Processos e instrumentos gerais de pesca A pesca na Amazônia · Capítulo 8 de 10
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Processos e instrumentos gerais de pesca

Processos e instrumentos geraes ds pesca Alem dos citados e descriptos, muitos outros meios de captura do pescado sâo empregados pela população essencialmente pescadora da Amazônia.

Applicam-se uns a certos e determinados peixes, outros, indeterminadamente, a toda a sorte delles. São as armadilhas diversas a porção principal e efficiente destes últimos. Das armadilhas as mais notaveD, por mais productoras. são o caçuri, os cercados, as cambôas. O elemento principal da construcção destas arrnalilhas é o pari. O pari é urn punno de talas, chatas, de um ou dous dedos de largura, tiradas e afTeiçoadas do tronco, da palmeira marajá (Bactris marajá) princípalmente. Essas talas ou taboinhas são ligadas por fios de alguma fibra vegetal, tucum ( Astrocarium ). curauá ( Maurit a carauá )

sipós ou embiras, entrelaçando-se ora sobre as talas de modo a mantel-as juntas, como as bastes de uma esteira de tabúa ou as delgadas varinhas de um transparente. Fazem-o as vezes, mas raro, também de varas delgadas, direitas, lisas ou mesmo de juncos fornecidos por alguma graminea. A matéria empregada na construcçào do pari e a sua maior ou menor soiidez dependem naturalmente do uso que lhe pretendem dar. Conforme a altura da cerca e a resistência que deve offePROCESSOS E INSTRUMENTOS OERAE-S DE PESCA 113 t recer, assim ligam-lhe as varas por duas ou tres carreiras de fios.

Na região maritima e submaritima da Amazónia, na região oriental do Pará, na parte inferior do Tocantins, no rio Pará, nos canaes da região chamada as « Ilhas », onde pronunciada é a acção da maré e avultado o seu fluxo e refluxo, o pari é usado simplesmente como cerca, nos cercados ou cambcns. Estendem essas esteiras durante a baixa mar, parallelamente ás margens e vindo nellas acabar, sustentadas por estacas fincadas a ceria distancia umas das outras a que as amarram fortemente.

A maré de enchente cobre c im asstias aguas esses cercados, que éo nome que piincipalmentelhes dão, e quando vaza deixa-os cheios de peixe. Outras vezes o cercado é feito afastado inteiramente da margem, as faces todas de pari em plena agua. Uma ponte rústica, um tronco de palmeira ou d*outra arvore, posta simplesmente sobre uns páos amarrados em curtas estacas, ou raéramente fluctuante em virtude da própria densidade, dá neste caso accesso ao curral. Para colherem o peixe que nelle caio, para o « despescarem como dizem, servem-se de paneiros, de puçás, de fisgas, conforme a profundidade dagua que nelle ha. Muitas vezes apanham-o simplesmente ã mão, quando o cercado fica em secco.

Com o pari fazem também as tapsgens dos lagos e igarapés, estendendo-o ás saídas delles. Em cbegando a vazante, as aguas passam sem embaraço pelos interstícios das talas, mas o peixe fica preso no lago ou igarapé, á sua mercê. A collocaçáo destas tapagens é feita durante a vazante até raeia enchente, e os que collocam o pari tèm de mergulhar até o fundo em geral lodoso, para ali fincarem as extremidades das varas ou talas, adaptando-as ãs sinuosidades do terreno. Sem esta precaução o peixe se escaparia por alguma abertura deixada.

A cambôa, nome e cousa porfuguezes, é a tapagem feita aproveitando alguma bacia pedregosa, que fecham mediante um muro das mesmas pedras superpostas, e, quando estas não bas:am, alguns pannos de pari. A c-vnhòa é permanente, o cercado não ; o retiram de um para outro sitio, conforme as necessidades da sua existência ou se lhes antolha mais util. Adiante veremos que também com rédes fazem tapagens. estas porem momentarisas e somente á bocca dos lagos e igarapés.

