Ato Único - Cena 6
EUFRÁSIA - NA PORTA DO FUNDO - Dá licença, comadre?
CLEMÊNCIA - Oh, comadre, pode entrar! CLEMÊNCIA E MARIQUINHA
ENCAMINHAM-SE PARA A PORTA, ASSIM COMO FELÍCIO; GAINER FICA NO
MEIO DA SALA. ENTRAM EUFRÁSIA, CECÍLIA, JOÃO DO AMARAL, UM MENINO
DE DEZ ANOS, UMA NEGRA COM UMA CRIANÇA NO COLO E UM MOLEQUE
VESTIDO DE CALÇA E JAQUETA E CHAPÉU DE OLEADO. CLEMÊNCIA,
ABRAÇANDO EUFRÁSIA. Como tem passado?
EUFRÁSIA - Assim, assim.
CLEMÊNCIA - Ora esta, comadre!
JOÃO DO AMARAL - Senhora D. Clemência?
CLEMÊNCIA - Sr. João, viva! Como está?
MARIQUINHA - PARA CECÍLIA, ABRAÇANDO E DANDO BEIJO. - Há quanto tempo!
CECÍLIA - Você passa bem? TODOS CUMPRIMENTAM-SE. FELÍCIO APERTA A MÃO
DE JOÃO DO AMARAL, CORTEJA AS SENHORAS. JOÃO DO AMARAL CORTEJA
MARIQUINHA.
CLEMÊNCIA - Venham se assentar.
EUFRÁSIA - Nós nos demoraremos pouco.
CLEMÊNCIA - É que faltava.
MARIQUINHA - PEGANDO NA CRIANÇA. - O Lulu como está bonito! COBRE-O DE
BEIJO.
CLEMÊNCIA - CHEGANDO-SE PARA VER. - Coitadinho, coitadinho! FAZENDO-LHE
FESTAS: Psiu, psiu, negrinho! Como é galante.
EUFRÁSIA - Tem andado muito rabugento com a desenteria dos dentes.
MARIQUINHA - Pobrezinho. Psiu, psiu, bonito! MARIQUINHA TOMA A CRIANÇA DA
NEGRA
EUFRÁSIA - Olhe que não faça alguma desfeita!
MARIQUINHA - Não faz mal. MARIQUINHA LEVA A CRIANÇA PARA JUNTO DO
CANDIEIRO E, MOSTRANDO-LHE A LUZ, BRINCA COM ÊLE AD LIBITUM.
CLEMÊNCIA - Descanse um pouco, comadre. PUXA-LHE PELA SAIA PARA JUNTO DO
SOFÁ
JOÃO- Não podemos ficar muito tempo.
CLEMÊNCIA - Já o senhor principia com suas impertinências. Assentem-se. CLEMÊNCIA
E EUFRÁSIA ASSENTAM-SE NO SOFÁ; JOÃO DO AMARAL, FELÍCIO, GAINER E O
MENINO, NAS CADEIRAS; CECÍLIA E JÚLIA FICAM EM PÉ JUNTO A
MARIQUINHA, QUE BRINCAM COM A CRIANÇA.
EUFRÁSIA - ASSENTANDO-SE. - Ai, estou cansada de subir suas escadas!
CLEMÊNCIA - Pois passe a noite comigo e faça a outra visita amanhã.
JOÃO DO AMARAL - Não pode ser.
CLEMÊNCIA - Deixe-se disso. BATENDO PALMAS: Ó lá de dentro?
EUFRÁSIA - Não, comadre. CHEGA UM PAJEM PARDO À PORTA
CLEMÊNCIA - Aprontem o chá depressa. SAI O PAJEM
JOÃO - Não pode ser, muito obrigado.
FELÍCIO - Aonde vai com tanta pressa, minha senhora?
EUFRÁSIA - Nós?
JOÃO - PARA FELÍCIO. - Um pequeno negocio.
EUFRÁSIA - Vamos à casa de D. Rita.
