Capítulo II A Capital · Capítulo 2 de 10
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Capítulo II

Quando o char-à-bancs parou à porta de casa, de volta da estação, Ricardina, toda curiosa, estava no alto da escada. — Então? Não, o padrinho não viera. — Foi um assombro para as senhoras. Tinha ele procurado bem no comboio? — Fui ver até à terceira classe! Nem sinais! — Viu no porão? — perguntou Albuquerquezinho, interessado. — Vi no porão, Sr. Almirante. Ninguém! — Jesus! — disse Sabininha — coitadinho, sucedeu-lhe alguma... — Ai, não me parece bem! Não me parece bem! — exclamou a Ricardina. — Depois de ter prevenido, de obrigar à jornada e à despesa... um despropósito! — Serviu-me de passeio — disse Artur, acendendo o seu castiçal. — E a noite está linda. Galgou os degraus, na impaciência de ler a cartas que a sua mão, no bolso, não deixara de apertar, de acariciar, como se o papel conservasse ainda o calor dos dedos dela. Mas foi, primeiro, ao espelho, olhar-se, como para se certificar de que o seu rosto pálido e fino merecia aquela ternura curiosa de uma senhora, vivendo em Lisboa, na maior elegância. Nunca vira numa mulher um encanto tão cativante. Adorava sobretudo o seu corpo, pequenino, de Venusinha de jaspe, que cabia toda num abraço, podia trazer-se ao colo; todos os seus movimentos tinham uma harmonia rítmica; havia no seu seio uma graça virginal, como que uma provocação sábia, ingênua e coquete. Mas eram os seus olhos negros que acima de tudo o perturbavam; desejaria beijá-los, muito tempo, sentindo entre os lábios as pestanas arqueadas e fortes... Abriu enfim a carta, que tinha no alto um monograma sob uma coroa, leu: « Minha querida Clara »

Clara! Que lindo nome! « Só quatro linhas, que estou com pressa, porque vamos jantar a casa da mamã. Recebi o caixote, e vinha tudo em ordem. O João achou as morcelas deliciosas, muito melhores que as que tem o Coco. Por aqui nada de novo. Vai haver um baile pelos anos da Lulu, e eu vou mandar fazer umas alterações no meu vestido azul que ainda pode aguentar mais esta campanha. Vi ontem o Pedro, que fingiu que me não viu. As saudades não o têm emagrecido. Diz que o depenaram em Cascais. O João queria acrescentar duas linhas a agradecer o caixote, mas está-se a vestir. Os pequenos bem. Adeus tua irmã do C. Eugénia. » Ficou um momento com a carta na mão, triste, sentindo na mamã, no baile da Lulu, no Pedro, um mundo que a isolava, a separava dele. Certo, porém, da sua simpatia revelada pelos seus olhares, quase declarada naquele sobrescrito arremessado — foi à Corcovada, interrogar o Rabecaz, que devia decerto conhecer de nome a senhora Baronesa de Pedralva. Mas quando o viu, de cachimbo na boca, taco ao ombro, veio-lhe um pudor, uma repugnância de falar em Ela, ali, naquele cheiro fétido de petróleo, sob o hálito de genebra do Rabecaz. — Então viu-os? Que tal é a pequena? — exclamou logo o outro, brandindo o giz. — Não vi, não vieram — disse Artur. Quando voltou para casa, fechou-se no quarto e escreveu ao Damião, que então vivia em Lisboa, uma carta em que depois de falar, num lirismo amplo, «da tenebrosa solidão da sua alma», e «das suas aspirações incessantes para um ideal maior», lhe pedia que averiguasse quem era a senhora Baronesa de Pedralva, onde vivia, quais as suas relações, os seus hábitos, — «enfim faça-me sobre ela um estudo à Balzac». E começou a esperar a resposta — pensando em Ela. Era um estado de alma muito novo para ele, muito doce. Sob a influência permanente da excitação poética, o seu coração fora até aí como um

altar vazio, em que tudo está preparado para a adoração, tocheiros, incenso, flores, e a que só falta a santa. A santa viera enfim, bem vestida, aristocrática. E todas as suas ternuras, os seus desejos, as ambições que até ali erravam no vago, como aves inquietas fora dos ninhos, acharam um centro, ordenaram-se, pondo perpetuamente em torno daquela imagem a sussurração de um culto. Idealizava-a, como quem cobre um ídolo de camadas de ouro, tornando-a cada dia mais digna da sua poesia, extraindo das menores coisas certezas da sua perfeição: o seu chapelinho de penas provava a fina originalidade do seu gosto; o livro que levava, quando o char-à-bancs parou à porta de casa, de volta da estação, Ricardina, toda curiosa, estava no alto da escada: Lamartine ou Musset, confirmava o requinte da sua inteligência; a prontidão em se interessar por ele era a garantia da sua constituição amorosa e das impaciências da sua alma ardente. Mas era apenas um sentimento poético e vago, e, como uma água isolada e perdida que é absorvida ou se evapora, aquele grande amor tendia por vezes a sumir-se; retinha-o então ansiosamente, para manter na sua vida mesquinha um interesse ideal, gozar as melancolias felizes daquela ocupação elevada, possuir também a sua Beatriz. Fazia-lhe versos, tinha com ela longos diálogos imaginados, uma perpétua convivência com a sua imagem invocada; e com efeito — como quem acaba por adorar um Deus que inventou — não tardou a ter por aquela senhora, entrevista de tarde, num comboio, um sentimento real, formado de vaidade, de desejo, da esperança de a encontrar em Lisboa e das suas necessidades de insatisfeita ternura. Um soneto que produzira então, trabalhado à maneira de João de Deus com toques de idealismo camoniano, e que era a melhor obra da sua curta carreira poética, dava a explicação da sua alma: A vida, em que os meus anos se passavam, Era como um terreno abandonado Que nunca produziu, nem foi arado, E que as águas do céu nunca molhavam.

Ali jamais abelhas sussurravam, Nem de ave se escutou meigo trinado: Um ermo escuro sob um céu nublado, Onde só duros cardos negrejavam. Mas tu vieste! Assim, por trás dos montes, Se ergue o divino Sol no fresco ar... E eu senti logo — oh claros horizontes! – Tudo em minha alma reflorir, brotar, Aves cantarem, murmurarem fontes, Searas de desejos a ondular! Enfim, veio a resposta do Damião. «Caro Artur. — A não ser que a Biografia da sua dama vestida de xadrez se encontre na Enciclopédia do Século XIX do bom P. Larousse, eu não estou habilitado a dar-lhe essas informações à Balzac, que a sua pobre alma reclama. Acho curioso que, num assunto tão mundano que é quase oficial, se dirija a mim: se a pessoa pertence às classes dirigentes e é bisneta de um dos brutos que tinham outrora o nome de cavaleiros — por que não escreve diretamente ao Monarca? E se é simplesmente uma Madalena ou, como diziam os nosso honrados avós do terceiro estado, uma barregã — porque tudo é possível no mundo faceto das baronesas constitucionais — dirija-se a qualquer das repartições públicas — onde obterá informação abundante e pitoresca. Eu, caro poeta, vivo muito longe da sociedade estabelecida: habito estes quintos andares das cidades modernas, que são para a Democracia o que foram as catacumbas para o Cristianismo... Tomei devida nota dos seus desesperos românticos. Acho-os patuscos — ainda que inteiramente adequados à tradição lamartiniana. Console-se fazendo um volumezinho de versos — já que as circunvoluções do seu cérebro o levam fatalmente ao verso — não sobre as estrelas e os lírios — deve deixar essas parcelas de substância aos astrônomos e aos jardineiros — mas sobre o Homem, que é a verdadeira matéria poética moderna. E sobretudo venha para cá. A capital é, no fim de tudo, o único ponto vivo desta fétida lesma morta que se espapa à beira do velho Atlântico, sob o nome

desacreditado de Portugal. Venha para cá — e terá uma chance de encontrar, amar, cantar a sua senhora vestida de xadrez, já que um resto do velho espírito teológico quer que todo o Tasso tenha a sua Leonor, e todo o Dante a sua Beatriz: sem que isto seja fazer-lhe a injúria de o comparar ao Tasso, esse pobre rimador em oitavas dos decretos do Concílio de Trento, nem ao Dante, esse sorumbático panfletário gibelino. Se vir a besta imunda e felpuda, que tem na terra o nome jocoso de Teodósio, advirta-o com severidade, de que me levou, entre os livros dele, o meu Darwin, «Origem das Espécies». Repugna-me saber o grande naturalista entre os bárbaros — servindo talvez de peanha, sobre uma cômoda de cerejeira, ao busto de Rodrigo da Fonseca Magalhães, ou outro qualquer dos idiotas clássicos do Constitucionalismo. Vale, como dizia esse odioso burguês, Cícero. Damião». Esta carta caiu na sua exaltação como álcool numa fogueira! Todo o seu antigo desejo de Lisboa flamejou. Via-se, num relance, lá no quinto andar do Damião, «essa catacumba moderna», palpitando todo nos interesses da Arte e da Democracia, compondo em silêncio um poema, e saindo, alta noite, para a encontrar, a ela, num boudoir de rendas e sedas! E foi então, durante semanas, um suspirar quase histérico por Lisboa — agora para ele duplamente maravilhosa: um paraíso da inteligência e um paraíso da paixão — um anelo permanente que o tomava sob as formas mais pueris — a ponto de olhar com saudade as nuvens que o vento ia levando para o Sul, para os lados de Lisboa, e de invejar o recoveiro que todos os quinze dias vinha receber ordens à farmácia e partia, choutando na sua égua, a tomar o comboio em Ovar. Às vezes, sentia-se ridículo, ria; mas o seu desejo não tardava a pungi-lo de novo com uma persistência mórbida. Lisboa! — Concebia a vida que a enchia, violenta e grandiosa, como o mundo da Comédia Humana, de Balzac. Era, de resto, pelos romances franceses, que reconstruía a sociedade de Lisboa e não tinha uma ideia menos desproporcionada da sua edificação, imaginando-a de ruas enormes, sonora de trens e flamejante de gás, assentando a sua pompa movimentada sobre a larga baía azul, onde esquadras manobravam e salvavam as torres de outros séculos! Mas era sobretudo a existência nocturna de Lisboa que o fascinava: imaginava sentir, nos cafés, entre o ouro dos espelhos, balançar-se a sussurração das conversas literárias;

