A Princesa Dos Cabelos De Ouro
Quantos séculos correram depois da história que vamos narrar, não sei, nem pessoa alguma poderá sabê-lo, só se sabe que, por esse tempo, existiu o reino das Maravilhas, e nele uma jovem tão linda, que nada neste mundo se podia comparar. Chamava a princesa dos Cabelos de Ouro, porque os seus cabelos eram louros, tão louros, que pareciam feitos de raios de sol, e tão grandes e crespos que chegavam aos pés. O seu nome, porém, era Mirtes. A princesa andava sempre com os cabelos desenastrados; tinha uma coroa de flores na cabeça, e usava vestidos bordados a ouro, diamantes e pérolas, de sorte que, quem a via, ficava logo apaixonado pela sua formosura. Existia em Gabor, país vizinho, um rei ainda moço e solteiro, chamado Frederico, e possuidor de extraordinária riqueza. Sabendo da existência da princesa dos Cabelos de Ouro, conquanto nunca a tivesse visto, ficou apaixonadíssimo, resolvendo enviar um embaixador pedindo-a em casamento. Para isso mandou preparar um carro de ouro, puxando por cavalos brancos, e seguido de mais de cem criados, recomendando que lhe trouxessem a princesa Mirtes, a todo o custo. O embaixador chegou ao reino das Maravilhas e entregou a mensagem. Mas, ou porque nesse dia não estivesse de bom humor, ou aquela comitiva toda não lhe parecesse a ela suficiente para uma princesa tão linda, o fato é que respondeu que agradecia muito ao rei Frederico, tão alta distinção, mas que não pensava ainda em casar. O embaixador saiu, da corte muito triste por não regressar com ela para Gabor, voltando com todos os presentes que levara da parte de seu senhor. Mirtes, que era sensata, sabia que uma moça não deve receber presentes de um rapaz, mas, para o rei não tomar essa recusa, como ofensa, aceitou apenas uma carta de alfinetes. Assim que o embaixador chegou à cidade, onde era esperado impacientemente, todo o mundo se afligiu por não haver ele trazido a princesa dos Cabelos de Ouro; e o rei chorou, sabendo do resultado da embaixada.
***
Ora, havia na corte um pajem de beleza extraordinária, tão lindo que era conhecido pelo apelido de Formoso. Todos o estimavam muito, menos os cortesãos invejosos que se incomodavam com a preferência que lhe dava o rei Frederico encarregando-o dos seus mais importantes negócios. Formoso, estando uma vez a conversar num grupo, onde se falava da volta do embaixador, criticando de sua inépcia em comissão tão melindrosa, sem refletir no que dizia, assim se externou: – Se o rei me tivesse enviado em embaixada à princesa dos Cabelos de Ouro, estou certo que a traria comigo. Não faltaram alcoviteiros que fossem ao rei e dissessem:
12 Soltos.
– Saiba vossa real majestade que o pajem se gaba de ser capaz de trazer a princesa dos Cabelos de Ouro, assim que vossa majestade o mande. Considere bem vossa majestade no seguinte: Formoso, com isso quer ter a pretensão de ser mais belo que o nosso rei, pensando que se a princesa o visse, o amaria tanto que o acompanharia. O rei ficou desesperado ouvindo tão pérfida intriga, e exclamou: – Ah! esse pajem brinca com a minha desgraça! Pois bem: prendam-no na torre grande e que o deixem lá até morrer de fome. Os soldados do rei foram à casa de Formoso, que já nem se lembrava mais do que dissera; arrastaram-no à prisão, e aí fizeram-lhe as maiores atrocidades. O pobre rapaz só tinha um bocado de palha para se deitar; e teria morrido de sede se não fosse pequena uma fonte que corria perto da torre onde estava preso. Um dia em que já não podia mais, exclamou suspirando: – De que se queixa el-rei meu senhor? Nunca fui infiel, nunca o ofendi. Porque estou preso, quase a morrer de fome? Frederico, por acaso passava perto da torre. Quando ouviu a voz daquele que tanto estimara, parou para ouvi-lo, apesar dos vassalos que estavam ao pé do rei e que odiavam Formoso, dizerem: – Não lhe ouvidos, real majestade. Não sabe que Formoso é um tratante? O rei respondeu: – Deixem-me quero ouvi-lo. Tendo escutado aquelas queixas, as lágrima subiram-lhe