CLEMÊNCIA - Deixe-se de D. Rita. Que vai lá fazer?
EUFRÁSIA - Vamos pedir a ela para falar à mulher do Ministro.
CLEMÊNCIA - Pra que?
EUFRÁSIA - Nós ontem ouvimos dizer que se ia criar uma repartição nova e queria ver se
arranjávamos um lugar pra João.
CLEMÊNCIA - Já não ateimo.
FELÍCIO - PARA JOÃO. - Estimarei muito que seja atendido; é justiça que lhe fazem.
EUFRÁSIA - O senhor diz bem.
JOÃO - Sou empregado de repartição extinta; assim, é justo que me empreguem. Até mesmo
é economia.
GAINER - Economia sim.
JOÃO - PARA GAINER. - Há muito tempo que me deviam ter empregado, mas enfim...
CLEMÊNCIA - Não se vê senão injustiças.
EUFRÁSIA - Comadre, passando de uma coisa para outra: a costureira estêve cá hoje?
CLEMÊNCIA - Estêve e me trouxe os vestidos novos.
EUFRÁSIA - Mande buscar.
CECÍLIA - Sim, sim, mande-os buscar, madrinha.
CLEMÊNCIA - BATENDO PALMAS. - Pulquéria? DENTRO UMA VOZ - Senhora?
CLEMÊNCIA - Vem cá.
CECÍLIA - PARA MARIQUINHA - Quantos vestidos novos você mandou fazer?
MARIQUINHA e CLEMÊNCIA- Dois. ENTRA UMA RAPARIGA
CLEMÊNCIA- Vá la dentro do meu quarto de vestir, dentro do meu guarda-fato à direita, tira
os vestidos novos que vieram hoje. Olha, não machuque os outros. Vai anda. SAI A
RAPARIGA
CECÍLIA - PARA MARIQUINHA - De que moda mandou fazer os vestidos?
MARIQUINHA - Diferentes e... Ora, ora Lulu, que lôgro!
EUFRÁSIA e Cecília - O que foi?
MARIQUINHA - Mijou-se tôda!
EUFRÁSIA - Não lhe disse? OS MAIS RIEM-SE
MARIQUINHA - Marotinho!
EUFRÁSIA - Rosa, pega o menino.
CECÍLIA - Eu já não gosto de pegar nêle por isso. A PRETA TOMA O MENINO E
MARIQUINHA FICA SACUDINDO O VESTIDO
JOÃO - Foi boa peça!
MARIQUINHA - Não faz mal. ENTRA A RAPARIGA COM QUATRO VESTIDOS E
ENTREGA A CLEMENCIA.
JOÃO - PARA FELÍCIO - Temos maçada!
FELÍCIO - Estão as senhoras no seu geral.
CLEMÊNCIA - MOSTRANDO OS VESTIDOS - Olhe. AS QUATRO SENHORAS
AJUNTAM-SE Á RODA DOS VESTIDOS E EXAMINAM ORA UM, ORA OUTRO; A
RAPARIGA FICA EM PÉ NA PORTA; O MENINO BOLE EM TUDO QUANTO ACHA E
TREPA NAS CADEIRAS PARA BULIR COM OS VIDROS; FELÍCIO E GAINER
LEVANTAM-SE E PASSEIAM DE BRAÇOS DADOS PELA SALA, CONVERSANDO.
AS QUATRO SENHORAS QUASE QUE FALAM AO MESMO TEMPO.
CECÍLIA - Esta chita é bonita.
EUFRÁSIA - Olhe esse riscadinho, menina!
CLEMÊNCIA- Pois custou bem barato; comprei à porta.
CECÍLIA - Que feitio tão elegante! Êste é seu, não é?
MARIQUINHA - É, eu mesmo é que dei o molde.
CLEMÊNCIA- São todos diferentes. Êste é de costa lisa, e êste não.
CECÍLIA - Êste há-de ficar bem.
CLEMÊNCIA- Muito bem. É uma luva.
