A pesca da tartaruga A pesca na Amazônia · Capítulo 5 de 10
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A pesca da tartaruga

A pos^a da tartaruga Os testudos, os emydes e os chylides, representados na Amazônia por varias especies, concorrem vantajosamente para a alimentação das suas populações. Tartarugas de varias especies. das quaes a mais commum seja talvez a scientificamente conhecida por Enxys Am azonica , o trace já (Emyjs tracajá ). o pitiú (E. yibba) o o matamatá (Chelys fimbria(a ,) alem dos testudos, aperemas e jabutis, de gosto, tamanho e feitios variados, com o (1) Memória sobre o pcUe-bui. MS. da Bibl. Nacional.

pirarucu, o peixe boi e outros, sào ura dos principaes recursos da alimentação ali, e ao menos pira certas porções do AltoAmazonas, no Sohmôes. no Río Negro, no Juruã, no Madeira constituem com o pirarucu a base da alimentação. F/ lã corrente dizer-se que a tartaruga é o boi do Amazonas. Deixando de lado os jabutis, (1) que sendo terrestres pertencem á caça, vejamos como pescam estes preciosos amphibios.

O viajante que nomez de Setembro sobe o Amazonas do Pará a Manãos. em passando Gurupá. de quando em quando avista chegadas ãs margens, delias um pouco afastadas e até no meio do rio, pequenas canòas, na pròa das quaes um sugeito. em geral um tapuio, de arco e frechas promptos na mão, de pé, acocorado ou sentado. conforme lhe apraz ou se lhe antolha preferível, parece a espreita de alguma cousa no rio. Por todos os rios da Amazônia, abaixo das cochoeiras, na parte desimpedida delias, se repete, na m*sma época, esta mesma scena. E 1 o pescador ã espera da tartaruga que deve (1) Km a sua Memória sobre as (arfo rugas (MS. da Bibliotheca Nacional) o Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, confundindo as especies amphibias «ornas propriamente terrestres, cita e descreve as quatorze seguintes: 1) Vurar&uassú ou reté. 2)

Yurará acanga-uassú, 3) Tracajã.4)Mataumatá (sic).õ) Yuararápitiú (sic) ou tartaruga de cheiro, o) Yurará-uirapequê, 7) Yabutim-tinga, Yabutim-pi ranga. í') Yabutirn-carumbé, 10) labulim aperema, II, Iabutim juruparige, 12) Iabutira Jutiá pêua ou Mussuans, 13) Uruaná. da agua salgada e 14 Tartaruga de casco.

passar ali, de arribada, para ir desovar em alguma praia além. De «arribação» chamam este tempo e estas tartarugas. Sae então o pescador a esperal-as no caminho sabido, em quanto não as vae colher nas beiradas onde vão ellas pòr os ovos. Esta migração, ou «arribação»

que é termo de lá. em busca de logar propricio á postura, a fazem elhs ás vezes em grupos numerosos, verdadeiras piracemas ou cardumes. Si é estreito o lugar da passagem, ouve-se muitas vezes o rtiido dos seus cascos entrechocando-se no desordenado da corrida.

Os olhos adestrados do pescador divisa ram-lbe acima d’ngua a cabeça polyedrica. Mais raro,. quando acertam de lhes passar perto, e são calmas as aguas, descobriram um encrespam^t > suspeito, acompanhado de um levíssimo sombreadn, que embora indeciso e vago, e para outros imp* rce t t»vol. lhes nãb escapam ao olhar longamente afeito. braço esquerdo, cuja mão agarra o arco pelo meio. e«tira-se, recto ou n'um largo angulo obtuso, o direito onculhe-se, com a mão prendendo entre o indicador e n polegar a «cabeça* da frecha e a corda, n um angulo agudíssimo. Outras vezes o tiro é largo;

estendem-se ambos os braços afastando a arma do corpo, o angulo obtuso do esquerdo faz-se uma recta, o agudo do direito abre-se ^m obtuso. Sob a pressão da corda puchada fort^ue-nto para traz e da madeira empurrada para diante, ga-se o arco n*um largo semicirculo.

Conforme a distancia da desejada presa, assim o arco se inclina ou abaixa, assim toma o pescador a postura conveniente. I*e’ta a pontaria, levando a arma prompta de baixo para cima, até apanhar o olho o ponta da frecha, em muitíssimo menos tempo que levo a descrever essa manobra, a frecha parte — tá! — no cnsco do bicho.

Achando-se elle afastado, a frecha vae por elevação, que depende da menor pu maior distancia em que do pescador está. Xão se creia, entretanto, que atirem alguma vez para cima, perpendicularmente, como suppõe muita gente e como delles e dos indios se tem escripto. A inclinação, relativa ao plano da superfície d'agua, é maior ou menor, repito, consoante o afastamento da tartaruga, mas nunca tanto como se imagina.

Quando tal distancia não excede uma certa extensão, o arco é bastante furte para imprimir á frecha a força necessária a neutralisar a da gravidade e altingir o alvo com a sufhciente de penetração, a pontaria faz-se directameute, pela coincidência, verificada pelo olho do pescador, do bico da frecha com o alvo visado. Sendo, porém maior a distancia, o arco menos forte, o modo de apontar muda. Erguida um pouco a armo, arco e frecha, para .cima, a pontaria é feita pela coincidência do ponto em que a mão esquerda pega o. arco e o ponto alvejado.

Em resumo, o tiro directo ou indirecto, para empregarmos uma expressão «1 e balística, depende não só da distancia do objectivo, mas também da força impulsiva do arco, do peso do p oj .ctil frecha e da própria força da pescador. Por isso preferem alguns o tiro que chamei indirecto, porque erguendo-se a frecha e descrevendo uma parabula quando toca o alvo leva, em virtude do proprio peso, augmentada a força de penetração.

