As pescarias amazônicas
As pescarias da Amazônia Ou são propriamente amazônicas, feitas nas aguas do Amazonas e seus inumeráveis tributários, correntes ou lagos, ou marítimas ou submaritimas, conforme são feitas em pleno mar ou nas regiões das fozes do Amazonas e do Pará, até onde se faz sentir a influencia da agua salgada e até onde chegam os representantes da fauna propriamente marinha. Ha ahi uma região neutra, em que as especies marinhas e fluviaes se confundem ou pelo menos se encontram, e os ribeirinhos das bahias formadas pelo rio Pará comem delias pescados o camuri, que é do mar, e o tucunaré, que é do rio. A tainha representa bem esta neutralidade, vivendo tanto na costa marítima, como aqui nesta agua semi salgada e subindo mesmo as doces do Tocantins, até Cametá. a mais de 300 klm. do mar. O Tocantins e as aguas da região visinha desta zona neutra, para oéste, embora não pertençam, ao menos aqueUe rio, ao systema amazonico. os reuniremos, neste estudo, neste systema.
Attendendo aos movimentos de população que determinam, á quantidade de pescado que produzem e ao valor commercial dos seus productos, poderiam as pescarias amazônicas ser divididas em grande e peauena pesca, A primeira seria aquella que constituindo, ao menos periodicamente, uma industria, faz dos seus productos um objecto de commercio ou de escambo, concorrendo assim para o augmento da riqueza publica regional ; a segunda, a que feita concomitante e simultaneamente com aquella, como seu complemento ou adjutorio, ou ainda independentemente delia, é apenas um recurso de alimentação individual ou uma pequena industria auxiliar de supprimento local.
A' primeira pertencem as pescarias do pirarucu, da tartaruga, com a industria annexa da preparação do azeite que lhe fazem das gorduras e dos ovos, do peixeboi, também com igual industria annexa, da gurijuba e da tainha, collucadas sem attenção á quantidade ou ao valor da producção. Na segunda classe entraria não só a pesca de todo genero de peixe, amphibios ou crustáceos. com um fim alimentício, mas ainda a de certas especies que apparecem nos mercados ou frescas ou conservadas pela salmoura, pelo salgamento ou pela moqueação, como o maparã. o tambaqui, etc. E o producto deáta pequena pesca não é tão somenos qual se poderia julgar, pois sendo ella que principalmente avulta no titulo «peixe secco e salgado » das pautas fiseaes, só o entrado em Belem do Pará em o novennio de 1885—93 elevou-se ao notável algarismo de 2.499.720 kls. ou uma média annual de cerca de 278 mil kilogrammas.
Não é facil, nem possível talvez, determinar geographicamente as differentes areas da região em que se realisam estas pescarias. Toda ella sendo profusamente cortada de aguas e todas estas extremamente piscosas, não ha lugar delia, pode-se dizer, onde a pesca não seja praticada, em maior ou menor escala. Paragens ha, todavia, que por attrahirem maior numero de pescadores e produzirem maior porção de pescado, ou por se acharem mais perto de lugares de maior consumo e coramercio, são mais conhecidas e citadas, e portanto podem ser consideradas centros de producção. Taes são para o pirarucu os lagos centraes de Marajó, principalmente o Arary, que é também o maior da ilha, os rios e lagos da Guyana brazileira ao norte do Araguary, os rios e lagos do Maecurú e todas as aguas do systema bydrographico deste rio na comarca de Monte Alegre, a região de lagos entre a margem esquerda do Tapajós, município de Alemquer e rio Curuá, o Lago Grande de Villa-Franca e aguas adjacentes, o rio e serie de lagos do Parú, á margem esquerda do Trombetas, na comarca de Óbidos, os lagos e aguaçaes entre o Trombetas, o Jamundá o o Amazonas, os lagos de Faro, formados pelo Jamundá, o lago Arari, na ilha dos Tupinambaranas, os lagos do Rei, de Tefé, de Cudajàz no Solimões, os lagos e aguaçaes do Rio Negro, do Rio Krancoedo Uaupés.
