Capítulo V A Capital · Capítulo 5 de 10
Obra Menu

Capítulo V

Tinha recebido ao outro dia as provas da primeira folha dos Esmaltes e Jóias, e, muito emendadas, ia levá-las, ele mesmo, preciosamente, à tipografia dos Castros — quando, ao chegar à Praça de Camões, no momento em que se preparava para deixar passar uma carroça, viu, descendo da rua de S. Roque, a Senhora do Vestido de Xadrez! No deslumbramento que lhe deu a presença da sua pessoa, o seu rosto oval, alumiado de dois grandes olhos negros, a graça da sua cabeça, toda a sua figura pequenina e mimosa, ficou imóvel. Uma carruagem a trote quase o atropelou: refugiou-se, atarantado, ao pé das grades da praça e viu-a seguir para a Rua do Correio. Não reparara nele! Levava pela mão um pequerruchinho. O seu vestido de fazenda azul tinha enfeites de seda de um azul mais escuro; ia devagar, apanhando com graça a cauda do vestido. Trazia luvas de peau-de-suède clara, e, andando, voltava-se, sorrindo para a criança que palrava, com passinhos muito vivos, as perninhas calçadas de meias encarnadas, toda rosada, gorducha, sã, apetitosa como um fruto, fresca como uma rosa. Foi-a seguindo. Não ouvia os ruídos da rua; as fachadas das casas tinham desaparecido: parecia-lhe que só ela passava nas lajes do passeio e que a claridade do dia adquiria um doirado glorioso. Apesar de magnetizado, retardava o passo: receava ofendê-la indo muito junto dela, como numa perseguição, e devorava com o olhar os folhos baixos do seu vestido, uma brancura de rendas da saia, os tacões altos das suas botinas. À esquina de uma travessa, num portal, uma pobre pedia, com uma criança no regaço: ela parou, deu-lhe uma esmola e aquela caridade simples comoveu Artur como a revelação de bondades delicadas, de piedades democráticas; discretamente, para se associar com ela numa generosidade comum, pôs dois tostões na mão descarnada da mulher. Um amor ávido de se produzir, de se manifestar, enchia-lhe o peito: aquela cinta fina, direita, atraía-lhe os braços, a trança negra, em catogan, chamava-lhe as pontas dos dedos; punha toda a alma nos olhos,

tão intensamente, que não ficaria surpreendido se ela parasse, se voltasse e lhe estendesse a mão. Notava sofregamente todos os seus movimentos, como revelações do seu carácter; viu-a erguer os olhos para um cartaz e lamentou que não fosse a sua peça, anunciada ali em grossas letras negras; teve ódio a um galego, que, ao passar pesadamente, quase lhe roçou a manga do vestido azul: como correria se alguém a ofendesse ou a pisasse! E apertava com furor a bengala, olhando em redor, pronto a defendê-la, imaginando que um bêbedo, ao sair de uma taberna, lhe passava as mãos imundas pelo rosto... Ele precipitava-se: ela refugiava-se nos seus braços, reconhecia-o — e um amor delicioso começava, que seria a glória, o fim, a alta significação da sua vida. Impelido por aquelas imaginações, ia quase junto dela. Tinham entrado na Rua de S. Bento; pensou então em passar adiante, voltar-se, fitá-la com adoração, dizer-lhe num longo olhar: Sou eu! Olha para mim, não te lembras? Mas uma timidez retinhao. Ia enfim adiantar-se, quando ela, atravessando a rua, entrou no portão largo de uma casa espaçosa de um andar! Que ferro! Mas talvez lhe aparecesse à janela! Havia uma vidraça entreaberta, por onde ele via, entre o estofo escuro das bambinelas, reluzirem vagamente, no fundo sombrio, doirados de quadros. Acendeu um charuto e pôs-se a passear devagar, esperando a cada momento ver chegar à varanda a cabecinha pálida e fina, já sem chapéu. Morava decerto ali, e a casa, com sua fachada amarela, as janelas do rés-do-chão gradeadas, o pátio de uma pedrinha miúda, com dois batentes de baeta verde ao fundo, sobre um degrau, atraía-o singularmente, por uma expressão discreta, aristocrática, como se a querida criatura que lá vivia lhe comunicasse uma graça digna e recolhida. Um guarda-portão grosso, barbudo, veio colocar-se à porta, rolando em redor olhares majestosos, e Artur, receando que ele reparasse na sua curiosidade inquieta, por prudência, tornou a subir a Rua do Correio. Esquecera agora as provas, o livro, e caminhando rapidamente, pensava com energia em coisas vagas que tentaria para se fazer conhecer, e conseguir o seu amor! A casa de D. Joana Coutinho, as suas soirées aristocráticas e literárias, onde ela, tão bonita, tão nobre, decerto ia, ofereciam-lhe o meio mais acessível. Eram o

rendez-vous do nosso High-Life, dissera Meirinho quando prometera apresentá-lo. Iria de casaca, com uma camélia vermelha... Pediria delicadamente ao Meirinho que o apresentasse... Qual! devia exigi-lo! Tinha direito a isso: comprara-lhe um paletot e duas pistolas, regalara-o com um bom jantar! Era necessário ser «finório». Meirinho devia saber o nome dela, as suas relações, os seus hábitos; Melchior também, ele que dizia conhecer até os cães vadios da rua... E de repente deu de rosto com o jornalista, que descia a Rua do Carvalho: — Homem, vinha a pensar em você — disse expansivamente, esquecido da infâmia da notícia do «Século». Melchior tivera um movimento para se esquivar, mas deu-lhe um aperto de mão mole, hesitante, com as faces escarlates. Que tinha feito? Por que não aparecera na redacção? O Saavedra perguntara por ele — gostara imenso do drama, o Saavedra... Mascava as palavras, espessamente, com um embaraço que lhe entumecia as feições — e de repente, sem transição, muito alto, com grandes gestos que faziam voltar pessoas espantadas, começou a invectivar o Roma. Fora o Roma quem escrevera o artigo do «Século», aquele patife! Tinha sido uma perfídia! Ele, quando o lera, até arrancara os cabelos... E cruzando os braços com violência, quase escandalizado com Artur: — Mas para que me não disse você a verdade? Que tem você com o Roma? Artur jurou, energicamente, que não tinha nada com o Roma. — Pois não o pode tragar! E, para falar com menos reserva, foi-o levando pelas ruas mais isoladas do Bairro Alto. — Você percebe, eu não podia escrever a notícia! Que diabo, eu é que tinha dado o jantar, não era decente. Pedi ao Roma: sempre é um vulto, é um estilista! Recomendei-lhe que falasse no drama, com um belo elogio, um elogio de arromba! Pois senhores, escreve aquela infâmia! Artur então indignou-se. Que pouca-vergonha! E ele então que até admirava o Roma e

os Idílios e Devaneios! Pois que tivesse cuidado! Que havia nos Idílios muitos podres... Versos errados, imitações, erros de gramática... Exaltado, falava alto, com os olhos brilhantes. Melchior olhava-o de lado, inquieto já daquela cólera, inesperada num moço provinciano e acanhado. E exagerava então ele mesmo o seu ódio ao Roma. A afronta era feita a ele, Melchior. Ah! mas o Roma havia de lhas pagar! Fiara-se nele, quê! — Você não imagina o desgosto que tive, Artur! Eu sou assim. Para os amigos — e você, caramba, calha-me — para os amigos, tudo! Sou uma vítima da minha dedicação. Sou uma vítima! Com uma verbosidade impetuosa, contou então outros casos em que a sua boa-fé fora surpreendida, indignamente surpreendida! É que ele era um cavalheiro: acreditava no cavalheirismo dos outros! É por isso que não tinha cheta. Era um mãos-rotas para todos. Já fora o mesmo com o inventário do papá: tinha perdido para cima de dois contos de réis. Por quê? Boa-fé, cavalheirismo! Mas, ao menos, passeava na cidade de cabeça erguida... Aquelas explicações tão íntimas, tão amigas, confidenciais, quase enterneciam Artur. Sentia-se reconhecido a Melchior de o ver sofrer por causa da notícia do «Século». Veio-lhe por ele um fluxo de amizade trasbordante: desejava passar-lhe a mão pela cinta, oferecer-lhe dinheiro; lembrou-se num relance de lhe dar uma boquilha. Não se tinha zangado com ele, ia dizendo: o Rabecaz sempre lhe afirmara que o amigo Melchior era um rapaz às direitas. — O Rabecaz é que sabe, o Rabecaz é que sabe! — exclamava Melchior, apossando-se sofregamente daquele testemunho, erguendo as mãos e os olhos para o céu azul. Ah, mas não se perdera nada! O Roma fizera a infâmia — mas por que era? Inveja. Todos consideravam o drama uma maravilha... — Disse-mo o Saavedra: o Artur é um grande dramaturgo. É o único! E o Xavier, que é quem entende, estava entusiasmado! Disse-mo ele. Você a publicar o livrinho de versos e ele a fazer um folhetim que o Roma estoira de raiva... Que ele não pode ver o Roma! E lamentou então aquelas inimizades entre a rapaziada. A rapaziada devia ser unida! Vinham descendo a Rua de S. Roque, e Melchior, querendo aplacar inteiramente Artur,

