Capítulo VI A Capital · Capítulo 6 de 10
Obra Menu

Capítulo VI

Nessa noite, entrando no Martinho, viu com prazer um lugar vago junto à mesa onde, como de costume, Jácome Nazareno tomava o seu café. Desde a véspera, o seu desejo de o conhecer redobrara. Repelido da soirée de D. Joana pelo mundo conservador, oficial, estabelecido, tendia instintivamente, no seu despeito, a refugiar-se no mundo revolucionário, revoltado, de que Nazareno lhe aparecia como o representante. Amava, sobretudo, a democracia, por certos dados humanitários, sentimentais, reparadores, e supunha, nos homens que a serviam, um calor de coração, uma fraternidade sensível, que a sua natureza efeminada apetecia — e que faltava à gente seca, fictícia, sem generosidade e sem entranhas que tanto o humilharia em Santa Isabel: além disso, devorava-o um desejo vago de se vingar da Sociedade — e queria concorrer para a sua destruição provável, aliando-se ao Nazareno e aos seus amigos, levando-lhes as suas poesias, o seu estilo, o seu dinheiro e o seu ódio. Para facilitar o conhecimento, teve o cuidado, ao sentar-se, de cumprimentar discretamente o republicano, e como reparara que ele nunca bebia alcoólicos, não tomou a sua genebra habitual: pediu anisette. Fumando devagar o seu charuto, revolvia frases filosóficas que lhe diria, esperando uma casualidade que os reunisse, quando um sujeito de aspecto doente e que parecia saído de um hospital, se aproximou devagar de Nazareno: tinha os lábios naturalmente entreabertos, o nariz afilado, uma palidez oleosa, a barba desmazelada; parecia sair da cama e conservava ainda na pele, na camisa sórdida, na guedelha seca, o cheiro da febre e o relento dos suores; apoiava ao mármore da mesa duas mãos lívidas, moles, pegajosas, de unhas negras e com uma voz débil, de rouquidão asmática: — Então quando fica pronto? Nazareno, pousando o cigarro à beira do pires, disse: — Daqui a quinze dias. Foi necessário pôr papel, que a parede estava ignóbil. A sua voz que Artur ouvia pela primeira vez, tinha um timbre enérgico e resoluto. O

doente varreu a mesa com a palma da mão, limpou os dentes com a língua e perguntou mais baixo: — O Matias? — Tem a nevralgia hoje. — Lá falei com o homem de Alcântara. — Então? O doente estendeu o beiço, oscilou a cabeça: — Sim, boas ideias, chega-se, mas... É preciso espicaçá-lo. Vou mandá-lo amanhã ao Matias! — O Matias amanhã tem a nevralgia, tem sempre dois dias de nevralgia. — Ah! E o Damião? Quando vem? Nazareno tirou do bolso um maço de papéis e mostrou-lhe uma carta. O doente leu, sorriu, mostrando as gengivas brancas e disse: — Coisas do Damião... — Derramou em redor o seu olhar mórbido, tossiu com fadiga e erguendo a gola do paletot: — Vou-me chegando que está húmido... Apareça, Nazareno. O republicano retomara o seu jornal, mas Artur tinha agora um pretexto, quase o direito de lhe falar: amigo de Damião, quereria saber se a sua ausência se prolongaria na província. Animou-se, e corando, com o chapéu na mão, a voz acanhada: — Eu peço perdão a V. Exª. Não tenho o gosto de o conhecer, mas... ouvi, sem querer, V. Exª, falar no Damião. É o meu amigo íntimo... Desejava saber se se demora, se... — O Damião ainda tarda um mês. Dobrou o jornal, bebeu um gole de café e ajeitando as lunetas: — Então conhece o Damião? Artur apossou-se de uma cadeira, estabeleceu-se à mesa. Exagerou Jogo as suas relações com o Damião: eram íntimos já desde Coimbra, tinham sido companheiros de casa, escreviam-se sempre... Ele até viera a Lisboa para viver com ele... Infelizmente tinha partido. — Grande rapaz, hem?

Nazareno teve um gesto de respeito simpático, fez: — Ah! Artur então exaltou Damião. Já em Coimbra era o centro das Inteligências. Era uma das fortes cabeças do País. E que espírito, hem?! E bom coração. Não havia melhor no Partido Democrático... — Repetiu duas vezes: o Partido Democrático, para se pôr com Nazareno em comunhão de ideias. Mas o republicano escutava-o, reservado, quebrando a cinza do cigarro no pires: examinava-o com insistência, pondo nos olhares, abrigados pelas lunetas defumadas, penetrações de bisturi. — Conhece o Matias? — perguntou-lhe bruscamente: Infelizmente não, e desejava-o bem. E o Sr. Nazareno conhecia o Fonseca? Não? Grande rapaz! Vivia em Castelo Branco. Ah, havia então, em Coimbra, no tempo do Pensamento, uma grande rapaziada. E havia união... O que faltava em Lisboa era união e — um jornal... — E surpreendido, contente da facilidade com que as palavras lhe acudiam, desforrava-se da mudez que o dominara na soirée de D. Joana, mostrando-se ao Nazareno sob um aspecto cativante de moço entusiasta e generoso. O republicano respondia apenas por monossílabos, uns sins rosnados, afirmações de cabeça. Artur ofereceu-lhe uma anisette, alguma coisa; Nazareno recusou tudo, mesmo um charuto. Havia em toda a sua pessoa um retraimento, uma congelação que desanimava Artur e lhe esbatia a verbosidade como a humidade extingue uma fogueira: teve de acender outro charuto para ocupar uma pausa. Mas Nazareno disse-lhe então: — O senhor vive em Lisboa? Infelizmente não. Contou com sinceridade o que o trouxera à Capital: a publicação de um livro de versos, a representação de um drama, o desejo de um meio inteligente, literário e o horror à província... — E que tal se pensa na província? Boas ideias democráticas? Artur riu. Qual! Estava-se tão atrasado como no tempo dos frades. Uma colecção de pequenos burgueses, imbecis, rotineiros, caquécticos; meia dúzia de ricaços que seduzem as raparigas e fazem eleições... Citou exemplos de Oliveira de Azeméis, não duvidando, para lisonjear o republicano e ter graça, fazer a caricatura da estupidez do Carneiro, dos vícios do

Rabecaz, da devoção das tias... E o pobre povo... — Reza e paga — disse sombriamente Nazareno. Atirou o cigarro para o fundo da chávena, carregou na copa do chapéu com a mão espalmada e ergueu-se dizendo que, para conversarem, era melhor irem para fora. Havia ali gente que escutava e nem toda a gente devia ouvir. E já à porta acrescentou, aprumando a estatura: — Que eu para os espiões tenho em casa uma bengala sofrível. Caminharam calados até ao Rossio. A noite tinha um vago ar lúgubre: nuvens escuras cobriam e descobriam uma Lua fria de Inverno, de tons lívidos. — Peço perdão — disse Nazareno; — a quem tenho a honra?... — Artur Corvelo. E para dar ao republicano uma impressão favorável, propôs que fossem conversar para o Hotel Universal: tinha lá um quarto confortável... Porém Nazareno, com o tom hirto de um devoto que alude a uma orgia — respondeu que não frequentava esses covis de conservadores... Todo o luxo, com efeito, o irritava; sem inveja. mas sóbrio e simples, condenava-o como funesto à democracia. Artur, receando que a elegância da sua instalação o fizesse duvidar da sinceridade do seu liberalismo, apressou-se habilmente a denegrir o luxo — explicando que o que lhe convinha era viver num quartito modesto, que, no Universal, a frequentação dos conservadores e brasileiros o irritava, que fora para lá mal informado, pondo nas suas explicações urna humildade e um fervor que, todavia, não acalmavam Nazareno. — Não se encontram nesses sítios senão ladrões e devassos — disse ele. Foi logo a opinião de Artur — e satisfazendo o seu ódio da véspera, ao mesmo tempo que agradava a Nazareno, citou o Meirinho como a personificação daquela «corja da sociedade»: pintou-o como um idiota, ocupado de cãezinhos de marquesas, intrujão, pedindo dinheiro aqui e além, vendendo por preços de ladrão, fatos feitos que eximia aos direitos, inventando detalhes — para mostrar a sua verve de artista e a sua indignação de justo. — Todos os mesmos, todos os mesmos — rosnava Nazareno.