A singular distribuição das aguas da região torna difficilimo, sinão impossivel, como esta exposição deixa ver, assentar com precisão estes differentes centros de pescarias.
O que as cartas que possuímos dào como um rio — um traço mais ou menos grosso, mais ou menos comprido, mais ou menos sinuoso, indicando um curso d’agua— é por via de regra um verdadeiro tronco de uma arvore bydrographica de que uma myriade de aíHuentes, deflluentes e subaflluentes, igarapé*, furos, paranás e lagos, sào os galhos, os ramos, as folhas. Tal é o Maecurú, tal é o Curuá, tal é o Pará e ainda, menos visivelmente por causa da sua mesma vastidão, o Xingu com as aguas do Aquiqui e a mesopotamia do Anapú e Pacajás, o Tapajós com as aguas dos igarapés de Mahicá, Assú, Mapiri, Panema, bahia de Villa-Franca, rio Arapium, furo de Arapichuna e mil outras: o Trombetas, com 01 rios ou igarapés do Parú, do Sapucuá, do Curumú e quantidade de lagos que por assim dizer margeam de um e de outro lado todo o seu curso inferior e medio; e assim o Jamundá, o Jatapú, o Urubu, o Tefé e em geral to los os outros. Na enchente, de Novembro a Junho, crescendo as aguas, o curso principal, o tronco da arvore, avolumase. e em muitos delles, assoberbando as margens, aggrega a si grande numero dos seus tributários, como, por exemplo, acontece com o Maecurú, que se torna gigantesco graças a este processo de agglutinação. De outros, que por mais distantes ou por o não consentir a elevação do terreno intermédio, não foi possível annexar ao tronco principal, faz a enchente um só reunindo as vezes dez, doze e mais lagos e outros tantos igarapés em um unico e as vezes extensissimo lençol cTagua, como succede no Lago Grande de Villa-Franca ou das Campinas, nessa ópocaum mar, cujas margens se não avistam do centro, w PESCA 2 E’ na vazante, de meiados de Agosto a meiados de Novembro, no « tempo da salga », como a esta época da grande pesca do pirarucu chamam os naturaes, que apresentam essas regiões aquelle aspecto primeiro dito : — um tronco esgalhado e ramoso de aguas infinitas, projectado sobre a vasta estensão daquella enormemente dilatada planície chata e verde.
As pescas systematicas nas aguas propriamente amazônicas, do grande rio e dos seus inumeráveis tributários, effectuam-se nos mezes do verão, ou melhor da vazante.
Nesta região por excellencia hydrographica, a Amazônia, é ainda o regimen das aguas que determina e discrimina as estações, si é licito appellidar assim os dous períodos em que ali se divide oanno. Chamam-se ellas vazante e enchente, e o seu inicio e fim varia naturalmente consoante o afastamento em longitude das fontes do Amazonas e dos grandes affluentes do seu curso medio e superior. Começando geralmente em Novembro, a enchente dura até Julho e mesmo até Agosto, quando entra a vazar. Em regra geral, Junho o Julho são os mezes da roaxima enchente. Setembro e Outubro os da maxima vazante. Repiquétes, como ali chamam a falsas vazantes ou enchentes, determinadas por causas occasionaes, concorrera, cora outras variações meteorológicas, para a maior ou menor variabilidade dessas duas estações nas differentes longitudes e latitudes do immenso valle.
