As Cartas — V A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 13 de 23
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As Cartas — V

a guerra junqueiro

Paris, maio.

Meu caro amigo. ―A sua carta transborda de ilusão poética. Suppôr, como V. candidamente supõe, que trespassando com versos (ainda mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apolo) a Igreja, o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos Martyres, se póde «desentulhar Deus da aluvião sacerdotal», e

elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião―a uma religião que consista apenas em uma Moral apoiada em uma Fé―é ter da Religião, da sua essência e do seu objecto, uma sonhadora idéa de sonhador teimoso em sonhos!

Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual desaparece―porque as Religiões para os homens (com excepção dos raros Metaphysicos, Moralistas e Mysticos) não passa de um conjunto de Ritos através dos quais cada povo procura estabelecer uma comunicação intima com o seu Deus e obter de ele favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia―oh incorrigivel beato do idealismo!

Se V. o quer verificar historicamente, deixe Viana do Castelo, tome um bordão, e suba comigo por essa antiguidade fora até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as áreas de um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das Sete-Aguas, no Vale Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro povoado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha palidamente um fogo lento: e em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabelos presos por um aro

de ouro fino. São padres, meu amigo! São os primeiros capelães da humanidade,―e cada um de eles está, por esta quente alvorada de maio, celebrando um rito da missa Aryana. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro de um almofariz, com pancadas que devem resoar «como tambor de Vitória», as hervas aromáticas que dão o

Sômma; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara; aquele, ao lado, espalmando as mãos ao céo, entoa um cântico austero. Estes homens, meu amigo, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra―Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que póde encher de ruína e dor o coração do Arya, sorvendo a água das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas, tornando Septa-Sindhou mais estéril que o «coração do mau»; ou póde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das nuvens», restituir a água aos rios, a verdura aos prados, a salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia á morada do Arya. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que, sempre propicio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que póde apetecer um povo rural e pastoral.

Não ha aqui Metafísica, nem Ética―nem explicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente

uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya necessita observar para que Indra o atenda―uma vez que, pela experiencia de gerações, se comprovou que Indra só o escutará, só concederá os benefícios rogados, quando em torno ao seu altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho cândido, lhe erguerem cânticos dôces, lhe ofertarem libações, lhe amontoarem dons de fructa, mel e carne de anho. Sem dons, sem libações, sem cânticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e do Intangivel, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Viana do Castelo um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do Sômma, o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desatendido do seu Deus―e será na terra como a creancinha que ninguém nutre e a que ninguém ampara os passos.

Esta Religião primordial é o tipo absoluto e inalterável das Religiões, que todas por instincto repetem―e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Teologia, de Metafísica, de Ética que lhe introduzem os espíritos superiores) terminam por se resumir, com reverencia. Em todos os climas, em todas as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente em um conjunto de praticas, pelas quais o homem simples procura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saúde, da forca, da paz,

da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço próprio, pede esses bens á higiene, á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço.

O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar igualmente, parando (antes de recolhermos a Viana, a beber esse vinho verde de Monção, que V. dithyrambisa) na Antiguidade clássica, em Atenas ou Roma, onde quiser, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco-latinas. Se V. aí perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o próprio Flamen Dialis, qual é o corpo de doutrinas e de conceitos Morais que compõe a Religião,―ele sorrirá, sem o comprehender. E responderá que a Religião consiste em pacés deorum quaerere, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolência dos Deuses. Na idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas, as formulas, que uma longa tradição demonstrou serem as únicas que conseguem fixar a atenção dos Deuses e exercer sobre eles persuasão ou seducção. E em esse ceremonial era indispensável não alterar nem o valor de uma silaba na Prece, nem o valor de um gesto no sacrifício, porque de outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrifício da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia desatento e alheio; e a Religião falseava o seu fim supremo―influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a ser a irreligião: e o Deus, vendo em essa omissão de liturgia uma falta de reverencia, despedia

logo das Alturas os dardos da sua cólera. A obliquidade das pregas na túnica do Sacrificador, um passo lançado á direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gotas da libação, o tamanho das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescriptos imutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua alteração constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra a pátria―porque atraíam sobre ela a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadelas derrubadas, porque o Pontifice deixara perder um grão de cinza da ara―ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso Atenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Consules que cometiam um erro no sacrifício―fosse ele tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ela devia escorregar sobre o hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias de ouro á Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Cômico: mas satyrisando, como na Velhice do Padre Eterno, a Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado, votado ás masmorras do Tuliano.

E se, já farto de estes tempos antigos, V. quiser volver aos nossos filosóficos dias, encontrará nas duas grandes Religiões do ocidente e do oriente, no Catolicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de praticas, sobre

as quais a Teologia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um luxo intelectual, acessório e transitório―flôres pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catolicismo (ninguém mais furiosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a uma curta série de observâncias materiais:―e todavia nunca houve Religião dentro da qual a Inteligência erguesse mais vasta e alta estructura de conceitos theologicos e Morais. Esses conceitos, porém, obra de doutores e de misticos, nunca propriamente sahiram das escólas e dos mosteiros―onde eram preciosa matéria de dialéctica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões para metodicamente governar os juízos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse corpo de conceitos foi decorado pelo povo:―mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto

agradava a Deus, servia a Deus, só por cumprir os dez mandamentos, fora de toda a pratica e de toda a observância ritual. E só decorou mesmo esses

