As Cartas — III A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 11 de 23
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As Cartas — III

a oliveira martins

Paris, maio.

Querido amigo. ―Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, em aquela manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre o caráter dos Antigos,―e remeto, como documento, a fotografia da múmia de Ramèzes II (que o francês banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sarcófagos reais de Medinet-Abou pelo professor Maspero.

Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto― Ramèzes fotografado?... Mas aí está justificada a mumificação dos cadáveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eternidade!» Ramèzes, como ele acreditava e lhe afirmavam os metafísicos de Tebas, resurge efetivamente «com todos os seus ossos e a pele que era sua» em este ano da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dinastia, mil e quatrocentos anos anterior a Cristo,

representa muito decentemente a

Eternidade e a Vida-Futura. E eis-nos agora podendo contemplar as «próprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou aqueles que outr'ora em dias de triunfos corriam a juncar-lhe o caminho de flôres, trazendo «os seus chinós de festa e a cútis envernizada com óleos de Segabai». Aí o tem V. agora diante de si, em fotografia, com as pálpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humilhantes reflexões não provoca ela sobre a irremediável degeneração do homem! Onde ha aí hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de calmo e incomensurável orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolência, de uma inefável benevolência que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomável força; todo esse esplendor viril que a treva de um hipógeo, durante três mil anos, não conseguiu apagar? Eis-aí verdadeiramente um Dono de homens! Compare esse semblante augusto com o perfil sôrno, oblíquo e bigodoso de um Napoleão III; com o focinho de

bul-dog acorrentado de um Bismarck; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e afável que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que fealdade tacanha de estes rostos de poderosos!

de onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino:―e hoje, nas nossas civilisações, não

ha logar para que uma alma se afirme e se produza na absoluta expansão da sua força. Outr'ora um simples homem, um feixe de músculos sobre um feixe de ossos, podia erguer-se e operar como um elemento da Natureza. Bastava ter o ilimitado querer―para de ele tirar o ilimitado poder. Eis-aí em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: «a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte!» Ele impele a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para leste; ele altera e arraza, como muros em um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para ele nascem todos os fructos da terra, e para ele se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olhos é bendito e prospera, e o logar que não recebe essa luz benéfica jaz como «o torrão que o Nilo não beijou»; os deuses dependem de ele, e Amnon estremece inquieto quando, diante dos pilones do seu templo, Ramèzes faz estalar as três cordas entrançadas do seu latego de guerra! Eis um homem ―e que seguramente póde afirmar no seu canto triunfal:―«Tudo vergou sob a minha força: eu vou e venho com as passadas largas de um leão; o rei dos deuses está á minha direita e também á minha esquerda; quando eu falo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus pés, para eu as colher com mão livre; e para sempre estou erguido sobre o trono do mundo!»

«O mundo», está claro, era aquela região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante ênfase do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou supõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciência da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na fisionomia e dar essa altiva majestade, repassada de risonha serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.

Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do tipo Bismarck. Um desgraçado de esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resistência de um obstaculo. A sua acção no mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tradições, de direitos, de preceitos, de interesses, de princípios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice de um legista obriga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nédios e dez professores guedelhudos, votando dentro de uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro de um saco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossível dispôr de um cidadão como de um astro. Nunca póde avançar de uma arrancada, erecto

e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilância ambiente impõe-lhe a necessidade vil de falar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre»―surripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham por baixo de ele, em torno de ele: e parecendo dirigil-as, pelo muito que braceja e ronca de alto, é na realidade por elas arrastado. Assim um omnipotente do tipo Bismarck vai por vezes em aparência no cimo das grandes coisas;―mas como a boia solta vai no cimo da torrente.

Miserável omnipotência! E o sentimento de esta miséria não póde deixar de influenciar a fisionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo amolgado

que se nota na cara de Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a maior soma de poder contemporâneo―o feitio

amolgado de uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.

Em conclusão:―a múmia de Ramèzes II (única face autentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado impossível uma vida humana vivida na sua máxima liberdade e na sua máxima força, sem outros limites que os do próprio querer―resultou perder-se para sempre, no tipo físico do homem, a suma e perfeita expressão da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bílis cava rugas

por entre os recortes do pelo. As únicas fisionomias nobres são as das feras, genuínos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociais, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas de um código.

Se V. acha todo isto excessivo e fantasista, atribua-o a que jantei ontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionário P., conselheiro de estado, e muchas cosas más.

Más em espanhol; e más

também em portuguez no sentido de péssimas. Esta carta é a reação violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial de um conselheiro? Eu tomo um banho por dentro―um banho lustral, imenso banho de fantasia, onde despejo como perfume idôneo um frasco de Shelley ou de Masset. Amigo certo et nunc et semper ― Fradique Mendes.

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