E’ pafticularmente na vazante, no seu inicio, quando entram a baixar as aguas, no seu termo, quando principiam ellas a subir, mas sobretudo no seu apõgêo, que se realisam as pescarias. Os peixes, ainda os maiores, preferem as aguas calmas dos lagos e igarapés centraes, ás ondas e correntes do Amazonas e dos seus grandes affluentes. No começo da vazante acodem aos lagos que lhes oHerecerão abrigo e abundante repasto, fertilisados e providos que forão pela enchente ; no começo desta, quando as aguas entram acrescer nos lagns e rios centraes. descem elles á procura de outros pousos ou remontam as correntes, favorecidos pela cheia, a procura das cabeceiras d’aquelles mesmos lagos, igarapés ou rios onde durante a vazante se consevaram.
A enchente decuplicando o volume das aguas ou pelo menos a superfície por ellas de vazante occupadas, decuplica também o seu elemento, e dispersos naquella enorme massa d’aguas ou recolhidos ás cabeceiras desviadas, recônditas e inaccessiveis, no trabalho da gestação ou da orocreação, escapam neste periodo á perseguição dos pescadores, reduzidos então, como veremos, a poucos meios de apauhal-os em insignificantes quantidades.
Esta defesa natural durante alguns raezes é por ora a unica efiicaz que tem o peixe, e só ella explica como, apezar do desregramento funesto que ás pescarias do verão preside, ainda são abundantíssimas de pescado as aguas amazônicas.
Para aquellas aguas em vazante affiuem não só os pescadores convisinhos, o mesmo é dizer os moradores mais proximos, como gente de mais longe, negociantes e especuladores, e essa especie de mercador ambulante, o mascate amazonico, o * regatão ». Vèm uns fazer pescar por sua conta, outros comprar aos pescadores de profissão o pescado, trocando-o pelas mercadorias em gasto ali, da sua pequena loja. fixa ou errante, conforme a tém na barraca para[esse effeito levantada ou na tolda da sua « canòa de regatão ».
Nos lugares mais altos dessas terras em geral baixas e húmidas, quando não alagadiças, erguem a sua «feitoria» ou «barraca», denominação que começa a prevalecer áquella. Meia duzia de páos toscos servindo de esteios, vigas e caibros formam a armação desse edifício primitivo que coberto por todos os lados de palha de buçú ( Manica saccifera) de curuá (Attalea) demiriti ( Mauritia flexuosa) de ubim ( Geonoma ) de uricuri ( Attalea excelsa) de inajá ( Maximiliana regia) on de uauassú ( Attalea speciosa) lhes servirá, nos mezes que ahi passam, de habitação e armazém. Raro é tenha divisões mesmo em havendo familia, e mais de duas aberturas ou portas, fechadas mediante esteiras também de palha, melhor diriamos de franças de palmeiras expressameute entretecidas, chamadas «japás», Não raro também a mesma barraca lhes serve de loja, de dispensa, de deposito para o peixe pescado, de refeitório, de cosinha, de dormitorio; é o donuts completo, qual devera ser o primitivo.
Quando na região aonde vão sabem não encontrar os elementos para a fabricação daquella vivenda, levam-os do lugar mais proximo. Outros nem essa tem ; ou vivem sob a escassa tolda da «montaria» ou da «igarité» ou limitam-se a aproveitar o tronco e a cópa d’algum arvoredo, fazendo sob ella, com um japá apoiado ao tronco e a um páo adrede fincado um mesquinho abrigo. Sob _elle, atada de um galho da arvore ao esteio posto, pendurara a réde, leito como nenhum portátil. E ainda ha quem, de todo confortável descuidoso, nenhuma outra guarida tenha que uma d’aquellas esteiras encostadas a um pão ou a um tronco d'arvore.
