A pesca do peixe-boi A pesca na Amazônia · Capítulo 4 de 10
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A pesca do peixe-boi

A pesca do peixe-boi. A pesca do peixe-boi {Munoíns iniinjiiiê ) faz-se príncipalmente, quando o rio enche, que entram para os lagos e quando vaza, que sáem dos lagos. Novembro e Agosto.

4 9 Harnoam-se, diz o Dr. Alex. Roiz. Ferreira, na vazante dos rios nos mezes de Agosto, Setembro e Outubro, e repontas da enchente. A divergência é insignificante e para os que conhecem a Amazônia facilmente explicável.

Os lagos, com as suas aguas calmas, ricas de pasto animal e vegetal, são uma attracçáo para todos os habitante», peixes, cetáceos, amphibios, das aguas amazônicas, mas são também para muitos um perigo.’ deixando-os na vazante em secco ou em insuíficiente liquido, entregues quasi indefesos aos pescadores. Nenhum está mais exposto a este perigo que o vultoso peixe-boi. Na « reponta» da enchente, que, salvas as excepeões assigrfaladas, seda ein Novembro, sobem logo elles para os lagos, donde mal começou a vazante, Julho ou Agosto, fogem para o Amazonas ou para algum dos seus aílluentes mais á ruão. Nes4a ida ê volta para os lagos, e no tempo que nellesse demoram, são com maior proveito pesca los.

Entretanto muitos permanecem mesmo durante a baixa nos lagos mais caudalosos, menos sujeitos no perigo de um rápido esgotamento e que lhes offerecem abundante e cominodo repasto. Por isso o pescador que saio ao pirarucu acerta algumas vozes de iiarpõar um peixe-boi.

« O corpo do peixe-boi — diz Walla e, fazendo a díscrieáo de uinti fem *n, não das maiores de cerca de 2 metros de comprimento e mais de metro e meio de circumfe iene ia, que lhe trouxeram— 0 corpo do. peixe boi, é per* .fe'tarnente liso, sem quaesquer projee *ôes on desigualdades, gradualmente tranfo.mandc-se em uma cauda 1 . horisoiual, semi circular, chata, sem nenhum signal de PE

A pelle tem nas costas cerca de uma poliegada de espessura e, na barriga, um quarto de poliegada. Uma camada de gordura, de maior ou menor altura, em geral de perto de uma poliegada, existe embaix.o da pelle, da qual fervida faz-se um azeite usado na illuminoçao e na cosinha.

Muito volumosos são os intestinos, o coração do tamanho do do carneiro, os pulmões com cerca de dous pés de comprimento com seis ou sete pollegadas de largura, muito cellulosos e esponjosos, distendem-se como uma bexiga. O craneo é grande e solido, sem dentes na frente;

as vertebras vão até o fim da cauda, sem indícios, porem, de membros posteriores ; os anteriores, ao contrario, são muito desenvolvidos, correspondendo os ossos exactamente aos do braço humano, possuindo ató os cinco dedos, com sua juncta distincta, mas envoltos em urna pelle rija e inflexível que não consente o movimento ã juncta alguma. » (l).

(1) Alfred R. Wailace, Obra cilada , p. 135-18Ò. A carne do peixe-boi assemelha-se á ao porco, com muito menos sabor: é antes insípida. Os amazonienses ■usam com elle de toda a nomenclatura do gado bovino, á femea chamam vacca, nos. filhos bezerros ou maraotes, consoante o seu desenvolvimento.

O peixe-boi é, como se sabe, herbívoro, e «pasta» nos capinzaes que orlam as beiradas dos rios e lagos ou nas moitas de canarana — alto capim de liastes compridas como canas — que com a denominação indígena de periantans descem rio abaixo. E\em geral sobre elías que, ao começar da vazante, deixam os lagos e outras aguas •centraes, onde estiveram na enchente.

