A pesca do pirarucu
A pesca do pirarucú Por todos os motivos de ordem economica, a pesca do pirarucú occupa nas pescarias amazônicas o primeiro lugar. A salga do pirarucú, com > a recolta da castanha ona extraceão da borracha, determina uma época na região «o tempo da salga», setembro e outubro, e dá principalmente lugar aos grandes ajuntamentos periódicos no precedente capitulo esboçados. Outras pescarias fazem-se, digamos assim, á sombra desta, como appendices delia, ao mesmo tempo e nos mesmos lugares em queellaé feita, já também descriptos.
O pirarucú é a base da alimentação amazônica. Representa ali, região de escasso gado e de população pouco dada á criação eá cultura sedentaiia, o papel que a carne secca faz no Sul do paiz ou o bacalhào entre as populações pohres da Europa e da America do Norte. Elle é o iíosso bacalhào. e não sei si, menos estupidamente destruido, não podéra ter feito ao bacalhào nos mercados brasileiros séria concurrencia.
O pirarucú (Sudis gigas, Vastres gigas) é ura peixe grande, comprido e volumoso Medem os adultos de 2 m. a 2 m. e meio ou pouco mais. O seu peso bruto é de 50 a 80 kilogrammas, dando alguns de rendimento liquido,, em carne vendável, depois de secca, 2D, 30 até 40 kilo* grammas. Raríssimo excedem este ultimo algarismo. O seu nome diz simplesmente peixe vermelho como o urucú (pird, peixe ; urucú, o fructo da Bixa orcLland).
Vem-lhe da vermelhidão das suas largas escamas, cuja curva posterior volta-se para a cauda. Tem uma cabeça v olumosa, acabando em focinho chato, e o corpo cylindroide. As escamas do dorso são mais escuras e mais claras as da parte inferior ou ventre. Notam os pescadores que a cór do pirarucu é mais ou menos carregada, conforme o é a das aguas em que habita. Os dos lagos, onde de preferencia vivem entre as aguas lodosas dos a ningáes e periantans, são mais escuros, os dos rios de agua clara mais claros, e os do Amazonas de um amar dlo barrehto, consoante a còr das aguas do grande rio.
Esta observação traz uma confirmação á lei biologica da adaptação ao meio. Justamente nosflancos, entre o dorso e o ventre, e na cauda, mais vermelhas são as escamas, de cuja còr tirou o nome. Junto aos operculos brancbiaes, no terço inferior do corpo, tem duas poderosas natatorias. Possúe também barbatanas anáes, faltandolhe porém as dorsáes. A cauda lateralmente chata, verfieal, é em toda a sua curva superior e inferior bordada de uma franja de natatorias cartilaginosas. Sua lingua, ■denos rudimentar que a do ;ommum dos peixes, apresenta a particularidade de ter um osso comprido. chato r coberto na parte superior de picos, e attingc a 15 e 20 centímetros.
Em toda a região é usada a parte ossea desta hngua á guisa de ralo ou grosa para reduzir a pó o guaraná, a canella, as difíerentes raizes de que as bellas e faceiras mamelucas fazem os perfumes com que se aromatisam o corpo e as roupas. Por igual são as suas escamas depois de seccas excellente lixa, empregada pelos naturaes em alisarem suas armas e utensílios indi jenas, os seus arcos, as suas cuias, as suas colheres de páo. Muito as empregam também os torneiros, marceneiros e carpinteiros em quaesquer obras de alisamento.
De manhã sae o pescador em a sua leve montaria de pesca, algumas pequenas a não terem mais de 2 m ,50 a 3* de tamanho, uma largura rnaxima de 40 a 50 centímetros, muito razás, delias havendo cuja maior altura, em perpendicular, do fundo á linha das bordas, não será maior de 20 a 33 ou a 40 centímetros. Comsigo leva duas linhas, dous bicos, duas boias, o cacete pára matar o peixe, a sua pequena faca, e o seu urú, cestinho de talas, de tampa movei, em fórma de bolsa de senhora, com o isqueiro, o tabaco, a palha de tauari para o comprido cigarro que dura todo um dia, o seu provimento de anzóes e outras miudezas.
