Discursos de Rafael Hitlodeu sobre o melhor estado de uma república
Discursos de Rafael Hitlodeu sobre o melhor estado de uma república
Henrique VIII, o invencível rei da Inglaterra, príncipe ornado de todas as virtudes que convêm a um grande monarca, tendo algumas divergências de não pequena importância com Carlos, o serenismo príncipe de Castela, enviou-me a Flandres como seu embaixador, para tratar e conciliar as questões existentes entre ambos. Fui colega e companheiro daquele homem incomparável, Cuthbert Tunstal, a quem o rei, com aplauso tão universal, nomeou recentemente Mestre dos Rolos. Nada direi, porém, a respeito dele, não porque receie que o testemunho de um amigo seja considerado suspeito, mas porque sua erudição e suas virtudes são grandes demais para que eu lhes faça justiça, e tão conhecidas que não necessitam de meus elogios, a menos que eu desejasse, conforme diz o provérbio, “mostrar o sol com uma lanterna”.
Aqueles que o príncipe designara para negociar conosco encontraram-nos em Bruges, conforme o combinado; eram todos homens dignos. O margrave de Bruges os chefiava e era o principal entre eles; mas aquele que era considerado o mais sábio e que falava em nome dos demais chamava-se George Temse, preboste de Casselsee. A arte e a natureza haviam concorrido igualmente para torná-lo eloquente. Era muito versado em direito e, além de possuir grande capacidade, adquirira, pela longa experiência nos negócios, extraordinária destreza para desembaraçá-los.
Depois de nos reunirmos várias vezes sem chegar a um acordo, eles partiram por alguns dias para Bruxelas, a fim de conhecer a vontade do príncipe; e, como nossos assuntos o permitiam, fui a Antuérpia.
Enquanto ali permaneci, entre as muitas pessoas que me visitaram, nenhuma me foi mais agradável do que Peter Giles, natural de Antuérpia, homem de grande honra e de boa posição em sua cidade, embora inferior à que merece. Não sei se seria possível encontrar em parte alguma um jovem mais erudito e de melhor formação. Além de muito digno e instruído, mostra-se tão cortês com todos, tão particularmente bondoso para com os amigos e tão repleto de franqueza e afeto que talvez não se encontrem, em lugar algum, mais de uma ou duas pessoas que sejam, sob todos os aspectos, amigos tão perfeitos. É extraordinariamente modesto, não há nele artifício algum e, ainda assim, ninguém possui mais daquela prudente simplicidade. Sua conversa era tão agradável e sua alegria tão inocente que sua companhia diminuiu em grande medida a saudade que eu sentia de meu país, de minha esposa e de meus filhos, saudade que uma ausência de quatro meses tornara muito intensa.
Certo dia, quando eu voltava para casa depois da missa em Santa Maria, a principal e mais frequentada igreja de Antuérpia, vi-o por acaso conversando com um estrangeiro que parecia já ter passado da flor da idade. Seu rosto era queimado pelo sol, tinha barba comprida e o manto caía-lhe descuidadamente sobre os ombros, de modo que, por sua aparência e vestimenta, concluí tratar-se de um marinheiro.
Assim que Peter me viu, veio saudar-me. Enquanto eu lhe retribuía a cortesia, ele me chamou à parte e, apontando para o homem com quem conversava, disse:
— Está vendo aquele homem? Eu pensava justamente em trazê-lo até você.
Respondi:
— Por sua causa, ele seria muito bem-vindo.
— E também por causa dele próprio — replicou Peter —, se você o conhecesse, pois não existe ninguém vivo capaz de dar um relato tão amplo de nações e países desconhecidos quanto ele, coisa que sei ser de grande interesse para você.
— Então — disse eu — não me enganei por completo, pois, à primeira vista, tomei-o por marinheiro.
— Mas está muito enganado — respondeu ele —, pois não navegou como marinheiro, e sim como viajante, ou melhor, como filósofo. Este Rafael, que de sua família traz o sobrenome Hitlodeu, não ignora a língua latina, mas é eminentemente versado na grega. Dedicou-se mais particularmente a esta do que à primeira, porque se entregara profundamente à filosofia e sabia que, nesse campo, os romanos nada nos deixaram de verdadeiro valor, exceto o que se encontra em Sêneca e Cícero. É português de nascimento e tinha tamanho desejo de conhecer o mundo que repartiu seus bens entre os irmãos, enfrentou os mesmos perigos que Américo Vespúcio e participou de três das quatro viagens que agora se encontram publicadas. Apenas não regressou com ele na última, tendo obtido, quase à força, permissão para ser um dos vinte e quatro homens deixados no ponto mais distante a que chegaram em sua última viagem a Nova Castela. Ser assim abandonado agradou muito a alguém mais desejoso de viajar do que de voltar para casa a fim de ser sepultado em sua terra natal; pois costumava dizer que o caminho para o céu era o mesmo de qualquer lugar, e que aquele que não possuía sepultura continuava tendo os céus sobre si. Essa disposição de espírito, contudo, ter-lhe-ia custado caro, se Deus não lhe houvesse sido muito misericordioso. Depois de ele e cinco castelhanos atravessarem muitos países, chegaram por fim, graças a uma extraordinária boa fortuna, ao Ceilão e, dali, a Calicute, onde encontraram, para sua grande felicidade, alguns navios portugueses. Assim, contrariando todas as expectativas, ele regressou à sua pátria.
Quando Peter terminou de me dizer isso, agradeci-lhe a bondade de pretender apresentar-me a um homem cuja conversa, como ele sabia, me seria tão agradável. Rafael e eu então nos abraçamos. Depois das cortesias habituais entre estrangeiros que se encontram pela primeira vez, fomos todos à minha casa e, entrando no jardim, sentamo-nos sobre um banco coberto de relva e passamos a conversar.
Ele nos contou que, depois de Vespúcio haver partido, ele e os companheiros que permaneceram em Nova Castela conquistaram aos poucos a afeição dos habitantes da região, encontrando-se com eles com frequência e tratando-os com brandura. Por fim, não apenas viveram entre eles sem perigo, mas passaram a relacionar-se familiarmente com eles, e chegaram a conquistar de tal maneira a estima de um príncipe, cujo nome e país esqueci, que este lhes forneceu abundantemente tudo quanto necessitavam, além dos meios convenientes para viajar, barcos quando seguiam por água e carros quando viajavam por terra. Enviou com eles um guia muito fiel, encarregado de apresentá-los e recomendá-los aos demais príncipes que desejassem conhecer.
Após muitos dias de viagem, chegaram a vilas, cidades e repúblicas bem governadas e densamente povoadas. Sob a linha do equador e até onde o sol se move, de ambos os lados dela, estendiam-se vastos desertos abrasados pelo calor perpétuo do sol. O solo era ressequido, todas as coisas tinham aspecto desolador, e os lugares ou eram inteiramente desabitados ou estavam repletos de feras, serpentes e alguns poucos homens não menos selvagens nem menos cruéis do que os próprios animais.
À medida, porém, que avançavam, uma nova paisagem se abria diante deles. Tudo se tornava mais ameno, o ar menos ardente, o solo mais verdejante e até os animais menos ferozes. Finalmente, encontraram nações, vilas e cidades que não apenas mantinham comércio entre si e com os vizinhos, mas negociavam, por mar e por terra, com países muito distantes.
Ali tiveram oportunidade de conhecer muitas regiões em todas as direções, pois não havia navio que partisse em viagem no qual ele e seus companheiros não fossem recebidos de bom grado. As primeiras embarcações que viram tinham fundo chato; suas velas eram feitas de junco e vime, entrelaçados com firmeza, embora algumas fossem de couro. Mais tarde, encontraram navios construídos com quilhas arredondadas e velas de lona, semelhantes em todos os aspectos aos nossos, cujos marinheiros conheciam tanto a astronomia quanto a navegação.
Rafael conquistou extraordinariamente o favor deles ao lhes ensinar o uso da agulha magnética, que até então ignoravam por completo. Antes, navegavam com grande cautela e somente durante o verão; agora, consideram todas as estações igualmente favoráveis, confiando inteiramente na pedra-ímã, com a qual talvez se sintam mais seguros do que realmente estão. Há, portanto, razão para temer que essa descoberta, que se julgava destinada a trazer-lhes tão grandes vantagens, possa, por imprudência deles, tornar-se causa de muitos males.
Seria longo demais deter-me em tudo quanto ele nos contou ter observado em cada lugar, e isso nos afastaria excessivamente de nosso propósito presente. Aquilo que for necessário relatar acerca das sábias e prudentes instituições que encontrou entre as nações civilizadas talvez seja contado por nós em ocasião mais apropriada.
Fizemos-lhe muitas perguntas a respeito de todas essas coisas, às quais respondeu de muito boa vontade. Não lhe perguntamos sobre monstros, pois nada é mais comum do que eles. Em toda parte se ouve falar de cães e lobos vorazes e de cruéis devoradores de homens; não é tão fácil, porém, encontrar Estados bem e sabiamente governados.
Assim como nos falou de muitas coisas que estavam erradas naqueles países recém-descobertos, enumerou também não poucas das quais se poderiam tirar exemplos para corrigir os erros das nações entre as quais vivemos. Um relato delas poderá ser feito, como já prometi, em outra ocasião; por ora, pretendo apenas expor o que ele nos contou acerca dos costumes e das leis dos utopianos. Começarei, contudo, pela circunstância que nos levou a falar daquela república.
Depois que Rafael discorreu com grande discernimento sobre os muitos erros existentes tanto entre nós quanto entre aquelas nações, tratou das sábias instituições encontradas aqui e ali e falou dos costumes e do governo de cada povo por onde passara com tanta precisão como se houvesse vivido toda a vida entre eles, Peter, tomado de admiração, disse:
— Espanta-me, Rafael, que você não entre para o serviço de algum rei, pois tenho certeza de que não haveria nenhum a quem não fosse muito bem-vindo. Sua erudição e seu conhecimento dos homens e das coisas são tais que você não apenas os entreteria agradavelmente, mas lhes seria de grande utilidade, pelos exemplos que poderia apresentar e pelos conselhos que poderia oferecer. Desse modo, serviria aos próprios interesses e seria também muito útil a todos os seus amigos.
