Tempestade Mano · Capítulo 29 de 35
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Tempestade

Noite lúgubre. Estortegam-se agoniadamente as árvores ao vento. Bátegas rufam nas telhas. Por entre as frinchas das janelas afuzilam clarões. Rápido esfria em regelo. À rajada mais forte o arvorado rumoreja estabanadamente. A enxurrada chofra, gorgoleja torrencial, rasgada, de quando em quando, por automóveis que passam.

Troam, estrepitam, ribombam trovões. No bater das portas e das janelas tem-se a impressão de que andam a forçar a casa. Acendem-se luzes. São as crianças que despertaram sobressaltadas com os fragores. A estampido mais rijo ei-las de pé, espavoridas. Correm a refugiar-se junto a nós.

E o estridor aumenta. Deflagram explosões seguindo-se-lhes silêncio pávido. De repente a chuva jorra cheia e grossa estalando na rua. O vento uiva rondando o espaço; distancia-se, torna, envolve a casa como matilha que se encarniça furiosamente em presa.

Luzem relâmpagos mais freqüentes. A própria luz das lâmpadas vasqueja, freme em crispações de espamo e, a súbitas, apaga-se. E a escuridão, que amedronta, laiva-se de livores convulsos. Penso nos que se acham lá fora, à intempérie. Quantos!

Penso em ti! Sentirás no teu túmulo o rigor da tormenta? Não creio. Se tal se desse com mais razão terias sentido a que se desencadeou em nossos corações quando, com a respiração já flébil, nos arquejos dos últimos anélitos, tinhas em nós os olhos fitos e marejados de água.

Nada sentias - nem os soluços, nem as deprecações, nem as vozes desesperadas com que, através de lágrimas, bradávamos para que não partisses. Se não sentiste naquele angustioso instante, quando ainda te não arrancaras de todo a nossa esperança. preso à vida pelo olhar, que poderás sentir agora, silêncio cm que jazes, nessa profundidade, a maior de todas as profundidades, onde, se riso chega o nosso amor, não chegará, decerto, a raiva das tempestades!

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