O pescador é, noventa e nove vezes em cem, um indio semi-civilisado, um tapuio, uu um mameluco, mestiço do indio com o branco. Menos frequentamente um negro ou um mestiço da raça negra com a indígena ou cora a branca, crioulo, cafuz, curibóca ou mulato ; ãs vezes, raramente, um branco, mesmo estrangeiro, algum portuguez principalmente. Não ha um trage especial de pesca, mas quem representasse o pescador vestido de calça e camisa solta, curta, mal lhe cobrindo o cós da calça e a cintura, tingidas ambas no vermelho terroso da tinta do moruxi ( Byrsonyma ) e o grande chapéo desabado d»
grelos do tucumanzeiro (Astrocaríum tucuman) enterrado na cabeça, teria dado o typo mais geral delle, em todo o seu pitloresco indígena. A canòa, também, não é forçoso seja aquella descripta mais especialmente na pescaria usada e por isso chamada •canòa de pesca. Servem-se de qualquer quando é preciso e vèem-se grandes montarias e também igarités occupadas íia pesca. Estas, todavia, não tém as vantagens daquellas i ■o silencioso deslisar, o velóz correr, o manejo íacil, a evolução rapida, e possibilidade de entrar o mover-se nos mais estreitos e mais rasos riachos ou lagos, de encostar as beiras mais baixas e até de ser «varada» ou levada aos empuxões, de uma d’aquel!as bacias para outra, através e sobre os esteiros de capim que as separam. A ubá, a canoa de um só tronco, mal affeiçoado à forma de embarcação, é hoje quasi desusada, sobretudo no Baixo-Amazonas, onde a montaria a substituio.
Faz a montaria nesta região, como notou Bates, ás v ezes do cavallo, da mula ou do camello de outras. Cora ■ctnco páos a constróem : tres pranchas largas para o fundo e as bordas e dous pedaços nos quaes talham as “rodélas» de pópa e pròa. As rodélas dão a fôrma de y ma serai-ellipse fazendo arredondada a parte superior, ■^ne muitas vezes torminam por uma curva composta ou linha sinuosa, de ornamentação. Devia de ser a fabricaÇao da canòa entre o selvagem primitivo cercada de praticas religiosas ou cultuaes, e entre a gente amazônica sobrevivem crenças que são porventura os restos daauellas praticas. A madeira paraacanòa, e as saas florestas lh'as fornecem variadas e excellentes, ha de ser cortada em determinada lua, consoante certa orientação, e. não deve a abertura do casco ser presenciada por mulher pejada, o que o faria rachar. A madeira a que dão a preferencia é a itaúba, pão pedra, pão duro como pedra, pão ferro,, de ità pedra e depois ferro, o ú ba, madeira, pão.
No preparo do casco usam ainda do fogo, como o indígena primitivo, não só para consumir a porção de madeira que lhes daria muito trabalho tirar com a ferramenta, como depois de assim cavado o madeiro, para abrir e dar ao tronco concavo a fôrma e geito convenientes. Para isso poem-o com a abertura para baixo sobre uns páos, adre 'c dispostos e acendem-lhe ern baixo fogo, cujo calor dilatando a madeira facilita-lhes a operação de a afeiçoarem em fórma de canoa, mediante pàos de vários tamanhos que introduzem de lado a lado dos bordos internos para forçar a distensão e para conserval-a distendida e de embiras e cipós, passados á volta, aflm de regular a distensão e evitar se não abra no sentido do comprimento a larga prancha curva (1).
DesParte promoto o casco, aperfeiçoam-o com ferramentas de carpintaria, adaptam-lhe as rodélas de pópa e próa e passam-lhe ás bordas duas pranchas curvas, pregadas a prego e ás vezes também ligadas ao casco por (1) Para noticia mais minuciosa e technica da construcçSo da montaria, V. Camara, Ensaio sobre construeçoes naraet indígenas no Brasil, Rio, 1883.
cm l SciELO 10 11 12 meias cavernas espaçadas. A estopa e o breu para lhes tomar alguma raxaeos interstícios das ligações, fornecemos a própria mata. Esta canoa é desprovida de quilha, para não pegar nas vegetações aquaticas. no tijuco das beiradas ou nos capinzaes por sobre os quaes as levam, na faina da pesca, de uns pontos para outros. Muitas vezes deixam de juntar ao casco as pranchas lateraes, limitando-se a pôr-lhe as rodélas. os bancos estreitos e á pròa a especie de banco largo, triangular ou trapesoide, chamado fogão. E' aqui que, sobre um vaso de barro cheio dé terra, accendem fogo para assar o seu peixe ou ferver o seu café.
