Das religiões dos utopianos
Das religiões dos utopianos
“Há entre eles diversas formas de religião, não somente nas diferentes regiões da ilha, mas até dentro de cada cidade. Alguns adoram o Sol; outros, a Lua ou um dos planetas. Alguns veneram homens que, em épocas passadas, se distinguiram pela virtude ou pela glória, não apenas como divindades comuns, mas como o deus supremo. A maioria, porém, e sobretudo os mais sábios, não cultua nenhuma dessas figuras, mas adora uma Divindade eterna, invisível, infinita e incompreensível, um Ser muito acima de toda a nossa capacidade de entendimento, que se estende por todo o universo não por sua grandeza corporal, mas por seu poder e virtude. Chamam-no Pai de Todos e reconhecem que o princípio, o crescimento, o progresso, as transformações e o fim de todas as coisas provêm somente dele; e não prestam honras divinas a nenhum outro. Com efeito, embora discordem em outras questões, todos estão de acordo neste ponto: acreditam existir um único Ser Supremo, criador e governador do mundo, a quem chamam, na língua de seu país, Mitra. Divergem apenas nisto: um julga que o deus por ele adorado é esse Ser Supremo; outro pensa que seu ídolo é esse deus. Todos concordam, contudo, num mesmo princípio: seja quem for esse Ser Supremo, ele é também aquela grande essência à cuja glória e majestade todas as honras são atribuídas pelo consenso de todas as nações.
“Pouco a pouco, vão abandonando as diversas superstições existentes entre eles e aproximando-se daquela religião que consideram a melhor e que desfruta de maior aceitação. Não há dúvida de que todas as demais teriam desaparecido há muito tempo, se alguns daqueles que aconselharam o abandono das superstições não tivessem sofrido acidentes infelizes. Como tais desgraças foram consideradas castigos enviados pelo céu, o povo receou que o deus cujo culto estava prestes a ser abandonado houvesse intervindo e se vingado daqueles que desprezavam sua autoridade.
“Depois de ouvirem de nós uma exposição da doutrina, da maneira de viver e dos milagres de Cristo, bem como da admirável constância de tantos mártires, cujo sangue, por eles tão voluntariamente oferecido, foi a principal causa da difusão de sua religião por um imenso número de nações, não se pode imaginar quanto se mostraram inclinados a aceitá-la. Não determinarei se isso procedeu de alguma inspiração secreta de Deus ou se aconteceu porque o cristianismo lhes pareceu tão favorável à comunidade de bens, opinião tão peculiar quanto estimada entre eles, pois perceberam que Cristo e seus discípulos viviam segundo essa regra e que ela ainda era observada em algumas comunidades compostas pelos cristãos mais sinceros. Seja qual for o motivo, é certo que muitos deles abraçaram nossa religião e nela foram iniciados pelo batismo. Como, porém, dois dos nossos companheiros haviam morrido e nenhum dos quatro sobreviventes possuía ordens sacerdotais, só pudemos batizá-los. Assim, para nosso grande pesar, eles não puderam participar dos demais sacramentos, que somente podem ser administrados por sacerdotes. Foram, contudo, instruídos a respeito deles e os desejam com extraordinário fervor. Travaram entre si grandes discussões sobre se uma pessoa por eles escolhida para ser sacerdote não ficaria, pela própria escolha, habilitada a cumprir todas as funções desse ofício, ainda que não possuísse autoridade recebida do papa. Pareciam decididos a escolher alguns para esse ministério, mas ainda não o haviam feito quando os deixei.
“Aqueles que não receberam nossa religião não afastam ninguém dela nem tratam mal quem a abraça. Durante todo o tempo em que permaneci ali, apenas um homem foi punido por causa desse assunto. Recém-batizado, apesar de tudo o que pudemos dizer em contrário, ele passou a discutir publicamente sobre a religião cristã com mais zelo do que prudência e com tamanho ardor que não apenas preferia nosso culto ao deles, mas condenava todos os seus ritos como profanos e denunciava todos os seus seguidores como homens ímpios e sacrílegos, destinados à condenação nas chamas eternas. Depois de pregar muitas vezes dessa maneira, foi preso, julgado e condenado ao banimento, não por ter depreciado a religião deles, mas por incitar o povo à sedição. Com efeito, uma de suas leis mais antigas determina que ninguém deve ser punido por causa de sua religião.