Pittoresco e animado é o aspecto destas regiões das pescarias «no tempo da salga». E’ o verão, juslamente a quadra mais agradavel do clima amazonico. Sopram então os ventos alizios, que entrando pela vasta embocadura do grande rio, cujas margens baixas lhes não offerecem obstáculo, lavam em um enorme banho de frescura o valle tolo. Raras são as chuvas, os terrenos estão seccos ; a ardentia do sol mitiga-a a viração constante do «vento de baixo», soprando de léste, da foz do Amazonas. As manhans nessa época são incomparáveis de largo sol alegre, de cantante viração fresca, de robusta vida. E’ a sazão da fartura e da abundaneia. Nos lagos e rios interiores, nos innumenveis fios daquella trama d’aguas, tributários todos do grande rio, superabunda o peixe. E' também o tempo das tartarugas, dos tracajãs e dos seus ovos, petiscos tão queridos ao paladar daquellas populações. A vida animal, geralmente em todo tempo escassa nas margens do Amazonas e mesmo nas dos seus grandes atlluentes, é então forte e copiosa.
Uteis ou inúteis, percorrem as estiradas margens desses aguaçáes, enchem a sua flora, fraca, sem pujança, mas verde e viçosa, coalhão seu ar azul, fino. de uma transparência imperturbável, um mundo de quadrúpedes « de aves. Aquáticos, palmípedes e pernaltos, todas as famílias dos trepadores, e ainda os gallinaceos, os Pombos, como os seus inimigos, os rapaces variadissimos, os pica-peixes, os porcos do mato, as antas e, conforme a natureza do sitio, mais ou menos proximo da terra firme, mais ou menos de campo ou mata, assim acodem ali também, a essas paragens para todos fartas, os variados representantes da vida animal amazônica. Os carnudos patos do mato, as gostosas marrecas, os grandes papagaios, os saborosos mutuns e jacús, podem ser grata variedade á mesa abundante em peixe dos barraqueiros ou pescadores. As garças, pequenas o reaes, agrupam-se por milhares ás beiradas, na triumphante brancura das suas pennas refractarias á impureza, ou fazem a alguma arvore caida á margem ou deslisando pela corrente uma alva cópa, que ao longe semelha ora um barco alvinitente de claras vélas enfunadas, ora uma casaria maravilhosa, um povoado, todo branco, de uma brancura immaculada, aninhada, como enorme pérola, em vasto escrínio de velludo verde. Os altos jaburus brancos, com os grandes rostros negros; os espantadiços mauaris.de compridos, pesados bicos, repousados nas costas ; os vultosos arapapás pardacentos, de largos bicos chatos;
as róseas colhereiras, que os têm rasos como pás ; os rubros guarás, de rostro fino, agudo, recurvo, proprio para cavar tio tijuco as minhocas ou extrair dos buracos marginaes os peixinhos de que se alimenta ; os plúmbeos e tristonhos socós ; os quasi negros carãos, bons para comer, enfadonhos no grito esganiçado ; as piassocas grenatinas, bicos e pernas carmesins, espertas e leves ; os numerosíssimos bandos dos canarios da terra, miúdos, chilreantes ; mil outras avesinhas, de varias cores, de vários tamanhos, de vários cantares, o melodioso carachué plangente; os japiins, carbuncnlo e ouro, trefegos, galhofeiros, de canto vibrante, harmonioso, variadíssimo ; os barulhentos papagaios; os algazarreiros periquitos, todos numerosos, todos moveis, todos, como o poeta, «incapazes de assistir n’um só terreno», sobre a vegetação viçosa e ephemera das margens, pelos compridos estendaes de capins verdes que a franjam ou recobrem vastos tractos do plaino adjacente, nas copas das arvores, ou nas franças ciciantes das palmeiras, voando em bando, em grupos, sós, de ima para outra praia, de uma para outra arvore, dão a essas paragens banhadas de vento e de sol, uma larga vida farta, movimentada, alegre.
Ao longo das margens disseminâo-se as barracas amarelladas, baixas, rústicas. Erguem-so nos «tesos» mais convenientes, sobrepostas ás ribanceiras junto a algum grupo d’arvores ou « rebolada» de palmeiras, ilhas espalhadas no mar verde dos murysaes ou dos dilatados campos, si em região de campos ficão os lagos, onde as manadas de gado poera os tons variegados dos seus pellos, dando á larga paizagem em recanto bucolico.