A sua pesca, com o harpào, é extremamente difflcil ; não sómente exige rara pericia, como excessiva contensão de espirito e absoluto silencio do pescador. Não é sem motivo que o qualificam elles de muito ladino e arisco, e. sem embargo da pequenez dos ouvidos tem sensibilíssima a audição. Dos que ouvem bem diz-se na Amazônia que t »'* m ouvidos de peixe-boi. Não menos perfeita tem a visão. Assim dotados, lhe não escapam os minnnos movimentos, aspectos ou sons suspeitos acima d’agua. Affirmara os pescadores, recontando •< sua sagacidade, que quando vem á flor delia, para respirar ou comer, ao retirar se não faz como o pirarucu e todos os •outros peixes ou amphibios. Não segue como elles para adiante, sinão que imerge recuando até ganhar sufficiente profundidade, de onde retomando a posição horisontal continua desassombrado o seu caminho. Esta manobra, explicam, fal-a para evitar expor o corpanzil ao pescador, que mal logra perceber-lhe a extremidade bovina do focinho, mordendo docemente, com calculada cautela, os grelos do capim ou do murerú (nyropheacea), ou advinhal-o pelas bolhas de ar que ao seu deslocar ou respirar sobem á superfície, quando não as abata o tecido cerrado das vegetações marinhas, a cujo resguardo atiladamente se abriga. Fora desses refúgios das moitas de capim ou dos matupás de gramineas e nympheaceas, ditricil é encontral-o a geito deaccommettei-o, e ahi mesmo requer-se uma habilidade quasi adivinhatoria para descubril-o.

Inspeccionando essas vegetações, observou o pescador folhas c grelos delias ruídos. Não lhe permitte a sua experiencia o engano sobre quem as andou remordendo.

Está achada a comedia do peixe-boi. Para ali vae com a sua breve montaria, o seu harpào mais pesado, o seu comprido cigarro. Vagarosamente, cautelosamente, encosta a canoa ao capim ou, e melhor é, mette-a dentro delle passando-llra por cima para evitar que a sombra sua e da canòa reflectida n*agua não ponha de sobreaviso o desconfiado cetáceo. Cigarro acc-sso na bocca, arma prompta, ouvidos e olhos attentos, espera que o volumoso animal d signal de si. Si elle tem a sagacidade, elle pescador tem a paciência da raça multiplicada pela que lhe ceu a profisssáo.

Acolá, em minúscula clareira, aberta por algumas franças ou folhas mais afastadas, vm lentamente apparecendo atravds da camad i liquida a linha esbranquiçada do focinho do cetáceo. Chega, péga a comer de manso, puxando com as mtatorias, á guisa de mâos, as franças das gramineas ou as folhas das nymphéas doce" A CZSCA DO PEIXE-BOI mente abanando a cauda para sustentar-se naquella posição obliqua. Outras vezes nada se lobnga delles; somente o denunciam umas bolinhas das que sobem rodando á superfície. As mais das vezes, porém, se descobre elle pelo som peculiar produzido pelo seu respirar ao lume d*agua, uma especie de assobio doce. abafado.

Visto ou simplesmente adivinhado*, lançalhe o pescador o harpão. Attingido, mal se lhe cravou a arma no rijo couro, arranca em desapoderada carreira, de preferencia fugindo para o meio do rio ou do lag». buscando aguas profundas, em que salvar-se. Deixa-»* ir •» pescador, soltando-lhe a linha a cuja extremidade vae amarrada uma boia cylindrica. de madeira especial, branca, leve. de uns 50 a 60 centimentros de altura e cerca de 20 de diâmetro. Tem o peixe-boi a vida dura, e sinjo o apanhou bem o harpão resiste iongamento e vae longe antes que o pescador o possa trazer eShausío, semimorto, á beira da canoa onde o acaba. Ahi chegado, conduzido pela corda, dá-lhe, si é preciso, o pescador segunda liarpoadeUa afim de melhor segural-o. Para matal-o, si o não matou o harpão, não lhe batem na cabeça, como ao pirarucu, com o duro caceie, o que de pouco cfFeilo seria nas suas carnes flacidns de gordo cetáceo.