via, à porta dos teatros, apinhar-se uma multidão sôfrega de arte, e em redor, nas praças todas alumiadas, grupos discutirem com subtileza a estética dos poetas e a política dos oradores. Depois, parecia-lhe avistar janelas embaciadas de restaurantes, onde artistas e cortesãs celebravam orgias, poéticas como galas; mais longe, distinguia os balcões dos salões aristocráticos, de onde saía uma claridade discreta tamisada pela seda das bambinelas: aí, idealizava a vida de um mundo superior, em que as faces são pálidas da emoção contida nos sentimentos romanescos; aí, diplomatas, cujos sorrisos tinham a frieza da razão de Estado, trocavam ditos à Talleyrand; aí, sentadas em móveis de veludo e cetim, ideais figuras de beleza patrícia respiravam ramos de violetas, com olhares onde brilhava, sob um fluido, o ardor dos adultérios; aí, vivia Ela, a senhora do vestido de xadrez... E em redor, no mistério da vasta cidade, imaginava a existência das personalidades atormentadas do romance ou do teatro — os Rastignacs, pungidos de ambição, os Vautrins, fazendo temerosamente a caça aos milhões, os Camors, cépticos, os Giboyers, sublimes e os visionários, que, num quinto andar, planeiam a destruição da sociedade. Mas nesta fantasmagoria, entusiasmava-o sobretudo o mundo dos jornalistas: era um ruído incessante de máquinas de impressão, salas de redacção resplandecentes de gás, penas que correm sobre o papel, derrubando ministérios ou edificando glórias, e ditos de folhetinistas, que têm a profundidade de uma filosofia, na precisão de um aforismo!... Via-se lá, revendo provas, lendo o seu nome em cada jornal, fazendo civilização! Às vezes, oprimido por estas imaginações, ia ao acaso, de noite, pela vila, e aquelas ruas apagadas, onde só se sentia um chorar triste de criança nas casas térreas ou um som retardado de tamancos, mandava-lhe mais vivamente o pensamento para Lisboa, onde, àquela hora, os estribos dos trens se desdobravam no peristilo iluminado dos teatros, e nas salas as rabecas davam as primeiras arcadas... Imaginava-se então numa soirée, já ilustre. Falava baixo, num vão de boudoir acetinado, à senhora do vestido de xadrez, que sorria, fanatizada pela doçura dos seus conceitos; pediam-lhe depois para recitar; ele erguia-se devagar, pensativo; em redor murmurava-se: «é o Corvelo, é um gênio!» E Levado na ilusão, declamava alto, na rua:

Enquanto dormes no divan de seda, Olho-te o mimo desse lindo rosto... Assim as aves dormem na alameda, Dormem as águas ao luar de Agosto... A sua voz fazia estacar, sobressaltado, algum burguês que vinha da Assembleia, embrulhado no seu xaile-manta... E Artur recolhia, triste e fatigado como depois de um excesso, desejando entrar poeticamente num convento, ou viver em Lisboa com um emprego de um conto de réis! Encontrava em casa o dormente serão em torno da mesa. — De onde vens, menino? Vens da cavaqueirinha do Vasco? — Não! — exclamava ele, irritado de que lhe suspeitassem qualquer interesse pelas palestras da botica. Toda a face de Ricardina, então, com o seu longo nariz sobre a mesa, se cobria de severidade carrancuda: sabia que o menino frequentava a Corcovada, e a convivência do Rabecaz, o bilhar, o tabaco, pareciam-lhe hábitos funestos que lhe trariam a ruína da saúde e a desconsideração da vila. — Nem sei que gosto se possa ter em semelhantes noitadas! — rosnava. — Chut! Chut! — exclamava Albuquerquezinho, todo aceso com a sua paciência. Então, em torno da mesa, fazia-se uma mudez amiga. — Cá está! — exclamava ele em triunfo. — É a Imperial. Marque lá, Sabininha. Sabina tomava o caderno das paciências felizes, fazia um traço a lápis. — Quantas imperiais, este mês, menina? — Catorze, Albuquerquezinho. — Bom mês... Ela folheava o caderno, muito interessada: — O mês passado foi melhor. Vinte e quatro... Mas faltam nove dias para acabar o mês, é preciso contar com isso.

— Chut! — fazia Albuquerque, que recomeçava a dispor o seu quadrilátero de cartas. Artur, muito infeliz, subia para o quarto e ali ficava, desesperando-se contra aquela existência., lançando a sua alma para Lisboa, para Ela — até que sentia no corredor a voz de comando de Albuquerquezinho, lançar, ao entrar para bordo, o à sentinela. Enfim, uma noite, foi à Corcovada declarar ao Rabecaz que estava decidido a partir para Lisboa. Iria em terceira classe e o Damião decerto lá lhe arranjaria um emprego na redacção de um jornal ou no serviço de um editor. Em último caso, com a sua prática, podia colocar-se numa farmácia. — Despautério! exclamou com ímpeto o Rabecaz. Se ele queria ir para Lisboa era para gozar, não é verdade? Portanto era necessário ter cheta. Para ir viver num quinto andar, jantar por quatro vinténs na taverna do Fumaça ou ir para outra botica — então, mais valia ficar em Oliveira, com a vaca e o cozido das senhoras suas tias e a amizade do Vasco... Em Lisboa era necessário estar sempre a levar a mão ao bolso... — Por exemplo, o amigo está num café com a rapaziada: arranja-se uma troça ao Clube, com boas pequenas... E preciso fazer saltar, pelo menos, seus três ou quatro mil-réis, para tipóia, pinguinha de Colares, etc... — Mas não é isso — disse Artur impaciente. Eu não vou para o deboche! E para estudar, para trabalhar. Rabecaz cruzou formidavelmente os braços, berrou do alto da sua experiência: — Trabalhar! Mas em que quer o senhor trabalhar? Nas redacções está tudo atulhado. A maior parte escreve de graça... Fazer vintém pela versalhada, isso até faz rir os mortos! E o amigo não sabe fazer mais nada. Eu conheço Lisboa, homem. Se você escrevesse dramas... — Com um drama, hem? — Isso sim, isso é melhor que ser diretor-geral! Explicou-lhe o sistema de direitos de autor. Ele fazia uma peça ou uma magicazinha catita, em cinco atos: em dia de enchente, com o tanto por cento, eram cinco ou seis libras na algibeirinha!

— E depois, menino, estando-se de dentro com as actrizes, com as pequenas dos coros, apanha-se do bom, e grátis... — Não me tinha lembrado — murmurou Artur impressionado. — Pois pense nisso — disse Rabecaz muito sério. — É de chupeta! Foi como a aparição de urna luz salvadora! Um drama! O teatro! A ideia atraía-o por todos os seus resultados prováveis: era a glória directa, mais palpavelmente gozada, recebida na face em palmas e bouquets; era a celebridade rápida, penetrando todas as classes, ou letradas ou apenas impressionáveis; era o dinheiro, cobrado todas as manhãs, na caixa, a contado!... E Ela viria ver o seu drama; ele diria tu às actrizes, como um camarada. O Rabecaz tinha razão — devia escrever para o teatro! Foi para casa no delírio desta esperança. Mas que escreveria? Urna comédia à Sardou? Um drama à Hugo? Pensou durante uma semana, sem achar. Entrevia títulos, lances, decorações; ouvia as rabecas gemerem nos finais dos atos; via-se curvado, agradecendo... Sentia as palmas — mas não tinha a ideia! O seu temperamento atraía-o para o drama histórico em verso, ornado de arquitecturas curiosas e de chapéus de plumas. Mas que facto, que paixão dramatizaria? Conhecia tão pouco a história de Portugal! Empreendera outrora lê-la: mas desde as primeiras páginas, o estudo das raças iberas, godas, visigodas, galo-romanas, lusitanas, todo aquele mundo bárbaro e defunto, sem episódios e sem personalidades, enfastiara-o prodigiosamente. Desistiu: e todo o passado da sua pátria era para ele como uma vasta treva, onde destacava, aqui e além, num débil relevo gasto do tempo — Egas Moniz com a sua corda ao pescoço, Inês de Castro, morta num trono, um facto vago, que era a revolução de 1640, outro libertino, que era o processo de D. Afonso VI, o marquês de Pombal e o terramoto... Mas nenhum destes factos, destes personagens mal entrevistos, continha para ele a ideia de um drama! Decidiu-se pelo moderno. E tendo facilmente encontrado um título — Amores de Poeta — deduziu dele uma acção. O poeta Álvaro — que era ele mesmo, Artur — pobre e sublime, fanatizava e possuía a linda, a doce duquesa de S. Romualdo — que era Ela, a senhora do vestido de xadrez. O

