Pescarias marítimas e submarítimas; a pesca da baleia A pesca na Amazônia · Capítulo 6 de 10
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Pescarias marítimas e submarítimas; a pesca da baleia

Pescarias marítimas e submaritimas : a pesca da tainha e da gurijuba A tainha e a gurijuba pertencem ainda á grande pesca. A destas especies faz-se fóra das aguas amazônicas, a"da gurijuba em pleno mar, a da tainha, na orla marítima das regiões na geographia local denominadas Contracosta,— leste e t ordéste da ilha do Marajó — e Salgado. — as costas de éste e sudeste, banhadas pelas derradeiras vagas do estuário do rio Pará e pelas do Atlântico, na porção oriental do estado do Pará. e também no Tocantins inferior, naquelle mesmo rio Pará e bahias do Sol, de Marajó, da Vigia, de Santo Antonio e outras por elles formadas. A costa chamada da Vigia e a fronteira, á leste de Marajó, entre Soure e o cabo Maguari, são o principal campo

A gurijuba, semelhante a um grande bagre, de pelle amarellaça, cresce até l m a l, m 20. Fornece não só a carne para a alimentação das populações daquella orla marítima, e sab-maritima até a cidade do Pará. onde encontra igualmente grande consumo, como, principalmente o « grude », ou colla, de exportação considerável e vantajosa. Aépocha da sua pesca é o verão amazonico, na ultima quadra do armo. e a « força da pesca >\ conforme o frasear dos pescadores, nos mezes de Setembro e Outubro.

Nas grandes canóas chamadas vigilengas, talvez porque na ribeira da Vigia fossem de primeiro construídas, sáem eiles, canoeiros habilíssimos c ousados, ao alto mar. A vigilenga é a canoa mestiça, o resultado da combinação, para não dizer do cruzamento, entre o barco de pesca portuguez e a igarité, a canòa grande ( igdra , canòa été grandej do indígena brazileiro. E' em geral pintada de escuro, ròxo-terra. vermelho carregado, com as próprias tintas dos seus vegetaes* como o muruxi ( B/jrsonima ) e outras e o lodo rico em matérias corantes, com que os missionários primitivos, como nos informa o padre Antonio Vieira, tingiam as roupetas. A lotação de algumas é do 500 a 800 arrobas, 7 a 12 toneladas — quasi um navio. Armam-as a hyate, com dous mastros, com vélas latinas ou de « azas de morcego. », na sua technologia. Não têm convés ou assoalho corrido entre o fundo e as bordas, e assim as denominam « de pòço » ou « em pòço ». e leves, como uma casca de nóz, correm e dançam na crista das vagas dos mares bravios da Contra-costa. A tolda é de madeira, ligeiramentç, quasi nada abaulada, ou de folhas de palcm 1 SciELO:

meira, tecidas em japá — já descripto — recoberto, para maior solidez, de um tecido largo de taboca, o nosso bambu ou taquarussú de lá. Por temperamento nômades, levam a estas expedições, que duram uma semana e mais, toda a familia, mulheres, crianças, o cachorro, algum xerimbabo de estimação, e a vigilenga, assim carregada, leva além dos apetrechos da pesca e os paneiros de sal. com que hão de salgar o pescado, os baiiús de marupá pintados de verde da roupa, quando a não conduzem simplesmente em cestos, os paneiros de farinha d’agua, os urús ou bolsas indígenas para as miudezas uteis, o tauati ou o papel para o cigarro, botões, linhas, anzóes, dedaes, carretéis de linha, isqueiro, phosphoros. Comquanto as mulheres e os rapazinhos tomem parte também na navegação e na pesca, nunca vão menos de dous homens, e canoas ha que levam quatro e seis.

Prompta a canòa, desfraldadas as vélas, em geral linctas também de muruxi, vermelho escuro, sáem da Vigia, de Cintra, de Soure, deMarapanim, de todos os pontos daauellas costas em direcção dos « viveiros ». ou pontos delles já conhecidos em que sabem mais abundantes as gurijubas. Ali chegados ou bordejam, si a isso é propicio o tempo, ou fundeam « de poita. » Poita chamam elles a grande pedra que levam para lhes servir, solidamente amarrada a uma corda ou mesmo a um cipó’ longo e rijo, de ancora. Préferem-a a esta, não sá porque nada lhes custa, mas porque sem os dentes da ancora que se agarram ao fundo mais fácil é a manobra.