declarou que para apagar a má impressão da «notícia do jantar», era necessário fazer outra sobre o drama... — Por exemplo... — e parado defronte do lavares, meditava, com um dedo sobre os lábios, o chapéu um pouco para a nuca. — Uma notícia chic, de estalo... Por exemplo... Espere você... Mas de repente, dando com os olhos em dois indivíduos que subiam a rua devagar, perturbou-se, murmurou: Oh, diabo, adeus menino! — girou sobre os calcanhares e abalou, fugindo a grandes passadas. Artur, atônito, viu-o cortar, cosido com a esquina, por uma travessa do Bairro Alto. Os dois sujeitos aproximavam-se tranquilamente, rindo: um deles, grosso, de grande pera, deu um olhar de lado a Artur e elevou a voz: — O covarde do Melchior safou-se à correcção. Não as perde. Aquelas orelhas de burro pertencem-me, hei de arrancar-lhas em tempo competente! E seguiram com um ar de chacota. Nessa tarde, ao jantar, no Universal, Artur, timidamente, deu a Meirinho os sinais da senhora do vestido de xadrez, perguntando se a conhecia... Morava na Rua de S. Bento, um palacete de um andar só... Meirinho pareceu humilhado de a não reconhecer. De resto, como estivera tanto tempo ausente de Lisboa... havia camadas novas. Não era de estranhar que não a conhecesse. E recostando-se na cadeira, fazendo girar nos dedos o anel de armas, como para se comprazer na pureza da sua estirpe, lamentou a formação de uma aristocracia nova, abrasileirada, que era quem tinha o dinheiro, as carruagens... Citou a frase do velho marquês de Arrifana, «aquele original»: «Eu, quando passa um rico landau, volto a cabeça, porque tenho a certeza que é gente pulha, mas se vejo um ônibus, tiro o chapéu. porque estou seguro de que vão lá pessoas de nascimento...». — É bem dito, hem? — Cofiou com satisfação a bela barba clara e inclinando-se ao ouvido de Artur: — Por quê? Temos conquistazinha? Artur negou. Era pura curiosidade. Encontrara essa senhora, parecera-lhe bonita...

Queixou-se então da sua solidão: não tinha relações... Às vezes, à noite, enfastiava-se. E disse, rindo negligentemente, como gracejando: — Então quando vamos nós à D. Joana Coutinho? Meirinho engoliu à pressa, bebeu um gole de vinho e pousando o copo: — Ah, não me tenho esquecido. Eu até faço empenho... É necessário primeiro, naturalmente — é a etiqueta — pedir-lhe autorização. — E mais baixo: — Lá vi, lá vi a notícia do «Século». Lá me fizeram o favor... fazem-me o favor de me estimar... – Recostou-se com beatitude, cerrando os olhos, como para saborear a simpatia ambiente: — Que a festa esteve bonita, muito bonita! Com franqueza — quanto? Artur corou e disse: — Vinte e duas libras, salgadinho! Meirinho refletiu um momento e com gravidade: — Muito razoável, muito razoável! E lá vi, lá vi: os calembourgs, muito bem aceites... E dirigindo-se a um sujeito pesado, de beiços grossos e barba grisalha, que comia com uma gula lenta, um vago suor oleoso na pele avelhada: — Oh, Bento Correia, tem aqui um rival! Ouvindo o nome de Bento Correia, uma celebridade antiga, quase clássica, jornalista, funcionário, Artur fez-se escarlate. Bento Correia voltou-se e com uma voz empastada, lenta, a boca cheia: — Então pertence à confraria? — Havia de ouvir. No jantar do Melchior, leu-nos uma comédia... Oh, menino, de estalar! Calembourgs deliciosos! — Estava convencido da excelência dos calembourgs, desde que os vira celebrados num jornal. Artur, desesperado, envergonhado, acudiu: — Não, não é só isso... É um drama... — Não senhor, não senhor! — exclamou Meirinho, como para contradizer aquela modéstia excessiva. — Muito bons! Muito bons! O dos ovos é delicioso! É digno do Fígaro! — Vamos lá a ver o dos ovos — disse Bento Correia, com a sua tranquilidade majestosa

e enfartada. Meirinho citou-o, rindo, saboreando-o ainda. Bento Correia parecia satisfeito e disse logo outro que tinha feito na véspera, na reunião da maioria; repetiu o boeuf à la mode e continuou falando no seu tom espesso com um sujeito ao lado que escutava com os olhos, com o queixo, com toda a sua pessoa provinciana, numa admiração de discípulo, esgaravatando os dentes com a unha. Artur considerava a grossa face lustrosa de Bento Correia, o seu olhar amortecido caindo de sob uma pálpebra pesada, a sua mastigação vagarosa, pensando, exasperado, que, para aquele homem ilustre, ele era apenas um fazedor de calembourgs, um insignificante! Era, decerto, a opinião dos outros, de todos os que tinham lido o «Século». Parecia-lhe ver nos rostos clareados de uma satisfação alvar, repleta, um desdém apático pelas suas habilidades de «arranjador de graçolas». Os lados nobres, elevados, do seu talento, desapareciam sob a popularidade de uma facécia incidental! E fora o Roma, o canalha, que preparara aquela perfídia acabrunhadora! Era o Meirinho, o imbecil, que a exagerava, a prodigalizava! Tinhalhes ódio! O Meirinho, sobretudo, irritava-o, com o seu gesto de acariciar a bela barba clara, arrebitando o dedo mínimo de unha envernizada. O seu furor cresceu quando o Carvalhosa, que chegara tarde, com o aspecto sujo de quem vem de longe, a testa vermelha do vinco do chapéu, a cabeleira desleixada, lhe disse, sentando-se, com um tom negligente e superior: — Então temos algum novo calembourg? Positivamente era uma conspiração! Queriam diminuí-lo, amesquinhá-lo, reduzi-lo às proporções grotescas de um chalaceador de almanaque! Planos vagos atravessaram-lhe o espírito: fazer uma declaração nos jornais, imprimir imediatamente o drama! Desejava, sobretudo, chicotear o Roma. — E, furioso, ia erguer-se, quando apareceu o Sr. Alvim, adiantando para a mesa a sua carinha velha, muito rapada, de rugas duras, com aqueles tons de greda lívida que a caracterização e o gás dão aos antigos cômicos. Pequenino, subtil, errava todo o dia pelo hotel, fazendo vagamente sortes de prestidigitação às pessoas que encontrava, tirando um limão de uma gola, um bugalho de um nariz, empalmando um par de luvas, sob o olhar atônito de algum provinciano; estendia gostosamente a mão a uma placa de

