História De Um Pintinho Histórias da Avózinha · Capítulo 12 de 51
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História De Um Pintinho

Qui-Qui -Ri-Qui-Co-có-ró-có! Num terreno de grande chácara, pertencente a opulento capitalista, viviam em profusão galos, galinhas, pintos, perus, patos, marrecos, galinholas, pavões – todas as espécies de aves domésticas, numa palavra. Vida regalada passavam eles alimentados à farta. A única exceção era um pobre pintinho, que vivia muito triste. Por ser muito pequeno e magro, os companheiros levavam todo o dia a beliscá-lo, de modo que o infeliz pintinho andava sempre ferido e quase sem comer, por quanto as galinhas não lhe deixavam um grãozinho de milho sequer. Vivia o coitadinho muito triste de sua vida, pensando em fugir de perto dos outros, devido aos maus-tratos que constantemente recebia, quando, uma vez, mariscando, viu um papelzinho, e disse: “Bravo! Agora estou com a minha vida ganha! Vou levar esta carta ao rei, e ele com certeza, em paga, há de mandar-me dar milho bastante para eu comer durante a minha vida inteira.” Ficou o pintinho tão satisfeito, pensando em arranjar uma casinha para morar, onde pudesse passar os dias longe de terreiro, livre das beliscadas de seus companheiros, que cantou pela primeira vez: – Qui-Qui-Ri-Qui! Os outros, ouvindo aquela voz desconhecida, olharam e viram-no a cantar. O galo velho, pastor do terreiro, perguntou: – Quem é que canta aqui neste terreiro sem minha ordem? – Sou eu, disse o pintinho, porque achei uma carta, e vou levá-la a el-rei nosso senhor. Disse, e partiu em direção ao palácio real. Depois de muito andar, parou para descansar das fadigas de viagem. Estava beliscando a terra, pensando na fortuna que o rei lhe havia de dar, quando passou uma raposa, que, avistando-o lhe dirigiu a palavra: – Bons-dias, sr. Pinto. Por aqui por estas alturas? Onde vai tão cedo? – Qui-Qui-Ri-Qui, retorquiu o pinto, vou levar esta carta a el-rei nosso senhor. – Se não é abuso, sr. Pinto, pedia-lhe para me levar em sua companhia. Desejava ver o palácio do rei. Dizem que é muito bonito, que tem muitos soldados, e que a gente, só de o ver, se diverte. – Não faço dúvida em levá-la, dona Raposa. Se quiser, entre aqui no meu papinho, que a conduzirei até lá. A raposa fez o que o pintinho mandou, e lá seguiram os dois em demanda do palácio.

Andaram muito; e, depois de já bem cansados, o pintinho encontrou um riacho. Desanimou de seguir viagem, por não poder atravessar a nado um rio tão grande e com tanta correnteza. Encarapitou-se em cima de uma pedra; e, muito triste, pensava num meio de transpor o rio, quando este lhe falou: – Olé, sr. Pinto, porque se aflige tanto? Há meia hora o estou vendo a olhar para mim, com cara tão triste. Diga-me o que sente. Talvez lhe possa ser útil. – É o caso, senhor Rio, que tenho de levar esta carta a el-rei, nosso senhor, mas não posso, porque não tenho coragem de o atravessar a nado. – Não seja essa a dúvida, sr. Pinto. Po-lo-ei na outra margem, sem risco de sua própria vida, mas com a condição de me levar também em sua companhia. – Pois bem, entre no meu papinho, e vamos ver o rei, respondeu ele. O rio entrou, e seguiram viagem os três; o pintinho, a raposa e o rio. Mais adiante encontraram um espinheiro. – Onde vai, sr. Pinto, com tanta pressa? inquiriu este. – Qui-Qui-Ri-Qui! Vou ao palácio do rei levar-lhe esta carta, e não quero me demorar, porque pretendo lá chegar antes da noite. – Quer levar-me em sua companhia? Talvez eu lhe seja útil. O espinheiro entrou também, e seguiu com seus companheiros para o palácio do rei. Chegados aí, o pinto dirigiu-se à guarda do palácio, dizendo que tinha uma carta para entregar a sua majestade real. A sentinela não quis deixá-lo entrar. Ele, porém, tão alto falou, tanto cantou, que o rei, ouvindo aquele barulho todo, chegou à janela, e perguntou porque razão aquele pinto fazia tamanha algazarra. – Saberá vossa real majestade que este pinto quer por força entrar, para entregar uma mensagem, disse o soldado. – Pois deixe-o entrar. O rei recebeu o papelinho do bico do pinto, e vendo que era um simples pedaço de papel sujo, ficou zangado com aquele atrevimento, e mandou que seus vassalos o pusessem no poleiro, em meio das galinhas e galos, que no palácio havia em grande quantidade. Assim que ele entrou, os outros vendo um hóspede novo, começaram a beliscá-lo. Nisso gritou a raposa: – Sr. Pinto, espere que vou defendê-lo. Ensinarei a esses tratantes que não se maltrata assim uma ave tão distinta. Saiu do papo do pintinho, e começou a comer toda a criação que existia no poleiro. Em seguida, saíram ambos a toda a pressa, fugindo do cozinheiro que havia corrido a ver o que havia de extraordinário ali, para que as galinhas tanto gritassem. Quando entrou e não viu ave alguma, alguém foi comunicar ao rei que o pintinho, que na véspera levara a carta, e que fora metido no poleiro, em castigo do seu atrevimento, fugira, tendo matado as galinhas. O rei, exasperado mandou que um batalhão fosse logo em procura do fugitivo, e que o trouxesse vivo ou morto. Já estava o pinto muito longe, e fugia a bom fugir, quando ouviu tropel de animais, retinir de espadas. Compreendeu que era gente mandada pelo rei para prendê-lo. Soltou o rio do seu papinho, que, estendendo-se pelo campo afora, impediu a marcha do batalhão.

Os soldados levaram muito tempo a arranjar canoas que os conduzissem à outra margem. Nesse intervalo, ia o pintinho ganhando terreno. Corria sempre, para se livrar dos seus perseguidores. O batalhão conseguiu, finalmente, transpor o rio, e correu a toda a brida atrás do pinto. Mestre Pinto, vendo-se assim quase alcançado pelos seus perseguidores, deixou sair do papo o espinheiro, que formou expressa, impenetrável cerca de espinhos, impedindo, assim, os soldados de continuarem a empresa. O galináceo, livre, finalmente de tantos perigos voltou para o terreiro, mas teve vergonha e receio de entrar, com medo das pancadas que viria a sofrer dos companheiros. Começou a espreitar por trás, de uma cerca, e não avistando nenhum dos antigos companheiros, atreveu-se a entrar. Ficou maravilhado, vendo o bom trato que a nova geração, assim que saía do poleiro, lhe dava. Fizeram-lhe muitas festas, e ofereceram-lhe casa, comida e o lugar do galo velho pastor de terreiro, que havia morrido dias antes, porque nesse tempo, o pintinho era um frango bonito, preto, com penas douradas nas asas. Assim, ficou ele sendo o galo, dono do terreiro, e viveu longos anos, muito feliz no meio dos seus iguais.

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