Relance histórico sobre a pesca na Amazônia A pesca na Amazônia · Capítulo 9 de 10
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Relance histórico sobre a pesca na Amazônia

Relance historico sobre a pesca na Amazónia A conquista poríugueza no que se chamava então Capitania do Grão Pará (1615— 1772), a nossa Amazónia de hoje. penetrou o sertão muito mais rapida e vantajosamente que a do Estado do Brazil. Xo fim do primei o lustro do século XVII, ao cabo, portanto, de mais de um século da descoberta e inicio da primitiva conquista, podia escrever sem exagero, sinão absoluta fidelidade, o primeiro historiador brazileiro, Fr. Vicente do Salvador : « Da largura que a terra do Brazil tem para o certão não trato, purque até agora não houve quem a andasse por negligencia dos Poríuguezes, que sendo grandes conquistadores de terras não se aproveitam delias, mas contentam-se de as andar arranhando ao longo do mar como carangueijcs.» (1) Não era dos portu »uezes sómente, devia.ver o venerando trade, o defeito, mas da terra que não abria sinão ásperos e difficultosos caminhos so seu desejo de penetral-a. Lá ao (1) Historia do Brazil , por Frey Vicente do Salvador, escripta na Bahia em 1627. in Annaes da Bibliotheca S acionai do Rio de Janeí ro, Vol. XIII, pag 8.

12o A 1>ESCA NA AMAZÔNIA Norte, nas terras do Grão Pará e do Rio das Amazonas, por Francisco Caldeira Castello Branco doze annos antes conquistadas, não foram carangueijos. sinão furões os portuguezes. Em um lustro mal passado, tinham elles feito mais que os seus compatriotas do Estado do Brazil dobrado um século. Em perseguição do Tupinambá. do Hollandez, do Inglez, haviam logo, no primeiro decennio do seu estabelecimento de S. Maria de Bethlém do Grão Pará, devassado as paragens recortadas de rios e furos entre Gurupà e a boeca do Amazonas, cerca de setenta léguas terra adentro.

Ao findar do século XVII, pode-se dizer sem exagero, mui pouco era o que da vasta região não fosse de rapida visita ou de boa informação conhecido. A famosa expedição de Pedro Teixeira (1028-1039) é verdadeiramente uma viagem de recònhecimenio e exploração.

Descobre e divulga as boccas dos grandes afiluentes de uma e outra margem, por algumas das quaes penetra tres e quatro dias o brazileiro Bento Rodrigues d ' O líveira, bom pratico, posto por Teixeira na vanguarda da numerosa expedição. Duas cartas e duas ou tres relações lhe cóntam os detalhes e fixam os resultados adquiridos. Aberto este caminho, começa activa e constante a obra nunca interrompida da penetração do Oéste amazonico.

A relativa facilidade e presteza com que por toda a região penetraram, quando os seus emulos do Sul apenas, no pittoresco frasear do Fr. Vicente, arranhavam o littoral, tornou-as possível o maravilhoso conjuncto de communicações fáceis e commodas ali creadas, como francas avenidas, pelo systenoa bydrographico que faz e distingue a região.

Não pareça, todavia, paradoxo observar que menos commodas e confortáveis seriam ellas, portanto, mais difHceis e raras as longas viagens, de copioso numero de canoas e gente que logo se entraram a fazer e, por conseguinte, menos rapida a entrada do sertão, si não fòra a abundância de facii alimento nos proprios caminhos percorridos encontrado. O peixe foi sempre, então como hoje, mais ainda então que hoje, na Amazónia, o ■ principal desse alimento. A sua abundancia, a habilidade que os indios tinham em pescal-o, foram parte nessa obra verdadeiramente admiravel da fácil penetração dos portuguezes sertões amazomcos a dentro.

(1) Papel político sobre o Estado do Maranhão, Rec. do Inst. Ilist. T. XLYI, pag. 12. Na Rev. vem este papel datado de 1605, é 85 que deve estar.

Parados, á espera de uma canòaque se havia atrazado, « se mandou fazer pescaria nos muitos e grandes lagos que haviam nas mesmas ilhas (do Madeira) de que resultou copiosa abundancia de peixe, com que se abasteceu toda a escolta, » e mais tarde, quasi um mez depois (a viagem durou nove; « só de um lago perto do arraial, informa o chronista referindo-se á paragem que ao depois se chamou N. S. da Conceição, houve uma tai fertilidade de tartarugas, que além de ministrarem a maior . parte do sustento de toda a escolta, ainda deile se tiraram na despedida do sitio as que bastaram para Tornecimento de muitos dias de viagem. » (1) As mesmas referencias e noticias se encontram em todos os viajantes e chronistas do tempo. Canòas pequenas, chamadas especialmente de pesca, como aquellas ainda hoje com o mesmo nome usadas, atraz descri ptas, acompanhavam todas as expedições. Nem se comprehendem como foram possíveis expedições como essa de Pedro Teixeira, de Belem ao Peru e vice-versa, com mais de 2 mil pessoas, sem a abundancia da caça e principalmente da pesca, pois aquella além de escassa nas maigons do Amazonas não dá jamais tão copiosos resultados. Nem havia então outros recursos de alimentação si não esses.

O gado vaccum entrou tardiamente no Pará. Delie a mais antiga noticia que temos é a que consta de um oflicio do governador Antonio de Albuquerque Coelho 1) Nas Memórias para a historia do extincto estado do Maranhão, Tom. II, pag. 289 e 308.

de Carvalho de 28 de Junho de 1G92, no qual informa favoravelmente o requerimento em que um Francisco Rodrigues Pereira pede ao rei se lhe conceda licença para descer vinte casaes de indios para com elles administrar os curraes de gado que ia fazendo no « sitio de Marajó », o que, diz o governador, « sendo de grande utilidade para este povo e fabrica dos engenhos o que lhe parece é que pela conveniência que resultará áquelles moradores tendo gado de que se sustentar e com que acudir a fabrica dos engenhos por ha *er grande falta delle j ara um e outro ministério e ter o sobredito Francisco Rodrigues dado bom principio a esta criação com mui'o trabalho e cuidado... podia S. M. conceder a faculdade pedida. » D’aqui poder-se-ia talvez inf rir ser esse mesmo sujeito o primeiro criador de gado no Pará ou ao menos, em maior escala, em Marajó.

Baena noticiando que em 172G a camara requerera ao rei vinte e quatro indios para o serviço da eonducçào de gado vaccum daquella ilha para a cidade, diz no seu empollado frasear: « Havia já onze dezenas de annos que durava nesta plaga o assento dos portnguezes : e em todo este tempo não houve açougue nem ribeira.

Emquanto os visiubos foram poucos em numero, e muitos os indígenas do mister ancillar para buscarem o alimento não se sentia falta delle, porém depois que se trocou esta razãn arithmetica do numero dos moradores e do numero dos indianos aceirados, padeceram-se muitas necessidades, que ainda as fazia maiores a falta de gado vaccum, cuja criação só no anno de 1703 é que pesca 9 principiou a ser cuidada na Ilha grande de Joannes. » (1)

A data do illustre cbrofiista paraense atraza de mais de dez annos a estabelecida no documento official que citei. Quanto a açougue, o primeiro, conforme o mesmo Baena t só pela paschoa de 1726 se estabeleceu. Póde-se, pois, dizer que o peix* e a caça foram, no primeiro século da conquista, a base da alimentação mesmo na capital do estado. Uma das preciosas chronicas da viagem famosa de Pedro Teixeira refere que « muchas vezes, en ól tiempo que duró na navegacion de la armadilla, vinieron gran suma de indios â ella, con canoas pequenas, mostrando-se afables con los portuguezes. . .

les traian despues refresco demaiz,yuca, camotes, plántanos, canas dulces y mucho pescado (2) e o principal chronista desta viagem, o padre Christovão da Cunha, diz que em chegando aossitiosor.de deviam repousar emquanto uns indios levantavam barracas para o’ alojamento, outros mettiam-se terra a dentro á caça e outros, só com seus arcos e frechas, iam ao rio e em poucas horas viam-os vir carregados de pescado estes e de caça aquelles. E isto não ura dia ou outro, sinão todos quanto durou a viagem. (3)

(1) Compendio das Eras do Pará , pag, 312. (2) Ilelacion dei deseulrimiento dei rio de las Amazonas , 1630. Publicada em 1883, Madrid, pelo Sr. Jirnenez de la Espada.