— Quanto a meus amigos — respondeu ele —, não preciso preocupar-me muito, pois já fiz por eles tudo quanto me competia. Quando eu não apenas gozava de boa saúde, mas era jovem e vigoroso, distribuí entre meus parentes e amigos aquilo de que as outras pessoas só se desfazem quando estão velhas e enfermas, momento em que entregam, a contragosto, o que já não podem desfrutar. Creio que meus amigos devem dar-se por satisfeitos com isso e não esperar que, por causa deles, eu me escravize a rei algum.
— Calma lá! — disse Peter. — Não quero dizer que você deva tornar-se escravo de algum rei, mas apenas que o auxilie e lhe seja útil.
— Mudar a palavra — respondeu ele — não muda a coisa.
— Chame como quiser — replicou Peter —, não vejo outro meio pelo qual você possa ser tão útil, tanto em particular a seus amigos quanto ao público, e ao mesmo tempo tornar mais feliz sua própria condição.
— Mais feliz? — respondeu Rafael. — E isso haveria de ser alcançado por um caminho tão contrário à minha natureza? Agora vivo como quero, coisa a que, creio eu, poucos cortesãos podem aspirar. Há tantos homens disputando o favor dos poderosos que não será grande perda se eles não forem importunados por mim nem por outros de meu temperamento.
Então eu disse:
— Percebo, Rafael, que você não deseja riquezas nem grandeza; e, de fato, estimo e admiro um homem assim muito mais do que qualquer dos grandes deste mundo. Ainda assim, creio que faria algo muito condizente com uma alma tão generosa e filosófica quanto a sua se empregasse seu tempo e seus pensamentos nos assuntos públicos, ainda que isso pudesse trazer-lhe algum incômodo. E jamais poderia fazê-lo com maior proveito do que sendo admitido no conselho de algum grande príncipe e levando-o a ações nobres e dignas, como sei que faria se ocupasse semelhante cargo. Pois as fontes do bem e do mal fluem do príncipe sobre toda a nação, como de uma nascente perene. Tamanha erudição como a sua, mesmo sem experiência nos negócios, ou tamanha experiência como a que possui, mesmo sem qualquer outra erudição, faria de você um conselheiro muito adequado para qualquer rei.
— Está duplamente enganado, senhor More — respondeu ele —, tanto na opinião que faz de mim quanto no juízo que forma das coisas. Não possuo a capacidade que você imagina; e, ainda que a possuísse, o público não melhoraria em coisa alguma depois que eu lhe sacrificasse meu sossego. A maioria dos príncipes dedica-se mais aos assuntos da guerra do que às úteis artes da paz; e dessas coisas não tenho conhecimento algum, nem grande desejo de adquiri-lo. Em geral, preocupam-se mais em conquistar novos reinos, por meios justos ou injustos, do que em governar bem os que já possuem.
Entre os ministros dos príncipes, não há nenhum que não seja sábio demais para necessitar de auxílio ou, ao menos, que não se julgue tão sábio que imagine não precisar dele. Quando procuram agradar a alguém, é apenas àqueles por quem o príncipe demonstra particular favor, e que eles tentam atrair para seus próprios interesses por meio de lisonjas e adulações. De fato, a natureza nos fez de tal maneira que todos gostamos de ser lisonjeados e de nos comprazer em nossas próprias opiniões: a velha gralha ama seus filhotes, e a macaca, suas crias.
Ora, se, numa corte composta de pessoas que invejam todas as demais e admiram somente a si mesmas, alguém propusesse alguma coisa que tivesse lido na história ou observado em suas viagens, os outros julgariam que a reputação de sua sabedoria diminuiria e que seus interesses seriam gravemente prejudicados caso não conseguissem desacreditá-la. E, se todos os demais recursos falhassem, recorreriam ao argumento de que tais ou tais práticas agradaram a nossos antepassados e de que já seria bom se pudéssemos igualá-los. Repousariam satisfeitos nessa resposta, como se ela bastasse para refutar tudo quanto se pudesse dizer, como se fosse grande desventura descobrir que alguém é mais sábio do que seus antepassados.
Embora abandonem de bom grado todas as boas práticas dos tempos antigos, quando se propõem coisas melhores, cobrem-se obstinadamente com essa desculpa de reverência ao passado. Encontrei em muitos lugares esses juízos orgulhosos, ásperos e absurdos acerca das coisas, particularmente certa vez na Inglaterra.
— Você já esteve lá? — perguntei.
— Sim — respondeu ele —, e permaneci ali alguns meses, não muito depois de ser sufocada a rebelião do Oeste, com grande mortandade dos pobres que dela participaram.
— Naquela época, contraí grande obrigação para com o venerável prelado John Morton, arcebispo de Canterbury, cardeal e chanceler da Inglaterra; homem — disse ele —, Peter, pois o senhor More sabe muito bem quem ele foi, não menos venerável por sua sabedoria e virtudes do que pelo elevado cargo que ocupava. Era de estatura mediana e não estava alquebrado pela idade; sua fisionomia inspirava mais reverência do que temor; sua conversa era afável, embora séria e grave. Por vezes, comprazia-se em pôr à prova a firmeza daqueles que o procuravam para tratar de negócios, dirigindo-lhes palavras incisivas, mas decorosas, e assim descobria seu ânimo e sua prontidão de espírito. Muito se deleitava quando essa vivacidade não chegava à insolência, pois guardava grande semelhança com seu próprio temperamento, e considerava tais pessoas as mais aptas para os negócios públicos.
Falava com elegância e vigor; era eminentemente versado em direito, possuía vasto entendimento e memória prodigiosa. E esses excelentes talentos com que a natureza o dotara haviam sido aperfeiçoados pelo estudo e pela experiência. Quando estive na Inglaterra, o rei confiava muito em seus conselhos, e o governo parecia apoiar-se principalmente nele; pois, desde a juventude, estivera sempre exercitado nos negócios públicos e, tendo atravessado muitas vicissitudes da fortuna, adquirira, a grande custo, imenso cabedal de sabedoria, que não se perde depressa quando foi comprado por preço tão alto.
Certo dia, quando eu jantava com ele, encontrava-se à mesa um dos juristas ingleses, que aproveitou a ocasião para fazer grandes elogios à severidade com que se administrava a justiça contra os ladrões, os quais, segundo dizia, eram então enforcados com tanta rapidez que às vezes se viam vinte pendurados na mesma forca. Acrescentou que não conseguia compreender como, escapando tão poucos, ainda restavam tantos ladrões roubando por toda parte.
Diante disso, eu, que tomara a liberdade de falar francamente na presença do cardeal, disse:
— Não há motivo algum para espanto, pois essa maneira de punir os ladrões não é justa em si mesma nem benéfica ao público. Assim como a severidade é excessiva, o remédio não produz efeito. O simples furto não é crime tão grave que deva custar a vida de um homem, e nenhum castigo, por mais severo que seja, poderá impedir de roubar aqueles que não encontram outro meio de subsistência. Nisso — prossegui —, não apenas vocês, na Inglaterra, mas grande parte do mundo imita maus mestres, mais dispostos a castigar seus alunos do que a ensiná-los. Promulgam-se terríveis punições contra os ladrões, quando seria muito melhor criar boas medidas pelas quais cada homem pudesse encontrar um meio de viver e, assim, ser preservado da fatal necessidade de roubar e morrer por isso.
— Já se tomou cuidado bastante nesse sentido — respondeu ele. — Há muitos ofícios manuais e existe a agricultura, pelos quais podem conseguir viver, a menos que tenham maior inclinação para seguir maus caminhos.
— Isso não resolverá o problema — disse eu —, pois muitos perdem membros nas guerras civis ou estrangeiras, como aconteceu recentemente na rebelião da Cornualha e, algum tempo antes, nas guerras de vocês contra a França. Mutilados a serviço de seu rei e de seu país, já não podem exercer seus antigos ofícios e são velhos demais para aprender outros. Contudo, como as guerras são acontecimentos ocasionais e conhecem intervalos, consideremos as coisas que sucedem todos os dias.
Há entre vocês grande número de nobres que são tão ociosos quanto zangões e subsistem do trabalho alheio, isto é, do trabalho de seus arrendatários, a quem espoliam até o osso para aumentar suas rendas. Esse, na verdade, é o único caso em que demonstram frugalidade, pois em todas as demais coisas são pródigos a ponto de se arruinarem. Além disso, carregam consigo grande quantidade de homens ociosos, que nunca aprenderam ofício algum com que possam ganhar a vida. Assim que seu senhor morre ou eles próprios adoecem, são postos para fora, pois seus senhores estão mais dispostos a alimentar ociosos do que a cuidar dos enfermos; e muitas vezes o herdeiro não é capaz de conservar uma casa tão numerosa quanto a de seu predecessor.
Ora, quando o estômago daqueles que foram assim expulsos começa a apertar, eles roubam com não menor avidez. E que outra coisa poderiam fazer? Depois de vagarem de um lado para outro, consumindo a saúde e as roupas, ficam esfarrapados e adquirem aspecto miserável; os homens de condição não os acolherão, e os pobres não ousarão fazê-lo, pois sabem que alguém criado na ociosidade e no prazer, acostumado a andar com espada e broquel e a desprezar insolentemente toda a vizinhança como muito inferior a si, não está apto para manejar a pá e a enxada, nem aceitará servir a um homem pobre por salário tão pequeno e alimentação tão modesta quanto este pode oferecer.
A isso ele respondeu:
— Essa espécie de homens deve ser particularmente protegida, pois nela reside a força dos exércitos de que necessitamos, visto que seu nascimento lhes inspira senso de honra mais elevado do que aquele encontrado entre artesãos ou lavradores.
— Seria igualmente razoável dizer — repliquei — que é preciso proteger os ladrões por causa das guerras, pois nunca lhes faltarão uns enquanto tiverem os outros. Assim como os ladrões às vezes se revelam soldados valentes, também os soldados frequentemente se tornam ladrões audazes, tão estreita é a afinidade entre essas duas maneiras de viver.
