Memento
Como se há de esquecer toda uma vida, que se prendia a nossa, se o operado, a quem amputam um membro, durante muito tempo guarda a impressão de ainda o possuir? Se as dores ficam assim vivas, como se alguma das suas raízes não houvesse sido extirpada, se o sofrimento persiste em reminiscências, ainda depois de curado, como se não há de perpetuar, mesmo que a morte a leve?
Geme o enfermo dores que o não pungem só pelo hábito, em que estava, de as sofrer; e não há de chorar o que não se conforma com a desdita de haver perdido um ser amado? Se de um membro apenas fica tão viva recordação no corpo como não há de subsistir em saudade na alma a lembrança de um ente estremecido?
O que se levanta do leito e dá pela ausência do que lhe foi amputado custa a convencer-se do que vê, porque continua a sentir, posto que em ilusão, o que, dantes, o atormentava. E o que perde um amor há de esquecê-lo? Não! Sinto-te como se estivesses comigo. Levaram-te de mim, a todo o instante, porém, tenho-te presente.
E a ti não são dores que te recordam a minha alma, mas venturas, pelo que sofro ainda mais o bem perdido. Se o operado não esquece o que o fazia gemer, como me não hei de eu lembrar do que me fazia sorrir?