duque, um caçador obtuso e brutal, com avós até aos visigodos — a que o valente Teodósio servira de modelo — insultava o poeta, arremessando-lhe a luva branca num sarau de máscaras. Batiam-se de madrugada num cemitério, depois de um monólogo, em que, à maneira de Hamlet, Álvaro, tomando crânios nas mãos, meditava sobre a Morte; ferido, o Poeta ia morrer no regaço da duquesa, que corria, vestida de branco, de entre os renques de ciprestes. O drama passava-se, ora num castelo junto a Sintra, ora num vago palácio, nas proximidades da Rua do Ouro! Em torno da acção moviam-se numerosos personagens subalternos, uns, fidalgos vis e embrutecidos, outros, plebeus invariavelmente nobres e eloquentes. Todo o drama era assim um desabafo amoroso e uma propaganda revolucionária; ele sentia-o e parecia-lhe hábil e profundo pôr na sua obra todos os lirismos da sua paixão por Ela e lançar ao povo, ao mesmo tempo, os avantes de uma Reps. Ela choraria, compreenderia quanto um ardente peito democrático ama melhor que um ressequido coração de barão. Por outro lado, o grande Damião aprovaria o drama. Servindo o seu amor, serviria a democracia! E entusiasmado pela sua ideia, começou ardentemente a trabalhar. Foi um período muito exaltado, decerto o mais feliz da sua vida. Compunha o papel de Álvaro de tudo o que sentia em si de mais sentimental, quando pensava em Ela e de mais revoltado, quando pisava linhaça no almofariz da farmácia; deu à duquesa todas as graças, todas as dedicações, encheu-a de reminiscências de Julietas, de Carlota, de Lélia, da Dama das Camélias; acumulou no duque o prosaísmo, as materialidades que o indignavam nos burgueses de Oliveira: um dos seus fidalgos era o Vasco, para quem a poesia consistia na habilidade em fazer acrósticos! E pulava pelo quarto, esfregando as mãos, radioso, quando achava réplicas eloquentes para algum dos seus plebeus. Não duvidava então de que o seu drama faria um escândalo social! Relia-o, extasiado; e ia olhar-se ao espelho, como admirando na expressão das suas feições o esplendor das suas faculdades! Isolou-se. Não apareceu durante muito tempo na Corcovada — onde as tacadas, o cheiro do petróleo, as pilhérias libertinas do Rabecaz lhe pareciam odiosas, depois da frequentação ideal dos seus personagens e da pompa dos seus diálogos. Da farmácia corria para casa, sentindo-se prodigiosamente feliz apenas naquela atmosfera especial do quarto,

onde lhe parecia errar, como éter, todo o ideal que se exalava das folhas do seu manuscrito. As tias queixavam-se agora do menino, que passava todas as suas horas aferrolhado em cima: — E eu que pensava que nos havia de servir de companhia! — dizia a Ricardina com azedume. É como se não houvesse um homem em casa. Às vezes mandava a Sabina acima, escutar no corredor «se sentia o menino». Ela voltava desconsolada, dizendo que andava aos pulos pelo quarto, falando só. — É como o padre Manuel Fernandes, quando andava a decorar o sermão. Que despropósito! Que despropósito! — respondia Ricardina. E muito chocada, com um carão sombrio, ia picando vivamente a meia com as longas agulhas. Parecia-lhes, a ambas, que o menino não tinha «amizade à família»; sentiam por instinto que ele procurava nos livros e nos papéis distracções melhores do que aqueles serões pacatos; e isto aumentava a antiga desconsolação de o verem tão indiferente aos interesses da casa e da fazenda. — É como um estranho, é como ter um hóspede — dizia Ricardina. Ele descia sempre tarde para o almoço, tendo velado toda a noite sobre o manuscrito. — Ai! estás hoje amarelo como um desenterrado... Isto até te faz mal... Pois não era melhor passares as tuas noites a dormir muito regaladamente... — Era melhor, era. Mas então? São gostos dizia ele rindo. — Moço concentradíssimo — afirmou o Vasco, ao domingo, quando o viu abalar depois de engolir as torradas. — Na farmácia não dá palavra. Mas faz o seu serviço com inteligência... Que eu não o perco de olho. — Macambúzio, macambúzio — disse Ricardina indignada. Sabina, essa, achava-o apenas «triste». — Porquê? porquê? Não lhe falta nada — respondia Ricardina. — Pois não é verdade, D. Galateia? É um mono. Ao jantar não se lhe ouve a voz! Depois do chá: é boa s noites e lá abala para o buraco... — Ai, eu não gosto de gente assim — dizia D. Galateia com tédio.

— Mas moço de bem, moço de bem — costumava resumir o Vasco. Enfim, um dia, Artur terminou a cópia do seu quinto ato e foi um momento delicioso, aquele em que escreveu, todo comovido, na primeira página branca: AMORES DE POETA Drama em 5 atos por Artur Corvelo Ali estava, acabado! Mas então, nos dias seguintes, tomou-o uma lassidão, como que a saudade de um mundo superior perdido, de gloriosas intimidades para sempre cortadas. Mesmo no seu amor pela desconhecida da Estação de Ovar, sentia agora uma diminuição, como se durante o seu trabalho ela se tivesse pouco a pouco esvaído da sua alma, naqueles longos fluxos de lirismo. A Lisboa real já não o fascinava tanto. Era como uma visão que empalidecia — desde que pintara uma Lisboa dramática, com cores tão intensas. Relia a todo o momento o manuscrito, mas as cenas melhores, agora, pareciam-lhe frias, e foi sem fé que escreveu ao Damião, contando-lhe o enredo, pedindo-lhe como um serviço, a ele e à «Ideia democrática», que lhe alcançasse a representação dos Amores de Poeta, em D. Maria ou no Ginásio. E para ele fazer ideia da forma e do estilo, remetia-lhe cópia da grande cena entre Álvaro e a Duquesa, num parque, em Sintra. Semanas passaram e a resposta do Damião não veio. Enfastiava-o então ter ali o manuscrito sobre a mesa, sem tirar dele um proveito directo em aplausos ou dinheiro. Uma noite, não se conteve: correu à Corcovada com o seu drama debaixo do paletot, a procurar o Rabecaz. Instalaram-se no cubículo, com uma garrafa de genebra. Às primeiras cenas amorosas, líricas como um dueto de ópera, o Rabecaz, oscilando a cabeça, de olho cerrado, murmurou apenas: — Está catita, está catita. Mas o insulto no sarau de máscaras, a apóstrofe do duque: Quem ousar erguer os olhos

sequer para a duquesa de S. Romualdo, pode encomendar a mortalha!, o duelo no cemitério, as declamações da agonia, levantaram o Rabecaz. Atirou um murro à mesa:— Com mil diabos! isso é a coisa de mais efeito que tem aparecido em Lisboa! Vem a casa abaixo. Irra, que está de arromba! É arranjar empresário! Parabéns, seu diabo! Você tem o diabo no corpo! Aprovou com furor que Artur tivesse escrito ao Damião. — Que isso, mal se souber em Lisboa, todos os empresários é mais a mim, mais a mim! Está de arromba! Irra! Artur, comovido, pagou a ceia. O Rabecaz fez planos tremendos: apenas o amigo Artur recebesse a primeira cheta, mandava-lhe um vale do correio e ele ia a Lisboa. E ainda tinha amigos em Lisboa, ele, e haviam de lhe oferecer uma coroa! Irra! Que havia de aquele Mata vir abaixo, com uma ceia formidável! Champagne e pequenas! Irra! — Artur entrou em casa, numa excitação absurda; agora, aquecido por aquela admiração do Rabecaz, o seu drama aparecia-lhe com um esplendor imprevisto e não duvidava do «sucesso». Pediria dinheiro adiantado ao empresário, iria ele mesmo dirigir os ensaios! Àquela ideia, o coração batia-lhe, no delírio de uma esperança. Via-se já entrando no palco, vestido de preto, muito olhado pelas actrizes; decerto alguma se namoraria dele: seria um parêntesis carnal no seu grande amor à Petrarca... Até que uma noite, diante de uma multidão imobilizada no santo respeito da Arte, às últimas arcadas da orquestra, erguer-se-ia devagar o pano; Ela lá estava num camarote, com diamantes no colo nu, e choraria... a doce criatura choraria, vendo o poeta morrer! — Mas não, tontinha, eu aqui estou, vivo, amante, cativo! E toda esta glória é como um tapete que te estendo, para pousares em cima os pezinhos subtis e breves que te hão-de levar aos rendezvous do divino pecado! — E na plateia, num estridor de ovações, sob o brilho do gás, a cidade aclamava-o! Lenços de renda, pelos camarotes, enxugavam rostos mimosos!... Onde se encontraria depois com Ela? Num recanto contemplativo? Na frescura das ramagens molhadas, onde os frou-frous das asas se misturam ao gotejar das nascentes?... E toda a sua vida lhe aparecia assim, ideal e vibrante, com doçuras de égloga e brilhos de triunfo: os