(3) Xuevo deseulrimiento dei gran rio de las Amazonas por el padre Christoval de Aeuna, Ano 1641, in MemoriaP para a historia do extincto estado do MaranhÜo, por C. Mendes de Almeida, pag. 88.

Dos peixes e das mais antigas pescarias amazônicas è ainda o mesmo copioso e verídico cbronista quem nos dá as mais velhas noticias que possuímos.

O gentio habitador das margens do Amazonas, de que mais se alimentava, informa elle, «y lo que como dizen, les haze el plato, es el imraenso pescado, que «on increitle abundancia, cada dia cogen a manos llenas de este Rio.» O peixe-boi (pegebuey) é o rei deste pescado, povoa todo o rio desde os seus princípios até que desagua no mar, no gosto só pelo nome é peixe, porque não ha quem c coma que o não tenha por «sazonada carne». E dá a seguinte exacta descrição: é tão grande como um bezerro de anno e meio. e na cabeça si tivesse chifres e orelhas não se ditTerençára delle ; tem alguns pellos curtos, como cordas moles pelo corpo todo, movese n’agua com dous braços curtos, que em fôrma de pás lhes servem de remos, sob os quaes mostra a femea os peitos, com que sustenta com leite os filhos que pare.

Diz que do seu couro bem curtido faziam os selvagens escudos tão fortes que os não varava uma bala de arcabuz, o que não sei até que ponto se deva crer. Dos seus costumes são exactas as noticias : sustenta-se somente de hervas que pasce como se fòra verdadeiro boi. do que tira tão bom gosto a sua carne e tal susíancia que com pouca fica uma pessoa satisfeita e com mais forças que comendo a de carneiro. Pouco lhe dura o folego debaixo d*agua e, por isso, desde que ande, vem á miudo á tona respirar , d’abi lhe vem a destruição, seguem-o os Índios em canoas pequenas e quando poem a cabeça fóra cravam-o com os harpòes feitos de conchas. Assavam-o, divididos em pequenas postas «sobre parrillas de palo^>, o muquem, que como vimos herdamos do aborígene, e assim duravam sem corrupção mais de um mez. Por não ter sal em abundancia, mesmo o seu sal vegetal, de cinzas de certas plantas, mas salitre que sal— observa o padre, não o salgavam.

Não po endo, por isso, conservar-lhe a carne por muito tempo, lhes não faltava industria para ter carne fresca todo o inverno, menos gostosa, porem mais san e de não menor proveito. No tempo em que saiim a desovar nas praias as tartarugas, deixavam elies também suas casas para ir colhel-as pelo processo da viração substancialmente o mesmo atráz descripto, ainda hoje em uso. Para trnz^l-as ã maloca, porem, passavamlhes cordéis através do casco, ligando-as umas ás outras, e as conduziam a reboque das suas canoas. A li as conservavam em curraes previamente preparado^, cercados de páos, cavados um pouco no fundo, para, como lagoas razas. conservarem alguma agua de chuvas, e nessescurraes, sustentadas com ramos e folhas de arvoras, as conservam vivas pelo tempo em que as haviam mister. A sua carne é como a de vacca tenra, tem as femeas mais de duzentos ovos. quasi tão bons como os de gallinha, porem mais duros á digestão. São tão gordas em certo tempo que de duas somente tiravam uma botija de manteiga que temperada com sal era tão boa, e mais gostosa e duradoura queade vacca; servia para frigir peixe e para toda a especie de guisados em que se poderia ali utilisar a melhor e mais delicada manteiga. Colhiam-as em tal abundancia que não havia daquelles curraes com menos de cem tartarugas e mais, pelo que jámais sabiam aquelles barbaros o que fosse fome, pois uma só bastava para satisfazer uma família, por maior que fosse.

Com mais facilidade gosavam de todas as especies de pescado do rio ; sem receiarem que lhes viesse eile a faltar para o dia seguinte, se não previniam no antecedente, antes sustentados do hoje colhido, amanhan comeriam do que apanhassem. Consoante o tempo, as cheias ou vazantes das aguas, assim diverso era o seu modo de pescar. Quando baixavam as aguas, tanto que seccavam os lagos impedindo ao peixe a saida para o rio. usavam de uma especie de trovisco, chamado timbó, da grossura de um braço pouco mais ou menos e tão activo que machucados dous ou tres destes páos, e batendo-se com olles a agua, o peixe logo estonteado vinha á tona e se deixava colher á mão. Era porem com as frechas que em todo o tempo e occasião apoderavam-se de quanto pescado sustentava o rio. Disparavam-as com a mão de um instrumento especial que nelia seguravam. Cravados no peixe faziam oílicio de bóia, para conhecer onde se retirava depois de ferida a presa, a qual se atiravam, pegando-a e recolhendo-a ás canoas. Este modo de pesca se não applicava somente a um ou outro peixe, sinào em geral a todos, que nem uns por grandes, nem outros por pequenos, eram privilegiados. (1)

A arma de pesca a que se refere o padre Cunha não •é mais usada, na Amazónia brazileira ao menos. Hes(1) Obr.cit. pag. 81i87. panhóes e portuguezes, como se vê do citado Cunha, de Heriarte, de Noronha e de Sampaio, chamavam-lhe palheta. Este ultimo dá delia a seguinte descrição mais minuciosa e comprehensivel que a do nosso autor do Nueco dcscubrimiento: «A sua arma (dos Cambébas) é a frecha, a qual não lançam com o arco mas com uma palheta de dous palmos e meio de comprimento, em que cravam em uma das extremidades o dente de algum animai de meio dedo de comprido, e virado para a outra extremidade. Tomando a palheta na mão, entre os dous dedos polegar, e index, applicam á frecha a ponta aguda do dente (que também hoje usam de ferro)

e logo fazendo a pontaria ao objecto arremecam a frecha a grandes distancias e com admiravel certeza, e dexte. ridade. Esta arma, accrescenta o ouvidor, é a estolica, em que eram destros os soldados dos Incas Jo Perú^ como o mostra a historia daquelle império.» (1)

Com estas armas, informa-nos o padre Cunha, capturavam qualquer peixe por mais que se lhes quizessem esconder nas aguas, e, o que mais admira, com ellas cravavam as tartarugas, quando fugindo, só de quando em quando e por breve tempo mostravam a cabeça acima delias, atravessando-lhes o pescoço, unica parte que, por livre do casco, era vulnerável. Esta particularidade final, sabe o leitor, não é perfeitamente exacta, a frecha, então como hoje, devia penetrar o proprio casco.

(1) Diário da Viagem que cm visita e correição, . . da Capitania do Rio Xegro fez o ouvidor... Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio no anno de 1771 e 1775, Lisboa, 1825, pag. 73.

Algumas daquellas nações ribeirinhas do Amazonas usavam de arco e frecha. (1; O ouvidor líeriarte, escrevendo vinte e um annos depois do padre Cunha, cita as mesmas armas acrescentando que os indios do Lago Negro (o Cudajás?) usavam «de harpões e anzóes feitos de osso. para a pesca, e de redes pequenas a que chamavam Pusás.» (2)

Os costumes e armas de pesca descriptas eram os dos indios do Alto-Amazonas, dessas regiões de além Rio Negro a que o chronista da viagem de Pedro Teixeira e o funccionario portuguez chamaram de províncias dos Soriraões, dos Cambebas, dos Omaguas. Podemos, entretanto, crer que de parte o uso da que appellidaram «palheta», estes costumes e armas seriam os mesmos no BaixoAmazonas, aquém do Rio Negro. A palheta, que Christovão do Cunha e Sampaio identificam com a estolicado império dos Incas, provaria uma tal ou qual relaçáo, sinâo remoto parentesco, entre a plehe desse império e o selvagem daquellas províncias. De alguns delles diga-se de passagem, informa Heriarte, que contavam «por nós que fazem em cordéis e cada nó é um anno ou dia, ou o que querem contar», (3) nós que fazem lembrar os quipos peruanos. E nao seriam estes (1) Obr. cit. pag. 96 97.