A tartaruga ferida deita a correr, mergulhando em procura do fundo. Xa rija carapaça' ficou-lhe cravado a GO bico de aço da sararaca, que é o nome da frecha nesta pesca usada. A haste, feita do caule de uma alta gramínoa (Gymnrriiun naevharoide) por elles chamada «frecha»*, desprendendo-se da ponta ficou «de bubuia», excellente expressão por boiando. A~linha nella caprichosamente enrolada se vae desenrolando aos arrancos da tartaruga. Comu este é forte e veloz, corre a haste levada por elia, na superfície d’agua. Traz ella voa rapida a canoa do pescador, que, fazendo «mupica». isto é t multiplicando celeremente as remadas, elle impelle mesmo acocorado, á próa. Apanhada a frecha comera então uma manobra toda de delicalesa, de destresa e de agilidade. A linha comquanto resistente não póde jamais sel-o bastante, peia sua mesma grossura, que aguente um animal forte e pesado, como uma tartaruga em meio ou completo desenvolvimento, Para que se não parta e perca elle o tiabaiho, tem o pesca lor d^, sem embargo de a ter accrescentado emendando-lhe outra qualquer, a > do seu harpão ou a do seu anzol, manohrar com geito, «dando-a», colhendo-a, abandonando de novo a baste de bubuia para retomai -a em seguida, de nccordo cora as evoluções do chelonio. Trazido este por fim até junto da c.nnòa, crava-lhe o pescador uma outra arma mais forte, o itapuâ, especie de harpão curto, com aponta de ferro solidamente engastada. Preso pelo itapuá, recolhe-o para dentro da canòa onde o deixa de costas, previam-rute lidados os pés, e continua a pescaria.

Nesta luta tem o pescado»* de evitar não só não se lhe quebre o fio, mas que a tartaruga, ferida apenas nos rebordos do casco, em parte que não interesse a vida, e òr conservando, portanto, to lo o vigor, não prolongue demasiado a captura ou o que peior é, se nâo meita entre as vegetações das margens, que instinctiva mente procura, e sob as quaes certamente lhe escaparia. Depende o resultado desta pescaria, claro é, da habilidade do pescador e da quantidade de chelonios no lugar, e nâo menos daquelle factor que se intromette sempre em os nossos negocios e trabalhos, a sorte, o acaso, a felicidade. Para conjural-o a seu favor leva o pescador na sua montaria, plantado em um paneirinho ou em u*n caco de pote ou de panella, um pé de tajápurá (caladyim), crente nas suas virtudes propiciatórias. Pode, entretanto, um bom pescador, e rara é o. nâo sejão, apanhar nas duas ou tres horas que dâo a esta pesca, qontro ou seis tartarugas.

A sarará' a e o itapuá são, como vimos, as armas nella empregadas. A sararáca compõe-se de tres partes, a frecha propriamente diti, empenna ia na parte superior ou cabeça, a qual tem o nome de «haste.» o fuso ou suuniba, de madeira, em geral de paracuiiba (Andira sp.j embutido na extremidade inferior da haste, a espoleta ou ' irote. da mesma madeira, movei, no qual se encaixa a ponta, que n «*sti arma é em geral de aço. aguda, farpada de 5 a S centímetros. A’ suumba está presj o virot * por tnn tio tino, mas resistente de 3 a 12 metros de comprimento, que se desenrola facilmente quan lo. com a ponta d aço cravada no casco, mergulha e foge o animal. Esta linha ou tio é em geral de algo Ião ou linho de fabricação estrangeira e dào-lhe commumente, como a outros da mesma grossura que nas suas pescas utilisam o nome s *62 ^enerico de cabinho. São entretanto melhores e preferidos os feitos na terra, por elles mesmos, de fibras de bromeiiaceas, sobretudo as do curauá, não só por terem •com menor peso maior resistência, como por serem menos permeáveis, e se não ensoparem tanto como os de algodão ou linho.

Do facto do desenrolar automático do fio veio a esta .arma o nome de sararáca. do verbo tupi-guarany sará’ desatar a corda, desprender, soltar e o seu freouentativo saràrá , formando o gerúndio, o que se desonrola, desenrolando. E* a sararáca em geral mais curta que as outras frechas. Duas que tenho presentes têm respectivamente uma l n ‘ 30, outra l rn 12 da cabeça ásuumba, tendo esta na primeira 78 millimetros, na segunda 16 centímetros, o que mostra não ha relação precisa entre esta parte e a haste.

Como em geral todas as suas armas de pesca, não é a sararáca um objecto de fabricação grosseira. E’ ao contrario notável o cufflado, o esmero, o apuro mesmo, com que é feita. As partes de madeira, a cabeça e a suumba, embutem-se solidamente nas extremidades superior e inferior da frecha, sendo ahi asseguradas por uma linha fina e forte, como a de costura n° 12, regular e artisticamente enro lada, com a segurança e nitidez de um carretel.

Mais ou menos a uns cinco centímetros abaixo da cabeça estão as duas pennas, geralmente de arára, presas com a mesma linha e com o mesmo cuidado, quasi direi com a mesma preoccupaçào artística. São as vezes as ponnas collocados em forma de espiral, em helice.

Quando a querem armar para o tiro, começam por entear a linha regularmente, em círculos concêntricos, a principiar do ponto em que está pr^sa no meio da suumba. em torno da haste até pouco mais de um palmo acima delia, em uma ou duas camadas, segundo o tamanho do fio. O pedaço que sobra, a outra extremidade que prende a espoleta ou virote, fica, esticado, seguro da saliência feita na haste pelos últimos anneis do fio enrolado e de lá vem teso, aguentando o virote encaixado na extremidade do fuso.

O itapuá é uma especie de harpào mais curto que o já descripto. No tupi-guarany. donde é, diz simplesmente prego, isto é, cousa que se prega ou crava.

Urna outra arma de pesca, semelhante a esta, delia apenas dilíerindo em ter a haste conp ida o dobro da do itapuá, e ser fixa a ponta de ferro ou bico, serve em outra fórma da pesca das tartarugas e tracajás. Quando os sabem nos lagos, lagòas e outras aguas menos profundas e mais calmas a que se acolheram tugindo ás correntezas dos rios e aguas maiores, lá vão pegai-os com aquella arma : a canóa vagando lenta e silêncios imente, de um para outro lado, ora parando, ora seguindo de leve impellida pelo homem do jacurnan, o pescador attento á prôa, a comprida liaste na mào, perpendicular á. superfície. Revela-se o animal pelas borbulhas d’ar que trepam camadas áciraa e vêm arrebentar em pequeninas bolhas á superfície lisa da bacia. Basta-lhe esse signal do animal respirando em baixo ; crava o jaticá e na ferrea ponta delle vem a presa para a canòa.

