Ato Único - Cena 1 Os Dois ou O Inglês Maquinista · Capítulo 2 de 30
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Ato Único - Cena 1

O teatro representa um sala. No fundo, porta de entrada; à esquerda, duas janelas de sacadas, e

à direita duas portas que dão para o interior. Todas as portas e janelas terão cortinas de cassa

branca. À direita, entre as duas portas, um sofá, cadeiras, uma mesa redonda com um

candeeiro francês aceso, duas jarras com flores naturais, alguns bonecos de porcelana; à

esquerda, entre as janelas, mesa pequena com castiçais de mangas de vidro e jarras de flores.

Cadeiras pelos valos vazios das paredes. Todos esses móveis devem ser ricos.

CLEMÊNCIA, NEGREIRO, MARIQUINHA, FELÍCIO. Ao levantar o pano, ver-se-á

CLEMÊNCIA e MARIQUINHA sentadas no sofá; em uma cadeira junto destas NEGREIRO,

recostado sobre a mesa, FELÍCIO, que lê o Jornal do Comércio e levanta às vezes os olhos,

como observando a NEGREIRO.

CLEMÊNCIA - Muito custa viver-se no Rio de Janeiro! É tudo tão caro!

NEGREIRO - Mas o quer a senhora em suma? Os direitos são tão sobrecarregados! Veja só

os gêneros de primeira necessidade. Quanto pagam? O vinho, por exemplo, cinqüenta por

cento!

CLEMÊNCIA - Boto as mãos na cabeça toda as vezes que recebo as contas do armazém e da

loja de fazendas.

NEGREIRO - Porem as mais puxadinhas são as mais modistas, não é assim?

CLEMÊNCIA - Nisso não se fala! Na ultima vez que recebi, vieram dois vestidos que já tinha

pago, um que não tinha mandado fazer, e uma quantidade tal de linhas, colchetes, cadarços e

retroses, que fazia horror.

FELÍCIO - LARGANDO O JORNAL SÔBRE A MESA COM IMPACIÊNCIA - Irra, já

aborrece!

CLEMÊNCIA - O que é?

FELÍCIO - Todas as vezes que pego neste jornal, a primeira coisa que vejo é: "Chapas

medicinais e Ungüento Durand". Que embirração!

NEGREIRO - RINDO-SE Oh, oh, oh!

CLEMÊNCIA - Tens razão, eu mesma já fiz este reparo.

NEGREIRO - As pílulas vegetais não fazem atrás, oh, oh, oh!

CLEMÊNCIA - Por mim, se não fossem os folhetins, não lia o Jornal. O último era bem

bonito; o senhor leu?

NEGREIRO - Eu? Nada. Não gasto o meu tempo com essas ninharias, que são só boas para

as moças.

VOZ NA RUA - Manuê quentinho! ENTRA JÚLIA PELA DIREITA, CORRENDO.

CLEMÊNCIA - Aonde vai, aonde vai?

JÚLIA - PARANDO NO MEIO DA SALA Vou chamar o preto dos manuês.

CLEMENCIA - E pra isso precisa correr? Vá mas não caia. JÚLIA VAI PARA A JANELA E

CHAMA PARA RUA DANDO PSIUS

NEGREIRO - A pecurrucha gosta dos doces.

JÚLIA - DA JANELA - Sim, ai mesmo. SAI DA JANELA E VAI PARA PORTA, ONDE

MOMENTOS DEPOIS CHEGA UM PRÊTO COM UM TABULEIRO DE MANUÊS, E

DESCANSANDO-O NO CHÃO, VENDE-OS A JÚLIA, OS DEMAIS CONTINUAM A

CONVERSAR.

FELÍCIO - Sr. Negreiro, a quem pertence o brigue Veloz Espadarte, aprisionado ontem junto

a Fortaleza de Santa Cruz pelo cruzeiro inglês, por ter ao seu bordo trezentos africanos?

NEGREIRO - A um pobre diabo que está quase maluco... Mas é bem feito, para não ser tolo.

Quem é que neste tempo manda entrar pela barra um navio com semelhante carregação? Só

um pedaço de asno. Há por ai alem uma costa tão longa e algumas autoridades tão

condescendentes!...

FELÍCIO - Condescendentes porque se esquecem de seu dever!

NEGREIRO - Dever? Perdoe que lhe diga: ainda está muito moço... Ora, suponha que chega

um navio carregado de africanos e deriva em uma dessas praias, que o capitão vai dar disso

parte ao juiz do local. O que há-de êste fazer, se for homem cordato e de juízo? Responder do

modo seguinte: Sim senhor, Sr. Capitão, pode contar com a minha proteção, contando que

V.Sa. ... Não sei se me entende? Suponha agora que êste juiz é um homem esturrado, desses

que não sabem aonde tem a cara e vivem no mundo por ver os outros viverem, e que ouvindo

o capitão, responda-lhe com quatro pedras na mão: Não senhor, não consinto! Isso é uma

infame infração da lei e o senhor insulta-me fazendo semelhante proposta! - E que depois

deste aranzel de asneiras pega na pena e oficie ao Govêrno. O que lhe acontece? Responda.

FELÍCIO - Acontece o ficar na conta de integro juiz e homem de bem.

NEGREIRO - Engana-se; fica na conta de pobre, que é menos que pouca coisa. E no entanto

vão os negrinhos para um deposito, a fim de serem depois distribuídos por aquêles de quem

mais se depende, ou que tem maiores empenhos. Calemo-nos, porem isso vai longe.

FELÍCIO - Tem razão! PASSEIA PELA SALA.

NEGREIRO - PARA CLEMÊNCIA - Daqui a alguns anos mais falará de outro modo.

CLEMÊNCIA - Deixe-o falar. A propósito, já lhe mostrei o meu meia-cara, que recebi ontem

na Casa de Correção?

NEGREIRO - Pois recebeu um?

CLEMÊNCIA - Recebi, sim. Empenhei-me com minha comadre, minha comadre

empenhou-se com a mulher do desembargador, a mulher do desembargador pediu ao marido,

êste a um deputado, o deputado ao ministro e fui servida.

NEGREIRO - Oh, oh, chama-se isso transação! Oh, oh!

CLEMÊNCIA - Seja lá o que for; agora que tenho em casa ninguém mo arrancará.

Morrendo-me algum outro escravo, digo que foi êle.

FELÍCIO - E minha tia precisava deste escravo, tendo já tantos?

CLEMÊNCIA - Tantos? Quantos mais, melhor. Ainda eu tomei um só. E os que tomam aos

vinte e aos trinta? Deixa-te disso, rapaz. Venha vê-lo. Sr Negreiro. SAEM.

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