Uma mulher coberta de luto adiantou-se para eles, pedindo esmola, com um murmúrio plangente. Artur, para mostrar o seu humanitarismo, apressou-se a dar-lhe uma moeda de prata, dizendo: «pobre criatura, por este frio». — O povo não precisa de caridade, precisa de justiça — disse dogmaticamente Nazareno. Artur, um pouco surpreendido da forma literária do princípio, objetou todavia que enquanto não vinha a justiça... — É mau — interrompeu o republicano — acostumar o povo a contar com a caridade. Ele sabe os seus direitos: que os realize! Artur sentia confusamente acudirem-lhe muitas respostas, todas justas; mas, por timidez calou-se, murmurando: «talvez, talvez...». O republicano começava a desagradar-lhe. As suas naturezas — uma toda de impressões, a outra toda de raciocínio — discordavam, e havia entre eles como alguma coisa de frio, de hostil, que os separava. Mas o que mais descontentava Artur era não ver no republicano aquela bondade quente e evangélica, que era para ele o atributo melhor da democracia. — Sobre que é o seu livro de versos? — perguntou-lhe o outro. Para dar uma ideia das tendências do seu livro, falou então na Ode à Liberdade, na sátira A Sociedade. Era um livro democrático... A poesia moderna, como dizia o Damião, devia ser revolucionária. Mas Nazareno detestava a poesia: a sua forma luxuosa, totalmente idealista, servia apenas para amolecer as virilidades. Nunca lia poetas. Artur, ofendido, exclamou: — Mas Alfredo de Musset, Garrett?... — Pulhas! — disse dogmaticamente o republicano. — Musset era um libertino, um bêbedo, um boêmio, que nunca compreendeu o seu tempo e que o que soube celebrar foi a luxúria! E Garrett, um janota! Usava espartilhos e em pleno século XIX vem-nos falar de romances de cavalaria e de outras pieguices góticas... Um vendido! Artur sentia-se indignado. E que tinha a dizer de Lamartine? — Um erótico!

— Ora essa! Mas em 48... — Comprometeu tudo. Fez frases. Faltou-lhe a ideia, a inspiração da justiça, a alma do povo! Vinha das salas, das camarilhas. O seu ideal era a regência da Duquesa de Orleães, de quem ele queria ser primeiro-ministro e amante, à Mazarini. Um vendido! Oh, era de mais! Artur, atônito, procurava razões, frases, parecendo-lhe agora que o republicano era tão seco, tão fictício como os burgueses da soirée de D. Joana Coutinho. — E o seu drama o que é? — disse ainda Nazareno, com um tom interrogante de pedagogo. Artur, que aquele interesse lisonjeou, descreveu-lhe logo o drama, insistindo no lado democrático — a glorificação do amante plebeu, a humilhação do marido fidalgo — ocultando-lhe o elemento lírico e romanesco do trabalho. O plano, assim contado, pareceu satisfazer Nazareno; porém, deu-lhe conselhos: — para que dar ao protagonista, ao filho do povo, a profissão estéril e imoral de poeta lírico? Devia-o fazer engenheiro, médico, empregado de uma companhia; devia seduzir a duquesa, não pelo brilho do seu lirismo, mas pela justeza das suas ideias. Contudo a verdadeira obra de teatro era a comédia satírica à Molière, a comédia aristofanesca, a exposição dos vícios, das infâmias, da imbecilidade desta canalha lisboeta: alguma coisa de fustigante, de vergastante! Dizia isto com um acento de ódio que lhe passava entre os dentes, e atirava vergastadas ao ar com o guarda-chuva, como se açoitasse num só dorso toda uma Sociedade! Artur apressou-se a concordar. Essa era a sua intenção: e alargava-se em considerações sobre a Comédia Social, fazendo renascer a simpatia comum. Mesmo, para mostrar a sua veia de observador, para desabafar os seus despeitos, pôs-se a dizer que belo ato daria a soirée de D. Joana — «uma soirée idiota, onde fora arrastado e que era do melhor que havia em Lisboa» — porque não desgostava de mostrar que tinha relações aristocráticas, mesmo fazendo-lhes a caricatura. Contou a opinião dos dois homens graves sobre o Fim de D. Juan, a conversa do velho sobre a irreligião do povo, os adultérios que pressentira, a grotesca figura da viscondessa, os vícios de D. Joana... — Pouh! — fez Nazareno com nojo. — Que sociedade, que asco! Não, realmente, o Matias tem razão, é humilhante lutar contra uma tal sociedade! A luta supõe forças que se

encontram! mas assim, temos de um lado a força, do outro a pústula! Pouh! Portugal não deve ser reformado, como diz o Damião, deve ser queimado a nitrato de prata!... Estavam no Terreiro do Paço: uma Lua lívida deixava cair de entre as nuvens uma mancha luminosa sobre a água sombria. — Tudo isto precisa ser arrasado! — disse ainda Nazareno, mostrando em redor as Secretarias negras, de uma uniformidade enfática. Tinha parado e olhava, apertando com cólera o cabo do guarda-chuva, toda aquela reunião de edifícios oficiais, como a pesada e antiquada personificação de regimes funestos — o Banco e o seu ágio, a Alfândega e os seus direitos, os Ministérios e o seu bureaucratismo — e pensando no mundo estabelecido, farto, que vive daquelas instituições: — E lembrar-me — exclamou — que um homem como o Matias está reduzido, para ganhar a vida, a rever dicionários, cartilhas e manuais enciclopédicos! Oh! Dá-me vontade de vir para a rua e fazer fogo sobre toda esta gente... Depois da sua reserva, aquela expansão de cólera impressionava Artur e as injustiças sociais pareciam-lhe maiores, desde que podiam aquecer num desespero tão alto aquela figura seca de seminarista. Mas Nazareno calmara-se. Pôs-se então a falar do Matias e a sua voz tornou-se grave, quase solene. Matias era um justo: era casto, era incorruptível, de uma alta elevação moral; vivia num quinto andar, pobre, sereno; de dia trabalhava na tipografia, à noite no seu livro; não tinha um pensamento que não fosse pela liberdade e pela revolução. — É um Robespierre! — resumiu Nazareno, que, com o seu espírito autoritário e dogmático, muito bilioso, tinha um culto pelo chefe do Clube dos Jacobinos. Artur, electrizado, mostrou um grande desejo de o conhecer. Mas algumas gotas de chuva caíram, e Nazareno, abrindo o guarda-chuva, prometeu que lhe falaria. Seria mesmo possível conseguir que o admitissem como sócio do Clube Republicano. Artur experimentava uma satisfação profunda. Era o seu velho ideal enfim realizado! A simpatia generosa de Jácome Nazareno comovia-o; roçava-se por ele, aconchegava-se-lhe, orgulhoso da sua amizade e do abrigo do seu guarda-chuva. O Matias, o Clube Republicano, a

ideia vaga de um partido, apareciam-lhe como alguma coisa de forte, em que a sua vida, cheia de flutuações, encontraria enfim estabilidade, regra e uma ideia elevada, cujo serviço engrandeceria a sua personalidade. — Eu não valho muito — dizia, humilhando-se, mais por ternura que por modéstia — mas enfim, para escrever, para lutar... Se fosse necessário fundos para um jornal... – Ofereciase com uma dedicação real, desejando naquele momento ter para o serviço da República — gênio, tesouros, as forças de um leão! A chuva cessara e Nazareno, fechando o guarda-chuva: — Há-de achar em que se empregar: todas as aptidões vão ser necessárias para preparar a grande barrela. — Mas quando virá ela? — disse Artur com desalento, como se lhe tardassem os vagos triunfos, as vagas vinganças que entrevia na República... Nazareno parou e disse, brandindo o guarda-chuva: — A pera está madura! — E explicou jovialmente que era uma pilhéria de 48, em França, nos banquetes reformistas, quando à figura bojuda de Luís Filipe fora dada a alcunha de pera e as suas teimas de déspota burguês lhe tinham trazido o ódio público. Artur, todavia, achava o partido republicano em Portugal bem desunido, bem vago, sobretudo bem limitado... Nazareno citou logo as forças de que dispunham, ainda dispersas, mas que um sentimento crescente de justiça e de progresso tendia a unir, a organizar. Falou nos operários de Lisboa, do Porto; na pequena burguesia «que é de instinto republicano». E baixando a voz, grave pela importância da revelação: — Em Coimbra forma-se um Clube, no Porto outro, em Viseu outro... — Calou-se um momento e continuou: — E depois que importa? As ideias fazem o seu caminho sem os homens; não são necessários muitos homens para fazer triunfar uma ideia. Os Apóstolos eram doze — e o mundo é cristão! A chuva recomeçara; e ao fundo da Calçada do Alecrim separaram-se, quando soavam devagar as onze horas na torre da Igreja de S. Paulo.