aos olhos. Abriu a porta da prisão e chamou o seu pajem favorito. Formoso veio muito triste se ajoelhar aos pés do rei dizendo: – Que lhe fiz, senhor, para me tratar tão cruelmente? – Zombaste de mim e do meu infortúnio, dizendo que se eu te houvesse enviado como embaixador à princesa, traze-la-ia com certeza. – É verdade, disse Formoso, eu teria feito a princesa conhecer as qualidades de tão ilustre monarca, e estou persuadido que ela não recusaria aceitar o meu ilustre rei por esposo. Suponho que isto não é caçoar nem falar mal de vossa majestade. Frederico achou que não tivera razão para ser tão cruel. Mandou que lhe tirassem os ferros e levou-o consigo, arrependido da maldade que fizera. Depois de mandar Formoso jantar em sua companhia, chamou-o aos seus aposentos e lhe disse: – Ainda amo apaixonadamente a princesa Cabelos de Ouro, e apesar da recusa que tive, não desanimo de me vir a casar com ela. Queres ser meu embaixador?” – Senhor, respondeu o pajem: Estou pronto para cumprir vossas ordens. Se quiserdes partirei amanhã. – Amanhã, não, disse o rei: quero mandar uma embaixada mais rica do que a primeira. – Perdoe-me vossa majestade, mas não desejo levar comitiva alguma. Desejo apenas que me mande dar um bom cavalo e as cartas que devo entregar à princesa. O rei abraçou-o, vendo a disposição com que estava ele de o servir. No dia seguinte de manhã, Formoso partiu sem pompa nem ruído, pensando no meio que empregaria para fazer Mirtes dar o sim. Levava consigo uma pasta, onde havia tudo quanto era necessário para escrever: papel, pena, tinta, lápis, etc., e quando vinha à sua cabeça um bonito pensamento, escrevia-o no seu livrinho de notas para o não esquecer e poder dizê-lo à princesa. Assim procedendo o fiel pajem, pensava apenas na maneira de ser agradável à princesa para ver se ela consentia em se casar com seu amo.
Uma manhã, passando ele por um prado extensíssimo, apeou-se do cavalo em que ia montado, e sentou-se em uma pedra, à margem do rio que atravessava o campo. Admirava a beleza do lugar quando viu uma piaba pular fora da água e debater-se durante alguns segundos. O pobre peixinho ia morrer quando Formoso o apanhou, atirando-o ao rio. Assim que a piaba sé sentiu outra vez na água, nadou rapidamente para longe da margem, voltando, porém, logo após para dizer: – Formoso, agradeço-te muito o serviço que acabas de me prestar. Se não fosses tu, estaria morta. Talvez algum dia te pague esta dívida. Disse e desapareceu. O pajem ficou admirado de ver um peixe falar, mas não se importou mais com o caso e seguiu viagem. Em outro dia viu um corvo perseguido por uma águia. O corvo voava para um lado e para outro, mas sempre perseguido. Estava prestes a cair no bico do seu inimigo, quando o rapaz que assistia àquela luta apanhou a espingarda e fazendo boa portaria, matou a águia. Vendo-se livre, o corvo fugiu para longe, dizendo: – Formoso, livraste-me de uma morte certa. Se não fosse o teu socorro estaria nas garras do meu perseguidor. Nada valho; sou apenas um pobre corvo, mas talvez algum dia te possa pagar esta dívida, porque não sou ingrato. Mais admirado ficou ainda Formoso, vendo um pássaro falar. Seguiu adiante e já estava muito distante, quando ouviu uma coruja piando desesperadamente. O pajem disse consigo: – Eis aí uma coruja que está piando demais. Com certeza caiu em algum laço que caçadores armaram. Adiantou-se mais e viu uma grande coruja presa numa armadilha colocada no galho de uma árvore. Tirou da bainha uma faca, que trazia e cortou o barbante que a prendia. – Não é necessário, Formoso, fazer discursos para agradecer o bem que me acabas de fazer. Sou uma coruja que para nada presta. Mas, se algum dia precisares de mim, estarei pronta para te servir. Talvez ainda te pague este beneficio que me fizeste. Foram estas as três aventuras mais importantes que aconteceram ao jovem pajem Formoso, no trajeto de Gabor até o palácio do reino das Maravilhas, onde residia Mirtes, a linda princesa dos Cabelos de Ouro.