O cacuri e uma tapagem especial, também feita nestes mesmos sitios, para apanhar o peixe que por elles sáe procurando aguas mais profundas. A tapagem simples,’ com o pari estendido de lado a lado, servirá para reter o peixe tanto tempo quanto queiram, durante o verão, no lugar cuja saida assim vedaram. Desfarte fazem-se ali um deposito fácil, commodo, farto, onde vão buscar peixe, com a facilidade com qne, em uma cidade conforte vel, iriam ao mercado. O cacuri este mesmo trabalho lhes diminne, recolhendo em menor espaço, pertinho da casa, copioso pescado que muitíssimas vezes um cesto na mão de uma mulher ou de uma criança basta para colher, á vontade e á escolha. Em todo o interior. todo elle abundante de igarapés e pequenos lagos, repletos de peixe, cada sitio, cada fazenda, cada situação, tem junto uma tapagem ou ura cacuri, fazenPROCESSOS E INSTRUMENTOS GERAES DE PESCA 115 do-lhes um copioso e descançado viveiro ali á mão. E tal que— como ao escriptor destas linhas frequentemente succedeu— si sois ali hospede e vos querem obsequiar, vos perguntarão pouco antes dos repastos que peixes preferis, e consoante a vossa resposta, os irão ou mandarão buscar. A tarrafa, o caniço, a frecha, a linha ou a fisga, serão nestes casos as armas utilisadas. A*s vezes, como disse, nos cacuris, quando baixam muito as aguas, colhem-os mesmo á mão ou com um paneiro, nome ali generico do cesto, ou um puçá, especie de réde, semelhante a dos entomolomstas, para apanhar insectos.

O cacuri é construído com dous ou tres pannos de pari, conforme o armam tomando toda a largura entre as duas margens ou meia largura apenas, encostando-o a uma unica. A primeira forma é a mais comraum e a mais productiva, mas não póde ser usada sinão em aguas inteiramente particulares, não aproveitadas pela serventia publica ou do proprio estabelecimento. Quando não é possível inutilisar totalmente o canal, o cacuri vae apenas até o meio delle, deixando d’ahi á opposta margem o espaço sufficiente á passagem de uma canoa.

Esta passagem não fica aberta, o que tornaria inútil o cpcuri. E’ fechada por um panno movei de pari queaguiza de porta gira, não sobre gonzos, mas sobre os amarrilbos de sipó ou embira que o prendem ao esteio que lhe serve de couceira. Outro esteio serve-lhe de batente.

Quem tem de passar desamarra-o deste e passado que seja amarra-o de novo, fechando a passagem. Os paris são collocados de modo a acompanharem as anfractuosidades do fundo em que fincam bem as extremidades das varas que os formam e aguentados por varas resistentes ou esteios fincados no fundo, aos quaesos amarram. O numero e disposição dos esteios dependem da localisação do cacuri, da forca da corrente que tem de sustentar e da quantidade e qualidade do peixe que deve apanhar. Na face voltada á corrente é disposta a abertura que dará entrada ao peixe. A esta abertura denominam «lingua do cacuri.» Eis como é feita:

naquella fac« ha uma solução de continuidade enganadora para o peixe : os pannos do pari form.\m abi um angulo reentrante, tendo cada lado de 50 centimentros a um metro ; o vertice não é completamente fechado, antes meio aberto e flexível, e cede á pressão externa de um corpo entre as talas ou varas, fechando* se após automaticamente, em virtude da mesma flexibilidade delias;

uma disposição especial não permitte que se rompa e abra esta lingua, que entretanto exige inspecções periódicas pois acaba naturalmente relaxando-so e perdendo a elasticidade, principalmente si, como acontece, forçaram a entrada corpos volumosos como os do pirarucu ou do jacaré. A favor da corrente vem o peixe r dando com o obstáculo do cacuri procura salval-o, descobrindo alguma saida. Percorre, nariz nella, a esteira formada pelo pari, dá com aquella abertura e contente por ella pet.etra. A frincha ligeirameníe aberta consente-lhe metter a ponta da cabeça, e ajudado pela força da corrente, cúmplice da armadilha, que redobra a sua, consegue forçar a entrada. Está preso, pois para sair a corrente, que lhe foi auxilio, ser-11 e-á obstáculo.

PROCESSOS E INSTRUMENTOS GERAES DE PESCA 117 dado o caso, pouco provável, que elle descobrisse a linha escassa do angulo agora saliente, por onde entrou.

