detectores de fumaça, espelhos e telefones. Chamem a polícia pelo próprio aparelho.

Um homem de pijama perguntou se ela estava acusando o hotel. Uma mulher voltou na direção do quarto para buscar os filhos. Funcionários tentaram orientar a saída, e a ordem de Augusto se desfez em vozes diferentes.

Uma senhora de cabelos molhados arrancou da parede do corredor um detector de fumaça que piscava com uma luz azul. Debaixo da tampa havia uma lente apontada para a cama. O marido colocou o aparelho sobre a mesa de jantar, ao lado dos pratos abandonados, e exigiu que alguém chamasse um delegado de outra cidade.

Uma recepcionista ergueu o telefone fixo.

— A linha externa está bloqueada.

Olívia mostrou a tela de seu celular, ainda transmitindo para o advogado.

— Usem a rede móvel. Gravem o número do quarto antes de tocar em qualquer aparelho.

As pessoas começaram a dizer números em voz alta. Duzentos e oito. Trezentos e doze. Cento e dezenove. Um hóspede filmava a porta; outro fotografava o detector; uma funcionária anotava nomes num guardanapo. A emergência que Augusto tentara conduzir ganhou dezenas de registros independentes.

Malena puxou a manta sobre a gaveta. A imagem trouxe a Olívia a lembrança do casamento, quando Sônia recolhera telefones de uma mesa antes do brinde porque queria todas as lentes voltadas para o casal. Naquela noite, bastara controlar o ponto de onde as fotografias seriam feitas. No salão do hotel, cada câmera pertencia a uma pessoa diferente.

Jonas alcançou o salão e segurou o braço de Malena. Caio afastou sua mão. Os dois se chocaram contra uma mesa. Taças caíram. Hóspedes filmaram.

— Ela está roubando documentos — gritou Jonas.

Malena retirou o caderno vermelho da gaveta e o ergueu.

— Isto pertencia a Rebeca Nogueira. Foi escondido no quarto onde vocês a perseguiam.

O nome produziu reconhecimento entre funcionários antigos. Anselmo apareceu perto da porta do jardim e confirmou que vira Rebeca entrar no corredor técnico. A camareira que deixara o bilhete apontou para a câmera sobre o salão.

— Essa também grava áudio — disse.

Outros funcionários começaram a falar. Um cozinheiro indicou a passagem atrás do armário de incêndio. Uma recepcionista disse que os cartões mestres eram usados fora da escala. Augusto tentou interromper, porém cada frase atraía mais telefones.

A polícia chegou quinze minutos depois. Olívia entregou o recibo dos quartos, a confirmação da reserva, a mensagem programada ao advogado e o vídeo da descoberta do 306. O delegado local pediu a gaveta. Malena recusou até a chegada de seu advogado e permitiu apenas que fotografassem o lacre improvisado.

O delegado tratou Augusto pelo primeiro nome e perguntou se a central ainda guardava imagens de segurança. Malena endireitou as costas ao ouvi-lo usar o nome. Sentou-se sobre a gaveta enquanto aguardava o advogado, mantendo as duas mãos apoiadas na manta. Quando um agente pediu que ela assinasse uma entrega sem inventário, exigiu que cada cartão, página e envelope aparecesse numa lista.

— Minha irmã morreu depois de confiar uma prova a este hotel — disse. — Eu entrego quando houver recibo, câmera e testemunha.

O agente iniciou a contagem. Vinte e três envelopes, dois cartões, quatro chaves, um caderno vermelho e um disco parcial. Caio filmou a leitura. Olívia enviou o arquivo ao advogado antes que o telefone voltasse a perder sinal.

Augusto apresentou uma ordem interna segundo a qual o 306 funcionava como central de segurança autorizada. Alegou que as imagens protegiam hóspedes e eram apagadas após setenta e duas horas. Quando um policial entrou no quarto, encontrou cabos, envelopes com nomes e telas desligadas. Lacrou o espaço.

Jonas foi levado para prestar depoimento depois que a câmera de um hóspede registrou a tentativa de tomar a gaveta. Augusto permaneceu no hotel. Explicou que era administrador, colaborava com a investigação e não representava risco imediato.

Às três da manhã, Olívia, Caio e Malena foram liberados. O advogado os levou a uma pousada do outro lado da baía. Guardou a gaveta num cofre portátil e fez três cópias do disco parcial.

