Ato Único - Cena 20
ENTRA ALBERTO VAGAROSO E PENSATIVO; OLHA AO REDOR DE SI,
EXAMINANDO TUDO COM ATENÇÃO. VIRA VESTIDO POBREMENTE, MAS COM
DECÊNCIA. NEGREIRO, QUE DA JANELA ESPIANDO O OBSERVA, MOSTRA-SE
ATERRADO DURANTE TODA A SEGUINTE CENA.
ALBERTO - Eis-me depois de dois anos de privações e misérias restituído ao seio de minha
família!
NEGREIRO - À PARTE - O defunto!
ALBERTO - Minha mulher e minha filha ainda se lembrarão de mim? Serão elas felizes, ou
como eu experimentarão os rigores do infortúnio? Há apenas duas horas que desembarquei,
chegando dessas malfadada província aonde dois anos estive prisioneiro. Lá os rebeldes me
detiveram, porque julgavam que eu era um espião; minhas cartas para minha família foram
interceptadas e minha mulher talvez me julgue morto... Dois anos, que mudanças terão
trazidos consigo? Cruel ansiedade! Nada indaguei, quis tudo ver com os meus próprios olhos
... É esta a minha casa, mas êstes moveis não conheço... Mais ricos e suntuosos são do que
aquêles que deixei. Oh, terá também minha mulher mudado? Sinto passos... Ocultemo-nos...
Sinto-me ansioso de temos e alegria... meu Deus! ENCAMINHA-SE PARA JANELA
AONDE ESTA ESCONDIDO NEGREIRO.
NEGREIRO - À PARTE - Oh, diabo! Hei-lo comigo. ALBERTO, QUERENDO
ESCONDER-SE NA JANELA, DÁ COM NEGREIRO E RECUA ESPANTADO
ALBERTO - Um homem! Um homem escondido em minha casa!
NEGREIRO - SAINDO DA JANELA - Senhor!
ALBERTO - Quem es tu? Responde! AGARRA-O
NEGREIRO - Eu, pois não me conheces, Sr. Alberto? Sou Negreiro, seu amigo... Não me
conheces?
ALBERTO - Negreiro... sim... Mas meu amigo, e escondido em casa de minha mulher!
NEGREIRO - Sim senhor, sim senhor, por ser seu amigo é que estava escondido em casa de
sua mulher.
ALBERTO - AGARRANDO NEGREIRO PELO PESCOÇO - Infame!
NEGREIRO - Não me afogue! Olhe que eu grito!
ALBERTO - Dize, por que te escondia?
NEGREIRO - Já lhe disse que por ser seu verdadeiro amigo... Não aperte que não posso, e
então também dou como um cego, em suma.
ALBERTO - DEIXANDO-O - Desculpa-te se podes, ou treme...
NEGREIRO - Agora sim, vá ouvindo. À PARTE Assim safo-me da arriosca e vingo-me, em
suma do inglesinho. PARA ALBERTO Sua mulher é uma traidora!
ALBERTO - Traidora?
NEGREIRO - Traidora, sim, pois não tendo certeza da sua morte, já tratava de casar-se.
ALBERTO - Ela casar-se, tu mentes! AGARRA-O COM FORÇA
NEGREIRO - Olhe que porco a paciência... Que diabo! Por ser seu amigo e vigiar sua mulher
agarra-me desse modo? Tenha propósito ou eu... Cuida que é mentira? Pois esconda-se um
instante comigo e verá. ALBERTO ESCONDE O ROSTO NAS MÃOS E FICA
PENSATIVO. NEGREIRO À PARTE: Não está má a ressurreição! Que surpresa para a
mulher! Ah inglesinho, agora me pagarás!
ALBERTO - TOMANDO-O PELO BRAÇO - Vinde... Tremei porem, se sois um caluniador.
Vinde! ESCONDEM-SE AMBOS NA JANELA E OBSERVAM DURANTE TODA A
CENA SEGUINTE.
NEGREIRO - NA JANELA - A tempo nos escondemos, que alguém se aproxima!