Nesta embarcação sáe o pescador á pesca. Um companheiro, um fillio menor ou qualquer outro corumim. va© 30 jaeuman, isto é, sentado no banco extremo da pôpa.
com o largo remo elliptico e chato, leme e propulsor ao mesmo tempo, dá andamento e direcção á canoa. A falta de gente para este officio, suppre-a o João-de-páo. O Joao-de-páo é um dos seus remos, a metade de um delles de preferencia, fixado por cipós ou cordas á pôpa, afim de conservar a piroga na rota que elle agachado á pròa, 3 bunda sobre os calcanhares ergnidos, o peso inteiro do corpo descançando nos dedos dos pés largos, orn remando com uma sò mão, ora servindo-se da longa liaste do harpão s lhe imprime.
E\ porem, de pé ou a meio sentado no banco alto, especial, denominado «banco de pescadora que atira ao peixe. Este banco é simplesmente um circulo de madeira fixo a um pão de tres ou quatro palmos, que á maneira cm 1 SciELO 10 11 12 de mastro, passa através da abertura circular rio banco de proa e fixa-se na caverna ou no casco em baixo, para isso ligeiramente escavado. Com o trazeiro repousado nelle, as pernas estendidas, os pés bem apoiados na taboa do fogão, tem elle a estabilidade e firmesa de posição necessárias e a indispensável liberdade de movimentos.
A longa haste na mão direita, formando um angulo agudo com a linha da canõa, apontada á agua, prompta ao arremeço, V3e elle vagabundo, ao longo dos igaraoés, pelo meio dos lages, beirando as margens, ou alongandose ao largo, buscando os sitios onde se lhe antolna. por signaes á sua experiencia conhecidos, mais abundante o encontrará. Ora pára a canòa á beira dessas extensas touceiras de perimembeca, de tiririca, de mury ou de canarana, gramineas diversas que com o nome collectivo de matupás. orlam as margens ; ora, sobrepondo-a a ellas, mettese-lhes por entre as altas franças, e então se não vê sinão um homem ou mesmo a melade de um homem, surgindo do meio d'aquella vegetação fluetuante, verde, immovel como uma estatua; já deixa ir a canòa a remadascompassadas, surdas, mettido o remo todo n'agua e tirado aode leve. beirando as margens; já reunindo-se a outros pescadores, cada um na sua montaria, faz com elles uma especie de cerco em ponto ao seu alvedrio favoravel.
de modo a não escapar a um o peixe fugido a outro. Do habito do pirarucu de vir de quando em quando á superficie tiram elles ensejo para a pesca a harpão, a mais fruetuosa que lhe fazem. Que vem elle fazer ao lume d'agua? Respirar? Nào é ura cetáceo, que disso precise. Catar alimento? Não o acreditam os pescadores.
sabidos nos seus costumes. Como quer que seja, aos zoologistas cabe dizer-nos o fim deste seu intermittente boiar. Baste-nos saber que este habito seu ofTerece aos pescadores propicia occasião de o pegarem.
Algumas vezes em as aguas límpidas, no meio do rio ■ou do lago, ou pelas beiras dos estreitos canaes que lhes servem de entrada para outras aguas, ali perto da sua canôa e ao alcance de seu harpão, passa rápido, fugindo-lhe, a alguns palmos d'agua o volumoso animal.
Outros olhos que não os seus, não distinguiriam o instantâneo perpassar daquelle corpo no fundo ou siquer notariam o quasi imperceptível movimento da suoerficie liquida, a siriringa, revelando a dislocaçáo das camadas inferiores. Vio-o, porém, elle, e, sem precipitação, calmo e forte, «man la-lhe», consoante a sua expressão predilecta, a pesada haste armada do penetrante ferro, que através da camada liquida e das duras escamas se lhe vae cravar nas carnes rijas. A súbita e trepidante parada da haste, que se levanta um momento sobre as aguas para logo desprender-se e cair para ali. indica-lhe que o animal foi alcançado e deita a-fugir mal ferido.
