Capítulo X A Capital · Capítulo 10 de 10
Obra Menu

Capítulo X

Daí a três dias, à noitinha, Artur saía de casa para ir pela primeira vez à Corcovada. A tia Sabina fora enterrada na véspera da sua chegada. Os três dias de nojo tinham passado, e como nessa noite os soluços da tia Ricardina, prostrada às escuras no oratório, e os ais da Joana, pelos cantos, lhe fizeram parecer a casa mais lúgubre — decidira, para se distrair, ir um bocado até ao bilhar. O primeiro que o viu quando ele empurrou a porta envidraçada, foi o João Valente, que se ergueu com os braços no ar, berrando: — Viva o janota! O Rabecaz correu do bilhar e arremessando o taco, ergueu-o ao alto, num abraço frenético. Pessoas que não conhecia levantaram-se, vieram apertar-lhe a mão — e Artur, radiante, reconheceu que a vila inteira o considerava um grande homem! A mesa a que ele se sentou ficou logo cercada de um grupo ávido de o escutar, de o ver, de lhe examinar o fato; havia em volta dele três filas de mochos, e velhos pacíficos, de xailemanta pelos ombros, punham de longe a mão sobre a orelha, para lhe escutar as opiniões. Teve de descrever a sua chegada à redacção do «Século», o Universal, S. Carlos, as Câmaras, as soirées da Sociedade. Um, queria saber o que se dizia do ministério; outro parecia devorado de curiosidade sobre os bailes de máscaras; um terceiro, baixando a voz, pedia — já que estavam ali entre homens — alguns detalhes sobre pequenas. Artur prodigalizava informações, opiniões, anedotas. Alguns, que tinham visitado a Capital, escutavam-no com um vago sorriso de entendedores, aprovando com a cabeça, rosnando: — Tal qual! E isso mesmo! Era o mesmo no meu tempo... Bem se vê que o amigo conhece Lisboa... Foi para Artur uma hora cheia, triunfante, muito gozada. Soltava a cada momento os nomes dos homens ilustres que entrevira, dizendo: «o meu amigo Roma...», «uma vez, estava

eu com o Carvalhosa...», «então, o Conde de Vila Rica...». Nas fisionomias em redor espalhava-se uma admiração respeitosa. Obrigaram mesmo dois jogadores obstinados a interromperem a partida, porque o som das carambolas, a voz do marcador, faziam interrupções irreverentes. Artur, por fim, já um pouco rouco de falar, encostara-se para trás na cadeira — e então o Rabecaz, muito solí— cito, declarou com autoridade: — Está bom, deixem-no agora, deixem-no agora. Não o macem mais. E ergueu-se, arrastou-o, apossando-se dele — e declarando alto «que tinha coisas particulares a dizer-lhe», quis levá-lo para o cubículo das ceias. Mas todos protestavam: um sujeito mesmo arrebatou Artur para um canto e pediu-lhe um empenho para um ministro; outro agarrou-o pela manga, e decerto deslumbrado pelas narrações, quis saber o que era necessário desembolsar para gozar um mês na Capital. Então, o Rabecaz zangou-se. Que diabo, que deixassem o rapaz, tinha coisas importantes a dizer-lhe!... E ia-o enfim levando para o cubículo, quando o Sr. Cardoso, um dos janotas mais considerados de Oliveira, o levou para uma mesa afastada, e ali, delicadamente, lhe pediu se era possível ele mandar-lhe vir uma boquilha «como essa» — e mostrava com veneração a boquilha por onde Artur fumava uni charuto de tostão, que em nome dos amigos lhe oferecera o João Valente. Enfim o Rabecaz conseguiu libertá-lo, e fechando a porta do cubículo: — Irra, maçadores! E ali, a sós, conversaram intimamente até às duas horas da madrugada. Artur gozou então alguns dias de celebridade. A sua fama tinha começado com a publicação das notícias nos jornais. A Corcovada fora obrigada a assinar o «Século», porque os frequentadores, considerando-o como a crônica oficial de Artur, queriam seguir nele as suas glórias. O Vasco dependurara o seu retrato na botica. O Carneiro dizia agora alto por toda a parte — «que a Assembleia se honraria muito em o ter no seu seio». A Assembleia vira-se mesmo obrigada a comprar seis exemplares dos Esmaltes e Jóias, porque apenas um volume era posto na sala de leitura, logo desaparecia, roubado por um dos sócios. Atribuía-se isto a que todas as senhoras queriam ter o volume e esses roubos consecutivos tinham mesmo