cinco tostões e o seu sorriso miúdo tinha um servilismo lisonjeador; dobrava-se em cortesias com a elasticidade de um clown; dizia-se que conhecia agiotas e que geria um lupanar: era geralmente estimado, era o «maganão do Alvim». Parecera desde o princípio simpatizar com Artur, achando nele uma passividade favorável às suas «sortes». E apenas entrou, aproximando-se na ponta das botas cambadas, seguido de olhares já divertidos, tirou-lhe do queixo, com uma surpresa cômica, uma pera de Inverno. Em redor, riram: Bravo, seu Alvim! E o Bento Correia concluiu paternalmente: — Isso é tirar uma pera de um queixo que a traz rapada! Era um famoso calembourg! Causou deleite! Aquele diabo do Bento Correia!... Aquele era de traz! Meirinho, entusiasmado, acotovelou Artur: — Este é soberbo, homem! Ponha-o na comédia, ponha-o na comédia! E Carvalhosa, com a boca cheia, repetia: — Ponha-o na comédia! É soberbo! — De artista — disse com autoridade o Padilhão, olhando Artur como para o aconselhar a utilizar aquele soberbo calembourg. Artur sentia diante dos olhos uma névoa sanguínea. Era uma troça com certeza! Abafava. Disse vagamente: que calor! E agarrando o chapéu, saiu, ouvindo ainda as risadas na sala. Riam-se dele, decerto! Desceu o Chiado, acotovelando gente, com palavras vagas, murmuradas, que lhe saíam da boca como um vapor de cólera. Entrou no Martinho, e o criado, que limpava o mármore da mesa, ficou admirado do gesto brusco com que se atirou para uma cadeira e da voz furiosa com que pediu genebra. Quando o seu furor se evaporou, Artur. reparou no republicano, no Nazareno, que, ao lado, com a chávena defronte, fumava, a cabeça encostada à parede, as lunetas reluzindo sombriamente. Os burgueses do Universal tinham-no indignado tanto que sentiu, num impulso, uma simpatia ardente por aquele homem, hostil à burguesia, que falava nos Clubes contra ela e lhe preparava a morte. Depois das faces alvares que tinham rido do calembourg do Bento Correia, achava uma alta expressão inteligente, crítica, naquela fisionomia seca de

jacobino, que tomava o seu café com uma mansidão filosófica. Como o seu drama, que era a glorificação democrática do gênio plebeu, agradaria àquele republicano, àquele igualitário! Parecia-lhe agora que os Carvalhosas, os Padilhões, queriam amesquinhar o seu drama, por sentir nele um grande sopro revolucionário; e na sua indignação contra os Conservadores, os Bentos Correias, os Meirinhos, decidiu servir as ideias do Nazareno, dramatizá-las. Desejava conhecê-lo, desabafar com ele, dizer mal, odiosamente mal, da canalha que lá em cima, no Universal, lambia os bigodes húmidos de café, partindo nozes apaticamente, no enfartamento de uma nutrição cara. Procurava um meio de lhe falar, — quando Nazareno pediu ao criado a Revolução de Setembro que estava diante de Artur, aberta, enxovalhada: apressou-se a oferecer-lha, meio erguido, sorrindo; o republicano agradeceu com um movimento reservado, percorreu o jornal um momento, atirou-o para o lado com desdém e bebeu os últimos goles de café. Aquele gesto encantou Artur: mostrava o desprezo do republicano pela literatura dos Romas, dos Xavieres, da canalha! E pediu outro café, demorando-se, esperando um incidente, um olhar, alguma palavra casual que os reunisse. Mas Nazareno, imóvel, soprava espaçadamente o fumo do cigarro. Era talvez um amigo de Damião, pensou Artur. Poderia perguntar-lhe, muito naturalmente, a morada do Damião ou quando voltaria do Algarve. E ia falar-lhe, animado por dois cálices de genebra, quando o republicano pôs três vinténs sobre o mármore da mesa, ergueu-se, deu um jeito ao cabelo diante do espelho e saiu, direito e seco. Que ferro! Saiu também, imensamente desconsolado. Aquela contrariedade fez-lhe pensar, com amargura, nas outras, bem maiores, que lhe estragavam a vida: o seu amor por aquela criatura pequenina e pálida, entrevista, logo perdida; a reputação de farsa dada ao seu drama, tão filosófica; as soirées de D. Joana Coutinho, prometidas e sempre adiadas; os seus entusiasmos literários pelo Roma, pelo Carvalhosa, retribuídos com perfídias, desdéns, troças... Tudo na sua vida era assim incompleto, esboçado, fragmentário; não encontrava nada de sólido em que se fixar, a que se dedicar: amor, relações, glória, tudo lhe escapava de entre as mãos, como a água que uma criança quer apanhar e lhe foge entre os dedos. E sentia uma solidão, uma frialdade, que a noite enevoada aumentava. Caíra um nevoeiro, que os altos

prédios entalavam, condensavam, em que a luz do gás se amortecia e os vultos tomavam um tom neutro e encolhido; as fachadas escuras pareciam mais tristes, vagamente fundidas na incerteza baça da bruma. Artur caminhava, triste: sentia a névoa prender-se-lhe ao bigode, às pestanas, amolecerlhe a goma do colarinho, e toda aquela humidade depositar-se-lhe na alma. Cheio de tédio, sentindo-se mais só nas ruas vazias de onde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espírito com genebra, rolar-se no deboche. Voltou ao Rossio: entrou num pequeno café, onde a cor suja da parede, o soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz dos bicos tristes de gás. Instalou-se a um canto com a garrafinha de genebra, melancólico, pensando no botequim da Corcovada que, agora, lhe parecia mais confortável, mais amável do que tudo quanto encontrara em Lisboa, com a simpatia verbosa do Rabecaz, o lume a estalar do outro lado do tabique na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no bilhar. Um pigarro pertinaz, numa mesa ao lado, fê-lo reparar num sujeito que tomava um cabaz: pequeno e grosso, trazia um xaile-manta aos ombros e a face redonda, barbeada, mole, tinha uma cor lívida de pele de galinha; no seu olhar embaciado havia um langor mórbido e grotesco. Sorriu para Artur, dirigindo-se-lhe com uma vozinha fina: — Má noite! — Muito má! O indivíduo imediatamente, arrastou-se pela banqueta de palhinha até junto de Artur, com um movimento derreado dos quadris, os olhos revirados numa ternura chorosa: — É servidinho de um cabaz? Artur recusou. Aquela proximidade do velho embaraçava-o: o indivíduo tinha um não sei quê de pegajoso na pele, um roliço de perna efeminado que repelia, e nos seus olhos, de cor indecisa e que não deixavam Artur, errava uma luxúria turva, equívoca, flácida. — Então por que não vai um cabazinho? — disse o homem, mais baixo, chegando-se. Artur, instintivamente, recuou com nojo. O outro teve um movimentozinho de quadris, tocoulhe no joelho e muito canalhamente: — Não tenha medo, menino!

Artur compreendeu, ergueu-se e com os punhos cerrados: — Seu mariola! — Então, menino, então! — disse o outro tranquilamente. Artur berrou. pelo criado, atirou uma placa para a mesa e saiu furioso. O nevoeiro cerrava; e Artur, galgando o Chiado, impelido pela indignação, ia murmurando: — Canalha de cidade! Daí a dias, de manhã, revia as provas dos Esmaltes e Jóias, quando a porta se abriu discretamente e Meirinho entrou, pedindo muitas licenças, envolvido no seu belo robe-dechambre de ramagens, o aspecto mais risonho, mais serviçal. Se estava a trabalhar, não o queria incomodar! A rever as provinhas, hem? Examinou-as por cima do ombro de Artur, sem o deixar levantar, dizendo: — Por quem é, por quem é, patrício! Eu não vim incomodar! Bonito tipo; elzeviriano, não? É muito chic. Versinhos de amor, hem? Seu maganão!... Ora vamos a ver, vamos a ver. — E inclinava o rosto para escutar, com êxtase. Artur, lisonjeado, leu, na folha que revia, algumas quadras às Colinas de Santo Estêvão — «que era lá nos seus sítios»: Oh! colinas verde-negras Onde se escondem casais, Pondo brancuras de cal Nos ramos dos pinheirais... Colinas de Santo Estêvão, Onde eu à tarde passeio, Colhendo nas nuvens brancas Motivos de devaneio! Meirinho achou «de apetite». E sorrindo maliciosamente, quis saber se ele não fazia às