(2) Maurício de Heriarte Lescripção do Estado do Maranhao, Pará, Corupà e Ttio das Amazonas, no anno de 1692, ed. Porto Seguro, pag. 60, Vienna d’ Áustria, 1874.

(3) Obr . cit . pag. 59. os únicos pontos de contacto # semelhança entre estes povos aliás tào visinhos. Voltemos, porém, á nossa pesca. Da abundaneia de peixe no Amazonas e seus rios dá Heriarte noticias confirmativas dos dous primeiros chronistas citadados, um anonymo (1) outro conhecido e justamente celebre, da viagem de Pedro Teixeira. Do Tocantins diz que « é abundante de caça e peixe, com que os moradores se sustentam », os íncolas do Trombetas «têm muita pescaria, pela muita abundaneia que têm do peixe de todo o genero, e muito peixe-boi e tortugas fsic).» Dos Cambedas escreve « Seu sustento é peixe-boi (de que ha muito no rio das Amazonas) e de mais genero de peixe, fruetas e muita mandioca que se come crua, cosida e assada», e do Amazonas em geral, «todo esse rio é abundantíssimo de sustento, assim de carne (de caça devia dizer) como de infinito peixe do diversas casta$.» E deste peixe diz que é muito gostoso e sadio ( 2 ). Da abundaneia de peixe nos rios da Amazônia dá um homem dos primeiros tempos, o já citado Gaedes Aranha, a noticia de que em Cametá, no Tocantins, era elle tanto que « passando qualquer canoa de noite acendendo luz, é tal a nuvem de tainhas que a cerca, e acom(1) O erudito Sr. Marcos Jimenez de La Spada, que editou a citada rela;ao, ajuntando-lhe uma introducçào e notas reveladoras de muito saber e consciencioso estudo, cre, com bons fundamentos, que o seu autor é o P. Alonso de Rojas, da Companhia de Jesus.

(2) Obr. cit. passim. panha saltando, como fazendo floreio de verem entre si aquèlla novidade, que do muito que se en-ganam no salto e caem dentro da canòa é necessário retirar delia com brevidade apagando a luz, para não metter a canòa no fundo, e os moradores daquelle rio ordinariamente escusam mandar, nem assim, aquella pescaria peda quantidade que pelas praias dá á costa, um morto outro semi-vivo do violento salto com que se encontra no cardume, e também se attribue a abafar com a muita gordura que tem: é bom peixe.» (1) Esta abundanciade tainhas não existe mais no Tocantins onde ao contrario se fizeram escassas.

Do pirarucu, que devia se tornar mais tarde o principal recurso da alimentação amazônica e um dos elementos de riqueza da região, não falam, entretanto, os chronistas e viajantes dos primitivos tempos da conquista e descoberta. A primeira referencia queconheço ao grande peixe, e essa de passagem, sem individuação e particularidades. é feita século e meio após o estabelecimento dos portuguezes, em 1768, pelo padre José Monteiro de Noronha, no trecho que do seu Roteiro citei tratando da procreação daquelle peixe. (2; E’ de reparar semelhante silencio a respeito dum peixe de tal volume e que, se(1) Obr. cit. p. 11. Factos iguaes observam-se ainda hoje.

O rio Cajueiros, em Marajó, em um dos últimos annos quasi corria peixe em vez d*agua e as canôas vogavam através das ondas vivas delle. Esta informação devo-a ao Sr. Dr. Augusto Montenegro, que testemunhou o facto.

(2) V. acima. pag. 39. gundo devia Agassiz notar mais tarde como uma característica da ichthyologia amazônica, habita todo o rio desde quasi a sua embocadura até as aguas peruanas. La Candamine, que escreve vinte e cinco annos antes de Noronha. em 1743, e que em paragraphos especiaes se occupa dos peixes do Amazonas, e, o que mais é, D. Fr* Caetano Brandão, em 1785-88, datas das suas viagens no Amazonas, e o minucioso Ribeiro de Sampaio em 1774> são mudos respeito ao pirarucu, que todos deviam ter visto frequentíssimas vezes boiar ao redor das suas embarcações. O noticioso D. Fr. João de S. José. apenas se refere a elle de passagem, sem maior individuação, em 1762: « Aqui, escreve elle no seu Diário (n’uma praia entre a bocca do Aquiqui e o rio Curuá) houve antes de anoitecer muita pesca de serobins, tucanarés, corimatás* acarazes, piranhas, pirarucus (sic) (de que a lingua •• o melhor ralador de nos-moscada), araonãs e aracús, e seria extraordinária a pesca si as redes estivessem em melhores termos. ..» (1)

Poder-se-ia admittir que só mais tarde entrou o pirarucu na alimentação amazônica? Não creio, com quanto tenha por notável singularidade nos não falarem delle durante mais de século e meio depois da conquista os noticiosos documentos dessa época. Ao contrario o peixeboi e a tartaruga são mencionados nas mais antigas relações, e em todas ellas dados como alimento habitual não só dos indigenas sinão dos colonos também. O peixe-boi (1) Obr. cit, pag. 76.

parece ter sido desde o começo dc século XVII objecto de commercio dos hollandezes, que com desintelligente teimosia tentaram se estabelecer nas terras banhadas pelo curso inferior do Amazonas. Heriarte diz que frequentemente iam a Gurupá naos do norte «ao contracto assim de madeiras como de um pescado que chamamos peixe-boi, levam a vender á ilha de S. Christovão. » (1)

O padre a. Vieira um anno antes dá a mesma noticia precisando-a. A crermol-o carregavam os hollandezes mais de vinte navios de peixe-boi todos os annos. (2)

Serão talvez muitos navios, mas de parte a exactidâo do algarismo, sempre sujeita a restricções no famoso jesuíta, fica o facto da importância deste commercio.

La Condamine observa que «a natureza parece ter favorecido a preguiça dos indios e prevenido as suas necessidades ; lagos, igapós (marais) que a cada passo se encontram ás margens do Amazonas, algumas vezes muito par a o centro delias, enchem-se de peixes de toda a sorte, no tempo das cheias do rio, e em baixando as aguas ahi ficam presos como em tanques ou reservatórios naturaes.

onde com a maior facilidade os pescam». (3) Das tartarugas do Amazonas nota que eram muito procuradas em Cayena, «por mais delicadas que as outras,» e que são (1) Relation abrégé d’un vogage fait dans Vlnterieur de V Amérique Mèridionale , etc* Maestricht. 1778, pg. 155.

(2) JD. id. (3) Obr . cit. p. 30. — A ilha de S. Christovão, nas Antilhas, conserva o mesmo nome. tantas que só eüas e seus ovos bastariam á nutrição dos habitantes de suas margens. (1)

As grandes j escas e salgas que hoje se fazem de pirarucu, faziam-se então de peixe-boi, e em tres mezes se costumava* fazer delle, segundo o bispo do Pará, D. Fr. João de S. José, cento e cincoenta arrobas (2).

Os pesqueiros reaes, comoveremos se estabeleceram especialmenre para a pesca deste cetáceo e da tartaruga. Ainda por meiados deste século se fazia a comia no Baixo e Alto-Amazonas o pirahém de peixe-boi. (3)

A pesca e os productos da pesca na Amazônia, desde os mais antigos tempos de que temos noticia, não serviram sómente á alimentação, sinão a usos da economia domestica e industrial. Os processos culinários indígenas, adoptados o naturalmente melhorados pelo conquistador, são fundamentalmente os mesmos hoje usados e nos capitulos precedentes descriptos. No Maranhão, e o mesmo é dizer no Pará, entre 1618 e 1624, em que ali esteve o excellente autor da ingênua Relação Summaria das Cousas do Maranhão , o peixe boi era comido assado e cosido, com couves, fingindo certamente a celebre « vacca e arroz * do lisboeta, e da tar(1) Carta a El-Rei, de 11 de Fevereiro de 1(560 — Baena, Coro§. p. 30b, repete a noticia do P. Vieira.