Esse mau costume, tão comum entre vocês, de manter grande número de criados, não é peculiar à sua nação. Na França existe uma espécie de gente ainda mais perniciosa, pois todo o país está repleto de soldados mantidos mesmo em tempo de paz, caso se possa chamar de paz semelhante condição de uma nação. Eles recebem soldo pela mesma razão que você invoca em favor dos ociosos mantidos pelos nobres. É máxima daqueles pretensos estadistas que, para a segurança pública, é necessário conservar sempre pronto um bom contingente de soldados veteranos. Julgam que não se pode confiar em homens inexperientes e, por vezes, procuram ocasiões para fazer guerra, a fim de exercitar seus soldados na arte de degolar ou, como observou Salústio, “manter-lhes as mãos em uso, para que não se tornem inábeis por uma interrupção demasiadamente longa”.
A França, porém, aprendeu à própria custa como é perigoso alimentar semelhantes feras. O destino dos romanos, dos cartagineses, dos sírios e de muitas outras nações e cidades, todas subvertidas e completamente arruinadas por esses exércitos permanentes, deveria tornar os demais mais prudentes. A insensatez dessa máxima francesa manifesta-se claramente também no fato de que seus soldados treinados muitas vezes descobrem que os homens inexperientes de vocês são adversários superiores, sobre o que não direi muito, para que não pensem que estou lisonjeando os ingleses.
A experiência diária mostra que os artesãos das cidades ou os camponeses do interior não temem combater aqueles senhores ociosos, desde que não estejam incapacitados por alguma enfermidade corporal ou abatidos pela extrema necessidade. Portanto, não é preciso recear que aqueles homens bem-formados e robustos, pois somente esses os nobres gostam de conservar junto de si até arruiná-los, que hoje enfraquecem na comodidade e se amolecem com seu modo efeminado de viver, se tornariam menos aptos para a ação caso recebessem boa educação e fossem bem empregados.
Parece muito irracional que, em vista de uma guerra que jamais precisam travar senão quando o desejam, vocês sustentem tantos homens ociosos, que sempre os perturbarão em tempo de paz, a qual deve ser considerada muito mais importante do que a guerra.
Não creio, porém, que essa necessidade de roubar proceda apenas daí. Há outra causa, mais peculiar à Inglaterra.
— Qual é? — perguntou o cardeal.
— O aumento das pastagens — respondi —, pelo qual se pode dizer que suas ovelhas, naturalmente mansas e fáceis de governar, agora devoram homens e despovoam não apenas aldeias, mas também cidades. Pois, onde quer que se descubra que as ovelhas de determinado solo produzem lã mais macia e mais rica do que a comum, a nobreza e a pequena fidalguia, e até aqueles santos homens, os abades, não satisfeitos com as antigas rendas proporcionadas por suas propriedades, nem julgando suficiente que, vivendo comodamente, não façam bem algum ao público, resolvem causar-lhe mal em vez de benefício.
Interrompem o curso da agricultura, destroem casas e povoados, conservando apenas as igrejas, e cercam as terras para nelas alojar suas ovelhas. Como se as florestas e os parques já não houvessem engolido uma parte suficiente do território, esses dignos homens do campo transformam os lugares mais habitados em solidões.
Quando um miserável insaciável, verdadeira praga de seu país, resolve cercar muitos milhares de acres de terra, os proprietários e arrendatários são expulsos de suas posses, seja por fraude, seja pela força; ou, extenuados pelos maus-tratos, são obrigados a vendê-las. Por esse meio, aquelas pobres criaturas, homens e mulheres, casados e solteiros, velhos e jovens, com suas famílias pobres, porém numerosas, pois o trabalho rural exige muitos braços, são todos forçados a abandonar seus lares sem saber para onde ir.
Precisam vender por quase nada seus utensílios domésticos, que não lhes renderiam muito dinheiro mesmo que pudessem esperar por um comprador. Quando esse pouco dinheiro chega ao fim, e logo chegará, que lhes resta fazer senão roubar e, por isso, ser enforcados, Deus sabe com quanta justiça, ou sair mendigando? E, se mendigam, são lançados na prisão como vagabundos ociosos, embora estivessem dispostos a trabalhar, mas não encontrem quem os empregue. Pois já não há necessidade do trabalho rural para o qual foram criados, quando não resta terra arável.
Um único pastor pode cuidar de um rebanho que ocupe uma extensão de terra que exigiria muitos braços, caso fosse lavrada e colhida. Isso também faz subir, em muitos lugares, o preço dos cereais. O preço da lã elevou-se de tal modo que os pobres, que costumavam fabricar tecidos, já não conseguem comprá-la, o que também condena muitos deles à ociosidade.
Desde que as pastagens começaram a aumentar, Deus puniu a avareza de seus proprietários com uma peste entre as ovelhas, que destruiu enorme quantidade delas. A nós poderia parecer mais justo que ela houvesse recaído sobre os próprios donos. Mas, ainda que as ovelhas se multiplicassem indefinidamente, seu preço dificilmente cairia. Embora não se possa chamar isso de monopólio, porque não estão todas concentradas nas mãos de uma única pessoa, encontram-se nas mãos de tão poucos, e estes são tão ricos, que não se veem obrigados a vendê-las antes de desejarem fazê-lo; e jamais o fazem até terem elevado o preço o máximo possível.
Pela mesma razão, as demais espécies de gado são tão caras. Como muitas aldeias foram destruídas e todo trabalho rural é muito negligenciado, já não há quem se dedique à criação desses animais. Os ricos não criam gado como criam ovelhas; compram-no magro e barato e, depois de engordá-lo em suas terras, tornam a vendê-lo por preços elevados.
Não creio que todos os inconvenientes que disso resultarão já tenham sido percebidos. Pois, assim como vendem caro o gado, se este for consumido mais rapidamente do que as regiões criadoras de onde é trazido puderem fornecê-lo, o número de animais necessariamente diminuirá, e isso acabará por produzir grande escassez.
Por esses meios, sua ilha, que sob esse aspecto parecia a mais afortunada do mundo, sofrerá muito por causa da maldita avareza de umas poucas pessoas. Além disso, a elevação do preço dos cereais faz com que todos reduzam suas famílias tanto quanto podem. E que podem fazer os criados dispensados senão mendigar ou roubar? Um homem de espírito altivo é levado muito mais depressa a esta última alternativa do que à primeira.
O luxo também avança rapidamente entre vocês, agravando sua pobreza e miséria. Há excessiva vaidade no vestuário e grande despesa com a alimentação, não apenas nas casas dos nobres, mas até entre os artesãos, entre os próprios agricultores e entre pessoas de todas as classes.
Vocês têm ainda muitas casas infames e, além daquelas reconhecidas como tais, as tavernas e cervejarias não são melhores. Acrescentem-se os dados, as cartas, o gamão, o futebol, o tênis e o lançamento de argolas, jogos nos quais o dinheiro desaparece depressa. Aqueles que neles se iniciam precisam, ao fim, recorrer ao roubo para conseguir novos recursos.
Expulsem essas pragas e ordenem que aqueles que despovoaram tamanha extensão de terra reconstruam as aldeias que destruíram ou arrendem suas terras a quem esteja disposto a fazê-lo. Restrinjam essa concentração de bens nas mãos dos ricos, quase tão nociva quanto os monopólios. Deixem menos oportunidades para a ociosidade. Restabeleçam a agricultura e regulamentem a manufatura da lã, para que se encontre trabalho para aquelas multidões de ociosos que a necessidade obriga a tornarem-se ladrões, ou que agora, como vagabundos desocupados ou criados inúteis, certamente acabarão tornando-se ladrões.
Se não encontrarem remédio para esses males, será inútil vangloriarem-se da severidade com que punem o furto. Embora possa ter aparência de justiça, tal severidade não é, em si mesma, justa nem conveniente. Pois, se permitem que seu povo seja mal-educado e que seus costumes se corrompam desde a infância, para depois castigá-lo pelos crimes aos quais sua primeira educação o predispôs, que outra conclusão se pode tirar senão a de que primeiro fabricam ladrões e depois os punem?
Enquanto eu falava assim, o conselheiro que estava presente preparava uma resposta e resolvera retomar tudo quanto eu dissera segundo as formalidades de uma discussão, nas quais as coisas costumam ser repetidas com maior fidelidade do que são respondidas, como se a principal prova a que os homens fossem submetidos fosse a de sua memória.
— Você falou com bastante graça para um estrangeiro — disse ele —, tendo ouvido falar de muitas coisas entre nós que não pôde examinar devidamente. Mas tornarei toda a questão clara para você. Primeiro, repetirei em ordem tudo quanto disse; depois, mostrarei até que ponto sua ignorância de nossos assuntos o induziu ao erro; por fim, responderei a todos os seus argumentos. Para começar onde prometi, havia quatro pontos...
— Cale-se! — disse o cardeal. — Isso tomará tempo demais. Por ora, portanto, pouparemos você do trabalho de responder e deixaremos a questão para nosso próximo encontro, que será amanhã, caso os assuntos de Rafael e os seus o permitam.
Então, dirigindo-se a mim, acrescentou:
— Mas, Rafael, eu gostaria muito de saber por que razão você considera que o furto não deve ser punido com a morte. Pretende deixá-lo impune? Ou propõe algum outro castigo que seja mais útil ao público? Pois, se a morte não impede o furto, caso os homens julgassem que suas vidas estariam seguras, que temor ou força poderia conter os maus? Ao contrário, considerariam a redução do castigo um convite para cometer mais crimes.
Respondi:
— Parece-me muito injusto tirar a vida de um homem por causa de uma pequena soma de dinheiro, pois nada no mundo pode ter valor igual ao de uma vida humana. E, se disserem que ele não sofre por causa do dinheiro, mas por ter violado a lei, devo responder que a justiça extrema é uma injustiça extrema.