dado lugar, na Assembleia, a controvérsias escandalosas. Na missa, na Praça, era muito observado. Reparou-se mesmo nas olhadelas que não cessava de lhe dardejar, em todos os lugares públicos, a gorda esposa do Dr. Azevedo. E o administrador do concelho, no dia em que o encontrou, foi o primeiro a tirar-lhe o chapéu. Porém, a sua hora triunfante era na Corcovada. Tinha um lugar reservado, a que se chamava a mesa do Artur. Era ele o juiz, o árbitro, quem decidia de todas as questões: de eleições, de literatura, de toilette, de interesses locais, de política estrangeira, de casamentos. Mas o que acima de tudo o deleitava, era perorar, narrar os lados íntimos da vida de Lisboa — soirées aristocráticas, ceias artísticas; punha nas descrições mais imaginação poética do que a que lhe fora necessária para compor os Esmaltes e Jóias e mesmo os Amores de Poeta. Gostava de deslumbrar aqueles burgueses, fazendo-lhe ver a vida literária mais requintada, para parecer ele mesmo mais interessante. Afirmava que os literatos em Lisboa eram tudo: davam a lei, iam ao Paço,, governavam tílburis e esposavam condessas. E de resto não era difícil aos que o escutavam acreditá-lo, vendo os ministérios povoados de antigos poetas líricos. Uma noite, um velho que nunca saíra de Oliveira de Azeméis, tendo sido sempre de constituição delicada e hábitos caseiros, perguntou-lhe se era certo o que se contava: que os literatos tinham ceias em que havia danças de mulheres nuas, ao som de charangas. Em redor protestavam: ora, seu Albino! Que ideia! Mas Artur interpôs-se com autoridade: — Não, não direi mulheres nuas — mas lá que são magníficas orgias, isso sim! Há orgias deliciosas! O Rabecaz exclamou, batendo-lhe no ombro: — Nós é que sabemos! E Artur sorriu com complacência. O Rabecaz tomava naquelas conversas uma parte eminente: o seu maior prazer era fazer perguntas sobre personagens, gente de Lisboa, que só ele e Artur deviam conhecer o que, perante os outros, os isolava numa importância elegante e superior.

— O Melchior ainda mora aos Cardais, a Jesus? Com quem vive a Lolita? Quem vai agora ao Paula? O João Gordo ainda se embebeda? E o velhote — como se chama ele? ah, o conde de Pisães — ainda está sempre em casa da pequena? Artur respondia, mesmo quando ignorava. E o Rabecaz recostava-se, como que afogado em saudade: — Ah, Lisboa! Lisboa! — Grande terra! — murmurava-se em redor, respeitosamente. E Artur retorcia o bigodito, com satisfação. Mas contrastando com aquela alegria da Corcovada, que melancolia em casa! A hora do jantar sobretudo era lúgubre: a tia Ricardina, apenas via o lugar vazio da Sabininha, começava a choramingar; e então voltava a história da sua doença, dos remédios que tomara, da cautela do Dr. Azevedo, e o que ela dissera, falando sempre do seu Arturzinho — até ao último dia em que já moribunda, ainda repetia: — «que ingrato! que ingrato!» E na saudade da Ricardina havia uma vaga irritação — como escandalizada de que a Sabininha morresse, deixando-a só, sem ninguém para conversar e lhe fazer companhia no quarto. O próprio Albuquerquezinho parecia outro: abandonara as esquadras internacionais, e, desinteressado mesmo das suas paciências, errava pela casa soturnamente, muito enervado, olhando Artur de revés e rosnando entre os dentes: «Mau pirata! mau pirata!» E não podendo suportar o arrastar fúnebre daqueles serões, Artur, mal acabava o jantar, escapava-se, ia ao quarto dar uma penteadela no cabelo e em bicos de pés descia a escada, enfiando para a Corcovada. Se tivesse querido — e foi esta, mais tarde, a opinião do Rabecaz — Artur poderia ter aproveitado aquela popularidade para conquistar uma posição na vila. Somente contentou-se em perorar no botequim, prodigalizar anedotas, e, dentro em pouco, viu a curiosidade que inspirava diminuir e os pequenos interesses da localidade retomarem nas conversas, nas preocupações, a sua importância essencial. Na Corcovada, já estavam acostumados ao «grande homem». Já não era o centro dos grupos. O bilhar retomara a sua feição pacata, caturra; as facécias do João Valente, um momento pouco atendidas, recomeçavam a ser

