Ato Único - Cena 9 Os Dois ou O Inglês Maquinista · Capítulo 10 de 30
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Ato Único - Cena 9

ENTRA CECÍLIA E MARIQUINHA

MARIQUINHA - ENTRANDO - É como eu lhe digo.

CECÍLIA - Tu não gostas nada dêle?

MARIQUINHA - Aborreço-o.

CECÍLIA - Ora, deixa-te disso. Êle não é rico?

MARIQUINHA - Dizem que muito.

CECÍLIA - Pois então? Casa-te com êle, tôla.

MARIQUINHA - Mas, Cecília, tu sabes que eu amo o meu primo.

CECÍLIA - E o que tem isso? Estou eu que amo a mais de um, e não perderia um tão bom

casamento como o que agora tens. E tão belo Ter um marido que nos dê carruagens, chácara,

vestidos novos pra todos os bailes... Oh, que fortuna! Já ia sendo feliz uma ocasião. Um

negociante dêstes pé-de-boi, quis casar comigo, a ponto de escrever-me uma carta, fazendo a

promessa; porem logo que soube que eu não tinha dote como êle pensava, sumiu-se e nunca

mais o vi.

MARIQUINHA - E nesse tempo amavas a alguém?

CECÍLIA - Oh, se amava! Não faço outra coisa todos os dias. Olha, amava ao filho de D.

Joana, aquêle tenente, amava aquêle que passava sempre por lá, de casaca verde; amava...

MARIQUINHA - Com efeito! E amava a todos?

CECÍLIA - Pois então?

MARIQUINHA - Tens belo coração de estalagem!

CECÍLIA - Ora, isto não é nada.

MARIQUINHA - Não é nada?

CECÍLIA - Não. Agora tenho mais namorados que nunca; tenho dois militares, um

empregado do Tesouro, o cavalo rabão...

MARIQUINHA - Cavalo rabão?

CECÍLIA - Sim, um que anda num cavalo rabão.

MARIQUINHA - Ah!

CECÍLIA - Tenho mais outros dois que eu não conheço.

MARIQUINHA - Pois também namoras a quem não conheces?

CECÍLIA - Pra namorar não é preciso conhecer. Você quer ver a carta que um dêstes dois

mandou-me mesmo quando estava-me vestindo para sair?

MARIQUINHA - Sim quero.

CECÍLIA - PROCURANDO NO SEIO A CARTA Não tive tempo de deixá-la na gaveta;

minha mãe estava no meu quarto. ABRINDO A CARTA QUE ESTAVA MUITO

DOBRADA Foi o moleque que me entregou. Escute. LENDO "Minha adorada e crepitante

estrêla..." DEIXANDO DE LER Hem?

MARIQUINHA - Continua.

CECÍLIA - LENDO - "Os astros que brilham nas chamejantes esferas de teus sedutores e

atrativos olhos, ofuscaram em tão súbito e sublimado ponto o meu amatório discernimento,

que por ti me enlouqueceu. Sim meu bem, um general quando vence uma batalha não é mais

feliz do que eu! Se receberes os meus sinceros sofrimentos, sereis ditoso; se não, ficarei louco

e irei viver na Hircânia, no Japão, nos sertões de Minas, enfim, em toda parte aonde possa

encontrar desumanas feras, e lá morrerei. Adeus dêste que jura ser teu, apesar da negra e fria

morte. O mesmo". DEIXANDO DE LER Não está tão bem escrita? Que estilo! Que paixão,

hem? Como estas, ou melhores ainda, tenho lá em casa muitas!

MARIQUINHA - Que te faça muito bom proveito, pois eu não tenho nem uma.

CECÍLIA - Ora veja só! Qual a moça que nunca recebe sua cartinha? Sim, também não

admira; vocês dois moram em casa.

MARIQUINHA - Mas dize-me, Cecília, para que você tem tantos namorados?

CECÍLIA - Para que? Eu te digo; para duas coisas: primeira, para divertir-me; segunda, para

ver se de tantos, algum cai.

MARIQUINHA - Mau calculo. Quando se sabe que uma moça dá corda a todos, todos

brincam, todos...

CECÍLIA - Acaba.

MARIQUINHA - E todos a desprezam.

CECÍLIA - Desprezam! Pois não. Só se se é alguma tôla é que dá logo a perceber que tem

muitos namorados. Cada um dos meus supõe-se único na minha afeição.

MARIQUINHA - Tens habilidade.

CECÍLIA - É tão bom estar-se à janela, vendo-os passar um atrás do outro como os soldados

que passam em continência. Um aceno para um, uma tossezinha para outro, um sorriso, um

escárnio, e vão êles tão contentezinhos...

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