Não devemos aprovar aquelas leis terríveis que fazem das menores infrações crimes capitais, nem a opinião dos estoicos segundo a qual todos os crimes são iguais, como se não houvesse diferença entre matar um homem e tomar-lhe a bolsa, atos entre os quais, caso examinemos as coisas com imparcialidade, não há semelhança nem proporção alguma.
Deus nos ordenou que não matássemos, e haveríamos de matar com tanta facilidade por causa de um pouco de dinheiro? Se alguém disser que essa lei apenas nos proíbe de matar, exceto quando as leis do país o permitem, pelo mesmo fundamento poderiam ser feitas leis que, em certos casos, permitissem o adultério e o perjúrio.
Deus retirou de nós o direito de dispor de nossa própria vida ou da vida alheia. Se se pretende que o consentimento mútuo dos homens, ao fazerem leis, possa autorizar o homicídio em casos para os quais Deus não nos deu exemplo algum, libertar as pessoas da obrigação da lei divina e, assim, transformar o assassinato numa ação legítima, que é isso senão dar preferência às leis humanas sobre as divinas?
E, uma vez admitido semelhante princípio, os homens poderão, pela mesma regra, impor às leis de Deus todas as restrições que desejarem.
Se, pela lei mosaica, embora rude e severa, pois era um jugo imposto a uma nação obstinada e servil, os homens eram apenas multados, e não mortos, por furto, não podemos imaginar que, nesta nova lei de misericórdia, em que Deus nos trata com a ternura de um pai, Ele nos tenha concedido maior licença para a crueldade do que concedeu aos judeus.
Por essas razões, considero ilícito condenar ladrões à morte. É também claro e evidente que constitui absurdo de consequências nocivas para a república punir igualmente um ladrão e um assassino. Pois, se um assaltante percebe que corre o mesmo perigo ao ser condenado por furto que ao ser considerado culpado de homicídio, isso naturalmente o incitará a matar a pessoa que, de outro modo, apenas roubaria.
Se a punição é a mesma, ele encontra maior segurança e menor risco de ser descoberto quando elimina aquele que melhor poderia denunciá-lo. Assim, o excesso de terror imposto aos ladrões provoca-os à crueldade.
— Quanto à pergunta: “Que forma mais conveniente de punição pode ser encontrada?”, creio ser muito mais fácil descobrir uma do que inventar algo pior. Por que haveríamos de duvidar de que o método empregado por tanto tempo entre os antigos romanos, tão versados nas artes do governo, fosse muito apropriado para castigar tais criminosos? Eles condenavam os culpados de grandes crimes a trabalhar por toda a vida nas pedreiras ou a escavar minas, carregando correntes.
Mas o método de que mais gostei foi o que observei, durante minhas viagens pela Pérsia, entre os polileritas, povo considerável e bem governado. Pagam tributo anual ao rei da Pérsia, mas, em todos os outros aspectos, constituem uma nação livre, regida por suas próprias leis. Vivem longe do mar e cercados por montanhas; e, contentando-se com os produtos de seu próprio país, que é muito fértil, mantêm pouco comércio com qualquer outra nação.
Como, de acordo com o caráter de seu país, não têm inclinação para ampliar suas fronteiras, suas montanhas e o tributo que pagam ao persa protegem-nos de todas as invasões. Assim, não travam guerras; vivem mais confortavelmente do que com esplendor e podem ser chamados antes de povo feliz do que eminente ou famoso, pois não creio que sejam conhecidos sequer pelo nome, salvo entre seus vizinhos mais próximos.
Aqueles que entre eles são considerados culpados de furto devem restituir os bens ao proprietário, e não ao príncipe, como acontece em outros lugares, pois entendem que o príncipe não tem sobre os bens roubados direito maior do que o ladrão. Caso aquilo que foi furtado já não exista, avaliam-se os bens do ladrão; deles se faz a restituição e o restante é entregue à esposa e aos filhos. Os próprios ladrões são condenados a servir nas obras públicas, mas não são presos nem acorrentados, salvo quando exista alguma circunstância extraordinária em seus crimes.
Andam soltos e livres, trabalhando para o público. Se são ociosos ou relutantes no trabalho, recebem açoites; mas, quando trabalham com afinco, são bem tratados e não carregam sinal algum de desonra. Apenas se faz todas as noites a chamada de seus nomes, depois da qual são recolhidos.
Não padecem outro incômodo além desse trabalho constante. Como trabalham para o público, são também sustentados abundantemente pelo erário público, embora isso seja feito de maneiras diferentes em diferentes lugares. Em alguns, tudo quanto se lhes fornece é obtido por meio de contribuições caridosas; e, embora esse sistema possa parecer incerto, tão misericordiosa é a inclinação daquele povo que por ele recebem provisões em abundância. Em outros lugares, reservam-se para eles receitas públicas, ou se estabelece um imposto permanente, cobrado por pessoa, para sua manutenção.
Em certas regiões, não são destinados a obra pública alguma. Todo particular que necessita contratar trabalhadores vai à praça do mercado e os aluga ao poder público, pagando um pouco menos do que pagaria a um homem livre. Caso executem a tarefa com indolência, pode apressá-los com o chicote.
Desse modo, há sempre algum trabalho a ser realizado por eles e, além de assegurarem a própria subsistência, ainda rendem alguma coisa ao público.
Todos usam uma vestimenta peculiar, de uma única cor determinada. Seus cabelos são cortados um pouco acima das orelhas, e corta-se também uma pequena parte de uma delas. Permite-se aos amigos que lhes deem comida, bebida ou roupas, desde que estas sejam da cor apropriada. No entanto, dar-lhes dinheiro ou recebê-lo deles é crime punido com a morte, tanto para quem dá quanto para quem recebe. Não é menor a pena imposta a qualquer homem livre que aceite dinheiro deles, seja por que motivo for.
Também se pune com a morte qualquer desses escravos, pois assim são chamados, que toque em armas. Os pertencentes a cada divisão do país são distinguidos por uma marca particular. É crime capital retirá-la, ultrapassar os limites de sua jurisdição ou conversar com um escravo de outra região. A própria tentativa de fuga não recebe pena menor do que a fuga consumada.
Se outro escravo colaborar com a fuga, será condenado à morte; se um homem livre tomar parte nela, será reduzido à escravidão. Aqueles que denunciarem a conspiração recebem recompensa: se forem livres, dinheiro; se forem escravos, a liberdade, além do perdão por sua participação no plano. Assim, encontram maior vantagem em arrepender-se de haver ingressado em semelhante projeto do que em persistir nele.
— Essas são as leis e regras que adotam em relação ao roubo, e é evidente que são tão vantajosas quanto brandas e humanas. Por elas, não apenas se extingue o vício e se preservam os homens, mas estes são tratados de maneira a compreenderem a necessidade de viver honestamente e de empregar o restante de seus dias na reparação dos danos que antes causaram à sociedade.
Não há tampouco perigo de que retornem aos antigos costumes. Tão pouco receiam os viajantes sofrer algum mal de suas mãos que costumam empregá-los como guias de uma jurisdição a outra. Nada lhes resta de que possam servir-se para roubar ou tirar proveito do roubo, pois, além de estarem desarmados, a simples posse de dinheiro basta para condená-los. Como a punição é certa quando são descobertos, não podem alimentar esperança de escapar. Sua vestimenta, diferente em todas as partes daquela usada pelas demais pessoas, impede-os de fugir, a menos que o façam nus; e, mesmo nesse caso, a orelha cortada os denunciaria.
O único perigo que se poderia temer seria o de conspirarem contra o governo. Contudo, os escravos de uma única divisão ou vizinhança nada poderiam realizar com êxito, a menos que se formasse uma conspiração geral entre os escravos de todas as jurisdições. Isso não pode acontecer, pois não lhes é permitido reunir-se nem conversar uns com os outros. Ninguém se arriscaria a participar de um plano cujo segredo seria tão perigoso e cuja denúncia traria recompensa tão vantajosa.
Nenhum deles perde inteiramente a esperança de recuperar a liberdade. Por sua obediência e paciência, e oferecendo bons motivos para que se acredite que mudarão seu modo de vida no futuro, podem esperar alcançá-la por fim. Todos os anos, alguns são restituídos à liberdade, graças aos bons testemunhos dados a seu respeito.
Depois de relatar tudo isso, acrescentei que não via por que semelhante método não poderia ser adotado com maior proveito do que jamais se poderia esperar daquela justiça severa que o conselheiro tanto exaltava.
Ele respondeu:
— Isso jamais poderia ser introduzido na Inglaterra sem pôr em perigo toda a nação.
Ao dizer essas palavras, sacudiu a cabeça, fez algumas caretas e calou-se, enquanto todos os presentes pareciam concordar com ele, exceto o cardeal, que disse:
— Não é fácil formar um juízo sobre o êxito desse método, pois ele nunca foi experimentado entre nós. Mas, depois de pronunciada a sentença de morte contra um ladrão, o príncipe poderia conceder-lhe uma suspensão temporária e fazer com ele a experiência, negando-lhe o privilégio de santuário. Se o método produzisse bom efeito, poderia ser adotado; caso fracassasse, o pior que se faria seria executar por fim a sentença já pronunciada contra os condenados. Não vejo — acrescentou — por que semelhante demora seria injusta, inconveniente ou de algum modo perigosa. Em minha opinião, os vagabundos deveriam ser tratados da mesma maneira, pois, embora tenhamos feito muitas leis contra eles, ainda não conseguimos atingir nosso objetivo.
Quando o cardeal terminou, todos elogiaram a proposta, embora a houvessem desprezado quando partira de mim. Louvaram particularmente a parte relativa aos vagabundos, porque essa observação pertencera ao próprio cardeal.
— Não sei se vale a pena contar o que se seguiu, pois foi muito ridículo. Ainda assim, aventurar-me-ei a fazê-lo, porque não se afasta deste assunto e talvez se possa tirar dele alguma utilidade.
Havia ali um bufão que imitava o louco com tamanha naturalidade que parecia sê-lo de verdade. As graças que lançava eram tão frias e insípidas que ríamos mais dele do que delas. Às vezes, porém, dizia por acaso coisas não destituídas de graça, justificando assim o antigo provérbio segundo o qual aquele que lança os dados muitas vezes acabará por obter algum lance feliz.