II
Aventuras Do Pajem Formoso No Reino De Gabor
Formoso tinha pressa de chegar ao reino da princesa dos Cabelos de Ouro para dar conta de sua embaixada. Dois dias depois de sua última aventura, aportava à capital. Pediu que lhe ensinassem onde ficava o palácio, e disseram-lhe: – Siga por esta rua, em frente, quando chegar ao fim, encontrará uma praça muito grande que tem um chafariz de mármore, o qual em vez de jorrar água, jorra leite para os pobres que a princesa manda dar. Em frente a este chafariz fica um palácio muito bonito; é aí que mora a princesa Mirtes. O pajem seguiu pela rua que lhe haviam ensinado, ficando maravilhado ao chegar em frente ao edifício.
Nunca vira nem mesmo imaginara em sonho um palácio tão rico. Era um grande castelo todo de mármore cor-de-rosa, com portas e portais de ouro maciço. Ao redor via-se um gradil de prata lavrada de uma riqueza maravilhosa. Vestiu-se com a roupa mais rica que tinha e dirigiu-se para o palácio levando consigo um cachorrinho que comprara à entrada de um bosque a alguns meninos que queriam atirar o animalzinho no rio. Como dissemos, Formoso era um lindo rapaz. Apresentou-se aos guardas do palácio da princesa, dizendo-lhe o que queria, é os soldados acharam-no tão bonito, simpatizaram tanto com ele que o deixaram passar. Lacaios foram avisar a princesa que o Formoso, o pajem de um rei vizinho, desejava uma audiência. Mirtes ao ouvir o nome do pajem disse: – Formoso é um nome que significa alguma coisa; não foi à toa que lhe deram esse nome. Aposto que é um pajem bonito e que me vai agradar. – É verdade, princesa, disseram as damas de honra; é um rapaz de uma beleza extraordinária. Nós o vimos através das persianas e ficamos tão admiradas de sua beleza, que não saímos da janela enquanto ele falava com os guardas do palácio. Mirtes mandou então buscar o seu vestido mais rico e depois de desatar os seus cabelos louros da cor do sol, foi sentar-se no trono, dizendo: – Quero que esse pajem tão bonito diga que sou verdadeiramente a princesa dos Cabelos de Ouro. As damas estavam com tanta curiosidade de ver Formoso, que não sabiam mais o que faziam. A princesa, depois de pronta, sentou-se no trono e mandou que começassem a tocar vários instrumentos e cantassem baixinho, de modo que não interrompessem a conversa. Conduziram Formoso à sala das audiências e, ele, ao entrar, ficou admirado, tão admirado de ver uma moça tão linda, a ponto de perder a voz. Encorajando-se adiantou-se um pouco, e comunicou à princesa o fim de sua embaixada. – Formoso, respondeu ela, todas as razões que me dás para me casar com teu rei são muito aceitáveis, e eu as aceitaria de bom grado se não fosse o seguinte. Há um mês, indo eu tomar banho no rio, sem saber como, por descuido mesmo, caiu dentro d’água o anel que trazia ao dedo, com um enorme brilhante. A perda desse anel foi para mim maior que a do meu trono. Fiz um juramento de não aceitar proposta alguma de casamento, se o embaixador que para isso viesse ter comigo, não trouxesse o meu anel. Vê, portanto, o que te compete fazer. E não há nada neste mundo que me faça mudar de resolução. Formoso ficou admirado de ouvir tal juramento e retirou-se para casa muito triste, sem saber que fazer. Dizia o pobre rapaz. – Onde irei achar o tal anel, e como posso encontrá-lo no fundo do rio? A princesa inventou esse juramento para me colocar na impossibilidade de reiterar o pedido de sua mão para o rei Frederico. É até uma loucura empreender encontrar uma jóia que caiu no rio. O cachorrinho, que se chamava Peri, lhe disse: – Meu senhor, não desespereis assim de vossa fortuna; tendes sido muito bom, para não serdes feliz. Vamos amanhã cedinho à beira rio. Formoso afagou o animalzinho e nada respondeu.