Também a pescam de caniço, nos mezes da enchente, e estas sáo talvez as mais saborosas tartarugas. Nesse CA tempo abundam eilas principalmente nos igarapés ou furos paralielos aos grandes rios e em directa e próxima communicaçãD com elles, dos quaes línguas de terra baixa, submersível na cheia, cobertas de uma vegetação fraca de sensitivas, salgueiros selvagens, aroideas, caladiuns, mangues e palmeiras, restingas chamadas em a nossa lingua brazileira. es separam Ahi nessas ag ias tranquillas vêm tracajás e tartarugas comer os grelos e folhas de alguma dessas plantas cujos ramos se debruçam sobre a agua e de outras que nella mesmo viçam. E‘ um dos seus petiscos preferidos o bulbo da celebre Victoria regia, o grande itapé do indígena, o forn > de jacaré», consoante o nome local, que da forma da bacia chata, de bordos verricnes, dos seus fornos de farinha. lhe vem. Descoberta-lhes a comedia vae o pescador esperal-as, a hora que as sabe ao j asto, entre as 10 e as 12 da manhã. Sinão ceva-as previamente, deixando por um a ires dias. mergulhadas n’agua, a determinada altura do fundo, bananas verdes, raizes de mandioca. da maniquera principalmente, delias preferida, um pedaço de palmito, presos a um ramo por um fio.

Verificado que estão convenientemente cevadis pelos sigtiaes das mordeduras cuidadosainenie observadas t vem pata ali o pescador corn a sua montaria peseal-ns.

E c>ta pi sen uma das que mais a prova poem a sua paciência e despreoccupação do tempo. Como o peixe boi n ta na ruga e «ladina e arisca*» Para lhe não despertar a attenção, o mais absoluto silencio, amais completa immobili Jade, são precisos. Do contrario nào bacolhel-a ali.

Posta a canoa no sitio convinhavel, retira o p-scador cautelosamente, pouco e pouco, por não agitar a agua, a raiz, tubérculo ou fructo, da ceva, para verificar as mossas nella feitas, seu tamanho, seu numero, si estão frescas, a sua forma, tirando a sua experiencia de tudo augurios favoráveis ou contrários. Çomo preparou céva em vários pontos, si no primeiro examinado lhe não satisfez o resultado do exame, passa a outro. Promettendo aquelles signaes boa pesca, íecolhe para a canòa o engodo, e substitue-o pelo anzol iscado com um pedaço da mesma matéria delle. O anzol não tem, como o anzol commum, farpa na extremidade. E’ apontado e liso. O caniço, a que se prende por uma linha curt i, é também curto, de 1 metro pouco mais ou menos, de madeira leve que sobrenade. O anzol iscado deve ficar a cerca de meio palmo do fundo, descendo até este o resto da linha com um peso na extremidade. Introduzido n’agua com a cautela havida no retirar da ceva, fica o caniço de bubuia, ã beira da canòa, a geito do pescador. Xáo o pode ter este na mão porque os mínimos movimentos, mesmo os levissimosextremecimentos nervosos, setransmittiriam ao anzol, pondo em guarda o arisco e avisado amphibio.

Muitos preferem ao caniço uma simples boia pequena, ficando então com o resto da linha na mão. Por ali em volta apparecem bolinhas d’ar; é o «bicho • que vem «siririugando», á comedia do engodo. Mister se faz maior attenç-io, que elie não tem o comer vagaroso, sinã^ de arremeço, ás bocadas fortes. Um repuxo do caniço ou da boia, indica que eile «pegou». Prompto o pescador, levantando a linha, vae, dada uma pequena sacudid la rapida o e secca, para segurar o anzol na abobada palatina do chelonio ou emyde pegado, colbendo-a. cora todo o cuidado de conserval-a bem aprumada e tensa, evitando-lhe a menor laxidão, que daria azo a escapar-se a presa, pois não engulindo ella o anzol, apenas a sustem elle, sem prendel-a, pela parte anterior do céo da bocca. Vem, como dizem os pescadores, dependu-ada do anzol, e instinctivamente nadando para cima, verticalmente, por se escapar delle. Preciso é por tanto lh’o não consinta o pescador, colhendo a linha mais ligeiro que o nadar delia, sem deixal-a afrouxar, até, ajudando-se das mãos, pól-a para dentro da eariòa, sem maior movimento, para não escurraçar as outras. Em differentes pontos cevados pode elle em tres horas apanhar umas dez ou doze tartarugas.

Apanham-as ainda por outro processo, e em muito maior numero, pondo-lhes cerco com a rède de pescar, em os lagos, cujas saídas foram previamente tapadas. E' quasi o mesmo processo já dito para a pesca do peixeboi. A rede é lançada ao lago cuja profundidade deve permittir que aberta ella em toda a largura, a borda superior onde estão as boias, discos redondos ou ellipticos de madeira leve, fique fóra d’agua, não permittindo ás tartarugas escapuliremse por cima. Da parte de terra batem os pescadores e seus auxiliares as vegetações das margens embaixo das quaes se vem ellas acoutar, fazendo-as correr para o meio do lago, onde encontram a rède. Mesmo as que escapam ou ficam fóra delia não pódem sair do lago. Impede-as a tapagem ou pari posto á saída delle. Essas taes são por outros, em canóas, tocadas de novo para a rède, entre cujas malbas, por todos os lados, vão esbarrar. Os que tem a ex•fremidade da rede vão — a pouco a pouco fechando em circulo, paulalinamente e cautelosamente apertado, de sorte não possam ellas escapar pela frente, nem se erga a réde do fundo, dando-lbes occasião a escapulirem-se. Si o permittem as margens do lago e não é tal o peso do pescado que se arreceiem do rompimento da réde, vão as trazendo de arrastão, de envolta com peixes, e as vezes jacarés, para alguma delias. Si não, si essas margens são, comn não é raro, inteiramente cobertas das vegetações especiaes já mencionadas — caladiuns, aroideas, gramineas, nympbeaceas— esvasiam a réde mesmo dentro do lago.

Emquanto uns do lado de fóra do circulo por ella formado, a seguram e mantem, saltam outros para dentro delle e vão, em rápidos mergulhos apanhando pelos pés e pelos cascos, ás mãos ambas, os individuos presos lá dentro e atirando-os para as canòas, ali junto. Alliviada do maior peso, é a réde com o resto arrastada para alguma riba descoberta de vegetação, si alguma ha, e ali ■esvasiada.

