Cena I
CENA IPlácido, Prudêncio, Leonídia e Afonsina, que observa curiosa uma caixa que está sobre uma cadeira, e a porta da sala do fundo que se acha fechada.
Plácido – Ela já
nem pode disfarçar a curiosidade que a atormenta; tem andado em volta da caixa
mais de quatro vezes.
Leonídia –
Coitadinha! Aquilo é tão natural na sua idade...
Prudêncio –
Acrescente-lhe: e no seu sexo... Nunca vi pais tão desfrutáveis!
Plácido – Agora lá vai ela direitinha
olhar pelo buraco da fechadura da porta: então que disse eu?...
Leonídia –
Faz-me pena vê-la assim martirizando-se.
Plácido – É para
que no fim ainda mais agradável e completa lhe seja a surpresa.
Prudêncio – E
vocês acham muito bonito o que está fazendo minha sobrinha?...
Plácido – Então
que lhe acha, senhor tenente rabugento?...
Prudêncio –
Nada: apenas uma comédia em que uma sala trancada e uma caixa fechada fazem
lembrar o pomo vedado, e em que Afonsina representa o papel de Eva e minha irmã
e meu cunhado o da serpente tentadora ou do diabo, que é a mesma coisa.
Leonídia – Este
meu irmão tem lembranças felizes!
Prudêncio –
Vocês hão de acabar por perder completamente aquela menina! O senhor meu
cunhado com as idéias que trouxe da sua viagem à França e a senhora minha irmã
com a sua cegueira de mãe extremosa, deram-lhe uma educação como se a quisessem
para doutora de borla e capelo: fizeram-na aprender tudo quanto ela podia
ignorar, e a deixaram em jejum a respeito do que devia saber. Assim, minha
sobrinha dança melhor do que as bailarinas do teatro de S. João; toca o seu
cravo a ponto de admirar ao padre José Maurício: canta e gorjeia que parece um
dos italianos da capela real; conversa com os homens como se eles fossem
mulheres; é capaz de discutir sobre teologia com Frei Sampaio, e sobre arte
militar com o general Corado; mais se lhe perguntarem como se toma ponto a uma
das meias, como se prepara um bom jantar, como se governa uma casa, espicha-se
completamente: eu até aposto que ela não sabe rezar.
Leonídia –
Afonsina é um tesouro de talentos e de virtudes, e você na passa de uma má
língua.
Prudêncio – Oh!
Pois não! Nem os sete sábios da Grécia lhe dão volta! Ela faz versos como o
defunto padre Caldas; fala em política e é tão eloqüente como o Antônio Carlos;
é tão revolucionária como o Barata... Não sei por que ainda não quis se
deputado às cortes!...
Havemos de lá chegar: creio, porém, que
já escreve seus artigos para o Reverbero,
e que para isso está de inteligência com o Ledo e o padre Januário: até bem
pode ser que vocês já a tenham feito pedreira livre, e que a menina fale com o
diabo à meia-noite.
Afonsina (Vem à frente) – Minha mãe...
Leonídia – Que
tens, Afonsina? Pareces-me triste...
Plácido – É verdade, minha filha: que
quer dizer esse ar melancólico no dia dos teus anos, e quando te preparamos uma
bela festa?...
Afonsina – É que
...eu...meu pai, eu não posso mais...
Prudêncio – Talis arbor, talis fructus! De um casal
sem juízo na podia nascer senão uma doidinha.
Leonídia – Mas
que te falta, dize?
Afonsina – Ah!
Minha mãe, aquela sala e esta caixa atormentam-me, exasperamme...
Prudêncio –
Andem depressa...andem...satisfaçam a curiosidade da menina, antes que ela
arranje algum faniquito.
Plácido – E que
tens que ver com aquela sala e com essa caixa?...
Afonsina – É uma
curiosidade bem natural: esta caixa, que está fechada, talvez contenha algum
objeto interessante, e aquela porta, que e sempre esteve aberta e que hoje
amanheceu trancada, encerra necessariamente algum mistério, e portanto...
