As Cartas — VI
a ramalho ortigão
Paris, abril.
Querido Ramalho. ―No sabbado á tarde, na rue Cambon, avisto dentro de um fiacre o nosso Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar: «Ramalho, esta noite! de passagem para a Holanda! ás dez! no café da Paz!»
Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e meia, apesar da minha justa repugnância pela esquina do café da Paz, Centro catita do
Snobismo internacional, lá me instalo, com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba baça e mole do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura. Ás dez salta de um fiacre com ansiedade o vivaz Carmonde, que abandonara á pressa uma sobremesa alegre pour voir ce grand Ortigan! Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho, nem do seu viço. Ás onze aparece Eduardo, esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a três, impaciência a três, bock a três. E assim até que o bronze nos soou o fim do dia.
Em compensação um caso, e profundo. Carmonde, Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já desiludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na mão com respeito, quase com religião, um soberbo
ramo de cravos amarelos. É um homem de além dos mares, da República Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo―que o retem e apresenta «o Sr.. Mendibal». Mendibal aceita um bock: e eu começo a contemplar mudamente aquela facesinha toda em perfil, como recortada em uma lamina de machado, de uma cor acobreada de chapéo côco inglez, onde a bárbita rala, hesitante, denunciando uma virilidade frouxa, parece cotão, um cotão negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda para traz, assustada. O caroço da garganta esganiçada, ao contrario, avança como o esporão de uma galera por entre as pontas quebradas do colarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa perola.
Eu contemplo, e Mendibal fala. Fala arrastadamente, quase dolentemente, com finais que desfalecem, se esvaem em gemido. A voz é toda de desconsolo:―mas, no que diz, revela a mais forte, segura e insolente satisfação de viver. O animal tem tudo: imensas propriedades além do mar, a consideração dos seus fornecedores, uma casa no Parc-Monceau, e «uma esposa adorável». Como deslizou ele a mencionar essa dama que lhe embeleza o lar? Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me queria simplesmente segredar, com uma convicção forte, que «a noute estava esplendida!» Quando voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetara em
monologo a glorificação da «sua senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos, desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se ali uma de essas admirações efervescentes, borbulhantes, que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte, mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse, aquele homem iria deixando escorrer a sua adoração pela mulher, como um guarda-chuva encharcado vai fatalmente pingando água. Compreendi, desde que ele, com um prazer que lhe repuxava mais para fora o caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era francesa. Tinhamos ali portanto um fanatismo de preto pela graça loira de uma parisiensesinha, picante em seducção e finura. Desde que compreendi, sympathisei. E o Argentino farejou em mim esta benevolência critica―porque foi para mim que se voltou, lançando o derradeiro traço, o mais decisivo, sobre as excelências de Madame: «Sim, positivamente, não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que ela cuidava da mamã (da mamã de ele), senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciência, uma delicadeza, uma sujeição... De cahir de joelhos! Então nos últimos dias a mamã andara tão rabugenta!... Madame
Mendibal até emagrecera. De sorte que ele próprio, em esse domingo, lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a mãe de ela, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora viera de a esperar na gare
Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, em uma ânsia de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã! A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda, gastara-a a reunir aquele esplendido ramo de cravos amarelos para lhe trazer, a ele!»
―É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos! Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes carinhos, não ha senão uma francesa. Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos, um só que fosse, um rapaz, não me trocava pelo príncipe de Galles. Eu não sei se o senhor é casado. Perdoe a confiança. Mas se não é, sempre lhe direi, como digo a todo o mundo:―Case com uma francesa, case com uma francesa!...
Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante. Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro Chambray, que V. conhece―o «formoso Chambray». Encontro Chambray no fundo de uma poltrona, derreado e radiante. Pergunto a Chambray
como lhe vai a Vida, que opinião tem em esse dia da Vida. Chambray declara a Vida uma delicia. E, imediatamente, sem se conter, faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho humedecido.
Fora a Versalhes, com tenção de visitar os Fouquiers. No mesmo compartimento com ele ia uma mulher, une grande et belê femme. Corpo soberbo de Diana em um vestido colante do Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitários nas orelhas. Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem blagues, bem alimentado, envolto em consideração, superiormente instalado na vida.
E, no meio de esta respeitabilidade física e social, um geito guloso de molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da língua... Chambray pensa consigo:―«burgueza, trinta anos, sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos de alcova». E apenas o comboio larga, toma o seu «grande ar Chambray», e dardeja á dama um de esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de Cupido. Madame impassível. Mas, momentos, depois, vem de entre as pálpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado, por traz do
Figaro aberto), um de esses raios de luz indagadora que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa da poeira,
Chambray arrisca uma palavra, atrevidamente tímida, sobre o calor de Paris. Ela concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo. Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já se senta na banqueta ao lado de ela, fumando. Em Sevres, mão de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repelida por Madame:―e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um sitio de Viroflay que só ele conhece, recanto bucólico, de incomparável doçura, inacessível ao burguez. Depois, ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a deixa hesitar―arrebata-a moralmente, ou antes fisiologicamente, pela simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a sua pessoa franca e máscula.
Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e Satanás conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes. Chambray conhece á orla do bosque, junto de água, uma tavernola que tem as janelas encaixilhadas em madresilva. Porque não irão lá almoçar uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanás, dando ao rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham lá, com efeito, uma instalação magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o
caso que o almoço suba depressa, porque eles têm de partir pelo trem das duas horas»―tal é o brado sincero de Chambray!
Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma inspiração genial―despe o casaco, abanca em mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que a encanta, a excita, faz surgir a
garota que ha quase sempre no fundo da
matrona. Atira também o chapéo, um chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga os braços, e tem este grito de alma:
― Ah oui, que c'est bon, de se desembêter!
E depois, como dizem os espanhóis― la mar. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;―e outra vez á mesa, diante de um beefsteak
reconfortante, como os acontecimentos pediam com urgência e logica.
Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á estação para tomar o trem de Paris. Ela aperta devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres da janela que mete no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr―e partem. Na estação, ao saltar para um compartimento diferente (por causa da chegada a Paris), Chambray em um aperto de mão, já apressado e frouxo, suplica-lhe que ao menos lhe diga como se chama. Ela murmura― Lucie.
―E é tudo o que sei de ela, conclue Chambray
acendendo o charuto. E sei também que é casada porque na gare
Saint-Lazare, á espera de ela, e acompanhado por um trintanário serio, de casa burgueza, estava o marido... É um
rastacuero cor de chocolate, com uma bárbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado quando ela lhe deu um grande ramo de cravos amarelos que eu lhe mandara arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa. Não ha senão as francesas!
Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que, em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha nos espaços outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim de este domingo de maio, todas estas três excelentes creaturas, com uma simples jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray passou por um imenso prazer e uma imensa vaidade―os dois únicos resultados que ele conta na existência como proventos sólidos, e valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma sensação nova ou diferente, que a desenervou, a desafogou, lhe permitiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu lar, e ser útil aos seus com rediviva aplicação. E o Argentino adquiriu outra inesperada e triunfal certeza de quanto era amado e feliz na sua escolha. Três ditosos, ao fim de esse dia de primavera e de campo. E se de aqui resultar um filho (o filho que o Argentino apetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente gaulezas de Chambray, acresce, ao contentamento
individual dos três, um lucro effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está superiormente organisado.
Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Holanda― Fradique.