Dá esta pescaria lugar a episodios variados e se faz em geral, no meio de uma barulhada alegre do rapazio folgazão, não raro cortada por algum episodio comico ou mesmo funesto ou ao menos perigoso. Não só as arestas cortantes dos cascos dos chelonios golpeam as pernas e mãos dos pescadores, pondo ás vezes manchas vermelhas de sangue na superfície da agua lodosa, como succede-lhes topar com jacarés e cobras entre as tartarugas e tracajás. Ao ruido e ao bater d’agua ophidios e cm l 2 3 .SciELO 10 11 12 saurios procuram escapar-se, sumindo-se uns por entreas plantas marginaes e matagal proximo, indo outrosesconder-se no fundo, enterrando-se no lodo. Algum t porém, fica no circulo da rede. As cobras passam pelas malhas que são grandes, ou salvam de um salto aborda, deslisando rapidas e sinuosas aguas afóra; os jacarés, impotentes quando de todo mergulhados n’agua, são trazidos, seguros pela cauda, talvez a sua mais formidável defeza, para fora, jogados á margem, e ali mortos, a tiro ou a pão, com grandes judiarias dos curumins, dos rapazes, do mulherio e até dos marmanjões. Ha também picadas dolorosas e peçonhentas de arraias, cujas feridas quando não matam aleijam, dizem elles, e também dentadas cortantes de piranhas e de outros peixes. Afeitos, porém, a todos estes perigos, despresam-os com inconsciente coragem, sem delles darem conta, como se nãoexistissem, tanto o habito embota em nós os mais instinctivos sentimentos. Assim descreve Bates a um destes episodios meios comicos meios graves a que assistio r « Quando se fechou eip circulo a rede e saltaram dentro os homens, descobrio-se nelle um grande jacaré.

Ninguém se espantou; o unico receio manifestado foi não rompesse a rède. « Esbarrei-lhe na cabeça», gritou um ; «elle me arranhou a perna», berrou outro ;

um dos homens, um franzino miranha, rompeu o encanto e foram depois gargalhadas e gritarias sem fim. Ao cabo um rapaz de uns quatorze annos, acudindo da margem ao meu chamado, agarrou o reptil pelo rabo e segurou-o com força até que dominada uma pequena resistência, trouxe-o para a beirada. Abriram a rède e oG9 rapaz arrastou ligeiro o perigoso mas covarde animal para a terra, pela agua lodosa, cerca de cem jardas. Eu cortara, entretanto, uma forte vara e logo que o jacaré chegou a um terreno solido arrumei-lhe uma forte cacetada rapida no alto da cabeça que o matou instantaneamente. Era de bom tamanho, a queixada de mais de um pé, perfeitamente capaz de decepar em dous pedaços a perna de um homem. » (1)

Esta pesca de tartarugas á rede, é muito mais commum nos lagos do Alto, que nos do Baixo-Amazonas, onde também como terei ensejo de mostrar, são ellas muito menos abundantes. Para cila exige-se urna rêde especial de fío grosso e capaz de resistir ás arremettidas dos chelonios para se escaparem. O producto delia póde ser e é em geral considerável. Na que assistio Bates, no lago Aningal, perto de Tefé, no Amazonas, em cerca de 20 minutos apanharam perto de 80 tartarugas, consoante a opinião de um experiente tapuio, de tres a dez annos de idade, e cujo tamanho variava de 16 millimetros a 50 centímetros.

A grande e rendosa pesca, melhor dissêramos captura, das tartarugas é, entretanto, a que se faz nas praias chamadas de viração. Que a descreva o grande mestre da

cm 1 2 3 .SciELO 10 11 12 européasao bruto tejupá das beiradas selvagens do Tocantins. Recontando ao padre provincial Francisco Gonçalves a sua famosa viagem e missão desse rio em 1653. assim descreve essa pescaria, do mesmo passo explicando porque deram os portuguezes as praias em que a fazem o nome de praias de viração, que não é, adverte elle, «por correr nellas vento fresco. »

« Nos mezes de Outubro e Novembro, saem do mar e do rio do Pará, grande quantidade de tartarugas que vem criar nos areaes de algumas ilhas, que por meio deste Tocantins estão lançadas. O modo de criação é enterrarem os ovos, que cada uma põe em numero de 80 até 1CK*, e cobertos com a mesma areia os deixam ao sol e â natureza, a qual sem outra assistência ou beneficio da mãe, os cria em espaço pouco mais ou menos de um mez. Destas covas saem para as ondas do mar por instincto da mesma natureza, a qual também os ensina a sair de noite, e não de dia pela guerra que lhe fazem as aves de rapina, porque toda a que antes de amanhecer não alcançou o rio, a levarão nas unhas. Saem estas tartaruguinbas tamanhas como um carangueijo ptqueno, mas nem esta innocencia lhe perdoaram os nossosindios, comendo e fazendo matalotagera, porque são delicia, e havia infinidade delias. Os portuguezes as mandam buscar aqui e as tem por comer regalado, e a mesma informação nos deu também o padre Manoel de Souza, o qual está já tão grande pratico, que sendo todos os outros que aqui viemos, mazombos, elle é o que menos extranha esta differença de manjar.

(( A estas mesmas praias vem no seu temoo qrasL todo o Pará a fazer a pesca das tartarugas, que cada uma ordinariamente pesa mais de uma arroba; e assim as tem em eurraes ou viveiros, onde entra a maré, e as sustentam.' sem lhe darem de comer, salvo algumas folhas de aninga, arbusto que nasce pelas bordas dos rios, sustentando-se delias quatro a seis mezes. A carne é como a de carneiro, e se fazem delia os mesmos guizados, que mais parecem de carne, que pescado. Os ovos são como os de gallinha, na còr e quasi no sabor, a casca mais branca e de figura differente, porque são redondos e delles bem machucados se fazem em tachos as bellas manteigas do Parti : e o modo com que se faz esta pesca requer mais noticia, que industria, pela muita cautela e pouca resistência das tartarugas. Quando vem a desembarcar nestas praias trazem diante duas como sentinellas, que vem a espiar com muita pausa; logo depois destas com bom espaço, vem oito ou dez, como descobridores do campo e depois delias em maior distancia vem todo o exercito das tartarugas, que consta de muitos milhares. Si as primeiras ou as segundas sentem algum rumor, voltam para traz, e corn ellas as demais, e todas se somem em um momento, por isso os que vem a pesca se escondem todos detraz dos matos, e esperam de emboscada com grande quietação e silencio.