Mas é sobretudo quando elle vem a tona e boia que é harpoado. Não se sentindo acossado pelos pescadores o seu boiar é. como elles dizem, suave. Rapida emerge e logo mergulha a grande cabeça, o dorso volumoso e escuro assoma de fugida e prestes some-se sob as aguas e por fim a cauda, onde brilham as escamas vermelhas, mosta-se um instante e afunda-se n’um relance, cortando como larga espada a superfície liza. Por suave que seja o seu boiar, ouve-se-lhe o ruido particular, e levanta A PF SCA NA AMAZÔNIA cumulos d'agna, sob cujas espumas brilham as suas escamas vermelhas. O boiar è mais ou menos violento conforme se julga elle perseguido ou não. Jã acaso lhe resvalou pelas escamas fortes o pesado harpão; as canoas, com os pescadores em pé á pròa, põem por ali a sua sombra ameaçadora. A inexplicável necessidade atraz referida força-o, comtudo, a vir á tona. Irrompe com a cabeça, o corpo, a cauda, tudo a um tempo, aguafóra, rauido, instantâneo, levantando barulhosamente uma grossa columna d'agua . « Balacubáo». «bólócóbó» chamam onomatopaicamente os pescadores este salto precipitado, medroso, e pronunciam a palavra imitando-lhe o barulho.
E' este o momento de harpoal-o. O seu mesmo volume e a violência com que penetrou ifagua deixam indicada na superfície a direcção que tomou. Xo sulco da sua fugaz passagem fóra delia, ficam os «bululu», bolhas d’ar, grandes como um limão, produzidas talvez pelos haustos fortes do seu apparelho respiratório. Estes signães guiam a pontaiia, e o harpão arremeçado a toda a força vae apanhal-o certeiro lã no fundo. O amido «bico” de ferro engastado na liaste, por força do arremeço e do proprio peso delia, que não é pequeno, pe_ netra-lbe no corpo, e ali fica seguro pelos dous ganchos lateraes ou farpas de que é armado. A haste, jã ficou dito, solta-se e achando-se ligadá á corda por um laço em argola da extremidade superior, escorrega presa ãquella, indo ao fundo entre o peixe e o harpão. Corre o pirarucu levando-o cravado em si. O pescador vae-lhe ora soltando ora colhendo a corda, de modo a trazel-o já fatigado à A PJBSCA DO PIRARUCU* beira da canóa. Si o sente por demais volumoso e forte e desconfia da resistência da corda, e nâo tem outra ali prompta com que a acrescente, solta-a toda com a boia presa á extremidade. Póde fugir o peixe, onde quer que vá o denunciará a boia. A ella corre o pescador e de novo tomando-a repete a manobra de puchal-o para si, já colhendo-a, já largando-a, a cançal-o, e trazel-o até junto da canóa para o golpe final. Ás vezes ainda alu chega forte e resistente, outras vezes, ferido em parte que torna diífícil pór-lhea cabeça fora d'agua. Nestes casos o pescador «secunda-o», que é o seu termo para significar que deu-lhe uma outra harpoadéla, para o que sáe sempre á pesca com dous harpões. Preso por um ou dous delles cravados no corpo, vem ainda luetando á beira da canóa.
Rápido e destro, cora as mesmas cordas daquella arma lhe passa o pescador um laço em torno do corpo, por baixo das natatorias peitoraes, e levantando-lhe a cabeça fóra d‘agua ià-lhe rijas pancadas com o cacete curto, grosso e pesado, que faz parte dos seus apetrechos de pesca, no alto da cabeça, acabando-o assim. Depois ou mette-o para dentro da montaria ou leva-o a reboque.
Não sendo Ipanema» ou não estando «caipora», póde um pescador, era sitio abundante de pirarucus, pescar àssim oito, dez e mesmo doze em uma manhã.
Uma occasião ha, quando estão elles no ebòco. secundo julgam e dizem os pescadores, extremamente propicia á esta pesca. Então macho e femea circumscrevem o seu retouçar a uma area determinada, dentro da qual ao parecer delles tem os ovos e boiam um e outro com frequência a harpoal-os favoravel. Não parece, todavia.
bem assentado o rnodo por que se faz a gestação nesta especie. E’ um facto curioso, que surprehendeu Agassiz, o de alguns peixes da Amazônia recolherem ás guelras os ovos e ahi os fecundarem. Não sabia o provecto naturalista explicar como os ovos de peixes do genero Geophagus vèm ter á cavidade buccal, transporte que s° deve dar logo após a postura, pois alguns vio nos quaes mal começava o desenvolvimento do embrião (1). Em uma das interessantes memórias inéditas do naturalista lusobrazileiro, Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, que em commissão do governo de metropoli de 1783 a 1792 viajou e estudou a Amazônia, lè-se esta curiosa observação que, a ser verdadeira, forneceria a explicação por Agassiz.
