As Cartas — XIII
a clara...
( Trad. )
Paris, novembro.
Meu amor. ―Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei em um fiacre
desolador desde a nossa
Torre de Marfim ) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argila mortal, em ti tão bela, em mim tão rude―e já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio de este papel inerte, esse inefável estar contigo que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e única vida. É que, longe da tua presença,
cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser―e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome―recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição!
Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva―que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permitir que eu bradasse também triunfalmente o meu―« amo, logo existo! » E não foi só a minha realidade que me desvendaste―mas ainda a realidade de todo este Universo, que me envolvia como um ininteligível e cinzento montão de aparências. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrelas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das colinas junto ao calor dos teus hombros―não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando nas coisas a beleza inesperada que tu sobre elas derramas por uma emanação que te é própria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor
recebi a minha Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso afirmar:―«Também fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei―e vi e senti a verdade!...»
E acresce ainda, para meu martírio e gloria, que tu és tão sumptuosamente bela e tão etereamente bela, de uma beleza feita de Céo e de Terra, beleza completa e só tua, que eu já concebera―que nunca julgara realizável. Quantas vezes, ante aquela sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa pudessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus lábios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses seios, que foram o apetite sublime dos Deuses e dos Heróis, um dia palpitasse o Amor e com ele a Bondade; se o seu mármore sofresse, e pelo sofrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ela fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dor―então não estaria colocada em um museu, mas consagrada em um santuário, porque os homens, ao reconhecer em ela a aliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto
a teriam aclamado in eternum
como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus só oferecia a serena magnificência da carne. De todo lhe faltava a chama que arde na alma e a consome. E a creatura incomparável do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te compreendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes de um sonho que deve ser universal―mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quizeste ser descoberta!
Vê, pois, se jamais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha Divindade,―para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero também, acorrentada dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,―e eu sempre diante de ele rojado, recebendo constantemente em alma a tua visitação, abismando-me sem cessar na tua essência, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão inefável, que é para ti um ato de Misericórdia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente―que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rígida mudez ocultasse a tua inteligência. Assim passarias
no mundo como uma aparência incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo―que te queria entrouxada em um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia assim o triunfal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquela que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente―« Pobre creatura! » E só eu saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!
Quanto adoraveis! Nem compreendo que, tendo consciência do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquele Narciso que treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por
ti! A tua beleza, na verdade, atinge a altura de uma virtude:―e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente―ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar, como ela merece, a hospeda divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda em uma felicidade imaterial, seráfica, calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança―e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz, muito brandamente, em um sonho cheio de certeza, saindo da vida á mesma hora e indo continuar no além
o mesmo sonho estático. E outras
vezes desejaria arrebatar-te em uma felicidade veemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chama, de tal sorte que em ela nos destruissemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanás, ainda em toda a refulgencia da beleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas―que eu as apeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de nenhum de estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente de esta eternidade. Ainda ontem me perguntavas:―«No calendário do seu coração, quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto―e que tu me resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti―e se ele me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulchro. Só posso deixar de te amar―quando deixar de ser. E a vida contigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bela! É a vida de um Deus. Melhor talvez:―e se eu fosse esse pagão que tu afirmas que sou, mas um pagão do Lacio,
pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apolo, a cada instante temeria que um de esses Deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não receio:―toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria, oh minha três vezes bendita, Rainha da minha graça.
Não penses que estou compondo cânticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua majestade, seria impotente para exprimir o meu êxtase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E em esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais iletrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a única verdade, melhor que todas as verdades―que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!... Fradique.