saboreadas com gozo. E mesmo a Corcovada, muito fina, não renovou a assinatura do «Século». Agora a única satisfação de Artur era, como outrora, cear com o Rabecaz. Tinha-lhe contado, com os detalhes mais íntimos, os seus amores com a Concha. O Rabecaz interessavase violentamente por aquele romance: tinha pedido uma descrição do corpo da Concha e ouvia-a com um ar de profunda reflexão, de conhecedor, a testa franzida, o olhar fixo: — Bom tornozelo, hem? — Lindo! — Sim? Hem? — E escarrava grosso: — E a barriguinha da perna? — Adorável! O Rabecaz tinha um aceno de assentimento: — Sim, todas as espanholas a têm. A pele fina, não? — Um cetim! — Sim! — Dava outro escarro grosso, e satisfeito ia percorrendo assim todo o corpo da Concha. As narinas dilatavam-se-lhe de sensualidade, àquelas revelações. Gozava a Concha nas descrições de Artur, e não se podendo separar dele, acompanhava-o até casa, roçando-se-lhe pelo corpo, como se lhe sentisse ainda, nos cabelos, no fato, um cheiro de espanhola. Mas lentamente — como um verniz muito usado perde o brilho — aquelas conversas embaciavam-se, perdiam a frescura nova. Artur começou a enfastiar-se da Corcovada, onde já não tinha nada que contar, ninguém para deslumbrar; a casa lúgubre, lutuosa, desolava-o, e as saudades de Lisboa voltavam, muito amargas. Agora, tudo o que por lá passara lhe parecia bom, até as aflições de dinheiro que sofrera. As amarguras, quando perdera a Concha, ao menos tinham uma alta feição sentimental, romântica. Lá, vivia, ainda que contrariado; aqui, bom Deus, bocejava! A cidade, a distância, parecia-lhe mais nobre, mais bela; atribuía agora as contrariedades que sofrera aos seus próprios defeitos: se não fosse tão tímido, de abatimento tão fácil, poderia ter chegado a ser íntimo de D. Joana Coutinho e retomar o seu lugar no Clube Democrático. Devia ter perseverado, insistido, conservado a vontade erecta — e teria furado! E vinham-lhe agora desejos de agarrar nos seus quinhentos mil-réis e voltar

para Lisboa: viver com economia nalguma casa de hóspedes, retirado, num quinto andar. Mas esperava, para se decidir, a resposta do empresário e do Melchior — a quem escrevia longas cartas, cheias de estilo, pintando-lhe romanticamente a sua tristeza e fazendo a caricatura literária dos frequentadores da Corcovada. E entretanto, para ocupar o seu espírito vazio, procurou tornar a interessar-se, a amar a senhora do vestido de xadrez: mas apesar dos esforços que fazia para evocar o antigo sentimento, depressa sentiu que todo o seu amor por ela se tinha desvanecido: passava dias sem sequer se lembrar dela; depois, de repente, forçava-se a amá-la, a tê-la sempre presente no coração; e com efeito, conseguia obrigar a memória a ocupar-se dela durante uma manhã inteira; depois, distraía-se de novo, e a sua imagem, como um perfume que se destapa, evaporava-se insensivelmente. Então quis fazer versos. Mas, como em Lisboa o barulho da rua, ao princípio, espantara a Inspiração — era agora o adormecimento silencioso da vila que parecia afastá-la. Recaiu assim num tédio passivo, morno, cheio de horas vazias; dava longos passeios ao acaso; desmantelava as maxilas em bocejos intermináveis. Por esse tempo, o Vasco, que expulsara o último praticante, que sua esposa achava «lindo! lindo!», veio procurar Artur. Começou por lhe dizer que era talvez ousado oferecer um simples lugar de praticante a um homem tão conhecido nas letras... mas ele não vinha ali como chefe do estabelecimento, vinha como amigo: não era um praticante que procurava, era um colaborador... Enfim, oferecia-lhe oito mil-réis por mês e mais tarde poderiam entender-se para a cessão total da farmácia. Artur não reconhecia o Vasco — o Vasco de gênio áspero. Via-o benévolo, amável, e se a sua fisionomia conservava o antigo ar hostil, as suas palavras transbordavam de afeição. Confessou a Artur que era ele o único que lhe não dera sustos pela honra do seu nome. E terminou, dizendo: — Isto não é urgente. Pode dar a sua resposta por toda esta semana. — Eu pensarei — disse Artur polidamente, para lhe não dar uma recusa muito seca. Mas sentia-se vagamente lisonjeado daquela afabilidade do seu antigo patrão, que