Artur galgou a calçada do Alecrim, impressionado, exaltado. Decidia-se agora a abandonar todos os hábitos de sociedade, as esperanças vãs em amores fictícios, a literatura puramente lírica: queria trabalhar para o estabelecimento da República, compor comédias satíricas, à Casamento de Fígaro, que abalassem o velho regime; e vinha-lhe um desejo de se dar a todos os que sofrem, como se as palavras de Nazareno lhe tivessem posto na alma uma tão grande energia de amor humanitário, que só se satisfizesse esposando a miséria universal! E ao mesmo tempo, recordações de leituras da História da Revolução Francesa lhe voltavam ao espírito, dando-lhe moldes para conceber atitudes, situações, episódios: via-se brandindo uma espada, à frente de operários que um antigo opróbrio enchia de furor; ou de noite, numa vaga sala baixa, onde vagas sombras se agitavam, decretando incêndios de palácios; ou ainda, severo, interrogando o Rei prisioneiro, como na volta de Varennes. E como os impulsos de piedade e de fraternidade lhe voltassem ao coração, olhava em redor, procurando algum pobre que socorresse, algum oprimido a libertar. Viu apenas a patrulha cujas grossas capas de oleado reluziam sob a chuva. Ao entrar no hotel, as janelas alumiadas do Restaurante Silva deram-lhe a ideia de cear; porém, pensando que àquela hora famílias operárias sofriam fome, impôs-se com orgulho àquela privação, em respeito aos necessitados e num sentimento de vaga igualdade fraternal. Quando entrou no quarto foi-se ver ao espelho, enternecido de se sentir tão bom — e vinham-lhe ao mesmo tempo baforadas de vaidade, um antegosto de desforra, pensando que num dia, próximo talvez, apareceria àquela Sociedade que o ignorava e o desdenhava, poderoso, num terror de apoteose popular. Deitou-se, fez maquinalmente o sinal da Cruz, como tinha por hábito, e adormeceu cansado. Foi Melchior que o acordou ao outro dia, abrindo as janelas com ruído. Vinha muito jovial, e dando-lhe palmadas por sobre a roupa: — Seu preguiçoso! Upa! Upa! Artur abriu à luz olhos aparvalhados de sono: estava sonhando justamente que do portal da Casa da Câmara, em Oliveira de Azeméis, proclamava a República, ao agitar dos lenços nas janelas, entre um estalar de foguetes e os vivas furiosos da plebe libertada; e ainda vibrante dos entusiasmos daquela gala, não reconhecia a grossa figura de Melchior, de bigodes

arrebitados, a face jovial e um raminho de violetas no jaquetão. — Então por que não veio você ao piquenique, seu tipo? Artur espreguiçou-se e disse, bocejando, que estava comprometido. — Pois perdeu! — exclamou Melchior. — Grande patuscada! Tudo sossegadinho, sem desordens, sem troça, em boa amizade... Ceiazinha rica e belo fado! Enfim, uma noitezinha cheia! E a Concha ficou com um ferro! Está com vontade de o conhecer, homem! Está em brasas por o ver! Artur lamentou não ter podido... Tinha-se comprometido a ir a casa de D. Joana Coutinho... — Cáspite! — exclamou Melchior, saudando-o. — E então? Muito bem. Todos muito amáveis, tinha-se divertido... Estava boa gente. — Cáspite! Cáspite! — dizia Melchior, torcendo o bigode. E com um tom ambíguo, descontente, declarou que, para ele, as soirées eram uma estopada. Nunca lá ia — não que não andassem atrás dele, mas... Aborrecia-se, que diabo! Não havia para o regalo do corpo e da alma como uma boa pandegazinha ao Dafundo. E então, talvez para fazer inveja a Artur, contou as alegrias da patuscada, deu detalhes, citou episódios, falando da Concha, da beleza da Concha, da pele da Concha! — Mas quem é a Concha? Melchior encolheu os ombros, com impaciência, como se Artur lhe tivesse perguntado quem era Pio IX. — A Concha! Então você não sabe? Não se lembra em S. Carlos, daquele rapaz tísico, o Inglês? Pois bem, a Concha estava com ele; deixou-o, que o pobre diabo já se não levanta, às bacias de sangue pela boca! É a espanhola mais bonita que tem vindo a Lisboa. E rapariga fina... Coitada, está naquela vida... mas muito fina. É filha de um general, muito bem-educada. Toca piano, oh menino! E depois que maneiras! A comer, é urna duquesa! E que pé, que pé! É de endoidecer. Artur espreguiçou-se com uma vaga languidez.

— Bonita, hem? — Caramba! — fez Melchior com um grande gesto. Do quarto próximo vieram sons de piano e duas vozes, uma de soprano e outra de tenor, começaram a cantar o dueto do terceiro ato do Fausto: «Al pálido chiarore dei astri de oro». Melchior escutou um momento: devia ser a segunda dama de S. Carlos, que estivera doente, a ensaiar com o Videlli. — Vá, vista-se, homem! — exclamou. — Estou a cair com fome. Está um dia lindo! Abriu a vidraça. Os rumores da rua entraram com a larga luz festiva. — Arriba! Arriba! Artur saltou vivamente para o chão. A linda manhã, o alegre rodar dos trens, aquele ensaio, ao lado, de uma ária elegante que punha no quarto uma intimidade de bastidores, a ideia da Concha «que o queria ver», davam-lhe vagos rebates de felicidade; sentia-se leve, desejoso de ir para a rua, ver mulheres com toilettes bonitas, o aço dos arreios dos trens ricos reluzir à porta das lojas. E ajanotava-se, enquanto Melchior se debruçava da varanda, torcendo o bigode, escarrando alto, a ver se pescava a segunda dama. Ao almoço, Melchior voltou a falar da Concha, enquanto devorava a sua omeleta: se fosse rico, punha-lhe casa... É que era uma rapariga com quem até se podia conversar... É verdade, tinha pilhéria! E depois, coração... Sentia, que diabo! Artur considerava-o, notava-lhe a face grossa ocupada a mastigar, a pele engelhada em volta dos olhos, a calva crescente, o bigode espetado: — «se a Concha sentia alguma coisa, não era decerto por aquele tipo!» — E como Melchior insistia, «que ela desejava muito ver Artur», vinham-lhe vagas dilatações de vaidade, de desejo... Talvez ela o amasse! — Ela conhece-me? — Viu-o em S. Carlos. Reparou em você! Artur recostou-se na cadeira: não duvidava que lhe tivesse feito impressão. Depois das suas humilhações, aquela ideia deleitava-o; às vezes, naquelas mulheres andaluzas, encontram-se almas profundamente amantes, ávidas de sacrifício... Gostaria, numa manhã assim luminosa, almoçar com ela, fresca e branca, com o seu penteador de rendas fofas, ou

ainda, à noite, de Verão, com as janelas abertas, vê-la soltar as notas cálidas de uma malagueña que iriam morrer na tranquilidade suave do ar alumiado de Lua. E no fundo do seu espírito agitava-se, confusamente, aquele vago desejo de um amor romântico por uma Dama das Camélias, de um sentimento à Armando, com aquelas ideias de reabilitação que já em Coimbra tanto o perturbavam. Disse, corando um pouco: — Como poderei eu conhecê-la? Melchior, muito cínico, riu: — Entrar por ali dentro, amigo, entrar por ali dentro! Mas Artur «achava isso ignóbil». Queria algum encontro delicado, com chic... Verem-se numa ceia, por exemplo... Nada mais fácil, disse Melchior. Podia-se arranjar outra patuscadazinha, sem espalhafato. Somente, naquela semana, ele não podia. — Deixe você ver... Sábado, hem? — Sábado — concordou Artur, espreguiçando-se com voluptuosidade. Melchior bebera o seu café e «safava-se porque tinha de ir ao «Século». Artur subiu para o quarto, e ficou a fumar o seu charuto à janela. Ao lado, agora, a soprano cantava a ária do Rigoletto: «Caro nome de mio sposo»... Artur escutava: parecia-lhe ver o vulto branco, com a lâmpada na mão, subindo a escadinha da casa oculta nos arvoredos, parando a cada degrau, para soltar, com o olhar comovido, as notas cálidas que se perdiam na sombra suave da noite! Vinham-lhe ideias de noites de ópera, de elegâncias amorosas. Sentia uma moleza preguiçosa, vendo o fumo branco do charuto dissipar-se em aroma. A luz envolvia-o como uma carícia; todas as conversas sombrias da véspera, aquelas ideias violentas do Nazareno, tinham sido levadas com as nuvens lúgubres da noite: eram tão incompatíveis com o sol radioso como voos de morcego. O que sentia agora, não eram desejos de Justiça, de Igualdade, mas as molas flácidas de uma carruagem, um rosto aristocrático a amar... Tinha feito impressão à Concha, hem? E retorcia o buço, ajeitando a gravata. Era a impressão que já fizera à senhora da estação de Ovar! A senhora do vestido de xadrez!... Teve um desejo intenso de a ver:

