Cena XI Amor e Pátria · Capítulo 12 de 15
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Cena XI

CENA XIOs precedentes, Prudêncio, Velasco, Senhoras, Cavalheiros.

Prudêncio – São

horas do casamento?...

Plácido –

Justiça seja feita!

Prudêncio –

Justiça! Tenho muito medo desta senhora, porque padece da vista, e às vezes dá

pancada de cego.

Plácido –

Senhores, tenho de cumprir um ato de solene justiça; ouçam-me.

Afonsina – Eu

tremo!...

Plácido – Sejam

todos testemunhas do que vou dizer, e do que se vai passar.

Senhores, acabo de romper o casamento que devia celebrar-se

hoje. O senhor Luciano é indigno da mão de minha filha.

Prudêncio –

Então como diabo foi isso?

Plácido – Esse

mancebo, a quem sempre servi de pai desvelado, atraiçoou-me, feriu-me com a

mais perversa calúnia. Esperando, sem dúvida, ficar de posse dos meus bens e

riqueza, denunciou-me ao governo como inimigo do Príncipe e da causa do Brasil,

e pediu a minha imediata deportação.

Afonsina –

Luciano? é impossível, meu pai!...

Prudêncio – Já

não há impossíveis no mundo, minha senhora: e ia esta pombinha sem fel cair nas

garras daquele revolucionário!

Velasco – (Á parte) – Chegamos ao fim do jogo:

tenho esperanças de ganhá-lo; mas confesso que estou com receio da última

cartada.

Plácido – A

perfídia do ingrato foi a tempo descoberta: espero em Deus não ser deportado; e

ainda bem que posso salvar minha filha!

Prudêncio

– Apoiado! Nada de contemplações...

Plácido – E

agora, senhores, revelarei a todos um segredo de família, que eu hoje tinha de

confiar somente ao senhor Luciano. Sabem os meus amigos que eu tive um irmão

querido, meu sócio nos prazeres e nas aflições da vida, e também meu sócio no

comércio; a morte roubou-me esse irmão, cuja fortuna herdei, como seu único

parente. Pois bem, esse irmão muito amado, ferido de súbito pelo mal que o

devia levar em poucos instantes à sepultura, reconhecendo o seu estado, e vendo

que se aproximava do transe derradeiro, chamou-me para junto de seu leito e

disse-me: “Plácido, sabes que tenho um filho, penhor de um amor infeliz e

ilegítimo; ignorem todos este segredo, e tu recolhe meu filho, educa-o, zela a

fortuna que deixo e que deve pertencer-lhe; e se ele se mostrar digno de nós,

se for um homem honrado , entrega-lhe a sua herança.” Concluindo estas

palavras, meu irmão expirou.

Senhores, o filho de meu irmão é o senhor Luciano!

Luciano – Grande

Deus!...

Afonsina – É me

primo!

Prudêncio – Esta

é de deixar um homem de boca aberta um dia inteiro!

Velasco – (À parte) – Complica-se o

enredo...e...palavra de honra, creio que isto acaba mal.

Plácido – Senhor

Luciano, creio que cumpri à risca o meu dever; zelei os seus bens,a sua fortuna, amei-o e eduquei-o como...um

filho. Hoje que sou vítima de sua ingratidão, podia guardar para mim a herança

que lhe pertence, pois que nenhum documento lhe assegura, e todos ignoravam o

que acabo de referir: quero, porém, dar-lhe um último e inútil exemplo de

probidade. (Dando papéis) Eis aqui as minhas contas: pode mandar receber a sua

herança; o senhor possui quinhentos mil cruzados.

Prudêncio – Este

meu cunhado é doido!

Afonsina – Como

procederá agora Luciano?...

Plácido – eis as

minhas contas, repito; examine-as e dê-me as suas ordens. Uma última palavra:

compreenda que faço um sacrifício falando-lhe ainda, e que estou ansioso por

concluir depressa. Senhor, sei que se ufana do nome de patriota; é um belo

nome, sem dúvida, e que exprime uma idéia grandiosa; mas não basta ser valente

para ser patriota, como ser bravo não é ser honrado. O patriota é aquele que

além de estar pronto a dar a vida pela causa do seu país, sabe também honrá-lo

com a prática de virtudes, e com o exemplo da honestidade; o patriota prova que

o é no campo de batalha, nos comícios públicos, no serviço regular do estado e

nos seio da família; em uma palavra, quem não é homem probo, não pode ser

patriota. Eis o que pretendia dizer-lhe; agora separemo-nos para sempre: aqui

tem as minhas contas, e dê-me as suas ordens. (Luciano fica imóvel)

Afonsina

– Oh! ele não aceita!

Plácido –

Receba-as, senhor, e deixei-nos em paz. (Luciano

recebe os papéis).

Afonsina – E

aceitou...meu Deus!

Velasco (À parte) – Quinhentos mil cruzados de

menos no bolo!

Luciano – Vou

retirar-me; antes, porém, de o fazer, também direi uma única...e derradeira

palavra. Fui condenado sem ser ouvido: transformou-se contra mim a calúnia em

verdade, e puniram-me com o insulto e com a humilhação. Curvo-me diante do

único homem que o podia fazer impunemente. Senhor, fácil me fora desfazer em um

instante todo esse indigno enredo em que me envolveram, mas o meu orgulho me

cerra os lábios, e não descerei a desculpar-me; ao insulto seguirá em breve o

arrependimento; no entanto...vou retirar-me; esta riqueza, porém, que vossa

mercê me atirou ao rosto em um tal momento...essa riqueza...oh! senhor, um

patriota também prova que o é, levantando-se diante do opróbrio...

Oh! vossa mercê definiu perfeitamente o

patriota e o homem honrado: deume, porém, a definição e não me apresentou o

exemplo; pois o exemplo quero eu dar-lho: Ei-lo aqui! (Rasga os papéis)

Afonsina – É o

meu Luciano! Eu o reconheço!...

Plácido –

Senhor! Despreza a herança de seu pai?...

Luciano – Não

desprezo a herança de meu pai; revolto-me contra a afronta de meu tio.

Riquezas! Eu as terei; a terra abençoada por Deus, o Brasil, minha bela e

portentosa pátria, abre ao homem que trabalha um seio imenso repleto de

tesouros inesgotáveis; colherei, pois, esses tesouros por minhas mãos,

enriquecerei com o meu trabalho, e ninguém, ninguém jamais terá o direito de

humilhar-me!

Prudêncio – É

outro doido! Creio que a loucura é moléstia hereditária nesta família.

Luciano – Vossa mercê não será

deportado, eu o juro; descanse; mas o seu denunciante, esse...esse miserável

que se esconde nas trevas, esse...hei de conhecê-lo e curvá-lo de joelhos a

meus pés, e ...adeus, senhor...

Afonsina!...

Afonsina – Luciano!

Leonídia (Dentro)

– Parabéns! Parabéns!

Plácido –

Leonídia...

Velasco (Á parte)

– Pior está essa!...

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