Daquelle ponto aliás o afastam as arestas das talas e a corrente ali mais forte, e busca saida impossivel pelas lados do eacuri. Conforme a estensâo do cacuri e a profundidade das aguas em que foi posto, atravessam-no algumas vezes com a ponte tosca referida, sobre a qual se lhes torna mais facil a captura do peixe. E’ sempre perigoso penetrar nos cacuris, porque não só os peixes mais ou menos inoíTensivos nelle caem, sinão também jacarés, arraias, puraqués. todos de encontro perigoso. Os jacarés quando em virtude da corpulência nào entram pela linguaou abertura do cacuri, penetram nelle saindo em terra-, e descendo pela margem a que se encosta, indo buscar facil e commoJo repasto á sua perenne fome. E’ preciso então matal-o logo, pois não só come o peixe que ali acha como emquanío lá estiver não entrará outro, afugentado pela presença ao temivel amphibio.

Quando se pronuncia a cheia, o que acontece no começo do inverno, tiram as tapagens e cacuris, para consentir «ao peixe a arribação e porque não os estrague e inutilise a enchente. Nesta occasião colhem ainda muito peixe, atravessando na abertura deixada pelo cacuri uma ou mais canoas. O peixe, que vem em massa, nào tendo sinão aquella estreita passagem, precipita-se no querer transpôl-a e saltando cae nas canoas acintemente ali postas.

Na bocca dos riachos ou rios em vazante fazem tapagens igualmente com a rède de pesca convenientemente disposta, de modo ao corpo da rède fazer um sacco. Depois em canoas ou mettidos n’agua, quando esta o consente, vão-a batendo com páos ou com as mãos, com grande alarido, espantando e tocando o peixe para a armadilha que disposeram. A isto chamam fazer « mupunga » ou « muponga. » Este termo em tupi significa barulho junto (mu juntar, alliar, colligar, junto, alliado, colligado, ponga—punga, ruido. barulho) Este processo de fazer mupunga chamado praticam-no principalmente os marajoáras, e não só com a réde, mas para encher mais depressa o cacuri ou para, encurralado o peixe entre o pari e o grupo de batedores, fazerem uma colheita facil e copiosa.

O matapi, especie da nassa européa, é um grande cesto conico, tecido das talas da curiosa palmeira trepadeira, a jacilára. (Desmonchus) . Como já vimos nos cóvos de pescar tartarugas, o tecido, que começa do fundo ou apice do cone arredondado, chegado á larga abertura circular volta-se para dentro, convergindo para o centro as pontas das talas. Com um peso no fundo e iscas diversas dentro mergulham o matapi. O peixe attraido pelo engodo penetra pela bocca que se lhe abre franca não podendo sair depois por o não deixarem as arestas do tecido reunidas em ponta de funil. O matapi 6 usado, geralmente, como um recurso extremo, nos lugares baixos, sem corrente, beiradas de igarapés e lagos, mesmo lagoas e poças d’agua, pequenas enseadas, e os peixes que nelle caem são principalmente os gijús, os tamuatás, os acarás, e outros, pequenos como PROCESSOS E INSTRUMENTOS GERAES DE PESCA 119 estes. A ura matapi maior, mais largo, para peixes mais grandes (1) chamam, em alguns lugares, raundurú. Ia-me esquecendo dizer que o matapi é mergulhado inteiramente n'agua fixado a um páo. Geralmente o collocam á tarde ou a noitinha para o recolherem pela manhã.

Pescam também á noite, com fachos, servindo de armas a frecha, a zagaia e, sobretudo, a fisga. Uma madeira resinosa, que accende como um archote, chamada páo de facho, fornece o facho. Tem lugar este processo no verão, quando estão baixos rios e lagos.

O « fachiador », posto no meio da canòa, leva o facho acceso, e o pescador, á pròa, tem a arma de pesca. Pelas beiradas dorme o peixe visível nas primeiras camadas.

