As Cartas — XI A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 19 de 23
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As Cartas — XI

a mr. bertrand b.

Engenheiro na Palestina

Paris, abril.

Meu caro Bertrand. ―Muito ironicamente, hoje, em este Domingo de Paschoa em que os céus contentes, se revestiram paschalmente de uma chasula de ouro e de azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar, me chega a tua horrenda

carta, contando que findaste o traçado do

Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem! E triumphas! Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de profeta, o lápis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a «linha» onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros, limpando o grosso suor da façanha, desarrolham as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o Progresso, hirto contra as muralhas de Herodes, todo engonçado, todo aparafusado, também triumpha, esfregando, com estalidos ásperos, as suas rígidas mãos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o compreendo o teu escandaloso traçado, oh filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes de uma faca vil por cima de uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima Jeppo, já heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estação com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de bonet agaloado, se ergue entre esses laranjais, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou a sair do seu sepulchro. de aí a locomotiva, com a sua 1.ª classe forrada de chita, rola descaradamente

pela planície de Saaron, tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar das hordas philistinas, nunca em ela murchavam anemonas e rosas. Corta através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza, derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a espada, ali dorme o seu sono terrestre. Toma água, por um tubo de couro, do Poço Santo de onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arymathea ( Arymathea, quinze minutos de demora! ), a aldeia dos dôces hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tuneis fumarentos, as colinas de Judá, onde choraram os profetas. Rompe por entre ruínas que foram a cidadela e depois a sepultara dos Machabeus. Galga, em uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo Vale melancólico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sórdida de felugem, no Vale de Hennom, no

terminus de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e Calçadas, nem acionista da

Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina, apenas um peregrino saudoso de esses logares adoraveis, considero

que a tua obra de civilisação é uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S. Pedro resuscitando a velha Dorcas; a florescência miraculosa das roseiras de Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra das árvores que os anjos iam adiante semeando,―são fabulas... Mas são fabulas que ha dois mil anos dão encanto, esperança, abrigo consolador, e energia para viver a um terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na tão linda mitologia christã, são por isso veneraveis. em eles viveram, combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob até S. Paulo, todos os sêres excepcionais que hoje povoam o céo. Jehovah só entre esses montes se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os homens. Jesus desceu a esses vales pensativos para renovar o mundo. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E é penoso que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda não se apagaram as pégadas divinas.

Tu sorris, e acusas precisamente a velha Palestina de ser uma incorrigivel fonte de Ilusão. Mas a ilusão, Bertrand amigo, é tão útil como a certeza: e na formação de todo o espirito, para que ele

seja completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de Euclides. Destruir a influencia religiosa e poética da Terra Santa, tanto nos corações simples como nas inteligencias cultas, é um retrocesso na Civilisação, na verdadeira, em aquela de que tu não és obreiro, e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais útil do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Judéa e Galiléa, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu desenvolvimento inevitável de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz, destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De ela se ter conservado, através de estes quatro mil anos, imutavelmente bíblica e

evangélica... Decerto sobrevieram mudanças em Israel; a administração turca tem menos esplendor que a administração romana; dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só resta penhasco e ortiga; as cidades, esboroadas, perderam o seu heroísmo de cidadelas; o vinho é raro; todo o saber se apagou; e não duvido que aqui e além, em Sião, em algum terraço de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de Madame Angot.

Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana

ou nomada, as maneiras, os costumes, os cerimoniais, os trajes, os utensílios,―tudo permanece como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina é penetrar em uma Biblia viva. As tendas de pele de cabra plantadas á sombra dos sicômoros; o pastor apoiado á sua alta lança, seguido do seu rebanho; as mulheres, veladas de amarelo ou branco, cantando, a caminho da fonte, com o seu cântaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta das vilas muradas; os claros terraços cheios de pombas; o escriba que passa, com o seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o grão; o homem de longos cabelos nazarenos que nos saúda com a palavra de paz, e que conversa comnosco por parábolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando, para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as procissões nupciais, e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,―tudo transporta o peregrino á velha Judéa das Escripturas, e de um modo tão presente e real, que a cada momento duvidamos se aquela ligeira e morena mulher, com largas argolas de ouro e um aroma de sândalo, que conduz um cordeiro preso pela ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se, entre os homens sentados além, á sombra da figueira e da vinha, aquele de curta barba frisada, que ergue o braço, não será Jesus ensinando.

