Na Jaula Mano · Capítulo 34 de 35
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Na Jaula

Sentem-na os míseros leões cativos; sentem-na nos eflúvios; sentem-na no aroma que lhes chega com a aragem; sentem-na no cheiro cálido da terra adusta; sentem-na, a era da explosão da seiva, era em que se enfeita e alegra a selva. Sentem-na e fremem de nostalgia.

A ânsia de rever os sítios florestais e as dunas do deserto torna-os ferozes. Então, irritados, levantam-se, de ímpeto, na jaula, põem-se a rondá-la iterativamente, chegam aos varões, tentam mordê-los, grifam-nos a unhadas e, não os podendo quebrar, arfam aos rugidos surdos.

Como a esperança não os abandona deitam-se junto aos ferros inflexíveis e ali ficam, de olhos fitos no vago, o olfato esperto, arejando nas auras a olência do que não podem alcançar, do que lhes foi tomado para o sempre. Vêem o que olham? Não! vêem o que sentem.

E o que sentem eles, os míseros leões? Sentem o que lhes acorda na memória - a brenha verde: espessa e sombria aqui; aberta em clareira além, com os voluteios cristalinos da água, os antros obscuros onde branqueia, esparsa, a ossamenta das presas, sentem os companheiros livres: uns, deitados sob ramarias, outros à espreita, nos juncais, à margem dos rios largos; ainda outros, resupinos, brincando com os graciosos cachorrinhos.

E colham tristes, alongam infinitamente o olhar querendo ver além do seu, além da linha do horizonte a selva, as dunas, o que perderam no jamais. Como alcançá-lo? Como sair daquela prisão alerta em grades que ainda lhes tornam mais triste o cativeiro com a ironia de lhes deixarem ver a liberdade?

Fora melhor, menos cruel, sem dúvida, prenderem-nos em ergástulo, onde não chegasse fisga de sol, onde não penetrasse o acre perfume de silvedo: ergástulo profundo, bem negro de escuridade opaca como a da cegueira; silêncios como a surdez, de onde se não vissem aspectos, nem chegasse rumor de vida e tudo se resolvesse em olvido.

Mas não! Presos em jaula, os leões olham e vêem, respiram o ar balsâmico, ouvem sussurros de árvores e aqueles mesmos ferros, por entre os quais avistam a vida, dela os separam inexoravelmente. Míseros leões! E é no tempo em que florescem os bosques que o instinto se lhes aguça e mais os atormenta.

Assim, quando tudo é alegria e festa, na era de maior ventura para os livres, é que os leões cativos atroam as noites indo e vindo na jaula em fúria desesperada. Melhor seria que os sepultassem em covas onde remasse escuridão eterna. A jaula estreita, em que me agito sem sossego, é a minha angústia, agravada a todo o instante por lembranças, agora ainda mais intensas pelo tempo que se vem aproximando, florindo as árvores e desabotoando em alegria os corações felizes.

Sinto-o presente, vejo-o através dos varões da minha jaula, como os leões vêem o deserto e a selva - recordando. Por que há de vir de tão longe, ao presídio onde peno, a lembrança constante do bem que se me foi, como chega ao faro dos felinos cativos a fragrância das florestas?

E agora, mais do que nunca, punge-me a saudade, porque os dias são de ventura. Natal! Tempo do convívio familiar, tempo em que todos se reúnem - os que se acham fora acodem à casa pressurosos e a mesa rodeia-se e amores. E ele? Assim como o aroma das brenhas irrita, enfurece os leões cativos, assim essa alegria da vida aumenta o meu desespero.

Fora melhor para as feras que as encerrassem em covis subterrâneos, sem luz de sol, sem ar de silvas, onde tudo fosse negrume, umidade e bafio de sepulcro. A nós fora melhor que Deus nos apagasse a memória. Lembrar é como avistar através de grades, sentir o intangível, ouvir sem poder escutar; lembrar é viver no mundo das ilusões, entre espetros e sombras.

Neste tempo suave, todo do bonança, tempo em que os pais se revêem nos filhos e, com a mesma fé, no altar doméstico, comemoram a crença e o amor, o coração vibra mais sensível à ternura. Todos os lares preparam-se para a comunhão feliz na grande noite de Cristo e, eu... Eu sofro como sofrem os beluinos sentindo na aragem o perfume das selvas que florescem.

Como poderei ter alma para celebrar um natalício, ainda o do próprio Deus, quando só penso na morte e, em vez de berço, o que se me opõe aos olhos é um sepulcro? O aroma que respiro é de flores funerais; os sinos que tangem hosanas soam-me a finados. O meu Natal é a saudade e, através das grades da jaula em que me agito desesperadamente, vejo o céu, o céu longínquo, o céu infinito... e nada mais!

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