procurada «As femeas (do pirarucu) desovam pelo principio da enchente do rio e o modo com que o fazem não deixa de ser notável. Eufiam a cauda contra a correntesa do rio, e abrindo os operculos das guelras, assim como a galinha abre as azas para agasalhar os pintos, esperam que para dentro delles se recolham os ovos que se não tresmalham e descem com a correntesa. De baixo dos operculos se agasalham os ovos e saem transformados em peixes aos cardumes, ora soltos, e aos lados do corpo de suas mães, sem nunca perderem o tino de se refugiarem debaixo dos seus operculos, principalmente assustandose-lhes ou sendo perseguidos pelos outros peixes que osdevoram » (2).
(1) Mme. et Mr. Louis Agassiz, Voyage au Brésil, pag. 22 -t e 226, notas de Agassiz. (2) Memória sobre o peixe pirarucu MS. da Bibliotheca Nacional.
O meu querido amigo e conterrâneo, Dr. Manoel Francisco Machado, atilado observador e entilligente conhecedor das coisas amazônicas e ao qual deve este trabalho boa copia de informações e correcções, garante-me, entretanto, que neste ponto é menos segura a noticia do estimável scientista brazileiro. E’ versão corrente entre os pescadores, diz-me elle, que o pirarucu faz ninho no fundo dos lagos e outras aguas tranquillas de pouca corrente e lá deposita as suas óvas, das quaes algumas, como diz o mesmo Ferreira, attingem a tres palmos* ficando macho e femea, pae e mãe, de vigia ao ninho para evitar não o ataquem outros peixes. Emquanto anda um delles ao pasto ou boiando lá por cima, está outro de guarda aos ovos, e assim nella se revesam. Quando sae, a prolç (1) é certo acompanha a mãe, protegida a certa distancia pelo macho, que navega de conserva.
Encontrando-os desta fórma e neste cuidado reunidos o pescador harpòa de preferencia o macho, certo de que a femea por não desamparar o cardume lhe não escapará, limitando-se a mergulhar e boiar com mais frequência, sem alongar-se da ninhada. Em uma destas vezes, é quasi certo, a apanhará o seu harpâo, que do mesmo tiro deixará orphãos indefesos, entregues á voracidade dos jacarés e de outros peixes centenas, sinão milhares, de indivíduos desta utilíssima especie.
(1) O padre José Monteiro de Noronha, no seu Roteiro de viagem, de lTtíti, noticia que « vingados os ovos » agasalham os pirarucus os filhos nas guelras. Mm. para a hist. e geog. das naçtes ultram. Tomo VI, pag. 39.
Seja como fór. a informação de Rodrigues Ferreira, nao obstante talvez menos exacta para o pirarucu, explicaria como os ovos dos Gcophaytis vão ter-lhes á bocca para serem fecundados, o que não soube Agassiz explicar.
E já que nesta espeeie toquei, diga-se de passagem, que um outro peixe do Amazonas, o lambaqui (. Erythrinus ) recebe os ovos pelo mesmo processo, não nas guelras, mas sob as escamas, propositalrnente arrepiadas para os aparar quando trazidos pela corrente, e abi os fecunda.
E* o harpào. temos visto, a arma desta pesca. O harpào consta de uma longa haste de madeira, cylindrica, de desiguaes diâmetros e de uma ponta de ferro chamada «bico», armada de duas outras pontas* lateraes, recurvadas para cima. O objecüvo destas farpas é não deixal-o sair do corpo do animal, antes segurál-o, aos seus répelôes para dtlle livrar-se. Um rijo cordão de alguns millímetros de diâmetro prende-se forteinente a uma solida alça deixada intencionalmente na linha regularmente amarrada á cabeça do bico de ferro. «Estruvar»
chamam o fazer «leste amarrilho especial com que seguram seus anzóes ou pontas volantes de ferro de sua^ armas de pesca. A corda c de linho ou, preferivelmente, de algodãoNos lugares mas afastados dos centros civilisados ainda a usam por elles mesmos feita das fibras das suas bromeliaceas. A esta corda, qualquer que seja a sua grossura, chamam afio» ou «liuha».
