Memórias e Notas — VII A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 8 de 23
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Memórias e Notas — VII

Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão constante e claro propósito de abstenção e silencio―eu, publicando as suas Cartas, pareço lançar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, em esse ruido e publicidade a que ele sempre se recusou por uma rígida probidade de espirito. E assim seria―se eu não possuisse

a evidencia de que Fradique incondicionalmente aprovaria uma publicação da sua Correspondencia, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, em uma carta em que lhe contava uma romântica jornada na Bretanha, aludia eu a um livro que me acompanhara e me encantara, a Correspondencia de Xavier Doudan ―um de esses espíritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestígios da sua intensa vida intelectual na sua Correspondencia, coligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.

Fradique, na carta que me volveu, toda ocupada dos Pyrenéos onde gastara o verão, acrescentava em um post-scriptum:―«A Correspondencia de Doudan é realmente muito legível; ainda que através de ela apenas se sente um espirito naturalmente limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de Genebra, e que depois, caído em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas cartas―como leio todas as coleções de Correspondencias, que, não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as de Plinio), constituem um estudo excelente de psychologia e de historia. Eis-aí uma maneira de perpetuar as idéas de um homem que eu afoutamente aprovo―publicar-lhe a corresponcia! Ha desde logo esta imensa vantagem:―que

o valor das idéas (e portanto a escolha das que devem ficar) não é decidido por aquele que as concebeu, mas por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores e luminosos. Além de isso uma Correspondencia revela melhor que uma obra a individualidade, o homem; e isto é inestimável para aqueles que na terra valeram mais pelo caráter do que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o pecúlio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar contemporâneo e ambiente, enriquece sempre o tesouro da documentação histórica. Temos depois que as cartas de um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida, contêm mais ensino que a sua filosofia―que é apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma Filosofia oferece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao imenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa constitue o estudo de uma realidade humana, que, posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, único objectivo acessível

ao esforço intelectual. E finalmente como cartas são palestras escritas (assim afirma não sei que clássico), elas dispensam o revestimento sacramental da tal prosa como não

ha... Mas este ponto precisava ser mais desembrulhado―e eu sinto parar á porta o cavalo em que vou trepar ao pico de Bigorre».

Foi a lembrança de esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade de aquele camarada adorável, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa pudessem aprender e amar em aquela inteligência que eu tão estreitamente amara e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um ano―porque a correspondência de Fradique, que, desde os quietos hábitos a que se acolhera depois de 1880 aquele «andador de continentes», era a mais preferida das suas occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondência de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e de outros poderosos remexedores de idéas.

Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na fórma do papel―esplendidas folhas de Whatman, ebúrneas bastante para que a pena corresse em elas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que em elas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na sua consistência de pergaminho, para que não prevalecesse contra elas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (afirma ele a Carlos Mayer), que cada uma das minhas cartas, em este papel, com envelope e estampilha, me custa 250 reis. Ora supondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas

contêm uma idéa―resulta que cada idéa me fica por cento e vinte e cinco mil reis. Este méro calculo bastará para que o Estado, e a econômica Classe-Média que o dirige, empeçam com ardor a educação―provando, como iniludivelmente prova, que fumar é mais barato que pensar... Contrabalanço pensar e

fumar, porque são, ó Carlos, duas operações idênticas que consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».

Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciais de Fradique―F. M.―minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, oferece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos, separações, como em aquele esforço tão seu de tentear, espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rápida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava le dégel de Fradique, e em que o gesto estreito e sóbrio se lhe desmanchava em um esvoaçar de flamula ao vento.

Fradique nunca datava as suas cartas: e, se elas vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez. Existem assim cartas inumeráveis com esta resumida indicação― Paris, Julho; Lisboa, Fevereiro... Frequentemente,

também, restituia aos meses as alcunhas naturalistas do kalendario republicano― Paris, Floreal; Londres, Nivoze. Quando se dirigia a mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucólica data― Florença, primeiras violetas (o que indica fins de fevereiro); Londres, chegada dos Chrysanthemos (o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa oferece mesmo esta data atroz―Lisboa, primeiros fluxos da verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando, por entre injúrias, fézes de velhos compêndios).

Não é portanto possível dispôr a Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e intima das suas idéas. Em cartas que não são de um

auctor e que não constituem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante comentário que acompanha e ilumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliência revelassem a personalidade ―o conjunto de idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, em estes pesados maços das cartas de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, de entre as que mostram traços de caráter e relances da existência activa; de entre as que deixam

entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de coração; de entre as que, revolvendo noções gerais sobre a literatura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e ainda, pelo interesse especial que as realça, de entre as que se referem a coisas de Portugal, como as suas «impressões de Lisboa», transcriptas com tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.

Inutil seria decerto, em estas laudas fragmentais, procurar a suma do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspondência de Fradique Mendes, como diz finamente Alceste― c'est son genie qui mousse. em ela, com efeito, vemos apenas a espuma radiante e efêmera que fervia e transbordava, enquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ela mostra todavia, em excelente relevo, a imagem de este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.

Além do meu desejo que os contemporâneos venham a amar este espirito que tanto amei―eu obedeço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.

Uma nação só vive porque pensa.

Cogitat ergo

est. A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive de uma vida que mereça ser glorificada na Historia―como rijos músculos em um corpo e ouro farto em uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino de Africa, com guerreiros incontaveis nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas colinas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civilisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Ciências, de Literaturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniais, incessantemente educassem o mundo―nenhuma nação, mesmo em esta idade de ferro e de força, ousaria ocupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos de onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Formas.

Só na verdade o Pensamento e a sua creação suprema, a Sciencia, a Literatura, as Artes, dão grandeza aos Povos, atraem para eles universal reverencia e carinho, e, formando dentro de eles o tesouro de verdades e de belezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo sacrosantos. Que diferença ha, realmente, entre Paris e Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades―onde os palácios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma

pois Paris um fóco crepitante de Civilisação que irresistivelmente fascina a humanidade―e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um rude e formidável celeiro onde se procura a farinha e o grão? Porque Paris, além dos palácios, das instituições e das riquezas de que Chicago também justamente se glória, possui a mais um grupo especial de homens―Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat, Falguieres, Gounod, Massenet―que pela incessante produção do seu cérebro convertem a banal cidade que habitam em um centro de soberano ensino. Se as Origens do Cristianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, os mármores de Falguieres, nos viessem de além dos mares, da nova e monumental Chicago―para Chicago, e não para Paris, se voltariam, como as plantas para o sol, os espíritos e os corações da Terra.

Se uma nação, portanto, só tem superioridade porque tem pensamento, todo aquele que venha revelar na nossa pátria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente para lhe augmentar a única grandeza que a tornará respeitada, a única beleza que a tornará amada;―e é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as suas muralhas erguesse mais um Castelo.

Michelet escrevia um dia, em uma carta, aludindo a Antero de Quental:―«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como o auctor das Odes Modernas, Portugal contínua a ser um grande

paiz vivo...» O mestre da Historia de França com isto significava―que enquanto viver pelo lado da Inteligência, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa pátria não é inteiramente um cadáver que sem escrúpulo se pise e se retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Gênio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda pelo Gênio Politico:―mas a revelação de um espirito como o de Fradique assegura que um paiz vive também pelos lados menos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vivaz invenção, da transcendente ironia, da fantasia, do humorismo e do gosto...

Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes de estes não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez de um mármore. Por isso eu o revelo aos meus concidadãos―como uma consolação e uma esperança.

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