“Quando instituiu pela primeira vez aquele governo, Utopus soube que, antes de sua chegada, os antigos habitantes se haviam envolvido em grandes disputas religiosas. Essas contendas os dividiram de tal modo que lhe foi fácil conquistá-los, pois, em vez de reunirem suas forças contra ele, cada partido religioso combatia isoladamente. Depois de subjugá-los, promulgou uma lei segundo a qual cada pessoa poderia seguir a religião que desejasse e procurar atrair outras para ela pela força dos argumentos e por meios amistosos e modestos, mas sem demonstrar amargura contra os que sustentassem opiniões diferentes. Não deveria empregar nenhuma força além da persuasão, nem misturá-la com insultos ou violência. Quem procedesse de outra maneira seria condenado ao banimento ou à escravidão.
“Utopus promulgou essa lei não apenas para preservar a paz pública, que via sofrer enormemente com as contendas diárias e os ódios irreconciliáveis, mas também porque julgava que o próprio interesse da religião a exigia. Considerava impróprio decidir temerariamente sobre tais questões e parecia admitir a possibilidade de que todas aquelas diferentes formas de religião proviessem de Deus, que poderia inspirar os homens de maneiras diversas e agradar-se dessa variedade. Por isso, considerava indecoroso e insensato que alguém ameaçasse e aterrorizasse outra pessoa para fazê-la acreditar naquilo que não lhe parecia verdadeiro.
“Mesmo supondo que apenas uma religião fosse realmente verdadeira e todas as demais falsas, imaginava que a força natural da verdade acabaria por irromper e resplandecer, contanto que fosse sustentada apenas pela solidez dos argumentos e recebida por um espírito sereno e livre de preconceitos. Se, ao contrário, tais debates fossem conduzidos com violência e tumulto, como os mais perversos são sempre os mais obstinados, a melhor e mais santa religião poderia ser sufocada pela superstição, assim como o trigo é sufocado por espinheiros e ervas daninhas. Deixou, portanto, os homens inteiramente em liberdade, para que cada um pudesse crer segundo as razões que lhe parecessem suficientes.”
“Fez apenas uma lei solene e severa contra aqueles que degenerassem a tal ponto da dignidade da natureza humana que julgassem que nossas almas morrem com nossos corpos, ou que o mundo é governado pelo acaso, sem uma sábia Providência soberana. Todos eles acreditavam antigamente que, depois desta vida, haveria recompensas para os bons e castigos para os maus; e hoje consideram os que pensam de outro modo quase indignos de ser contados entre os homens, pois rebaixam um ser tão nobre quanto a alma e não a estimam mais do que a de um animal. Por isso, estão longe de considerar tais pessoas aptas para a convivência humana ou para serem cidadãos de uma república bem ordenada, pois um homem com esses princípios necessariamente desprezará, sempre que ousar fazê-lo, todas as leis e costumes. Não há dúvida de que aquele que nada teme além da lei e nada receia depois da morte não hesitará em violar todas as leis de seu país, por fraude ou pela força, quando desse modo puder satisfazer seus apetites.
“Jamais elevam os que sustentam essas máximas a honras ou cargos, nem lhes confiam qualquer função pública, mas os desprezam como homens de espírito vil e sórdido. Ainda assim, não os punem, pois adotam como princípio que ninguém pode obrigar a si próprio a acreditar no que bem entende. Tampouco os ameaçam para forçá-los a dissimular seus pensamentos, de modo que ninguém seja tentado a mentir ou ocultar suas opiniões, comportamento que constitui uma espécie de fraude e é abominado pelos utopianos. Tomam, porém, o cuidado de impedir que defendam publicamente essas ideias, sobretudo diante do povo comum. Em particular, permitem e até incentivam que as discutam com os sacerdotes e outros homens respeitáveis, confiantes em que serão curados de tais opiniões insensatas quando a razão lhes for devidamente apresentada.
“Há muitos entre eles que chegam muito longe no extremo oposto, embora essa opinião não seja considerada má nem irracional e, por isso, não seja de modo algum desestimulada. Acreditam que as almas dos animais são imortais, ainda que muito inferiores em dignidade à alma humana e incapazes de felicidade tão elevada. Quase todos estão firmemente persuadidos de que os homens bons serão infinitamente felizes em outra vida. Assim, embora se compadeçam de todos os enfermos, não lamentam a morte de ninguém, salvo quando percebem que a pessoa se mostra relutante em abandonar a vida. Consideram isso um péssimo presságio, como se a alma, consciente de sua culpa e inteiramente desprovida de esperança, temesse deixar o corpo em razão de algum pressentimento secreto da desgraça que se aproxima.
