Ato Único - Cena 1
O teatro representa um sala. No fundo, porta de entrada; à esquerda, duas janelas de sacadas, e
à direita duas portas que dão para o interior. Todas as portas e janelas terão cortinas de cassa
branca. À direita, entre as duas portas, um sofá, cadeiras, uma mesa redonda com um
candeeiro francês aceso, duas jarras com flores naturais, alguns bonecos de porcelana; à
esquerda, entre as janelas, mesa pequena com castiçais de mangas de vidro e jarras de flores.
Cadeiras pelos valos vazios das paredes. Todos esses móveis devem ser ricos.
CLEMÊNCIA, NEGREIRO, MARIQUINHA, FELÍCIO. Ao levantar o pano, ver-se-á
CLEMÊNCIA e MARIQUINHA sentadas no sofá; em uma cadeira junto destas NEGREIRO,
recostado sobre a mesa, FELÍCIO, que lê o Jornal do Comércio e levanta às vezes os olhos,
como observando a NEGREIRO.
CLEMÊNCIA - Muito custa viver-se no Rio de Janeiro! É tudo tão caro!
NEGREIRO - Mas o quer a senhora em suma? Os direitos são tão sobrecarregados! Veja só
os gêneros de primeira necessidade. Quanto pagam? O vinho, por exemplo, cinqüenta por
cento!
CLEMÊNCIA - Boto as mãos na cabeça toda as vezes que recebo as contas do armazém e da
loja de fazendas.
NEGREIRO - Porem as mais puxadinhas são as mais modistas, não é assim?
CLEMÊNCIA - Nisso não se fala! Na ultima vez que recebi, vieram dois vestidos que já tinha
pago, um que não tinha mandado fazer, e uma quantidade tal de linhas, colchetes, cadarços e
retroses, que fazia horror.
FELÍCIO - LARGANDO O JORNAL SÔBRE A MESA COM IMPACIÊNCIA - Irra, já
aborrece!
CLEMÊNCIA - O que é?
FELÍCIO - Todas as vezes que pego neste jornal, a primeira coisa que vejo é: "Chapas
medicinais e Ungüento Durand". Que embirração!
NEGREIRO - RINDO-SE Oh, oh, oh!
CLEMÊNCIA - Tens razão, eu mesma já fiz este reparo.
NEGREIRO - As pílulas vegetais não fazem atrás, oh, oh, oh!
CLEMÊNCIA - Por mim, se não fossem os folhetins, não lia o Jornal. O último era bem
bonito; o senhor leu?
NEGREIRO - Eu? Nada. Não gasto o meu tempo com essas ninharias, que são só boas para
as moças.
VOZ NA RUA - Manuê quentinho! ENTRA JÚLIA PELA DIREITA, CORRENDO.
CLEMÊNCIA - Aonde vai, aonde vai?
JÚLIA - PARANDO NO MEIO DA SALA Vou chamar o preto dos manuês.
CLEMENCIA - E pra isso precisa correr? Vá mas não caia. JÚLIA VAI PARA A JANELA E
CHAMA PARA RUA DANDO PSIUS
NEGREIRO - A pecurrucha gosta dos doces.
JÚLIA - DA JANELA - Sim, ai mesmo. SAI DA JANELA E VAI PARA PORTA, ONDE
MOMENTOS DEPOIS CHEGA UM PRÊTO COM UM TABULEIRO DE MANUÊS, E
DESCANSANDO-O NO CHÃO, VENDE-OS A JÚLIA, OS DEMAIS CONTINUAM A
CONVERSAR.
FELÍCIO - Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto
a Fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter ao seu bordo trezentos africanos?
NEGREIRO - A um pobre diabo que está quase maluco... Mas é bem feito, para não ser tolo.
Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só
um pedaço de asno. Há por ai alem uma costa tão longa e algumas autoridades tão
condescendentes!...
FELÍCIO - Condescendentes porque se esquecem de seu dever!
NEGREIRO - Dever? Perdoe que lhe diga: ainda está muito moço... Ora, suponha que chega
um navio carregado de africanos e deriva em uma dessas praias, que o capitão vai dar disso
parte ao juiz do local. O que há-de êste fazer, se for homem cordato e de juízo? Responder do
modo seguinte: Sim senhor, Sr. Capitão, pode contar com a minha proteção, contando que
V.Sa. ... Não sei se me entende? Suponha agora que êste juiz é um homem esturrado, desses
que não sabem aonde tem a cara e vivem no mundo por ver os outros viverem, e que ouvindo
o capitão, responda-lhe com quatro pedras na mão: Não senhor, não consinto! Isso é uma
infame infração da lei e o senhor insulta-me fazendo semelhante proposta! - E que depois
deste aranzel de asneiras pega na pena e oficie ao Govêrno. O que lhe acontece? Responda.
FELÍCIO - Acontece o ficar na conta de integro juiz e homem de bem.
NEGREIRO - Engana-se; fica na conta de pobre, que é menos que pouca coisa. E no entanto
vão os negrinhos para um deposito, a fim de serem depois distribuídos por aquêles de quem
mais se depende, ou que tem maiores empenhos. Calemo-nos, porem isso vai longe.
FELÍCIO - Tem razão! PASSEIA PELA SALA.
NEGREIRO - PARA CLEMÊNCIA - Daqui a alguns anos mais falará de outro modo.
CLEMÊNCIA - Deixe-o falar. A propósito, já lhe mostrei o meu meia-cara, que recebi ontem
na Casa de Correção?
NEGREIRO - Pois recebeu um?
CLEMÊNCIA - Recebi, sim. Empenhei-me com minha comadre, minha comadre
empenhou-se com a mulher do desembargador, a mulher do desembargador pediu ao marido,
êste a um deputado, o deputado ao ministro e fui servida.
NEGREIRO - Oh, oh, chama-se isso transação! Oh, oh!
CLEMÊNCIA - Seja lá o que for; agora que tenho em casa ninguém mo arrancará.
Morrendo-me algum outro escravo, digo que foi êle.
FELÍCIO - E minha tia precisava deste escravo, tendo já tantos?
CLEMÊNCIA - Tantos? Quantos mais, melhor. Ainda eu tomei um só. E os que tomam aos
vinte e aos trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha vê-lo. Sr Negreiro. SAEM.