Junto ás barracas, rodeadas de varàes de onde pendem, seecando ao sói, as postas ellipticas largas, avermelhadas do pirarucú, pondo em róda o seu pitiú desagradavel, pullulam os corumins nús, prole numerosa desta gente prolífica, alimentada de phosphoro. Correm travessos, a hrando pedras aos esfaimados urubús que ameaçara o peixe a seccar, ou aos jacarés que passam n’agua embaixo.
a ° alcance da pedrada ou vêm surrateiramente se achegando dajmargem a pilhar algum rosto ali lançado. A vida animal n‘agua, menos apparente, passando-se sob as aguas em geral escuras e opacas d^quelles aguaçáes é, entretanto, talvez mais intensa. A cada momento ouve-se o ruido especial, ao ouvido do pescador familiar, do boiar do pirarucu, levantando sobre o dorso espesso cumulo d'agua e deixando após si ura largo rebojo, ou assiste-se o pulo alto da despresivel pirahiba, o enorme corpo todo íóra d’agua, envolto n'ura lençol liquido, franjado de espuma, sumindo-se nella com estrondo, fazendo largos circulos oudeados, que vem fenecer na margem ; avistam-se passar as theorias dos botos superticiosamente temidos, pondo rapidamente fora d'agua os compridos focinhos cylindricos e os dorsos bruno-vcrmelhos, abaulados, lisos. Pelas margens encostam-se em grupos, expondo-se incautamente ás frechadas, os aruanás alongados, chatos, e, meio occultos no tijuco os acaris, cascudos como tatus aquaticos, negros, não escondem bem o seu feio vulto. Saltam a cada instante no meio do rio ou do lago, mil outros peixes, fugindo em carreira medrosa e precipitada ás canòas dos pescadores, indifferentes a esta miuçalha, ou águia dos pirarucus, das pirahibas, dos grandes surubins, sináo aos dentes vorazes dos jacarés.
Abundantíssimos nestas paragens estes corpulentos amphibios, percorrem lentamente, quando os não acossa o medo, aqucllas aguas, apenas com a extremidade arrebitada do focinho e cs grandes olhos espbericos, encravados numa pretuberancia da enorme cabeça, fóra delia.
Encostam-se ás margens ao pé das feitorias na esperança dos sobejos delias lançados, escondem-se sob os capinzaes das beiradas refastelando-se dos peixinhos ali copiosos ou vão agglomerar-se à boca dos igarapés e lagos, tapagem viva e famulenta, á tóca dos peixes que fogem aos pescadores ou dos restos, fatos de pirarucu, pedaços inúteis ou deteriorados de quaesquer alimentas, das barracas postos fóra ás aguas. Quando os atormenta a fome ou menos vigiados se sentem, ã noite sobretudo, saem em terra, num caminhar grotesco, desengonçado, arrastando ° largo peito no chão, cauda e cabeça meio erguidas, a procura de pasto á sua fome perpetua. E é de vel-os fugir, n 'uma desconcertada carreira, todo eriçados, erguida a cauda, arrepiada a larga espinheira que a franja, a boca aberta, ás pedradas dus corumius e aos latidos dos cães assanhados. Si ao escapar-se, alcançou-o era bom sitio tiro ou uma frechada e cáe n’agua pondo sangue do corpo, ai delle ! precipitam-se-lhe em cima, famélicas, voracíssimas, nuvens de moscas tluviaes, teimosas e sanguisedentas, as piranhas, a cujos dentes pequenos, triangulares, fortes, afiadissimos, não resiste o seu couro corneo, invulnerável á bala.