Malena abriu o caderno de Rebeca na mesa do quarto. As primeiras páginas começavam dois anos antes da queda. Havia números de quartos, nomes abreviados, horários de limpeza e desenhos dos equipamentos. Cada anotação vermelha correspondia a algo que Rebeca presenciara; as azuis, a um registro copiado.

Ela documentara vinte e oito hóspedes filmados sem consentimento. Onze foram abordados depois por pessoas ligadas a empresas de segurança, escritórios de crise ou intermediários sem contrato formal. Quatro perderam cargos. Dois pagaram quantias descritas como consultoria. Uma mulher desistiu de denunciar depois que fotografias do filho chegaram à sua casa.

Olívia reconheceu oito casos atendidos pela Vértice.

O primeiro era o de uma diretora de laboratório fotografada com a namorada numa suíte de Angra. A crise chegara à Vértice como ameaça de vazamento feita por um ex-funcionário. Olívia recomendara afastamento temporário, discurso sobre privacidade e negociação reservada com o denunciante. Lembrou-se da mulher apertando o copo de água durante a reunião e repetindo que nenhum colega conhecia a viagem. O relatório final dizia que a origem das fotografias permanecia indeterminada.

O segundo nome pertencia a um vereador encontrado com dinheiro em espécie. A equipe tratara a imagem como registro feito por um acompanhante. O enquadramento no caderno revelava a borda escura de um espelho do Mirante. Augusto contratara a Vértice em nome de um grupo empresarial que desejava pressionar o vereador numa votação de zoneamento.

O terceiro caso fora recusado por Olívia. Um pescador que liderava uma associação contra a expansão de uma marina recebera fotografias do filho numa festa. A Rede Ferraz queria que a consultoria apresentasse o rapaz como traficante. Olívia devolvera o contrato depois de uma reunião de vinte minutos. Durante anos, usara essa recusa como prova de que estabelecia limites. Rebeca encontrara a mesma decisão e a transformara em ponto de entrada.

— Ela acompanhou o que aconteceu depois de cada reunião — disse Olívia. — Nós encerrávamos o arquivo quando a repercussão diminuía. Ela continuava seguindo a pessoa.

Malena virou uma página. Rebeca registrara ligações feitas meses depois, mudanças de emprego, processos retirados e relações familiares atingidas. Ao lado de cada nome, deixara um quadrado vazio. Alguns tinham uma marca diagonal.

— Isto era o jeito dela de separar contato de confirmação — explicou. — Quadrado vazio significava que encontrou a pessoa. O risco significava que ouviu a história dela.

Havia dezessete riscos.

— Meu escritório recebeu as consequências — disse. — Augusto já tinha o material antes de cada cliente procurar ajuda.

— A Vértice sabia? — perguntou Malena.

— Algumas pessoas podiam saber. Eu nunca vi uma origem comum.

O caderno mostrava que Rebeca fizera a mesma pergunta. Ao lado de cada crise havia o nome da consultoria contratada. A Vértice aparecia com frequência, embora outras empresas também estivessem listadas. Rebeca não concluíra que a consultoria integrava o esquema. Escrevera: Olívia Sampaio recusou cliente do rio. Pode ouvir antes de proteger.

Olívia leu a frase duas vezes. Rebeca conhecia a história da indústria contaminante contada durante o almoço de aniversário. Buscara uma decisão antiga como prova de caráter.

— Foi por isso que me escolheu — disse.

— Ela pesquisou você durante meses — respondeu Malena. — Queria encontrar alguém dentro da cadeia de resposta que ainda pudesse quebrá-la.

Nas páginas seguintes, Rebeca reconstruíra o casamento. Anotara que Augusto supervisionaria câmeras e que Sônia centralizava presentes. Planejara três tentativas: entregar o envelope a Olívia antes da cerimônia, durante o bolo ou por intermédio de Caio. As três falharam.

Depois veio o hotel. Rebeca escrevera sobre a cópia M-17, a colaboração de Vera e Davi, a gaveta vermelha e o servidor auxiliar. A última sequência descrevia o plano para entrar na suíte 307 às 02h21, entregar o cartão e sair pela cozinha.

— Ela sabia que estávamos hospedados ali — disse Caio.

— Augusto mudou vocês para a 307 depois da reserva — falou Malena. — Rebeca anotou a troca.