outrora o assustava, só de fungar com o nariz no ar. Fungava ainda, mas discretamente. Artur repetiu: — Eu pensarei. — Pois pense — disse o Vasco com um ar profundo. Daí a dias, enfim, recebeu a desejada carta do Melchior. Abriu sofregamente o sobrescrito e leu estas linhas: «Caro amigo Artur: Há muito que lhe queria escrever, mas você, que conhece Lisboa, sabe que umas coisas trazem outras, e com afazeres, prazeres, etc., não tem a gente um bocadinho disponível...» Que diferença com a sua vida agora! Ele tinha todo o dia vazio, inútil, ocioso... Também a ele, quando vivia em Lisboa, as horas lhe passavam como os vagões sucessivos de um comboio expresso. «...Saberá antes de tudo, que estive com a Concha. Encontrei-a e à cavalgadura do Manolo, no Price; estavam mesmo ao pé de mim e não pude deixar de lhes falar. A Concha muito bonita e muito chic...» O peito de Artur levantou-se num vago suspiro. «...O Manolo teve a ousadia de me convidar para ir com eles ao Mata, mas como a Concha insistiu, fui obrigado a aceitar. Devo dizer — porque a verdade é a verdade — que o Manolo foi muito amável. No fundo é um bom rapaz, e valente; convidou-me para ir jantar com eles no Pelicano, onde eles vivem como marido e mulher...» Artur indignou-se contra o Melchior: parecia-lhe um traidor, desertando para aqueles que o tinham injuriado. Que pulha! «...Estive ontem na Áurea com o Videirinha. Tomámos ambos um chocolate e falámos muito de você...»

— Coitados, que bons rapazes — pensou Artur com uma saudade enternecida. «...Outra novidade é que os seus amigos republicanos vão fundar um jornal — «0 Futuro». O Damião e o Matias são os redactores. Eu dei a noticia no «Século», dizendo mesmo — que desejava grandes felicidades ao novo colega — porque enfim é bom ser delicado...» Aquela prosperidade do partido que o repelira, fez sentir mais agudamente a Artur a infelicidade da sua separação. «...Deixei para o fim as notícias más. Depois de ter ido três ou quatro vezes a casa do empresário, sem o encontrar, pude falar-lhe esta manhã no teatro. Disse muitas coisas e terminou por declarar que não podia levar os Amores de Poeta. Diz que é irrepresentável e que é muito bom para ser lido, mas não faz efeito em cena. Eu ainda quis argumentar, mas o homem provou-me que, para o levar à cena, era necessário refazê-lo desde a primeira linha até à última — isto é, que era melhor deitar o manuscrito ao lume e lazer outro. Tive de baixar a cabeça... E você quando vem? Lisboa brilhante: belo tempo, companhia francesa que chegou, o delírio. Se a velhota deixou cheta, é fazer as malas, e cair-nos aqui, para recomeçar a bela folia. Amigo do C. Melchior.» Artur ficou com a carta na mão, sentado à janela do quarto. O dia estava adorável e um bom sol quente dava um brilho vigoroso à folhagem das árvores, que tinham o verde da Primavera; a torre da igreja, muito aguçada, branquejava sobre o azul, e de um pombal próximo pombas tomavam o voo, espalhando-se pelos quintais. Maquinalmente, Artur seguiaas, interessando-se um momento pelos lugares onde elas pousavam os pezinhos cor-de-rosa: um muro branco com trepadeiras, uma latada onde um pé de vinha reverdejava, a pedra de um tanque onde a água tinha espelhados e sombras... Havia um vago rumor dormente, feito do lento remexer da folhagem, da água correndo de uma torneira, de um pipiar vago de pássaros; um aroma de alfazema subia por instantes nos movimentos do ar e tudo era sereno,

