As Cartas — X A Correspondência de Fradique Mendes · Capítulo 18 de 23
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As Cartas — X

a madame de jouarre

( Trad. )

Lisboa, junho.

Minha excelente madrinha. ―Eis o que tem «visto e feito», desde maio, na formosissima Lisboa, Ulyssipo pulcherrima, o seu admirável afilhado. Descobri um patrício meu, das Ilhas, e meu parente, que vive ha três anos construindo um Systema de Filosofia no terceiro andar de uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Gerais, o meu parente, que se chama Procopio,

considerando que a mulher não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista―votou a sua vida á Logica e só se interessa e sofre pela Verdade. É um filósofo alegre; conversa sem berrar; tem uma aguardente de muscatel excelente;―e eu trepo com gosto duas ou três vezes por semana á sua oficina de Metafísica a saber se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do Infinito, ele já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros véos, a Causa das Causas. em estas piedosas visitas vou, pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que em esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por dia, fora vinho e roupa lavada. Quase todas as profissões em que se ocupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como em um índice, as idéas e os sentimentos que no nosso Ano da Graça formam o fundo moral da nação.

Esta casa de hospedes oferece encantos. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova, um leito de ferro filosófico e virginal, cassa vistosa nas janelas, rosinhas e aves pela parede,―e é mantido em rígido asseio por uma de estas creadas como só produz Portugal, bela moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a indolencia grave de uma ninfa latina,

varre, esfrega e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarola as louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder; engoma as saias da Madama; reza o terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a casar com ela quando for empregado na Alfandega. (E tudo isto por três mil reis de soldada). Ao almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia― quo te carmine dicam, Rethica? A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparável. E os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da várzea de Colares, e duas donzelas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão necessárias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Inocência.

A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um pescoço muito nédio, e toda ela mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de seda roxa. Parece uma excelente senhora, paciente e maternal, de bom juízo e de boa economia. Sem ser rigorosamente viúva―tem um filho, já

gordo também, que roe as unhas e segue o curso dos liceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura, Quinzinho; sofreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicúpios; e está destinado por D. Paulina á Burocracia que ela considera, e muito justamente, a carreira mais segura e a mais fácil.

―O essencial para um rapaz (afirmava ha dias a apreciável senhora, depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina está tranquila com a carreira do Quinzinho. Pela influencia (que é toda-poderosa em estes Reinos) de um amigo certo, o Sr.. conselheiro Vaz Neto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos últimos exames, já o Sr.. conselheiro Vaz Neto lembrou que, visto ele se mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar imediatamente para a repartição...

―Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v. exc. a vê: era pelo gosto.

Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente

garantida. De resto suponho que D. Paulina junta um pecúlio prudente. Na casa, bem afreguezada, ha agora sete hospedes―e todos fieis, sólidos, gastando, com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais antigo, o mais respeitado (e aquele que eu precisamente já conheço) é o Pinho―o Pinho brasileiro, o comendador Pinho. É ele quem todas as manhãs anuncia a hora do almoço (o relógio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) saindo do seu quarto ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa de água de Vidago, e vindo ocupar á mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento. Ninguém sabe de este Pinho nem a idade, nem a família, nem a terra de província em que nasceu, nem o trabalho que o ocupou no Brasil, nem as origens da sua comenda. Chegou uma tarde de inverno em um paquete da Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois baús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto em esta casa de hospedes, com janela para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pele escura, toda em tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta de ouro pendente de uma fita de seda, que ele, na rua, a cada esquina, desemaranha do cordão de ouro do relógio

para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos teatros. A sua vida tem uma de essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para criar a ordem nos Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de seda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio térreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado em um môcho, junto do balcão, com as mãos cabeludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de sedas mais tufadas ou alguma vitoria de librés mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de água de Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado em um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as árvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «higiênico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o London Brazilian. Aos domingos, á noitinha, com

recato, visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões.

Toda a sua existência é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada o apaixona. O universo, para o comendador Pinho, consta de duas únicas entidades―ele próprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho, graças ás águas de Vidago, conserve apetite e saúde, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta para contentar a porção de Alma e Corpo de que aparentemente se compõe. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo afirmam os Naturalistas) tem de comunicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados de abril, sorri e diz, desdobrando o guardanapo―«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados de outubro, corre os dedos pela barba e murmura―«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho emudece, porque teme controvérsias. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa suculenta, em um prato fundo, que ele possa encher duas vezes―fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O

Diario de Pernambuco, o Diario de Noticias, alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra

essas outras necessidades de inteligência e de imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este ou governe aquele, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos princípios e nas ruas distúrbios nocivos ao pagamento do coupon. E enquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como ele a mim próprio me assegurou)―«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». Mesmo acerca de um ponto tão importante, como é para um comendador o seu mausóleo, Pinho pouco requer:―apenas uma pedra lisa e decente, com o seu nome, e um singelo orai por ele.

Errariamos porém, minha querida madrinha, em supôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. Somente a humanidade, para ele, tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens sérios, verdadeiramente merecedores de esse nobre nome, e dignos de que por eles se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance muito―para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada em um espiritualista, contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuía

muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã que voltei, depois de essa revelação, á casa de hospedes, Pinho, ligeiramente córado, quase comovido, ofereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada em um guardanapo. Ato tocante, que explica aquela alma! Pinho não é um egoísta, um Diogenes de rabôna preta, secamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha em ele toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Somente quem são, para Pinho, os seus genuínos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o ato de beneficio? Na cessão aos outros de aquilo que a ele lhe é inutil. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada―e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como ele, não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o ato de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce dentro de um guardanapo.

É o comendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem de uma nação, não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de hábitos, o seu fácil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em higiênico recato, a sua reticencia, a sua inercia. de um Pinho nunca póde sair idéa ou ato, afirmação

ou negação, que desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, colado sobre o organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando também, Pinho apresenta todos os caracteres de uma excrescência sebácea. Socialmente, Pinho é um lobinho. Ora nada mais inofensivo que um lobinho: e nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos mórbidos, que o parasitam, o sugam, o infecionam e o sobreexcitam, esta inofensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritória. Por isso o Estado, segundo corre, o vai criar barão. E barão de um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque é em ele simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pai de Pinho chamava-se Francisco―Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que em este paiz de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está chovendo, chovendo em fios de água cerrados, contínuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama mole de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias de uma aranha. Estamos em pleno versículo

XVII, do capítulo VII do Genesis. No caso de estas águas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de Jehovah, para com este paiz pecador, são diluvianas; e, não me julgando menos digno da Graça e da Aliança divina do que Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assirios. Se por acaso de aqui a tempos uma pomba branca for bater com as azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando comigo, entre outros animais, o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as águas, Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do coração― Fradique.

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