Esmaltes e Jóias, publicados, tornar-se-iam as estrofes amadas das almas ternas; a sua Ode à Liberdade faria empalidecer os conservadores e preocuparia o Governo; poderia talvez chegar a uma alta situação no Estado; viveria gloriosamente, discutido nos jornais, num primeiro andar de hotel caro, com um robe-de-chambre de veludo, tendo aos pés um cão de S. Bernardo. E aquilo passava-se longe, num Lugar que devia ser Lisboa, numa cintilação de apoteose! Abafava: abriu a janela. Uma esplêndida noite de Julho enchia o espaço; estrelas semfim rebrilhavam; os quintais, as hortas, dormiam; daquela natureza estendida em baixo, parecia sair a respiração de um ser consciente, adormecido; um cheiro morno subia das telhas escaldadas e nas folhagens muito saturadas de sol, no bafo espesso, cheio da ardência do dia tórrido, a evaporação dos tanques fazia passar hálitos frescos; pelos pomares, ao lado, a água das regas murmurava na sombra, docemente; errava um aroma de clematites e das flores dos feijoais. — Que bela noite! disse alto. Ergueu os olhos, esquecido dos seus desejos, enlevado, para aquele céu rico de Verão: era como uma forte poeirada de luz, suspensa e imóvel, muito alta no espaço, com pontos mais grossos que faiscavam numa pulsação febril, outros fixos, num brilho de serenidade eterna. Desejou saber o nome de certas estrelas, desejou habitá-las, e ia seguindo comovido a Via Láctea, que se estendia como uma névoa luminosa, com tons de prata antiga, feita de átomos de sóis. Então, diante daquelas profundidades, enterneceu-se religiosamente; sentiuse muito puro, muito elevado; necessidades de fé e de sacrifício passaram-lhe na alma; pensou em Deus, num amor santo e imortal, em livros vagos que escreveria, consolando os infelizes, derramando a paz... Foi a hora mais nobre da sua vida. Com que palpitação abriu daí a dias, enfim, a resposta do Damião! Eram duas laudas da sua letra torcida, que tinha similitudes com o seu estilo. Dizia-lhe que, pela descrição da peça –«Álvaro, lírico de profissão, vadio e cheio de chamas ilegítimas», lhe parecia inteiramente digno da polícia correcional, a duquesa idem, e todo o drama, uma sucursal do Limoeiro. Enquanto «à intenção democrática da obra», afirmava-lhe «que essa democracia lírica,

exalada em suspiros, com melancolias humanitárias» — era odiosa. Não era uma ideia, era uma sensibilidade. Se ele, Damião, chefiasse um dia uma ditadura à Robespierre, esse democrata, não o guilhotinaria, para não desonrar o cutelo de aço que cortou a cabeça a Danton — «derreá-lo-ia à paulada». «Pelo que respeita a empresários — acrescentava — dizem que os há, mas parece que vivem em castelos inacessíveis de onde fazem fogo, e com razão, sobre os poetas românticos. Se o amigo tivesse uma opereta ou uma farsa em calembourgs não seria difícil encontrar um teatro benigno: mas para fazer representar um drama romântico, é necessário ser ministro ou conselheiro de Estado». Acumulava outras pilhérias, e ajuntava: «O Artur tem talento e vai por um caminho florido — mas errado. Seja um homem, que diabo! Atire para os estrumes de Oliveira esse romantismo-fêmea, mórbido e estéril. Faça uma obra moderna — e leia Proudhon. Não lhe escrevo mais, porque o meu vizinho brasileiro começou agora, como todas as noites, a harpejar na guitarra o hino da Carta: a execução, na bandurra, deste trecho vil — corta-me pela raiz a crítica e a prosa». E dizia ainda num P.S.: «Devolvo a cena que me mandou para apreciar o estilo do drama: francamente, parece-me escrito como um libreto de ópera: há períodos que precisam urgentemente acompanhamento de flautim. Essas florescências de linguagem (que Shakespeare elevou ao sublime, que eram nele a exuberância de um gênio bárbaro desprezando as regras, e que são historicamente explicáveis noutros poetas mais calmos e mais conscientes da Renascença), são hoje de um mau gosto deplorável e de um ridículo desopilante. Eu sei, sim, que é nesse estilo que escrevem os gênios que gingam pelo Chiado... Mas os gênios do Chiado têm por missão histórica fazer rir — rir de um riso consolador e sereno: são a nossa melhor pilhéria, sobretudo quando são tristes, e constituem a única alegria que um Destino inimigo nos mede escassamente, gota a gota: sem eles, Portugal seria o legendário Solar do Tédio. Amigo! Álvaros, poetas líricos, duquesas sentimentais, cemitérios, interjeições, suspiros ao luar — tudo isso é doentio. Cure-se. A Península Ibérica parece que herdou uma nevrose — que em Espanha se

tornou em gênio raiado de loucura, e em Portugal degenerou em imbecilidade misturada de velhacaria. Junte a isso (para Portugal) as influências hereditárias de uma avaria genérica, e explica muita coisa do País. — Perdoe as observações retrô sobre a sua literatura: elas têm o doloroso e o salutar da cirurgia. Sabe o que lhe aconselho que faça ao seu drama? Como tratamento interno, xarope de Gibert! como tratamento externo, cautério de nitrato de prata. Amigo inalterável, malgré tout. Damião». — Pedante! — rugiu Artur, amarrotando a carta com desesperação. — E agora? Não conhecia ninguém mais em Lisboa, e sentia-se como um homem no fundo de uma cova, que olha para os altos onde se respira e se vive, sem ver uma corda, uma escada, um braço, que se lhe estenda compassivamente! Não o magoavam as ironias de Damião. Era a inveja! Um pouco também o desprezo filosófico que ele sempre tivera, o pedante, pela poesia e pelo estilo! Era um teórico, enterrado em sistemas abstractos, sem compreender a paixão!... O que mais o enfurecia era que Damião, um camarada do Cenáculo, um democrata, que sabia que aquele drama era para ele o amor, o pão, a carreira, em lugar de se precipitar por Lisboa, impelindo influências amigas a abrir-lhe as portas de um teatro — se não movesse da sua «catacumba», escrevendo com egoísmo: Empresários, dizem que os há... Descreu da amizade, do Cenáculo, da Democracia. Nessa noite, na Corcovada, com o Rabecaz, foi excessivo: declamou contra os ricos, o Governo, os poetas publicados, e, como todo o plebeu obscuro e literário, tornando a Monarquia, a sociedade oficial, culpadas da sua obscuridade e da sua literatura inédita, desejou uma Revolução sanguinária... Mas a Democracia, tal como a concebia Damião, tão secamente positiva, ocupada de Direito, ignorando o sentimento, hostil aos poetas, parecia-lhe odiosa. — Não há nada — exclamava com desalento. Todo o esforço é inútil neste desgraçado País! O Rabecaz oscilava a cabeça, com os braços soturnamente cruzados; o Governo Civil do Porto, por esses dias, recusara-lhe uma gratificação, e o Rabecaz também atravessava um período especial de rancor à sociedade. — Uma choldra — rosnou — uma choldra!

Artur deu um repelão ao copo de genebra. Ali estava, por falta de dinheiro, de amizades sociais, encarcerado no anonimato; e as coisas fortes sobre que desejaria apoiar-se na vida, e de onde quereria tirar a sua própria força, tornavam-se-lhe agora inacessíveis. — Dá-me vontade de queimar tudo o que tenho escrito! O Rabecaz estendeu com autoridade a mão cabeluda: — Escute! — disse. E arrancando, uma a uma, as palavras do peito azedado: — Escute!... Isto é uma choldra!... Mas eu ainda tenho amigos em Lisboa!... Apesar de ter deixado Lisboa há doze anos, caramba, ainda se lá sabe quem eu sou!... Eu vou escrever ao Melchior, o Melchior da Opinião. O Melchior é catita!... Artur, pálido, pendia-lhe dos lábios espessos, de onde lhe parecia ver correr um mel consolador. — O Melchior, hem? — O Melchior! É gajo! O Melchior arranja um teatro! — Ó Rabecaz, você salva-me! O Rabecaz atirou de um golpe para as fauces o cálice de genebra, deu um ronco, e disse com segurança: — Ainda se tem influência na rapaziada! Ainda se é gajo! E ali mesmo colaboraram numa carta ao Melchior da Opinião, em que, aos lirismos ditados por Artur, se misturava, como bicho entre flores, o calão do Rabecaz. Um fim de período dizia: «É este pois o esplêndido drama de uma alma de poeta, em que fervem as aspirações sociais mais nobres deste século de Democracia...» e o Rabecaz seguia... «e agora não se me faça você gajo, e bata essa Baixa para arranjar um teatrote que leve a coisa e largue a cheta!» Artur, então, sentiu a esperança voltar-lhe mais viva. Releu os Amores de Poeta, e com o seu antigo respeito pelo Damião, apesar de o odiar agora, esbateu o que havia no papel de Álvaro de excessivamente lírico, introduziu duas cenas de comédia para quebrar a uniformidade lúgubre, e recomeçou os seus sonhos. Mas as semanas passaram e não veio