(2) Obr. cit. 34(5. (3) Peixe boi salgado e secco . taruga, a que o bom cbronista chama ainda jurará (1)' faziam o sara p até 1, « bem como torresmos ». que seriam o paxicá amazonico. Os indios do Alto-Amazonas, como vimos, moqueavam a carne do peixe-boi « sobre parrillas de paio ». diz Christovào da Cunha, e o mesmo faziam aos outros peixes e caça. O sal que usavam segundo o mesmo auior, repetido ou confirmado por Sampaio e Henarte, era vegetal, a cinza de cartas plantas, mais salitre que sal. São as plantas do genero rnurcra as que dão este sal vegetal. Os indígenas as conhecem pelo nome generico de curare ou cururi. O processo de o prepararem, segando o Sr. B. Rodrigues é seccarem as folhas ao sol. carbonisarem-as depois e misturada a cinza com agua sujeitarem*a a evaporisação, que lhes deixa o sal em resíduo. (3) Da mixira não se fala ainda.

Emtretanto já deviam preparal-a porquetodos elles conheciam o uso de panellas e o praticavam. A manteiga de tartaruga noticiada pelo mesmo primitivo informante c por quantos se íhe seguem só em panellas ou vasos semelhantes poderia ser feita. Dessa manteiga, dizia Gonçalves da Fonseca, em 17S9, « toduaquelle vasto paiz usa para tempero das viandas, da mesma sorte que na Europa se pratica com a manteiga de vacca ou azeite» (2), (1) In Memórias do Maranhão , cit . p. 26/27. A nota que neste lugar poz Cândido Mendes é descabida. O autor referia-se á tartaruga fluvial grande e nfto a alguma outra especie como o mussuan do Pará, como quero erudito annotador.

(2) Navegação etc cit. p. 280. (3) Exploração dos rios Urubu e Jatapu p. 74. Não obstante improvidos, como o são todos os selvagens, o gentio amazonico, usava já, á passagem de Pedro Teixeira, conservar em curraes as tartarugas para os dias menos fartos da enchente, A carapaça já então também, como deixa suppòr a citada noticia de Estacio da Silveira, seria utilisada como vasilha de deposito ou carrego. Do casco inferior ou peito, curado á fumaça, afiado em uma pedra e üxo a ura pão, fabrieavam-se uma especie de machado, e um pedaço do mesmo casco assim preparado e amarrado em uma queixada de peixe-boi « que dispoz a natureza com a sua curva, de proposito para tal effeito », servia-lhe de enxó (lj.

D ' manteiga ou azeite de peixe-boi a mais antiga noticia 6 a do bispo do Pará, D. Frei João de S. Joseph Queiroz, em 1762, e pouco depois a do padre Noronha em 176S. E* para notar que os autores que deste cetáceo antes delles informaram. Cunha, Hcriarte, La Conda* mine, nada digam desse producto que depois se tornou de uso geral, na alimentação e illuminação, e objecto de notável commercio. Nessa época, porem, devia ser elle de ha muito conhecido pois o padre Noronha faz já a dislincção do peixe-boi de azeite. « Nos lagos do Rio Nhamundá, diz elle, se acham e pescam os peixes bois chamados de azeite, os quaes só differem dos ordinários em terem maior altura, e tanto toucinho e gordura que quasi se lhe não percebe carne alguma. Ha peixe boi (1) Ch. da Cunha, Obr. cit , p. 98.

destes, que rende vinte e mais almudes de azeite.)) (1) Não perde o faceto bispo tratando do peixe-boi occasíão de pilberiar : « Si o leitor não fòr de pouca lição, ou tiver menos noticia, lerá sem horror que ha peixe-boi que quasi todo se reduz a manteiga, e dá quarenta potes delia, o que poderá servir para os hollandezes nos admirarem menos quando contam haver vaccas em Hollanda que largam cada dia vinte e seis canadas deleite, sendo muito commum almude e meio.» (2) «A pelle, se não esquece de informar o bispo, é boa para palmatórias.»

Assim era, e das escolas jesuiticas e das outras commumdades religiosas passada para as leigas, dessa matéria íoiatéa primeira metade deste século a férula sob a qual gerações de caboclinhos, de mestiços e de brancos aprenderam a cartilha do padre Ignacio, as quatro regras, os nominativos e uma porção de cousas boas que se não sabem mais hoje. Fornecia ainda o peixe-boi outro instrumento de pancada e de aviltamento, o « umbigo de peixe-boi » chamado, rija vergasta que na escravidão amazônica, do indio ou negro, representou o papel do « bacalháo » cá no Sul.

A manteiga de peixe-boi era usada pelos moradores (1) Roteiro da Viagem da cidade do Pará atè as ultimas colónias dos dcminios portugueses em os rios Amazonas eXegro, pog. 28. Publicado anonymamente no T. VI das Xoticias para a Jtist . e geog. das nações ultramarinas.

(2) Viagem e Visita do Salão em o bispado do G ramPará, in Re v. do List. T. IX , p. 87. para conservar por annos incorruptos os presuntos, processo que parece descobriram o capitão José Miguel . Ayres e seu irmão André Miguel Ayres, naturaes de Lisboa, de origem franceza. (1) Outro uso que delia faziam era para, misturada com breu, calafetarem as canoas. (2)

Das pescarias amazônicas na ultima metade do século passado temos noticia minucinsa e segura pelo Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, cujos trabalhos, pela maxima parte inéditos, são uma. riquíssima e pouco auroveitida mina de noticias para a historia, a etbnographia. a geograpbiít e a estat.stica da Amazônia.

Ao seu tempo deviam certamente as artes indígenas da pesca ter soffrido a influencia da cívilisação trazida peio conquistador, Essa influencia, todavia, é mim ma, e quasi se resume na transformação das pontas ou bicos de suas armas de pesca primitiva mente de osso. de dentes de animaes, de taquamssú. aguçados, em pontas de ferro ao modo das usadas nas pescarias européas. A réde de arrastão e a tarrafa, nada obstante o silencio dos autores, indubitavelmente vieram com o conquistador. Muito tarde, porem, entraram a ser usadas, pois em 1?S() Rodrigues Ferreira ainda escreve que « os moradores (da Capita •! ia do Rio N*gro) não usam de red^ de pescar. (3) Po^suiam, entretanto, como já vimos o (1) D. Fr. João de S. Joseph, Obr. elug. cit.

(2) Dr. Ález. Rodrigues Ferreira, Menxoria sobre o Peixeboi. MS. da Bibliotheca Nacional. (3) JJiario , etc.p. 76. puçá, uma especie de ré le, que parece foi paulatinamente diminuindo e estreitando ao ponto em que está hoje e ficou dito no capitulo VIII. Ao emprego do puçá nos fará o Dr. Ferreira assistir.

Uma outra feição dainfluencia portugueza são as melhorias culinárias no apresto dos produrtosda pesca, e sobretudo sua maior variedade, e, pelo uso do sal, seu melhor aproveitamento pela mais demorada conservação.

Do prece ientemente exposto, porem, verifica-se que não só não foi tão grande a transformação, como que adoptou o conquistador as praticas culinárias do indígena, o muquem, a mixira, o piracui, e outros processos. O índio, como ainda é hoje nas expedições de caça ou pesca ou outras o « remeiro » tapuio da canoa, seria o cosinheiro, e aos seus cardapins haviam de sujeitar-se os rudes capitães e grosseiros soldados da conquista e mesmo algum fidalgo mais delicado e mimoso. Da mesa portugueza, mostra o que fica dito, era o pescado, e especialmente o peixe-boi ea tartaruga, o principal e quotidiano manjar. « A tartaruga, diz Rodrigues Ferreira, é a vacca quotidiana das mesas portuguezas. O pirarucu bem salgado e secco é o bacalháo do estado ; assim como o peixe-boi de moura imita o atum do reino. » (!) As mixiras, linguiças e banhas de peixe-boi, eram « de um consumo notável em todo o estado.» (2) Salgavam o (1) Diário da Viagem philosophica pela Capitania de S . José do R io Negro , Re r. do Inst. T. LI, p. 77.

