Instante Eterno
Através dos minutos como em poeira de entrada, os dias giram velozes na vertigem do Tempo. Dealba, fulge o sol; empalidece a tarde; cinza-se o crepúsculo e a noite obumbra-se. Treva, de todo negra ou cravejada de astros. Eis, de novo. a manhã clara. Sob o dia, reluma; logo, porém. começa a declinar e enubla-se.
Anoitece. E não cessa o movimento: dias sobre noites, noites sobre dias. Aquele instante, porém, subsiste eterno, o mesmo em que para mim, encerrou-se o ciclo da ventura. Dias e noite são raios da roda que não pára; o lúgubre momento é fixo, como o eixo em volta do qual o Tempo célere circuita.
Anos que eu viva, séculos que vivesse, ainda que, por desdita, me tornasse eterno, toda a minha existência os meus dias, anos, séculos infindos haviam de girar em torno do minuto trágico em que o vi tombar da juventude no túmulo, como flor talada em pleno viço que caísse num lago e, ferindo as águas nelas abrisse círculos progressivos, até os extremos das margens.
Assim também chegará até o fim da minha vida a lembrança do instante em que o perdi de mim em torno do qual os dias passam, passam os meses, hão de passar os anos sem que eu os sinta, porque todo me concentro no momento em que ele caiu para o sempre, eixo de onde partem, abrindo-se infinitamente e, cada vez maiores, as saudades no meu coração, como as enciclias se frisam e dilatam na água ferida em um ponto, pela flor decídua.