vezes «versinhos frescos», como os do Bocage, por exemplo... Artur corou como uma virgem: decerto que não, que horror! — Pois têm seu cabimento — disse Meirinho com um ar entendido. — Eu pelo-me! E olhe que na sociedade gosta-se! Gosta-se! Já se sabe, nada de grossa indecência! No gênero do Padilhão. O Padilhão para isso é um Deus! Conhece o Botão de Rosa, do Padilhão? Não conhece? — E parecia admirado. — Pois olhe, é falado, e como o amigo é literato... Mas em Paris é que há meninos para isso! Oh! — e revirara os olhos. — E poetas de fama! São muito apreciados. É muito chic! Artur, ainda vermelho, estava indignado. Havia na voz compenetrada, nos movimentos de olhos de Meirinho, fazendo o elogio da poesia obscena, uma satisfação langorosa que lhe lembrava, por vagas semelhanças, o velho do café do Rossio; e aquelas opiniões estúpidas faziam parecer mais irritante a correcção da sua barba e o catitismo do seu belo robe-dechambre de ramagens. Meirinho passou o lenço de monograma bordado pelo nariz, e mudando de tom: — Pois eu vinha saber se o amigo quer ir hoje à D. Joana Coutinho? Que surpresa! Porém, à alegria repentina que lhe veio, misturava-se um vago medo que lhe fez dizer, sem saber por quê: — Não, hoje... Arrependeu-se logo. Queria revogar a palavra. Remexia nervosamente nas folhas impressas do livro, com as orelhas escarlates. Meirinho exclamou: — Qual! O amigo não tem que fazer. Eu já falei à D. Joana: ela tem imenso gosto... Recita-se, naturalmente. É necessário levar uma poesiazinha... Artur, por fim, aceitou, reconhecido. E para esconder o seu entusiasmo provinciano, perguntou a que horas devia ir, quem estaria... — Ah — fez Meirinho — talvez lá encontre a tal senhora que mora em S. Bento. Se é pessoa de sociedade, uma ou outra terça-feira, deve lá ir. Vai lá tudo! Artur fez-se vermelho de prazer. Calculou logo que devia ir comprar luvas cor de palha,

uma flor... Sentia uma nova estima por Meirinho: era um bom amigo, este; pensava mesmo em lhe dedicar uma poesia no livro... — Como o tempo melhorou, hem! — exclamou Meirinho que se aproximara da janela. De manhã ainda chuviscara, mas agora o céu azul, de um azul terno e húmido, reluzia entre largas nuvens algodoadas que a luz orlava de uma tonalidade macia de leite. Artur abriu a janela. Ao contentamento do bonito dia, misturava-se a alegria de ir à soirée: sentia-se vagamente enternecido. Via-se lá, numa sala rica, onde caudas de seda rugem sobre os tapetes, falando-lhe baixo, a ela, muito junto do leque aberto sobre o lindo rosto corado de sensações doces. Que recitaria? — Recita-se, hem? — perguntou ainda a Meirinho. — Costuma-se — disse o outro, que parecia distraído, passeando pelo quarto, afagando a barba, apertando os cordões do robe-de-chambre. Às vezes parava, sorria para Artur, cerrava os olhos, dava alguns passos, curvado para as suas chinelas bordadas. De repente disse: — Então às nove, de casaca... Dirigiu-se para a porta; mas parando, com um grande gesto: — Homem, esquecia-me! — E riu baixo um momento, como se fosse dizer alguma coisa de muito cômico: — Sucede-me uma história engraçada. Esperava aí hoje uns dinheiros... Tem graça, não? Coisas do país!... É de um ridículo! Esperava um dinheiro... Pois senhores, descuidam-se... E aqui estou eu... Tem o amigo dez libras, até amanhã? Artur, um momento surpreendido, foi logo ao baú tirar as libras de um cartucho. E Meirinho, fazendo-as escorregar negligentemente para o largo bolso do robe-de— chambre: — E de um ridículo, hem? Coisas do meu procurador! — Tornou a rir ambiguamente: — E então às nove, de casaca. E gravata preta; é escusado gravata branca... Sorveu outro riso, e já com a mão no fecho da porta: — A D. Joana Coutinho há-de estimar muito. Já falei nos calemburzinhos. Ela já sabe, ela já sabe! Riu de novo, e com um deslizar doce das chinelas, saiu, dizendo:

— Au revoir, cher! Artur ficou extremamente agitado. Ia ver enfim essa coisa extraordinária: a SOCIEDADE! Imaginava vagos diálogos, frases originais que diria, posições em que se sentaria: e sentia já umas indefinidas cólicas, a que se misturava um sopro de vaidade alegre e de timidez retraente. Se ela lá estivesse? Ousaria lembrar-lhe a estação de Ovar? E fumando, pelo quarto, perdia-se em imaginações flutuantes, em que se formava e desmanchava o romance fragmentado dos seus amores com Ela — desde o primeiro olhar até aos ciúmes do marido, até a um duelo possível! Nesse momento um criado entrou com uma carta: era do Sr. Melchior e o galego esperava a resposta. «Amigo Artur» — dizia o jornalista — «hoje, por acaso, eu e outro amigo combinámos uma partida ao Clube, com damas espanholas. Despesas divididas como num piquenique de amigos. Quer você vir? O outro rapaz é conhecido, é dos nossos. Resposta. O rendez-vous é às 9 em ponto na Casa Havanesa. P. S. — A formosa Concha está pronta a ir e você será o seu cavaleiro! Viva a folia!!» Artur ficou com o bilhete na mão, hesitando: na letra irregular e desmanchada de Melchior entrevia como que uma impetuosidade de troça, desalinhos de toilette. A ideia da Orgia aparecia-lhe toda reluzente de tentações: numa abundância de luzes de gás, jactos doirados de champagne saltando dos gargalos estreitos, mulheres de decotes atrevidos cantando, valsas improvisadas fazendo saltar os cristais sobre a mesa e em que o frou-frou das sedas se misturava ao estalar dos beijos!... Desejava muito ir — mas a sua promessa a um homem tão bem relacionado como Meirinho?... A esperança de a ver, a Ela?...Respondeu, não sem orgulho, «que sentia muito, mas já estava convidado para uma soirée no High-Life». A casa de D. Joana Coutinho, a Santa Isabel, era um antigo prédio, com um pátio lajeado de pedra miúda, onde às vezes se via, a um canto, desatrelada, a carroça da água. Casada com um fidalgo da província, rico e já de idade, D. Joana Coutinho recebia às terças-feiras; aquelas soirées constituíam a sua posição social. De vez em quando, com a

prudência de quem esperta uma lareira que tende a esmorecer, alguns amigos (Bento Correia dizia «alguns devotos») faziam publicar nos jornais — «que as deliciosas terças-feiras, da Exma. Sra.ª D. Joana Coutinho, continuavam a ser a grande atracão da sociedade elegante». — Dizia-se geralmente que eram «soirées ecléticas»: viam-se, com efeito, nas três salas seguidas, velhos fidalgos, novos deputados, jornalistas, um ou outro banqueiro, algum ministro, poetas e estrangeiros. Às vezes recitava-se; quando dominavam as raparigas, valsava-se ao som do piano; e como seu marido conservava muitas relações na província, via-se também errar entre os grupos caracteristicamente lisboetas, algum sujeito embezerrado, de cores sadias, chegado do fundo da Beira ou das alturas de Trás-os-Montes, incomodado na casaca vincada das dobras da mala. O que sobretudo tornava estas soirées estimadas, era a disposição da mobília e a moderação da luz: as cadeiras e os sofás, cobertos, de Verão ou de Inverno, das suas housses de fustão branco, estavam dispostos de modo a formar retiros favoráveis à intimidade de um grupo ou de uma coterie, recantos obscuros, excelentes para o diálogo murmurado de um par sentimental. Às vezes, via-se assim, num canto mal alumiado, um peitilho de camisa muito chegado a um leque aberto: — era um escandalozinho em plena função, como dizia o maligno Xavier; outras vezes, de uma daquelas alcovas — Bento Correia dizia, impudentemente, «as alcovas de D. Joana» — via-se erguer um sujeito, com o rosto muito sério, entumecido, escarlate, batendo as pálpebras, como um homem mal acordado e a quem se desejaria perguntar: fez a sua soneca, hem? — As luzes, lâmpadas Carcel de globo fosco, com fortes abat-jours, concentravam toda a claridade no meio da sala, sobre inocentes álbuns e honestas vistas estereoscópicas, deixando junto às paredes uma zona de sombra adorável: assim não era necessário às senhoras, como se dizia, «puxar muito à toilette»: ligeiras modificações de enfeites, no mesmo vestido, bastavam durante um trimestre; além disso, a penumbra favorecia os rostos muito pintados e as belezas decaídas tomavam, naquele esbatido doce de tons neutros, um encanto imprevisto. Por isso D. Joana Coutinho era muito estimada. Apesar de ser casada com um velho monótono e passivo e de ter, com os seus esplêndidos olhos negros, a sua alta estatura airosa, «inspirado um bonito par de paixões», era honesta. Tinha grandes amizades femininas:

