A Minha Mesa
Sete palmos exatos mede a minha mesa, tantos como um túmulo. Não lhe sabia eu a extensão e nunca atenderia a tal grandeza, para mim maior do que a do mais vasto império, se a não houvesse tomado com o teu corpo. Não há chão mais fértil do que a tábua desse móvel, solo em que mourejo há trinta e três anos, sem repouso, granjeando a lenha, o pão e o linho e jamais deixou de medrar, ainda que o escopelismo da maldade por vezes tenha procurado abafá-la.
Por mais ásperos que hajam sido os temporais - e quantos me têm passado pela vida - nunca me sucedeu tornar desse abençoado alfobre, que rego com o meu suor, de mãos vazias. Em qualquer dos seus pontos pode ser posto um sacrário por que, em toda ela, não há um milímetro inquinado.
Nunca a pena com que lavro abriu sulco para má semente: cova para protérvias, esconderijo para amealhar suborno. O que dela vem a flux pouco é, mas desse pouco é puro, sem cizânia, e sempre me bastou, e jamais dele me servi com remorso. Mal amanhece busco-a e ponho-me logo a trabalhar e, assim como o lavrador enche os carros de ceifa, assim vou enchendo páginas com os meus sonhos.
E a imaginação, como as abelhas e as borboletas, que trazem pólen para fecundar as flores, traz, igualmente, para os meus devaneios, imagens e alegorias com que se ornamenta o agro dos meus escritos. Nessa mesa fundei alicerces e levantei construções: ela é o meu pequeno império, o meu domínio, o meu diversório e o meu celeiro, o meu retiro de paz e o meu horto de oliveiras.
Sete palmos! Toda uma vida no espaço que tomou, estendido, um corpo morto: o teu, meu filho! Foi nessa mesa que passaste a tua derradeira noite em nossa companhia, em tua casa, casa de teus pais e de teus irmãos. Foi nesse campo de trabalho, transformado em essa, que ficaste exposto aos nossos olhos toda uma noite, a última e definitiva, noite subterrânea, impermeável à luz.
Ficaste onde ficam meus livros, na banca em que exerço o meu labor ingrato à qual, em pequenino, vinhas engatinhando e distraias-me com os teus tartareios infantis, que eram como botões das palavras que, pouco a pouco, se te desabrochavam na boca. Foi nessa mesa que aprendeste a ler com tua mãe e garranchastes, de mão adunca. os primeiros gatafunhos.
E, quanta vez, à noite, enquanto eu trabalhava e ela sorria, contemplando-te de longe, escondida na sombra, tu, com os teus soldadinhos de chumbo, improvisavas batalhas, e o meu tinteiro era fortaleza e eram os meus livros e mais objetos espalhados, baluartes pugnacíssimos contra os quais impelias os teus batalhões de estanho.
E eu, suspendendo o que fazia, entrava no teu brinquedo, mais pueril do que tu, porque tomava a sério os combates e, a golpes de caneta ou espátula, arrasava as hostes que sitiavam um dicionário ou que procuravam escalar o porta-cartas. E como terminavam as guerras das tuas conquistas? Com os soldados espalhados e os tachos da cabeleira do general no campo da batalha, porque a cabecinha linda, que tantos planos terríveis engendrara, não resistia ao sono e, inclinando-se sobre os bracinhos enrodilhados, ali ficava como a dos anjos rafaelitas, até que a ama, tomando ao colo o herói, que eras tu, deixava a mesa sem o seu gracioso ornato.
Agora, quando me sento para trabalhar, o que logo me aparece aos olhos é o teu corpo imóvel, rígido, vestido de negro, cercado de flores, entre círios, com um crucifixo nas mãos enclavinhadas. E depois no caixão em que te levaram de nós... Por fim, desfeita a visão a mesa reaparece, disposta, como outrora, antes do desastre, com os apetrechos de trabalho.
Tu é que és agora a minha inspiração, tudo me vem de ti e, assim como o teu corpo enche o âmbito da cova, a tua imagem ocupa a minha mesa, como se nela houvesse ficado impressa e a saudade, que é o que me resta de ti, enche-me a alma. E tudo quanto imagino e busco traduzir em palavras ressente-se de ti - assim a água que brota de terreno mineralizado satura-se das substâncias que nele jazem e o ar que circula em silva em flor impregna-se de aroma.
Tornaste a minha mesa um campo santo. Nela demoraste horas: toda uma noite e toda uma manhã; dela saíste para o sempre, mas o que eu nela escrevo sente-se do que de ti lhe ficou. Às vezes, no silêncio da casa adormecida, trabalhando, ouço trepidações e uma voz que parece vir dentro de risos incitando a combate. E a mesa enche-se de soldadinhos e uma cabecinha trêfega, aureolada de cachos, agita-se nervosa... Cessa a trepidação, aquietam-se os soldados, a cabecinha inclina-se...
Ó visão do passado, espetro da ventura, saudade! E tudo se resolve; infelizmente, em tristeza e, em vez de vitória, terminada com o sono do guerreiro, sono de que ele acordava com o renascer da luz, alegrando em rumor a casa toda, o que eu, então, vejo, é a derrota, o corpo inerte que adormeceu para o sempre entre flores e círios.
E é tudo que me resta na mesa em que trabalho, mesa que era o meu império, o meu domínio, o meu alfobre feliz, toda a minha riqueza, onde eu semeava e colhia à farta. E não havia chão mais fértil do que a tábua desse móvel. Hoje... que se pode tirar de um cemitério?
Que se pode semear nos sete palmos de um túmulo? Lágrimas não florescem e bom é que assim seja, porque seriam letais, como as da mancenilha, as flores que produzissem. Livros Grátis