Prudêncio –
Vamos à conseqüência, que há se ser sublime!...
Afonsina – A
conseqüência, meu tio?... Ei-la, aí vai:Deixar de ser curiosa Por certo
não está em mim:É pecado feminino, Por força
hei de ser assim.
O que em todas se perdoa, Também
se desculpe em mim: Mamãe sabe que as mulheres São todas, todas assim.
Mamãe,
aquela caixa,Papai,
aquela sala,Encerram
um segredoQue
o meu sossego abala.
JuntamenteAfonsina — Saber
desejoO
qu’ali’stá;Eu sou teimosa, Sou curiosaSou
caprichosa,Sou
ardilosa,Serei
vaidosa;Mas
não sou má.
Plácido e Leonídia — Ninguém lhe digaO
qu’ali’stá;Será
teimosaE
curiosa,E
caprichosa, E ardilosa;Será
vaidosa:Mas
não és má.
Prudêncio — Ninguém lhe digaO
qu’ali’stá;Tu
és teimosa E curiosa,E
caprichosa,E
ardilosa,Muito vaidosa, E também má.
Não
foras tu mulher, minha rica sobrinha!
Afonsina – Meu
tio, não é muito que eu tenha um defeito que é comum nas mulheres, quando falta
à vossa mercê uma das primeiras virtudes dos homens.
Plácido –
Afonsina!
Prudêncio –
Deixem falar a retórica; diga lá, minha senhora: qual é então essa virtude que
me falta?
Afonsina – É a
coragem, meu tio.
Prudêncio – Ora,
fico-lhe muito obrigado! Sou um grandíssimo poltrão, porque não entro em
revoluções nem em bernardas, e guardo a minha espada de tenente de ordenanças
para as grandes crises e os momentos supremos?
Afonsina – Então
é bem para recear que a sua espada fique eternamente na bainha.
Prudêncio – Pode
fazer o favor de dizer por quê?
Afonsina – É bem
simples: é porque vossa mercê nem considera momento supremo aquele em que se
trata da regeneração e da independência da pátria. Prudêncio – E eu creio que era mais próprio da senhora ocupar-se
com bilros e agulhas, do que com independências e regenerações políticas: uma
mulher metida em negócios do Estado, é capaz de transformar a nação em casa de
Orates.
Afonsina –
Porém, meu tio, olhe que nem por isso o momento deixa de ser supremo, e é
preciso que nos dê provas do seu valor.
Prudêncio –
Provavelmente quer que eu deite a correr pelas ruas, dando vivas ao que não
entendo e morras a quem nunca me fez mal, e que me exponha a ter a sorte do
Tiradentes, como está fazendo o seu querido Luciano, que é um doido de pedras.
Leonídia – Mano
Prudêncio, atenda ao que diz!
Plácido –
Luciano cumpre o seu dever: a causa que adotou é a de sua pátria, e se morrer
por ela será um mártir, um herói; nunca, porém, um louco. Prudêncio – Pode-se bem servir à pátria sem fazer traquinadas.
Afonsina – É
verdade; meu tio tem razão: Luciano é um louco, e ele um homem de muito juízo,
de uma bravura e de um patriotismo como nunca vi!
Prudêncio – A
senhora parece que quer divertir-se comigo?
Afonsina – Eu
quero somente recordar agora alguns fatos. A nove de janeiro deste ano, o
senado da câmara foi, em nome do povo, representar ao príncipe contra a sua
retirada do Brasil; não houve um só patriota que não corresse ao largo do Paço;
meu tio, o momento era supremo e quando se ouviu repetir o glorioso – Fico – do
Príncipe, o primeiro que o saudou com um viva entusiástico foi Luciano, e entre
aqueles que responderam a esse brado patriótico, ouvi dizer que não se achava
meu tio.
Prudêncio –
Estava retido em casa com um ataque de maleitas.