« Saem pois as duas primeiras espias, passeiam do alto a baixo toda a praia, e como estas acham o campo livre, saem também as da vanguarda, e fazem muito de vagar a mesma vigia, e como dão a campanha por sesegura entram á agua e voltam, e depois delias sae toda multidão do exercito com os escudos ás costas, e começam a cobrir as praias, e a correr em grande tropel para o mais alto delias. Applica-se cada uma a fazer sua cóva, e quando já não saem mais, e estão entretidas, umas no trabalho outras já na dòr d’aquella occupação, rebentam os pescadores da enboscada, tomam a parte da praia e remettendo ás tartarugas, não fazem mais que ir virando e deixando ; porque em estando viradas de costas, não so podem mais bolir, e por isso estas pra'»as e estas tartarugas se chamam de viração. »(i)

No livro clássico da sua longa estadia na Amazônia, o fidelissirao Bates descreve também minuciosamente, os diíTerentes episodios da captura das tartarugas e a extração dos seus ovos, nas praias de viração do Alto Amazonas, onde são ellas principalmente abundantes, e onde maior vulto toma também a colheita delias è fabricação da banha ou oleo dos ovos.

Em companhia do sujeito incumbido pela camara municipal de Tef(5, então Ega, da superintendência das praias, visitou elle a do Shimuni. perto desta vilta, e assistiu á postura e extracção dos ovos.

« As tartarugas prenhas, diz elle, descem dos lagos interiores para o rio principal em Julho e Agosto, antes que sequem os canaes, e depois em bandos irmu(1) Apud Historia da Companhia de Jesus nas extinctas provindas do Maranhão e Pará , edição de Cândido Mendes de Almeida in Memórias para a historia do extincto Estado do Maranhão , Rio, ÍSÒO, pag. -159. Esta interessantíssima carta do padre Antonio \ ieira não vem nas suas Cartas , na edição de Seabra & Antunes. Lisboa, 1&>4.

meraveis procuram suas ilhas de areias favoritas ; por que poucas são, das muitas praias existentes, as por ellas escolhidas. As pequenas conservam-se nos lagos durante a secca.» Naquellas praias collocavam sentinellas, não só para bem se certificarem do lugar em que se realisava a postura, como para evitar não fossem as tartarugas imprudcotemente desviadas delias. * E ? preciso tomar, diz Bates, grandes precauções para evitar de inquietar as ariscas tartarugas, que antes de subirem á margem para por, agglomeram-se em porção ã distancia da praia.» Não só tomam as sentiriellas a precaução de se não mostrareíh, como, por signaes, fazem desviar qualquer pescador que queira passar perto delias. Acendem o fogo em buracos fundos abeirado mato, por não ser visivel a fumaça. A passagem de uma canòa nas «aguas baixas em que se reuniram as tartarugas, ou a vista de um hornem ou de fogo na praia, as faria deixar de vir pôr os ovos aquella noite, e si as causas de alarma se repetissem ellas abandonariam aquella praia por ura lugar mais tranquillo. Os vigias, para observal-as construíam uma ligeira barraca pequeiíiná, ou levantavam em sitio apropriado um girào elevado, ali denominado mutá. de 15 metros de altura ás vezes, quando lhes não fornecia commodo posto alguma arvore. Observando as tartarugas dessa atalaia, podiam p>recisar a data dos successívos depositos de ovos, e desfarte habilitar a autoridade a fixar o tempo da extraeçáo dos ovos. «As tartarugas, escreve elle, poem os ovos á noite, deixando a agua quando nada as perturba, era multidões consideráveis, e subindo a parte central e mais alta da praia. Estas partes são, naturalmente, as ultimas a immergirem quando, em cheias anormaes, enche o rio antes da incubação dos ovos pelo calor da areia. D'aqui se poderia crer que este animal procede com previdência na escolha do lugar; mas não lia nisto sinao um dos exemplos nos animaes em que um habito inconsciente tem o mesmo resultado de uma previsão consciente (1). As horas de maior trabalho são as de meia noite ã alvorada. Cavam ellas com suas largas, mãos, espalmadas, buracos fundos na fina areia : a primeira que chega, faz uma cova de cerca de Ires pés de profundidade, pÕ3 os ovos (uns 120) e cobre-os de areia, a segunda depnsita-os acima dos da sua antecessora, e assim até estarem todas as covas cheias. A multidão de tartarugas que frequentam uma praia não acabam de botar em menos de quartorze ou quinze dias, mesmo quando não ha interrupção. Quando tèra todas posto, a area, chamada pelos naturaes taboleiro, por cilas es(1) Não sei até que ponto è licito aceitar a" opinião do autorisado naturalista. A mim. ao contrario, me quer parecer que a experieneia — e nós sabemos hoje que a sua iníiueneia age também sobre os animaes determinando-lhes actos e hábitos que a experieneia ou antes experiencias repetidas de ninhadas p>erdidas por uma enchente inexperada, deve ter gerado nellas o instincto desta precaução . Aliás esta eaatella de ir desovar no alto das praias poderia explical-a também a necessidade de encontrar areia sufiicientcmente secca. tanto que acham-se covas meias feitas, e abandonadas por ter a agua.

surgido quando as abriam as tartarugas. 4Ü cavada distingue-se do resto apenas por signaes de que a areia foi um pouco mexida.» (1) O naturalista subiu a um oos mutás das sentinellas, justamente a tempo de ver as tartarugas começarem a ganhar a agua, pelo lado da praia opposta áquella porque a subiram. A.

vista pagava a pena de subir ao ruim palanque. Ficava elle a uma milha de distancia, mas a superfície da areia estava preta das tartarugas descendo para o rio.

De mais de um pescador ouvi eu a versão que antes da postura sae dentre as tartarugas agglomeradas junto á praia escolhida, uma, «a mãe das tartarugas», consoante a creança da mythologia tupi-guarany sobrevivente entro elles, afim de marcar na praia a area na qual devem por os ovos. Correndo voltada de esguelha, descreve na areia, com a aresta cortante do seu casco, a curva de ura semicírculo mais ou menos largo, cuja profundidade attinge mais de meio palmo, o que feito pela «mãe» saem as outras em terra, e dentro do espaço demarcado desovam (2). Até que ponto é verídica tal versão não sei ; entretanto não destoa de outros factos da historia das sociedades animaes.

Em alguns lugares da xVmazonia, nas regiões de léste principalmente, onde já raream as tartarugas e tracajás, aproveitam-se os moradores do costume delias de não voltarem a agua pelo mesmo caminho porque (1) Obr.\cit. pag. 34S.

(2) V. do A. Sceiias da vida Amazônica . IntroducçSor P*g. 83. # 'Subiram ás praias para lhes armarem uma cilada em que muitas vezes as colhem. Em sitio que se lhes antolha aproposifado fazem uma valia, onde incautbs caiam as tartarugas e tracajás ao recolherem-se da postura.

