As Cartas — XV
a bento de s.
Paris, outubro.
Meu caro Bento. ―A tua idéa de fundar um jornal é damninha e execrável. Lançando, e em formato rico, com telegramas e chronicas, uma outra «de essas folhas impressas que aparecem todas as manhãs», como diz tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos ligeiros, Vaidade, Intolerancia―eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de pez, em
que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu réprobo!
Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo afirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito dos juízos ligeiros. Em todos os séculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés, no longo Deserto, sofria com o murmurar variável dos Hebreus; mas nunca, como no nosso século apressado, essa improvisação impudente se tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns filósofos escravisados pelo Método, e de alguns devotos roidos pelo Escrupulo, todos nós hoje nos desabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas que formamos as nossas mássicas conclusões. Para julgar em Politica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, em uma manhã de vento. Para apreciar em Literatura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor de extensos anos fortemente encadeou―apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos―«Este
é uma besta! Aquele é um maroto!» Para proclamar―«É um gênio!» ou «É um santo!» oferecemos uma resistência mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz de um céo de maio nos inclinam á benevolência, também concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a corôa ou a aureola, e aí empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não ha acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquele pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou em um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caráter: por um caráter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei pela Asia, varão douto, colaborador de Revistas, socio de Academias, considerava os franceses todos, desde os senadores até aos varredores, como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava de colarinho e surripiava os charutos. Este inglez ilustra magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.
E quem nos tem enraizado estes hábitos de
desoladora leviandade? O jornal―o jornal, que oferece cada manhã, desde a crônica até aos anúncios, uma massa espumante de juízos ligeiros, improvisados na véspera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excelentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da pena sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate de uma revolução do Estado, da solidez de um Banco, de uma Magica, ou de um descarrilamento, o rabisco da pena, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um alto jornal de Paris, comentando a situação econômica, e politica de Portugal, afirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos das mais ilustres famílias da aristocracia se empregam como carregadores da alfandega, e ao fim de cada mez mandam receber as soldadas pelos seus lacaios!» Que dizes tu aos herdeiros das casas históricas de Portugal, carregando pipas de azeite no cais da alfandega, e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das Mil e Uma Noites, que das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal considerável, rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de Telephones, de Telegraphos,
com uma redacção muito erudita, pinguemente remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Ciências Morais e Sociais, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal, fornecido também de Encyclopedias e de Telephones, vais com pena sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juízos tão sólidos e comprovados como os que aquela bendita gazeta archivou definitivamente acerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...
Este é o primeiro pecado, bem negro. Considera agora outro, mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A reportagem, bem sei, é uma útil abastecedora da Historia. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do feitio de esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos repórters revelar sobre o Sr.. Renan, e os seus moveis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o século XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das Origens do Cristianismo, e, através de ela, comprehender a obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negócios do Mundo ou
nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades!
O jornal é com efeito o fole incansável que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chama. De todos os tempos é ela, a vaidade do homem! Já sobre ela gemeu o gemebundo Salomão, e por ela se perdeu Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado século XIX, o motor ofegante do pensamento e da conducta. em estes estados de civilisação, ruidosos e ocós, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa comentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regímens aristocráticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Príncipe. Nas nossas democracias a ânsia da maioria dos mortais é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as acções―mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os
cem mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessário que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidencia, bem negro, em essa tinta cujo brilho é mais apetecido que o velho nimbo de ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não ande devorada por esta fome mórbida do reclamo. Ela é tão roedora nos sêres de exterioridade e de mundanidade, como em aqueles que só pareciam amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio... Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou moralisando). Agora, em estas semanas de peixe, surdem os frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos púlpitos de Paris. E porquê esses sermões sensacionais, de uma arte profana e teatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de anarchismo evangélico, e tão creadores de escândalo que Paris corre mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á Comedia-Francesa em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S. Domingos, querem setenta linhas nos jornais do Boulevard, e toda a celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquelas duas azas com que os iconographistas do século XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas que o levem á gloríola, lhe espalhem o nome
pelo ar sonoro. E é por essa gloríola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Políticos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagancia estética, e os Sábios alardeiam teorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os gêneros, surge a horda ululante dos charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O próprio mal apetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para aparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apoteose pela abundancia das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto.
em este verão, uma manhã, muito cedo, entrei em uma taberna de Montmartre a comprar fósforos. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pele de lontra, parecia (e era) um Huno, um sobrevivente das hordas de Alarico,―gritava triunfalmente para outro vadio imberbe e livido, a quem arremessara um jornal:
―É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda coluna, logo em cima, onde
diz:― Ontem um infame e ignóbil bandido... Sou eu! O nome todo!
E espalhou lentamente em redor um olhar que triunfava. Eis-aí, como agora se diz tão alambicadamente, um «estado de alma»! Tu, Bento, vais criar de estes estados.
Depois considera o derradeiro pecado, negrissimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miúda e bem cimentada: dentro de esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lema de imparcialidade,
desinteresse, etc., só haverá, segundo Bento e o seu jornal, inteligência, dignidade, saber, energia, civismo; para além de esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficância! É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a Literatura, a Filosofia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vícios. Desde que penetras na batalha, nunca poderás admitir que a Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado de aqueles contra quem descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e verbos―porque então a decência, se não já a consciência, te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que eles são maléficos,
desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabelos, meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só porque apareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem músculo para que ela pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê em ela certa beleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de útil ou de belo nascesse dos seus inimigos―e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás pecadores; e quando entre eles reconhecesses S. Francisco de Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciúncula, taparias a face para que tanta santidade te não amolecesse, e gritarias mais sanhudamente:―«Lá anda aquele malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»
Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal distila intolerancia, como um alambique distila álcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflictos do
mundo―e que as almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergências humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que em ele rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociável, tenderia a uma suprema pacificação―se cada manhã o jornal não avivasse os ódios de Princípios, de Classes, de Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam. O jornal exerce hoje todas as funções malignas do defuncto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pai da Mentira, mas o Pai da Discordia. É ele que por um lado inflama as exigências mais vorazes―e por outro fornece pedra e cal ás resistências mais iníquas. Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens, que o abuso da Civilisação material tem amolecido e desmarcialisado, é murmurar paz! juízo!
e estenderem as mãos uns para os outros, em aquele gesto hereditário que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Fúria antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.
O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira,
até que de elas salte novamente uma chama furiosa―mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetirá, antes que o século finde, as anachronicas e brutas perseguições medievais. Depois é o jornal...
Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho relógio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tibério, muito tremenda e verbosa, verbosa et tremenda epístola; e eu tenho pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornais, com delicia.―Teu Fradique.