“Julgam que a aparição de semelhante homem diante de Deus não pode ser agradável àquele que o chama, pois ele não parte com alegria, mas se mostra hesitante e contrário, como se fosse arrastado até lá. Ficam horrorizados ao ver alguém morrer dessa maneira; levam o corpo em silêncio e com tristeza e, depois de suplicar a Deus que tenha misericórdia dos erros da alma que partiu, sepultam-no. Quando alguém morre alegremente e cheio de esperança, não o pranteiam, mas cantam hinos enquanto conduzem o corpo e recomendam fervorosamente sua alma a Deus. Toda a sua conduta é, então, mais solene do que triste. Queimam o corpo e erguem uma coluna no lugar da pira, com uma inscrição em honra do falecido.
“Ao regressarem do funeral, conversam sobre sua vida virtuosa e suas ações dignas, mas nada mencionam com maior frequência ou prazer do que sua serenidade na hora da morte. Consideram que essa reverência prestada à memória dos homens bons é, ao mesmo tempo, o maior estímulo para que outros sigam seu exemplo e a forma de culto que lhes é mais agradável. Acreditam que, embora invisíveis para nós em razão da imperfeição da visão humana, eles permanecem entre nós e ouvem as conversas que lhes dizem respeito.
“Julgam incompatível com a felicidade das almas que partiram não terem liberdade para estar onde quiserem. Tampouco as imaginam capazes da ingratidão de não desejarem ver aqueles amigos com quem viveram na terra unidos pelos vínculos mais estreitos de amor e benevolência. Além disso, estão convencidos de que, depois da morte, os homens bons têm esses afetos, assim como todas as demais disposições virtuosas, aumentados em vez de diminuídos. Concluem, portanto, que continuam entre os vivos e observam tudo o que estes dizem ou fazem. Por essa razão, entregam-se a todos os seus empreendimentos com maior confiança no êxito, contando com a proteção dos antepassados; e essa crença na companhia dos mortos também os contém e os impede de conceber maus desígnios.”
“Desprezam e ridicularizam os augúrios e as outras formas vãs e supersticiosas de adivinhação, tão observadas entre as demais nações. Têm, contudo, grande reverência pelos milagres que não podem proceder de nenhum dos poderes da natureza e os consideram efeitos e sinais da ação do Ser Supremo. Dizem que muitos exemplos disso já ocorreram entre eles e que, por vezes, suas orações públicas, elevadas solenemente a Deus em ocasiões graves e perigosas, com a firme confiança de serem ouvidas, receberam resposta de modo milagroso.
“Consideram que contemplar Deus em suas obras e adorá-lo por causa delas é uma forma de culto que lhe é muito agradável.
“Há muitos entre eles que, movidos pela religião, desprezam o saber e não se dedicam a nenhuma espécie de estudo. Tampouco se permitem momentos de descanso, mas permanecem continuamente ocupados, pois acreditam que, pelas boas ações que pratica, o homem assegura para si a felicidade que virá depois da morte. Alguns visitam os enfermos; outros consertam estradas, limpam valas, reparam pontes ou extraem turfa, cascalho e pedra. Outros derrubam e racham árvores e transportam para as cidades, em carroças, madeira, trigo e outros artigos necessários. Não servem apenas ao público, mas também aos particulares, mais ainda do que os próprios escravos.
“Se em algum lugar há um trabalho rude, penoso e repugnante a ser feito, do qual muitos se afastam por causa do esforço e da sujeira, quando não pelo desespero de concluí-lo, eles o tomam alegremente para si e por vontade própria. Assim, ao mesmo tempo que aliviam muito os demais, submetem-se a sofrimentos e passam toda a vida em trabalhos árduos. Ainda assim, não se envaidecem por isso nem diminuem o mérito alheio para aumentar o próprio. Longe de serem desprezados por se curvarem a ocupações tão servis, são tanto mais estimados por toda a nação.
“Há duas classes entre eles. Alguns vivem solteiros e castos e se abstêm de comer qualquer espécie de carne. Desprendendo-se, assim, de todos os prazeres da vida presente, que consideram nocivos, buscam, pelos meios mais duros e dolorosos possíveis, aquela bem-aventurança que esperam alcançar no futuro; e, quanto mais se aproximam dela, mais alegres e diligentes se tornam em seus esforços.
