O Miudinho Histórias da Avózinha · Capítulo 6 de 51
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O Miudinho

Em companhia de vários fidalgos, d. Bias, poderoso príncipe, herdeiro do importante reino de Avalão, foi uma vez à caça embrenhando-se numa imensa e intrincada floresta, que havia às portas da cidade. Não conhecendo o caminho, sua alteza, tendo-se afastado de sua comitiva, perdeu-se no mato, e não houve meio de poder dali sair. Depois de andar léguas e léguas, chegou, extenuado, a uma caverna aberta numa grande montanha. Residia aí uma família de gigantes, composta de pai, mãe e filha. O gigante, que se chamava Ragarrão, estava fazendo lenha para o jantar. Arrancava facilmente com uma só mão, velhas árvores, que nem vinte juntas de bois poderiam sequer balançar. Ragarrão, avistando o príncipe, que lhe pareceu um anãozinho, comparado com ele, por não lhe chegar nem até os joelhos, exclamou: – Oh! que homem tão miudinho! Que queres aqui, anão? O príncipe contou-lhe a sua história; e Ragarrão disse: – Bem, visto isso, ficarás aqui, como meu criado. E ficou chamando d. Bias de Miudinho. Passado algum tempo, a filha do gigante, Clandira, apaixonou-se por d. Bias, e d. Bias por ela. Ragarrão, desconfiando da coisa, chamou o príncipe, e disse-lhe: – Contaram-me que tu te gabavas de ser capaz de edificar, em uma só noite, um palácio para mim e minha filha. Se tal não fizeres, amanhã, pela manhã, matar-te-ei. O príncipe ficou desesperado; e chorava amargamente quando apareceu Clandira. que lhe falou: – Não te desesperes, meu querido príncipe. Amanhã, pela manhã, o palácio estará feito. Assim foi, porque Clandira era encantada. Quando Ragarrão viu aquela obra, não pôs dúvida que houvesse sido feita pela filha, e disse à mulher: – Amanhã matarei Miudinho, antes que ele queira casar com minha filha. Clandira ouviu a conversa. Foi ao quarto de Miudinho, fê-lo levantar-se; e, roubando da estrebaria um cavalo, que, de cada passada, caminhava sete léguas, fugiu com ele.

Pela manhã, Ragarrão, dando por falta de Miudinho e da filha, calçou as botas de sete léguas que haviam pertencido ao célebre Pequeno Polegar, e saiu atrás dos fugitivos. Quando os ia alcançando, Clandira transformou-se num regato; Miudinho, num preto velho; o cavalo, numa árvore; o selim em laranjas, e a espingarda que levavam, num beija-flor. Ragarrão, chegando perto, perguntou ao negro: – Você viu passar aqui um moço e uma moça, montados a cavalo? O africano riu-se estupidamente, e fez um gesto, dando a entender que era surdo. Ao mesmo tempo o beija-flor voou em direção ao gigante, e quis furar-lhe os olhos. Ragarrão, aborrecido, voltou para casa, e narrou à mulher o que lhe havia sucedido. – Ó palerma! bradou ela. Pois não sabes que o negro era Miudinho; o regato, nossa filha; a árvore e as laranjas, o cavalo e o selim; e o beija-flor, a espingarda. Volta de novo, e agarra-os. Nesse entretanto, os fugitivos desencantaram-se, e partiram a todo galope. Ragarrão, porém, saiu-lhes outra vez ao encalço; e ia encontrá-los, quando se transformaram – a moça, numa igreja; Miudinho, em padre; o cavalo e o selim, no sino e no badalo; e a espingarda no missal. O gigante entrou na igreja, e interrogou o cura: – Vossa Reverendíssima não viu passar por aqui um moço e uma moça montados a cavalo? O padre, que estava dizendo missa, não respondeu e começou a rezar. Ao cabo de muito tempo, Ragarrão, aborreceu-se, e retrocedeu. – Oh tolo! disse a mulher, quando ouviu o que de novo lhe sucedera. Volta para trás. O padre é Miudinho; a igreja, Clandira; o sino e o badalo, o cavalo; e o missal, a espingarda. O gigante voltou furioso, fazendo vinte léguas por segundo. Avistou finalmente os fugitivos; mas, quando ia pegá-los, Clandira atirou para trás um punhado de cinza. Formou-se uma neblina muito densa, que Ragarrão não pôde atravessar. Voltou para casa, e desistiu da idéia de os agarrar. O príncipe d. Bias chegou, então ao seu reino, e casou-se com Clandira, que se desencantou, deixando de ser da raça dos gigantes, para vir a ser uma moça lindíssima.

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