resposta do Melchior da Opinião. — É que escreve noutro jornal — dizia o Rabecaz — não lhe chegou a carta à mão. O Melchior é catita!... Escreveu então a um sobrinho, o Sr. Venâncio Guedes, empregado no Ministério do Reino, pedindo-lhe informações sobre Melchior Cordeiro «que eu preciso cá para umas coisas teatrais». Dizia-lhe ainda que averiguasse se «em D. Maria poderiam levar uma bela peça chamada Amores de Poeta, obra rica por que eu me responsabilizo... Daí a dias, na Corcovada, Rabecaz, furioso, mostrava a Artur a resposta do sobrinho, escrita em papel oficial: «Não sei onde mora esse Melchior», dizia o Sr. Venâncio Guedes, «ignoro quem seja, e não frequento literatos. Enquanto a teatros e empresários, as minhas ocupações não me permitem que malbarate o tempo nessas pesquisas...». — Que malcriado! — rugiu o Rabecaz. — Um traste a quem eu empreguei! Fui eu que o empreguei, àquela besta! É onde se encontram as piores víboras, é no nosso próprio sangue!... — É a minha sorte — declarou sombriamente Artur. Atirou os manuscritos com rancor para o fundo do baú e recaiu numa vida inerte. Agora que da Literatura não podia tirar a celebridade ou uma posição em Lisboa, abandonava os livros. Pouco a pouco o seu espírito, como uma água isolada e presa numa baixa, que se vai enlodando, morrendo, foi perdendo a transparência viva que reflectia os azuis e as nuvens, e Artur, com uma lassidão quase satisfeita, lia agora na farmácia o Almanaque de Lembranças. Por vezes uma mulher entrava, estendia a receita, e sentava-se esperando; algum labrego, de voz entaramelada, vinha pedir um unguento para uma ferida; Artur erguia-se, aviava-os melancolicamente; e quando, num trote cansado, com os tirantes lassos, passava na rua o char-à-bancs da carreira, todos se voltavam numa pasmaceira triste. Todas as noites, regularmente, marchava para a Corcovada. Lá, começava a encontrar considerações. Sob a direcção do Rabecaz, ia-se tornando um dos bons tacos da vila e já os frequentadores, pelos bancos, em roda do bilhar, fumando e cuspilhando para o chão, lhe admiravam as carambolas. Até aí, vendo-o modesto, julgavam-no nulo; mas quando ele,

aquecido por aquela simpatia ambiente, começou a parolar, torcendo o buço, diante do seu cálice de genebra, foi escutado com admiração, e considerado «rapaz de talento». — É propendote, dizia o Vilela, que, sendo o correspondente da vila para a Verdade, jornal do Porto, era uma autoridade na Corcovada. Artur, pouco a pouco, habituara-se às fisionomias que achava agora menos alvares, e às conversas que já lhe pareciam menos caturras; ria mesmo com as graçolas muito aplaudidas do João Valente. Ligou-se com o Vilela; e tornara-se uma personalidade eminente do botequim, quando veio a guerra Franco-Prussiana e se proclamou a República em França. Um sopro heróico revolveu subitamente o seu romantismo adormecido: — queria bater-se pela França, como voluntário de Garibaldi; lia de pé a proclamação de Vítor Hugo; achava sublime que, diante da força desproporcionada da invasão, Gambetta, com os seus exércitos destroçados, com toda a França vencida, se refugiasse, para morrer, no antigo campo entrincheirado das Gálias... — Grande talento, grande talento! — rosnava-se em redor, com vozes sensibilizadas. Mas o violento Vilela, muito alemão por patriotismo, berrava: — É bem feito! Abaixo a França! É para lhes ensinar a pregarem-nos outra como a do Charles et Georges... Artur, exaltado, falava do messianismo da França, dos direitos do homem, dos boulevards, de Vítor Hugo; injuriava os Alemães, os bárbaros... — Mas são muito profundos, são muito profundos — gritava o Vilela, batendo o pé. — Qual profundos! a França é que é catita! — rugiu o Rabecaz. — Para um bocado de can-can, não há como a bela francesa. Todos riam, cada um remexia o seu café ou dava um sorvo à genebra, e Artur, passando as mãos pelos cabelos, declarava que, dentro em dois anos, toda a Europa seria republicana. Tornava-se excessivo; e mesmo, quando veio a Comuna, impressionado pelo lado dramático da insurreição, disse-se internacionalista, falou em Proudhon, exaltou o operário. Uma noite, e acompanhado pelo Rabecaz que achava a Comuna «de arromba», entoou a Marselhesa. O Vilela pateou, fez alarido; a grossa Corcovada que gostava da animação dos fregueses, correu da cozinha, cercada dos pequenos,

escancarando a boca numa satisfação hílare; e na rua, onde chovia forte, pessoas agachadas sob os guarda— chuvas, paravam a olhar pela porta envidraçada. — Bela orgia! — disse Rabecaz, ao sair com Artur. — Bela orgia! O Vasco soube-o — e aconselhou Artur com bondade: não lhe censurava as distracções; podia ir ao botequim tomar o seu café, jogar a sua partida de bilhar; mas pôr-se com descantes e troças, e falar em repúblicas e internacionais! Isso devia evitá-lo — por si, para não perder o bom nome na vila, em respeito às senhoras suas tias, e enfim por ele, Vasco, pelos créditos da farmácia... Artur considerou a sua liberdade de pensamento indignamente violada por esta exigência do patrão, e então, com ódio à obtusidade conservadora do Vasco, que personificava toda uma sociedade, as suas opiniões foram um momento sanguinárias. Desejou o comunismo em Oliveira de Azeméis; e as senhoras em casa, ao vê-lo açucarar melancolicamente o seu chá, mal imaginavam que, sob aquela testa pálida, apoiada à mão, rolavam ideias de incêndios vingadores e de exterminações de classes. Mas estas imaginações ferozes bem depressa se dissiparam. Por esse tempo, o Vilela, por complicações de demandas e de penhoras, tinha-se achado imprevistamente possuidor de um prelo, e viera-lhe a ideia de fundar um jornal em Oliveira. Falou a Artur, que flamejou logo num entusiasmo desordenado. Viu-se imediatamente, do banco da redacção, dominando Oliveira, temido na Assembleia, sendo uma força no distrito, citado em Lisboa. Achou um título: A Nova Era; e foram, durante semanas, entre eles, umas conferências deliciosas sobre o formato, o papel, a casa da redacção, a política e a literatura do jornal. Artur queria publicar os Esmaltes e Jóias em folhetins e defender os princípios da Revolução Francesa. Vilela queria deitar abaixo o administrador do concelho. Foi Artur que redigiu o prospecto: falava da Humanidade, de Vítor Hugo, da Justiça e de Mozart. O Rabecaz declarou-o «de arromba!» e Artur pensava já em se despedir da farmácia e passar os seus dias na redacção, onde ele queria pôr cortinas de reps vermelho e um sofá. Mas os prospectos recolheram poucas assinaturas. Dos dois jornais que havia em Oliveira, um, chamava-se O Oliveirense, o outro, O Eco de Oliveira, e aquele título A Nova Era,

considerado muito «filosófico», representando interesses humanitários estranhos à localidade, não atraiu a adesão da vila. De facto, a autoridade, assustada, conspirava activamente contra a criação da Era: dizia-se que o Sr. Administrador fora de loja em loja, pedindo que se não animasse «uma oposição faciosa que queria lançar cizânia na vila». A Assembleia, hostil ao botequim da Corcovada, recambiou o prospecto. O João Valente, que prometera generosamente duzentos mil-réis para as despesas iniciais — exigiu depois fiador e uma letra do Vilela, a três meses. O Vilela, ofendido, injuriou-o na Corcovada. Romperam: — e a Era morreu, como um facho húmido de sarmento, que depois de fumegar um minuto se extingue, sem acender a pilha de lenha sobreposta. Foi um desgosto para Artur. Mas ficara muito impressionado por esta ideia de influência local. Lisboa parecia-lhe agora inacessível; o seu grande amor pela linda desconhecida de Ovar, que o atraía para lá, sumira-se insensivelmente como água que a areia absorve. Sem proteção, vivendo naquele recanto de província, nunca lá poderia fazer representar os Amores de Poeta. A sua carreira estava limitada à vila e à farmácia... Pois bem! por que não aplicaria o seu talento, as suas maneiras, a fazer a conquista de Oliveira de Azeméis? Os seus dois anos em Coimbra, o nome respeitado das tias, habilitavam-no a conhecer o Carneiro, as Guedes; poderia ir-lhes às soirées. Aí, estava certo, faria sensação pela sua conversa, pelos seus versos, recitados ao piano; lançaria a ideia de uma «representação de curiosos». Poderia propor os Amores de Poeta; talvez fosse o meio de fazer um casamento rico... Começou logo a frequentar a missa das dez, de chapéu novo e luvas pretas: colocava-se junto ao altar-mor, muito grave, mostrando a sua devoção. Ao fim da missa, cumprimentava respeitosamente os cavalheiros do lado, o bacharel Pimenta, o administrador. Evitava mesmo passear com o Rabecaz. Porém, segundo dizia o Vilela, que o admirava e que era o confidente destas ambições, para se «furar em Oliveira» era indispensável pertencer à Assembleia: ele mesmo, cheio de solicitude, se encarregou de sondar o Carneiro, nesse ano presidente da direcção. Às primeiras palavras, porém, o Carneiro recusou; esgazeou os olhos e exclamou: — O quê? Ora essa! Se deixarmos entrar o ajudante da farmácia, temos cá amanhã o marcador do bilhar!