O tempo da postura varia ligeiramente consoante a variarão já atraz assentada dos phenomenos da enchente e da vazante. Nas praias do Alto-Amazonas ella se faz mais cedo, em Setembro geralmente, nas do Baixo Amazonas em Outubro e no Tocantins — no tempo em que havia tartarugas no Tocantins — em Novembro, segundo informa o padre Antonio Vieira. O trabalho de abrir covas é feito violentamente, lançando alto e longe a areia, chegando a enterrarem-se umas ás outras.

As covas circulares têm de 50 a 90 centímetros de profundidade, e um diâmetro de 22 a 30, e, dizem, são abertas com as patas trazeiras e cobertas com as dianteiras.

Posta sobre ella deixa a tartaruga cair os ovos. Cheia a cova de areia, colloca-se ella de novo em cima e soca-a erguendo-se o mais alto que póde sobre as patas e deixando-se cair sobre ella, com todo o peso até achar-se perfeita mente batida.

Neste trabalho da desova se distraem e perdem a sua habitual ladineza. Os pescadores, si este nome podem ter os que as vem pegar ali, os viradores, que é o que lhes dão, saem dos esconderijos em que se pozeram nos matagaes proximos e tomando o lado d’agua as vão virando de costas. Com um espinho forte, a ponta de uma frecha ou da sua faca furam-lhes depois mãos e pés e passando nesses furos uma embira ou cipó, ligam-os um ao outro tolhendo-llies a possiblidnde de se virarem e escaparem-se.

Estando a postura feita ou tiram logo os ovos ou os vem buscar depois. Ficam as «covas ■> tão bem cobertas que não ê facil descobril-as, mesmo procurando com attenção, quem não tem a experiencia do matuto. A este,afeito a procural-as e descobril-as. raro succederã isso.

Por melhor que hajam as tartarugas buscado occultar os ovos, os acham elles ao mais leve indicio ; restandolhes alguma duvida sondam o sitio onde os advinham com um páo on com os calcanhares. A terra forçosamente fófa, por mais que batida, tráe o cuidado das tartarugas.

Comquanto manifesta e sensível a diminuição desta especie, graças as capturas sem methodo e sem previdência que redundam em verdadeiras destruições, é ainda considerável o resultado destas virações, sobretudo no Alto-Amazonas, onde é ella mais abundante. Xo BaixoAmazonas, se exceptuarmos as regiões medias não encaixoeiradas dos grandes affluentes, e ainda do Maecurú, rio e lagos do Curuã e do Jamundã, com os lagos de Faro chamados, não se encontram mais praias de viração abundantes e as une existem se não podem comparar com as do Rio Xegro, do Solimões, do Madeisa, do Tefé e de outras do Alto-Amazonas. Pelas margens doAmazonas, nas beiradas arenosas — e só em praias de areias desovam — de Almeirim, da Prainba. de Monte Alegre, na margem esquerda, de Gurupá, do Cucari e visinhanças de Santarém na direita, ainda arribam para desovarem as tartarugas, m:

muito diminuto, não dando 7S lheitas de centenas e milhares que em outras paragens fazem. As tartarugas assim apanhadas servem á provisão individual ou são objecto de um pequeno commercio quasi local. Não ha ainda muitos annos eram, em crescido numero remettidos para Belem e Manáos, para esta ultima cidade principalmente. Ahi chegavam jangadas carregadas de muitas centenas delias, encerradas em uma especie de grande curral coberto de palha armado sobre a jangada. Ainda em 1883 vi uma destas descendo o Solimões : dir-se-ia uma d’aquellas barracas dos ribeirinhos do grande rio que arrebatada da margem derivava corrente abaixo. . . Hoje este commercio acha-se muito resumido, ao menos para Belem. Manáos continúa a]receber bastantes tartarugas, que são durantetodo o anno, um dos alimentos cora que conta a sua população de quinze a vinte mil habitantes. Grande numero deüas são vendidas nas mesmas regiões em que foram apanbanhadas aos commandantes, officiaes. tripulantes e passageiros dos vapores que as frequentam, fazendo-se assim um commercio que escapa ás estatísticas. O resto é posto cm curraes para abastecimento da família, do barracão do seringueiro, do sitio do cacoalista, da fazenda ou retiro do criador. Nestes curraes feitos de páos toscos, de gradeado estreito em baixo, para que não fujam, e que em alguns lugares do Alto-Amazonas conservam ainda o nome tupi de caiçara, vivem ellas no lodo, do qual tiram sustento, seis mezes e perto de um armo, dando farta e boa provisão nos mezes escassos da enchente. Alguns ha que assim encurralam, cem, duzentas, quinhentas e mais tartarugas. No Baixo-Amazonas essa quantidade 6 sempre menor, e os curraes dos cacoalistas da costa de Óbidos em 1883, lembra-me bem, nâo tinham mais.

os melhormente fornecidos, que dez, vinte ou trinta delias. E’ variavel a quantidade de ovos postos por uma tartaruga. Ha covas que contêm 120, 130 e 150; Gibbon, bom e verídico observador, fala de 150 a 200, e o mesmo encontra-se em outros viajantes antigos e modernos. As covas que tive occasiáo de ver esvasiar no Baixo Amazonas tinham de 100 a 120. A media de cada postura, creio eu, não será inferior a 100 nem superior a 130 ovos.

A tartaruga ê verdadciramento o gado da Amazônia, -como lhe chamam là muitas vezes. Ella e o pirarucu são, já o disse, os principaes elementos da alimentação de suas populações. Conservadas em curraes são a provisão nutritiva e san dos mezes «famintos» da enchente.

A sua carne é saborosa, very mealy and delicate chama-lhe o viajante americano, Sr. Herbert Smith, e Bates acha-a ccry tender palatable and icholesonxc. Nós paraenses e amazonenses gostamos muito delia e os estrangeiros e filhos de outros estados brazileiros que para lá vão. com pouco se habituam a comel-a com prazer.

De vários modos a preparamos : cosida, ensopada ou assada, ou, e 6 um dos melhores, picada a carne e, servindo de assadeira o proprio peito da tartaruga, assada no forno. Dos rniudos faz-se o guisado conhecido por ■sarapatcl, capitulado por Bates de dclicious soup . e* que não é sinão, e para melhor, a celebre sòpa de tartaruga dos grandes restaurants de Londres e Paris. O sarapatél de tartaruga ou tracajá contentaria o mais fino gourmet. Fazem-o muitas vezes no proprio casco, que aguenta perfeitamente o fogo. No mesmo casco, fazendo de panella, a cosinham ou preparam de outra maneira.