Não é possível dizer o nome de todos os peixes que fervilham naquellas aguas. Muitíssimos são talvez anonymos. A muitíssimos outros sabem, todavia, os pescadores o nome, o sexo. os costumes, os hábitos, as comedias, os retiros, os variados modos de apanhal-os, de preparal-os, de utilisal-os. São escamosos uns, outros de pelle. Dos primeiros, alem do grande, do vantajoso, do Preferido pirarucu nomeam, pescam, comem ou fazem °' J jecto do seu commercio, a pescada, o tambaqui, o aruaná, o pirá-tapióca. o tacunaré, os acarás, — bandeira, assú.péua, miri, — os acaris.o tamuatá, as piranhas, — brancas, pretas, cajú ou vermelha, — o aracú, o pacú, o jaraqui, o sarapó, a sardinha, o matupiri, o peixe cachorro, o curimatá, o aramaçã, o apapá, a tainha, c matrincbão.
Os de pelle, que nós lâ, por uma sobreviveneia da crendice mythologica, relacionando por um parallelismo de formas exteriores caracteres animaes e factos pathologicos ou moraes, temos por nocivos, productores de affecções herpeticas, são, entre mil outros: o surubim, o mapará, a piramutaba, o mandi, o jandiã, a pirarára, o bacú, o cuiúcuiú, o scte-barbas, o pirábandeira, o piránambú, o pirápéuáua, a pirahiba, a arraia.
Por sobre aquellas aguas, assim animadas, passam e repassam os pescadores, nas suas pequenas canoas de pesca, leves e maneiras, firmes á pròa, de vermelho terra vestidos, grande chapéo de palha indigena desabado, à cabeça, o longo cigarro de tauari nos queixos ou preso atrás da orelha, o harpão ou a frecha promptos, segundo é um pirarucu, um peixe boi ou simplesmente algum tambaqui, aruanã ou tucunaré que vão pegar.
A’ melhor hora para a pesca é de manhan, nem tão cedo que não haja luz bastante á tranparencia d’agua, nem tão tarde, que as tenha agitado a viração, mas quando, não havendo ainda « caido o vento», conservam-se as aguas serenas e lisa como um espelho a sua superfície.
Esta hora passada recolhe-se o peixe aos seus esconderijos, e não ha quasi apanhal-o a geito de o frechar ou. harpoar, ou não o deixa perceber a agitação das aguas.
Igualmente aproveitam as tardes quando ha calma e as aguas permanecem tranquillas. Durante a «íheia, mesmo no seu auge, pescam também, como veremos, mas com menos successo, isoladamente. Lugares, mesmo ha onde nessa quadra escasseia por tal modo o peixe que se tornam elles, consoante a expressão local, famintcs. «Não péga nada», « não bate nada », rios e lagos « estão sarú », segundo os seus dizeres, e si não ha outros recursos sinão o peixe, cora que ímprovidos contavam, e qne se furta á sua busca, nem curral Com tartaruga, nem peixe secco ou moqueado, nem «criação», passam miseravelmente esses dous ou tres mezes de escassez.
O Amazonas propriamente não é um rio de pesca. A sua mesma vastidão e profundidade, em todo tempo consideráveis, facilita ao peixe a defesa e difficulta a Pesca, á qual é também obstáculo a quasi constante agitação de suas aguas. Os peixes fogem, outrosim, ás suas correntes, procurando, quer na enchente quer na vazante, os meios mais calmos dos lagos, dos igarapés ou dos rios menores. Esta circumstancia explicaria acaso a existência, assentada por Agassiz, de diversas faunas ichtyologicas nesta mesma bacia de tão pronunciada unidade.
O regímen das aguas amazônicas intlue também sobre a maior ou menor abundancia de pescado e a regularidade maior ou menor com que se apresentam as duas pbases da enchente ou da vazante e o maior ou menor grau delias prenuncia melhores ou peiores pescarias. Ás grandes enchentes, correspondem vazantes abundantíssimas de peixe. Parece que podendo assim melhor escaPar á perseguição dos pescadores durante a cheia, se reproduziram em maior numero. Chegando as grandes enchentes ás aguas afastadas, não alcançadas pelas menores, traz delias também na descida o copioso pescado que, menos perseguido, criaram.