Mettem-lhe nas ventas dous botoques acintes preparados c introduzindo-os a forres pancadas de cacete, matam-o assim por sufibcação. Na época do cio e ia procreaçâo perde c peixe-boi 6inào a sua proverbial sagacidade, ao menos a sua cautelosa esquivez. Machos e femeas procuram os baixios e ahi em um desordenado e como quer que seja hediondo retouçar, accessos em uma especie de furor venereo,.

entregam-se á procreaçáo e ao harpão dos pescadores,, que deiles fazem facil presa. São nesta occasião ás vezes feridos quando, como diria Shakespeare, fazem the beast with tico backs. Dizem aquelles também que a morte do beserro. quando acertam de o encontrar com a mãe, lhes entrega esta que, desvairada e aftUcta, esquecendo a natural cautela e. á procura do filho, vem ao encontro do seu harpão. Recontam mais elles que. ao envoz das amazonas de Orellana, refugam as vacas de si as filhas logo que são vitellas e conservam os mamotes, com os quaes procriam quando se fazem elles bois.

Mettem-se os peixes-bois, como jà disse, sob as moitas de capim que arrastadas pela enchente descem os rios ; alimentam-se viajando de conserva. Sobre estas moitas põem igualmente os pescadores a sua cauòa, á espreita deiles e ali também com o harpão os pescam.

A harpoeira — haste, bico, linha ou fio, boia é com modificações de maior peso. de maior resistência, de maior tamanho, idêntica a da pesca do pirarucu. A has^e vae de tres a quatro metros, com ura diâmetro máximo de dous centímetros. O »dco tem cerca de quinze centimentros, 6 de ferro, achatado na ponta como um punhal, aguçado, com duas farpas lateraes agudas recurvas para cima, uma de cada lado. O modo de armar o harpão para o arremeço é o mesmo descripto no capitulo antecedente.

No Rio Negro e em outros logares pescam também o peixe-boi com uma rêde especial, tecida de fio grosso e forte, capaz de aguental-o e resistir-lhe. Com uma cerca de estacas ou um pari bastante forte tapam de antemao as saídas dos lagos, onde em geral fazem esta pesca.

Lançam em segaida a rede em uma extremidade do lago, correndo os chu.nlfos pelo Lindo, sobrenadando as boias. Não pôde, portanto, ser este processo empregado sinao em lagos de pouca profundidade, em que seja a altura d’agua inferior ã largura da rede, para se não evadir o peixe por cima desta. Lançada ella vão arrastando-a e fechando-a em semi-circulo para o meio do qual «batendo. o lago impelliram os peixes-bois e todos os que com elles naquellas aguas se achem e carregada a pucham para a margem com todo o seu conteúdo.

Do peixe-boi aproveita-se a carne e a gordura. Esta reduzida pela cocção á banha— manteiga lhe chamam na região— serve na illuminação domestica e na cosinhn dos sertões menos civilisados. Ha uma especie d-ste cetáceo em que a gordura se desenvolve mais especialmente, pelo que lhe chamam peixe-boi de manteiga. Um peixe-boi de bom tamanho produz 10 a 60 ldlogrammns de carce afõra a banha, e o peixe-boi de azeite 8 e !> potes de 22 a 30 Ltlogrammns cada pote. Hojequasi não usam mais, como antigamente, salgar a carne do peixe-boi. Utilisara-a fresca, assada, cosida ou ensopada, como a devacca ou do porco, em linguiças feitas com as próprias tiipas delle, moqueada, para durar alguns dias e em inixira, um processo especial, iu l.gena. Depois -de moqueada, sujeitam-a a uma cocção na l anha delle extraída e, arretecida, guardam-a afogada na mesma banha em pot.-sde barro ou em latas. A exportação da nbxira dos lugares de prodiicçâo para os consumidores se fazia n«o ba 5*3 muito tempo principaimento em notes. Hoje são mais empregadas caixas cyliudricas de folha de Fiandres ou latas. Os potes têm em geral 30 kilogrammas e as latas 18 a 22. A quantidade media amiual da raixira entrada no mercado do Pará é , paia os noveannos de 1885— í'3, de pouco mais de 34 mil kilogrammas.

O couro do peixe-boi. talvez aproveitável, é completamente desaproveitado. Informa o noticioso Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira que no ultimo quartel do século passado o tenente coronel Teodosio Constaniino de Cliermont tentou curtil-a sem resultado (T) por ser ella excessivamente gordurosa. Talvez hoje processos mais aperfeiçoados o conseguissem, com vantagem para a riqueza publica da região.

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