O bico de ferro tem de 7 a 10 ceutimetros ; a haste as vi desde 2m,0ü a 3m,32, sendo o diâmetro máximo desta ultima de 7 milímetros e o minirno de 3. A linha t*m geralmente dé 20 a pouco mais de 30 metros. A parte cm 1 SciELO superior do bico alarga-se n'um cone truncado, concavo, de base voltada para cima. Nesta concavidade chamada «alvado» encaixa a ponta inferior, mais grossa, da haste.
As madeiras para esta preferidas são a paracuuba, o páo d arco, a abiurana e, em segunda linha, a massnranduba, 0 páo preto, o patuá, que dá a haste quasi prompta, e outras ainda.
E* este o modo de armar o harpão e porque func‘Ciona elle-; mettido a haste no alvado do bico a linha presa a esteacompanha-achegadamente até cerca de dous terços delia. Ahi uma farpa de madeira fortemente presa por amarrilho de linha forte, faz uma saliência com a denominação de presilha. A* distancia correspondente da linha ha um outro pequeno fio mais fino fixamente umarrado em laço. que encaixado o b»co na haste e espichada a corda, é passado na presilha para conservar *®nsa a linha e firme o bico. A parte restante da linha sobe frouxa até a extremidade superior da haste, passando por um laço aberto ou anel de cordão ali exist^nte e de lá vindo ter a mão, direita do pescador que a segura ao mesmo tempo que a haste. O que sobra de hnha ou a reune na mesma mão. colhido em círculos re gulares, oucae desenrolado sobre o «fogão» da canòa.
Quando fére o peixe, o laço que conserva tesa e firme a linha nos dous terços da haste, com a violência do choqu e salta Ja presilha. A haste, solta do bico pelo oí *mbear da linha, deslisa por ella abaixo retido pelo luço frouxo da sua extremidade superior, ficando o pesCa dor com a corda na mão.
Por outro3 processos, nestas mesmas regiões de cm 1 z SciELO 10 11 12 pesca e no mesmo «tempo da salga», pegam elles o pirarucú. Nos lagos rasos onde se acolheu o volumoso peixe vão gapuial-o. pescando-o e ao mesmo tempo escurraçando-o para fóra d’elle, em cuja saida apostaram o pari queque os ha de prender. Gapuiar é pescar nos baixios ricos em pescado, um pouco ao accaso, lançando o harpão, frecha ou fisga, á aventura.
A pescado pirarucu gapuiando-o — elles dizem vou, vamos, fui. foi gapuiar pirarucu, o verbo sempre no infinito precedido de outro, a guisa do auxiliar, em modo finito, raras vezes estou gapuiando ou forma idêntica 1 no gerúndio, também de um auxiliar precedido — a pesca do pirarucu por esta fôrma, é feita igualmente com o harpão, e mais especialmente, porém, com outra arma pouco differente, a fisga. Isolados ou intencionalmente reunidos a fazem. Collectivamente procedem assim : em uma porção favoravel de um igarapé ou lago, collocam as suas canoas em fila umas atrás das outras, dirigidas neste caso vagarosa e silenciosa mente por um outro, á pròa. Sentam-se os pescadores em um dos bancos do centro, á beira da embarcação, com a arma mettida n’agua, fortemente segara a mãos ambas, pelo terço medio, apenas levantada do fundo, previamente porella sondado, o bastante para não poder escapulir-lhe sob a ponta ou bico o volumoso peixe que lá embaixo descança, pousado no fundo. Súbito a arma tóca, um corpo deslisou-se-lhe pela ponta. Com este indicio indefinível, que da direcção delle lhe deu a vibração especial da haste, ergue-a e lança-a tráz elle. Si o falhou, o pescador da canòa em frente, cujo harpão elle tocou na fugida, «secunda-o».
4.T harpoando-o de novo. E depois delle o terceiro, o quarto r todos que o sentiram passar o perseguem. Comprehende se que a pouca profundidade das aguas não lhedá azo de escapar á zona de alcance dos harpões ou da acção combinada dos pescadores.
Qualquer que seja a pericia do pescador e, em regra r não póde ser maior, não tem este systema, por sua mesma natureza, e quando individualmente praticado, a segu-« rança de outros. Quando, porém, são muitos os pescadores, o peixe que escapou deste vae cair mais adiante sob afisgadaquelle, e no fim de uma ou duas horas a matança delles é grande. Dos que poderam escapar, ou porque se metteram debaixo de alguma vegetação mais cerrada, ou no lodo. em algum esconderijo mais seguro, vão alguns a evital-os cair nas tapagens apparelhadas ás saidas do lago ou ribeiro.