doce, calmo, feito para pacificar uma existência agitada. E então, serenado por aquela paz da natureza, sem cólera já contra esta última desilusão que o esmagava, considerou o seu destino: voltar para Lisboa sem recursos permanentes, sem amizades úteis, apenas com os seus pobres quinhentos mil-réis que se evaporariam num Verão, era impossível. Não havia que sofismar — era impossível. Que lhe restava então? Sujeitar-se, ficar ali, na vila. Ao menos tinha um leito, um jantar seguro; se aceitasse a proposta do Vasco, teria oito mil-réis por mês, e os fundos depositados no Carneiro seriam uma reserva. A tia Ricardina estava velha, afectada, à beira da morte; herdaria dela alguns contos de réis, cinco ou seis que fossem: poderia então, com um apoio mais sólido, recomeçar a vida, voltar a Lisboa. Até lá, teria os seus livros, aquela tranquilidade de vila bonita; e seria um tempo de repouso em que o seu espírito se amadureceria, e se calmariam as dores de tantas desilusões. Considerou-se então, sentimentalmente, um convalescente da vida. Saíra daquele inferno em Lisboa, como um vencido de uma batalha, com feridas por toda a parte — no seu amor traído, na sua ambição iludida. Precisava descanso, a santa influência de um lugar recolhido. Oliveira servia-lhe, ali ficava! Releu a carta de Melchior: «Lisboa está brilhante». E viu então, nas letras daquela frase simples, tudo o que amara lá longe — as largas ruas, a gente apressada, o rodar dos trens, o peristilo alumiado dos teatros, os cafés flamejantes, os amores patrícios e as ligações ardentes, cheias da poesia da sensualidade! Para ele, estava tudo acabado! Tomou a carta do jornalista, rasgou-a em pedacinhos, e arremessou-os para o quintal: os papelinhos brancos esvoaçaram, torneando no ar, foram cair sobre as folhas, sobre a gaiola de vime dos coelhos, sobre os ramos espinhosos do limoeiro — e Artur seguia-os melancolicamente, como se fossem fragmentos do seu passado extinto rolando para os abismos... Acabou-se! Escovou cuidadosamente o chapéu e dirigiu-se à farmácia do Vasco. O boticário, como outrora, ruminava o Almanaque de Lembranças. Ergueu-se com satisfação e para honrar a entrada de Artur, tirou ligeiramente o boné: Artur não ficaria mais surpreendido se visse um Rei cumprimentá-lo, tirando a coroa. Para falarem mais à vontade, foram para dentro, para o laboratório. E quando daí a um quarto de hora, Artur, pálido, saiu, fechando sobre si a porta

envidraçada da farmácia, suspirou, disse consigo: — Consummatum est! Nessa tarde, com a serenidade melancólica de quem tomou uma resolução dolorosa, foi passear ao acaso para fora da vila. Ia resumindo a sua existência, procurando explicá-la: de onde vinha o facto de só ter recebido no mundo desilusões? Da falta de simpatia, pensou. Quem o tinha estimado, amado, desde que seu pai morrera e que ele entrara na vida? Ninguém! Em Coimbra, não deixara amigos: para os seus companheiros, com quem comia e que admirava, era o Arturzinho, o caloiro. Tinha passado na geração acadêmica desconhecido, ruminando as suas exaltações, encolhido na sua batina, sem ruído. Um dia, o caloiro fora para a terra: acabou-se! Depois, em Oliveira — quem encontrara? O Teodósio era um bruto, para quem a amizade consistia em o acompanhar de madrugada, entre os restolhos de Stº Estêvão, à caça das perdizes! O Rabecaz — que sabia ele de afeições, de ligações de espírito, aquele embrutecido — retirado por pobreza dos bordéis e das batotas — vivendo entre o copo de aguardente e uma carambola catita? E em Lisboa? Meirinho caloteara-o; Melchior exploraralhe jantares e tipóias; Nazareno insultara-o; Damião chamara-lhe canalha; Manolo roubaralhe a rapariga — e desejar a estima do Videirinha, era como procurar um perfume num cano de esgoto! Nunca recebera o amparo da amizade, nem sentira o calor fortificante da simpatia ambiente, sem a qual o homem vai pela vida como por uma floresta escura, tropeçando contra troncos que o magoam, caindo sobre silvados que o ferem, sem encontrar a estrada real onde está a luz, a paz. Ninguém! Ninguém! E contudo, não, enganava-se, alguém o amara: uma pobre velha, simples, de coração amante, que na vida só tivera lágrimas e que estava agora sob uma lousa, naquele cemitério de que ele via, ao fundo do atalho por onde ia caminhando, os ciprestes agudos. Apressou então o passo: queria ver a sepultura da tia Sabina. A grade do cemitério estava aberta. Ao lado da entrada, sob um chorão, havia um carrito de saibro, uma pá, e em redor, na terra pisada, passarinhos saltitavam. Por todo o terreiro, ciprestes negros aguçavam a sua imobilidade triste; chorões dobravam as longas ramagens corredias e pálidas, e pela erva verde misturada de florescências, branquejavam lápides e

