Ato Único - Cena 6 Os Dois ou O Inglês Maquinista · Capítulo 7 de 30
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Ato Único - Cena 6

EUFRÁSIA - NA PORTA DO FUNDO - Dá licença, comadre?

CLEMÊNCIA - Oh, comadre, pode entrar! CLEMÊNCIA E MARIQUINHA

ENCAMINHAM-SE PARA A PORTA, ASSIM COMO FELÍCIO; GAINER FICA NO

MEIO DA SALA. ENTRAM EUFRÁSIA, CECÍLIA, JOÃO DO AMARAL, UM MENINO

DE DEZ ANOS, UMA NEGRA COM UMA CRIANÇA NO COLO E UM MOLEQUE

VESTIDO DE CALÇA E JAQUETA E CHAPÉU DE OLEADO. CLEMÊNCIA,

ABRAÇANDO EUFRÁSIA. Como tem passado?

EUFRÁSIA - Assim, assim.

CLEMÊNCIA - Ora esta, comadre!

JOÃO DO AMARAL - Senhora D. Clemência?

CLEMÊNCIA - Sr. João, viva! Como está?

MARIQUINHA - PARA CECÍLIA, ABRAÇANDO E DANDO BEIJO. - Há quanto tempo!

CECÍLIA - Você passa bem? TODOS CUMPRIMENTAM-SE. FELÍCIO APERTA A MÃO

DE JOÃO DO AMARAL, CORTEJA AS SENHORAS. JOÃO DO AMARAL CORTEJA

MARIQUINHA.

CLEMÊNCIA - Venham se assentar.

EUFRÁSIA - Nós nos demoraremos pouco.

CLEMÊNCIA - É que faltava.

MARIQUINHA - PEGANDO NA CRIANÇA. - O Lulu como está bonito! COBRE-O DE

BEIJO.

CLEMÊNCIA - CHEGANDO-SE PARA VER. - Coitadinho, coitadinho! FAZENDO-LHE

FESTAS: Psiu, psiu, negrinho! Como é galante.

EUFRÁSIA - Tem andado muito rabugento com a desenteria dos dentes.

MARIQUINHA - Pobrezinho. Psiu, psiu, bonito! MARIQUINHA TOMA A CRIANÇA DA

NEGRA

EUFRÁSIA - Olhe que não faça alguma desfeita!

MARIQUINHA - Não faz mal. MARIQUINHA LEVA A CRIANÇA PARA JUNTO DO

CANDIEIRO E, MOSTRANDO-LHE A LUZ, BRINCA COM ÊLE AD LIBITUM.

CLEMÊNCIA - Descanse um pouco, comadre. PUXA-LHE PELA SAIA PARA JUNTO DO

SOFÁ

JOÃO- Não podemos ficar muito tempo.

CLEMÊNCIA - Já o senhor principia com suas impertinências. Assentem-se. CLEMÊNCIA

E EUFRÁSIA ASSENTAM-SE NO SOFÁ; JOÃO DO AMARAL, FELÍCIO, GAINER E O

MENINO, NAS CADEIRAS; CECÍLIA E JÚLIA FICAM EM PÉ JUNTO A

MARIQUINHA, QUE BRINCAM COM A CRIANÇA.

EUFRÁSIA - ASSENTANDO-SE. - Ai, estou cansada de subir suas escadas!

CLEMÊNCIA - Pois passe a noite comigo e faça a outra visita amanhã.

JOÃO DO AMARAL - Não pode ser.

CLEMÊNCIA - Deixe-se disso. BATENDO PALMAS: Ó lá de dentro?

EUFRÁSIA - Não, comadre. CHEGA UM PAJEM PARDO À PORTA

CLEMÊNCIA - Aprontem o chá depressa. SAI O PAJEM

JOÃO - Não pode ser, muito obrigado.

FELÍCIO - Aonde vai com tanta pressa, minha senhora?

EUFRÁSIA - Nós?

JOÃO - PARA FELÍCIO. - Um pequeno negocio.