«Canòa de poita» éa canòa fundeada, «pescar de poita». é pescar com p canôa immovel, fundeada, na beira ou no meio d*agua e « estas >» ou « ficar de poita », é estar ou ficar parado, fixar-se n’um lugar. Poita é a corrupção profunda de pitá = pjjtú = puitá, parar, ficar, estar firme, em tupi. (\)

A pesca é feita com o espinhei. Uma longa linha de 100, 150 e mais braças, da qual pendem, de 3 em 3 (1; Esta etymologia carece discutida. Dois factos levaram-me a julgar tupi a origem de poita; n3o encontrar esta palavra nos diccionaristas e vocabulistas mais autorisados da lingua portugueza e a existência de palavra parecida no tupi signiíicando «parar» «estar firme, » «resistir» etc.

Com eífeito nem Viterbo, nem Bluteau, nem Constancio, nem Moraes, nem D. Vieira, nem Aulete, nem Adolpho Coelho, trazem a palavra « poita.» Quanto ao abaneenga, Montoya ( Doca bulario r edic. Platzmann) dá, quedar-se=op/ta; o padre Seixas ( Yocab .

da ling. ind. geral , Pará, 1853) pmtá=parar, estar lirme, resistir, ficar; Baptista Caetano (Yocab. in Ann. da Bibl. Xac. Tom. 7 ) pitd=mbitá ficar. Barbosa Rodrigues (Yocab. indig.

Rio, 1893). pytd —parar. Este »— £=y é a vogal especial do abaneenga que se transforma em i, o, u, ou ui portuguez, conforme as influencias mesologicas, e na Amazônia principalmente é coramum a troca de o por u e vice versa. Entretanto o nome poita existe em Portugal, como pode ver o leitor na pag. 4oO do interessantíssimo livro Estado actual das pescas em Portugal , do Sr. Baldaque da Silva, Lisboa, 1891, livro que infelizmente só depois de escripte este estudo conheci.

Aos que com mais competência que eu se occupam destas questòes da nossa liuguagem brazileira, deixo a resoluçâa desta. ou de 4 em 4 palmos, outras linhas curtas de meio metro, os anzóes. Chamam-lhes «anzóes de tenda », por serem batidos nas suas forjas rudimentares e não fundidos, que não aguentariam o corpulento peixe. A linha fica estendida com uma extremidade no fundo do mar, segura por uma pedra, um pedaço de ferro ou mesmo um ancorote. Preferem ainda a pedra por ser mais facil de erguer e não pegar no fundo. A outra extremidade fica presa a uma boia de cerca de um metro de extensão por 50 a 60 centimetros de diâmetro, de -.mututy, especie de cortiça indígena. Outras vezes serve de boia o cabaço de uma volumosa curcubitacea, o jamarú. A boia, qualquer que ella seja, fica solta no mar.

Estendem o espinhei em geral ã tarde, iscados os anzóes com pedaços de peixes menores, principalmente da tainha. Preparada a comprida e forte linha, são os anzóes iscados e, a começar de um dos bordos de prôa, eollocados regularmente nas bordas da canòa, seguras a ellas pela sua curva, pendendo para fôra já n*agua as linhas que os ligam á linha principal, também exteriormente pendida. Esta grinalda de anzóes iscados dá assim uma e mais voltas á canòa, conforme o comprimento da corda e o tamanho da embarcação. Feito isto o pescador deita ao fundo, amarrada a uuna pedra ou a outra especie de apoio, a extremidade da linha com os anzóes que se escalam pela extensão delia correspondente á profundidade das aguas ali. Ao mesmo tempo um outro ou a mulher, uma filha ou um filho desfralda as vélas ao vento e a vigilenga abre veloz a correr mar em fóra. O leme o aguenta firme na conveniente direcção um outro companheiro ou membro masculino ou feminino da companha, emquanto outro ou outros seguram o velame pelas escotas, na manobra delicada das vélas. O pescador encarregado de lançar os anzóes corre ao longo das bordas, rápido tirando-os das beiras em que estavam engachados e deitando-os ao mar, um a um, raethodicamente, mas presto e ligeiro.

