A Luz
Acordo. Ainda é noite. O céu esfuma-se na sombra e o perfil umbroso da montanha, fronteira à minha janela, destaca-se no dilúculo. Respira de leve a aragem. Aclara aos poucos. Sente-se a luz em marcha. Já as árvores aparecem e as casas realçam, brancas, na massa da verdura.
Chia uma cigarra; outras respondem vividas e um coro de chilreios enche o silêncio pálido. É o despertar nos ramos. Debruço-me à janela e, em êxtase, contemplo o maravilhoso espetáculo do amanhecer. O céu recama-se de cores: e uma palheta o oriente e as tintas, que dele escorrem, broslam a paisagem, colorindo-a.
Chove polilha de ouro. Abre-se de todo o azul; responde a terra com o seu verde. O primeiro raio de sol recena um outeiro e logo as ervas rebrilham. A claridade alastra. Enche-se o ar de vôos ágeis. Estrídulo recresce o canto matinal dos pássaros. Um sino soa, límpido.
Passam trabalhadores ainda estremunhados; rodam veículos. Ressoa soturnamente, longínqua, uma sereia de fábrica. São os rumores da vida que recomeça. A vida... Tudo ressurge! Entre as folhas rasteiras andam insetos minúsculos, formigas desfilam em fieiras.
Tudo acorda e entra em atividade: os elementos da natureza, o homem, os animais, os mínimos seres, as coisas, porque as folhas vibram, as flores exalam, o mesmo pó levanta-se. É a vida!... O relógio bate sonoramente: são os passos do tempo, as horas. O próprio invisível agita-se, porque é ele, o vento, que meneia, brando e brando, as folhas.
Entretanto, em todo esse deslumbramento ativo, há escuridão e silêncio, falta alguma coisa que minha alma procura em vão. Já o sol rebrilha, fúlguro. Abrem-se todas as janelas: são as casas que acordam. Foi-se o sono dentro da noite. E ele? Por que não acorda? Por que não vem do sono? Por que não o despertará a luz; ela, que fez o milagre de vencer a noite no céu, na terra e nos mares; ela, que desencantou a natureza toda; ela, que fez desabrochar a manhã brilhante; ela, onipotente; ela, eterna; ela divina, por que não despertará o que adormeceu?
E o sol ressurge; o sol, que é tudo. E um pouco de terra humana resiste na morte ao reclamo miraculoso da madrugada. De que me serve, a mim, todo o esplendor da tua claridade, ó Luz, se, em vez de trazer-me alegria, mais me entristece o coração? Fazes o dia, tiras o sol do oriente, és a Vida e não tens força para arrancar de um túmulo um pouco de terra.
De que te serve o Poder? E, se o tens, porque só o manifestas no céu, ressuscitando o dia, e deixas a terra cheia de saudades? És como os pródigos que se dissipam em festins e negam um mendrugo ao pobre que lhes estende a mão.