“Outra classe mostra-se menos disposta a se impor tantos trabalhos e, por isso, prefere o casamento ao celibato. Como não renuncia ao prazer conjugal, também considera que gerar filhos é uma dívida para com a natureza humana e para com a pátria. Não evita prazer algum que não prejudique o trabalho e, por essa razão, come carne com tanto maior disposição quanto percebe que assim adquire mais forças para trabalhar. Os utopianos consideram estes os mais sábios, mas estimam os primeiros como os mais santos.
“Com efeito, ririam de qualquer homem que, guiado apenas pelos princípios da razão, preferisse o celibato ao casamento ou uma vida de trabalhos a uma vida tranquila; mas reverenciam e admiram aqueles que fazem isso por motivos religiosos. Em nada são mais cautelosos do que em emitir uma opinião definitiva sobre qualquer forma de religião. Os homens que levam essas vidas severas são chamados, na língua de seu país, Brutheskas, palavra que corresponde ao que entre nós chamamos ordens religiosas.”
“Seus sacerdotes são homens de piedade eminente e, por isso, pouco numerosos, pois há apenas treze em cada cidade, um para cada templo. Quando vão à guerra, sete deles acompanham as forças armadas, e outros sete são escolhidos para ocupar seus lugares durante a ausência. Ao regressarem, retomam suas funções, enquanto os que os substituíram passam a assistir o sumo sacerdote até que surjam vagas por morte, pois há um superior a todos os demais. São escolhidos pelo povo, assim como os outros magistrados, por votos secretos, a fim de evitar facções; e, depois de eleitos, são consagrados pelo colégio dos sacerdotes.
“A eles são confiados o cuidado de todas as coisas sagradas, o culto de Deus e a vigilância sobre os costumes do povo. Constitui desonra para um homem ser chamado por algum deles ou receber uma admoestação em particular, pois isso sempre desperta suspeitas. Sua função limita-se a exortar e advertir o povo, uma vez que o poder de corrigir e punir os maus pertence inteiramente ao príncipe e aos demais magistrados. A medida mais severa tomada por um sacerdote consiste em excluir do culto aqueles que se mostram irremediavelmente perversos. Nenhuma outra punição é mais temida entre eles, pois, além de cobri-los de infâmia, enche-os de terrores secretos, tamanha é a reverência que dedicam à religião. Tampouco seus corpos permanecem por muito tempo livres de castigo, porque, se não convencerem rapidamente os sacerdotes da sinceridade de seu arrependimento, são presos pelo senado e punidos por sua impiedade.
“A educação da juventude cabe aos sacerdotes. Contudo, eles se preocupam menos em instruir os jovens nas letras do que em formar corretamente seu espírito e seus costumes. Empregam todos os meios possíveis para infundir desde muito cedo, nas mentes tenras e flexíveis das crianças, opiniões que sejam boas em si mesmas e úteis à pátria. Quando essas ideias se imprimem profundamente nessa idade, acompanham os homens durante todo o curso da vida e contribuem muito para preservar a paz do governo, que nada prejudica mais do que os vícios nascidos de opiniões errôneas. As esposas dos sacerdotes são as mulheres mais extraordinárias de todo o país. Às vezes, as próprias mulheres são elevadas ao sacerdócio, embora isso raramente aconteça, e somente viúvas idosas sejam escolhidas para essa ordem.
“Nenhum magistrado recebe honras maiores do que as concedidas aos sacerdotes. Se por acaso cometessem algum crime, não seriam chamados a responder por ele; seu castigo ficaria entregue a Deus e à própria consciência. Não consideram lícito pôr as mãos sobre alguém que, por mais perverso que seja, tenha sido consagrado a Deus de maneira especial. Essa prática não lhes causa grande inconveniente, tanto porque possuem pouquíssimos sacerdotes quanto porque estes são escolhidos com extrema cautela. Assim, seria muito incomum que alguém elevado a tão alta dignidade apenas em consideração à sua virtude e por ser tido como homem de bondade singular viesse a degenerar na corrupção e no vício.
“Se algo assim acontecesse, pois o homem é uma criatura mutável, o pequeno número de sacerdotes e o fato de não exercerem outra autoridade além daquela que nasce do respeito a eles dedicado impediriam que a imunidade de que desfrutam causasse consequências graves para o público.