Não o desperta a canòa, mui de manso impellida. e o pescador silencioso os vae fisgando ou frechando, certeiro. .Vs vezes o mesmo pescador leva o facho erguido na mão esquerda e com a direita arremessa a fisga ou (!) Não logrei jamais comprehender a condemnaçao dos grammaticos a este comparativo, quando o seu paralleio mais 'pequeno não lh’a merece. Como quer que seja estou disposto a usar delle, e se me sairem corn embargos, dou-lhes com um mestre do bem escrever, Camillo Castello Branco. Abram a sua Bohemia do Espirito , pag. 293, linha 17 e lá encontrarão o mais grande. Demais, nas línguas irraans, o francez, o hespanhol, o italiano, sao correctissimos dizeres plus grand, mas grande, piu grande.

a zagaia. Somente os peixes de escama, como os tucunarés, os aruanás, os acaráuassús, são pescados por este processo, porque o peixe de pelle á noite não vae aos baixios. A este modo de pesca chamam «fachiar»

ou, também, « fazer piraquera »>. Piraquera é um termo tupi-guarani que significa peixe dormindo ou dormida de peixe. Não posso ter a pretenção de conhecer e dizer todôs os processos e instrumentos de pesca usados na região.

Alguns ha particulares a certas zonas ou a porções delia, por mim desconhecidas ou das quaes não pude haver informações. Outros são apenas modificações e variedades locaes e até individuaes de apparelhos e modos de pesca já descriptos. Esta raça de pescadores como temos visto inventou armadilhas para peixes, como outrasas inventaram para a caça. Algumas ha que correspondem perfeitamenle ás nossas arapucas, herdadas também do antepassado indígena. O macèrá é uma delias. O macèrá consta de um cylindro òco do tronco da paxiuba ( Iriartea centricosd) imergido á beira d’agua obra de um palmo acima do fundo. Fica entre dous páos vertiealmente fincados sobre os quaes passa um terceiro. Neste se prende o fio que atravessando o cylindro se vae ligar a um machinismo rude, mas engenhoso, onde está uma isca adequada. O peixe entrando pela bocca inferior do macèrá e arremetendo ao engodo desfaz o artificio que sustenta o cylindro e este cae perpendicularmente prendendo-o. E' usado o macèrá de preferencia durante a cheia, nos igapós baixos, na região oriental e, em geral, como um ultimo recurso.

PROCESSOS E INSTRUMENTOS GERAE5 DE PESCA quando o peixe escasseando nessa epocba e nessas paragens, falhara-lbes os outros meios de os apanharem em porção.

Idêntico a este, sinão pela forma ao menos pela applicação e resultado, é a caraina, apparelho para pesca que consiste simplesmente de uma vara recurvada a cuja extremidade prendem um cesto que mergulha n'o'_rua e ali, convenienteraente iscado, permanece graças a um artificio com que o seguram ao fundo. O peixe penetrando no cesto geralmente de forma afunilada, desarma-o e a vara retomando a vertical suspende o cesto e o pescado.

A rêde e a tarrafa por elles empregadas são, cora modificações insignificantes ou sem ellas, as mesmas usadas nos paizes de origem e pelos demais pescadores do Brazil. O gentio primitivo, como veremos no capitulo seguinte, possuía uma especie de rêde, o ptiçá , hoje redusida á proporções diminutas. Os rios e as aguas, por cujo fundo ha ou se arrastam pàos que facilmente prenderiam ou rasgariam as rèdes não são favoráveis ao emprego desse apparelho de pesca. Por isso, naturalmente, o pescador amazonico não o aprecia muito e pouco se serve delle que, demais, é caro. Mais frequentemente o empregam os indivíduos de raça ou civilisaçáo branca, os catraieiros portuguezes do Pará, occasionalmente pescadores, os commandantes dos vapores da navegação do Amazonas, que, de verão, mediante ellas fornecem de peixe fresco seus passageiros e tripolações. Na região marítima e sub-mariüma 6, pordm, onde tem maior emprego, e depois, nas praias limpas do Amazonas, do Solimões ou de alguns dos seus grandes affluentes. Alómdarêde de arrastão outra usam, também em Portugal e no resto do Brazil empiegada, com um grande sacco ou bolsa no centro. Collocam-a na saída de um rio ou lago e o peixe penetrando no seio da rêde ali facilmente fica preso.

Já ficou em mais de um lugar notado o emprego da tarrafa, para apanhar o peixe em meio dos cardumes, nas poças e baixios onde certas especies se reunem, ou nas beiradas onde outras se encostam. Rèdes e tarrafas são geralmente por elles fabricadas, ou de fio importado, oude*fios indígenas, de algodão, curauá, tucum, ou castanheiro, por elles mesmos fiados, conforme as possibilidades locaes e o emprego que queiram dar a esses instrumentos de pesca.