Vão outrosim caçal-os nos lagos chamados cobertos, ainda mais baixos que aquelles onde gapuiam, e litteralrnente cobertos de gramineas e nympheaceas, nos quaes mais é o lodo, o tijuco, na linguagem indígena, que a agua. Arriscada e perigosa é esta perseguição ao pirarucu, que se occulta refastelado na agua larncsa desses esteiros, sob o cerrado traidor da sua vegetação especial. São também elles o preferido refugio dos jacarés e das sucurijús (Eunectei murinut), temíveis encontros em taes sitios, onde tém todas as vantagens de uma posição ao sabor dos seus meios de ataque.
Chamam esta pesca «bater o lago». Convocam-se e reunem-se em putirum, em numero ás vezes crescidoPoem-se em linha de frente, um páo na mão esquerda, a fisga ou o 1 arpão promptos na direita. Avançam conservando a Unha por sobre as vegetações, calças arregaçadas até a còxa, ou pernas núns, mettidos n'agua ãs vezes até' acima dos joelhos, com os páos sondando o terreno em frente de si. Tocando o páo um corpo que se escapole deslisando no lodaçal em baixo, crava-lhe em t cima a arma de pesca, a segurar. Abrem rápidos o matupá que o esconde, tiram-no d'ali e, depois de morto, joaam-o para cima da mesma vegetação, continuando a pesca. Frequentemente, em vez de um pirarucu, é um jacaré o animal tocado ou ferido, ou alguma sucurijú. que pincha d ali raivosa e assanhada, fugindo ou atirando-se aos pescadores.
Não poucos são os desastres por este genero de pesca produzidos, mas é rendoso, e essas naturezas embotadas pelo habito desdenham perigos, que os mais corajosas de nós não affrontariam com a calma e despreoccupação delles.
Contra o pirarucu não empregam sómente os meios de captura descriptos. Pescam-o ainda a linha e os pequenos. filhotes ou bodécos como lhes chamam, com o sararacão, que é a especie de trecha mais adiante descripta no capitulo das tartarugas, maior, de corda mais grossa e mais curta que a desta.
Durante a enchente a pesca do pirarucu faz-se principalmente á linha, com menos successo e sobretudo com muito menos proveito que as do verão ou vazante. No tempo da maior cheia — Junho e Julho o pescam nos lagos e igapós com o espinhei, posto á 4-> noite. Não precisa descripto o espinhél, por demais conhecido: uma linha comprida da qual pendem outras curtas com anzóes, estendida de uma a outra margem ou de um a outro ponto, onde amarram cada uma das extremidades. A linha para o espinhél de pirarucu é, verdadeiramente, uma corda.
Com a linha de pesca procedem deste modo : prendem-a solidamente á beirada, em uma touceira resistente das gramineas que as infestam ou a algum tronco ou galho A* agua lançam obra de um metro deila, donde Pende o grande anzól, convenientemente iscado. O resto da corda arranjado em círculos sobrepostos mais ou menos regulares, descança na margem sobre um pão ou sobre o capim, prompto a desenrolar-se facilmente ao puxão violento do peixe em fuga. Desfarte preparada a linha vae o pescador a outra occapação, ou dormir, ou descançar. O pirarucu voraz atira-se ao anzól iscado, r iue ás vezes, veremos, illude-o com um peixe vivo, e de uma boca la o engole. Sentindo-se preso corre em desesperada fuga, até que a corda amarrada á beira súbito de repellào o detem. E f então de ver como violenta e dirieis raivosamente se debate, correndo para todos os l*dos. furioso, tentando livrar-se, fazendo visíveis esforcos per vomitar o anzol e o engodo que o prendem pelas entranhas, incapaz, por falta de dentes, de cortar a corda. O barulho que faz n’agua, açoitada fortemente pela sua cauda poderosa, desperta ou avisa o pescador, ( lue acode presto, receioso que algum jacaré, como ás v ezes succede, lhe não leve ou ao menos damnifique o Pescado, preso e cançado entregue á sua voracidade. Tomando da linha vae «tenteando-a», ora colhendo-a, ora soltasdo-a, até fatigar o peixe e trazel-o semi-morto junto de si, onde com o cacete o acaba.