Plácido (A Leonídia)
– Afonsina esqueceu-se da sala e da caixa.
Leonídia (A Plácido)
– Pois se foram ofender o seu Luciano!
Afonsina – Dois
dias depois, a onze de janeiro, Avilez e as tropas lusitanas ocuparam o morro
do Castelo; a luta parecia dever começar; os brasileiros correram para o campo
de Santana e Luciano foi o chefe de uma companhia de voluntários. Meu tio, o
momento era outra vez supremo, e ouvi dizer que vossa mercê não apareceu
durante três dias.
Prudêncio –
Estava de erisipela, senão veriam!
Plácido (A Leonídia)
– Olha a cara com que está o mano Prudêncio.
Leonídia (A Plácido)
– Bem feito: é para não ser bazófio.
Afonsina – Mas
Avilez retirou-se com os seus para a Praia Grande; o perigo não tinha ainda
passado, e no campo do Barreto reuniram-se as milícias brasileiras e as
falanges dos patriotas: Luciano, à frente dos seus bravos companheiros, lá se
achou pronto para o combate e fiel à causa da pátria. Ah! Meu tio, o momento
era de novo ou continuava a ser supremo, e eu ouvi dizer que não houve quem
pudesse descobrir onde vossa mercê se escondia.
Prudêncio –
Achava-me atacado de reumatismo nas pernas.
Afonsina – Ah! É
que vossa mercê é um compêndio de todas as moléstias, e eu tenho reparado que
sempre adoece a propósito!
Prudêncio – Eu
sou o que diz o meu nome: Prudêncio! O homem da prudência; não hei de nunca
desonrar a minha espada de tenente de ordenanças em bernardas de pouco mais ou
menos; chegue, porém, o dia de uma grande e verdadeira batalha, em que haja
cargas de cavalaria, descargas de infantaria, trovoada de artilharia, e verão
como brilho no meu elemento!
Afonsina – Com
vossa mercê na batalha há de haver por força uma carnagem horrorosa!
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente.
Se os tambores rufassem deveras,À
peleja os guerreiros chamando,O
tenente Prudêncio, chorando, Fugiria medroso e poltrão.
Prudêncio –
Não!não! não!
Se
os tambores rufassem deveras,À
peleja os guerreiros chamando, Meu ginete veloz cavalgando,Eu
voara com a espada na mão.
Façam
de contaQue negra afronta Sem mais tardar Corro a vingar.
A
uns degolo,Outros
esfolo,Outros
imolo, Sem trepidar.
Zás!
Cutilada!
Zás!
Estocada! Zás! Pistolada!
Sem
descansar:E
derribando,E
cutilando,E
decepandoSem
respirar,Só
me detenhoNo
fero empenho,Quando não tenho Mais quem matar.(Ouve-se o rufar de tambores)(Assusta-se)
Misericórdia! Que é isto?
Plácido, Leonídia e Afonsina – Avante! Avante! Prossiga!
Chama o tambor os guerreiros!
Prudêncio –
Estou com dor de barriga.
Leonídia – Que
tremor é esse, mano Prudêncio? dir-se-ia que tem medo!
Prudêncio – Não
é medo, não; mas vocês sabem que eu sou muito nervoso, e assim...um rufar de
repente...
Afonsina (Que tem ido
à janela) – Sossegue, meu tio: é apenas a guarda do paço que se vai render.
Prudêncio – E
quem foi que se assustou aqui?
O
rufo dos tamboresExalta
o meu valorCom
a durindana em punho,Nas
asas do furor,Eu
levo aos inimigos A morte e o terror.
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamenteO
rufo dos tamboresAbate
o seu valor;Não
sabe mais da espada,Tem medo e não furor, E em dores de barriga
Disfarça o seu terror.
Afonsina –
Realmente, meu tio, vossa mercê vale os doze Pares de França juntos!
Prudêncio – Eu sou assim; sou o homem
das grandes ocasiões!