(2) Memória sobre o Peixe-boi. MS. da Bib. Nacional. pesca 10 peixe-boi « para as occasiões de falta de fresco e para as rações dos indios das car.ôas.» (1) O peixe-boi alem da banha feita em manteiga, dava 3 a i arrobas de carne que se vendia de 503 a 640 réis a arroba nas povoações e a 800 a 1000 réis na cidade do Pará. Peixes-boi havia de 3 varas pesando até 15 arrobas. (2)

Era a tartaruga não só comida fresca como delias faziam « importantíssimas provisões » de carnes seccas, dé conservas em potes de manteiga da mesma, a mixira, e de salmoura. (3) Destes processos só subsiste hoje o da mixira.

Valiam as tartarugas em 1187 de 240 até 400 réis na capitai do Rio Negro, na cidade do Pará e visinhanças era 610 réis o menor preço, subindo a 1$ quando havia delias falta. A arroba da secca valia 500 a 650 réis. O pote de mixira 6 10 a 1$ no Rio Negro, indo no Pará até 2$. O de manteiga no Rio Negro 800 a 1$GG0, no Pará 1$020 a 3?. Eram já então reputadas melhores e preferidas as menores, que ainda não tivessem desovado vez alguma. Chamavam-lhes os indios Cunhã-mucú , moeetonas, consoante atraducção do naturalista. (5) De todas as manufacturas da capitania do Rio Negro era a da ■manteiga da banha e dos ovos das tartarugas a mais avultada. (5J A esse tempo e certamente a duas ou tres (1) Memória sobre o peixe-loi, c it.

(2) Id. id . (3) Memória sobre as Tartarugas, MS. da Bib. Xac. (4) Obr. cit. (o) Diário da Viagem, etc. pag. 56. dezenas de annos antes, cerca do meio do século, iam fazel-as já em bandos regulares e numerosos, capitaneados por um chefe, o commandante das praias, nome que ate lioje perdura, a sitios determinados, onde levantavam barracas e feitorias, dando durante um ou dous mezes, Novembro e Dezembro, a essas paragens remotas e desertas o resto do anno, o aspecto animado e vivo do seu ajuntamento semi-selvagem, semi-civilisado. Nelles se veriam a par do indio nú, o remador da copiosa frota de canoas encostadas em terra ou puxadas sobre a areia e o operário desta fabrica, a farda do soldado mazombo, a roupeta de algodão, tinta em tijuco ou em mu* ruxi do jesuita ascético, adunco, trabalhado pela ambição e pelo fervor religioso, o habito do bonachão franciscano ou do capucho humilde e simplorio. Ordinariamente pelo mez de Outubro as da capitania do Pará, j elo principio de Novembro as do Rio Negro, partiam as canòas das povoações â colheita dos ovos e â fabricação da manteiga deites. As virações e capturas das tartarugas se faziam antes. Conforme as distancias dirigiam-se umas e outras para nspraias de Beijú-Assú, abaixo do Saracá, no Amazonas; ou para as outras praias, no mesmo rio, fronteiras ao primeiro furo do mesmo Saracá, por onde se entrava á villa de Silves — boje Saracá também— estabelecendo as suas feitorias praias acima ató o Arnatary— agora Motary— aquem do Puraquècoára, mais de 30 léguas por uma e outra margem, consoante se lhes proporcionavam as abas arenosas, onde desovavam as tartarugas. No Solimões, iam ás praias do Catalão, pertode Manaos em frente quasi ao furo do Carcro,o Macari dos antigos ; do Cudajás, Cuidava, como escreve Ferreira do Periquitú — que nóshoje dizemos e escrevemos dos Periquitos (1) enfrentada pela ilha deste nome, abaixo da foz do Purús ; de Manacapurú-iucuy, na riba septentrional, em face á boca do lago Manacapurú, ainda hoje conhecida por Praia do Pesqueiro ; do Cameleão, dentro da fóz do Japurá^ talvez do Camará-purú-purú, — na margem direita do rio, fronteiriça á ilha Camará, entre as bocas do Majurá a oeste e da Aruparaná a léste ; e a d’El-Rey, entre o Alto e o Baixo-Amazonas, ás embocaduras do Madeira e do Negro. Ahi se faziam « privativainente as manteigas para as provisoens reaes, com exclusão absoluta de toda a feitoria particular. » (2) Desta manteiga, desde o tempo da demarcação de 1755, percebiam, como propina, os governadores todo o preciso para as luzes de sua residência, cada sargento quatro potes, cada alferes ou tenente seis, doze cada capitão, o doutor ouvidor geral, o almoxarife e o escrivão da fazenda e o cirurgião da capitania « e o mesmo para cada um dos vigários, geral e particular da villa, o qual percebia outros tantos para a alampada da matriz. » (3)

Mas, não ha bem que sempre dure — : o governador Joseph de Nápoles Tello de Menezes acabou, por carta de 25 de Setembro de 1781, com essas propinas, contra (\) No Diário impresso na lie r. do Instituto está Perequitu. De passagem se diga, nao ha que fiar na transcripção^ de documento* da Revista do Instituto.

(2) Memória sobre as Tartarugas "SIS. da Bibl. Nacional. (3) Diário da Viagem philosophica citado , p. 57. os quaes com notável desinteresse representára á junta do erário o doutor ouvidor geral. Ribeiro de Sampaio, o mesmo autor do Diário dc Viagem de isita tantas vezes citado. Só ficaram com esse subsidio de manteiga de tartaruga a alam pada da matriz' e a tropa da guarnição aquartelada. (1) A fazenda real desde ITT? pagava os potes de manteiga, a 500 réis. Acha Ferreira que nem isso valiam, porque a faziam mal ou a falsificavam, misturando-lhe agua ou deixando fermentar um pouco as banhas antes de as frigirem em ordem a fundir mais a manteiga. » Decididamente nada ha novo sobre a terra, nem a falsificação da manteiga. As diligencias com as demarcações de limites em 1780, influiram nos preços delia por tal modo que nos annos de 1785—86, na villa de Barcellos, venderam-se os potes de 800 a 1$ e na cidade ■do Pará a 2 2 $600 até 3?200. (2) Além da carne, dos ovos e da manteiga, forneciam mais as tartarugas as pelles do pescoço, de que os indios faziam os seus adufes, tampos de isqueiros e de bocetas e « excellente colla, » (3) as carapaças, de vasto uso como utensilio domestico e que calcinadas suppriam a falta da cinza do caraipé i Licania Jloribundà), empregada na ceramica indígena, e os peitos os punham os moradores em occasiões de chuvas uns após outros através das ruas alagadas, * servindo de passadeiras. » (4)

(\) Ilid , p. 58. (2 ) Diário da Viagem philosophica^ etc.,p. 5). (3) Memória sobre as Tartarugas . (V Id. Eram tres em 16S7 os pesqueiros certos mantidos pela fazenda real para sustento da tropa do Rio Negro e para a mesa da Demarcação, o primeiro t mais antigo, o do Caldeirão, o do Puraquècoára no Amazonas e o do Rio Branco.