Outras vezes prende a linha ao topo de uma vara assás forte e resistente, fincada no fundo do lago ou igarapé. Kão deve a linha entrar rfagua mais de um metro ou metro e meio. A esta vara, que tem o nome de «marà», dão o appellido especial de «curumin», rapazinho. Quando o peixe «caio» ou «pegou» no anzol, debate-se como já vimoi-o fazer na linha, curvando e ás vezes arrancando ou quebrando a vara, não obstante solidamente fincada e forte. Acóde o pescador na canòa e, corn as mesmas manobras descriptas, apodera-se delle.
O anzol, um forte anzol que estendido teria dez centímetros, é iscado com peixes inteiros de um palmo pouco mais ou menos. Usam especialmente fazer isca dos peixes gijú e tamuatá dos quaes principalmente faz elle alimento. Si podem deixal-os vivos no anz melhor é, para illulir o pirarucu, e ao gijú preferem o tamuatá por não poderem com as suas escamas rijas as voracíssimas piranhas.
Pescado elle, vejamos como o pre aram. Estendem-o de ventre no chào. Com a ponta de uma faca, de dorso voltada. fazem saltar a pancadas certas um linha de escamas bem no fio do lombo e outras lat^raes, oor sob os operculos branchiaes e bordas da cauda, logo abaixo da orla de barbatanas cartilaginosas que a borda. Com a mesma taca, em geral a sua faca breve e aguçada de pescador, praticam nas linhas de carnes postaá mostra pela à. PFSCA. DO PIRARUCU' ^xtracção das escamas incisões fundas, longitudinalmente, primeiro pelo dorso abaixo do alto do tronco ao fim da cauda, de um e de outro lado, transversalmente depois, por sob as guelras. Entram em seguida a estolal-os, a golpes rápidos * curtos, com ajmesma habilidade e prestesa com que o gaúcho esfola uma rez. A mão esquerda sustenta e apara o couro formado pelas escamas, nas quaes se elle ha de desfazer em seccando, emquanto a direita, armada da breve faca de pescador, a cada momento passada na pedra de amolar ali adrede, corre em golpes intermittentes e seguros, entre a pelleque se desprende ea rósea carne do grande peixe. Aquelle panno de escamas deitado dos lados, servir-lhe-á para sobre elle posteja!-o e salgal-o isento de impuresas. Sendo volumoso o peixe, as duas bandas — é o termo proprio tiradas são divididas era caais postas. Leva-as então para a vara estendida ali perto, e dando um golpe ao comprido da parte superior abaulada de cada uma delias, abre-as, adelgaçando-as á espessa desejada e dividindo as em duas ou tres largas tiras conforme comportam, de um dèdo grosso de altura, coradas lateralmente do alto do tronco á extremidade da cauda. Estas tiras cuja largura, conforme o volume do Peixe, pode, variar de 15 a 30 cent., chamam-se postas * affectam a forma de uma folha commum a que se trunfasse a parte superior, arredondada, adjacente ao P® dunculo.
Tiradas as postas, ou as vae salgando ali mesmo sobre 0 leito feito da pelle escamosa, passando-lhes a mão ^palmada cheia de sal sobre a carne húmida e rosada.
0a * havendo-as dividido na vara, mesmo sobre ella. Salgadas que sejão poem-as a seccar, pendidas das varas suspensas das forquilhas de outras. Seccas arrumam-as umas sobre outras, a um canto da feitoria, barraca, casa, loja ou armnzem, sobre um giráo ou sobre páos, para que as não prejudique a humidade. Para o commercio em grosso, juntam varias postas, dobradas as pontas inferiores para dentro, m um volume, mais oa menos cylindrico, amarrado com embiras ou cipós, que tem o nome especial de «pacote» e peso determinado, meia arroba, uma ou duas.
Secco assim é a forma porque o usam em toda a região, dafóz ao Perú e atí aonde vão os a Afluentes do Amazonas. O tapuio chama-lhe piro hem, peixe secco* As partes mais apreciadas para serem comidas frescas ou « frescaes, » isto é, sem haverem soíTrido demorada acção do sol e do sal, são a cauda ou rabada, despida de sua parte carnuda que ficou nas postas e a ventrecha, geralmente gorda e realmente saborosa, depois de assada, fresca, sobre brazas vivas, e apenas condimentada com sal, limão e pimenta. A cabeça quasi sempre a comem moqueada. Aproveitam ainda as vertebras dorsaes cosidas, e das tripas grossas fazem um guisado chamado fjuéréré.