Cena I Amor e Pátria · Capítulo 2 de 15
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Cena I

CENA IPlácido, Prudêncio, Leonídia e Afonsina, que observa curiosa uma caixa que está sobre uma cadeira, e a porta da sala do fundo que se acha fechada.

Plácido – Ela já

nem pode disfarçar a curiosidade que a atormenta; tem andado em volta da caixa

mais de quatro vezes.

Leonídia –

Coitadinha! Aquilo é tão natural na sua idade...

Prudêncio –

Acrescente-lhe: e no seu sexo... Nunca vi pais tão desfrutáveis!

Plácido – Agora lá vai ela direitinha

olhar pelo buraco da fechadura da porta: então que disse eu?...

Leonídia –

Faz-me pena vê-la assim martirizando-se.

Plácido – É para

que no fim ainda mais agradável e completa lhe seja a surpresa.

Prudêncio – E

vocês acham muito bonito o que está fazendo minha sobrinha?...

Plácido – Então

que lhe acha, senhor tenente rabugento?...

Prudêncio –

Nada: apenas uma comédia em que uma sala trancada e uma caixa fechada fazem

lembrar o pomo vedado, e em que Afonsina representa o papel de Eva e minha irmã

e meu cunhado o da serpente tentadora ou do diabo, que é a mesma coisa.

Leonídia – Este

meu irmão tem lembranças felizes!

Prudêncio –

Vocês hão de acabar por perder completamente aquela menina! O senhor meu

cunhado com as idéias que trouxe da sua viagem à França e a senhora minha irmã

com a sua cegueira de mãe extremosa, deram-lhe uma educação como se a quisessem

para doutora de borla e capelo: fizeram-na aprender tudo quanto ela podia

ignorar, e a deixaram em jejum a respeito do que devia saber. Assim, minha

sobrinha dança melhor do que as bailarinas do teatro de S. João; toca o seu

cravo a ponto de admirar ao padre José Maurício: canta e gorjeia que parece um

dos italianos da capela real; conversa com os homens como se eles fossem

mulheres; é capaz de discutir sobre teologia com Frei Sampaio, e sobre arte

militar com o general Corado; mais se lhe perguntarem como se toma ponto a uma

das meias, como se prepara um bom jantar, como se governa uma casa, espicha-se

completamente: eu até aposto que ela não sabe rezar.

Leonídia –

Afonsina é um tesouro de talentos e de virtudes, e você na passa de uma má

língua.

Prudêncio – Oh!

Pois não! Nem os sete sábios da Grécia lhe dão volta! Ela faz versos como o

defunto padre Caldas; fala em política e é tão eloqüente como o Antônio Carlos;

é tão revolucionária como o Barata... Não sei por que ainda não quis se

deputado às cortes!...

Havemos de lá chegar: creio, porém, que

já escreve seus artigos para o Reverbero,

e que para isso está de inteligência com o Ledo e o padre Januário: até bem

pode ser que vocês já a tenham feito pedreira livre, e que a menina fale com o

diabo à meia-noite.

Afonsina (Vem à frente) – Minha mãe...

Leonídia – Que

tens, Afonsina? Pareces-me triste...

Plácido – É verdade, minha filha: que

quer dizer esse ar melancólico no dia dos teus anos, e quando te preparamos uma

bela festa?...

Afonsina – É que

...eu...meu pai, eu não posso mais...

Prudêncio – Talis arbor, talis fructus! De um casal

sem juízo na podia nascer senão uma doidinha.

Leonídia – Mas

que te falta, dize?

Afonsina – Ah!

Minha mãe, aquela sala e esta caixa atormentam-me, exasperamme...

Prudêncio –

Andem depressa...andem...satisfaçam a curiosidade da menina, antes que ela

arranje algum faniquito.

Plácido – E que

tens que ver com aquela sala e com essa caixa?...