EUFRÁSIA - Vamos à casa de D. Rita.

CLEMÊNCIA - Deixe-se de D. Rita. Que vai lá fazer?

EUFRÁSIA - Vamos pedir a ela para falar à mulher do Ministro.

CLEMÊNCIA - Pra que?

EUFRÁSIA - Nós ontem ouvimos dizer que se ia criar uma repartição nova e queria ver se

arranjávamos um lugar pra João.

CLEMÊNCIA - Já não ateimo.

FELÍCIO - PARA JOÃO. - Estimarei muito que seja atendido; é justiça que lhe fazem.

EUFRÁSIA - O senhor diz bem.

JOÃO - Sou empregado de repartição extinta; assim, é justo que me empreguem. Até mesmo

é economia.

GAINER - Economia sim.

JOÃO - PARA GAINER. - Há muito tempo que me deviam ter empregado, mas enfim...

CLEMÊNCIA - Não se vê senão injustiças.

EUFRÁSIA - Comadre, passando de uma coisa para outra: a costureira estêve cá hoje?

CLEMÊNCIA - Estêve e me trouxe os vestidos novos.

EUFRÁSIA - Mande buscar.

CECÍLIA - Sim, sim, mande-os buscar, madrinha.

CLEMÊNCIA - BATENDO PALMAS. - Pulquéria? DENTRO UMA VOZ - Senhora?

CLEMÊNCIA - Vem cá.

CECÍLIA - PARA MARIQUINHA - Quantos vestidos novos você mandou fazer?

MARIQUINHA e CLEMÊNCIA- Dois. ENTRA UMA RAPARIGA

CLEMÊNCIA- Vá la dentro do meu quarto de vestir, dentro do meu guarda-fato à direita, tira

os vestidos novos que vieram hoje. Olha, não machuque os outros. Vai anda. SAI A

RAPARIGA

CECÍLIA - PARA MARIQUINHA - De que moda mandou fazer os vestidos?

MARIQUINHA - Diferentes e... Ora, ora Lulu, que lôgro!

EUFRÁSIA e Cecília - O que foi?

MARIQUINHA - Mijou-se tôda!

EUFRÁSIA - Não lhe disse? OS MAIS RIEM-SE

MARIQUINHA - Marotinho!

EUFRÁSIA - Rosa, pega o menino.

CECÍLIA - Eu já não gosto de pegar nêle por isso. A PRETA TOMA O MENINO E

MARIQUINHA FICA SACUDINDO O VESTIDO

JOÃO - Foi boa peça!

MARIQUINHA - Não faz mal. ENTRA A RAPARIGA COM QUATRO VESTIDOS E

ENTREGA A CLEMENCIA.

JOÃO - PARA FELÍCIO - Temos maçada!

FELÍCIO - Estão as senhoras no seu geral.

CLEMÊNCIA - MOSTRANDO OS VESTIDOS - Olhe. AS QUATRO SENHORAS

AJUNTAM-SE Á RODA DOS VESTIDOS E EXAMINAM ORA UM, ORA OUTRO; A

RAPARIGA FICA EM PÉ NA PORTA; O MENINO BOLE EM TUDO QUANTO ACHA E

TREPA NAS CADEIRAS PARA BULIR COM OS VIDROS; FELÍCIO E GAINER

LEVANTAM-SE E PASSEIAM DE BRAÇOS DADOS PELA SALA, CONVERSANDO.

AS QUATRO SENHORAS QUASE QUE FALAM AO MESMO TEMPO.

CECÍLIA - Esta chita é bonita.

EUFRÁSIA - Olhe esse riscadinho, menina!

CLEMÊNCIA- Pois custou bem barato; comprei à porta.

CECÍLIA - Que feitio tão elegante! Êste é seu, não é?

MARIQUINHA - É, eu mesmo é que dei o molde.

CLEMÊNCIA- São todos diferentes. Êste é de costa lisa, e êste não.

CECÍLIA - Êste há-de ficar bem.

CLEMÊNCIA- Muito bem. É uma luva.