“De fato, são muito poucos, para que um número maior de homens compartilhando a mesma honra não diminuísse a reputação daquela ordem, cuja dignidade eles estimam tão altamente. Também julgam difícil encontrar muitos homens cuja bondade alcance grau tão elevado que corresponda a uma dignidade que exige o exercício de virtudes superiores às comuns. Os sacerdotes não são menos venerados entre as nações vizinhas do que entre os próprios utopianos, como se pode imaginar pelo que, a meu ver, dá origem a essa reverência.”
“Quando os utopianos entram em batalha, os sacerdotes que os acompanham na guerra, revestidos de seus paramentos sagrados, ajoelham-se durante o combate num lugar não muito distante do campo e, erguendo as mãos ao céu, rezam primeiro pela paz e depois pela vitória de seu próprio lado, pedindo em especial que ela seja alcançada sem grande derramamento de sangue de nenhuma das partes. Quando a vitória se inclina para os seus, correm para o meio dos próprios soldados a fim de conter-lhes a fúria; e, se algum inimigo os avista ou lhes dirige um apelo, fica protegido por esse meio. Aqueles que conseguem aproximar-se o bastante para tocar-lhes as vestes têm asseguradas não apenas a vida, mas também as posses.
“É por essa razão que todas as nações vizinhas os consideram tanto e os tratam com tamanha reverência. Muitas vezes, eles foram capazes de preservar seus próprios homens da fúria dos inimigos tanto quanto de salvar os inimigos da cólera dos seus. Já aconteceu de seus exércitos caírem em desordem e serem obrigados a fugir, enquanto os adversários se lançavam sobre eles para matar e saquear; então, interpondo-se entre uns e outros, os sacerdotes separaram-nos e fizeram cessar o derramamento de sangue. Desse modo, por sua mediação, a paz foi concluída em condições muito razoáveis. Não existe entre as nações vizinhas nenhuma tão feroz, cruel ou bárbara que não considere suas pessoas sagradas e invioláveis.
“O primeiro e o último dia de cada mês e de cada ano são festivos. Eles medem os meses pelo curso da Lua e os anos pelo curso do Sol. Os primeiros dias são chamados, na língua deles, Cynemernes, e os últimos, Trapemernes, palavras que em nosso idioma correspondem à festa que inicia ou encerra uma estação.
“Possuem templos magníficos, não apenas de construção nobre, mas também extremamente espaçosos, necessidade tanto maior quanto são poucos. O interior é um tanto escuro, não por erro de arquitetura, mas de propósito, pois seus sacerdotes julgam que o excesso de luz dispersa os pensamentos, enquanto uma iluminação mais moderada recolhe o espírito e eleva a devoção.
“Embora haja entre eles muitas formas diferentes de religião, todas, por mais diversas que sejam, concordam no ponto principal, que é o culto da Essência Divina. Por isso, nada se vê nem se ouve em seus templos com que as diversas crenças não possam concordar. Cada seita realiza em suas casas particulares os ritos que lhe são próprios, e nada há no culto público que contradiga as práticas particulares dessas diferentes seitas.
“Não há em seus templos imagens de Deus, para que cada um possa representá-lo em pensamento conforme a sua religião. Tampouco chamam esse Deus único por outro nome além de Mitra, denominação comum pela qual todos expressam a Essência Divina, seja qual for a concepção que tenham dela. Também não há entre eles oração alguma que não possa ser recitada por todos sem prejuízo das próprias opiniões.
“Reúnem-se nos templos na noite da festa que encerra uma estação e, ainda em jejum, agradecem a Deus pelos bons resultados obtidos durante o ano ou o mês que então termina. No dia seguinte, que inaugura a nova estação, reúnem-se cedo nos templos para pedir o feliz andamento de todos os seus negócios durante o período em que acabam de ingressar.
“Na festa que encerra o período, antes de irem ao templo, as esposas e os filhos se ajoelham diante dos maridos ou dos pais, confessam tudo aquilo em que erraram ou deixaram de cumprir o dever e pedem perdão. Desse modo, todos os pequenos descontentamentos das famílias são removidos, para que possam oferecer suas devoções com o espírito puro e sereno. Consideram grande impiedade iniciar o culto com pensamentos perturbados ou com a consciência de conservar no coração ódio ou ira contra qualquer pessoa. Julgam que se tornariam sujeitos a severos castigos caso ousassem oferecer sacrifícios sem antes purificar o coração e reconciliar todas as suas diferenças.