aquela manhã lúcida, festiva, doirada, reclamava uma ocupação delicada, elegante; se a pudesse avistar à janela, segui-la na rua? E, escovando o chapéu, ia acompanhando com movimentos lânguidos de cabeça as notas amorosas da ária do Rigoletto. Correu a florir-se à Casa Havanesa, e foi à Rua de S. Bento. O guarda-portão lá estava, empinando o ventre majestoso, as mãos atrás das costas. A janela, a mesma, entreaberta, deixava ver por entre as bambinelas de fazenda sobrepostas a cortinas de cassa, um interior de sala, escuro e rico. Mas ninguém se debruçou à janela, ninguém saiu do portão. Artur acendeu um charuto, mais contrariado, mais amoroso agora, em frente da casa de Ela, na presença daquela fachada muda, que era como alguma coisa da sua pessoa. Não se conteve, entrou num estanco próximo, comprou fósforos, charutos, e perguntou negligentemente à estanqueira quem vivia ali naquela casa. — Ali, onde está o guarda-portão? — disse a criatura, uma magrita, muito grávida. — É a Sra.ª Baronesa de Paradas. Ao menos sabia-lhe agora o nome! E subindo a Calçada do Correio, arrependia-se de não ter comprado mais alguma coisa no estanco e interrogado a mulher sobre os hábitos, as horas de saída, as relações, a idade da Sra.ª Baronesa. A criatura, com o seu enorme ventre, a boca muito fendida, a pele cheia de sardas, parecia acessível às tentações de meias libras. Por ela poderia fazer-lhe chegar urna carta, talvez... Perguntou nessa noite ao Meirinho se conhecia a Baronesa de Paradas... — Nunca vi. — Uma senhora muito bonita, com um pequerrucho. — Nunca vi. Desde o caso do chapéu, tratava-o com secura; o Padilhão também. Artur suspeitava que em casa de D. Joana se tivesse falado, troçado. Nessa noite, teve a certeza, quando, ao passar no corredor, o Carvalhosa o deteve para lhe perguntar com o seu ar soberano: — Então que história é essa do chapéu? Não se fala noutra coisa! Artur, escarlate, quis rir: — Tolices!

E o Carvalhosa, de charuto ao canto da boca, as mãos nos bolsos, um bambolear de escárnio: — Homem, semear assim chapéus de molas pelas casas particulares... Artur teve vontade de lhe espalmar uma bofetada na bochecha lívida. Não achando uma resposta, subiu para o quarto, furioso. Não se falava noutra coisa, hem? Por isso surpreendera olhadelas, risinhos!... Canalhas! Começava agora a ter ódio ao hotel: desde que se sentia vagamente troçado, as fisionomias pareciam-lhe tão estúpidas como as conversas; o Bento Correia, que fingia ignorálo, enervava-o com a sua gula tranquila, a mastigação ruminada, com pingos de molho que lhe caíam sobre a barba; sentia uma vaga ironia, um desdém ambiente cercá-lo; chamavam-lhe o poeta. Um dia ouvira o guarda-livros dizer para o criado: «é para o poeta do 26». Meirinho tinha mudado de lugar, para se não sentar junto dele, decerto: quis, por vingança, reclamarlhe as dez libras, mas não se atreveu; além disso conservava a ideia de que Meirinho lhe seria ainda necessário, mais tarde, para se relacionar com a Sra.ª Baronesa de Paradas: por isso fazia-lhe sempre o mesmo sorriso muito amigo, a que Meirinho respondia apenas com um movimento seco de cabeça. Agora, durante o jantar, ficava isolado, mudo, sentindo-se vagamente «um pária». Levantava-se sempre da mesa desesperado, lançando-se de toda a alma em ideias de vingança e de revolução. Porém ultimamente nem o Nazareno aparecia no Martinho, e como lhe não sabia a morada, a sua vida arrastava-se de novo naquelas flutuações intoleráveis, sem fim, sem resultado. Depois, o dinheiro «ia-se derretendo»; o manuscrito dos Amores de Poeta lá estava, improdutivo, inútil, no fundo do baú, entre as camisolas. — A sua única alegria era a revisão das provas dos Esmaltes e Jóias, muito adiantada já. Certa manhã — um sábado — em que trabalhava no seu quarto, recebeu da redacção do «Século» um bilhete de Melchior: «Amigo. Hoje, sábado, é o dia da pandegazinha. Estive esta manhã com as sílfides. Aceitam. Eu levo a Carmen, você a Concha. A tipóia do José Teso está arranjada. Às 9 horas lá vou buscá-lo ao hotel.

A divina Concha está ansiosa por ver el Señor Arturito. Salero!» Ficou entusiasmado. Vinha bem a propósito aquela pândega, depois dos tédios dos últimos dias! Era a sua primeira orgia com raparigas chics e entrevia uma tipóia correndo sob o luar, cheia de sons de cantigas; depois, o champagne, espumando sob um lustre de gás e camisinhas de rendas deslizando de ombros brancos como o mármore. Estirou os braços numa sensação de concupiscência brutal. Queria embebedar-se, gritar, delirar, e diante daqueles gozos carnais, o Platonismo, a Sociedade, a Arte, a Revolução, pareciam-lhe coisas bem fictícias! Nem pôde, na sua excitação, continuar a rever as provas. Saiu ao acaso, pelo Chiado. Pensava na Concha e à ideia de a ter seminua nos braços, sentia uma viva contracção no estômago; imaginava-a alta, pálida, de olhos árabes, com os ardores de um sangue sevilhano e as melancolias de uma existência transviada. Desejava-a tanto, agora, que quase a amava; não duvidava da impressão que lhe fizera e olhava vagamente as vitrinas, pensando no presente que lhe daria, quando ela, desinteressada e amorosa, recusasse dinheiro e só lhe pedisse fidelidade. À tarde, quando voltou ao hotel, o guarda-portão mostrou-lhe um rapaz de buço, com um chapéu de coco, que o esperava encostado à ombreira: — Um recado para V. Exª. O rapaz aproximou-se e com voz cautelosa: — V. Exª é que é o Sr. Artur Corvelo? — Sou. — Não há engano? — Não, homem, não. — Tem a bondade de me dar uma palavra. — Levou-o para a rua, quase até defronte do Casino e tirando do bolso um bilhete: — Vem lá dos amigos... Artur leu à luz de um candeeiro de gás: «Camarada. Hoje é a instalação do Clube na casa nova. Matias preside. Venha-se encontrar matematicamente às 8 horas menos um quartos à esquina do Teatro D. Maria, lado ocidental. Não lhe digo que seja exato, pois que seria

ofender os seus sentimentos de patriota. Queime este bilhete.» — Faz favor de dar recibo — disse o rapaz. Artur deu-lhe o seu cartão-de-visita e o rapaz, levando a mão ao coco, disse com uma voz surda, grave, que impressionou Artur: — Saúde e fraternidade! Artur entrou no hotel profundamente contrariado. Era tarde para avisar o Melchior, e todavia não podia faltar ao Nazareno, ao Matias; além disso, a ideia da sala, do estrado da presidência, aquela esperança de sessão secreta, de revoluções temerosas, atraíam-no pelo seu lado dramático. E, contudo, lamentava perder a ceia, a noite de amor! A sineta chamou-o para o jantar. Antes do assado, sob a influência do Colares, já pensava em deixar a sessão republicana e ir com a Concha; o cognac decidiu-o: sentia mesmo um requinte de prazer animal em «mandar as ideias ao diabo» e atirar-se ao bonito corpo branco que se oferecia todo cálido. Diria ao Nazareno que tivera uma cólica, que recebera um telegrama... As sessões do Clube seguir-se-iam todos os dias — e a Concha, despeitada se ele falhasse, podia perder o capricho, ou voltar para a Espanha. E para que, por um acaso, o Jácome não o viesse surpreender, saiu. Às nove, voltaria, encontraria o Melchior e batiam para o Dafundo. Com o charuto na boca, o chapéu ao lado, atravessava o corredor, cantarolando, quando o Meirinho, que conversava num grupo, ao avistá-lo, veio para ele com uma cara severa: — Perdão, meu amigo — disse — sinto ter de lhe dizer uma coisa. Eu levei-o a casa da Sra.ª D. Joana Coutinho, uma senhora da primeira sociedade, e o meu amigo, passados dez dias, nem sequer lhe deixa um bilhete... As faces de Artur abrasaram-se de vergonha. — Ora isto não se faz — continuou Meirinho, grave. — É pôr-me em má posição: dá a entender que eu levo lá gente que não sabe os hábitos da sociedade... Isto não se faz. Artur, petrificado, não achou uma palavra: viu-o girar sobre os calcanhares e reunir-se ao grupo, cofiando a barba. Lá estava o Bento Correia, mascando o charuto, o Carvalhosa, erguendo alto a guedelha cheia de caspa, o Padilhão, torcendo solenemente a pera, o brasileiro Gomes, com a sua boca