andava às vezes durante um Inverno inteiro com alguma rapariga que ninguém conhecia, desentranhada dos fundos neutros da burguesia, e que ela trazia a seu lado no landau, instalava no melhor lugar do seu camarote em S. Carlos ou no centro da sua sala, às terçasfeiras, cocando-a sempre com olhos brilhantes, erguendo-se de repente para lhe ir murmurar um segredo, com risinhos quentes, muito zelosa dos seus olhares, dos seus apertos de mão. Depois, no Inverno seguinte, «outra favorita reinava»; as suas criadas tinham a reputação de bonitas e os rapazes costumavam, ao entrar, demorar-se nos corredores, tirando o paletot devagar, na esperança de entrever algum dos rostinhos maganos das «escravas de D. Joana». Estas circunstâncias davam lugar a sorrisos malignos: chamava-se-lhe, rindo: D. Juana. Mas ela era tão amável, tinha um sorriso tão bom, os seus apertos de mão faziam-lhe tilintar os braceletes de um modo tão atraente — sempre tão pronta a servir de empenho a um ministro, a organizar um bazar de caridade, a reunir um público para a leitura de um poema triste, que — como dizia Bento Correia — «todo o mundo tinha a caridade de não aprofundar». Seu marido, de resto, parecia contente e orgulhoso dela. Era um homenzinho amarelo e silencioso, a quem os convidados, ao entrar, davam um aperto de mão mole e as senhoras mostravam os dentinhos num sorriso curto; depois, não se reparava mais nele. Muito metódico, muito econômico, toda a noite errava subtilmente pela casa, arranjando uma cadeira, diminuindo no corredor um bico de gás, levantando um paletot caído. Dizia-se geralmente que sofria de um aneurisma: dois sujeitos, ambos empregados no Ministério do Reino, ambos graves, seguiam com impaciência a marcha da enfermidade, estudando-lhe a amarelidão, os cansaços, na esperança de ainda um dia gozarem os dez contos de réis de renda da viúva. Dizia-se porém que, morto o marido, D. Joana Coutinho se retiraria a um convento — onde o número e a idade das educandas satisfariam amplamente as suas necessidades de ternura feminina. Davam nove horas no relógio do corredor quando Meirinho e Artur entraram, para despir os paletots, num pequeno gabinete alumiado por serpentinas, ao lado de um antigo tremó de província. Artur, muito nervoso, encharcado de água-de-colônia, hirto na sua casaca,

com uma compressão de medo no estômago, calçava, um pouco trêmulo, as luvas cor de palha, quando ouviu, saindo de uma sala próxima, um zurrar clamoroso de jumento! Voltouse, espantado, para Meirinho... Mas este apenas sorriu, alteou o peitilho, penteou cuidadosamente ao espelho a bela barba e disse: — É perfeito, hem? Ao lado, o burro zurrava convulsivamente e aquele ronco bestial, vindo através de um reposteiro de fazenda escura, com um monograma bordado sob uma coroa, dava a Artur a impressão de uma estrebaria instalada numa soirée. — É o nosso amigo — disse ainda Meirinho. Deu um puxão à casaca e ergueu o reposteiro. Era com efeito o Padilhão: no meio da sala, torcido sobre uma cadeira, com as mãos nas ilhargas, a face roxa, fazia a sua grande imitação do «burro com cio»! Admiravam-no! Sujeitos graves, as mãos atrás das costas, tinham nas faces burocráticas expressões aprovadoras e profundas; dos sofás, na penumbra, estendiam-se magros pescoços avelhentados, bocas de poucos dentes entreabertas de pasmo; e as senhoras, de pé, com o peito alto, a cabeça de lado, o rosto luzidio de satisfação, saboreavam com risinhos cálidos a sensação de bestialidade que espalhava na sala aquele rouco bramar de cio! — Muito bem! Muito bem! Magnífico! Ele erguera-se com os olhos injectados, arquejante, alargando o colarinho, murmurando: — Esta do burro, mata-me! Trouxeram-lhe água com açúcar; as senhoras cercavam-no, electrizadas, como procurando nele o cheiro, o calor, a excitação de Estio do animal. E pediam-lhe que fizesse a Emília das Neves! Só um instantinho! Padilhão repelia-as, quase brutalmente, inchado, bufando, e foi refugiar-se num sofá, ao pé de duas velhas, abanando-se com o lenço: — Isto não é forja de ferreiro! Isto não é forja de ferreiro! Esta do burro, mata-me! Meirinho então, correndo para D. Joana Coutinho que atravessava a sala, apresentou Artur. Ela deu-lhe um grande shake-hands varonil, com um sorriso amigo que lhe descobriu os

dentes até às gengivas: — Muito prazer... É admirável o Padilhão! Tem-nos divertido imenso! Artur olhava-a: muito alta, de feições um pouco masculinas, as maçãs do rosto salientes e coradas, o nariz grande, os lábios tão vermelhos que pareciam sanguinolentos — a sua força estava nos olhos encovados, muito negros, brilhantes, voluntariosos; da sua cinta espartilhada, móbil, seca, caía uma camada espessa de saias, com um ruge-ruge de engomados e de faille dura; e havia na sua magreza, nos seus movimentos de uma ondulação felina, no seu cabelo preto e forte, no macio das suas mãos longas e estreitas, naquela quantidade de saias rijas, um tom ardente, decidido, que preocupava e irritava. — Há muito tempo em Lisboa? — perguntou-lhe ela. Mas Padilhão, erguendo a voz do fundo da sala, de entre um grupo de senhoras: — Ó Sra.ª D. Joana, venha cá! Venha decidir! Ela deu um sorriso a Artur e foi logo, balançando a camada sonora das saias. Artur só, isolado, procurou Meirinho com um olhar inquieto, e, não o vendo, ficou muito embaraçado, com o claque colado à perna, sentindo o acanhamento entorpecê-lo, os dedos errantes sobre o bigode. A penumbra projectada pelo grosso abat-jour verde esbatia as fisionomias num tom neutro, apagado: todas lhe eram desconhecidas. Olhou um momento uma mulher bonita, de vestido de seda amarela, que, enterrada numa poltrona baixa, o leque aberto sobre o colo, o olhar no chão, escutava com um vago sorriso um sujeito de pince-nez, de pulsos magríssimos, que gesticulava, muito chegado a ela; junto da mesa, três meninas cochichavam com risinhos, os rostos unidos, examinando um álbum. Artur, então, desejou também um álbum para folhear e os seus olhos voltaram-se ansiosamente para D. Joana Coutinho, que de pé, defronte do Padilhão, muito estirado no sofá entre vestidos de mulheres, ria, toda animada, com o braço passado pela cinta bonita de uma menina loira e gordinha. Para não, estar imóvel, aproximou-se a examinar um quadro que pendia por cima de uma consola onde havia porcelanas: mas na meia obscuridade que dava o abat-jour, apenas via os doirados desbotados do caixilho; voltou-se, mais embaraçado, infeliz: duas velhas com enfeites negros, as mãos no regaço, um aspecto de placidez embrutecida,