Sultão, assim que rompeu o dia, tanto gritou, tanto latiu, que acordou o amo e lhe disse: – Meu amo, vesti-vos e vamos até ao rio. O rapaz vestiu-se e caminhou insensivelmente para a margem do rio. Passeava muito triste, pensando como fazer a vontade da princesa, e já planejando o dia de sua partida, quando ouviu uma voz que dizia: – Formoso, Formoso! Olhou para todos os lados e não viu pessoa alguma. Pensou que fora uma ilusão e começou a passear quando ouviu de novo: – Formoso, Formoso! – Quem me chama? disse ele. Imediatamente apareceu a piaba, que lhe disse: – Salvaste-me a vida, Formoso, um dia à beira de um rio, muito longe daqui. Prometi pagar essa dívida. Aqui tens o anel da princesa dos Cabelos de Ouro. O pajem abaixou-se, apanhou da boca do peixe o anel, agradecendo muito. Em vez de voltar para casa, dirigiu-se imediatamente ao palácio da princesa, com Sultão, que estava muito satisfeito de ter conseguido seu senhor ir até à beira do rio. Disseram à princesa que o jovem pajem pedia para lhe falar. – Coitado! O pobre rapaz, disse ela, veio se despedir de mim, pois viu que o que eu quero é impossível, e vai dizer isso ao seu rei. Fizeram entrar o pajem que disse: – Princesa aqui está o seu anel e, portanto cumprida a sua ordem. Quer agora receber meu rei por esposo? Quando Mirtes viu o anel ficou tão admirada que pensava sonhar. – De fato, é preciso que sejas protegido por alguma fada, porque, sozinho, não acharias esta jóia. – Princesa, não conheço nenhuma fada, porém, o desejo que tenho de obedecer é grande. – Já que tens tanta vontade de me servir, faze-me outro serviço, sem o que não me casarei. Há um príncipe vizinho do meu reino que tem vontade de se casar comigo. Fez-me sabedora disso por meio de ameaças temíveis que se eu não me casar com ele desgraçará meu reino. Assim, qualquer dos meus vassalos que entra no seu país é logo morto e comido por ele. Esse príncipe é o gigante Baltasar, tão alto como a mais alta torre. Quando vai à caça, serve-se de canhões como se fossem pistolas. É o meu maior inimigo, por isso se queres que me case com o teu rei, vai matá-lo e traze-me a sua cabeça. Formoso amedrontou-se ouvindo tanta coisa de um gigante e mais ainda quando a princesa comunicou querer que ele trouxesse a cabeça do seu inimigo. Ficou muito tempo pensativo e depois disse: – Pois bem, princesa, eu vou combater com Baltasar. Com certeza morrerei, porém, serei um herói. Arranjou armas e partiu em direção ao palácio do gigante. No caminho, todos que encontrava diziam-lhe que desistisse da empresa. Tanto falaram do gigante, contaram tantos horrores que Formoso já estava desanimado. Nisto disse o cachorrinho: – Meu amo, vá sem susto. Eu mordo-lhe os calcanhares, e quando o gigante se abaixar para ver o que é, meta-lhe a espada.
13 Erro do autor: o cãozinho Peri subitamente se transforma em Sultão.
Enfim, chegou perto do palácio de Baltasar, onde encontrou ossos, caveiras de corpos humanos que tinha sido comidos pelo gigante. Começou a ouvir um estrondo que mais parecia trovoada. – Onde estão os pequenos homens para eu trincar nos dentes? Era o gigante que aparecia mais alto do que as árvores. Formoso respondeu: – Aqui estou para com minha espada quebrar teus dentes. Quando Baltasar ouviu aquilo, olhou para todos os lados e viu o pajem mais baixo que os seus joelhos. Arremessou com fúria uma bengala de ferro muito grossa, que trazia consigo, como se fosse uma varinha, e teria esmagado Formoso, se nessa ocasião não aparecesse um corvo, que, com o bico, lhe furou os dois olhos. Este, ao sentir a dor, e vendo-se cego, começou a bater a torto e a direito sem nada conseguir. Formoso, começou a ferir as pernas do gigante, que cada vez mais se enfurecia. Tanto sangue perdeu o gigante que afinal caiu por terra; e Formoso, aproveitando, cortou-lhe a cabeça para levá-la à princesa. O corvo que fora se empoleirar numa árvore assim que viu o gigante sem cabeça, dirigiu-se ao pajem desta maneira: – Não me esqueci do serviço que me fizeste há tempos, salvando-me das garras de uma águia. Não te lembras, Formoso? Agora estamos pagos. – Eu é que te devo ainda, corvo, disse o pajem. Se não fosses tu, estaria agora