MARIQUINHA - Já viu o feitio desta manga?

CECÍLIA - É verdade como é bonita! Olhe, minha mãe.

EUFRÁSIA - São de pregas enviesadas. PARA O MENINO Menino fique quieto.

MARIQUINHA - Êste cabeção fica muito bem.

CECÍLIA - Tenho um assim.

EUFRÁSIA - Que roda!

MARIQUINHA - Assim é que eu gosto.

CLEMÊNCIA- E não levou muito caro.

EUFRÁSIA - Quanto? PARA O MENINO Juca, desce daí.

CLEMÊNCIA- A três mil-réis.

EUFRÁSIA - Não é caro.

CECÍLIA - Parece seda essa chita. PARA O MENINO Juquinha, mamãe já disse que fique

quieto

CLEMÊNCIA- A Merenciana está cortando muito bem.

EUFRÁSIA - É assim.

CECÍLIA - Já não mandam fazer mais na casa das francesas?

MARIQUINHA - Mandam só os de seda.

CLEMÊNCIA- Não vale a pena mandar fazer vestidos de chita pelas francesas; pedem

sempre tanto dinheiro! ESSA CENA DEVE SER TÔDA MUITO VIVA. OUVE-SE

DENTRO BULHA DE LOUÇA QUE SE QUEBRA. O que é isso la dentro?

VOZ LÁ DE DENTRO - Não é nada senhora.

CLEMÊNCIA- Nada? O que é que se quebrou lá dentro? Negras!...

VOZ LÁ DE DENTRO - Foi o cachorro.

CLEMÊNCIA - Estas minhas negras!... Com licença. CLEMÊNCIA SAI

EUFRÁSIA - É tão descuidada esta nossa gente!

JOÃO DO AMARAL - É preciso ter paciência. OUVE-SE DENTRO BULHA COMO DE

BOFETADAS E CHICOTADAS Aquela pagou caro..

EUFRÁSIA - GRITANDO - Comadre, não se aflija.

JOÃO DO AMARAL - Se assim não fizer nada tem.

EUFRÁSIA - Basta, comadre perdoe por esta . CESSAM AS CHICOTADAS Êstes nossos

escravos fazem-nos criar cabelos brancos. ENTRA CLEMÊNCIA ARRANJANDO O

LENÇO DO PESCOÇO E MUITO ESFOGUEADA.

CLEMÊNCIA - Os senhores desculpem, mas não se pode... ASSENTA-SE E TOMA

RESPIRAÇÃO Ora veja só! Foram aquelas desavergonhadas deixar mesmo na beira da mesa

a salva com os copos pra o cachorro dar com todo no chão! Mas pagou-me!

EUFRÁSIA - Lá por casa é a mesma coisa. Ainda ontem a pamonha da minha Joana quebrou

duas xícaras.

CLEMÊNCIA - Fazem perder a paciência. Ao menos as duas não são tão mandrionas.

EUFRÁSIA - Não são? Xi! Se eu lhe contar não há de crer. Ontem, todo o santo dia a Mônica

levou a ensaboar quatro camisas do João.

CLEMÊNCIA - E porque não as esfrega.

EUFRÁSIA - É o que a comadre pensa.

CLEMÊNCIA - Eu não gosto de dar pancadas. Porem, deixemo-nos disso agora. A comadre

ainda não viu o meu africano?

EUFRÁSIA - Não. Pois teve um?

CLEMÊNCIA - Tive; venham ver. LEVANTA-SE Deixe os vestidos ai que a rapariga vem

buscar. Felício, dize ao senhor Mister que se quiser entrar não faça cerimônia.

GAINER - Muito obrigada.

CLEMÊNCIA- Então, com sua licença.

EUFRÁSIA - PARA A PRETA - Traz o menino. SAEM CLEMÊNCIA, EUFRÁSIA,

MARIQUINHA, CECÍLIA, JOÃO DO AMARAL, JÚLIA, O MENINO, A PRETA E O

MOLEQUE.

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