Esta sensação, preciosa para o crente, é preciosa para o intelectual, porque o põe em uma comunhão flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se pudesse colher a mesma emoção na Grecia, e que aí encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua sociabilidade, a grande Atenas de Pericles. Infelizmente, essa Atenas incomparável jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em pó, sob a Atenas romana, e a Atenas bizantina, e a Atenas barbara, e a Atenas musulmana, e a Atenas constitucional e sórdida. Por toda a parte o velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruínas. Os próprios montes perderam, ao que parece, a configuração clássica: e ninguém póde achar no Lacio o rio e o fresco Vale que Virgilio habitou e tão virgilianamente cantou. Um único sitio na terra permanecia ainda com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas transformações:―e esse sitio era um pedaço da Judéa, da Samaria e da Galiléa. Se ele for grosseiramente modernisado, nivelado ao protótipo social, querido do século, que é o districto de Liverpool ou o departamento de Marselha, e se assim desaparecer para sempre a oportunidade educadora de vêr uma grande imagem do Passado, que profanação, que devastação bruta e barbara! E por

perder essa fórma sobrevivente das civilisações antigas, o tesouro do nosso saber e da nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido.

Ninguém mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro, meu Bertrand;―e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus, como Jesus subia do Vale de Jerichó para Jerusalem, escarranchado em um burro. As coisas mais uteis, porém, são importunas, e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes não são congeneres. Nada mais necessário na vida do que um restaurante: e todavia ninguém, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se instalasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados,―nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra. Um caminho de ferro é obra louvável entre Paris e Bordeus. Entre Jerichó e Jerusalem basta a égua ligeira que se aluga por dois drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares, á beira de uma água clara, e onde se dorme tão santamente sob a paz radiante das estrelas da Syria.

E são justamente essa tenda, e o camelo grave que carrega os fardos, e a escolta flamejante de beduínos, e os pedaços de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade, e o lírio de Salomão que se colhe nas fendas de uma ruína sagrada, e as frescas paragens junto aos poços bíblicos, e as rememorações do Passado á noite em

torno á fogueira do acampamento, que fazem o encanto da jornada, e atraem o homem de gosto que ama as emoções delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de Jerusalem se partir para a Galiléa em um wagon estridente e cheio de pó, talvez ninguém emprehenda a peregrinação magnifica―a não ser o destro

comis-voyageur que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou panos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolará vazio. Que pura alegria essa para todos os entendimentos cultos―que não sejam acionistas dos Caminhos de Ferro da Palestina!...

Mas sossega, Bertrand, engenheiro e acionista! Os homens, mesmo os que melhor servem o Ideal, nunca resistem ás tentações sensualistas do Progresso. Se de um lado, á sahida de Jaffa, a própria caravana da Rainha de Sabá, com os seus elefantes e onagros, e estandartes, e liras, e os arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos, infindável em poesia e lenda, se oferecesse ao homem do século XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão―e do outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe prometesse a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por hora, com bilhete de ida e volta, esse homem, por mais intelectual, por mais eruditamente artista, agarraria a sua chapeleira e enfiaria sofregamente para o wagon, onde pudesse descalçar as botas, e dormitar de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperará pela própria virtude da sua malignidade. E, dentro de poucos anos, o ocidental positivo que de manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.ª classe, e comprar na estação de Gaza a

Gazeta Liberal do Sinai, e jantar divertidamente em Ramleh no Grand-Hotel dos Machabeus ―irá, á noite, em Jerusalem, através da Via Dolorosa

iluminada pela eletricidade, beber um bock e bater três carambolas no

Casino do Santo Sepulchro!

Será este o teu feito―e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!― Fradique.

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