Cena VIII
CENA VIIIPlácido e logo
VelascoPlácido – Que
abominável trama! Quem será o infame denunciante? (Lendo) “...
Um ingrato que me deve tudo” Meu deus! Diz-me a
consciência que tenho estendido a mão e socorrido a muitos infelizes... Qual
seria então dentre esses o que assim me calunia, e me faz passar pó inimigo de
um Príncipe heróico e do país abençoado, que me deu felicidade e riqueza! Por
inimigo da causa do Brasil, do Brasil, que é a pátria querida de minha mulher e
de minha filha!... e é, em tal circunstância, que nem Luciano me aparece? Oh!
nem tenho um amigo a meu lado!
Velasco – É
porque não quer voltar os olhos, senhor Plácido.
Plácido –
Velasco...senhor Velasco...
Velasco –
Velasco, dizia bem; pode tratar-me como um filho, pois que tem sido meu pai.
Plácido –
Obrigado.
Velasco –
Chamava um amigo seguro: eis-me aqui.
Plácido – Mas...
Velasco –
Senhor, não procuro arrebatar-lhe um segredo; sei que um negro pesar atormenta
o seu coração, e que um desejo ardente se agita no seu espírito. Plácido – Como?...que quer dizer?
Velasco – O
pesar nasceu de uma denúncia caluniosa e malvada: o desejo é de saber o nome do
miserável denunciante.
Plácido – É
isso, é isso mesmo: quero saber esse nome...diga e ...
Velasco – Vou
dizê-lo, senhor; antes, porém, é força que eu traga à sua memória os benefícios
que lhe devo.
Plácido –
Perderá assim um tempo muito precioso: diga-me o nome do meu denunciante.
Velasco – Ouça
primeiro, senhor: cheguei, há três anos, da ilha do Faial, minha pátria, e
desembarcando nas parias do Rio de Janeiro, achei-me só, sem pão, sem protetor,
sem amparo; mas o senhor Plácido condoeu-se de mim, recebeu-me em sua casa,
fez-me seu caixeiro, deu-me a sua mesa, deu-me o teto que me abrigou, e enfim
abriu-me o caminho da fortuna: já estabelecido há um ano, chegarei um dia a ser
talvez um rico negociante, graças unicamente ao seu patrocínio. A meus pais
devi acidentalmente a vida; ao senhor Plácido devo tudo, tudo absolutamente, e
portanto, é vossa mercê para mim ainda mais do que são meus pais.
Plácido –
Senhor, antes dos pais, Deus, e a pátria somente; mas a que vem essa
história?...
Velasco –
Repeti-a para perguntar-lhe agora se um homem que lhe deve tanto poderia
procurar enganá-lo?
Plácido – Senhor
Velasco, nunca duvidei da sua honra, nem da sua palavra.
Velasco – E se
eu, pronunciando agora o nome do seu denunciante, quebrar uma das fibras mais
delicadas do seu coração? Se...
Plácido –
Embora...eu devo, eu quero saber esse nome...
Velasco – Pois
bem: o seu denunciante...foi...
Plácido –
Acabe...
Velasco – O
senhor Luciano.
Plácido – Mente!
Velasco – Senhor
Plácido!...
Plácido –
Perdoe-me...fui precipitado; mas Luciano...não...não é possível!
Velasco – E no
entanto foi ele!
Plácido – Está
enganado: Luciano é a honra...
Velasco – Tenho
um patrício empregado na polícia, e dele recebi esta confidência: vi a denúncia
escrita pela letra do senhor Luciano.
Plácido – Meu
Deus! É incrível! (Reflete) Não...
Luciano não pode ser; o noivo de minha filha...o meu filho adotivo...o
meu...não, não: é falso.
Velasco – Cumpri
o meu dever; o mais não pe da minha conta; rogo-lhe somente que não comprometa
o meu amigo, que perderia o seu emprego se descobrisse que...
Plácido – Pode
sossegar...não o comprometerei; mas Luciano!... com que fim cometeria ele uma
ação tão indigna?
Velasco – Senhor
Plácido, a sua pergunta não é difícil de ser satisfeita: o senhor Luciano há
dois dias que não deixa a casa do ministro José Bonifácio: uma deportação
pronta e imediata precipitaria o casamento desde tanto por ele suspirado, e ao
mesmo tempo deixaria em suas mãos a riqueza imensa do deportado, ficando o
segredo da traição oculto nas sombras da polícia.
Plácido – Quem
poderia acreditá-lo!... Mas... realmente todas as presunções o condenam: há
pouco ele tremeu e confundiu-se, ouvindo Prudêncio dizer que o tinha visto
ontem entrar duas vezes na casa do ministro: a carta da mulher do intendente
diz que o denunciante é um ingrato, que tudo me deve, que eu acolhi em meu
seio, é de quem tenho sido o constante protetor... Oh! miséria da
humanidade!...oh! infâmia sem igual! Foi ele! O caluniador, o infame; o
denunciante foi Luciano!
Velasco –
Ainda bem que a verdade brilha a seus olhos; mas... não se exaspere: a
inocência triunfará e o crime deve ser condenado ao desprezo.
Plácido – Ao
desprezo? Não: o seu castigo há de ser exemplar: juro, que um ingrato não será
o esposo de minha filha; o demônio não se há de unir a um anjo de virtudes: oh!
o céu me inspira ao mesmo tempo o castigo do crime e o prêmio do mérito. Senhor
Velasco, há dois meses pediu-me o senhor a mão de minha filha, e eu lhe
recusei, dizendo que Afonsina estava prometida em casamento a Luciano; pois
bem, o motivo da recusa desapareceu: minha filha será sua esposa.
Velasco – Senhor...
Plácido – Recusa
a mão de minha filha?...
Velasco – Oh!
não, mas a senhora Dona Afonsina ama ao senhor Luciano.
Plácido – Aborrecê-lo-á dentro em pouco: minha filha ama somente a
virtude, e um ingrato há de inspira-lhe horror.
Velasco – Mas eu
nem mesmo assim serei amado: e em tal caso...
Plácido –
Respondo pelo coração de Afonsina; não pretendo coagi-lo...
Velasco –
Senhor, é a felicidade que me está oferecendo; abre-me as portas do céu: e
pensa que eu hesitarei em beijar-lhe a mão, recebendo de sua boca o nome de
filho?
Plácido – Ainda
bem! Oh! Luciano! Luciano! Mal sabes o que te espera!...
Senhor Velasco, vá
reunir-se aos nossos amigos, e...silêncio. (Vai
para dentro).
Velasco – Acabo
de lançar-me em um caminho perigoso; embora: quem não arrisca, não ganha. Se eu
perder no jogo, terei pelo menos feito beber fel e vinagre a esse
revolucionário que detesto, a esta família estúpida que não me aprecia
bastante, e ao senhor Plácido, que, sendo meu patrício, me havia posto de lado
para casar a filha e dar a sua riqueza a um brasileiro!... Ânimo! O dia é para
mim de jogo forte. Vou jogar. (Entra).