Quando um dos presentes declarou que eu cuidara dos ladrões e o cardeal dos vagabundos, de modo que só faltava criar alguma providência pública para os pobres incapacitados de trabalhar pela doença ou pela velhice, o bufão disse:
— Deixem isso comigo, e eu cuidarei deles. Não há espécie de gente cuja visão eu deteste mais, pois tantas vezes me importunaram com suas queixas lastimosas. Por mais dolorosamente, contudo, que contassem suas histórias, nunca conseguiram arrancar de mim um único vintém. Ou eu não tinha vontade de lhes dar coisa alguma, ou, quando tinha vontade, nada possuía para lhes oferecer. Agora já me conhecem tão bem que não desperdiçam seu trabalho e deixam-me passar sem me causar incômodo, porque nada esperam de mim, em verdade, tanto quanto nada esperariam de um sacerdote. Eu mandaria fazer uma lei que enviasse todos esses mendigos aos mosteiros: os homens para os beneditinos, a fim de se tornarem irmãos leigos, e as mulheres para serem freiras.
O cardeal sorriu e aprovou a ideia como brincadeira, mas os demais a aprovaram a sério.
Estava presente um teólogo que, embora fosse homem grave e áspero, gostou tanto daquela alusão aos sacerdotes e monges que começou a brincar com o bufão e lhe disse:
— Isso não o livrará de todos os mendigos, a menos que cuide também de nós, frades.
— Isso já está resolvido — respondeu o bufão —, pois o cardeal cuidou de vocês com sua proposta de conter os vagabundos e obrigá-los a trabalhar, porque não conheço vagabundos iguais a vocês.
Toda a companhia recebeu muito bem essa resposta. Olhando para o cardeal, perceberam que ele não se desagradava dela. Somente o frade ficou irritado, como se pode facilmente imaginar, e caiu em tamanha cólera que não conseguiu evitar insultar o bufão, chamando-o de patife, caluniador, maledicente e filho da perdição. Depois, citou contra ele algumas terríveis ameaças das Escrituras.
O bufão julgou então estar em seu elemento e atacou-o livremente.
— Bom frade — disse ele —, não se irrite, pois está escrito: “Pela paciência possuireis vossa alma.”
O frade respondeu, e darei suas próprias palavras:
— Não estou irritado, carrasco! Ao menos, não peco por isso, pois diz o salmista: “Irai-vos e não pequeis.”
O cardeal então o advertiu com brandura e recomendou-lhe que dominasse suas paixões.
— Não, meu senhor — respondeu ele —, não falo senão movido por um santo zelo, como devo fazer. Os homens santos tiveram justo zelo, conforme está escrito: “O zelo de tua casa me consumiu.” E cantamos em nossa igreja que aqueles que zombaram de Eliseu quando ele subia à casa de Deus sentiram os efeitos de seu zelo, que talvez também venham a sentir este zombador, este malandro, este canalha.
— Talvez faça isso com boa intenção — disse o cardeal —, mas, em minha opinião, seria mais sensato de sua parte, e talvez melhor para você, não se envolver numa disputa tão ridícula com um bufão.
— Não, meu senhor — respondeu ele —, isso não seria agir sabiamente, pois Salomão, o mais sábio dos homens, disse: “Responde ao insensato segundo a sua insensatez.” É o que agora faço, mostrando-lhe o fosso em que cairá se não estiver atento. Pois, se os muitos zombadores de Eliseu, que era apenas um homem calvo, sentiram os efeitos de seu zelo, que acontecerá ao zombador de tantos frades, entre os quais há tantos homens calvos? Temos também uma bula pela qual todos os que escarnecem de nós são excomungados.
Quando o cardeal percebeu que aquela questão não teria fim, fez um sinal para que o bufão se retirasse, conduziu a conversa para outro assunto e, pouco depois, levantou-se da mesa. Dispensou-nos e foi ouvir as causas.
“Assim, senhor More, deixei-me levar por uma narrativa tediosa, de cuja extensão me teria envergonhado se, como me pedistes com tanta insistência, não vos tivesse visto escutá-la como quem não desejava perder nenhuma de suas partes. Eu poderia tê-la abreviado, mas resolvi contá-la por inteiro, para que observásseis como aqueles que haviam desprezado minha proposta, tão logo perceberam que o cardeal não a desaprovava, imediatamente passaram a aprová-la, adulando-o e lisonjeando-o a tal ponto que aplaudiram com toda a seriedade coisas das quais ele apenas gostara por brincadeira. E disso podeis concluir quão pouco os cortesãos estimariam a mim ou aos meus conselhos.”
Respondi-lhe:
“Fizestes-me uma grande gentileza com esse relato, pois, além de tudo ter sido narrado por vós com sabedoria e graça, fizestes-me imaginar que eu estava novamente em minha pátria e que tornara a ser jovem, ao trazerdes à minha lembrança aquele bom cardeal, em cuja casa fui criado desde a infância. E, embora já me sejais muito caro por outras razões, sois agora ainda mais, por honrardes tanto a memória dele. Apesar de tudo isso, porém, não posso mudar de opinião, pois continuo pensando que, caso conseguísseis vencer essa aversão que tendes às cortes dos príncipes, poderíeis, por meio dos conselhos que sois capaz de oferecer, fazer um grande bem à humanidade. E esse é o principal propósito que todo homem bom deve estabelecer para a própria vida. Com efeito, vosso amigo Platão considera que as nações serão felizes quando os filósofos se tornarem reis ou os reis se tornarem filósofos. Não admira que estejamos tão distantes dessa felicidade enquanto os filósofos não julgarem ser seu dever auxiliar os reis com seus conselhos.”
“Eles não são tão mesquinhos de espírito”, respondeu ele, “que não o fizessem de boa vontade. Muitos já o fizeram por meio de seus livros, se ao menos aqueles que detêm o poder se dispusessem a escutar seus bons conselhos. Mas Platão julgou corretamente que, a menos que os próprios reis se tornassem filósofos, aqueles que desde a infância foram corrompidos por falsas opiniões jamais aceitariam plenamente os conselhos dos filósofos. E ele próprio constatou que isso era verdade no caso de Dionísio.
“Não pensais que, se eu estivesse junto de algum rei, propondo-lhe boas leis e procurando arrancar pela raiz todas as sementes malditas do mal que nele encontrasse, seria expulso de sua corte ou, no mínimo, ridicularizado por meu esforço? Por exemplo, de que serviria eu se estivesse junto do rei da França e fosse chamado ao seu conselho reservado, onde diversos homens sábios, diante dele, propusessem numerosos expedientes sobre as artes e práticas pelas quais Milão poderia ser conservada e Nápoles, que tantas vezes lhes escapara das mãos, recuperada; sobre como os venezianos e, depois deles, o restante da Itália poderiam ser subjugados; e, em seguida, como Flandres, Brabante, toda a Borgonha e alguns outros reinos que ele já devorara em seus projetos poderiam ser acrescentados ao seu império?
“Um deles proporia uma aliança com os venezianos, que deveria ser mantida enquanto fosse vantajosa, aconselhando que se compartilhassem planos com eles e se lhes concedesse uma parte dos despojos, até que o sucesso tornasse menor a necessidade ou o temor que deles se tivesse, ocasião em que tudo poderia ser facilmente retirado de suas mãos. Outro proporia a contratação dos alemães e a conquista dos suíços mediante pensões. Outro aconselharia ganhar o imperador com dinheiro, que junto dele é onipotente. Outro sugeriria a paz com o rei de Aragão e, para consolidá-la, a renúncia às pretensões do rei de Navarra. Outro julgaria que o príncipe de Castela deveria ser atraído pela esperança de uma aliança e que alguns de seus cortesãos deveriam ser conquistados para o partido francês por meio de pensões.
“A questão mais difícil de todas seria o que fazer com a Inglaterra. Seria necessário iniciar negociações de paz e, ainda que não se pudesse confiar em sua aliança, torná-la tão firme quanto possível. Os ingleses deveriam ser chamados de amigos, mas tratados com a desconfiança devida a inimigos. Por isso, os escoceses deveriam ser mantidos prontos para serem lançados contra a Inglaterra em qualquer ocasião; e algum nobre exilado que tivesse pretensões à Coroa deveria ser sustentado secretamente, pois a aliança não permitiria que isso fosse feito às claras. Dessa maneira, aquele príncipe suspeito poderia ser mantido sob constante ameaça.
“Pois bem, quando as coisas se encontrassem em tão grande agitação e tantos homens ilustres estivessem reunindo seus conselhos para decidir como conduzir a guerra, imaginai que um homem tão insignificante quanto eu se levantasse e lhes pedisse que mudassem todos os seus planos, que deixassem a Itália em paz e permanecessem em casa, uma vez que o reino da França já era, na verdade, maior do que um só homem poderia governar adequadamente e que, portanto, o rei não deveria pensar em acrescentar-lhe outros domínios.
“E se, depois disso, eu lhes apresentasse a resolução dos acorianos, povo que vive a sudeste de Utopia e que, muito tempo atrás, se envolveu numa guerra para acrescentar aos domínios de seu príncipe outro reino, sobre o qual ele alegava possuir certos direitos em virtude de uma antiga aliança? Eles o conquistaram, mas descobriram que a dificuldade de conservá-lo igualava aquela que haviam enfrentado para obtê-lo. O povo conquistado estava sempre em rebelião ou exposto a invasões estrangeiras, enquanto os acorianos eram obrigados a guerrear incessantemente, ora em defesa dele, ora contra ele, e, por conseguinte, nunca podiam dispensar seu exército.
“Enquanto isso, eram oprimidos por impostos, o dinheiro saía do reino e seu sangue era derramado pela glória do rei sem proporcionar a menor vantagem ao povo, que não recebia disso o mais ínfimo benefício, nem mesmo em tempos de paz. Além disso, os costumes se corromperam em razão de uma guerra prolongada, roubos e assassinatos proliferaram por toda parte e as leis caíram em desprezo. O rei, dividido pelos cuidados de dois reinos, tornou-se menos capaz de dedicar sua atenção aos interesses de qualquer um deles.