— Escute, homem! É o sobrinho das manas Corvelos. São pessoas respeitáveis. — Parente pobre! Têm-no em casa por esmola. Nada de maltas! Nada de maltas! Sócios ricaços, como o Castro e o Boavida, informados da pretensão de Artur, tinham mesmo rosnado: — Ora o garoto! Um repelão tão injustificável enfureceu Artur, e, na vibração do desespero, rimou um soneto terrível contra a Assembleia e o Carneiro, de quem exclamava: Ei-lo repoltreado na janela, Remexendo os cordões do ró-de-chambre, Tendo na pança a forma da panela, No nariz o vermelho do fiambre... E no último terceto declarava que só quisera ir da farmácia à Assembleia: Munido do meu pó insecticida Para matar, no nojo da minha alma, Os percevejos — Castro e Boavida! O soneto foi furiosamente aplaudido, à noite, na Corcovada, e, na manhã seguinte, apareceu afixado, em pasquins, em letras colossais, à porta da Assembleia e à esquina da casa do Carneiro. Que celeuma! Sócios da Assembleia, aterrados como num perigo público, cercavam o administrador, reclamando que se pusesse «a gente de bem ao abrigo da canalha!» S. Sª, torcendo a pera, afectado, rosnou palavras graves sobre «providências... medidas enérgicas...». Na praça havia grupos: dizia-se que o autor era o Artur das Corvelos, e tendo-se visto, ao anoitecer, o Carneiro entrar impetuosamente na farmácia, gente correu, a espreitar por entre os bocais escarlates, na certeza de «que ia haver bordoada». Mas Artur a essa hora triunfava na Corcovada. Na manhã seguinte, porém, ao entrar na botica, encontrou sobre o balcão uma carta sobrescrita para ele, com a letra de Vasco — que, no seu canto, parecia abismado no Comércio do Porto. A carta dizia:

«Sr. Artur! O digno proprietário e lojista de panos, o Exmo. mo Sr. Carneiro, veio a este estabelecimento queixar-se de um malévolo e ofensivo soneto, que o senhor, sem respeito pela farmácia que goza de antigos créditos, arrojou às faces do digno Sr. Carneiro e de outros membros respeitáveis da sociedade Oliveirense. E não contente com isto, o senhor gaba-se, no aludido soneto, de usar dos produtos deste respeitável estabelecimento, para fins repreensíveis e criminosos. Ora pois! Espero que tal facto se não repita, para honra desta casa. E em consideração aos seus estudos e ao seu comportamento virtuoso até hoje, bem como às suas respeitáveis tias a quem não desejo dar este golpe, que consinto, por esta vez, em cerrar olhos ao monstruoso delito. Mas aqui o aviso solenemente, de que qualquer outra peça lírica, espalhada em desabono do nobre proprietário Carneiro, ou de outro qualquer cavalheiro Oliveirense, me obrigará a tomar a severa medida de livrar esta honrada farmácia de um inimigo do sossego público. Que a minha vontade seja respeitada, é o que exige O chefe do estabelecimento, Farmacêutico de 1ª classe Vasco da Conceição Pedroso» Artur, pálido, adiantou-se para ele com a carta aberta — mas o Vasco ergueu-se impetuosamente e numa voz sibilante, agitando os braços: — O que está escrito, está escrito! O que escrevi, escrevi! Tanta imbecilidade indignou Artur: — Então, quero as minhas contas! — Que contas, senhor, que contas? Contas me deve o senhor a mim, que lhe dei uma libra adiantada do mês, e estamos a sete! O senhor foi uma víbora que eu aqueci no meu seio... Um homem a quem eu queria como a um filho... Longe da minha vista, ingrato! Longe desta botica de bem, serpente! Artur abalou furioso para casa; muito pálido contou, de um fôlego, a «cena com o Vasco». As tias ficaram aterradas. Julgavam-se desacreditadas em Oliveira. Ricardina já imaginava que, por vingança, o Carneiro, a autoridade, lhes aumentariam as décimas! — Ai que desgraça! Ai que desgraça! — exclamava pela sala, com as mãos na cabeça.

Então, vendo-as chorar tão aflitas, o Albuquerquezinho, que desde a véspera estava agitado, começou a baloiçar-se sobre as pernas, de punhos fechados, o olho vago, murmurando: — Olá!... olá! E de repente, largou pelo corredor, galgou os degraus, gritando: — Ferra o traquete da gávea! Abordagem! Abordagem! Fogo! Poum! Tararará! Hei de vingá-las! Orça a barlavento! Artur, aturdido, saiu, e topou na escada com o Vasco, que galgava os degraus, resfolgando furiosamente. Vinha dar às senhoras uma explicação de cavalheiro! Leu-lhes o soneto. Citou-lhes as palavras comovidas do Carneiro: «tenho cinquenta e cinco anos honrados, e é a primeira vez que sou insultado publicamente!» Declarou Artur um perverso: — E quando eu, na minha bondade, ia perdoar, ia esquecer... rompe contra mim, como uma fera... Ricardina soluçava. — Quer-me matar de desgostos! Quer-me matar de vergonha! Pois que se vá, que se vá, que nos deixe no nosso sossego! — Não foi de mim, minha senhora — dizia o Vasco, comovido — não foi de mim que veio o golpe. Foi dele, foi do ingrato... Mas agora é per omnia sécula seculorum... Que eu também tenho o meu brio! Sou Vasco da Conceição Pedroso!... — Olhou para uma e para outra, e repetiu com majestade: — Eu também tenho o meu brio. E saiu, muito digno. O jantar foi lúgubre. Até ao cozido, Ricardina não tirou de cima do prato o carão repreensivo. Sabina, muito pálida na sua touca negra, parecia mais pequenina, encolhida na cadeira, limpando a furto os olhos vermelhos. E o Albuquerquezinho, sossegado agora, de guardanapo ao pescoço, devorava: de vez em quando, pousava o talher, piscava o olho para Artur: — Boa batalha! Meti-lhe dois balázios no costado!... Mau pirata! Mau pirata! Mas Sabina, muito triste, tinha recusado o arroz. E Ricardina, muito seca:

— Ai, não come, mana Sabina? Não vale a pena ninguém afligir-se por quem não o merece... Artur, furioso, deu um repelão ao prato, levantou-se, foi fechar-se no quarto. Mas logo um som de dedos bateu na porta timidamente. Era a tia Sabina: vinha fazer-lhe companhia, vinha consolá-lo... A tia Ricardina tinha aquele gênio, mas passava-lhe: era tudo pena de lhe ver perder o emprego... Que elas não eram ricas! Mal sabia ele o que lhes custava a viver!... Ai! devia ir pedir desculpa ao Vasco! — Antes estourar!... Antes morrer de fome! Rebuscou furiosamente na algibeira, mostrou à tia um punhado de cobre: — Olhe, é tudo o que tenho neste mundo! Sete vinténs. Não me importa! Estou farto de sofrer! Acabou-se... — Jesus, menino, o orgulho é que perde os homens! Mas que queria ele agora fazer? — Eu verei, tia Sabina, eu verei — disse ele, passeando pelo quarto, mordendo os beiços, com duas grossas lágrimas nas pálpebras. Lembrou-se então do padrinho e resolveu escrever-lhe, pedindo-lhe um emprego, qualquer colocação... Se nada conseguisse, fazia-se soldado, ia trabalhar de enxada! E à noite foi à Corcovada, desabafar com o Rabecaz. Mas o Rabecaz, a quem o administrador censurara nessa manhã severamente as suas relações com o poeta, afectou um interesse absorvente pela partida que jogava com o marcador, e fez-lhe apenas, com dois dedos, um aceno seco. O João Valente abismou a face entre as mãos, com o nariz sobre o Comércio do Porto. Pelas mesas estavam outros frequentadores e Artur sentiu logo, nas boas-noites muito secas, nas faces reservadas, uma hostilidade ambiente. O Vilela, por fim, disse-lhe, embaraçado: — Homem, isto é o diabo... A coisa fez barulho de mais! Sempre foi insultar as pessoas principais da vila. Você compreende... numa terra pequena... todos temos as nossas relações, as nossas dependências... Veja você, lá perdeu o arranjo na botica... Que tolice!... Deve ver se se torna a pôr de bem com todo o mundo. É necessário nesta vida um bocado de

sevandijismo... E enterrando as mãos nos bolsos, foi examinar, de pernas abertas, o jogo do Rabecaz. Artur empalideceu. O botequim renegava-o! Saiu, atirando com a porta — e andou pelas ruas, furioso, até tarde, planeando coisas vagas que faria para mostrar o seu gênio, vingar-se, humilhar Oliveira. Derreado, entrou no seu quarto, pensando no suicídio. A porta, então, rangeu devagarinho. Era a tia Sabina, de saiote pelos ombros, que vinha trazer-lhe um pires de marmelada e pão, porque o vira comer tão pouco ao jantar. Aquela bondade comoveu-o e desatou a chorar irreprimivelmente. A velha apertou-o nos braços, beijou-lhe o cabelo, calada. E tirando de uma algibeira um embrulho de papel, com placas de cinco tostões: — É para as tuas despesas, meu filho, agora que não tens outra coisa. São as minhas economias... São três mil e quinhentos... Era para te comprar pano para camisas — para ti era... Ao outro dia Artur, para não ver o carão indignado da tia Ricardina, desceu tarde para o almoço; Cristina, ainda pálida, esperava-o costurando, à janela. Ele estendeu-lhe a mão: — Obrigado Cristina... A tia Sabina lá me disse ontem à noite... És uma boa rapariga, Cristina. Ela baixou a cabeça, com duas lágrimas pela face. Ele então bateu-lhe de leve no ombro, rindo: —Tolice. Porque choras? Não é desgraça nenhuma. Olha a desgraça perder um emprego de sete mil reis. E que emprego, pisar linhaça, e fazer misturas salinas... Deixa estar, eu me arranjarei... Sentou-se, e açucarou o seu chá. —Estou com ideia de ir para o Porto! Ela voltou-se, com as mãos caídas no regaço, num assombro: — Pra o Porto? — Pois então? Que faço eu aqui? Vou escrever ao padrinho... Há-de me arranjar por lá um nicho... Escrevente de cartório, caixeiro, qualquer coisa... A tolice foi não ter ido há mais