viam-se cruzes negras inclinadas no terreno mole. Aqui e além passava um piar rápido de pardal e no céu côncavo a tarde tépida de Primavera empalidecia. Artur foi andando por uma ruazinha ladeada de alfazemas crescidas. Pareceu-lhe ouvir uma voz cantarolar; escutou: Nascem goivos a-a-ah! E rosas nas sepulturas. Morte eterna, morte eterna, Vida que tão pouco duras! Era a cantiga singular que já ouvira muitas vezes ao coveiro, e que transcrevera na cena do cemitério dos Amores de Poeta, tão apreciada no jantar do Universal. Adiantou-se. Ao pé de uma moita de rosinhas bravas, o tio Jacinto, em mangas de camisa, o dorso curvado, mostrando os remendos pardos das calças, cavava devagar, abrindo uma cova: a terra negra acumulava-se a um lado e a enxada arrancava mãos cheias de ervas, que ali ficavam, com as raízes ainda presas ao torrão, caídas, mortas também. O tio Jacinto ia cantarolando baixo: Nascem goivos a-a-ah! E rosas nas sepulturas... A toada entristecia Artur, mas a sua mesma melancolia lhe dava um vago prazer romântico, e instintivamente comparava-se a Hamlet, errando no cemitério de Elzenem, argumentando com o coveiro e erguendo do pó, nas suas mãos de príncipe triste, a caveira de Yorick... Nascem goivos a-a-ah! E rosas nas sepulturas... — Boas tardes, tio Jacinto.

O homem voltou-se: — Olha, é o Sr. Arturzinho. Então, cá pela vila outra vez? — Vim há dias. Para quem é essa cova? E a sua voz, fazendo esta pergunta no ar triste e calado do cemitério, aproximava— o mais na sua melancolia do poético Hamlet. O tio Jacinto coçou a cabeça, embaraçado: — Olhe, a dizer a verdade, Sr. Arturzinho, nem lhe posso dizer... Foi o Caipira, o Joaquim Sacristão, que veio aí dizer... É para uma rapariga que vivia lá para ao pé da estrada do Covo... Morreu héctica... — Ah! O tio Jacinto recomeçou a cavar: Nascem goivos a-a-ah! E rosas nas sepulturas... E interrompendo-se: — O senhor não quer ir ver a sepultura da tiazinha? — Onde é? O tio Jacinto pousou a enxada, sacudiu as mãos, e pôs-se a caminhar rente ao muro — onde roseiras cresciam contra a cal muito branca. Mas parou, indignado: um pé de roseira estava quebrado e no muro caiado havia raspões, como de solas que se tivessem firmado ao escalar... — Pois quer o Sr. Arturzinho ver que tornaram a saltar de noite? — Quem? O tio Jacinto contemplava, triste, o pé de roseira quebrado, rosnando: — Corja! Quem!? Vão lá saber quem! Há-de ser a mesma cambada que me vinha roubar as batatas! Se eu pilho um! — Então você plantava batatas no cemitério, homem? — Então, porque não, Sr. Arturzinho? Mas lá o Sr. Alves, o da Câmara, começou a