“Nos templos, os dois sexos ficam separados: os homens dirigem-se ao lado direito e as mulheres, ao esquerdo. Todos os homens e mulheres se colocam diante do chefe ou da chefe da família a que pertencem, de modo que aqueles que os governam em casa possam observar seu comportamento em público. Também os dispõem de tal forma que jovens e velhos fiquem misturados, pois, se os mais novos se sentassem todos juntos, talvez desperdiçassem em frivolidades aquele tempo em que deveriam despertar em si o temor religioso do Ser Supremo, que é o maior e quase o único estímulo à virtude.”
“Não oferecem criatura viva alguma em sacrifício, nem consideram condizente com o Ser Divino, de cuja bondade essas criaturas receberam a vida, que ele se agrade com sua morte ou com a oferta de seu sangue. Queimam incenso e outros aromas agradáveis e mantêm grande número de velas acesas durante o culto, não por imaginarem que semelhantes oferendas possam acrescentar algo à natureza divina, coisa que nem mesmo as orações poderiam fazer, mas porque essa é uma maneira inofensiva e pura de adorar a Deus. Julgam também que os perfumes, as luzes e certas outras cerimônias, por alguma virtude secreta e inexplicável, elevam a alma dos homens e a inflamam de maior energia e alegria durante o culto divino.
“Todo o povo comparece aos templos vestido de branco; os paramentos do sacerdote, porém, são multicoloridos, e tanto o trabalho quanto as cores são admiráveis. Não são feitos de materiais preciosos, pois não têm bordados nem pedras preciosas, mas se compõem das plumas de diversas aves, reunidas com tamanha arte e delicadeza que seu verdadeiro valor supera em muito o dos materiais mais caros. Dizem que a disposição e a colocação dessas plumas representam certos mistérios obscuros, transmitidos entre os sacerdotes por uma tradição secreta, e que elas funcionam como hieróglifos, recordando-lhes as bênçãos recebidas de Deus e seus deveres para com ele e para com o próximo.
“Assim que o sacerdote aparece com esses ornamentos, todos se prostram por terra, com tamanha reverência e em silêncio tão profundo que quem os contempla não pode deixar de se impressionar, como se aquilo fosse efeito da aparição de uma divindade. Depois de permanecerem algum tempo nessa posição, todos se levantam a um sinal do sacerdote e cantam hinos em honra de Deus, enquanto diversos instrumentos musicais são tocados.
“Esses instrumentos têm formas inteiramente diferentes das que usamos entre nós. Muitos deles produzem sons muito mais agradáveis do que os nossos, embora outros também sejam empregados por nós. Há, contudo, um aspecto em que sua música nos supera em muito: toda ela, tanto vocal quanto instrumental, é adaptada para imitar e exprimir as paixões e se ajusta com tanta felicidade a cada ocasião que, seja o tema do hino alegre, destinado a acalmar ou perturbar o espírito, seja composto para exprimir tristeza ou remorso, a música recebe a impressão daquilo que representa, comove e inflama as paixões e grava profundamente os sentimentos no coração dos ouvintes.
“Concluídos os hinos, sacerdotes e povo elevam a Deus orações muito solenes, segundo uma fórmula determinada. Elas são compostas de tal maneira que tudo quanto é pronunciado por toda a assembleia pode também ser aplicado individualmente por cada homem à sua própria condição. Nessas orações, reconhecem Deus como autor e governador do mundo e fonte de todo o bem que recebem, e por isso lhe oferecem suas ações de graças.
“Em particular, bendizem-no por sua bondade ao ordenar que nascessem sob o governo mais feliz do mundo e pertencessem a uma religião que esperam ser a mais verdadeira de todas. Se, porém, estiverem enganados, e se houver um governo melhor ou uma religião mais agradável a Deus, suplicam à sua bondade que lhes permita conhecê-los, prometendo seguir por onde quer que ele os conduza. Mas, se seu governo for o melhor e sua religião a mais verdadeira, pedem que ele os fortaleça em ambos e conduza o mundo inteiro às mesmas regras de vida e às mesmas opiniões a seu respeito, a menos que, na inescrutabilidade de sua vontade, agrade-se da diversidade das religiões.