reduzido a migalhas. Montou o cavalo levando na garupa a cabeça do gigante. Assim que o pajem entrou na cidade, o povo começou a gritar: – Venham ver o bravo Formoso que matou o gigante Baltasar. A princesa, ouvindo aquela enorme gritaria pensou que vinham lhe comunicar a morte do pajem. Ficou admiradíssima ao saber que trazia a cabeça do gigante. Formoso lhe disse: – Agora princesa, nada lhe resta senão consentir em desposar o meu amo, o poderoso rei Frederico, já que o nosso inimigo está morto. – Consentirei em ser a esposa do teu rei, intrépido e corajoso pajem. Para isso é preciso no entanto que me prestes um último serviço. Desde já previno-te que é o mais arriscado de todos. Queres assim ou preferes dizer ao teu rei que nada conseguistes?” – Princesa, já que comecei irei até ao fim, disse Formoso, falai que estou ao vosso serviço. – Pois, então, ouve:
III
Novas Façanhas Do Pajem Formoso
– Consentirei em me casar com o príncipe Frederico, se me trouxeres um pouco da água da gruta Tenebrosa. É uma gruta que existe perto daqui, com dez léguas de circunferência; sua entrada é guardada por dois dragões que impedem a aproximação de qualquer mortal, deitando fogo pela boca e pelos olhos, de sorte que não pode escapar da morte quem se aventura a ali penetrar. Quando se desce à gruta vê-se a duzentos passos um único buraco, que é ao mesmo tempo entrada e saída. Esse buraco está cheio de serpentes, cobras, lacraias, em suma, toda a espécie de bichos venenosos. No fundo dele é que está a fonte da Beleza e da Saúde. É essa água que eu quero. Quem se lavar com ela se é velho, fica moço; se é doente, são; se é feio, torna-se bonito; e se é bonito
torna-se lindo como os amores. Compreendes, Formoso, que não posso deixar meu reino sem ter essa água. Vai e traze-me um frasco cheio dela. – Princesa, disse o pajem, sois tão bela que esta água vos é inútil. No entretanto, seja feita a vossa vontade: irei buscar o que deseja embora na certeza de não voltar. A princesa dos Cabelos de Ouro, não mudou de resolução e o pajem partiu no dia seguinte em direção à gruta. Sabendo do destino que levava, dizia toda a gente: – É pena que um moço tão bonito, tão amável, vá à fonte dos Dragões. Nem que fossem mil soldados cada qual mais valente, lá ficariam, quanto mais ele, que vai só. Para que anda a princesa a pedir impossíveis? O pajem, entretanto, caminhava sempre. Chegando ao alto de uma montanha, sentou-se para descansar. Deixou o cavalo pastando e Peri começou a seguir alguns pássaros. Formoso sabia que a gruta era por ali perto, e olhava para ver se distinguia alguma coisa. Descobriu afinal um rochedo, negro como tinta de onde saía fumaça. Após dois minutos, viu um dragão que deitava fogo pelas goelas, com o corpo malhado de preto e amarelo, e uma grande cauda que se enroscava numa infinidade de voltas. O cachorrinho latiu, assim que avistou tão medonho bicho, e não sabia onde se esconder, tanto era o medo que tinha. O pajem, estando resolvido a morrer, apanhou a garrafa que a princesa lhe dera para encher. Com a outra mão segurou na espada, dirigiu-se para a entrada da gruta, e disse ao cãozinho: – Tudo está acabado para mim. Nunca poderei apanhar esta água, guardada por dois dragões. Quando eu morrer, meu leal Peri, enche a garrafa com o meu sangue, e leva-o à princesa, para que ela veja quanto custou o seu capricho. Volta em seguida para o reino do nosso senhor e conta-lhe a minha desgraça. Havia apenas acabado de proferir tais palavras, quando ouviu: – Formoso, Formoso! – Quem me chama? indagou. Olhando em torno viu por acaso no buraco de uma velha árvore, uma coruja, que lhe disse: – Há tempos livraste-me de um laço que caçadores me tinham armado. Salvaste-me a vida. Quero te pagar essa dívida. Dá-me a garrafa que irei buscar a água da fonte da Beleza e da Saúde. Formoso deu-lha, e, em menos de um quarto de hora, viu a coruja de volta com o vaso cheio. Montou a cavalo, e apressadamente cavalgou para o palácio da princesa, depois de agradecer muitíssimo ao pássaro aquele favor que lhe fizera, livrando-o da morte. Apresentou à moça a garrafa; e ela agradecendo, deu ordem para que se preparasse tudo para a sua viagem.
