A Memória
Dantes não havia homem mais rico do que eu, e o meu tesouro chamava-se – memória. O que eu tinha ali acumulado o com que ordem! Desde a infância a ajuntar por dia... E tanto era eu desejar como ser logo atendido. No dia último dos dez do meu martírio quando me convenci que morrias, não sei que se passou em mim.
Foi como se reduzissem a cinzas todo o meu tesouro. Falando ou escrevendo esquecem-me as expressões, faltam-me os termos. Só tu ficaste, tu só, tudo mais se esvaiu. Assenhoreaste-te da casa das relíquias e nela imperas, solitário e dono. E, agora, se recorro à memória por um nome, é o teu que, de pronto, me responde; se procuro recompor uma imagem, é a tua que se me afigura; se atento a um som remoto, ouço-te voz; se insisto em recordar uma cena, vejo te, e como? Infante, menino, adolescente ou jovem, como te perdi? Brincando, estudando, na arena, no trabalho, à mesa, na alegria da família, forte, feliz em suma? Não! Vejo-te sempre na hora extrema, estendido no leito arfando encarado em mim, com o crucifixo ao peito, entre as mãos gélidas, diluindo o derradeiro olhar em lágrimas.
Que alivio seria para mim perder o que me resta da memória!... Mas não! Perder esse pouco, que é tudo. seria esquecer-te, nunca mais sentir-te, proceder com a tua lembrança como faz o túmulo com o teu corpo. Não! Pereça tudo! Esqueça eu tudo, contanto que fiques no fundo da memória, tu, como fica a esperança no coração do mais desventurado.