Afonsina – É uma

curiosidade bem natural: esta caixa, que está fechada, talvez contenha algum

objeto interessante, e aquela porta, que e sempre esteve aberta e que hoje

amanheceu trancada, encerra necessariamente algum mistério, e portanto...

Prudêncio –

Vamos à conseqüência, que há se ser sublime!...

Afonsina – A

conseqüência, meu tio?... Ei-la, aí vai:Deixar de ser curiosa Por certo

não está em mim:É pecado feminino, Por força

hei de ser assim.

O que em todas se perdoa, Também

se desculpe em mim: Mamãe sabe que as mulheres São todas, todas assim.

Mamãe,

aquela caixa,Papai,

aquela sala,Encerram

um segredoQue

o meu sossego abala.

JuntamenteAfonsina — Saber

desejoO

qu’ali’stá;Eu sou teimosa, Sou curiosaSou

caprichosa,Sou

ardilosa,Serei

vaidosa;Mas

não sou má.

Plácido e Leonídia — Ninguém lhe digaO

qu’ali’stá;Será

teimosaE

curiosa,E

caprichosa, E ardilosa;Será

vaidosa:Mas

não és má.

Prudêncio — Ninguém lhe digaO

qu’ali’stá;Tu

és teimosa E curiosa,E

caprichosa,E

ardilosa,Muito vaidosa, E também má.

Não

foras tu mulher, minha rica sobrinha!

Afonsina – Meu

tio, não é muito que eu tenha um defeito que é comum nas mulheres, quando falta

à vossa mercê uma das primeiras virtudes dos homens.

Plácido –

Afonsina!

Prudêncio –

Deixem falar a retórica; diga lá, minha senhora: qual é então essa virtude que

me falta?

Afonsina – É a

coragem, meu tio.

Prudêncio – Ora,

fico-lhe muito obrigado! Sou um grandíssimo poltrão, porque não entro em

revoluções nem em bernardas, e guardo a minha espada de tenente de ordenanças

para as grandes crises e os momentos supremos?

Afonsina – Então

é bem para recear que a sua espada fique eternamente na bainha.

Prudêncio – Pode

fazer o favor de dizer por quê?

Afonsina – É bem

simples: é porque vossa mercê nem considera momento supremo aquele em que se

trata da regeneração e da independência da pátria. Prudêncio – E eu creio que era mais próprio da senhora ocupar-se

com bilros e agulhas, do que com independências e regenerações políticas: uma

mulher metida em negócios do Estado, é capaz de transformar a nação em casa de

Orates.

Afonsina –

Porém, meu tio, olhe que nem por isso o momento deixa de ser supremo, e é

preciso que nos dê provas do seu valor.

Prudêncio –

Provavelmente quer que eu deite a correr pelas ruas, dando vivas ao que não

entendo e morras a quem nunca me fez mal, e que me exponha a ter a sorte do

Tiradentes, como está fazendo o seu querido Luciano, que é um doido de pedras.

Leonídia – Mano

Prudêncio, atenda ao que diz!

Plácido –

Luciano cumpre o seu dever: a causa que adotou é a de sua pátria, e se morrer

por ela será um mártir, um herói; nunca, porém, um louco. Prudêncio – Pode-se bem servir à pátria sem fazer traquinadas.

Afonsina – É

verdade; meu tio tem razão: Luciano é um louco, e ele um homem de muito juízo,

de uma bravura e de um patriotismo como nunca vi!

Prudêncio – A

senhora parece que quer divertir-se comigo?

Afonsina – Eu

quero somente recordar agora alguns fatos. A nove de janeiro deste ano, o

senado da câmara foi, em nome do povo, representar ao príncipe contra a sua

retirada do Brasil; não houve um só patriota que não corresse ao largo do Paço;

meu tio, o momento era supremo e quando se ouviu repetir o glorioso – Fico – do

Príncipe, o primeiro que o saudou com um viva entusiástico foi Luciano, e entre

aqueles que responderam a esse brado patriótico, ouvi dizer que não se achava

meu tio.

Prudêncio –

Estava retido em casa com um ataque de maleitas.