***
No entanto a princesa achava Formoso cada vez mais amável, e dizia: – Se quisesses eu te teria feito rei, e não teríamos partido do nosso reino. Ele, porém, respondia: – Nem por todos os reinos da terra, eu seria capaz de trair meu amo, conquanto vos considere mais linda que o sol.
14 O cãozinho de Formoso volta aqui a chamar-se Peri.
Passados alguns dias, a comitiva chegou, enfim à grande cidade do rei Frederico, que sabendo da vinda da princesa dos Cabelos de Ouro, foi ao encontro, levando os mais belos e ricos presentes do mundo. Semanas após, casou-se o rei com a princesa. A moça, entretanto, que amava Formoso do fundo de seu coração, só estava satisfeita quando o via, e vivia sempre a louvá-lo. – Eu não seria tua esposa, Frederico, se não fosse Formoso, que fez coisas impossíveis. Por minha causa, deves ser-lhe grato. Se não fosse a sua intrepidez, eu não possuiria a Água da Beleza por meio da qual nunca envelhecerei, e serei eternamente bela. Os intrigantes, que ouviram a rainha, disseram um dia ao rei: – Vossa real majestade não é ciumento, e tem contudo bastante motivos para o ser: a rainha gosta tanto de Formoso, que não come no dia que não o vê. Elogia-o a todo o momento; diz que lhe deve muitas obrigações; que ele é um herói como se outro qualquer que fosse designado a embaixada não fizesse tanto como ele. – Na verdade, previno-me a tempo. Prendam-no na torre com ferros nos pés e nas mãos, ordenou ele. Os intrigantes e invejosos, que não viam com bons olhos as atenções e honras que os soberanos prestavam a Formoso, apressaram-se em cumprir a ordem real. Encarcerado nos lôbregos e úmidos subterrâneos da torre, Formoso vivia isolado e esquecido, exceto pelo carcereiro que, assim mesmo, lhe atirava por um buraco um pão duro e lhe dava água numa caneca de ferro. Todavia, Peri, o seu fiel cão, não o abandonou. Todos os dias vinha visitá-lo, e contava-lhe as novidades ocorridas no palácio. Quando a princesa soube da desgraça que acontecera ao pajem, lançou-se aos pés do rei, pedindo o perdão do corajoso mancebo. Frederico, porém, enfurecido pela proteção de sua mulher ao pajem. maltratava cada vez mais o pobre moço. Torturado de ciúmes, julgando que não era bonito, a ponto de não saber fazer-se amar pela esposa, o rei resolveu lavar o rosto com a preciosa água da Fonte da Beleza, que se achava numa garrafa sobre a toilette da rainha, onde ela própria a guardava, para melhor a vigiar. Aconteceu, porém, que uma das criadas, indo uma vez espanar o lavatório, desastradamente atirou a garrafa ao chão, quebrando-a, e perdendo assim todo o precioso líquido. Amedrontada, foi aos aposentos do rei Frederico, e apanhou uma garrafa, em tudo semelhante à que quebrara e substituiu-a. A água que essa outra encerrava tinha a particularidade de matar a pessoa que lavasse o rosto com ela. Frederico, que não sabia da troca feita pela criada, lavou-se na água e morreu pouco depois. O cãozinho, assim que soube da morte do rei, chegou perto da rainha e disse-lhe: – Linda rainha, não vos esqueçais do pobre Formoso. A rainha, lembrando-se das penas e maldades que por sua causa o pajem sofrera, correu à torre, e com as suas próprias mãos tirou os ferros que torturavam o pajem. Depois, colocando-lhe uma coroa de ouro sobre a cabeça e o manto real sobre os ombros, exclamou: – Vem, amável Formoso, faço-te rei e tomo-te para meu esposo. Os invejosos e perversos cortesãos que tanto haviam intrigado o ex-pajem, foram condenados à pena última, e subiram à forca.
Um ano depois, findo o luto, a princesa dos Cabelos de Ouro celebrava o seu casamento com o valente Formoso, realizando-se imponentes festejos que duraram sete dias e sete noites, toda uma semana de folguedos, luminárias, bailes públicos, espetáculos gratuitos, e mil festejos diversos.