Ato Único - Cena 9
ENTRA CECÍLIA E MARIQUINHA
MARIQUINHA - ENTRANDO - É como eu lhe digo.
CECÍLIA - Tu não gostas nada dêle?
MARIQUINHA - Aborreço-o.
CECÍLIA - Ora, deixa-te disso. Êle não é rico?
MARIQUINHA - Dizem que muito.
CECÍLIA - Pois então? Casa-te com êle, tôla.
MARIQUINHA - Mas, Cecília, tu sabes que eu amo o meu primo.
CECÍLIA - E o que tem isso? Estou eu que amo a mais de um, e não perderia um tão bom
casamento como o que agora tens. E tão belo Ter um marido que nos dê carruagens, chácara,
vestidos novos pra todos os bailes... Oh, que fortuna! Já ia sendo feliz uma ocasião. Um
negociante dêstes pé-de-boi, quis casar comigo, a ponto de escrever-me uma carta, fazendo a
promessa; porem logo que soube que eu não tinha dote como êle pensava, sumiu-se e nunca
mais o vi.
MARIQUINHA - E nesse tempo amavas a alguém?
CECÍLIA - Oh, se amava! Não faço outra coisa todos os dias. Olha, amava ao filho de D.
Joana, aquêle tenente, amava aquêle que passava sempre por lá, de casaca verde; amava...
MARIQUINHA - Com efeito! E amava a todos?
CECÍLIA - Pois então?
MARIQUINHA - Tens belo coração de estalagem!
CECÍLIA - Ora, isto não é nada.
MARIQUINHA - Não é nada?
CECÍLIA - Não. Agora tenho mais namorados que nunca; tenho dois militares, um
empregado do Tesouro, o cavalo rabão...
MARIQUINHA - Cavalo rabão?
CECÍLIA - Sim, um que anda num cavalo rabão.
MARIQUINHA - Ah!
CECÍLIA - Tenho mais outros dois que eu não conheço.
MARIQUINHA - Pois também namoras a quem não conheces?
CECÍLIA - Pra namorar não é preciso conhecer. Você quer ver a carta que um dêstes dois
mandou-me mesmo quando estava-me vestindo para sair?
MARIQUINHA - Sim quero.
CECÍLIA - PROCURANDO NO SEIO A CARTA Não tive tempo de deixá-la na gaveta;
minha mãe estava no meu quarto. ABRINDO A CARTA QUE ESTAVA MUITO
DOBRADA Foi o moleque que me entregou. Escute. LENDO "Minha adorada e crepitante
estrêla..." DEIXANDO DE LER Hem?
MARIQUINHA - Continua.
CECÍLIA - LENDO - "Os astros que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores e
atrativos olhos, ofuscaram em tão súbito e sublimado ponto o meu amatório discernimento,
que por ti me enlouqueceu. Sim meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais
feliz do que eu! Se receberes os meus sinceros sofrimentos, sereis ditoso; se não, ficarei louco
e irei viver na Hircânia, no Japão, nos sertões de Minas, enfim, em toda parte aonde possa
encontrar desumanas feras, e lá morrerei. Adeus dêste que jura ser teu, apesar da negra e fria
morte. O mesmo". DEIXANDO DE LER Não está tão bem escrita? Que estilo! Que paixão,
hem? Como estas, ou melhores ainda, tenho lá em casa muitas!
MARIQUINHA - Que te faça muito bom proveito, pois eu não tenho nem uma.
CECÍLIA - Ora veja só! Qual a moça que nunca recebe sua cartinha? Sim, também não
admira; vocês dois moram em casa.
MARIQUINHA - Mas dize-me, Cecília, para que você tem tantos namorados?
CECÍLIA - Para que? Eu te digo; para duas coisas: primeira, para divertir-me; segunda, para
ver se de tantos, algum cai.
MARIQUINHA - Mau calculo. Quando se sabe que uma moça dá corda a todos, todos
brincam, todos...
CECÍLIA - Acaba.
MARIQUINHA - E todos a desprezam.
CECÍLIA - Desprezam! Pois não. Só se se é alguma tôla é que dá logo a perceber que tem
muitos namorados. Cada um dos meus supõe-se único na minha afeição.
MARIQUINHA - Tens habilidade.
CECÍLIA - É tão bom estar-se à janela, vendo-os passar um atrás do outro como os soldados
que passam em continência. Um aceno para um, uma tossezinha para outro, um sorriso, um
escárnio, e vão êles tão contentezinhos...