pareciam examiná-lo com uma curiosidade desdenhosa; quase angustiado, furioso com o Meirinho que desaparecera, com D. Joana que o esquecera — entrou na outra sala, com a esperança de a ver, a ela! Na sua turbação, distinguiu apenas, na mesma penumbra que caía dos abat-jours, peitilhos claros de sujeitos recostados, corpetes de seda onde reluziam medalhões; leques palpitavam devagarinho; falava-se francês. Junto de uma jardineira, no meio da sala, uma magnífica mulher de aspecto escultural, de bela e soberba massa de cabelo loiro, remexia distraidamente em fotografias espalhadas: sentada de lado à beira da cadeira, toda a riqueza das suas linhas ficava em relevo e a longa cauda escarlate do vestido estendia-se amplamente sobre o tapete. Mas Ela não estava, não viera, não era talvez mesmo das relações de D. Joana. A soirée perdeu para Artur todo o encanto; todo o atraente calor ambiente pareceu-lhe fictício, de um cerimonial frio. Ia retirar-se, intimidado, quando ouviu a voz de Carvalhosa: gesticulava entre dois sujeitos, ao fundo, junto da chaminé, onde um guerreiro de bronze, sobre um cavalo empinado, brandia uma espada. Aproximou-se logo dele, com um sorriso quase servil, todo reconhecido; o Carvalhosa deu-lhe um olá! seco, desdenhoso, e mesmo abaixou a voz. Artur então, desesperado, examinou um momento o bronze; sentia os pés pesados como chumbo, as orelhas ardentes; muito perturbado, veio tropeçar na longa cauda de seda escarlate: a senhora voltou-se com um olhar que brilhou e aconchegou o vestido com um gesto brusco, quase irritado. Artur voltou à primeira sala e ficou um momento junto da porta, imóvel: sentia que as articulações se lhe emperravam. E teria de passar toda a noite, errando assim de ombreira em ombreira, mudo, grotesco, lúgubre?... E as três meninas que conservavam ainda egoistamente o álbum! Como desejaria aproximar-se do Padilhão, refugiar-se nele como numa intimidade animadora; mas via-o tão cercado de saias, de sedas, de penteados enchumaçados, de leques abertos!... E sobretudo, a intimidade que unia aquelas pessoas e as envolvia como uma atmosfera — tornava o seu isolamento mais pungente. Deviam decerto pensar: «que provinciano, que lapuz!» Achou aquela gente artificial, egoísta, amaneirada! Que saudades do seu robe-de-chambre de veludo, no quarto do Universal, ou do botequim da Corcovada, em

Oliveira! Porém não podia ficar ali, espectralmente colado à ombreira da porta! Já surpreendera olhares de lado, sorrisos que lhe punham nas costas um suor aflito, e com um esforço da vontade retesada, aproximava-se da mesa, para se apoderar das vistas estereoscópicas — quando D. Joana, o peito alto, batendo o leque, num ruge-ruge de faille rica, se dirigiu a ele: — Então tem gostado de Lisboa? — Muito, minha senhora! — respondeu com todo o sangue nas faces. — Ah, gosta-se sempre!... — Sorria por cima do ombro de Artur para o grupo das meninas que folheavam o álbum: ameaçou-as mesmo com o leque, com um rápido brilhar das pupilas negras. — Está um tempo muito agradável, não? — Adorável! — E vai durar, é de esperar!... — Tornou a sorrir para as raparigas, a ameaçá-las com o leque. — E demora-se? — E provável! — Terei muito prazer... — abaixou-lhe a cabeça com um movimento lento que lhe cerrou as pálpebras e com outro sorrisinho que lhe descobriu as gengivas, afastou-se, dizendo ainda: — O Meirinho está com o seu whist... Artur viu-a um momento falar às meninas, rindo, com a cinta sempre móbil, como que sustentada no ar pelo tufado das saias; depois, debruçar-se para o álbum, falar-lhes sobre o rosto, pondo a mão no ombro de uma ou de outra, viva, radiante; achava-a provocante com o seu longo nariz, os dentes tão brancos, aquela magreza quase masculina onde corria uma vibração de nervos excitados; e mais animado, como se as palavras que dissera lhe tivessem dissipado o entorpecimento, atravessou a outra sala, para ir ver o Meirinho na sua partida de whist. Havia dois reposteiros; abriu um deles, e topou com uma porta fingida: num vão estava uma vassoura! Vermelho até à raiz dos cabelos, ergueu o outro: ao fundo de uma saleta, Meirinho lá estava a uma mesa de whist. Artur apoderou-se avidamente de uma cadeira e

instalou-se entre ele e um sujeito de suíças grisalhas e óculos de ouro. — Então tem-se divertido? — perguntou-lhe Meirinho. Recebeu as suas cartas e recaiu numa reflexão imóvel, coçando devagar a barba. Artur não sabia o whist; mas como se fumava, acendeu um charuto, mostrando-se interessado pelo jogo, seguindo atentamente as cartas, estabelecido ali como num refúgio amável, no terror da sala, das ombreiras solitárias, das caudas de seda... O monótono movimento das cartas ia-lhe dando um torpor sonolento: com o claque nos joelhos, a cabeça vazia, uma vaga sede, abandonava-se numa inércia mole, enfastiada, de que o tirava o Meirinho de vez em quando, dizendo-lhe, com um tom satisfeito: — Não se faz vintém! Aquilo escandalizava o sujeito de óculos, que perdia: — O que não se faz, o que não é decente é ter uma sorte tão escandalosa! Parecia ter um gênio irritável: certas cartadas faziam-no mexer na cadeira com um rosnar hostil; já por duas vezes olhara para Artur, de lado, com rancor. Artur acendia outro charuto, quando o sujeito de óculos que jogara uma carta com ira, batendo-a fortemente na mesa, ao ver Meirinho estender a mão para a vaza, pulou na cadeira, fez estalar os nós dos dedos, repeliu a caixa de rapé, e disse entre os dentes: — Eu, quando há calistos, não posso! Não posso! Nem o jogo é um prazer! Artur não sabia o que era um calisto, mas estranhou o acento sibilante, furioso, daquela voz caturra: sentia que o sujeito de óculos o detestava; o parceiro dele, mais grave, muito calvo, disse: — Então não se vai fazer a corte às senhoras? Artur respondeu: — Estou bem, gosto de ver jogar! O dos óculos torceu-se na cadeira, soprando. Meirinho, mudo, cofiava a barba, a face risonha, banhada na alegria do ganho. Deram de novo as cartas, mas ao ver as suas, o sujeito de óculos deu uma punhada na mesa:

— Uma coisa assim! Tinha a face injectada e por trás dos óculos, os olhos pequeninos faiscavam-lhe; de repente, a uma cartada infeliz, recuou a cadeira com um oh! surdo, rangeu os dentes e voltando-se para Artur, trêmulo de cólera: — Perdão, eu não tenho o gosto de o conhecer, mas não posso, não posso! Estes amigos sabem, conhecem-me o gênio! Tenha a bondade de mudar de lugar! — E não se contendo, berrou com os punhos fechados: — Eu com calistos não posso! Artur ergueu-se, pálido, balbuciando: — Pois não, pois não! Atirou o charuto e pisando o tapete com passos nervosos, saiu para deixar a soirée, indignado, humilhado, furioso contra Meirinho. Ao erguer o reposteiro deu com D. Joana Coutinho, que, muito afável, o chamou: — Ia procurá-lo! O Meirinho disse-me que e poeta... Queremos que nos recite logo alguma coisa. Todo o seu despeito se dissipou; sentiu envolvê-lo subitamente uma simpatia ambiente: — Pois não, pois não, minha senhora! Recitarei A Pomba. Curvou-se, enternecido, e entrando na sala foi apoderar-se do álbum que as três meninas tinham deixado, muito entretidas agora com o Padilhão que lhes lia nas palmas das mãos a buena-dicha, com cerimônias de bruxo, fazendo voz sepulcral. E riam!... Artur, folheando o álbum — pessoas reais, vistas da Pena, indivíduos de farda — recordava as estrofes de A Pomba. Pelo meio da sala, dois sujeitos passeavam pausadamente: um, muito alto, de perfil espesso, com uma enorme testa deprimida no alto, escutava, com um olhar vazio, sonâmbulo; o outro, magrinho, de passinho dançado, falava com verbosidade, uma das mãos por baixo da aba da casaca, o que lhe mostrava um pouco da camisa saída, a outra, de polegar estendido, furando o ar com gestos vivos, aqui e além; Artur ouvia-lhes ao passarem junto dele: «a portaria..., influências da prima.... o Rei é que quis.... o ministro furioso...». Às vezes paravam e o mais alto rolava em redor o bugalho baço dos olhos pasmados. Um indivíduo nutrido falava com duas senhoras de idade da irreligião dos criados!

