Cena XI
CENA XIOs precedentes, Prudêncio, Velasco, Senhoras, Cavalheiros.
Prudêncio – São
horas do casamento?...
Plácido –
Justiça seja feita!
Prudêncio –
Justiça! Tenho muito medo desta senhora, porque padece da vista, e às vezes dá
pancada de cego.
Plácido –
Senhores, tenho de cumprir um ato de solene justiça; ouçam-me.
Afonsina – Eu
tremo!...
Plácido – Sejam
todos testemunhas do que vou dizer, e do que se vai passar.
Senhores, acabo de romper o casamento que devia celebrar-se
hoje. O senhor Luciano é indigno da mão de minha filha.
Prudêncio –
Então como diabo foi isso?
Plácido – Esse
mancebo, a quem sempre servi de pai desvelado, atraiçoou-me, feriu-me com a
mais perversa calúnia. Esperando, sem dúvida, ficar de posse dos meus bens e
riqueza, denunciou-me ao governo como inimigo do Príncipe e da causa do Brasil,
e pediu a minha imediata deportação.
Afonsina –
Luciano? é impossível, meu pai!...
Prudêncio – Já
não há impossíveis no mundo, minha senhora: e ia esta pombinha sem fel cair nas
garras daquele revolucionário!
Velasco – (Á parte) – Chegamos ao fim do jogo:
tenho esperanças de ganhá-lo; mas confesso que estou com receio da última
cartada.
Plácido – A
perfídia do ingrato foi a tempo descoberta: espero em Deus não ser deportado; e
ainda bem que posso salvar minha filha!
Prudêncio
– Apoiado! Nada de contemplações...
Plácido – E
agora, senhores, revelarei a todos um segredo de família, que eu hoje tinha de
confiar somente ao senhor Luciano. Sabem os meus amigos que eu tive um irmão
querido, meu sócio nos prazeres e nas aflições da vida, e também meu sócio no
comércio; a morte roubou-me esse irmão, cuja fortuna herdei, como seu único
parente. Pois bem, esse irmão muito amado, ferido de súbito pelo mal que o
devia levar em poucos instantes à sepultura, reconhecendo o seu estado, e vendo
que se aproximava do transe derradeiro, chamou-me para junto de seu leito e
disse-me: “Plácido, sabes que tenho um filho, penhor de um amor infeliz e
ilegítimo; ignorem todos este segredo, e tu recolhe meu filho, educa-o, zela a
fortuna que deixo e que deve pertencer-lhe; e se ele se mostrar digno de nós,
se for um homem honrado , entrega-lhe a sua herança.” Concluindo estas
palavras, meu irmão expirou.
Senhores, o filho de meu irmão é o senhor Luciano!
Luciano – Grande
Deus!...
Afonsina – É me
primo!
Prudêncio – Esta
é de deixar um homem de boca aberta um dia inteiro!
Velasco – (À parte) – Complica-se o
enredo...e...palavra de honra, creio que isto acaba mal.
Plácido – Senhor
Luciano, creio que cumpri à risca o meu dever; zelei os seus bens,a sua fortuna, amei-o e eduquei-o como...um
filho. Hoje que sou vítima de sua ingratidão, podia guardar para mim a herança
que lhe pertence, pois que nenhum documento lhe assegura, e todos ignoravam o
que acabo de referir: quero, porém, dar-lhe um último e inútil exemplo de
probidade. (Dando papéis) Eis aqui as minhas contas: pode mandar receber a sua
herança; o senhor possui quinhentos mil cruzados.
Prudêncio – Este
meu cunhado é doido!
Afonsina – Como
procederá agora Luciano?...
Plácido – eis as
minhas contas, repito; examine-as e dê-me as suas ordens. Uma última palavra:
compreenda que faço um sacrifício falando-lhe ainda, e que estou ansioso por
concluir depressa. Senhor, sei que se ufana do nome de patriota; é um belo
nome, sem dúvida, e que exprime uma idéia grandiosa; mas não basta ser valente
para ser patriota, como ser bravo não é ser honrado. O patriota é aquele que
além de estar pronto a dar a vida pela causa do seu país, sabe também honrá-lo
com a prática de virtudes, e com o exemplo da honestidade; o patriota prova que
o é no campo de batalha, nos comícios públicos, no serviço regular do estado e
nos seio da família; em uma palavra, quem não é homem probo, não pode ser
patriota. Eis o que pretendia dizer-lhe; agora separemo-nos para sempre: aqui
tem as minhas contas, e dê-me as suas ordens. (Luciano fica imóvel)
Afonsina
– Oh! ele não aceita!
Plácido –
Receba-as, senhor, e deixei-nos em paz. (Luciano
recebe os papéis).
Afonsina – E
aceitou...meu Deus!
Velasco (À parte) – Quinhentos mil cruzados de
menos no bolo!
Luciano – Vou
retirar-me; antes, porém, de o fazer, também direi uma única...e derradeira
palavra. Fui condenado sem ser ouvido: transformou-se contra mim a calúnia em
verdade, e puniram-me com o insulto e com a humilhação. Curvo-me diante do
único homem que o podia fazer impunemente. Senhor, fácil me fora desfazer em um
instante todo esse indigno enredo em que me envolveram, mas o meu orgulho me
cerra os lábios, e não descerei a desculpar-me; ao insulto seguirá em breve o
arrependimento; no entanto...vou retirar-me; esta riqueza, porém, que vossa
mercê me atirou ao rosto em um tal momento...essa riqueza...oh! senhor, um
patriota também prova que o é, levantando-se diante do opróbrio...
Oh! vossa mercê definiu perfeitamente o
patriota e o homem honrado: deume, porém, a definição e não me apresentou o
exemplo; pois o exemplo quero eu dar-lho: Ei-lo aqui! (Rasga os papéis)
Afonsina – É o
meu Luciano! Eu o reconheço!...
Plácido –
Senhor! Despreza a herança de seu pai?...
Luciano – Não
desprezo a herança de meu pai; revolto-me contra a afronta de meu tio.
Riquezas! Eu as terei; a terra abençoada por Deus, o Brasil, minha bela e
portentosa pátria, abre ao homem que trabalha um seio imenso repleto de
tesouros inesgotáveis; colherei, pois, esses tesouros por minhas mãos,
enriquecerei com o meu trabalho, e ninguém, ninguém jamais terá o direito de
humilhar-me!
Prudêncio – É
outro doido! Creio que a loucura é moléstia hereditária nesta família.
Luciano – Vossa mercê não será
deportado, eu o juro; descanse; mas o seu denunciante, esse...esse miserável
que se esconde nas trevas, esse...hei de conhecê-lo e curvá-lo de joelhos a
meus pés, e ...adeus, senhor...
Afonsina!...
Afonsina – Luciano!
Leonídia (Dentro)
– Parabéns! Parabéns!
Plácido –
Leonídia...
Velasco (Á parte)
– Pior está essa!...