Cena VIII Amor e Pátria · Capítulo 9 de 15
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Cena VIII

CENA VIIIPlácido e logo

VelascoPlácido – Que

abominável trama! Quem será o infame denunciante? (Lendo) “...

Um ingrato que me deve tudo” Meu deus! Diz-me a

consciência que tenho estendido a mão e socorrido a muitos infelizes... Qual

seria então dentre esses o que assim me calunia, e me faz passar pó inimigo de

um Príncipe heróico e do país abençoado, que me deu felicidade e riqueza! Por

inimigo da causa do Brasil, do Brasil, que é a pátria querida de minha mulher e

de minha filha!... e é, em tal circunstância, que nem Luciano me aparece? Oh!

nem tenho um amigo a meu lado!

Velasco – É

porque não quer voltar os olhos, senhor Plácido.

Plácido –

Velasco...senhor Velasco...

Velasco –

Velasco, dizia bem; pode tratar-me como um filho, pois que tem sido meu pai.

Plácido –

Obrigado.

Velasco –

Chamava um amigo seguro: eis-me aqui.

Plácido – Mas...

Velasco –

Senhor, não procuro arrebatar-lhe um segredo; sei que um negro pesar atormenta

o seu coração, e que um desejo ardente se agita no seu espírito. Plácido – Como?...que quer dizer?

Velasco – O

pesar nasceu de uma denúncia caluniosa e malvada: o desejo é de saber o nome do

miserável denunciante.

Plácido – É

isso, é isso mesmo: quero saber esse nome...diga e ...

Velasco – Vou

dizê-lo, senhor; antes, porém, é força que eu traga à sua memória os benefícios

que lhe devo.

Plácido –

Perderá assim um tempo muito precioso: diga-me o nome do meu denunciante.

Velasco – Ouça

primeiro, senhor: cheguei, há três anos, da ilha do Faial, minha pátria, e

desembarcando nas parias do Rio de Janeiro, achei-me só, sem pão, sem protetor,

sem amparo; mas o senhor Plácido condoeu-se de mim, recebeu-me em sua casa,

fez-me seu caixeiro, deu-me a sua mesa, deu-me o teto que me abrigou, e enfim

abriu-me o caminho da fortuna: já estabelecido há um ano, chegarei um dia a ser

talvez um rico negociante, graças unicamente ao seu patrocínio. A meus pais

devi acidentalmente a vida; ao senhor Plácido devo tudo, tudo absolutamente, e

portanto, é vossa mercê para mim ainda mais do que são meus pais.

Plácido –

Senhor, antes dos pais, Deus, e a pátria somente; mas a que vem essa

história?...

Velasco –

Repeti-a para perguntar-lhe agora se um homem que lhe deve tanto poderia

procurar enganá-lo?

Plácido – Senhor

Velasco, nunca duvidei da sua honra, nem da sua palavra.

Velasco – E se

eu, pronunciando agora o nome do seu denunciante, quebrar uma das fibras mais

delicadas do seu coração? Se...

Plácido –

Embora...eu devo, eu quero saber esse nome...

Velasco – Pois

bem: o seu denunciante...foi...

Plácido –

Acabe...

Velasco – O

senhor Luciano.

Plácido – Mente!

Velasco – Senhor

Plácido!...

Plácido –

Perdoe-me...fui precipitado; mas Luciano...não...não é possível!

Velasco – E no

entanto foi ele!

Plácido – Está

enganado: Luciano é a honra...

Velasco – Tenho

um patrício empregado na polícia, e dele recebi esta confidência: vi a denúncia

escrita pela letra do senhor Luciano.

Plácido – Meu

Deus! É incrível! (Reflete) Não...

Luciano não pode ser; o noivo de minha filha...o meu filho adotivo...o

meu...não, não: é falso.

Velasco – Cumpri

o meu dever; o mais não pe da minha conta; rogo-lhe somente que não comprometa

o meu amigo, que perderia o seu emprego se descobrisse que...

Plácido – Pode

sossegar...não o comprometerei; mas Luciano!... com que fim cometeria ele uma

ação tão indigna?

Velasco – Senhor

Plácido, a sua pergunta não é difícil de ser satisfeita: o senhor Luciano há

dois dias que não deixa a casa do ministro José Bonifácio: uma deportação

pronta e imediata precipitaria o casamento desde tanto por ele suspirado, e ao

mesmo tempo deixaria em suas mãos a riqueza imensa do deportado, ficando o

segredo da traição oculto nas sombras da polícia.

Plácido – Quem

poderia acreditá-lo!... Mas... realmente todas as presunções o condenam: há

pouco ele tremeu e confundiu-se, ouvindo Prudêncio dizer que o tinha visto

ontem entrar duas vezes na casa do ministro: a carta da mulher do intendente

diz que o denunciante é um ingrato, que tudo me deve, que eu acolhi em meu

seio, é de quem tenho sido o constante protetor... Oh! miséria da

humanidade!...oh! infâmia sem igual! Foi ele! O caluniador, o infame; o

denunciante foi Luciano!

Velasco –

Ainda bem que a verdade brilha a seus olhos; mas... não se exaspere: a

inocência triunfará e o crime deve ser condenado ao desprezo.

Plácido – Ao

desprezo? Não: o seu castigo há de ser exemplar: juro, que um ingrato não será

o esposo de minha filha; o demônio não se há de unir a um anjo de virtudes: oh!

o céu me inspira ao mesmo tempo o castigo do crime e o prêmio do mérito. Senhor

Velasco, há dois meses pediu-me o senhor a mão de minha filha, e eu lhe

recusei, dizendo que Afonsina estava prometida em casamento a Luciano; pois

bem, o motivo da recusa desapareceu: minha filha será sua esposa.

Velasco – Senhor...

Plácido – Recusa

a mão de minha filha?...

Velasco – Oh!

não, mas a senhora Dona Afonsina ama ao senhor Luciano.

Plácido – Aborrecê-lo-á dentro em pouco: minha filha ama somente a

virtude, e um ingrato há de inspira-lhe horror.

Velasco – Mas eu

nem mesmo assim serei amado: e em tal caso...

Plácido –

Respondo pelo coração de Afonsina; não pretendo coagi-lo...

Velasco –

Senhor, é a felicidade que me está oferecendo; abre-me as portas do céu: e

pensa que eu hesitarei em beijar-lhe a mão, recebendo de sua boca o nome de

filho?

Plácido – Ainda

bem! Oh! Luciano! Luciano! Mal sabes o que te espera!...

Senhor Velasco, vá

reunir-se aos nossos amigos, e...silêncio. (Vai

para dentro).

Velasco – Acabo

de lançar-me em um caminho perigoso; embora: quem não arrisca, não ganha. Se eu

perder no jogo, terei pelo menos feito beber fel e vinagre a esse

revolucionário que detesto, a esta família estúpida que não me aprecia

bastante, e ao senhor Plácido, que, sendo meu patrício, me havia posto de lado

para casar a filha e dar a sua riqueza a um brasileiro!... Ânimo! O dia é para

mim de jogo forte. Vou jogar. (Entra).

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