O assado, geralmente os quartos inteiros, é feito em espetos de madeira ou no muquem, já deseripto. Do figado, muito saboroso, e carnes gordurosas do peito, regularmente picados em pequenos dados, com pouca farinha d’agua, fazem p guisado chamado paxicá. Das diversas partes da carne picada e adubada preparam salsichas ou chouriços. Depois de assada ou moqueada comem-a «de tucupi» isto é fervida no molho feito de mandioca cosida, ou a põem em «mixira« afogando-a na própria banha ou na do peixe boi e assim dura mezes.

Os naturaes da região, civilisados ou não, as assam simplesmente em um bom foge, inteiras, tendo-lhes apenas cortado a cabeça, e as servem quente, no seu proprio molho, retirado o fato, com limão e pimentas. Eu de mim digo que esta tartarugaau naturel é excellente. As tartarugas pequenas de um até dous palmos são as preferidas, pela sua carne mais tenra e mais saborosa. As grandes que vão até 90 centímetros, e, raramente, um metro de comprimento e largura maxima em geral igual a dous terços do comprimento, tem a carne dura e insípida. Accresce que quando tém ovos, justamente a occasião em que sãc em maior numero apanhadas, estão magras. O preço das tartarugas varia naturalmente conforme foram abundantes ou escassas as pescarias. Com o tempo, u menor abundancia delias, diminuídas por pescarias redundantes em destruições irracionaes, com o augmento da procura, resultante do da população amazônica e, portanto, do consumidor, tem o preço medio variado de maneira a se não poder estabelecer um algarismo aproximado. Em 1856, segundo o testemunho de Bates, vendiam-se no Alto Amazonas as de tamanho medio por cerca de 300 réis: em 1850, segundo o mesmo autor, tinham subido a cerca de 41000. De uma estatística da Companhia do Amazonas, em os relatórios da sua directoria, vé-se quo no •quatriennio de 1864 — 67 regulavam ellas em Manáos 2$ e no Pará 41000. No mercado publico daquella cidade vi eu, em 1880, venderemse-lhe os quartos a 5?, o que elevaria o producto de cada indivíduo a mais de 20. Agora mesmo (Julho de 1894)

leio nos jornaes locaes que ali, onde é objecto de consummo quotidiano, estão se vendendo por esse preço. Em summa, conforme o tamanho e a maior ou menor abundancia delias, o seu custo varia entre 5$ e 20$, o preço de um boi em certas regiões de Goyaz e Matto Grosso.

São os seus ovos utilisados como alimento geralmente apreciado e na fabricação da chamada manteiga de tartaruga. (1) (1) Na Amazônia a todo oleo expesso ou banha dão o nome de manteiga : assim manteiga de cacáo, manteiga de peixe-boi, manteiga de castanha (da nóz Bertholelia excelsa) e outras.

Essa manteiga lhes serve para combustível de suas lampadas e para condimento de suas panellas. Os ovos da tariaruga são brancos, perfeitamente esphericos, do mesmo volume dos da gallinha, recobertos de uma pellicuta mole. Comem-os de preferencia crus, e também cosidos ou moqueados, assados a fogo lento sobre o muquem. Para comel-os crus desfazem-os em um prato ou cuia, mexem-os bem para que se dissolvam e depois liguem em uma pasta ou massa homogenea, amarello-assafroado. Raras vezes juntam-lhes sal e quasi sempre farinha, a sua farinha d’agua, de mandioca amarelia ou da branca previamente apodrecida u’agua (mandioca puba, chamada). Dos cosidos só é aproveitável a gemma, ligeiramente farinacea, insapida, porque a 'dara.

gelatinosa, não cosinha. Adhere como uma gomraa rala á gemma donde preciso é tiral-a. Os moqueados comem-os simplesmente com farinha. Os ovos da tartaruga não se prestam tanto como os do tracajá à moqueaçào e depois de moqueados não duram tanto como estes. Dos evos crus de uma e de outra espeeie fazem, addicionando-lhes farinha d'agua, uma expessa massa chamada nuijanguâ, da qual preparam um refresco desfazendo-a em agua.

Não creio tenha bom gosto. A manteiga de tartaruga é principalmente fabricada no AltoAmazonas. Em o Medio e Baixo, do Madeira para o Oceano, tem essa fabricação diminuído muito, já pela relativa escassez dos ovos, já pela introducçào de produetos similares estrangeiros, provados melhor para a illuminação, como o kerosene ou petrolco, e paraaaliroentação, como a «manteiga do Reino», (1) ou de vacca, a banha de porco. Entretanto é ainda considerável a producção e o consummo delia, e a sua fabricação, como veremos, a causa principal da apreciável diminuição e, se lhe não acudirem, próxima extincção da preciosa especie. Em o novennio de 1885 — 03 só na cidade de Belem entraram 111.176 kilogrammas desta manteiga, ou uma media de mais de 12.000 kilog. annuaes.

Em certas regiões do Alto Amazonas, no Juruá, no Tefé, no Purús, no Rio Negro, no Jutahy, no Javary e também no Madeira, como no SolimÕes e no Maués, seus afiluentes, sub-aílluentes e lagos, onde são ainda abundantes as tartarugas, menos civilisadas as populações, mais conservados os velhos costumes, a fabricação da manteiga de tartaruga, feita nas mesmas praias em que •desovam ellas, dá lugar a consideráveis e pittorescas agglomerações dessa gente semi-selvagem que forma a população ribeirinha, tapuios e mamelucos, a que se juntam o regatào, que os explora, geralmente um porluguez, mas também bespanhões. bolivianos e peruanos, e até franeezes e inglczes, e alguns outros mestiços, curibocas, cafuzes, mulatos e negros, antigos escravos fugidos, soldados desertores, criminosos e galés evadidos, vadios de toda a especie, preferindo a vida solta e livre desses sertões á mais regular e methodica das porções mais civilisadas da região.

(1) Do lacto de virem pelo reino de Portugal os produetos consumidos na colonia ficaram na Amazônia estas locuções de «manteiga do Reino», a de vacca, «pimenta do Reino,» ada índia, «queijo do Reino,* o ílamengo, etc.

D’anteseram a extracção dos ovos e fabrico da manteiga, consoante determinações salutares do governocolonial, ainda em vigor muito tempo depois, precedidas e acompanhadas de formalidades legaes. Ainda em 1859 o já citado Bates, presenciou em Ega, hoje Tefé, esses actos por elle assim descriptos :

« Na porta da igreja de Ega aflixaram-se editaes annunciando que a excavaçào do Shimuni começaria a 17 de Outubro, e no Catuá, seis milhas abaixo do Shimuni, a 25. Partimos a Kie, no caminho, passamos em nossa bem esquipada igarité, por crescido numero de gente,, homens, mulheres e crianças, em canoas de todos ostamanhos, que para ali se dirigiam como para uma festa.