tempo... Escusava de aturar as trombas da tia Ricardina... Dás-me daí o jornal, fazes favor? Ela enrolou devagar a sua costura, muito branca, mordendo o beiço, ergueu-se, deu-lhe o «Primeiro de janeiro» que o Vasco mandava todas as manhãs, viu ainda se o bule tinha bastante água, e saiu fechando a porta devagarinho. A tia Ricardina saía da cozinha. — O primo quer ir para o Porto, tia!, exclamou ela, levando as mãos a cabeça. — Pois que vá, que vá para onde não faça perca. — Oh meu Deus! Meu Deus! - foi murmurando Cristina, aos soluços pelo corredor. Daí a duas semanas, um domingo, Artur, voltando cedo do correio, entrou na Corcovada. Escrevera ao padrinho uma carta imploradora e desolada; a resposta tardava, e agora, quase todas as manhãs, depois do velho carteiro passar pela praça, coxeando, ele punha o chapéu e lá marchava, a perguntar ao Gomes do correio «se por acaso não houvera engano, se não teria vindo uma carta que ele esperava». — Não lha levaram a casa, não? — resmungava o Gomes, puxando os óculos para a testa. Então?... O botequim, àquela hora, estava deserto. Uma faixa de sol tépido de Novembro atravessava a saleta, fazendo parecer mais triste o soalho enegrecido, o papel de ramagens azuis riscado de fósforos, a cortina de paninho vermelho sobre a porta envidraçada da cozinha. Um dos pequenos rabujava, e o mestre da filarmônica, que morava por cima, ensaiava-se no clarinete. Artur ficou um momento a fazer no bilhar carambolas melancólicas, depois, a olhar para o João barbeiro, que, defronte, na sua porta, sob a bacia lustrosa de latão, esperava os fregueses com o pente espetado na grenha. Por fim, veio sentar-se defronte do Jornal do Comércio, com a cabeça entre os punhos. Uma local atraiu-o casualmente: era a longa descrição de uma soirée, em Lisboa... Logo interessado, devorou-a. Falava-se «da esplêndida decoração da sala de baile, das toilettes, das jóias — às duas horas tinha-se aberto um delicioso buffet; o amável secretário da Embaixada de Espanha dirigira o cotillon com o seu costumado entram; e depois, era um desfilar de convidados, condes, dons, deputados, conselheiros, diplomatas, e o poeta aplaudido dos Idílios e Devaneios...

Uma tristeza invadiu-o. E relia a local, demorando-se em certas frases, vendo através delas — a uma luz vaga, que vinha, em parte, da cintilação dos lustres, em parte, do raio pálido do sol que atravessava o botequim — a sala com dourados, nudezes de colos, de peitilhos lustrosos das camisas, as casacas negras, e os dois olhos tristes que se tinham fixado nele na estação de Ovar, brilhando agora mais alegres... Ela decerto lá estaria... E, subitamente, o antigo amor reapareceu, enternecendo todo o seu ser: era como numa noite escura um erguer de Lua grave e triste. E ali ficou muito tempo, com os cotovelos sobre a mesa suja, pensando nela; mas não distinguia já bem as suas feições: pareciam perder-se, dissipar-se no luxo que a cercava, na música da soirée, nas luzes, em tudo o que ele próprio desejava: as ruas de Lisboa, as plateias dos teatros, as redacções dos jornais; isso mesmo se esbatia em longes muito vagos, e luzia a uma distância que lhe era inacessível, rolando num rumor de trens ricos, de óperas, de beijos adúlteros e de poemas aplaudidos... Suspirou, muito triste, e levantando a cabeça, viu defronte, pela porta aberta do João barbeiro, um freguês que esperava de pescoço inclinado, a toalha ao pescoço, os queixos brancos de sabão. Saiu, foi andando para casa. Ia pensando no poeta dos Idílios e Devaneios. Os seus versos pareciam-lhe bem banais–como a sua fisionomia, que ele conhecia de retratos — o cabelo apartado ao meio, o grande pince-nez sobre o nariz grosso: e estava na soirée, apertava a mão dos embaixadores e os jornais festejavam o seu dia de anos! — E com algumas poesias medíocres, impusera-se à Sociedade! E isto aparecia-lhe como o resultado de enredos subtis, de influências femininas — porque a Sociedade, que só conhecia através dos romances, afigurava-se-lhe, como o mundo de Balzac, governada pelos caprichos da Beleza e pelo gênio dos Intrigantes. Acreditava na influência que pode ter, numa existência, o aperto de mão de um duque, e, como no caso de Vautrin, a proteção secreta de um forçado. A Fortuna era a presa dos fortes — e então, naquela hora de resoluções grandiosas, que atravessam todas as almas débeis — decidiu violentamente ser ele também um forte, sacudir aquelas sentimentalidades estéreis em que se gastava, demolir os obstáculos com o ímpeto de um Alcides, apoderar-se à força da

Celebridade, de um lugar na Civilização e de um sofá no boudoir de Ela. Até aí, o seu desejo carpira — agora, ia lutar... E trilhava a rua, levado por estes ímpetos, a grandes passadas, como se fosse apoderar-se do mundo. O char-à-bancs, que batia a galope para a estação de Ovar, obrigou-o a refugiar-se num portal: teve um momento a tentação de se atirar para dentro, ir tomar o comboio para Lisboa, começar a batalha — mas tinha na algibeira três tostões! E a esta picada mesquinha da realidade, aquela amplificação da vontade, engelhouse-lhe subitamente, como um balão furado. Quando entrou em casa, a Joana correu da cozinha, dizendo que o Sr. Coutinho, o tabelião. tinha vindo para lhe falar, e depois mandara uma carta pelo criado... Estava em cima da mesa. Artur, surpreendido, correu à sala, abriu vivamente a carta: «Il. mo Senhor. O meu colega, correspondente do Porto, o Sr. Fernandes Gouveia, da Rua do Loureiro, encarregame da dolorosa missão de lhe participar que seu honrado padrinho, Sr. Guedes Craveiro, faleceu no dia 25 do corrente, pelas cinco hora s da manhã — e ao mesmo tempo da grata incumbência de lhe anunciar que por codicilo ao seu testamento de 18 de Abril do corrente ano, lhe lega... — Oh! Santo Deus!...lhe lega, para completar a sua educação, como melhor entender, a quantia de seis contos de reis...» Tremia todo, gritou para a porta: — Joana! Joana! A velha acudiu, assustada. — O padrinho deixa-me um dinheirão! Seis contos!! — Oh! meu menino, oh! meu menino! Ai! E as senhoras que estão na missa. Vou chamálas! Vou a correr... Mas elas nesse momento entravam. Ricardina, no pátio, ralhava com o moço da quinta. Artur correu ao alto da escada, de braços no ar. — Tia Sabina! Tia Sabina, o padrinho deixou-me um dinheirão! Seis contos!

— Foram as minhas orações! — exclamou a velha agarrando-se ao corrimão, quase desmaiada. — Oh! meu filho! Oh! meu filho!... — Que estás tu a dizer? — gritava Ricardina aos tropeções pela escada. Entraram na sala, a Joana atrás, e quando Artur lhes acabou de ler a carta, em que o tabelião dizia que o legado se compunha de dois contos, depositados no Banco de Portugal — e que, no dia seguinte, ele receberia uma ordem sobre O Sr. Carneiro, lojista de panos, para receber, à vista, quinhentos mil-réis, ouro ou papel, para as primeiras despesas do luto — as três senhoras e a criada, muito trêmulas, romperam a chorar! — Oh! caramba! oh! caramba!! — dizia Artur, andando pela sala, com todo o sangue na face, tropeçando contra os móveis. E pensava com uma alegria tumultuosa no insulto que faria ao Vasco, que presente daria às tias, por que comboio partiria para Lisboa. Já se lá via, assistindo aos ensaios do seu drama, encontrando a senhora do vestido de xadrez... — Vou a casa do Coutinho — exclamou de repente — vou ver como é isso da ordem de amanhã! — Almoça primeiro, menino — disse Ricardina. Mas ele, sem a escutar, abalara. Ricardina, então, pôs os óculos, releu a carta, baixo, impressionada com aquelas palavras, «ordem à vista», «depósito no Banco», tomada inesperadamente de um novo respeito pelo menino. — O Artur agora há-de querer voltar para Coimbra — disse por fim a Sabininha, que, sentada à beira da cadeira, com o seu mantelete de seda bordado a vidrilhos e o livro de missa no regaço, ainda limpava uma ou outra lágrima. — Para Coimbra, credo! — exclamou Ricardina — um rapagão de vinte e cinco anos! Já não está para mestres... O que deve fazer é tomar a farmácia ao Vasco... que ele está morto por a passar! — E depois de um momento: — Pois olhem, até se me embrulhou o estômago. Uma coisa assim de repente... E a mana não se fique agora com as suas lamúrias... e vá acender outra lamparina no oratório, ande, que se deve o agradecimento ao Senhor... Artur não encontrara o Coutinho: tinha ido para a fazenda. Quando atravessava a praça, saía-se da missa das onze. Então, lembrou-se de Deus — e na humildade do seu

