As Cartas — VIII A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 16 de 23
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As Cartas — VIII

ao Sr.. e. mollinet

Diretor da Revista de Biographia e de Historia

Paris, setembro.

Meu caro Sr.. Mollinet. ―Encontrei ontem á noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse da Revista de Biographia e de Historia, me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais de Portugal. E deseja ainda o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que idéas, ou que acréscimo na civilisacão portuguesa deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como em um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Sr.. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua

força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida por sobre eminencias sociais: Deputado, Diretor geral, Ministro, Governador de bancos, Conselheiro de Estado, Par, Presidente do conselho―Pacheco tudo foi, tudo teve, em este paiz que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento. Mas nunca, em estas situações, por proveito seu ou urgência do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sair, para se afirmar e operar fora, aquele imenso talento que lá dentro o sufocava. Quando os amigos, os partidos, os jornais, as repartições, os corpos colectivos, a massa compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco « que imenso talento! » o convidavam a alargar o seu domínio e a sua fortuna―Pacheco sorria, baixando os olhos sérios por traz dos óculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu imenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre de um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos óculos, bastavam ao paiz que em eles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco, desdenhando a Sebenta, assegurou «que o século XIX era um século de progresso e de luz». O curso

começou logo a presentir e a afirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, comunicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um premio

no fim do ano. A fama de esse talento alastrou então por toda a academia―que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já de óculos, austero nos seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia ali um grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta geração acadêmica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos burgos, a noticia do imenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança:―«Parece que ha agora aí um rapaz de imenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu seio―trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com dispêndios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na estrelada noite de dezembro em que ele, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:―«É o Pacheco, rapaz de imenso talento!» E desde que as Câmaras se constituiram, todos os olhares, os do governo e os da oposição, se começaram a voltar com insistência, quase com ansiedade,

para Pacheco, que, na ponta de uma bancada, conservava a sua atitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o colete de veludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os óculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a «liberdade». O sacerdote imediatamente estacou com deferência; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado susurro, para que, em um silencio condignamente majestoso, se pudesse pela vez primeira produzir o imenso talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os seus tesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu), Pacheco afirmou em um tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo:―«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!» Era pouco, decerto:―mas a camara compreendeu bem que, sob aquele curto resumo, havia um mundo, todo um formidável mundo, de idéas solidas. Não volveu a falar durante meses―mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inacessível se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O único recurso que restou então aos devotos de esse imenso talento (que já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco―como se olha para o céo pela certeza

que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco oferecia uma superfície escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto de ele, Conselheiros, e Directores gerais balbuciavam maravilhados:―«Nem é necessário mais! Basta vêr aquela testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principais comissões parlamentares. Nunca porém acedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente atitude de um imenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar». Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar superior de uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro só devia conhecer as coisas pela rama ».

Este imenso talento não podia deixar de socorrer os conselhos da Corôa. Pacheco, em uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro:―e imediatamente se percebeu que mássica consolidação viera dar ao Poder o imenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos meses de gerencia «absolutamente nada», como insinuaram três ou quatro espíritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro de este regímen, a nação deixou de curtir

inquietações e dúvidas sobre o nosso Império Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos de esse Império estavam confiados a um immeaso talento, ao talento imenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a oposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lápis:―e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a oposição. É que o imenso talento de Pacheco terminara por inspirar, nas câmaras, nas comissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai de esse sobre quem viesse a desabar com cólera aquele talento imenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatável! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a acusar o Sr.. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrução do paiz! Nenhuma incriminação podia ser mais sensível àquele imenso espirito que, na sua frase lapidaria e suculenta, ensinara que «um povo sem o curso dos liceus é um povo incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerário com esta coisa tremenda:―«Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que enquanto, sobre questões de Instrução Publica, s. exc. a, aí em essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui em esta cadeira, faço

luz!»―Eu estava lá, em esse esplendido momento, na galeria. E não me recordo de ter jamais ouvido, em uma assembléa humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de aclamações! Creio que foi de aí a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Tiago.

O imenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalável apoio esse imenso talento dava ás instituições que servia, todas o apeteceram. Pacheco começou a ser um Diretor universal de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se socorriam com submissa reverencia do seu imenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que ele assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu imenso talento chegou a tomar no paiz certas formas de expressão só próprias da religião e do amor. Quando ele foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar piamente:―«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com langor:―«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem aquele imenso talento amargamente irritava, como um

excessivo e desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando patadas ao chão:―«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto já não falava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta.

Não relembrarei a sua incomparável carreira. Basta que o meu caro Sr.. Mollinet percorra os nossos anais. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era imenso! Mas imenso se mostrou o reconhecimento da sua pátria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal―Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco―Portugal não seria o que é entre as nações!

A sua velhice ofereceu um caráter augusto. Perdera o cabelo radicalmente. Todo ele era testa. E mais que nunca revelava o seu imenso talento―mesmo nas minímas coisas. Muito bem me lembro da noite (sendo ele Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrôdes, alguém, com fervor, apeteceu conhecer o que s. exc. a pensava de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo apenas, s. exc. a deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio de admiração, lento e maravilhado. em aquele gesto quantas

coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o de este modo:―«medíocre, meia-altura, o Sr.. Canovas!» Porque, note o meu caro Sr.. Mollinet como aquele talento, sendo tão vasto―era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;―quero dizer, s. exc. a morreu, quase repentinamente, sem sofrimento, no começo de este duro inverno. Ia ser justamente creado marquês de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dor. Jaz no alto de S. João, sob um mausoléu, onde por suggestão do Sr.. conselheiro Acácio (em carta ao Diario de Noticias ) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Gênio.

Meses depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viúva, em Cintra, na casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excelente inteligência e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei, diante da ilustre e afável senhora, a perda irreparável que era sua e da pátria. Mas quando, comovido, aludi ao imenso talento de Pacheco, a viúva de Pacheco ergueu em um brusco espanto, os olhos que conservara baixos―e um fugidio, triste, quase apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da boca pálida... Eterno desacordo dos destinos humanos! Aquela mediana senhora nunca comprehendera aquele imenso talento! Creia-me, meu caro Sr.. Mollinet, seu dedicado― Fradique.

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