“Depois, pedem que Deus lhes conceda, ao fim, uma passagem fácil até ele, sem presumirem determinar quão cedo ou quão tarde isso deva acontecer. Contudo, se tal desejo puder ser expresso sem diminuir sua autoridade suprema, preferem ser libertados depressa e recebidos por ele, ainda que por meio da morte mais terrível, a permanecer por muito tempo afastados de sua contemplação, mesmo seguindo o curso de vida mais próspero.
“Terminada essa oração, todos tornam a se prostrar por terra. Pouco depois, levantam-se, voltam para casa a fim de jantar e passam o restante do dia em divertimentos ou exercícios militares.”
“Assim vos descrevi, tão minuciosamente quanto pude, a constituição daquela república, que não apenas considero a melhor do mundo, mas, na verdade, a única que merece propriamente esse nome. Em todos os outros lugares, vê-se claramente que, enquanto os homens falam da república, cada qual busca apenas a própria riqueza; ali, porém, onde ninguém possui propriedade alguma, todos perseguem com zelo o bem público. E não é de admirar que ajam de maneira tão diferente, pois, nas outras repúblicas, cada homem sabe que, por mais próspero que seja o Estado, morrerá de fome se não cuidar de si mesmo; por isso, vê-se obrigado a preferir seus interesses particulares aos públicos. Em Utopia, ao contrário, onde todos têm direito a tudo, sabem que, desde que se cuide de manter cheios os armazéns públicos, nenhum particular poderá sofrer necessidade. Entre eles, não existe distribuição desigual; ninguém é pobre, ninguém passa privações e, embora ninguém possua coisa alguma, todos são ricos. Pois que maior riqueza pode haver do que levar uma vida serena e alegre, livre de inquietações, sem temer a própria necessidade nem ser atormentado pelas intermináveis queixas da esposa? O homem não teme a miséria dos filhos, nem se atormenta pensando em como constituir o dote das filhas, mas tem a certeza de que ele próprio, sua esposa, seus filhos e netos, por tantas gerações quantas possa imaginar, viverão todos com abundância e felicidade. Entre eles, não se cuida menos daqueles que, tendo trabalhado, se tornaram depois incapazes de continuar do que, em outros lugares, daqueles que ainda permanecem empregados.
“Gostaria de ouvir alguém comparar a justiça existente entre eles com a de todas as outras nações, entre as quais, que eu pereça se vejo algo que se pareça com justiça ou equidade. Pois que justiça há nisto: que um nobre, um ourives, um banqueiro ou qualquer outro homem que nada faz, ou que, na melhor das hipóteses, se ocupa de coisas sem utilidade pública, viva em grande luxo e esplendor com aquilo que adquiriu tão mal, enquanto um homem humilde, um carreteiro, um ferreiro ou um lavrador, que trabalha mais arduamente do que os próprios animais e se dedica a labores tão necessários que nenhuma república poderia subsistir um só ano sem eles, mal consegue obter sustento tão miserável e é obrigado a levar vida tão desgraçada que a condição dos animais é muito melhor do que a sua? Os animais não trabalham com tamanha constância, alimentam-se quase tão bem, e com maior prazer, e não sentem ansiedade pelo que está por vir. Esses homens, ao contrário, são esmagados por um trabalho estéril e infrutífero e atormentados pelo temor da necessidade na velhice, pois o que recebem pelo labor diário basta apenas para sustentá-los no presente e se consome tão depressa quanto chega, sem deixar excedente algum que possam reservar para a idade avançada.
“Não é injusto e ingrato um governo que distribui tão prodigamente seus favores àqueles chamados fidalgos, aos ourives e a outros semelhantes, que vivem ociosos ou se mantêm pela adulação e pela invenção das artes do prazer vão, e que, em contrapartida, não cuida dos homens de condição inferior, como lavradores, carvoeiros e ferreiros, sem os quais não poderia subsistir? Depois de o público haver colhido todo o benefício de seus serviços, quando eles se encontram oprimidos pela idade, pela doença e pela necessidade, todos os seus trabalhos e todo o bem que fizeram são esquecidos, e a única recompensa que recebem é serem abandonados para morrer em grande miséria. Os mais ricos procuram frequentemente reduzir o salário dos trabalhadores, não apenas por práticas fraudulentas, mas também pelas leis que conseguem fazer promulgar para esse fim. Assim, embora seja em si mesma a coisa mais injusta conceder recompensas tão pequenas àqueles que tanto merecem do público, revestiram essa crueldade com o nome e a aparência da justiça, fazendo promulgar leis que a regulamentam.