Cinco eram os processos de as apanharem, a frecha r com rèdes, a anzol, a liarpão ou de viração. « Com rède a que chamam puçá, diz o benemerito naturalista, se encaminham os pescadores para aquellas paragens em que o rio faz seu braço e pondo-os nas boocas delias para privar que as tartarugas que estão dentro não saiam para fóra ali as demoram ate que tendo o Rio vazado mais alguma coisa, que é quando então entram ellas a sair para fora, porem como acham a saida da bocca privada com a rède, ali se vão ajuntando no sacco delia até que o pescador lhe parece que é tempo de suspender em ordem a não rebentar, como rebentam algumas com o pezo delias, e desta forma se apanham quando o rio está em meia vazante.» (tj Os puçàs eram feitos de algodão ou das folhas da palmeira tuciun ( astrocarium ) t sendo os de algodão os mais duráveis. As harpoavam na enchente total, de Junho a Agosto, nos igapós e lagos, sondando o fundo com o harpão e ferindo-as ao esbarrarem com ellas. Modernamente, como vimos, um processo idêntico é usado mas, ao contrario deste, i.a vazante, em os lagos baixos. (2)

(\j Idem. (2j Idem. Alem das tartarugas íltiviaes pescavam-se no Pará as marinhas, abundantes nas costas orientaes e norte orientaes do estado. Esse ramo da industria pescatoria paraense, por causas que ignoro, quasí desappareceu totalmente, depois de haver creado r uma outra industria que os paraenses da penúltima gerarão ainda conheceram florecente, a dos pentieiros. Eram com effeito os formidáveis pentes de bella tartaruga em forma de telha, admiravelmente rendilhados ou recobertos de ricas chapas de ouro lavrado, usados ainda ne principio deste século não só pelas bailas mamelucas, pelas faceiras mulatas, mas ainda pelas damas de boa ger&rchia, a porção mais relevante da manufactura desses artistas em tartaruga e delhí lhes veio a especial denominação ainda agora na região usada para os que lhes trabalham o casco. E

isto é depois de terem calculado que poderão lã chegar na estacão das aguas vivas, isto é, na maior enchente e maior vazante: posta los que sejam em qualquer das ilhas que tem grandes praias onde ellas costumam sair, taes são a de Acajú-túa, Muruay-túa, Iuaiurú-túa, Cambú, Umiry-túa, Arara-túa, Frecheira e de José João, alem de outras muitas, fazem nellas seus tijupares para nelles assistirem durante a demora e para abrigo das embarcações em uma costa tão desabrida, principalmente a sobrevir alguma trovoada: com o sussurro delia, e ás horas da maior nocturnidade que quasi succede da meia noite para o dia seguinte e no principio da enchente, costumam ellas sair nas praias a desovar; então os pescadores que do mesmo escuro da noite se valem para estarem espalhados pela praia de avançada com torètes nas mãos, que são as armas com ciue as matam, mas com grande cautella para que não sejam presentidos lhe avançam no tempo cm que estão entretidas a fazer as covas para nellas desovarem e ás pancadas na cabeça com o torète lhe acabam a vida, tendo sempre muito cuidado em lhe não olíender o casco. Se querem logo lhe tirarem o casco, o puem ao calor do fogo e estalando aos pedaços lhe tiram tudo o que serve para pentes, caixas etc., e então também se aproveita a carne que é gostosa, mas desta forma sae muito imperfeito e quebrado. Si querem tirar melhor encravam-nas na areia, por tempo de 3a 1 dias para fermentar e chegar nos termos de podridão e desta forma se tira o casco mais perfeito e se aproveita até o ultimo bocadinho.» (1)

(1) Memória cif. Nào será accaso ocioso determinar a situação de cada uma destas praias da captura da tartaruga de casco. Acajú-tua — bahia Cajutuba. entre Curuçá e Marapauim, na costa de L. do Pará ; Cambú— praia a L do rio do mesmo No derradeiro lustro do século passado ainda o peixeboi habitava as aguas amazônicas desde a fóz do grande rio acorrente peruana. Hupoavam-os no rio Arary e outros de Marajó, e na bahia de Marapatá, na fóz do Tocantins. Em taes paragens não ha muis encontral-os hoje em dia. O maior numero delles era de Gurupá para cima, nos lagos da Outeiro ou Urubuquára, no districto actual da Prainha, em Monte Alegre, certamente no rio e lago que tem esse nome, e mais os de Gurupatúba e Maecurú, nos lagos já então chamados de Villa-Franca e antes de Cumaru, muitos no verão, um só, immenso, no inverno ou cheia. O peixe-boi soíTreu desde o principio caça desbastadora e constante. Por muitos annos elle e a tartaruga parecem ter sido o principal alimento dos portuguezes o dos indígenas por elles estabelecidos nos sitios que. salva raríssima excepção, são hoje as nossas povoações. villas e cidades. Em 1787 já Rodrigues Ferreira, lhes lastimava a diminuição e raridade em lagos onde nome ao S. K. da ilha de Marajó: Iuaiurú tiift — ilha do Jaburu (0 aS. E da do Bailique e ao N. da do Brigne. na foz do Amazonas ; Frecheira — ilha das Frechas ao N . de Marajó e talvez a praia fronteira nssta ilha : Arara-tiia — ilha das Aráras, entre as do Pará, Bagre e Rasa, na mesma paragem; Muruayt-iia — ilha de Marioitúa (C. Mendes apud, talvez, transcripção franceza de Montravely a NE. da dos Porcos, também na foz do Amazonas. Cotn denominação parecida ha também a do Bailique que se chamou Maniutua. Aa outras não sei quaes sejam.

não havia muitus annos se «observavam bastantes» (l). E havia porque. Em dous annGS o pesqueiro VillaFranca, segundo communicação do respectivo administrador, rendeu 3S73 arrobas de peixe-boi secco e 1683 potes de azeite, tendo sido mortos para isso 8500 peixesboi ! Em Óbidos corriam ha uns trinta ou quarenta annos vagos rumores supersticiosos de montões de ossadas ás beiras desses lagos. Seriam dos milhares de peixesbois mortos. Este pesqueiro parece foi abolido pelo governador João Pereira Caldas, entre 78 e 8h. O seu successor José de Nápoles, pol-o em arrematação e aJjudicou-o não sabemos a quem por 10 mil cruzados por tres annos. somina considerável para aquelle tempo. Essa importância foi consignada ás obras do rio Tocantins (2) O governador Martinho de Souza e Albuquerque, que lhe succedeu, estabeleceu (ou restabeleceu t)

o pesqueiro de Villa-Franca em 1784, naturalmente no fim do contracto, em virtude da Provisão de 28 de Julho de 1783 expedida pelo governo conforme a proposta do seu antecessor José de Nápoles (3). mostrando quanto tal estabeleçimento concorria para a fartura de pescado. Baena, que por alguma forma na Coroyraphia contradiz a as(1) Memória sobre o peixe-boi.

(2) Memória cit. e Miscellanea histórica para servir de explicação ao prospecto da cidade do Pará , 1784 . MS. da Bib. Nac . (3) Baena, Eras, p. 313. — Baena escreve « estabelece » mas dc compararão com as duas aílirmações do bem informado Ferreira parece-me que é « restabelece» que deveria dizer.

sereão das Eras, dizendo que o lucro deste pesqueira foi «dado por certa renda» no principio de Janeiro de 1.83, informa que esteve esse lucro arrematado até o fim do Dezembro de 1800, voltou á administrarão da junta d i fazenda de 1 de Janeiro de 1800 em diante até ser extincto pela Assembléa Geral. O administrador do pesqueiro residia na então villa de Óbidos, junto de cuja matriz tinha uma casa de deposito de sal e de peixe (l). Rendia annualmente este pesqueiro, por cerca de 1830, !:851§450 (2). Até l

(1) Baena, Ensaio Corographico sobre o Pará, p. 302. (2/ Accioli, Coroyrapliia paraense , 1833, p. 262. l3) Memória ciP \ illa Vistosa da Madre de Deus, na margem esquerda do An mêra-p^cii, na Guyana brazileira. hoje extineta.

Visitou-a em 1785 Fr. Caetano Brandão, e delia fala nestes termos: «A Villa é de brancos; constou ao principio de 30J fogos, pela maior parte pessoas tiradas da baixa estopa (criminosos) soldados, estrangeiros e outros culpados, e também de alguns ilhéos; hoje apenas se contam vinta e tantos fogos, tudo o mais tem desertado para difierentes lugares; está situada alterosamente sobre o rio; tem belias campinas para gado vaccum; a sua producção ordinaria é arroz; carece de farinhas; o peixe é preciso buscai-o á bocca do rio algumas léguas distante». — Obr . cit., p. 100. Hoje está completamente extincta, «a ponto de náo se ver, diz Ferreira Penna, nem uma pedra, nem um esteio que indique o seu lugar» Noticia Geral das comarcas de Gurupd e Macapá , Pará, 1874, p. 9.