implicar. Disse que até era pecado. Pecado é tirar a um pobre o bocadinho do seu negócio. Ricas batatas; também lhe digo, não há terra de semeadura como isto. — E com um gesto largo indicava o cemitério: — É tudo o que V. Sª lhe plante. Está abarrotadinho de estrume!... Por aqui, Sr. Arturzinho. A tiazinha está para este lado. Era uma pedra lisa, cercada de uma grade de pau. Ao lado havia um cipreste e as ervas cresciam altas. Artur ficou de pé, encostado à grade, e quase se desesperava de não sentir nem emoção, nem saudade; esforçava-se por se comover, pensando que ali debaixo, na sua mortalha azul, estava a doce velhinha; mas o seu coração conservava-se sereno, como se debaixo daquela pedra estivesse outra pedra e não o corpo da criatura meiga que o amara. Julgou-se seco, endurecido e forçava a sensibilidade, procurando recordar as lágrimas dela ao separarem-se, o cuidado pela sua roupa, a afeição do seu olhar. Mas o seu coração ficava inalterável, todo ocupado na função orgânica, sem obedecer à imaginação que o excitava à saudade. Por fim, disse: — Deviam-se pôr aqui uns pés de roseira, para fazer isto mais bonito. E ela que gostava tanto de flores, pobre tia Sabina! Mas o coveiro não escutava: erguendo-se sobre os sapatos, olhava através dos ciprestes para a cova onde deixara a enxada. E batendo fortemente com as mãos grossas, como para afugentar pássaros importunos: — Eh, lá! Eh, lá! Eh, lá, sua corja! Artur voltou-se: uma rapariguita magrinha, loira como uma espiga de milho, divertia-se a fazer rolar torrões para a cova, e uma outra, que saltara para dentro, cavava com as mãos, procurava bichos, e de repente, desapareceu no buraco negro, deitada decerto, fazendo de morta — e as suas risadinhas finas e claras vinham misturadas ao chalrar dos pássaros. — Eh, sua corja! — gritou outra vez o tio Jacinto. — Eu já lá vou, espera! Não tenhas pressa de te estirar na cova, que o teu dia virá — e mais cedo do que tu quererás, desavergonhada! Deixa a enxada, rapariga! Ah, velhaca! — E ele mesmo se afastou, ameaçando-as, rosnando: –Raça de mulherzinhas!

Artur então foi andando por entre as outras sepulturas. Viera com a intenção de ter um momento grave de contemplação, de saudade, sobre a lousa da tia Sabina — mas o seu espírito resistia à tristeza, distraía-se: sorriu ao ver o jazigo do Carneiro, um monumento muito estimado, muito admirado, em que o Anjo da Melancolia chorava sobre uma coluna truncada. Leu aqui, além, epitáfios laudatórios, e mesmo, negligentemente, embrulhou um cigarro. Quis pensar na Morte, na Eternidade, penetrar-se de uma melancolia mística, misturar-se, ele, para quem a existência que ia recomeçar era uma meia-morte, àqueles mortos a desfazerem-se sob as raízes das florzinhas agrestes. Mas o seu espírito resistia a perder-se na penumbra lúgubre da ideia de aniquilação e de fim. Era sem dúvida a influência daquele cemitério, que no dizer do tio Jacinto, era uma terra de semeadura... Uma fecundação palpitava no solo bem adubado; ervas vivazes faziam ao rés-do-chão uma espessura fofa; toda a sorte de florzinhas, azuis, roxas, amarelas, miúdas e prolixas, apertavam-se nas fendas das lajes mal juntas; no muro, onde a cal, sob a humidade, se despegava, torcia-se uma hera de um verde forte e clavelinas pendiam em florescência. Havia um cheiro forte de ervagens, e nas árvores os pássaros chilreavam tão desesperadamente, que Artur bateu as mãos para os fazer calar. O tio Jacinto, cavando apressadamente, recomeçara a sua cantiga e a sua voz, na limpidez pura da tarde, chegava a Artur, pitoresca, com o som surdo das enxadadas: Nascem goivos a-a-ah! E rosas nas sepulturas... Então, ele mesmo trauteou baixo a melodia: lembrava-se agora da noite em que a cantarolara, quando lera o drama no Universal: e revia a toa lha resplandecente, cheia de brancuras de louça brilhando à luz do gás, e o Carvalhosa, grave, bamboleando a perna, com a garganta muito abafada; e sorria, lembrando-se do Padilhão, furioso, porque via na declamação do protagonista injúrias aos fidalgos das suas relações; então recordou a soirée de D. Joana Coutinho: o Padilhão zurrando; o ruge-ruge das saias, das sedas, das rodas da D. Joana, com as maçãs do rosto salientes, o seu nariz grande e os olhos reluzindo sob as arcadas