A canúa, vélas enfunadas, corre. E' preciso que na rapidez o acompanhe e exceda elle, sem o que, se partiriam anzóes ou a corda, esticada de repellão pela carreira do barco. A's vezes, de súbito, um ai ! doloroso corta o ar. Foi um d'aquelles anzóes que pegou a mão que aceleradamente os ia levantando da borda e lançando ao mar. Ou rasgoua e caio n’agua oa rápido o pescador o arrancou elle proprio, si não passou presto a sua faca breve e afiada entre o anzól e a carne, desembaraçando a delle. E, pingando sangue, embotado pelo habito á dor, continua a faina de lançar o espinhei até o derradeiro anzól e a boia previaraeute posta na extremidade da linha. Finda eila, o homem ou mulher do leme, dá uma volta a este. o manobreiro das vélas inclina-as segundo a róta desejada. E' ouasi noite, o sol põe-se rubro, n’uma ardente fogueira em que se incendeiam as matarias da Contra-Costa, talvez visivel. chamuscando de tons fulvos a superfície immensa do oceano. Outras vélas brancas ou vermelhas apparecem no horisoute : são outras vigilengas que lá andam á pesca da gurijuba.

Chegados ao sitio procurado, e que só seus olhos, longa e hereditariamente educados, descubririam n’aquelle paramo onde não ha encontrar ponto» de referencia. signaes, nem traços, colhem as velas, e dão fundo, com a sua pédra ou poita. A’ pròa, na especie de banco triangular ou trapezoide chamado fogão, sobre um caixão, uma lata ou a metade de um pòte ou panella de barro, cheio de terra accendem o seu fogo.

Preparam ali a sua comida, algum peixe assado ou cosido, e fervem o seu café. Feito o repasto, ao marulho da vaga batendo no costado da canoa, na solidão immensa e meiancholica do oceano, bebido o café, algum delies toma de sob a tolda a viôla barata, comprada nas lojas do Ver-o-peso do Pará, ou ua própria villa donde são, e, mestiço voluptuoso, geme n’um tom plangente e monotono, perante cs dous infinitos do poeta, as saudades, os amores, as paixões anonymas, que correm de boeca em bocca, ao som desatinado de todas as violas. As mulheres agasalham os filhos, si os tèm ainda pequenos, arruinam a sua casa fluctuante, os homens fumam um cigarro e com pouco nas rêdes estendidas entre os mastros e sob a tolda dormem.

De manhan, ao romper do dia, levantam ferro, desfraldam vélas e vão a busca da boia que fluctua por ali algures, na immensi lade das aguas. Achada ella. colhido o panno, entram a «despescar» o espinhél. A corda agora, as vezes, pesadíssima com a carga do peixe é cuidadosamente colhida. As gurijuhas que encontram presas nos anzóes são mortas a cacêle, como o pirarucu, na borda da canoa. Cnegado ao ultimo anzol, si a pesca foi boa, o « pòço» da vigilenga está cheio de peixes. Levantam d’ali a ancora que retinha no fundo a longa ■corda do espinhéie voltam ao sitio escolhido para fundearem ou vão a outro igualmente propicio. Posta a canòa «de poita. » embalada pela vaga, começa a faina de «beneficiar» o peixe.

Abrem-no pelo peito e retalham-lhe longitudinalmente as costas, do tronco onde prende a cabeça á extremidade da cauda, e assim o reduzem a bandas ou mantas, como as do pirarucu ou do bacalháo. Ali mesmo as salgam e seccam, estendidas sobre a tolda^. dependuradas de varas atravessadas entre os mastros, pendidas das enxárcias e cabos, nos bancos e bordas da embarcação, ao sol ardente daquelles cliraas. Do ventre tiramlhe uma matéria gelatinosa, compacta, amarella-esbranquiçada, em fôrma de leque. E’ a preciosa «grude», como «lies chamam esta colla animal, fazendo o nome feminino. Tão preciosa que se exportam annualmente pelo porto do Pará, onde vae ser vendida, centenas de milhares de kilogramtnas, valendo centenas de contos de róis. Esta colla ougru le não recebe delles outro preparo sinão o de a seccarem também ao sol.

Ao cabo de oito, dez e doze dias daquelle rude e aspero labor, os dias occupados no preparo do peixe recolhido de manhan, ás tardes em estender os espinhóis — qae muitos mais de uma daquellas linhas estendem — levantam a poita, soltam vóla.s e recolhem á casa, ali na ■costa, em direcção de oeste, quando não seguem, aproveitando alguma monção favoravel, directamente, rio ^ará a dentro, rumo da capital, onde venderão o pescado.

Aquellas canòas. com pescadores peritos, deparando-se-lhes bons «viveiros», podem diariamente colher de 20 a 100 gurijubas. Frequentemente nos anzóes dos espinhéis a ellas postos, «caem» outros peixes, grandes e uteis como ellas. As gurijubas pequenas, em meio desenvolvimento, são boas de comer frescas.