Deixa o silencio dos contemporâneos suppor que só mais tarde, talvez pelos meiados do século XVIII, entrou o pirarucu a concorrer com a tartaruga e peixeboi e demais peixes na alimentação amazônica. Desde que nella entrou, pdvem, é de crer que o seu consumo e portanto a sua pesca se tivessem desenvolvido em proporções consideráveis. A mais antiga estatística que da sua producção possuímos, e essa relativamente recente, é de 1830. Xesse anno, da então Comarca de S. José do Rio Negro exportaram* se para o Pará. 13 ICO arrobas, quantidade para o tempo considerável. O seu preço então era de 1Í300 a arroba, um pouco menos que neste momento custa o kilogramina (1). Em 1781. sabemos pelo Dr. A. R. Ferreira, já elle era alimento com que se contava, mas entre os peixes «para agente de trabalho».

Então ((para ns mesas delicadas» se pescavam a pescada, o man lubé, o mapará e o uçará, e para aquella, alem do pirarucu, como se dizia ainda, os surubins, os tucunarés — lioje reputado dos melhores sinào o melhor peixe da Amazôniaas raias, as piraráras— que agora quasi ninguém come. as piraruibas — ou piraíbas como dizemos hoje, os peixes bois e outros peixes (2). Havia delle tanto por esse tempo em ambas as capitanias que delle pela maior parte se faziam as provisões de peixesecco e de moura para fornecimento das canòas de viagem o primeiro c, a falta de outro peixe, para as raezas par(1) Accioli, Ohr. cit. p. 206.

( 9 ) Diário da Yiayem, p. 76. ticulares o segando. Pescavam-se em todo o tempo, sendo porem o verão o mais proprio, tanto porque ficavam nos lagos como porque então so salgavam e tinham melhor sói para seccarem. Os meios empregados em a sua captura eram, como ainda hoje, o anzol, o h arpão, ou as rôdes (puçás) ou tapagens armadas á bocca dos lagos e igarapés. O mais commum era o harpão. Preferiam para a corda do harpão a fabricada da entrecasca do castanheiro (Bcrtholctia) novo. As rôdes para apanhal-as eram tecidas das cordas da entrecasca da castanha jurôra, outra especie de Bertholetia , ou de ernbira preta, com malhas de palmo de largura. Os cacuris ou tapagens que lhes armavam, queriam-se fortes, para os não arrazarem elles com a força dos seus repellões Dava um pirarucu até 2 arrobas dc carne salgada e l delia fresca. (1)

Ao governo colonial não devia escapar a importância economica da3 pescarias como recurso alimentício da nova capitania, recurso tanto mais de attenção credor que nenhum outro o substituía, pois tardio e sempre escasso foi sempre o provimento de gados ali.

Na economia domestica e publica do estado, como vamos ver, teve um dos productos da pesca, a tainha, um papel considerável desde os primeiros tempos da conquista, pelo século XVIII todo e começo do actual. A tainha, segundo a citada noticia de Manoel Guedes Aranha, e outros autores coévos, era abundantíssima (1) Memória sobre o Pirai~ucu t 1787, MS. da Bibl. Nac.

nas aguas da região oriental do Pará, no Tocantins, no rio Pará e nas bocas e estuários dos que nelles despejam e bahins adjacentes. Xo primeiro século foram sem duvida eilas o principal alimento da população de Belcm, que ao cabo .dellc não seria sensivelmente inferior a setecentas almas. (1)

A forma porque principalmente se fez sentir o interesse administrativo respeito as pescarias foi o estabelecimento de pesqueiros. São duvidosos o lugar e a data da fundação dos primeiros pesqueiros, e não conheço noticia que nos informe da sua primitiva organisação. De Baena se concluiria que o primeiro foi estabelecido em Junho de 1G92 pelo Governador Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho, na bocca do rio Cajuna — hoje dito Cajuuna — na costa oriental da Ilha Grande de Joannes — como no tempo chamavam ade Marajó. Esse pesqueiro o propusera elle dous ancos antes «como precioso para a real fazenda por haver observado o proveito que algumas pescarias volantes colhiam de tempos a tempos da immensa quantidade dos mencionados peixes (tainhas e gurijubas) naquellas paragens. » Por Provisão de 12 de Março de 1001 foi esta proposta approvada (2). Uma carta do mesmo governador ao rei, de 4 de Julho de í'2, dá lugar a duvidarmos da exacfidão deste informe. Delia consta que por carta regia de 13 de Setembro de 1G91 lhe (1) Memória sobre o Piraurucà , 1787 MS. da Bibl. Xac.

(\) Baena, Compendio das Eras p. 170. mandara o rei informasse sobre haver dado conta o Padre Fr. Antonio da Piedade, religioso do Carmo da Capitania haver neila a aldeia de Joannes que se occcupava no pesqueiro e levavam á cidade todos os mezes o sustento com tanta diminuição que apenas chegava para a infantaria e ministros, sendo a terra muito falta de mantimentos com que a pobresa padecia muitas misérias, o que se podia remediar fabricando-se maistres pesqueiros alem do que ha por haver gente bastante para todos, quando se não divertisse para outro ministério e se accrcscentaria á fazenda real mais de um conto e ficaria a pobresa remediada. A este requerimento respondia, informando o governador: que com os índios que então tinham se não podia accrescentar mais pesqueiro algum, porque no tempo do seu antecessor — foi Arthur de Sá e Menezes — mostrou a experieucia que se não devia sustentar outro que se feze assim se extinguio por falta de gente porque além da muita queoccupava este trabalho, os que ficaram seapplicavam ao serviço do rei para a fazenda real por ser a aldeia que havia destinada a esseiim.se não diveriam para outra alguma occupação e só pelo tempo adiante se poderia conseguir accrescentar-se outro pesqueiro com os indios que de novo se ião descendo (l). Prova evidentemente este documento que antes da éra fixada por Baena, existia já um pesqueiro na aldeia de Joannes, e que, sob Arthur de Sá, um outro se estabelecera e não vingara. Já em 1GS5 existia na ilha de Marajó um pes(\) Copia contemporânea ern meu poder.

queiró. Delle escreve Guedes Aranha: « ... ilha de Joannes... onde se beneficia um pesqueiro eíTectivo pela íazenda real, provendo a cidade com quinze ou vinte mil tainhas cada mez. ))(l)

A duvida resultruie destas diversas asserções póde-a elucidar a geograpliia de accordo com a historia. A mim me quer parecer que o pesqueiro eia um só, com duas feitorias, a primeira na aldeia de Joannes, ao N. do rio Condeixa onde em 175" fundou-se a vil la de Monforte, ha muito extincta, mas cujo sitio ainda hoje, segundo affirma Ferreira Penria, o povo chama Joannes (2) e como tal vem em algumas cartas, ao norte da villa de Mansarás, na costa oriental de Marajó, a nordéste da cidade do Pará, quasi no mesmo parallelo de Coliares.

Baena nas Èras diz que o pesqueiro estabelecido em 92 o foi na bocca do rio Cajuna e na Corographia que na bocca do igarapé Araruna. Como Baena não cita as suas fontes não ha meio de sabermos ao certo onde era. O Cajuna, Cajuma e Cajiuna, quede todas estas maneiras se tem escripto, fica na mesma costa de Marajó citada, entre o Igarapé-Grande e o Araruna, e este mais a léste y acerca de sete kilometros e meio do Cajuuna — prefiro esta forma, entre o Igarapé-Grande e o rio Camburúpy, Do questionado pesqueiro, escrevia mo is de sessenta annos antes de Baena o padre José Monteiro: « Do Rio (1) Pajtel político cit. p. 8.

(2) A ilha de Marajó , cap. XI das Contribuições para a ethnologia do Valle do Amazonas , por Ch. F. Harrt, in Archivos do Museu , T. VI, pag. Iü9.