“Quando perceberam tudo isso e compreenderam que aqueles males não teriam fim, reuniram-se em conselho e dirigiram ao rei uma humilde petição, pedindo-lhe que escolhesse qual dos dois reinos mais desejava conservar, pois não podia manter ambos. Disseram que eram um povo grande demais para ser governado por um rei dividido, já que ninguém aceitaria de bom grado ter um criado que pertencesse, ao mesmo tempo, a ele e a outro senhor.
“Em consequência disso, o bom príncipe foi obrigado a entregar seu novo reino a um de seus amigos, que não muito tempo depois foi destronado, e a contentar-se com o antigo.
“Eu acrescentaria que, depois de todas aquelas empresas guerreiras, das enormes desordens e do consumo de tesouros e de vidas que necessariamente delas resultariam, talvez algum infortúnio os obrigasse, ao fim, a abandonar tudo. Parecia, portanto, muito mais desejável que o rei aperfeiçoasse o máximo possível seu antigo reino e o fizesse prosperar tanto quanto pudesse; que amasse seu povo e fosse amado por ele; que vivesse entre seus súditos, governasse-os com brandura e deixasse em paz os outros reinos, pois aquele que lhe coubera já era suficientemente grande, talvez até grande demais para ele. Dizei-me, por favor, como pensais que um discurso semelhante seria recebido?”
“Confesso”, respondi, “que não muito bem.”
“Mas que aconteceria”, prosseguiu ele, “se eu me encontrasse entre outra espécie de ministros, cujas principais maquinações e deliberações consistissem em descobrir por que artifícios poderiam aumentar os tesouros do príncipe? Um proporia elevar o valor da moeda quando as dívidas do rei fossem grandes e reduzi-lo quando suas receitas estivessem para entrar, de modo que ele pudesse pagar muito com pouco e receber muito em pouco. Outro sugeriria inventar um pretexto para uma guerra, a fim de arrecadar dinheiro para conduzi-la, e concluir a paz tão logo isso fosse feito; e tudo seria revestido de tais aparências de religião que comovessem o povo e o levassem a atribuir a decisão à piedade do príncipe e à sua compaixão pela vida dos súditos.
“Um terceiro apresentaria certas leis antigas e bolorentas, tornadas obsoletas por um longo desuso e que, assim como haviam sido esquecidas por todos os súditos, também haviam sido transgredidas por eles, e proporia a cobrança das penalidades previstas nessas leis. Isso, além de proporcionar um vasto tesouro, teria um excelente pretexto, pois pareceria apenas a execução da lei e a realização da justiça.
“Um quarto proporia proibir muitas coisas sob penas severas, sobretudo aquelas cuja proibição contrariasse os interesses do povo, e depois conceder dispensas dessas proibições, mediante grandes pagamentos, àqueles que encontrassem vantagem em violá-las. Isso serviria a dois fins, ambos agradáveis a muitos; pois, ao mesmo tempo que os levados pela avareza a transgredir seriam severamente multados, a venda de licenças por alto preço faria parecer que o príncipe zelava por seu povo e que não dispensava com facilidade, nem por pouco dinheiro, qualquer coisa que pudesse ser contrária ao bem público.
“Outro aconselharia que se assegurasse a fidelidade dos juízes, para que decidissem sempre em favor da prerrogativa real; que fossem frequentemente chamados à corte, a fim de o rei ouvi-los discutir as questões que lhe dissessem respeito. Pois, por mais injusta que fosse qualquer pretensão sua, sempre haveria entre eles alguém que, por espírito de contradição aos demais, por orgulho de singularidade ou para conquistar o favor da corte, encontraria algum pretexto capaz de dar ao rei uma aparência plausível para sustentar sua causa.
“Se os juízes divergirem em suas opiniões, a coisa mais clara do mundo se torna, por esse meio, discutível; e, uma vez posta a verdade em questão, o rei poderá aproveitar-se disso para interpretar a lei em benefício próprio, enquanto os juízes que resistirem serão convencidos, seja pelo medo, seja pelo constrangimento. Depois de conquistados dessa maneira, todos poderão ser enviados ao tribunal para proferir corajosamente a sentença que o rei desejar. Nunca faltarão pretextos plausíveis quando se tratar de decidir em favor do príncipe. Dir-se-á que a equidade está ao seu lado, ou serão encontradas na lei algumas palavras que pareçam favorecer sua causa, ou se lhes imporá algum sentido forçado; e, quando tudo o mais falhar, invocar-se-á a indiscutível prerrogativa do rei, como algo superior a todas as leis e ao qual um juiz religioso deve dedicar especial consideração.
“Assim, todos concordam com a máxima de Crasso segundo a qual um príncipe jamais pode possuir tesouro suficiente, uma vez que dele deve sustentar seus exércitos; que um rei, ainda que quisesse, não poderia agir injustamente; que toda propriedade lhe pertence, sem excluir sequer a própria pessoa de seus súditos; e que nenhum homem possui coisa alguma além daquilo que o rei, por bondade, julga conveniente deixar-lhe.
“E consideram vantajoso ao príncipe que reste aos súditos o mínimo possível, como se fosse de seu interesse que o povo não tivesse nem riquezas nem liberdade, pois essas coisas o tornariam menos dócil e menos disposto a submeter-se a um governo cruel e injusto. A necessidade e a pobreza, ao contrário, embotam os homens, tornam-nos pacientes, abatem-nos e quebram aquela elevação de espírito que, de outro modo, poderia incliná-los à rebelião.
“Pois bem, e se, depois de apresentadas todas essas propostas, eu me levantasse e afirmasse que tais conselhos eram ao mesmo tempo indignos de um rei e prejudiciais a ele; e que não apenas sua honra, mas também sua segurança, dependiam mais da riqueza de seu povo do que de seus próprios tesouros? E se eu demonstrasse que os homens escolhem um rei para o próprio benefício, e não para o benefício dele; para que, por seu cuidado e esforço, possam viver tranquilos e seguros; e que, portanto, um príncipe deve cuidar mais da felicidade do povo do que da sua, assim como um pastor deve cuidar mais de seu rebanho do que de si mesmo?
“É igualmente certo que se enganam profundamente aqueles que julgam ser a pobreza de uma nação um meio de garantir a segurança pública. Quem briga mais do que os mendigos? Quem deseja com maior ardor uma mudança do que aquele que se encontra descontente com sua situação atual? E quem se lança a provocar desordens com ousadia mais desesperada do que aqueles que, nada tendo a perder, esperam ganhar alguma coisa com elas?
“Se um rei caísse sob tamanho desprezo ou tamanha aversão que já não pudesse conservar seus súditos no cumprimento do dever senão pela opressão, pelos maus-tratos e pelo empobrecimento que os tornasse miseráveis, seria certamente melhor que abandonasse o reino do que o conservasse por métodos que, embora lhe preservassem o nome da autoridade, o fariam perder a majestade que lhe é devida. Tampouco é mais digno da condição de um rei governar mendigos do que súditos ricos e felizes.
“Por isso, Fabrício, homem de espírito nobre e elevado, declarou que preferia governar homens ricos a ser ele próprio rico, pois um único homem viver em abundância e prazer enquanto todos à sua volta choram e gemem é ser carcereiro, não rei.
“É um médico inábil aquele que não consegue curar uma doença sem lançar o paciente em outra. Do mesmo modo, aquele que não encontra outra maneira de corrigir os erros de seu povo senão privando-o das comodidades da vida demonstra que não sabe governar uma nação livre. Ele deveria antes livrar-se da própria indolência ou renunciar ao próprio orgulho, pois o desprezo ou o ódio que o povo sente por ele nasce dos vícios que existem nele mesmo.
“Que viva daquilo que lhe pertence, sem prejudicar os outros, e ajuste suas despesas às suas receitas. Que puna os crimes e, por uma conduta sábia, procure preveni-los, em vez de tornar-se severo depois de haver permitido que se tornassem demasiado comuns. Que não ressuscite precipitadamente leis abolidas pelo desuso, sobretudo quando foram esquecidas por muito tempo e jamais fizeram falta. E que nunca exija pela transgressão delas uma penalidade que um juiz não permitiria a um particular cobrar, considerando-o ardiloso e injusto por pretendê-la.
“A essas considerações eu acrescentaria a lei existente entre os macarianos, povo que vive não muito longe de Utopia, segundo a qual o rei, no dia em que começa a reinar, fica obrigado por um juramento, confirmado mediante sacrifícios solenes, a nunca conservar de uma só vez em seus tesouros mais de mil libras de ouro, ou quantidade de prata equivalente a esse valor.
“Contam eles que essa lei foi instituída por um excelente rei, que se preocupava mais com a riqueza do país do que com a sua e que, por isso, tomou providências para impedir a acumulação de um tesouro tão grande que pudesse empobrecer o povo. Julgava que aquela soma moderada seria suficiente para qualquer emergência, caso o rei precisasse dela contra rebeldes ou o reino necessitasse dela contra a invasão de um inimigo; mas não era grande o bastante para estimular um príncipe a invadir os direitos alheios, circunstância que constituiu a principal razão para a criação da lei.
“Ele também considerava que essa medida favorecia a livre circulação do dinheiro, tão necessária ao curso do comércio e das trocas. E, quando um rei é obrigado a distribuir tudo o que, por acréscimos extraordinários, fizer o tesouro ultrapassar o limite estabelecido, torna-se menos inclinado a oprimir seus súditos. Um rei assim será o terror dos maus e será amado por todos os bons.”
“Se eu, repito, dissesse essas coisas ou outras semelhantes a homens cujas inclinações haviam tomado rumo diverso, quão surdos seriam a tudo o que eu pudesse dizer!”