MARIQUINHA - Já viu o feitio desta manga?
CECÍLIA - É verdade como é bonita! Olhe, minha mãe.
EUFRÁSIA - São de pregas enviesadas. PARA O MENINO Menino fique quieto.
MARIQUINHA - Êste cabeção fica muito bem.
CECÍLIA - Tenho um assim.
EUFRÁSIA - Que roda!
MARIQUINHA - Assim é que eu gosto.
CLEMÊNCIA- E não levou muito caro.
EUFRÁSIA - Quanto? PARA O MENINO Juca, desce daí.
CLEMÊNCIA- A três mil-réis.
EUFRÁSIA - Não é caro.
CECÍLIA - Parece seda essa chita. PARA O MENINO Juquinha, mamãe já disse que fique
quieto
CLEMÊNCIA- A Merenciana está cortando muito bem.
EUFRÁSIA - É assim.
CECÍLIA - Já não mandam fazer mais na casa das francesas?
MARIQUINHA - Mandam só os de seda.
CLEMÊNCIA- Não vale a pena mandar fazer vestidos de chita pelas francesas; pedem
sempre tanto dinheiro! ESSA CENA DEVE SER TÔDA MUITO VIVA. OUVE-SE
DENTRO BULHA DE LOUÇA QUE SE QUEBRA. O que é isso la dentro?
VOZ LÁ DE DENTRO - Não é nada senhora.
CLEMÊNCIA- Nada? O que é que se quebrou lá dentro? Negras!...
VOZ LÁ DE DENTRO - Foi o cachorro.
CLEMÊNCIA - Estas minhas negras!... Com licença. CLEMÊNCIA SAI
EUFRÁSIA - É tão descuidada esta nossa gente!
JOÃO DO AMARAL - É preciso ter paciência. OUVE-SE DENTRO BULHA COMO DE
BOFETADAS E CHICOTADAS Aquela pagou caro..
EUFRÁSIA - GRITANDO - Comadre, não se aflija.
JOÃO DO AMARAL - Se assim não fizer nada tem.
EUFRÁSIA - Basta, comadre perdoe por esta . CESSAM AS CHICOTADAS Êstes nossos
escravos fazem-nos criar cabelos brancos. ENTRA CLEMÊNCIA ARRANJANDO O
LENÇO DO PESCOÇO E MUITO ESFOGUEADA.
CLEMÊNCIA - Os senhores desculpem, mas não se pode... ASSENTA-SE E TOMA
RESPIRAÇÃO Ora veja só! Foram aquelas desavergonhadas deixar mesmo na beira da mesa
a salva com os copos pra o cachorro dar com todo no chão! Mas pagou-me!
EUFRÁSIA - Lá por casa é a mesma coisa. Ainda ontem a pamonha da minha Joana quebrou
duas xícaras.
CLEMÊNCIA - Fazem perder a paciência. Ao menos as duas não são tão mandrionas.
EUFRÁSIA - Não são? Xi! Se eu lhe contar não há de crer. Ontem, todo o santo dia a Mônica
levou a ensaboar quatro camisas do João.
CLEMÊNCIA - E porque não as esfrega.
EUFRÁSIA - É o que a comadre pensa.
CLEMÊNCIA - Eu não gosto de dar pancadas. Porem, deixemo-nos disso agora. A comadre
ainda não viu o meu africano?
EUFRÁSIA - Não. Pois teve um?
CLEMÊNCIA - Tive; venham ver. LEVANTA-SE Deixe os vestidos ai que a rapariga vem
buscar. Felício, dize ao senhor Mister que se quiser entrar não faça cerimônia.
GAINER - Muito obrigada.
CLEMÊNCIA- Então, com sua licença.
EUFRÁSIA - PARA A PRETA - Traz o menino. SAEM CLEMÊNCIA, EUFRÁSIA,
MARIQUINHA, CECÍLIA, JOÃO DO AMARAL, JÚLIA, O MENINO, A PRETA E O
MOLEQUE.