alvar, hílare... Artur teve-lhes um ódio sanguinolento que se estendia a tudo o que representava a Sociedade, a Política, a Finança! Esqueceu um momento o Melchior, o corpinho da Concha, o champagne e o luar. Sentiu a necessidade de se vingar, de humilhar, de aterrar aquele conciliábulo de idiotas enfartados de comida, ocupados de pieguices, vivendo no artifício... E furioso, tendo-lhes sede do sangue, partiu como uma bala, à procura do Nazareno! Quando, às nove horas, Artur entrou com Nazareno no Clube, na Rua do Príncipe, pareceu-lhe que havia apenas, em lugar da larga reunião que esperava, catorze ou quinze pessoas. A sala era vasta, de um aspecto regelado, forrada com um papel pardo semeado de florzinhas azuis; do tecto caiado de fresco descia um candeeiro de gás de dois bicos, sem globos, dando uma luz crua de botequim; cadeiras de palhinha, como as dos asilos, perfilavam-se contra a parede; o soalho velho tinha remendos de tábuas novas; ao fundo, diante de uma janela que dava para o pátio de uma cervejaria vizinha, disfarçada por uma larga cortina verde, era o estrado da Presidência, com a sua mesa coberta de oleado, e um guarda-pé de baeta vermelha; ao lado, a uma mesinha de pé-de-galo onde ardia uma vela, um sujeito que tinha feridas na testa escrevinhava, muito míope, com o nariz sobre o papel. Conversava-se em grupos. Nazareno deu apertos de mão mudos e levou Artur a uma sala contígua, caiada de novo, alumiada por um bico de gás que saía da parede. Havia no chão rolos de papel, potes de tinta, e, junto à janela de portadas cuidadosamente fechadas, um banco de carpinteiro. Ao pé de uma pilha de tábuas arrimadas ao alto contra a parede, um sujeito, todo de preto, falava a dois indivíduos que o escutavam de charuto na boca. Era o ilustre Matias. Artur foi-lhe apresentado por Nazareno como «o nosso poeta». Matias apertou-lhe a mão com uma gravidade seca, murmurou um estimo muitíssimo, e continuou com o gesto lento, medido, das suas mãos calçadas de luvas pretas: —...Por isso, no caso do Luís, faria o seguinte: apenas descobrisse o escândalo, expulsava-a de casa, sem cólera, e recomeçava tranquilamente a trabalhar... Artur examinava-o: era alto, de feições aquilinas, cabelo rapado à escovinha; o seu

bigode curto, castanho, tinha pelos ásperos e saídos; e o seu olhar azul e claro era frio, apagado, muito duro. Um dos sujeitos disse, cuspilhando películas de tabaco: — Pois sim. Mas, enfim, sempre é sua mulher. Se ele a expulsa sem recursos, abre a porta ao público... Matias encolheu os ombros, com uma indiferença que significava: — que tem isso? — Ah — fez o outro agitando a cabeça — é que é muito desagradável saber uma pessoa que sua mulher está usando o seu nome, e, por trás de tabuinhas, a fazer pst, pst, aos sujeitos que passam... Matias interrompeu dogmaticamente: — Desde o momento em que, por sua culpa, o pacto conjugal se desfez, não tenho nada com as suas acções. A minha honra é minha, não é dela! Se a vejo por trás das tabuinhas, o meu dever é avisar a polícia para que a numere e a ponha, a ela, sob o controle da higiene e aos cidadãos, ao abrigo do contágio... Mas na outra sala alguém entrara, porque se ouvia: Olá! Viva! Como vai isso! Ditosos olhos! Enfim o rumor simpático em torno de uma presença estimada. E quase imediatamente um indivíduo nédio entrou na saleta, de chapéu para a nuca, o ar hílare, ama grossa cadeia de relógio sobre um ventrezinho próspero. O Matias estendeu-lhe vivamente a mão, os outros vieram dar-lhe palmadinhas no ombro, com o olhar enternecido. E com as bochechas prazenteiras, o indivíduo nédio exclamou: — Então cá estamos, cá estamos! Era o Sr. Abílio Pimenta, lojista de panos, proprietário. Devendo ser, por profissão, por interesse, por fisionomia, um conservador, a sua presença era para os republicanos uma satisfação permanente, muito saboreada; com o seu ventre, o seu grilhão, a sua face nédia, o vago cheiro de armazém que saía dele, o amigo Abílio introduzia no Clube aquele tom de respeitabilidade, de estabilidade, de ordem, que a Propriedade confere às Ideias que apoia; a cooperação daquele proprietário era a evidência gloriosa da praticabilidade da República: ele representava a adesão da burguesia, e a sua pessoa trazia aos republicanos da plebe aquele

orgulho que dava aos deputados do Terceiro Estado, em 89, a presença, nos seus bancos, dos fidalgos das casas de Noailles ou de Montmorency. A sua presença tirava ao Clube a feição do grupo inquietante de pobretões descontentes e as teorias mais exaltadas tomavam a seriedade de legislações prudentes, quando, para as escutar, se via aquele honrado lojista, de ar benigno e paterno, com dinheiro no banco, inclinar-se, fazendo com a mão gordalhufa uma concha em redor da orelha cabeluda. A sua assiduidade no Clube era proverbial e todavia as suas ideias pareciam nebulosas. Exprimia-se vagamente, dizendo com jovialidade: — É dar para baixo, é dar para baixo! Para «dar para baixo», aconselhava a fundação de um jornal e previamente a compra, por subscrição, de um prelo, tipo, etc. Ele mesmo se oferecia para dar o seu óbolo — e que aparecesse o dinheiro que o prelo, tipo, etc., não estavam longe... Ultimamente estivera incomodado, com ameaças de dores reumáticas, e, muito interessados por aquela vida preciosa, o Matias, o Nazareno, pediam detalhes da sua convalescença. — À custa de muito álcool canforado...— explicou ele com bonomia. — Foi a minha senhora que me curou. Nada de médicos, dizia-me ela. Tens dores nas cruzes? Fricções de álcool. Pois senhores, fez-me arribar... Eu estendia-me na cama, e agora o verás, era a minha senhora a esfregar, a esfregar... Riram com enternecimento: aquilo parecia muito patriarcal, de uma alta união doméstica. Um dos sujeitos que mascava o charuto fez sentir a diferença entre aquela honrada senhora, tratando o marido, e as de outras classes, ocupadas de toilettes chics e de modistas... — Não vá sem resposta — fez o lojista. — Que a minha senhora gosta da sua tafularia... E olhe que aos domingos, ao Passeio, não vai outra! Podem levar outros arrebiques em cima do corpo, mas mais valores e melhores sedas, nenhuma, nenhuma! Uma voz disse à porta da saleta: — Ó Matias, são nove horas! Matias deu um puxão à sobrecasaca; com um gesto rápido e maquinal ajeitou a gravata, e, seguido dos outros, entrou na sala, dizendo a Artur:

— Tive carta do nosso Damião. O livro dele sai por estes dias... Subiu ao estrado e quando o rumor de cadeiras sossegou, disse, sentando-se e remexendo nalguns papéis sobre a mesa: — Está aberta a sessão. Um membro do Clube, magríssimo e estrábico, ergueu-se bruscamente. E com a cabeça alta, as mãos na cinta: — Eu proponho que se altere esta fórmula: Está aberta a sessão, cheira muito a S. Bento. Em redor um murmúrio correu: ora adeus! Tolices! Para quê? — Para quê? — exclamou o estrábico, que parecia de gênio irritável. — Pela razão que se diz «cidadãos», em lugar de «meus senhores». Todas essas fórmulas são boas... Matias interrompeu-o com um gesto breve da mão espalmada: — Eu creio esta fórmula tão inocente como a de bons-dias. Usava-se na Convenção. — E olhando em redor: — O que me parece mais útil evitar é o hábito de fumar... O estrábico que tinha o cigarro nos dedos, atirou-o, sentando-se e resmungando. Artur apagou logo o seu charuto sobre a sola. Dois ou três, mais econômicos, foram pousar na borda do estrado os charutos meio fumados. O secretário, que estivera tirando películas das feridas da testa, de pé, inclinado para a luz, com o nariz no papel, ia rosnando a leitura de uma ata: pelas cadeiras falava-se baixo, e Artur, sentado ao pé de Nazareno, examinava as fisionomias. Não tinham as expressões exaltadas e sinistras que ele imaginara. À excepção de um sujeito calvo e obeso, que quase ocupava duas cadeiras, tanto as faces como os corpos eram magros: sentia-se neles as existências mesquinhas nos quartos estreitos das casas de hóspedes, o tédio de um trabalho monótono de escritório ou de secretaria, o ar vago e fatigado que dá a vadiagem; havia dois padres, de olhos duros, a pele azulada da barba espessa, muito rapada, os beiços lúbricos; um velho militar conservava entre os joelhos um enorme bengalão de castão de ferro. Não havia um único operário e todos pareciam sentir uma infinita vaidade daquele aparato de sessão, gozando a ficção parlamentar. Um indivíduo, porém, parecia a Artur muito original: tinha a cabeça enorme, quase calva, apoiada às costas da cadeira, e, muito estendido, à larga no seu