“Sem dúvida, muito surdos”, respondi, “e não é de admirar, pois nunca se devem apresentar propostas ou conselhos que sabemos de antemão que não serão acolhidos. Discursos tão afastados do caminho habitual nada poderiam conseguir nem produzir efeito algum sobre homens cuja mente já se encontra dominada por opiniões diferentes. Essa maneira filosófica de especular não é desagradável entre amigos, numa conversa livre; mas não há lugar para ela nas cortes dos príncipes, onde os grandes negócios são conduzidos pela autoridade.”
“Era exatamente o que eu dizia”, replicou ele, “que não há lugar para a filosofia nas cortes dos príncipes.”
“Há, sim”, respondi, “mas não para essa filosofia especulativa, que considera as mesmas coisas igualmente adequadas em todas as ocasiões. Existe outra filosofia, mais flexível, que conhece o cenário que lhe é próprio, adapta-se a ele e ensina o homem a desempenhar com decoro e propriedade o papel que lhe coube.
“Portanto, desempenhai da melhor maneira possível a peça que está em curso e não a confundais apenas porque outra, mais agradável, vos vem à mente. O mesmo ocorre numa república e nos conselhos dos príncipes. Se as opiniões ruins não podem ser inteiramente arrancadas pela raiz e se não podeis curar, como desejaríeis, algum vício já aceito, nem por isso deveis abandonar a república, assim como não se deve abandonar o navio durante uma tempestade apenas porque não se pode dar ordens aos ventos.
“Não sois obrigado a investir contra os homens com discursos inteiramente alheios ao caminho que seguem, quando percebeis que as opiniões já recebidas por eles impedirão que causeis qualquer impressão. Deveis antes procurar outros meios e conduzir as coisas com toda a habilidade de que sois capaz, para que, se não puderdes fazê-las correr bem, ao menos corram tão mal quanto possível. Pois, a menos que todos os homens fossem bons, tudo não poderia estar certo; e essa é uma bênção que, no momento, não espero ver.”
“Segundo vosso argumento”, respondeu ele, “tudo o que eu conseguiria fazer seria preservar-me da loucura enquanto tentasse curar a loucura dos outros. Pois, se digo a verdade, devo repetir aquilo que já vos disse; quanto a mentir, não sei se um filósofo pode fazê-lo ou não, mas tenho certeza de que eu não posso.
“Mas discursos como os meus, que apenas recordam males passados e advertem sobre os que podem vir, não contêm nada tão absurdo que não possa ser dito em qualquer ocasião. Só poderiam desagradar àqueles que estão resolvidos a precipitar-se de cabeça no caminho oposto. E, se devemos abandonar como absurdo ou extravagante tudo aquilo que, em razão da vida perversa de muitos, possa parecer estranho, então teremos de deixar de pregar, mesmo entre cristãos, a maior parte das coisas que Cristo nos ensinou, embora Ele tenha ordenado que não as ocultássemos, mas proclamássemos dos telhados aquilo que ensinara em segredo.
“A maior parte de Seus preceitos é mais contrária à vida dos homens de nosso tempo do que qualquer parte do meu discurso. Os pregadores, porém, parecem ter aprendido justamente o artifício que me aconselhais a empregar. Percebendo que o mundo não queria de bom grado adaptar sua vida às regras dadas por Cristo, ajustaram a doutrina Dele à vida dos homens, como se fosse uma régua de chumbo, para que, de uma maneira ou de outra, ambas pudessem concordar.
“Não vejo, contudo, outro efeito dessa acomodação senão tornar os homens mais seguros em sua perversidade. E esse é todo o êxito que eu poderia alcançar numa corte, pois teria sempre de discordar dos demais, e então nada conseguiria; ou, se concordasse com eles, apenas ajudaria a levar adiante sua loucura.
“Não compreendo o que quereis dizer com ‘procurar outros meios’, nem com ‘curvar e manejar as coisas com tanta habilidade que, se não correrem bem, corram tão mal quanto possível’. Nas cortes, não se tolera que um homem permaneça calado ou finja não ver o que os outros fazem. É preciso aprovar descaradamente os piores conselhos e consentir nos desígnios mais infames. Aquele que apenas demonstrasse uma aprovação fria por práticas tão perversas seria considerado espião ou talvez traidor.
“Assim, quando um homem entra para uma sociedade como essa, estará tão longe de poder melhorar as coisas por meio dessa habilidade de que falais que não encontrará ocasião alguma para fazer o bem. A má companhia o corromperá antes que ele consiga torná-la melhor. Ou, se apesar de toda a perversidade dos companheiros permanecer firme e inocente, ainda assim as loucuras e desonestidades deles lhe serão atribuídas; e, por ter compartilhado seus conselhos, deverá suportar uma parte de toda a culpa que pertence exclusivamente aos outros.
“Não foi má a comparação com que Platão mostrou quão insensato é um filósofo envolver-se no governo. ‘Se um homem’, diz ele, ‘visse uma grande multidão sair todos os dias para a chuva e sentir prazer em ficar encharcada; se soubesse que seria inútil ir persuadi-la a voltar para casa a fim de escapar da tempestade e que tudo o que poderia esperar ao dirigir-se a ela seria ficar tão molhado quanto os demais, o melhor seria permanecer dentro de casa e, já que não possui influência suficiente para corrigir a loucura alheia, cuidar ao menos de preservar a si mesmo.’”
“Entretanto, para declarar com franqueza meus verdadeiros sentimentos, devo confessar livremente que, enquanto houver propriedade e o dinheiro for a medida de todas as demais coisas, não creio que uma nação possa ser governada de maneira justa ou feliz. Não de maneira justa, porque as melhores coisas caberão aos piores homens; nem feliz, porque tudo será dividido entre uns poucos, e nem mesmo estes serão felizes sob todos os aspectos, enquanto o restante será abandonado à mais absoluta miséria.
“Por isso, quando reflito sobre a sábia e boa organização dos utopianos, entre os quais tudo é tão bem governado e por tão poucas leis, onde a virtude recebe a recompensa que lhe é devida e, ainda assim, existe tamanha igualdade que cada homem vive em abundância; quando os comparo a tantas outras nações que continuam criando novas leis e jamais conseguem pôr sua organização em boa ordem; onde, embora cada um possua sua propriedade, todas as leis que conseguem inventar não são capazes de obtê-la ou preservá-la, nem sequer de permitir que os homens distingam com certeza o que é seu daquilo que pertence a outro, como demonstram claramente os inúmeros processos que surgem todos os dias e permanecem eternamente pendentes; quando, repito, pondero todas essas coisas, torno-me mais favorável a Platão e não me admiro de que ele tenha resolvido não estabelecer leis para aqueles que não se submetessem à comunidade de todos os bens.
“Um homem tão sábio não podia deixar de prever que colocar todos em condição de igualdade era o único meio de tornar feliz uma nação, coisa que não pode ser alcançada enquanto existir propriedade. Pois, quando cada homem atrai para si tudo quanto consegue obter, sob um título ou outro, segue-se necessariamente que, por mais abundante que seja uma nação, se uns poucos dividem entre si toda a riqueza, o restante cai na indigência.
“Assim, haverá entre eles duas espécies de pessoas cujas fortunas mereceriam ser trocadas: de um lado, os inúteis, mas perversos e vorazes; de outro, homens sinceros e modestos que, por sua indústria constante, servem mais ao bem público do que a si mesmos. Disso estou convencido: enquanto a propriedade não for abolida, não poderá haver distribuição equitativa ou justa das coisas, nem o mundo poderá ser governado com felicidade. Pois, enquanto ela for mantida, a maior e de longe melhor parte da humanidade continuará oprimida por uma carga de preocupações e angústias.
“Reconheço que, sem suprimi-la por completo, os sofrimentos que recaem sobre grande parte da humanidade podem ser atenuados, mas jamais inteiramente removidos. Se fossem criadas leis que determinassem até que extensão de terra e até que soma de dinheiro cada homem pudesse chegar; que limitassem o príncipe, para que não se tornasse poderoso demais; e contivessem o povo, para que não se tornasse insolente demais; que impedissem qualquer um de ambicionar facciosamente os cargos públicos, os quais não deveriam ser vendidos nem tornados penosos por grandes despesas, pois, de outro modo, aqueles que os ocupassem seriam tentados a ressarcir-se por meio de fraudes e violência, e seria necessário escolher homens ricos para exercer funções que deveriam antes ser confiadas aos sábios; essas leis, repito, poderiam produzir o mesmo efeito que uma boa dieta e alguns cuidados exercem sobre um doente cuja recuperação é desesperada. Poderiam acalmar e mitigar a enfermidade, mas jamais curá-la por completo, nem devolver boa saúde ao corpo político enquanto permanecesse a propriedade.
“Ocorreria o mesmo que numa combinação de doenças: ao aplicar um remédio a uma ferida, provocar-se-ia outra; aquilo que removesse um sintoma nocivo produziria outros, pois o fortalecimento de uma parte do corpo enfraqueceria o restante.”
“Pelo contrário”, respondi, “parece-me que os homens não podem viver comodamente onde todas as coisas são comuns. Como poderia haver abundância se cada um procurasse furtar-se ao trabalho? A esperança de ganho não o estimularia, e a confiança no esforço alheio poderia torná-lo indolente. Se o povo viesse a sofrer necessidade e, ainda assim, ninguém pudesse dispor de coisa alguma como sua, que poderia resultar disso senão sedições e derramamentos de sangue perpétuos, sobretudo quando caíssem por terra a reverência e a autoridade devidas aos magistrados? Pois não consigo imaginar como elas poderiam ser preservadas entre homens iguais uns aos outros em todas as coisas.”
“Não me admira”, respondeu ele, “que isso vos pareça assim, pois não tendes ideia alguma, ou ao menos nenhuma ideia correta, de uma organização semelhante. Mas, se tivésseis estado comigo em Utopia e visto suas leis e normas, como eu vi durante os cinco anos em que vivi entre eles, tempo no qual tanto me agradaram que eu, na verdade, jamais os teria deixado se não fosse para revelar esse novo mundo aos europeus, confessaríeis então que nunca vistes povo tão bem organizado.”