Na manhã de 17 estavam umas 403 pessoas reunidas á beirada praia; tinha cada familia levantado uma barraca temperaria, grosseira, de páos e folhas de palmeiras, para se protegerem contra o sol ea chuva. Pela areia espalhados viam-se gra ides taxos de cobre para preparar o oleo e centenas de potes de barro vermelho.

« A excavaçào do taboleiro, colheita dos ovos e purificação do azeite, levou quatro dias. Tudo se fez conforme um systema estabelecido pelos antigos governadores portuguezes, provavelmente ha mais de um século.

Primeiramente tomou o commandante o nome de todosos chefes de famílias, com o numero de pessoas que cada um cuidava empregar na extracção, em seguida exigiolhes 140 réis por cabeça para cobrir as despezas com as sentinellas. A todos foi ao depois permittido ir para taboleiro. Enfileiraram-se em torno do circulo, cada um armado de um remo para servir á guiza de pá, e então.

sl ura signal dado pelo commandante — o rufo de tambores — começaram todos a cavar. Animado aspecto tinha o largo circulo dos ca% adores rivaes, lançando nuvens de areia no seuenergico trabalho, e avançando gradualmente para o centro do circulo. Durante o grande calor do meio dia houve um pequeno descanço, e á tarde foram os ovos levados em paneiros (1) para as barracas. Ao cabo do segundo dia estava esvasiado o taboleiro ; grandes montes de ovos, alguns de quatro a ■cinco pés de altura, viam-se ao lado de cada palhoça, producto do trabalho da familia.

« Na precipitação do cavar escaparam algumas das ■cóvas mais fundas ; para descobnl-as voltaram com uma longa varinha de ferro ou madeira, cuja facilidade de penetrar na areia revelava a presença dos ovos. Quando os não encontraram mais. começaram a amassal-os.

Toda a colheita atirada a uma canòa vasia era amassada com páos terminados em forquilhas. Também Índios e meninos mis mettiam-se dentro dp.quella massa e pisavam-a a pés, lambusando-se com a gemraa, e fazendo uma scena cuja sordidez se póde imaginar. Isto terminado, enchem a canòa d'agua e deixam aquella gordurosa lama por algumas horas ao calor do sol, a ■cuja acção o oleo separa-se e sobrenada. Este oleo é ■depois espumado com compridas colheres, feitas de con(1) Traduzo baskcts por paneiros, em vez de cestos, por ^er esse o termo local.

chas de mexilhões (1) amarradas á varas e purificado ao fogo em tachos de cobre. » (2). Não diz Bates que não só dos ovos, sinão também da gordura da tartaruga e das tartarnguiuhas que se escapam das cóvas, fazem elles este oleo ou manteiga. A gordura è neste caso, com as tartaruguinhas tenras, reduzidas á banha pela cocção.

Os tracajás (Emy$ tracajá) não têm na alimentação e nas relações econômicas das populações amazônicas a mesma importância das tartarugas. O seu numero é muito menor que o destas, o que se explica porsua muito menor prolificação, não pondo as femeas de cada vez mais de 25,30 ou 40 ovos. O tamanho ma.ximo do tracajá serão 50 centímetros. Apparece e desova o tracajá um mez mais cedo que a tartaruga e a sua pesca é a mesma, que a desta; por isso descrevendo-a referi-me também a elle. Sua carne é porventura mais saborosa, bem como os seus ovos, de fórma oval e não espherica, como os da tartaruga. Não vivendo o tracajá tanto tempo fóra d'agua como estas, não fazem delles deposito e não são,, como ellas, ohjecto de commercio apreciável entre os lugares de pescarias e os povoados proximos.

O tracajá atrepa aos páos caidos n'agua e ás beiradas, « aquentando o sol, » conforme o dizer popular, e assim otferece á frecha do pescador mais seguro alvu.

As outras especies da mesma ordem dos testudos, o he(1) Item, chamamos nós a estas conchas na Amazônia. (2) Obr . cit. p. 363-304. diondo matamatá, que passa por muito saboroso, o mussuan, o pitiú, habitam principalmente os lodayaes, igarapés e lagos rasos, lamosos. Ahi são facilmente apanhados á mão. com o jaticá ou o itapuá ou caem também nos cacuris, especie de armadilha que adiante descreveremos. Em Marajó, onde abundam, são os mussuans pegados, que se não póde dizer pescados, quando fugindo ao fogo que de verão deitam os vaqueiros ao campo, durante o inverno alagados, deixam as poças d’agua e lagoas e correm para os caminhos e aceiros livres do incêndio, a busca de outras aguas. São então apanl ados em numero considerável. De uma feita, vi no porto de Breves, no Pará. um batelão de capacidade não inferior a tres tonelladas litteralmente cheio de mussuans e pitiús. que eram vendidos a gente do vapor em que eu ia. Estas duas especies raro attingirão a um paímo ; matamatás os ha de 5'> centimetros.

*Nas aguas ao sul e sudoóste da ilha do Marajó estuário do Tocantins, bahias do Anapú, rios e furos, das Ilhas, entre Gurupá e a margem septentrional do curso inferior do Amazonas, pescam as tartarugas pequenas que ainda por ali escassamente apparecem. e os pitiús e tracijás, com uma especie de cesto, chamado còvo. Os covos, feitos de timbó titica {Cissus) tem a forma de um pote ou garrafão, de gargalo sufficientemente largo para consentir a entrada do animal. O tecido espaçoso, para que o animal veja de fóra o engodo, recurva-se pela bocca ou gargalo a dentro e vae acaba á entrada do bòjo, com as pontas em evidencia. Dentro do cóvo, em varinhas do mesmo cipó atravessadas de S8 lado a lado, poem o engodo, fructas, como bananas, alguma raiz de mandioca, ou outro. O còvo é descido com uma pedra no fundo até certa altura e sustentado ahi por uma boia da qual amarram a corda que o segura, quando a não prendem a algum galho d’arvore pendido sobre a agua. Os chelonios andando ao redor por amor da isca, descobrem a larga entrada e penetram por ella.

Não os deixam sair as pontas do tecido voltado para o interior do còvo, propositalmente deixadas para impedirem a saida da presa.

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