reconhecimento, murmurou ali mesmo um Padre-Nosso. O Rabecaz, que apesar do seu ateísmo frequentava a missa, para não ofender as opiniões católicas do Sr. Administrador, apareceu, majestoso, no seu casacão dos domingos, calçando as luvas pretas. Artur correu para ele numa ânsia de desabafar, e com um riso nervoso: — O padrinho morreu, deixou-me um dinheirão! — Com mil diabos! — É verdade, é verdade — disse Artur com os olhos húmidos, esfregando parvamente as mãos. Seis contos de réis, uma casa na Aguardente! — E então? Agora para Lisboa? — Pudera! — exclamou Artur com fervor. — Ladrão! Travou-lhe do braço com paixão, trouxe-o a casa — fazendo logo o plano de se ir encontrar com ele em Lisboa, na Primavera. Viveriam ambos juntos, e com a cheta em comum, havia de vir Lisboa abaixo. Artur ressentia-se daquela participação que o Rabecaz se arrogava na sua fortuna; disse muito sério: — Eu vou passar uma vida retirada... trabalhar... O Rabecaz bateu firmemente com a bengala no lajedo: — Não me venha com essas pieguices. Mande a literatura ao diabo. Isso é bom para os pelintras. Você agora tem cheta, é gozar, é refocilar... E a primeira coisa que você há-de fazer, é mandar-me uma boquilha de espuma... Ao almoço, a tia Ricardina discutiu o emprego do dinheiro do menino. Tinha agora a sua fortuna certa. O Vasco queria passar a farmácia, e, com aquele dinheiro... Artur, indignado, pulou na cadeira: — Ora essa! comprar a farmácia! Enterrar-me em Oliveira! E declarou, dando uma punhada na mesa, que ao outro dia partia para Lisboa. As velhas estavam assustadas da estridência da sua voz, da insensatez das suas resoluções. — Tu endoideceste, menino?

— Endoidecia se aqui ficasse! E numa exaltação, pela sala, falou do seu talento, das altas posições que dão as letras, da influência da Imprensa, de uma cadeira em S. Bento e da posteridade. — Mas nunca hás-de ser um Nélson — exclamou o Albuquerquezinho, fixando-o. — Mas posso vir a ser Ministro da Marinha, Sr. Almirante — disse Artur muito sério. De tarde, espalhara-se na vila a notícia da herança: uns diziam vinte contos, outros cem; alguns afirmavam que ia haver demanda. O Vasco veio à noite, comovido, com D. Galateia, para abraçar o herdeiro. Mas, a essa hora, Artur estava na Corcovada, instalado diante dos licores do estabelecimento, com uma caixa de charutos ao lado; e o Rabecaz, a cada freguês que aparecia, exclamava mostrando Artur, com um largo gesto à Ecce Homo: — Ei-lo! Está milionário! E às interrogações ansiosas, respondia vagamente, agitando as mãos: — Um fortunão! De vir tudo abaixo... Vai bater carruagem em Lisboa. E eu estou aqui, estou lá caído! Artur voltou para casa tarde, pesado de genebra. A tia Sabina veio-lhe em pontas de pés ao quarto, falar ainda na farmácia. O Vasco dissera-lhe que a cedia barata, com pagamento a três meses. Depois, elas estavam tão velhas... não tinham mais ninguém no mundo... Era necessário um homem na casa... — Por coisa nenhuma fico aqui vinte e quatro horas mais, tia Sabina... E inútil. Irra! Sabina desceu a chorar. Parecia-lhe que o menino estava embriagado. E diante do leito de Ricardina, já deitada, ia murmurando muito infeliz: — O maldito dinheiro! O maldito dinheiro! Ao outro dia, Artur entrava na loja do Carneiro com a letra, muito inquieto, no receio de que, por vingança, o lojista «fizesse dificuldades... — Sei ao que vem, recebi o aviso — disse secamente o Carneiro. — Ouro ou notas? Então, num reconhecimento, Artur balbuciou: — Ambas as coisas... Eu realmente, Sr. Carneiro, tenho a pedir-lhe desculpa... foi uma rapaziada...

Àquele cavalheirismo da parte de um herdeiro, de um capitalista, o Carneiro enterneceu-se e estendendo-lhe as mãos ambas numa efusão: — O que lá vai, lá vai... Não me fez dano. Os meus parabéns. É gozar! É gozar! Fez-lhe recontar as notas, verificou o peso das libras. À vista daquela fortuna ali amontoada, cintilando sobre o balcão, Artur reprimia uma vontade de rir nervosa, e, quando saiu, abotoando com amor o casaco sobre o dinheiro, sentiu o mundo a seus pés. As tias, quando ele estendeu sobre a mesa o dinheiro para lho guardarem, ficaram aterradas. O quê! Pois ele queria levar para Lisboa aquela riqueza? Até lhes parecia pecado, e olhavam o ouro, o papel, com pavor, pensando que ia ser devorado na Babilónia, como se vissem reluzir nas libras olhos de sereias e nas notas negrejarem programas de bacanais. E não o queriam guardar! Não queriam responsabilidades... — Oh, tia, mas eu não hei de andar com esse dinheiro na algibeira. O meu baú tem a fechadura quebrada. Vou até comprar uma mala. Por fim, elas cederam, e fecharam o tesouro no gavetão da cômoda que servia de altar, no oratório, pondo-o sob a proteção vigilante dos santos amados. Nessa noite, por despedida, Artur ceou com Rabecaz, que tinha preparado uma carta de recomendação para o «pândego do Melchior». — O amigo indaga onde ele vive, entrega-lhe a carta, e ele há-de fazê-lo gozar! Onde conta o amigo hospedar-se? Artur tencionava ir viver com Damião. Afinal era o único amigo que tinha em Lisboa. Além disso, um Damião, um gênio, devia estar relacionado na literatura, na imprensa... e, enfim, ele queria sobretudo viver no meio intelectual... O Rabecaz oscilava a cabeça, desaprovando: — Ferre-se num bom hotel, ferre-se no Universal, no Chiado. Tem as cantoras à mão... Bela mesa redonda... tudo do fino, tudo do catita. Vá com o que lhe digo, ferre-se no Universal. Mas Artur, nos primeiros tempos, não queria afrontar o luxo desproporcionado de um hotel no Chiado. Mais tarde, sim, quando tivesse feito fato, roupa branca...

— Então, ferre-se no Espanhol, na Rua da Prata. Tem boa pândega também... Vá para o Espanhol. E até à porta de casa, foi-lhe fazendo recomendações: que visse Sintra, que fosse ao João da Mouraria, para gozar «o verdadeiro fadinho», que não deixasse de ir às espanholas. E que lhe escrevesse! Artur, pesado da ceia, escutava-o vagamente, de mãos nos bolsos, charuto caro nos dentes, e, no fundo escuro da noite, parecia-lhe ver a sua vida em Lisboa erguer-se, muito alta, como um troféu muito ornado, onde, de cima a baixo, felicidades vagas e deliciosas cintilassem. Quando bateu à porta, ficou surpreendido de ouvir uma voz grave que não conhecia, perguntar com desconfiança: — Quem é? Houve um ruído de trancas, de ferrolho corrido, e o forte portão abriu-se devagar. Um rapazote, de espingarda aperrada, esperava no meio do pátio, e a tia Sabina, de saiote pelos ombros, alumiava do patamar. Com tanto dinheiro em casa, não tinham querido ficar sós. O Vasco aprovara, e tinham mandado vir da quinta o moço com a espingarda. No dia seguinte, a despedida foi triste. Desde manhã, Sabina chorava pela casa. Ricardina, para disfarçar a sua desconsolação, ralhava, muito nervosa. Até o Albuquerquezinho parecia impressionado: toda a manhã passeara pela sala de jantar, de testa franzida, as mãos atrás das costas, rosnando: — Ingrato... ingrato! Mau pirata, mau pirata! O dia estava escuro e ventoso. Ao lado, na igreja, tocava a finados pela mulher do Dr. Marques, e aquele negrume de Inverno, o dobre do sino, pareciam aumentar a melancolia da separação. Artur, comovido, repetia a cada momento que era só por dois meses: — Mal comece o calor da Primavera, cá estou de volta. E era sincero, tomado de uma saudade por aquelas afeições simples que deixava, pelo seu quarto, que durante esses longos anos ele povoara de sonhos e de imaginações queridas. Às duas horas, o moço do char-à-bancs veio buscar o baú e Rabecaz apareceu. Ia acompanhar Artur à estação, e conservava-se à porta da sala, de chapéu na mão, erecto,

muito digno na presença das senhoras. — Adeus, tias, adeus! Então, num romper de soluços, Artur foi dos braços de Ricardina para os de Sabina. — É por pouco tempo, é por pouco tempo –balbuciava. — E vai bem recomendado, excelentíssimas senhoras — disse Rabecaz, curvando-se. E Artur saiu com os olhos arrasados de lágrimas. No pátio, encontrou o Albuquerquezinho, de braços abertos: — Boa viagem, Arturzinho. Fique descansado, eu cá vigiarei. Há-de haver ordem a bordo! No meio da estrada, um tirante que se quebrou atrasou o carro. Um vento triste gemia entre os pinheirais; já começava a cair gotas de chuva. Artur ia calado, ainda comovido, e o Rabecaz fumava sombriamente, com a chapeleira de Artur entre os joelhos. Mas à vista da estação, da máquina que já soprava, voltada para Lisboa, uma alegria tumultuosa invadiu Artur: já no vagão, ria, de nervoso, sentindo a moleza do assento, estofado de casimira suja, ceder confortavelmente, como um antegozo da vida em que se ia instalar agora. À portinhola, Rabecaz continuava os seus conselhos: que fosse às espanholas! Que gozasse! E de vez em quando, contemplava-o com amargura: — Seu felizão! — rosnava. A locomotiva silvou — o comboio rolou. — Não se esqueça da boquilha! — gritou-lhe ainda o Rabecaz.

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