fato bonito de cheviot claro, com as mãos nos bolsos, parecia dormitar, numa indiferença irreverente; entre os sapatos de verniz e as calças, via-se um pedaço de meia, às riscas pretas e vermelhas; Artur achava-o elegante e parecia-lhe que tudo o que saísse da sua boca fina, móbil, de um arco bem-talhado, devia ser original e engraçado. — Quem é? — perguntou a Nazareno. — Um doido — disse o outro, encolhendo os ombros. O secretário, no entanto, findara a leitura; e com a mão apoiada à mesa: — Aprovado, não? — perguntou. — Aprovado — disseram — aprovado! Matias então ergueu-se. A sua face bem-talhada parecia mais pálida sobre o fundo verde-escuro da cortina; deu com ambas as mãos, ainda calçadas de luvas pretas, um puxão breve à gola da sobrecasaca e começou: — Meus senhores — emendou logo: — Cidadãos. Hoje estamos aqui para nos instalarmos. Como veem, há ainda na sala arranjos a fazer: espero que estejam prontos para a semana. As sessões regulares podem começar então. — Deu um olhar às filas de cadeiras: — Creio que há apresentações a fazer... Jácome Nazareno ergueu-se logo e com solenidade: — Proponho e apresento, sob minha garantia, o Sr. Artur Corvelo, autor de um drama de tendências democráticas e amigo desde Coimbra do nosso Damião. Creio que não haverá objecções. Vozes soltaram: — Apoiado! Foram minutos gloriosos para Artur. O secretário, voltando para ele uma face muito risonha, chamava-o: — Tem a bondade? É para assinar o seu nome. E enquanto Artur, vermelho, comovido, assinava num largo registo encadernado — o rapaz de fato de cheviot claro, meio erguido sobre a cadeira, disse com uma voz bem timbrada, mordente: — Proponho o meu amigo Vicente Falcão.

Um homem muito alto, muito pálido, de aspecto místico, com um longo casaco eclesiástico, adiantou-se para o meio da sala. Curvou-se e no silêncio um pouco admirado, disse cavamente: — Desejando fazer parte do Clube Democrático, quero evitar equívocos. Uma só palavra os desfaz: eu sou socialista! — Olhou em redor, repetiu com força: — Eu sou socialista! So-cialista! Recuou um passo, cruzou os braços sobre o peito, erguendo a face lívida, como para afrontar a morte. Em redor, havia nas fisionomias uma vaga expressão assombrada, mistificada; cochichava-se, narizes franzidos interrogavam num gesto mudo: risinhos fungavam. Que é? Quem é? Que diz ele? O rapaz vestido de cheviot exclamou: — Apoiado! É bom preveni-los! Matias deu-lhe de lado um olhar frio de ódio e com uma voz afectadamente cortês:— Este Clube não tem exclusivismos... — Mas tem divergências! — interrompeu o rapaz vestido de claro. E erguendo-se: – Peço a palavra! — Não esperou que lha concedessem, prosseguiu: — Entre pessoas que aspiram apenas a substituir um rei constitucional por um presidente jacobino, que se indignam porque há viscondes, que fazem guerra à lista civil e outras pieguices — e entre nós, que queremos a evolução democrático-social na sua larga acção — há divergências muito graves. É conveniente evitar os equívocos. Estou com o Sr. Falcão: uma declaração a tempo define os terrenos... O estrábico soltou um apoiado, semelhante a um rugido. Nazareno que se agitava, impaciente, ergueu-se bruscamente e com o punho estendido: — É melhor desmancharmos o Clube à nascença e acabarmos... — Ordem! Ordem! — disse-se logo. — Pois que significa — gritava Nazareno, bracejando — trazerem-se estas divergências, apenas nos instalamos? Ainda as portas não estão pintadas e já nos dividimos em partidos...

— Não queremos ser confundidos com os jacobinos! — rugiu o estrábico. — Nem nós com os comunistas! — atirou um sujeito de barbas e óculos. Alguns diziam monotonamente: — Ordem! Ordem! repetindo a fórmula parlamentar. O velho militar grunhia: Fora os pretoleiros! Uma sussurração confusa corria nas filas de cadeiras, quebrada, aqui e além, por uma voz saliente que gritava: mais seriedade! mais decência! O místico conservava-se imóvel, espectral, os braços cruzados. E um indivíduo de cache-nez, sentado ao pé de Artur, perguntou-lhe ao ouvido, com o rosto franzido de ignorância impaciente: — A que vem tudo isto? Que querem eles? Ninguém parecia saber «o que eles queriam» — até que Matias, que decerto julgou o tumulto inconveniente à sua dignidade, repenicou, nervoso e pálido, uma campainha de quarto de convalescente. — É lamentável — disse no silêncio criado — que se produzam antipatias tão caracterizadas, apenas reunidos para um fim de justiça. São estas cenas que justificam o que dizem os nossos inimigos: que no partido republicano não há senão desunião! Este Clube não tem exclusivismos, repito. Aceita toda a opinião democrática que se apresente, em oposição ao Constitucionalismo. Em presença da vergonha do sistema actual, o dever de todo o homem livre e inteligente é associar-se para a sua destruição. Havia agora nas filas de cadeiras uma atenção intensa de rostos estendidos, aplicados a surpreender, apanhar a significação daquela divergência irritada. O amigo Abílio fazia com a mão uma concha acústica à orelha. Com o queixo na palma da mão, alguns arregalavam olhos em que reluzia a adoração pelo Matias. Só o socialista, o rapaz de fato claro, o estrábico e outro, que, com a pálpebra abaixada, catava os pelos do bigode, afectavam distracções, com bamboleamentos de perna muito irônicos, os lábios torcidos em sorrisos de tédio. E Matias prosseguia: — Se o Sr. Falcão — o místico dobrou-se em dois — por Socialismo entende... O místico disse de um só fôlego: — Entendo uma nova concepção da Propriedade, do Trabalho, do Casamento, da

Educação, da Sanção Moral, etc... em oposição às soluções dadas pela Igreja e as instituições que as realizam... Matias estendeu o braço: — Então, mais ou menos, somos todos socialistas... — Quod Deus avertat — interrompeu Gilberto, o rapaz de fato claro. O sujeito de cache-nez parecia extremamente impaciente, intrigado: — Mas onde querem eles chegar? — perguntou novamente a Artur. A explicação seria longa, complicada e para abreviar, Artur disse-lhe baixo: — Partidos. São dois partidos... — Teorias! — disse o de cache-nez, que parecia ter pela ideologia um ódio de economista. — A questão é fundar um jornal... É pôr um guarda-vento naquela porta, de onde vem uma corrente de ar que me mata... Matias falava agora da revolução social: — Se o Sr. Falcão entende, como socialista, que ela deve ser feita pelo povo, educado por uma filosofia popular positiva... (procurava os adjectivos) proudhoniana, com exclusão de toda a direcção autoritária, de toda a iniciativa de governo, então podemos divergir. Se, na questão política, pretende impor a fórmula federativa em oposição à fórmula unitária, decerto divergimos também... — Divergências sempre — atalhou Gilberto. Matias continuou: — Mas estamos unidos para o mesmo fim, e mais tarde, desembaraçado o País das instituições do passado, poderemos agitar essas altas questões... — Frases! — rosnou Gilberto. Aquela irreverência pareceu escandalizar a assistência: olhos acesos, irados, voltaram-se para ele; o velho militar acariciava, soturnamente, o castão da bengala e as mesmas vozes repetiam: decência! decência! — O Jacobinismo — continuou Matias — já que esta palavra agrada ao Sr. Gilberto, o Jacobinismo não combate o Socialismo, prepara-o; — repetiu com um gesto vivo: — prepara-

o! O Socialismo é um poder espiritual, substituído a outro poder espiritual... O místico abaixou aprovativamente a cabeça. Havia em todas as fisionomias um vago ar espantado, de incompreensão, de fadiga. —... Ora essa substituição — continuava Matias — para ser feita sem luta, sem choque, precisa ser levada a efeito dentro de um regime amigo que a favoreça, a promova e garanta a paz social enquanto se faz a transformação espiritual. — Pretextos para o Cesarismo — rosnou Gilberto. O sujeito de cache-nez apertou as mãos na cabeça, murmurando com uma voz plangente: — Ih, Jesus! Eu não os percebo, eu não os percebo! Não pareciam «percebê-los», em geral. Os olhares que o desejo de compreender arregalava, iam de Gilberto a Matias, implorando clareza: em toda aquela fraseologia nebulosa, onde estava a República? Por que não diziam, claramente, como se havia de destruir a Casa de Bragança? Por que se não distribuíam já os empregos de que os conservadores iam ser expulsos? Com que regimentos se contava? E os que se tinham reunido ao Clube, na esperança de uma futura satisfação de necessidades ou de ambições, sentiam como que um vasto logro, encontrando, em lugar de preparativos de acção, argumentações doutrinárias. Um indivíduo sem barba e muito amarelo exprimiu a impaciência de todos, dizendo com uma voz fina: — Vamos ao que importa: basta de filosofias! Matias fitou-o com o seu olhar frio como uma punhalada: — Sr. Malaquias, se lhe falta o respeito pelas ideias, deve ter ao menos o respeito pelas pessoas. — Bravo! Apoiado! O Malaquias ergueu os braços, enterrando a cabeça nos ombros; e com uma voz fina, muito arrastada, pegajosa, que arrepiava os nervos: — Eu, não era para ofender, eu, era para dizer... Artur, então, reparou nele: era amarelo, de uma amarelidão baça, oleosa, com uma boca