“Portanto, devo dizer, pela misericórdia que espero alcançar, que não posso formar outra ideia de todos os demais governos que vejo ou conheço senão a de que constituem uma conspiração dos ricos, os quais, sob o pretexto de administrar o bem público, perseguem apenas seus interesses particulares e inventam todos os meios e artifícios que conseguem imaginar: primeiro, para conservar sem perigo tudo o que adquiriram de maneira tão injusta; depois, para obrigar os pobres a trabalhar e labutar por eles pelo menor salário possível e oprimi-los tanto quanto lhes aprouver. E, quando conseguem que esses expedientes sejam estabelecidos sob a aparência da autoridade pública, considerada representante de todo o povo, passam a ser chamados leis.
“Ainda assim, esses homens perversos, depois de haverem, por uma cobiça insaciável, dividido entre si aquilo com que todos os demais poderiam ter sido amplamente providos, estão muito distantes da felicidade de que desfrutam os utopianos. Extintos o uso e o desejo do dinheiro, desaparecem com eles muitas inquietações e grandes ocasiões de maldade. Quem não vê que as fraudes, os furtos, os roubos, as disputas, os tumultos, as contendas, as sedições, os assassinatos, as traições e as feitiçarias, males que, na verdade, são mais punidos do que impedidos pela severidade das leis, desapareceriam todos se o dinheiro deixasse de ser estimado pelo mundo? Os medos, as preocupações, os cuidados, os trabalhos e as vigílias dos homens pereceriam no mesmo instante que o valor do dinheiro. A própria pobreza, para cujo alívio o dinheiro parece tão necessário, também desapareceria. Para que se compreenda bem isso, considerai um único exemplo:
“Tomai qualquer ano tão estéril que muitos milhares de pessoas tenham morrido de fome. Se, ao fim desse ano, se fizesse uma inspeção nos celeiros de todos os ricos que acumularam trigo, verificar-se-ia que havia entre eles o bastante para evitar toda aquela destruição de homens que pereceram na miséria; e que, se o trigo lhes tivesse sido distribuído, ninguém teria sofrido os efeitos terríveis daquela escassez. Tão fácil seria suprir todas as necessidades da vida, se aquela bendita coisa chamada dinheiro, que se pretende haver sido inventada para consegui-las, não fosse, na realidade, o único obstáculo que impede sua obtenção.
“Não duvido de que os ricos tenham consciência disso e saibam muito bem quanto é maior felicidade não carecer de nada necessário do que possuir abundância de coisas supérfluas, e ser libertado de tanta miséria do que transbordar de tantas riquezas. Tampouco posso deixar de pensar que o interesse de cada homem, somado à autoridade dos mandamentos de Cristo, que, sendo infinitamente sábio, sabia o que era melhor e, sendo igualmente bom, não deixou de no-lo revelar, teria conduzido o mundo inteiro às leis dos utopianos, se o orgulho, essa praga da natureza humana e fonte de tamanha miséria, não o impedisse.
“Esse vício não mede a felicidade tanto pelas próprias comodidades quanto pelas desgraças alheias. Não se contentaria em ser considerado uma deusa se não restasse ninguém miserável sobre quem pudesse triunfar. O orgulho julga que a própria felicidade brilha mais intensamente quando comparada aos infortúnios dos outros e ostenta suas riquezas para que eles sintam a pobreza com maior amargura. É essa serpente infernal que se insinua no peito dos mortais e os domina de tal modo que dificilmente pode ser arrancada.
“Por isso, alegro-me de que os utopianos tenham encontrado essa forma de governo, que desejaria ver o mundo inteiro sábio o bastante para imitar. Com efeito, estabeleceram um sistema e um fundamento político sob o qual os homens vivem felizes e que parece destinado a durar por muito tempo. Como extirparam do espírito de seu povo todas as sementes da ambição e das facções, não correm perigo algum de sofrer agitações internas, as quais, por si sós, causaram a ruína de muitos Estados que pareciam, sob todos os outros aspectos, muito bem protegidos. Enquanto viverem em paz no interior e forem governados por leis tão boas, a inveja de todos os príncipes vizinhos, que muitas vezes, embora em vão, tentaram destruí-los, jamais será capaz de lançar sua república em agitação ou desordem.”