O casal deveria ocupar a suíte 204. Quatro dias antes da chegada, Augusto ofereceu um upgrade e colocou-os ao lado da central. Rebeca viu a alteração e decidiu usar a proximidade.

— Nós éramos observados desde o primeiro dia — disse Olívia.

— E avaliados antes — respondeu Caio, tocando o envelope com seu histórico.

No fim do caderno havia uma lista intitulada Se eu não voltar. Davi receberia os registros de porta. Vera guardaria a chave. Anselmo entregaria o barbante vermelho. Malena ficaria com o original.

— Ela escreveu “original” três vezes — disse Malena. — Eu não recebi arquivo nenhum.

Olívia examinou a fotografia das irmãs na praia. Rebeca segurava uma concha; Malena, o caderno amarelo usado para provar os furtos do pai. A anotação no verso dizia que Rebeca guardava provas desde criança.

— O original pode ser o primeiro caderno — disse.

Malena tinha o caderno amarelo na oficina. Usara a imagem para encontrar a senha, porém nunca examinara a encadernação. Ligou para uma vizinha e pediu que buscasse a caixa antes de qualquer pessoa entrar no imóvel.

Enquanto a vizinha atravessava a cidade, Malena contou como o caderno surgira. Tinha oito anos quando quarenta e sete reais desapareceram do caixa da mercearia de seu tio. O pai das meninas aparecera naquela tarde com sorvete, pilhas e um pacote de figurinhas. Rebeca, então com cinco anos, guardou os preços numa folha de propaganda. Durante a semana, pediu ao balconista que repetisse quanto faltara e conferiu os produtos dentro da sacola do pai.

A mãe encontrou as duas no chão da cozinha, cercadas por moedas e recibos. Costurou o dinheiro recuperado na capa do caderno para impedir que o marido o tomasse outra vez antes da devolução. Rebeca acrescentou à primeira página uma coluna chamada o que ele disse e outra chamada o que aconteceu.

— Ela ainda escrevia devagar — disse Malena. — As letras ocupavam dois quadrados. Eu achava que o caderno era meu porque fui eu que fiz a capa amarela. A ideia de guardar versões separadas era dela.

Caio olhou para o caderno vermelho aberto entre os três.

— Ela fez isso a vida inteira.

— Fez até encontrar gente com dinheiro suficiente para apagar a segunda coluna.

Enquanto esperavam, abriram os cartões da gaveta. O primeiro continha fotografias e planilhas já conhecidas. O segundo guardava trechos de áudio gravados no 306. Um diretório tinha o nome de Rebeca.

Sua voz começava sem apresentação.

— Se isto chegar à Lena, significa que perdi o cartão ou que alguém decidiu por mim. O arquivo principal está onde aprendemos que prova precisa ter peso. A senha é a coisa que nosso pai nunca conseguiu devolver.

Malena fechou os olhos.

— O dinheiro da mercearia.

— Onde guardaram? — perguntou Caio.

— No fundo do caderno. Minha mãe costurou as notas recuperadas dentro da capa para devolver ao dono.

A vizinha chegou à oficina ao amanhecer e iniciou uma chamada de vídeo. Abriu a caixa, retirou o caderno amarelo e mostrou a lombada. Havia pontos de linha mais novos que o papel.

Malena orientou que cortasse apenas três. De dentro da capa saiu uma tira de plástico preto, fina como um negativo. Era um cartão de memória sem marca.

— Não conecte — pediu Malena. — Coloque num envelope e leve ao advogado.

A gravação de Rebeca continuava.

— O principal tem imagens, nomes e as sequências sem cortes. Também tem a noite do casal. Se Olívia recebeu a primeira parte, ela vai precisar escolher entre administrar a verdade e contar o que fez. Caio vai querer salvar alguém quando já for tarde. Lena vai querer me salvar. Diga a ela que pare.

Malena interrompeu o áudio.

Por alguns minutos, ninguém falou. Rebeca previra as respostas dos três sem transformá-las em absolvição. Preparara caminhos porque sabia que talvez não estivesse presente para conduzi-los.

O telefone de Olívia começou a vibrar. Havia vinte e três mensagens, chamadas da Vértice e um link enviado por sua sócia.

O título do vídeo dizia: Sócia de consultoria impede socorro a funcionária durante lua de mel.

Augusto publicara primeiro.

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