muito larga e parecia sujo, viscoso; sentia-se que devia exalar um cheiro mau. Matias, então, resumiu: — O incidente vai longo e eu julgo exprimir a opinião do Clube, dizendo que nos honramos de ver entre nós o Sr. Falcão, e que, sejam quais forem as divergências de opinião, é um orgulho adquirirmos a cooperação de um homem de bem e de um democrata ilustre. O místico curvou-se até ao chão e entre apoiados! foi assinar o seu nome no registo. Mas o Malaquias erguera-se logo e com gestos lentos, moles, gelatinosos, começou a falar de um modo tortuoso, empastado: dizia que era republicano, que respeitava todo o mundo, que quantos mais membros melhor... — E demorava-se, passava as longas mãos lívidas e magras pela face sem barba, oscilava com a cabeça: — ele não queria pôr em dúvida as convicções dos cavalheiros admitidos, mas... Porque enfim era necessário cautela... Longe de ele insinuar coisa alguma... Todavia... — Acabe, homem — gritaram-lhe, impacientes da voz, da hesitação mole, dos gestos frouxos. — A questão é esta — disse por fim — estamos ou não estamos nós aqui a conspirar contra o Governo? Ora bem. Sim, digo eu, isto não é para ofender, mas enfim... Sim, digo eu... Quem nos diz a nós... Quem nos diz a nós — repetiu, espalmando os cinco dedos sobre o peito côncavo: — quem nos diz a nós... que não há pessoas que vêm aqui para escutar, para espiar?... Jácome Nazareno deu um pulo: — Isso é insinuar alguma coisa a respeito do meu amigo? — E indicava Artur que escutava, escarlate, imóvel. O místico saltou, com duas passadas, para o meio da sala e com a voz trêmula, agitando dois enormes braços magros: — Cidadãos, é triste que depois de toda uma vida de estudo e dedicação à Democracia, no dia mesmo em que me venho reunir aos camaradas para um fim de justiça, me veja apontado como um espião — eu! — E batia com os dois punhos freneticamente no peito. O sujo Malaquias protestava, levando as mãos à cabeça:

— Pelo amor de Deus, o que aí vai! Aí está o Sr. Falcão com as suas exagerações e o Sr. Nazareno com o seu gênio. Eu não disse... eu não disse... Eu, o que queria dizer, é que era necessário não fazer as coisas a trouxe-mouxe. É necessário mais solenidade... Por que é que se não há-de exigir aos que são admitidos o juramento? — Sobre um crânio! — soltou Gilberto. Houve risadas. Muito bem! E Gilberto ergueu-se: — Peço a palavra. Hão-de notar que é sempre do Sr. Malaquias que saem as ideias cômicas sobre a simbólica do Clube: foi ele que há tempos reclamou a senha; hoje quer o juramento, amanhã há-de exigir o subterrâneo; depois, em Lugar do gás, a tocha! A democracia do Sr. Malaquias pertence à Rua dos Condes. Quanto ao Sr. Falcão, são bem conhecidas as suas ideias, o seu carácter, os seus artigos na «Evolução», a sua vida... — Apoiado! Apoiado! Nazareno erguera-se: — E com respeito ao Sr. Corvelo, creio que é inútil afirmar a sinceridade das suas crenças, o seu ódio intransigente à sociedade conservadora... — Apoiado! Apoiado! Está acabado isso! Malaquias curvou-se, disse ainda: — Eu, com a minha pequena experiência, sempre tenho visto exigir-se o juramentozinho... Lá fora é o mesmo... Mas enfim, se os sábios não querem... Eu, era para o futuro, mas enfim... Eh! Eh! Eh! Em redor puxavam-lhe pelas abas do paletot; ele sentou-se, resmungando, mas erguendo-se logo com a elasticidade de uma mola, recomeçou na sua voz irritante, que punha comichões no sangue: — Eu peço perdão de voltar à carga, mas enfim... É para dirigir uma pergunta à mesa... Queria saber se a subscrição de mil-réis por cabeça, para as obras da sala, foi excedida ou se há um saldo? E se há um défice, quem responde?... Sim, nestas questõezinhas de dinheiro... Eu não quero ofender... — E enterrava a cabeça nos ombros, com um gesto torcido dos braços: — Mas enfim...

Matias disse com secura: — As contas serão apresentadas, examinadas e discutidas. A pergunta é inoportuna e mal formulada. Malaquias teve o seu riso casquinado: — Eu era para saber... Gosto de saber... Eh! Eh! Eh!... E ficou sentado, passando pelo queixo os longos dedos magríssimos. Imediatamente, um homem de idade, muito feio, com uma barba de pelos grisalhos e raros, ergueu-se, com um caderno de papel na mão. Escarrou e com uma voz lenta, dormente, um pouco cava: — Eu pensei que neste dia de inauguração, seria conveniente ler algumas páginas, que pusessem diante do espírito de todos as fases que tem atravessado a Liberdade. Se me permitem... — E vendo Matias abaixar a cabeça em consentimento, o homem feio abriu o caderno, pigarreou, e começou a ler: «Se remontarmos aos tempos quase mitológicos, encontramos o primeiro mártir da liberdade, pregado sobre um rochedo, e tendo o flanco devorado pelo bico de bronze de um incansável abutre...». Havia em redor um vago pasmo: o que era? Examinava-se o caderno espesso, azul, cosido com guita. O quê! Ia ler aquilo tudo? «...O insensato» — continuava ele, lento, pausado, crasso — «tendo querido arrebatar aos Imortais o fogo sagrado, viu seus membros acorrentados ao Cáucaso e a história saúda nele o primeiro que reivindicou os direitos do homem contra a tirania da Divindade...» Compreendeu-se vagamente que era a longa história dos Mártires da Liberdade, desde Prometeu! Alguns queriam escutar, por camaradagem, ou na esperança de anedotas típicas ou de declamações que lisonjeassem as suas opiniões: mas os períodos moles, gordos, movendo-se surdamente, como um lento rolar de odres mal cheios, constituíam uma retórica

fatigante; a voz era tão dormente, de um escorrer tão monótono, que amodorrava; algumas conversas estabeleceram-se baixo; um sujeito ergueu-se em bicos de pés, apanhou no estrado a metade do charuto que lá deixara, e, subtilmente, refugiou-se na saleta; outros seguiram-no — os mais tímidos afectando, com as mãos nas calças, uma necessidade urgente; e os que ficavam, para resistir ao torpor crescente, estabeleciam uma sussurração de vozes ciciadas. Então, Matias, que tinha os olhos fitos no tecto, batia com os dedos na borda da mesa — e no silêncio deferente que se cavava, ouvia-se a voz vagarosa, falando «dos grilhões de Espártaco, do punhal de Bruto ou do ferro de Lucrécia». Mas o rumor crescia gradualmente e, um a um, sujeitos em bicos de pés, encolhidos, desapareciam pela porta estreita da saleta. Vinha de lá uma fumaraça de tabaco; às vezes, uma face, de cigarro na boca, espreitava para a sala; ouviam-se risadinhas... Impassível, absorvido, solene, o homem feio ia expondo as misérias da plebe romana. Artur, em respeito a Nazareno, conservava-se imóvel: uma inércia mole afrouxava-lhe os músculos num abandono de fadiga. Pensava no Melchior: àquela hora, se não fosse a República, ele também bateria para o Clube, sentindo, sob o assento da caleche, os pezinhos da Concha entre os seus; chegariam; vê-la-ia, na sala da ceia, tirar os agasalhos, aparecer à luz do gás na beleza triunfante do seu decote, e sentiria a sua cinta fina vergar-lhe entre os braços, enquanto o seu pescoço branco, cheio, dobrando-se para trás, chamava deliciosamente os beijos. Estirou as pernas, os braços, num espreguiçamento de languidez... A voz espessa ia apostrofando Tibério e a galera de velas de púrpura que o levava a Capreia... Jácome então bocejou enormemente; olhou um momento o gás, o grosso manuscrito, e, com uma decisão brusca, ergueu-se e nas pontas dos pés, saiu. Artur ia segui-lo, mas o olhar frio de Matias imobilizou-o. Agora, bocas abriam-se em bocejos sinceros; faces Lamentosas, imploradoras, voltavam-se para a impassibilidade de Matias; um ou outro, tirando o relógio, tinha um gesto desesperado; o secretário dormitava, e, sem pudor, Gilberto lia um livro... Por uma transição que ninguém seguira, o homem feio divagava sobre os Persas... Jácome voltou a sentar-se ao pé de Artur e com uma voz de rancor: — Isto é uma coisa extraordinária! Há três quartos de hora que fala! E que quantidade