Era coisa que ele não suportava! As velhas lamentavam a perdição dos tempos... O povo estava ímpio, era obra da maçonaria... Mas um velhote, de colarinho enorme e bochechas fortes, aproximou-se. arrastando a perna: perguntaram-lhe se ia melhor: Não; estava decidido à operação... Talvez fosse fazê-la a Paris. Discutiram então médicos, farmácias, e as vozes tomavam tons dolentes, como num quarto onde se agoniza. Mas Artur teve de se arredar um pouco para dar lugar, à mesa, à senhora de vestido cor de palha, que se aproximara com o rapaz magro de pince-nez: era alta, com um seio rico, a pele esplêndida, os olhos grandes; sentou-se, tomou uns poucos de retratos soltos que estavam num cesto de filigrana; o rapaz magro disse-lhe ainda algumas palavras baixo e afastou-se de cabeça erguida, limpando as lunetas ao lenço. Ela deu um olhar rápido a Artur, outro, lento, à roda do vestido, comprimiu de leve um bocejo e começou a examinar distraidamente os retratos: Artur admirava-lhe as mãos de uma brancura láctea, cheias de pedrarias, o começo do braço cujo torneado, polido como um mármore, se perdia num fofo de rendas ricas, quando o Padilhão, que acabara de ler a buenadicha, lhe veio falar: nunca a vira com melhores cores... Ela riu: — Sim?... E então não nos faz outra imitação? — Ah, já contribuí, já contribuí! A do burro cansa-me muito. Aqui o nosso amigo — e indicou Artur — vai-nos recitar... Ela olhou para Artur um pouco de lado, e Padilhão, muito correcto, apresentou-o: — O meu amigo Artur Corvelo. E agora — acrescentou — vou ver o D. Frederico, que tem perdido e está furioso... Au revoir, Sra.ª Baronesa! Artur, vermelho, procurava uma palavra, quando ela, reparando numa das fotografias, lha mostrou: — É Rochefort, não é? Artur, quase inconscientemente, soltou: — Grande apepinador! E, espantado, aterrado daquela frase quase obscena, que lhe saíra involuntariamente, como um arroto, sentiu a vergonha esbrasear-lhe a pele, pôr-lhe um suor nas mãos, imobilizá-

lo. Viu os dois sujeitos que passeavam pararem junto da baronesa: mas através do zumbido que lhe enchia os ouvidos, as suas vozes chegavam-lhe apenas como um murmúrio remoto; percebeu vagamente que falavam do Fim de D. Juan — o poema recente de um poeta ilustre. A baronesa, que justamente o lera nessa manhã, não gostava: achava que tinha páginas incompreensíveis; o indivíduo magrinho atacava o livro: não que o tivesse lido, oh não! — não tinha tempo para se ocupar de versos, de romances, de literatura — mas constava-lhe que estava recheado de imoralidades e de ideias de Comuna... O indivíduo sonâmbulo, esse, parecia procurar uma frase na lâmpada Carcel, no penteado da baronesa, no peitilho da sua própria camisa, com olhares de uma ânsia abstracta; não a achou e passou os dedos devagar pela testa enorme, com uma lentidão cheia de agonia, enquanto o magrinho continuava a falar: parecia furioso com as ideias novas, os livros novos, os rapazes novos! Era de opinião que o Governo devia intervir. O sonâmbulo, com um esforço que lhe entumeceu mais o rosto, disse por fim, numa voz espessa, crassa: — É todavia um rapaz bastante profundo! — teve outro esforço e murmurou num tom cavernoso: — dizem-me que tem muito fundo! Era possível — mas a Sra.ª Baronesa preferia a todo o Fim de D. Juan, uma simples quadra das Flores da Alma: «As flores de alma que se alteiam belas... — Ah! — disseram ambos, concordando impetuosamente. As palavras que chegavam por fragmentos a Artur, através da sua turbação, faziam-lhe entrever na Sra.ª Baronesa leitura, curiosidades artísticas, um gosto formado, e a sua frase: — um grande apepinador! — parecia-lhe então mais estúpida, mais torpe! Ergueu-se subtilmente, encolhido de vexame, e foi-se refugiar, com a cabeça a arder, na sala amarela, deserta, onde as luzes das serpentinas erguiam grandes chamas direitas. Atirouse para o sofá, dando uma punhada no joelho, com um oh! de raiva. O que lhe fizera partir dos lábios aquela palavra abjecta? Ele, que ao nome de Rochefort sentira apertarem-se-lhe no cérebro apreciações finas, originais, pitorescas! E era àquela mulher, formosa, toda vestida de seda amarela, com uma carnação tão pura e que tinha a majestade de um mármore, que atirara uma tal chulice! Apresentado como um poeta, um estilista, um delicado, abria os lábios

e soltava uma sandice obscena, ele, que mesmo entre homens. quando se desabotoam os coletes e se fala numa fumaraça de cigarro, tinha sempre uma correcção honesta de expressões!... Oh! Que pensaria ela? Que diria D. Joana?... Sons de piano tiraram-no da sua modorra. Ergueu-se: o seu rosto, no espelho, pareceulhe envelhecido, parvo, e com o claque colado à coxa, chegou-se à porta da sala. Valsava-se. D. Joana que passava pelo braço do barão, um rapazote gordinho e baixo, de colarinho muito decotado e uma barbinha rala — parou e voltando o rosto para Artur: — Quiseram antes valsar. Raparigas!... Mas noutra noite, espero ter a ocasião de o ouvir... Tire par para uma valsa... Artur fez-se escarlate: — Eu não valso. — Para uns lanceiros, então? — Não, obrigado, não danço... — Ah! — fez ela e afastou-se, rindo baixo com o barão. Artur teve-lhe ódio. Desejou raivosamente um título, uma pasta de ministro, a glória de duelista, uma celebridade qualquer que o tornasse temido e admirado! — Tem a bondade de deixar passar! — disse-lhe sobre o ombro uma voz impaciente. Voltou-se: era o rapaz de pince-nez que trazia pelo braço a magnífica criatura de grande cauda escarlate. Artur recuou bruscamente e vendo junto de uma velha uma cadeira desocupada, refugiou-se ali, numa atitude aniquilada e hostil, por trás de uma poltrona, onde pôs o claque que o impacientava. Como desejaria entrar naquela sala à frente de uma multidão furiosa, numa noite de revolução! Espedaçar os espelhos à coronhada, carregar de algemas aqueles pulsos de magricelas! Ver aquelas mulheres tão triunfantes, de peitos erguidos, arrastarem-se de joelhos aos seus pés, na imploração soluçante de uma casta vencida! O sujeito magrinho que admirava as Flores da Alma, tocava ao piano o Danúbio Azul, com movimentos ternos de cabeça que condiziam com as suas preferências poéticas; tinham recuado a mesa, e no soalho encerado à francesa quatro pares giravam com um frou-frou de

sedas, num rápido resvalar de solas; as porcelanas sobre a consola tremelicavam levemente; os leques tinham uma palpitação mais rápida; falava-se com uma vivacidade comunicada pelo ondear das saias e a vibração do teclado; as meninas, à beira das cadeiras, com os pezinhos impacientes, tinham um brilho mais vivo nas pupilas, e o globo do candeeiro, sem abat-jour, alumiava, defronte de Artur, um vasto quadro à Salvator Rosa, onde havia ruínas, pinheiros mansos e bandidos românticos. Então a velha senhora de enfeites negros pareceu acordar, bocejou, mastigou em seco e voltando-se para Artur: — Faz favor de ir dizer à Maria que vão sendo horas. Artur hesitou, balbuciou: — Eu não conheço... A velha olhou-o com curiosidade, desembaraçou uma luneta de ouro dos berloques do relógio, aplicou-o com a cabeça erguida e chamando um rapaz loiro, que veio, todo afável, limpando a testa do suor da valsa: — Faz favor de dizer à Maria que são horas... — Oh, Sra.ª D. Sofia, pelo amor de Deus! — acudiu o moço. — Isso é uma tirania. Mais meia hora, pelo amor de Deus! — e abria os braços suplicantes. — É que eu depois é que a aturo — murmurou a velha;–vá lá, vá lá... Tornou a mastigar em seco e pareceu readormecer. Os sapatos de verniz começavam a torturar Artur: decidiu partir e foi à sala de jogo, chamar o Meirinho. Ao vê-lo, o sujeito de óculos teve um movimento de terror e Meirinho que perdia agora, muito vermelho, respondeu com impaciência: — Aqui cada um sai quando quer! E agarrou as cartas, furioso. Aquelas palavras bruscas escandalizaram Artur: lembrou-se com despeito das dez libras emprestadas — resolveu exigir-lhas. Detestava agora o Meirinho, D. Joana, a Sociedade, Lisboa, e vestia na saleta o seu paletot, quando viu com terror que lhe esquecera o claque, na sala, sobre a poltrona. Despiu de novo o paletot, desesperado, e voltou à sala. Que raiva! Uma

