Lamento Mano · Capítulo 17 de 35
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Lamento

Antes chorasses tu! Águas primaveris seca-as depressa o sol. A tua mocidade radiosa reagiria contra a tristeza e, ainda que, por vezes, turvasse o teu coração a nuvem de saudade a sombra seria de eclipse, e não de noite eterna. A alegria, própria da juventude, é lume que se não apaga.

Abafem-no, embora! quanto maior for o acúmulo de folhagem e troncos mais viva irromperá a chama vitoriosa. Nos carvões que vasquejam uma gota de orvalho é quanto basta para matar na cinza a brasa trêmula. O sol na primavera é vida; no inverno é morte.

O que, em ti, faria nascer o esquecimento, em mim mais aviva a lembrança. O sol, em campo verde, fá-lo rebentar em flores; nos píncaros alpestres, fundindo a neve em torrentes, põe a descoberto abismos, desnuda alcantis, escorcha escarpas, todas as agruras e arestas da montanha merencória.

Quando se é moço o tempo é medicina para as chagas do coração; na velhice... Que valem ruínas! Só resistem se as sustêm enliços de verdura, presilhas de hera que se emaranhe pelas frinchas; soltas, logo se esboroam. Antes chorasses tu! Um coração de moço, ainda na maior tristeza, se a alegria o ronda, ilumina-se e aquece-se.

Em meu coração, se a alegria passa-lhe por perto, a saudade, que está sempre alerta, levanta- se como cão de guarda quando pressente alguém se aproximar. O que seriam risos em teus lábios correm-me em lágrimas dos olhos. Antes chorasses tu! Mal conhecias a vida e, com ânsia de novidades, depressa esquecerias o túmulo do morto.

Eu... Que posso ver mais na vida se as lágrimas me empanam os olhos e o mundo me aparece, através do pranto, como a paisagem, em dia de chuva, nimbada pelas cordas de água. Antes chorasses tu!

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