Dizendo os processos geraes de pesca, não devemos esquecer o da intoxicação ou antes narcotisação dos peixes, mediante o sueco narcotico de certos vegetaes.

Os que mais commummente o fornecem são, em primeiro lugar, o timbó, (Paullinia pinnata) e depois o assacú ( Hnra crepiians ), o tingui (Jaequinia) e o eunambi (Baillcria aspera).

Usam-nos macerando n’agua as raizes e os caules desses diversos vegetaes, previamente pisados entre pedras ou por outro modo. O sueco e a própria madeira meio desfeita pela pisadura são lançados nos sitios pouco caudalosos. Com essa madeira batem a agua, que assim lhe *vae tirando os princípios narcóticos com que se satura. D’ahi a expressão local «bater timbó», que desviada deste sentido primitivo e material, significa PROCESSOS E INSTRUMENTOS GERAES DE PESCA em toda 2 Amazónia espalhar boatos. . .alarmantes 011 não, não guardar segredo, divulgar, espalhar novidades.

Naturalmente lhe veio esta significação do timbó geralmente empregado nas cabeceiras dos rios e igarapés descer com a correnteza e ir ainda por uma grande estensão produzindo os seus effeitosEste processo da narcotisação dos peixes pela saturação das aguas com substancias vegetaes toxicas, produz uma considerável mortandade. E’ certo que, em geral, sómente os peixes de medio e pequeno tamanho são delle victimas, resistindo os grandes. E', porém, crescidissimo 0 numero dos que morrem em meio desenvolvimento, prejudicando o augmento da especie. A maxima parte do peixe assim narcotisado e desaproveitado pelos pescadores, não recobra a vida e é victima não só dos jacarés que infestam as aguas centraes, como, encostados pelas margens, dos urubus, das onças e de outros animaes. Outra porção, nã(%*Íenos avultada morre do proprio toxico. O peixe apanhado por este processo decompõe-se rapidamente.

Misturado o narcotico n*agua começa d’ahi a pouco o peixe e subir á tona em um nadar incerto e desordenado, como 0 andar Cropego de um ébrio e, com pouco, sobrenada inerte, derivando pela corrente abaixo. Os pescadores então nas canoas ou das beiradas os colhem com cestos, com o puçá, ou com a mão.

Em a sua memória sobre 0 Rio Tapajós, o Sr. Barbosa Rodrigues descreve assim um processo de pesca que não conheço e inteiramente primitivo; «Consiste, diz elle, em fazer primeiramente uma cova no fundo do rio, onde se deposita alguma comida e passado horas, vae o indio pescar. Leva comsigo uma linha, armada de anzol em uma extremidade, tendo ahi um pontalete amarrado e uma vara. Chegando á praia, amarra a extremidade sem anzol na vara que espeta na areia e pondo a isca no anzol atira-se ao rio levando este(o anzol)

preso nos dentes e mergulhando vae espetar dentro da cova pelo pontalete o anzol, e nada apressado para a terra, onde vem segurar a ponta da linha que ficára amarrada, e ahi puxa o peixe que não tarda a pegar no anzol por estar ahi cercado. Quantos são os peixes pescados, tantas são as vezes que se repetem a scena do mergulho. Alguns dias depois de ahi pesear-se, a pesca torna-se abundante, porque acostumam-se elles à ceva que ahi se deita.» (I)

Assim como ha uma piracema fluvial, ha por assim dizer, uma especie de piracema terrestre, chamada «pirá cururuca ». QuCndo em virtude de chuvas abundantes estabelece-se uma communica^ào de um lago para outro ou entre dous igarapés parallelos, saem por ella os peixes em bandos numerosos, barulhentos. Cnamamlhes « peixes de enxurrada » e os habitantes visinhos apanham-os com paneiros e a mão. Pirá cururuca, quer dizer barulho, ruido forte de peixes.

Ao apanhar peixes e camarões, com cestos ou com a especie de nassa chamada puçà, pelas beiradas, chamam * tinguijar que é, digamos assim, uma forma inferior do gapuiar, já descripto.

(1) Rio Tapajós , Rio de Janeiro, 1375, p. 73. SEGUNDA PARTE

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