senhora robusta, a quem chamavam familiarmente «a viscondessa», sentara-se na poltrona! Ainda pensou que ela tivesse visto o claque, o tivesse atirado para outra cadeira ao pé: não — gorda, enorme, com uma espessura tremenda de saias e de folhos, sentara-se, sem o sentir, em cima do claque chato! Ficou aniquilado. Como ousaria pedir àquela majestosa senhora «que se erguesse, que queria o seu chapéu»? Pensou que se levantaria em breve, libertando assim o seu claque e perfilou-se um momento junto à ombreira da porta; depois, foi ver todas as fotografias na sala onde o cavaleiro de bronze erguia a sua espada; foi examinar os livros numa estante envidraçada; não se atrevia a consultar o Meirinho, Padilhão valsava, Carvalhosa saíra. Decidiu então dizer à viscondessa um dito espirituoso, original, que a fizesse logo erguer, rindo, amável, encantada, mas acudia-lhe apenas a frase natural, seca: «a senhora está em cima do meu chapéu!» De repente lembrou-lhe que talvez fosse uma partida: queriam escarnecê-lo, torturá-lo; um sopro de orgulho, de revolta, sacudiu-lhe a vontade: não! Iria à sala, faria levantar aquele enorme corpanzil de matrona obesa, e se visse uma face de homem sorrir, espalmar-lhe-ia uma bofetada! Voltou à sala, resoluto, mas ficou logo inerte, acabrunhado, vendo a viscondessa imóvel, com o seu grande nariz bourbónico muito lustroso, cercada do rapaz de pince-nez, do sonâmbulo, do magrito. Teve desejos homicidas: sentia-se tão desgraçado que se lhe humedeceram os olhos. Sem motivo, de repente, Lembrou-se da sua mãe e enternecido voltou à sala amarela, atirou-se para o sofá com a cabeça entre as mãos. Um frou-frou de saias roçou o tapete e uma voz disse: — Está incomodado? Era D. Joana, pelo braço do barão. Artur ergueu-se bruscamente, explicou que tinha uma enxaqueca... Sim, com efeito, na sala dentro estava um calor... Mas não consentiam que se abrisse uma vidraça... O ar fazia-lhe bem. E acrescentou: — Ah, se espera pelo Meirinho, olhe que ele não larga o whist senão alta noite. E Artur, atarantado, pensando vagamente que D. Joana o expulsava: — Ah! eu vou já, não me demoro...

Ela estendeu-lhe a mão: — Espero tornar a ter o prazer... Às terças-feiras... Artur, só na sala, pensava: e o chapéu? Agora que se despedira de D. Joana não podia voltar a imobilizar-se na ombreira da porta, esperando que a viscondessa se levantasse. E poderia explicar que o seu claque estava debaixo das gorduras da excelente senhora? Ririam, seria prodigiosamente grotesco. Com uma esperança voltou à sala: lá estava a viscondessa, repimpada, as mãos gordas no regaço, estabelecida, palrando com a sua voz nasal. D. Joana Coutinho, essa, pareceu surpreendida de o ver e muito amável: — Perdeu alguma coisa? — Não — acudiu — era o Carvalhosa... — Ah, foi-se! Aquele ingrato, está um momento e desaparece... Artur inclinou-se e saiu. Estava farto, que diabo! Vestiu o paletot e desceu a escada sem chapéu; mas ficou aterrado: no pátio, havia dois trintanários de casacos brancos e um cocheiro de praça. Tornar a subir?... Não! Retesou a vontade, dirigiu-se para o portão, enquanto o criado,, atônito, abria devagar a grossa fechadura. Sentia por trás risinhos fungados, a chave perra parecia resistir. Artur tremia de raiva, de vexame; — enfim a porta maciça rolou, e uma frialdade húmida envolveu-lhe a cabeça: chuviscava. Então amarrou o lenço com um nó debaixo do queixo e cosido com as casas, querendo enterrar-se na escuridão, apressou-se, correndo quase,. com a chuvinha miúda fustigando-lhe o rosto, a garganta túmida de lágrimas. Mas perdeu-se, vagueou pelo Rato, pelo Salitre; pessoas paravam, assombradas daquele indivíduo cujos passos pareciam de ébrio, com um lenço apertado na cabeça! Na Rua da Escola, encontrou um trem que recolhia: atirou-se para dentro, gritou: — Para o Universal! Que alívio ao pisar o tapete do quarto! Despiu a casaca com uma cólera impaciente, arrancou bruscamente a gravata como se quisesse arrojar de si, com a toilette que lhe representava a soirée odiosa, todos os seus desejos de sociedade, de encontros amorosos em

salas aristocráticas... Só quando ia apagar a luz é que se lembrou que em casa de D. Joana Coutinho, ao outro dia, encontrariam o chapéu! Pelas iniciais que ele,. tolo, mandara bordar no forro de cetim azul, reconhecê-lo-iam! Que risadas! Formar-se-ia a lenda do poeta de Oliveira que esquecera o claque, o peludo! Oh!... Mas que lhe importava! Estava bem resolvido a não voltar lá, nem a outra soirée! Isolar-se-ia na Poesia, na Arte! Frequentaria Nazareno, seria um revolucionário, conspiraria contra aquele mundo burguês, bancário, fictício, idiota! E escreveria uma sátira tremenda contra os ridículos jogadores de whist, e as grotescas viscondessas gordas! Canalhas! — murmurou, aconchegando-se aos lençóis. E começava a pegar no sono, quando, como o frio de uma lâmina, lhe atravessou o cérebro a ideia da frase que dissera: Grande apepinador! Era a única que pronunciara! Deu um murro no colchão, rugiu uma obscenidade, e com um Oh! de raiva e de vergonha, enterrou a cabeça no travesseiro. Toda a noite sonhou com a soirée: valsava com a Sra.ª Baronesa, mas no chão encerado escorregava, entre as gargalhadas agudas da velha de enfeites lúgubres; não se podia erguer e aquela gente impiedosa, estúpida, egoísta, continuava valsando alegremente sobre o seu corpo prostrado; sentia sobre a testa, onde viviam ideias que ela não tinha, pularem os sapatinhos de cetim da senhora de cauda escarlate, e no peito, onde palpitava um coração, que não batia no peito dele, enterrarem-se as tachas dos tacões do sonâmbulo! Dormia, já tarde, ao outro dia, quando a porta se abriu bruscamente, depois a janela, e viu junto do leito, Meirinho, pálido, com os olhos fora das órbitas, e o seu claque na mão! — Então — gritou ele — então o senhor saiu ontem sem chapéu? Artur fingiu-se estremunhado, bocejou, espreguiçou-se, disse vagamente: — O que é? O que é? — O que é? — E o claque tremia nas mãos coléricas de Meirinho. — É isto! É o seu chapéu! Então o senhor saiu sem chapéu! Artur afectou rir: — pensara que o tinha perdido, procurara-o, estava com dores de cabeça, havia uma tipóia em baixo...

Meirinho levou as mãos à cabeça: — Ih, Jesus! Que vergonha, meu caro amigo! Eu, esta manhã, recebo um chapéu, com um bilhete de D. Joana, dizendo que tinham achado aquele claque e que, só depois de muitos tratos à memória, é que descobrira pelas iniciais que era o seu! Estava numa poltrona! A viscondessa, toda a noite, esteve sentada em cima! Artur tentou rir: até tinha pilhéria! — Pilhéria? — bradou Meirinho, batendo, assombrado, com as mãos uma na outra. — Pilhéria? É uma vergonha! Que hão-de dizer! Eu não me atrevo a ir lá, eu nem me atrevo a ir lá outra vez! Uma coisa assim! Levou as mãos à cabeça e saiu desesperado. O claque ficara sobre a cama: então Artur, lívido, agarrou-o e torceu-o com tanto rancor que lhe quebrou a mola. Maldito, vai-te! E atirou-o furioso para o canto da roupa suja. Saltou com os pés nus para o chão e toda a manhã, esguedelhado, com os olhos vermelhos, embrulhado no robe-de-chambre, rimou uma sátira amarga contra a sociedade, contra o HighLife: Oh! corações de pedra, oh! homens do milhão!

1/1
Menu

Fazer anotação