Dez Mandamentos, e as Obras de Misericórdia, e os outros preceitos Morais do Catechismo, pela idéa de que esses versículos, recitados com os lábios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de atrair a atenção, a bemquerença e os favores do Senhor. Para servir a Deus, que é o meio de agradar a Deus, o essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosário, jejuar, comungar, fazer promessas, dar túnicas aos santos, etc. Só por estes ritos,

e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus,―isto é, se alcançam de ele os dons inestimaveis da saúde, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava pela pontual obediência á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Catolicismo o premio e o castigo não são manifestações da

justiça de Deus, mas da graça

de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se obtem pela constante e incansável pratica dos preceitos―a missa, o jejum, a penitencia, a comunhão, o rosário, a novena, a oferta, a promessa. De sorte que no catolicismo do Minhoto como na religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda de Anciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. Não ha aqui Teologia, nem Moral. Ha o ato do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catolicismo, eliminar o Padre, a estola, as galhetas e a água-benta, todo o Rito e toda a Liturgia―o católico imediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visível, e que não lhe oferece os meios simples e tangiveis de comunicar com Deus, de obter de ele os bens transcendentes para a alma e os bens sensíveis para o corpo. O Catolicismo em esse instante terá acabado, milhões de sêres terão perdido o seu Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida―Deus volatilisado.

Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo fenômeno no Budhismo. Dentro de essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais nobre das Morais: mas em todas as raças em que ele penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no mandarinato chinez, ele consistiu sempre para as multidões em ritos, ceremonias, praticas―a mais conhecida das quais é o moinho de rezar. V. nunca lidou com este moinho? É lamentavelmente parecido com o moinho de café: em todos os paizes budhistas V. o verá colocado nas ruas das cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando duas voltas á manivela, possa fazer chocalhar dentro as orações escritas e comunica com o Budha, que por esse ato de cortesia transcendente «lhe ficará grato e lhe augmentará os seus bens».

Nem o Catolicismo, nem o Budhismo vão por este facto em decadência. Ao contrario! Estão no seu estado natural e normal de Religião. Uma Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa―e portanto mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que quanto mais se desembaraça dos seus elementos intelectuais de Teologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repelindo-os para as suas regiões naturais que são a Filosofia, a Ética e a Poesia, tanto mais coloca o povo face a face com o seu Deus, em uma união directa e simples, tão fácil de realizar que, por um mero dobrar

de joelhos, um mero balbuciar de Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo vem ao encontro do homem transitório que está na terra. Ora este encontro é o facto essencialmente divino da Religião. E quanto mais ele se materialisa―mais ela na realidade se divinisa.

V. porém dirá (e de facto o diz): «Tornemos essa comunicação puramente espiritual, e que, despida de toda a exterioridade litúrgica, ela seja apenas como o espirito humano falando ao espirito divino». Mas para isso é necessário que venha o Millenio―em que cada cavador de enxada seja um filósofo, um pensador. E quando esse Millenio detestável chegar, e cada tipoia de praça for governada por um Mallebranche, terá V. ainda de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade feminina, fisiologicamente diferente da que hoje embeleza a terra. Porque enquanto houver uma mulher constituida física, intelectual e moralmente como a que Jehovah com uma tão grande inspiração de artista fez da costela de Adão,―haverá sempre ao lado de ela, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.

Essa comunhão mistica do Homem e de Deus, que V. quer, nunca poderá ser senão o privilegio de uma élite

espiritual, deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os tempos, pagã, budhista, christã, mahometana, selvagem ou culta, a Religião terá sempre por fim, na sua essência,

a suplica dos favores divinos e o afastamento da cólera divina; e, como instrumentação material para realizar estes objectos, o templo, o padre, o altar, os oficios, a vestimenta, a imagem. Pergunte a qualquer mediano homem saído da turba, que não seja um filósofo, ou um moralista, ou um mistico, o que é Religião. O inglez dirá:―«É ir ao serviço ao domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú dirá:―«É fazer

poojah todos os dias e dar o tributo ao

Mahadeo ». O africano dirá:―«É oferecer ao

Mulungú a sua ração de farinha e óleo». O Minhoto dirá:―«É ouvir missa, rezar as contas, jejuar á sexta-feira, comungar pela Paschoa». E todos terão razão, grandemente! Porque o seu objecto, como sêres religiosos, está todo em comunicar com Deus; e esses são os meios de comunicação que os seus respectivos estados de civilisação e as respectivas liturgias que de eles sahiram, lhes fornecem.

Voilà! Para V. está claro, e para outros espíritos de eleição, a Religião é outra coisa―como já era outra coisa em Atenas para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as multidões humanas não são compostas de Socrates e de Senecas―bem felizmente para elas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende governar!

De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de exterioridades rituais. Um presenciei eu, deliciosamente puro e

intimo. Foi nas margens do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vésperas de entrar em guerra com um chefe visinho, comunicar com o seu Deus, com o seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô divinizado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar á sua Divindade, não se podia transmitir através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão graves e confidenciais matérias continha... Que faz Lubenga? Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente, lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera, tudo retivera: e imediatamente arrebata um machado, decepa a cabeça do escravo, e brada tranquilamente―«parte!» A alma do escravo lá foi, como uma carta lacrada e selada, direita para o céo, ao Mulungú. Mas de aí a instantes o chefe bate uma palmada afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao ouvido rápidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a cabeça, e berra:―«Vai!»

Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O segundo escravo era um

post-scriptum.

Esta maneira simples de comunicar com Deus deve regosijar o seu coração. Amigo do dito― Fradique.

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