Paracanary até a Ponta de Magoary, em que se scabaa Illia de Marajó da parte do mar, vão sete léguas e meia em que não ha outro estabelecimento mais que o do real pesqueiro das tainhas (1). » Ora o rio Paranacary é o mesmo Igarapé-Grande de hoje. O pesqueiro, que Baena sem dar com a contradiceão ora assenta à bocca do Cajuuna ora á do Araruna, serão na realidade dous ou um só, com feitorias nesses dous sitios ? Esta hypothese parecem confirrnal-a a noticia do padre Noronha, a proximidade dos dous cursos d T agua em cujas embocaduras estaria, e as poste iores noticias de Fr. Caetano Brandão e de A -cioli: « Nas costas de Mondim, diz o primeiro em 17>b, está o pesqueiro real, donde sae grande copia de tainhas, que contribue á subsistência da cidade, e de muitos lugares da Capitania (2). » Ao tempo em que escrevia Accioli, talvez entre 1820 e 25, ainda existia o pesqueiro, já então chamado nacional, « entre o cabo Maguari e a villa de Scure. » Este espado era de treze léguas (3) e quando faltava o peixe, costumavam os indios fazel-o aproximar á costa, tocando buzinas no mar. Aos (1) Roteiro de Viagem cit. p:,g. ]

(2) Obr. cit. p. 220 Mondim, apud Accioli. ficava a meia légua de Soure e a duas léguas de Mondim ficava o pesqueiro. Accioli dá Mondim como já nào existindo no seu tempo, e Baena, que escreveu depois delle, ainda a descreve como se existisse.

(3) 62 kilom. segundo Manoel Baena, Comarcas da província do Pará, p. 12. pesca particulares se vedava a pescaria naquella costa, para o que havia diversos destacamentos. (1)

Era esta a organisação deste pesqueiro: um feitor, ofiicial inferiorou subalterno, que viciava pelos trabalhos, um administrador na cidade e um armazém de venda e 1 1 um vendedor. Dos reditos do mesmo pesqueiro deduzia-se o pagamento dos empregados e o prego do custeio (2)' Não eram tão pequenos esses reditos, que Fr. Antonio da Piedade em 1691, acenara ao rei com mais de um conto de réis por anno, si se creassem mais os tres que elle pedia. Calculava modestamente o bom frade. Já vinte annos antes as pescarias de Marajó rendiam 21 mil cruzados (3). Esta forma de administração cessou em 1818, adoptando-se então o systema dos arrendamentos por arrematação, até o principio de 22 em que se voltou ao antigo regimen que durou ainda até Julho de 27, quando a junta da fazenda extin »uiu os cargos da administração e mandou que a feitoria remettesse o peixe aos armazéns da marinha (?> para seu provimento, 03 quaes deviam reembolsar a feitoria (D.

Creio que pelos fins do século XVII já se arrendavam os pesqueiros, pois informando uma petição dos padres do Carmo em que pediam lhe fizesse El-Rei a mesma esmola de uma porção de tainhas que tinham os jesuítas e frauciscanos, o governador Antonio de Albuquerque, opi(IJ Corographia paraense , Bahia, 1833, p. 334 e 338.

(2) Baena. Ensaio Corographico , pag. 368. (3) J. F. Lisboa, Obras , T. III p. 4*2. (4) Baena, Obr. e log . cit. nando favoravelmente, declara que essa esmola poderia importar cada anno em «dezesetemil réis cuja declaração deve fazer os rendeiros deste contracto (1) ».

A organisação dos pesqueiros reaes devia ser naturalmente a mesma esboçada por Baena, os particulares teriam a determinada pelas circumstancias.

O producto dos pesqueiros foi empregado, como vimos, em vários serviços públicos determinados, obras civis e militares, com missões demarcadoras, alimento e pagamento da tropa militar e ainda como propinas e ordenados de funccfonarios. O pão de munição, a etapa como dizemos boje, era pago aos soldados em tainhas do pesqueiro de Joanes. Tinha duas por dia cada soldado. O numerário foi sempre escassíssimo na Amazônia. «Novellos e novellas, dissecom oscostumadostrocadilhos o padre Vieira, são a moeda do Maranhão. » Alludia aos novellos de algodão que corriam como moeda e ao habito da maledicência de que accusa os maranhenses, nos quaes incluiria os paraenses, pouco benemeritos da bemquerença do irascível e orgulhoso jesuíta. Desde os primeiros tempos do estabelecimento dos portuguezes no GrãoPará, o peixe teria servido, como o sal e os novellos, para pagamentos de propinas e ordenados (2).

(1) Carta a El-Rei de 18 de Julho de 1095. MS. em meu poder. (2j Temos informação segura do século XVIII. O contador dos contos — hoje contador da thesouraria ou da alfandega — além do*ordenado de 80$ por anno tinha 20 alqueires de sal, uma resma de papel, e, por mez, 140 tainhas*seccas, um cesto Além dos pesqueiros mencionados, já de tainhas e gurijubas, já de tartarugas, peixes boi e pirarucus, outros houve de que se encontram noticias. Xo governo de Fernando da Costa de Ataide Teive (1763 72) creou dous o Capitão Luiz Pereira da Cunha, um o Pesqueiro Novo da Ponta do Maguari, na extremidade oriental da ilha de Marajó, e outro no Carutapéra. duas marés abaixo de Bragança. Ambos elles foram abolidos por ordem dogovernador João Pereira Caldas (1772 — 80) (1).

No Arnguary, não sabemos si no rio ou no furo do mesmo nome que communicava com a margem septentrional do Amazonas, houve também um pesqueiro real (2).

Deste pesqueiro, existente ainda nos últimos arinos do século passado, originou-se um arraial, Arraial do Pesqueiro chamado, ha muito extincto. As pescarias se faziam também no lago ao norte deste sitio, da banda septentrional do Araguary, que disso tirou o nome de Lago d’El-Rey (3).

de tainhas de moura e 2) ditos de peixe de muquem. O almoxarife da Junta de Fazenda, tinha 100 tainhas seccas e 1 cesto delias de moura e assim os mais.

(1) Dr. Alex. U. Ferreira, Miscellanea histórica cit. (2) Diário roteiro do arraial do pesqueiro d* Aragimri até ao rio Ouyapoko por Manoel Joaquim de Abreu, 1794, in Itev.

do In st. T. XI pag. 96. (3) O Sr. Coudreau, que na sua trefega e irreflexiva tentativa de se taiUer on role na chamada questão do Oyapoc, nao esquece as mínimas circumstancias que possam contastar a influencia franceza naquellas regiões, conta-nos que « ce nom de RELAXCE HISTORICO Dos pesqueiros, estabelecidos e mantidos pelo estado conserva a geographia amazônica, a reminiscência nas denominações do Pesqueiro de algumas das praias e ilhas do grande rio, e nas de lago e igarapé do Rei, dadas a algumas das suas aguas interiores. A’ faba do indio que o mal da cathequese, as repetidas epidemias de bexigas e sarampos, os mãos tratos, perseguições e collossaes morticínios rarearam e que a bemaventurada lei de 1775 libertara finaimente, determinaram a extincçào dos pesqueiros, que somente a sua rara habilidade de pescadores tinha por mais de um século mantido. Entretanto essa exploração systematica dos productos da pesca contribuira por muito para tornar possível a obra, a alguns aspectos notável e grande, da penetração e civilisaçao da vasta região amazônica por verdadeiramente um punhado de homens. Essa obra o indígena a cimentou, •corno o portuguez também, com o seu sangue, misturando-o ao do conquistador, jã empenhado nas mesmas emp rezas que elle, já repulsando-o corajosamente na defesa inútil e angustiosa da sua taba, de antemão vencida pela indefectível lei do Progresso...

lac du Roi, dit la legende, vient de ce qu'un roi de France avait jadis envoyé des hommes pécher par là. » Ètudes c Yoyages en Guyane , T II, p. 30. Esta legenda ou invencionice do explorador e o curso que lhe elle dá apenas provam que o Tartarin e companhia do delicioso Daudet são bem apanhados do vivo ..

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