Plácido (A Leonídia)

– Afonsina esqueceu-se da sala e da caixa.

Leonídia (A Plácido)

– Pois se foram ofender o seu Luciano!

Afonsina – Dois

dias depois, a onze de janeiro, Avilez e as tropas lusitanas ocuparam o morro

do Castelo; a luta parecia dever começar; os brasileiros correram para o campo

de Santana e Luciano foi o chefe de uma companhia de voluntários. Meu tio, o

momento era outra vez supremo, e ouvi dizer que vossa mercê não apareceu

durante três dias.

Prudêncio –

Estava de erisipela, senão veriam!

Plácido (A Leonídia)

– Olha a cara com que está o mano Prudêncio.

Leonídia (A Plácido)

– Bem feito: é para não ser bazófio.

Afonsina – Mas

Avilez retirou-se com os seus para a Praia Grande; o perigo não tinha ainda

passado, e no campo do Barreto reuniram-se as milícias brasileiras e as

falanges dos patriotas: Luciano, à frente dos seus bravos companheiros, lá se

achou pronto para o combate e fiel à causa da pátria. Ah! Meu tio, o momento

era de novo ou continuava a ser supremo, e eu ouvi dizer que não houve quem

pudesse descobrir onde vossa mercê se escondia.

Prudêncio –

Achava-me atacado de reumatismo nas pernas.

Afonsina – Ah! É

que vossa mercê é um compêndio de todas as moléstias, e eu tenho reparado que

sempre adoece a propósito!

Prudêncio – Eu

sou o que diz o meu nome: Prudêncio! O homem da prudência; não hei de nunca

desonrar a minha espada de tenente de ordenanças em bernardas de pouco mais ou

menos; chegue, porém, o dia de uma grande e verdadeira batalha, em que haja

cargas de cavalaria, descargas de infantaria, trovoada de artilharia, e verão

como brilho no meu elemento!

Afonsina – Com

vossa mercê na batalha há de haver por força uma carnagem horrorosa!

Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente.

Se os tambores rufassem deveras,À

peleja os guerreiros chamando,O

tenente Prudêncio, chorando, Fugiria medroso e poltrão.

Prudêncio –

Não!não! não!

Se

os tambores rufassem deveras,À

peleja os guerreiros chamando, Meu ginete veloz cavalgando,Eu

voara com a espada na mão.

Façam

de contaQue negra afronta Sem mais tardar Corro a vingar.

A

uns degolo,Outros

esfolo,Outros

imolo, Sem trepidar.

Zás!

Cutilada!

Zás!

Estocada! Zás! Pistolada!

Sem

descansar:E

derribando,E

cutilando,E

decepandoSem

respirar,Só

me detenhoNo

fero empenho,Quando não tenho Mais quem matar.(Ouve-se o rufar de tambores)(Assusta-se)

Misericórdia! Que é isto?

Plácido, Leonídia e Afonsina – Avante! Avante! Prossiga!

Chama o tambor os guerreiros!

Prudêncio –

Estou com dor de barriga.

Leonídia – Que

tremor é esse, mano Prudêncio? dir-se-ia que tem medo!

Prudêncio – Não

é medo, não; mas vocês sabem que eu sou muito nervoso, e assim...um rufar de

repente...

Afonsina (Que tem ido

à janela) – Sossegue, meu tio: é apenas a guarda do paço que se vai render.

Prudêncio – E

quem foi que se assustou aqui?

O

rufo dos tamboresExalta

o meu valorCom

a durindana em punho,Nas

asas do furor,Eu

levo aos inimigos A morte e o terror.

Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamenteO

rufo dos tamboresAbate

o seu valor;Não

sabe mais da espada,Tem medo e não furor, E em dores de barriga

Disfarça o seu terror.

Afonsina –

Realmente, meu tio, vossa mercê vale os doze Pares de França juntos!

Prudêncio – Eu sou assim; sou o homem

das grandes ocasiões!

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