Na região oriental do Parà, a capital do estado coraprehendida, a tainha excede, talvez, ao pirarucu em importância economica. As tainhas são pescadas, primeiro, dc Junho a Agosto, quando começam a entrar do oceano, com lanços de réde. em que as arrebanham e arrastam ás alvas praias do Salgado, por muitos milhares sinão milhões. A pesca mais proveitosa e característica delias, porém, se faz em Setembro e Outubro, nos curraes e cambòas, que se estendem por todas as beiradas da região submaritima e principalmente pelas costas da Vigia e adjacentes e fronteiras, de Soure até Maguari.

Quatro, seis ou mais indivíduos, com suas familias, seus «aggregados», os camaradas do Sul, reunem-se, formando uma «companha», para explorar uma daquellas praias. De concerto, levantam barracas de palha, constróem os curraes, instalam a feitoria, e de parceria colhem o peixe, e beneficiam e repartem o producto da pesca. A esse tempo animam-se aquellas longuíssimas o alvas praias arenosas, como os lagos das pescas sertanejas. Acodem a ellas não só as «companhas» dos pescadores, mas outros isolados, nômades, modestos, e os negociantes ambulantes, regatões, gente de todaaespecie, forasteiros, a quem praz essa vida meio ao ar livre, existência solta e desempedida dos acampamentos nómades.

Ha festas, nalguma barraca mais opulenta, danças vivas ao som das violas asperas e das flautas sibilantes, e ladainhas repetidas, pretexto a outras festas, na capellado povoado ou de alguma fazenda próxima.

Ao longo daquella praia, paralellamente a ella, estendem extensos pannos de pari, esteiras de talas fortes de algumas de suas palmeiras, dobrando-lhes as extremidades perpendicularmente á praia, por onde sobem até que fiquem fora do alcance das mais alfas marés.

Estes curraes alongam-se ás vezes por cem e cento e cincoenta metros, e multiplicam-se por aquellas costas. Alem destas cercas moveis, constroem cambòas fixas, com varas e talas fortes ou, em sitio em que uma disposição especial da costa os favorece com alguma cerca natural, limitando-se a completai -a e accommodal-a com aquelles mesmos materiaes.

A maré recobrindo durante o fluxo estas cercas, deixa-as cheias de pescado e, naquella estação, principalmente de tainhas. Na baixa-mar fazem os pescadores o serviço de «despescar» os curráes e cambòas, que ficam total ou p.ircialmente seccas ou apenas com pouca agua, facilitando a colheita do peixe em cestos, «paneiros» que é ó termo generico de lá, á mào, ou com tarrafas quando ainda fica agua bastante para nào permittir aquelles dotis meios. Nesta colheita tomam parte todos os das feitorias, homens, mulheres e cripéscx 7 anças. São por milhões as vezes as tainhas, alem de outros peixes, que ficam nas cercas. Quando a baixamar se deve dar ã noite, ou quando a companha se sente incapaz de colher todo o peixe que deve cair ou caio nelles, tém, em geral, o cuidado de abril-os, afim de poupar á morte inútil o pescado. Também, dentro dos mesmos cercados dispõem cacuris, (1) geralmente circularas, com que, dadas certas condições, melhor se asseguram do peixe.

A tainha apanhada nos curraes d, para o commercio, salgada, posta de moura ou moqueada. Sob esta ultima forma é que principalmente apparece nos mercados da capital e das cidades e povoações da região oriental.

Para moquearem quantidades consideráveis delias não se servem do muquem descripto. Abrem grandes cõvas, fundas de oito e dez palmos, ali na praia arenosa, e limpas das entranhas as tainhas, abertas pelo ventre, e sem lhes tirarem as escamas , as empilham regularmente nas cõvas recobrindo-as de areia. Sobre a cóva repleta fazem uma grande « coivára » ou montão de lenha daquelles bosques ou capoeiras tirada, e accendem a gigantesca fogueira que, sempre alimentada, queima durante vinte e quatro e mais horas. Aquella successão de fogueiras pelas longas praias fazem á costa uma singular illuminação, como si a beirada ardesse em nm vasto incêndio. Ao cabo do tempo pela sua experiencia julgado conveniente, abrem os pescadores as cõvas e retiram moqueadas as tainhas.

(1) V. a descripjiio destas cercas no Cap. VII. Deste peixe aproveitam mais as ovas, acaso melhores

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