“Não me convencereis facilmente”, disse Peter, “de que qualquer nação desse novo mundo seja mais bem governada do que as nossas. Pois, já que nossa inteligência não é inferior à deles e nosso governo, se não me engano, é mais antigo, a longa experiência nos ajudou a descobrir muitas comodidades da vida; e alguns acasos felizes revelaram-nos outras coisas que inteligência humana alguma poderia ter inventado.”
“Quanto à antiguidade do governo deles ou do nosso”, respondeu ele, “não podeis formar um juízo verdadeiro a menos que tenhais lido suas histórias. Se devemos dar-lhes crédito, já possuíam cidades antes mesmo que estas regiões fossem habitadas. Quanto às descobertas alcançadas pelo acaso ou realizadas por homens engenhosos, poderiam ter ocorrido lá tão bem quanto aqui.
“Não nego que sejamos mais engenhosos do que eles, mas eles nos superam muito em aplicação e diligência. Pouco sabiam a nosso respeito antes de nossa chegada. Chamam-nos todos pelo nome geral de ‘nações situadas além da linha equinocial’. Sua crônica menciona um naufrágio ocorrido em sua costa há mil e duzentos anos, no qual alguns romanos e egípcios que estavam no navio conseguiram chegar a salvo à terra e passaram entre eles o restante de seus dias.
“E tamanha foi a inteligência dos utopianos que souberam extrair dessa única oportunidade a vantagem de aprender com aqueles hóspedes inesperados todas as artes úteis que então existiam entre os romanos e eram conhecidas pelos náufragos. Com base nos indícios que estes lhes deram, descobriram por si mesmos até algumas das artes que eles não eram capazes de explicar inteiramente. Tão bem souberam aproveitar o acaso de ver alguns de nossos homens lançados em suas costas.
“Mas, se algum acidente semelhante trouxe em algum tempo habitantes de lá para a Europa, estivemos tão longe de tirar proveito disso que nem sequer o recordamos, assim como talvez, em tempos futuros, nosso povo venha a esquecer que eu alguma vez estive ali. Pois, embora eles, a partir de um único acaso como esse, tenham dominado todas as boas invenções que existiam entre nós, creio que demoraria muito até que aprendêssemos ou puséssemos em prática qualquer das boas instituições que existem entre eles.
“Essa é a verdadeira razão pela qual são mais bem governados e vivem mais felizes do que nós, embora não nos sejam superiores em entendimento ou em vantagens exteriores.”
Então lhe disse:
“Peço-vos com toda a insistência que nos descrevais essa ilha muito detalhadamente. Não sejais breve, mas apresentai em ordem tudo o que diz respeito ao solo, aos rios, às cidades, ao povo, aos costumes, à organização, às leis e, em suma, a tudo o que imaginais que desejamos conhecer. E podeis bem imaginar que desejamos saber tudo aquilo que até agora ignoramos a respeito deles.”
“Farei isso de muito boa vontade”, respondeu ele, “pois organizei cuidadosamente toda a matéria, mas será necessário algum tempo.”
“Vamos então”, disse eu, “primeiro jantar, e depois teremos tempo suficiente.”
Ele consentiu. Entramos e jantamos; depois do jantar, voltamos e nos sentamos no mesmo lugar. Ordenei a meus criados que cuidassem para que ninguém viesse interromper-nos, e tanto Peter quanto eu pedimos a Rafael que cumprisse sua palavra. Quando percebeu que estávamos muito atentos, deteve-se por um instante para recolher os pensamentos e começou desta maneira:
“A ilha de Utopia tem, em sua parte central, duzentas milhas de largura e conserva aproximadamente essa mesma extensão ao longo de grande parte de seu território, estreitando-se, porém, em direção às duas extremidades. Sua forma não difere muito da de uma lua crescente.
“Entre as duas pontas, o mar penetra por uma abertura de onze milhas de largura e se espalha numa vasta baía, cercada por terra ao longo de uma circunferência de cerca de quinhentas milhas e bem protegida dos ventos. Nessa baía não há correntes fortes; toda a costa forma, por assim dizer, um porto contínuo, o que proporciona aos habitantes da ilha grande facilidade para o comércio entre si.
“A entrada da baía, contudo, é muito perigosa por causa dos rochedos de um lado e dos baixios do outro. No meio dela há um único rochedo que se eleva acima da água e, por isso, pode ser facilmente evitado; no alto dele existe uma torre, onde se mantém uma guarnição. Os outros rochedos permanecem submersos e são extremamente perigosos.
“Somente os naturais da ilha conhecem o canal, de modo que qualquer estrangeiro que entrasse na baía sem um de seus pilotos correria grande risco de naufrágio. Nem mesmo os próprios utopianos poderiam atravessá-lo em segurança se não fossem guiados por certos marcos existentes na costa; e, se esses marcos fossem deslocados apenas um pouco, qualquer frota que viesse atacá-los, por maior que fosse, certamente se perderia.
“No outro lado da ilha há também muitos portos, e a costa é tão fortificada, tanto pela natureza como pela arte, que um pequeno número de homens pode impedir o desembarque de um grande exército.
“Contam, porém, e ainda restam sinais suficientes para tornar o relato digno de crédito, que a região não era originalmente uma ilha, mas parte do continente. Utopus, que a conquistou e cujo nome ela ainda conserva, pois antes se chamava Abraxa, conduziu seus habitantes, então rudes e incivilizados, a uma organização tão boa e a um grau tão elevado de civilidade que hoje eles superam de longe todo o restante da humanidade.
“Depois de subjugá-los em pouco tempo, concebeu o projeto de separá-los do continente e fazer com que o mar os cercasse por completo. Para realizar isso, ordenou que se escavasse um canal profundo, com quinze milhas de extensão. E, para que os naturais da terra não julgassem que ele os tratava como escravos, não obrigou apenas os habitantes, mas também seus próprios soldados, a trabalhar na obra.
“Como empregou uma enorme quantidade de homens, concluiu o empreendimento com rapidez muito maior do que todos esperavam. E seus vizinhos, que a princípio haviam rido da insensatez do projeto, assim que o viram concluído foram tomados de admiração e terror.
“Há cinquenta e quatro cidades na ilha, todas grandes e bem construídas. Seus costumes, hábitos e leis são os mesmos, e todas foram planejadas, tanto quanto o terreno sobre o qual se erguem permite, de maneira quase idêntica.
“As cidades mais próximas ficam a pelo menos vinte e quatro milhas umas das outras, e as mais distantes não estão separadas por distância tão grande que um homem não possa ir a pé, em um só dia, de uma delas à cidade vizinha.
“Cada cidade envia, uma vez por ano, três de seus senadores mais sábios a Amaurota, para deliberar sobre os interesses comuns. Essa é a principal cidade da ilha e situa-se quase no centro dela, sendo, portanto, o lugar mais conveniente para suas assembleias.
“A jurisdição de cada cidade estende-se por pelo menos vinte milhas e, onde as cidades ficam mais afastadas umas das outras, abrange território muito maior. Nenhuma deseja ampliar seus limites, pois os habitantes consideram-se mais arrendatários do que proprietários da terra.
“Por todo o campo construíram casas destinadas aos lavradores, bem planejadas e providas de tudo o que é necessário para o trabalho rural. Os habitantes das cidades são enviados alternadamente para morar nelas. Nenhuma família do campo possui menos de quarenta homens e mulheres, além de dois escravos.
“Sobre cada família são colocados um chefe e uma chefe, e sobre cada grupo de trinta famílias há um magistrado.
“Todos os anos, vinte membros de cada família retornam à cidade depois de terem permanecido dois anos no campo, e em seu lugar são enviados outros vinte habitantes da cidade. Estes aprendem o trabalho rural com aqueles que já passaram um ano ali, assim como deverão, no ano seguinte, ensinar os que vierem depois deles.
“Por esse meio, os que habitam as propriedades rurais nunca ignoram a agricultura e, assim, não cometem erros que poderiam ser fatais e provocar escassez de cereais.
“Embora haja todos os anos essa substituição de lavradores, para evitar que alguém seja obrigado contra a vontade a seguir por tempo excessivo um modo de vida tão árduo, muitos sentem tanto prazer nele que pedem permissão para continuar no campo durante vários anos.
“Esses lavradores cultivam a terra, criam animais, cortam madeira e a transportam para as cidades por terra ou por água, conforme for mais conveniente.
“Criam uma quantidade imensa de galinhas por um método muito engenhoso. As galinhas não chocam os ovos; grande número deles é colocado sob um calor brando e uniforme, para que se abram. E, assim que os pintinhos saem da casca e conseguem mover-se, parecem considerar como mães aqueles que os alimentam e os seguem como os outros pintinhos seguem a galinha que os chocou.
“Criam pouquíssimos cavalos, mas os que possuem são vigorosos e são mantidos apenas para exercitar os jovens na arte de montar. Não os empregam em trabalho algum, nem para arar nem para transportar cargas, tarefas nas quais utilizam bois.
“Embora os cavalos sejam mais fortes, verificam que os bois resistem por mais tempo; além disso, não estão sujeitos a tantas doenças, custam menos para manter e dão menos trabalho. E, mesmo quando ficam tão desgastados que já não servem para o labor, ainda fornecem boa carne.
“Não semeiam nenhum cereal além daquele destinado ao pão, pois bebem vinho, sidra ou bebida de pera, e muitas vezes água, por vezes fervida com mel ou alcaçuz, que possuem em abundância.
“Embora saibam exatamente quanto cereal é necessário para cada cidade e para toda a região que lhe pertence, semeiam muito mais e criam mais animais do que o necessário para o próprio consumo, oferecendo aos vizinhos o excedente que não utilizam.
“Quando precisam de alguma coisa que o campo não produz, vão buscá-la na cidade sem levar nada em troca. Os magistrados da cidade cuidam para que tudo lhes seja fornecido, pois geralmente se reúnem ali uma vez por mês, num dia festivo.
“Quando chega a época da colheita, os magistrados do campo comunicam aos das cidades quantas pessoas serão necessárias para ceifar. O número solicitado é enviado, e habitualmente concluem toda a colheita em um só dia.