proeminentes; via a grossa viscondessa sentada sobre o seu claque, o estafermo! — e lembrou-se da senhora de vestido cor de palha, que lhe falara de Rochefort e a quem ele só soubera responder: «grande apepinador!». Àquela recordação, as faces ainda se lhe abrasaram de escarlate, e bateu com o pé no chão do cemitério com um ah! de raiva e de vergonha. Fora daí, dessa noite, que começara a série dos seus desgostos: via-se na sessão do clube, lívido, diante do Matias, muito abotoado na sua sobrecasaca, que o expulsava do Partido Republicano, com um grande gesto à Fouquier-Tinville, enquanto lhe chegavam por baforadas, da cervejaria próxima, vagos acordes de harpa e de rabeca. Conhecera então a Concha, naquele dia em que vira no Clube o rapaz pálido, nu da cinta para cima, muito branco de pele, erguendo o braço de onde escorria um sangue negro! Depois, era o Espanhol, as ceias, os bons almocinhos, quando a Concha, com o casabeque de flanela pelos ombros, partia os ovos quentes arrebitando o dedo mínimo. Tinha-se aproximado insensivelmente da sepultura da tia Sabina, e olhando a pedra branca, o seu pensamento estava lá longe, no quarto do Espanhol, revendo, à noite, a Concha arranjando o cabelo diante do toucador, antes de se deitar; na mesinha-de-cabeceira, a luz erguia a sua chama direita; ela corria a meter-se entre os lençóis, com um arrepio de frio... Uma aragem correu nas folhas do cipreste, junto à sepultura — e então veio-lhe um horror daquelas visões lascivas, evocadas sobre a campa da tia Sabina. Pareceu-lhe uma profanação, uma ofensa à morta: quis acalmá-la, fazer-se perdoar, e por uma superstição, julgando que nada seria mais grato à alma da doce velha, ajoelhou junto às grades. Mas não podia orar: só lhe acudiam fragmentos de antigas rezas do catecismo, inexpressivos como toadilhas... Não sabia como havia de falar a Deus... O coveiro então chegou-se, dizendo: — Vamos fechar as grades, Sr. Arturzinho... Mas vendo-o ajoelhado, calou-se; e silenciosamente começou a colher a erva em redor da sepultura: trazia já um braçado, e agachado, ia escolhendo a de um verde mais claro, a mais chegada à lápide, a mais tenra. Artur ergueu-se e instintivamente fez o sinal da Cruz.

— Amén — disse o coveiro. Atirou a enxada ao ombro e Artur foi-o seguindo. — Aqui não é como em Lisboa — disse então o tio Jacinto. — Lá é que são mausoléus, lá é que faz gosto... — Ah, sim — murmurou Artur distraído. — Isso é que me convinha — disse ainda o tio Jacinto — eu ter lá o meu arranjinho, para cuidar dos jazigos, arear as ruas, trazer as flores em dia. Ah, lá em Lisboa, sim! Mas aqui! Também o tio Jacinto tinha ambições da Capital! Ao pé da grade, debaixo do chorão, as duas pequenas esperavam: a mais novita meterase no carro de saibro, com as pernitas pendentes, e a outra, magrinha e loira, ia puxando, aos gritos da pequena que a excitava, como a um Jumento ronceiro. Então o tio Jacinto enfureceuse: em as deixando sós, era logo malefício!... Eram as sobrinhitas. A mais pequena chama-se Maria e a outra Rita... — Vá, sua desalmada, erga a saia, leve direito o seu braçado de erva. E atirou para a saia que a pequena estendia, a erva que colhera ao pé da sepultura da tia Sabina. — É da tenra — disse ele — é da que já cresceu depois que a senhora se enterrou... Artur instintivamente olhou o molho de erva, que a pequena, com muito cuidado, apertava na dobra da saia, contra o ventrezinho. Já havia naquela erva, pensou — porque desde os tempos de Coimbra conservara ideias panteístas — alguma coisa da doce velhinha. — E para que é a erva, tio Jacinto? — A erva, Sr. Arturzinho? Ah, que é muito tenra. Escolhia-a de propósito... Saiba V. Sª que é para os coelhos — respondeu o tio Jacinto, fechando à chave a grade do cemitério.

1/1
Menu

Fazer anotação