A Alma Do Outro Mundo Histórias da Avózinha · Capítulo 51 de 51
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A Alma Do Outro Mundo

Zeneida tinha um namorado com quem queria a todo o transe casar-se. Sendo ele, porém, um homem do povo, conquanto honrado e trabalhador, a família dela, orgulhosa, com fumaças de fidalguia, e rica, não o consentiu, e tratou de lhe arranjar outro casamento. Apresentando-se como pretendente um velho, que enriquecera no comércio, o pai obrigou-a a aceitá-lo por noivo. A moça obedeceu, a seu pesar, não gostando daquele marido que lhe ofereceriam, e não se tendo esquecido do seu apaixonado. Realizadas as bodas, os noivos partiram para uma longa viagem que devia durar três meses.

***

Uma vez estavam jornadeando, e tiveram que passar um rio, largo e fundo, sobre uma estreita ponte de madeira. Zeneida, alegando muito medo, fez o marido passar adiante, e, quando se viram em meio, atirou-o à água. Na ocasião em que estava prestes a se afogar, o velho ricaço, antes de desaparecer submergindo, exclamou: – Deixe estar malvada, que minha alma te há de perseguir!... Desde esse dia, uma voz invisível acompanhou-a sem cessar, noite e dia repetindo todas as palavras que ela pronunciava. A rapariga foi obrigada a se fingir muda, receosa que viessem a descobrir o seu crime.

***

Continuando a viagem sozinha, Zeneida foi ter a um grande país, a cuja capital chegou.

Aí, passeando pelos arredores, foi vista por um príncipe, que dela se apaixonou, dirigindo-lhe declarações de amor, e terminando por pedi-la em casamento. Por meio de gestos mímicos, ela fez compreender que aceitava, mas que não podia falar por ser muda. O príncipe ficou sentidíssimo, porque a lei vedava-o casar com qualquer moça que não fosse absolutamente perfeita. Todavia mandou levá-la para o paço, confiando-a aos cuidados dos mais notáveis médicos do reino, que a examinaram, desenganando-se de curá-la. Quando se achava a sós, Zeneida tentava falar. Mas, à menor palavra, que pronunciasse, a alma do seu marido a repetia, e mesmo conversavam. Um dia soube que o príncipe ia casar-se, vendo que ela não ficava boa. A noiva devia chegar nessa manhã, e todos os criados do palácio tinham ido ver o seu desembarque. Zeneida, ficando sozinha, dirigiu-se à cozinha real, também abandonada, onde se preparava o banquete. Destampou uma panela, e provando o guisado, exclamou: – Oh! como está gostoso! – Oh! como está gostoso, repetiu a alma. – Queres um bocadinho? – Quero. – Então, chega-te aqui, para a ponta de meu dedo! A alma chegou-se, e, assim que a sentiu bem na extremidade do indicador, Zeneida estalou o dedo no fogão. Ouviu-se um grande estrondo, e ela disse com um suspiro de alívio: – Uff! Felizmente estou livre! Falou, cantou, recitou, e não ouviu mais a voz da alma que a importunava. Foi se vestir deslumbrantemente. O cortejo da nova princesa já havia chegado ao palácio. Zeneida dirigiu-se para o salão, onde viu a noiva sentada num trono, junto ao príncipe. Ao avistá-la, a noiva, querendo fazer espírito, perguntou: – Esta é muda mudona? A outra retorquiu: – E esta é a noiva noivona, que já está tão sabichona? Admirado de ouvi-la falar, o príncipe desmanchou o casamento com a primeira, vindo a se casar com Zeneida.

FIM

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