há ainda de manuscrito! — Quem é ele? — Uma besta — disse o outro por entre os dentes, com um furor concentrado. Esteve um momento a roer nervosamente as unhas: mas tornou a erguer-se, e batendo agora os tacões como numa demonstração hostil, entrou para a saleta... O homem feio, sereno, depois de ter celebrado o suicídio de Catão, começava a comentar a crucificação de Cristo. Foi então que se reparou que o amigo Abílio adormecera profundamente. Na monotonia da leitura, aquilo tomou o interesse picante de um incidente grotesco: seguiam com risinhos fungados os cabeceamentos bruscos que lhe atiravam o corpo para os joelhos, e nos olhares jubilosos luzia a esperança de o ver rolar no chão. Mas Matias, zeloso da dignidade do Clube, fez sinal ao Secretário, que desceu do estrado em bicos de pés, e — como era de temperamento pacatamente faceto — em lugar de despertar disfarçadamente o lojista, fezlhe cócegas na orelha com a rama da pena. Abílio pulou com um berro — e a gargalhada que se estivera formando rebentou irreprimivelmente. O amigo Abílio, com as feições inchadas, vermelho, desconfiado, esgazeava em redor os olhinhos estremunhados; o homem feio suspendeu um período sobre Savonarola, e Matias, severo, deu um toque de campainha cheio de repreensão. E a seriedade restabelecida, o homem feio prosseguiu, lamentando, com imagens floridas, a fogueira em que ardeu João Huss... Artur aproveitara o ligeiro tumulto para ir, em bicos de pés, com as cruzes quebradas de fadiga, fumar para a saleta. — Onde vai o homem? — perguntaram-lhe. — Vai nos mártires da Reforma! — Ainda três séculos! — murmurou o sujeito de barbas e óculos, erguendo aos Céus os braços e os olhos. Falava-se a meia voz, fumando, de futuras sessões, de projectos, de esperanças políticas, de infâmias da Monarquia — e as vozes abafadas davam um tom de conspiração às acusações, às injúrias lançadas ao Governo: atribuía-se-lhe unanimemente a decadência vil da nação;

num círculo, de onde se elevava uma fumaça de cigarros, cada um expunha «uma grande vergonha» — a ruína econômica, o baixo preço dos salários, o compadrio dos empregos, o abandono das colônias; falava-se por generalidades vagas: era uma choldra! O País estava perdido! Nada, nada, nada! Tudo uma canalha! — e ombros encolhiam-se com tédio, faces chupavam-se, aspirando o fumo do tabaco. Mas, em geral, a irritação contra as pessoas excedia a hostilidade às instituições: atacava-se a vida imoral dos ministros, contavam-se ao ouvido anedotas da Corte, grunhia-se contra o abaixamento dos jornalistas conservadores; um indivíduo magro, cheio de espinhas carnais, parecia atribuir todos os sofrimentos da humanidade ao administrador do Bairro Central, que decerto odiava. Outros, então, contavam despeitos pessoais. E como justificação daquelas cóleras, voltavam constantemente as afirmações humanitárias: «a miséria dos operários», «a indignidade dos ricaços». Os mais incultos formulavam a sua indignação política com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna; os mais ilustrados declamavam vagamente, falando com gravidade na «corrupção do baixo-império». Ninguém parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da República escorreria a felicidade pública, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade da luz que cai de um astro. Às vezes, um deles ia escutar à porta, outros seguiam-no escondendo os cigarros atrás das costas... E ouvia-se a voz morosa do homem feio, impassível, declamando considerações sobre o processo dos Girondinos. Matias, de longe, reclamava-os com um olhar imperioso, alguns obedeciam resignadamente, indo imobilizar-se nas suas cadeiras, sob o lento escorrer da prosa infindável; outros recuavam rapidamente, refugiando-se no fundo da saleta, onde o bico de gás erguia a sua túlipa de luz crua. O Nazareno parecia o mais impaciente. Segundo ele, era inútil haver sessões, se elas deviam ser tomadas por aquelas leituras retóricas. Então discutiram-se os trabalhos urgentes do Clube. Antes de tudo, era necessário fundar um jornal. Um sujeito de barbas loiras lembrou a necessidade de aliciar alguns militares. O Clube devia fazer um manifesto a todos os liberais, lembrava outro, e pôr-se em comunicação com os republicanos espanhóis. Este projecto pareceu desagradar: alguns achavam-lhe um odioso sabor ibérico... Mas a salvação

da Península era uma república federativa!... E além disso, para fazer a república, era necessário dinheiro e armas... De onde haviam de vir? Da Espanha! — Nada de espanhóis, nada de espanhóis! — Espanholas, sim — disse um gracejador. O tumulto que se levantara foi interrompido pelo secretário que veio dizer: — Oh, meninos, o Matias está furioso! Vocês fazem aqui uma algazarra que se ouve lá dentro... O homem está a acabar... Pelo amor de Deus, venham. Artur que temia o descontentamento do Matias, foi retomar a sua cadeira... O homem feio espalhava flores de eloquência sobre os túmulos, lado a lado, dos quatro sargentos de La Rochelle. Pouco a pouco os republicanos entravam — e, subitamente, o homem feio sentou-se. Houve um rumor de alívio, largamente respirado. Alguns tomavam o chapéu: eram onze e meia, que diabo! Mas Matias fez retinir a campainha: — Consultarei a assembleia sobre a proposta que no fim do seu notável trabalho o nosso ilustre concidadão — e indicou o homem feio — acaba de fazer. Foi um espanto. Que proposta?... Ninguém percebera! Olhares interrogavam, ombros encolhiam-se. Matias, então, explicou: — O nosso amigo propõe que se pendurem nas paredes do Clube os retratos de todos os Mártires da Liberdade, desde os tempos mitológicos até... — Pareceu um momento interrogar a memória: — perdão, Sr. Esqueira, até?... O homem feio recitou de um fôlego: — Joaquim Vicente da Costa Esqueira, morto nas enxovias de Almada, à machadada, pelas suas ideias jacobinas. Era meu tio. Uma gargalhada correu pelas cadeiras. O velho militar que parecia admirar o homem feio, rugiu: mais decência! E Matias, severo: — Acho a hilaridade inoportuna...

O homem feio julgou decerto do seu dever indignar-se, e erguendo-se com solenidade: — É estranho que cause riso a homens liberais um parente meu que morreu pela liberdade! Alguns risos abafados escaparam, aqui e além; e então, Gilberto, no meio da sala, com o chapéu na mão: — A ideia é nobre, mas além de que não há lugar para conter nestas paredes todos os Mártires da Liberdade, é difícil obter o retrato da maior parte — a não ser desenhos de fantasia que, por falsos, tenderiam a produzir a indiferença em lugar de inspirar a veneração. Além disso, os Mártires são inumeráveis — e as paredes são só quatro... — Apoiado! Apoiado! O homem feio parecia descontente: — Ao menos o imortal Rousseau... — começou. — Nenhum! nenhum! — gritaram com impaciência. Estavam quase todos de pé, havia uma vozearia. Então ouviu-se a voz do Sr. Abílio dizer: — Eu, é só duas palavras... Fez-se um silêncio deferente: havia sorrisos amigos àquela bem-vinda frase. — Eu — continuou Abílio, de pé, com a face jovial — eu quero oferecer ao Clube (dizia Clúbio) um presentinho. Tenho lá em casa uma cabeça de gesso, que a minha senhora diz que é Minerva... Um lento rumor simpático correu, àquela bonomia, quase fraternal. — Eu não sei se é Minerva, mas a coisa parece ter valor. E a mim parece-me — desculpem se eu digo asneira — que poderia muito bem figurar como um busto da República. Se o querem, está às ordens com todo o gosto. Eu já disse à minha senhora, porque enfim, são coisas que pertencem à casa. Ela consentiu, coitada... E eu tenho muito gosto em oferecer... — Bravo! Apoiado! Aceitamos! Muito bem! Abílio reclamou silêncio: — Então cá o mando, amanhã, pela criada!

Palmas estalaram. — E Matias erguendo-se: — Está levantada a sessão. Artur foi arrastado no movimento impaciente que se fez para a porta. E no pátio, enquanto acendia um charuto, achou-se ao lado do homem do cache-nez. — Não foi má estopada... Artur disse-lhe, por condescendência: — A leitura foi longa. O outro inclinou-se-lhe para o ouvido: — É que se não faz nada! Tudo isto é uma história. É palrar, é palrar! Não se faz nada enquanto se não deita o Governo abaixo! Eu já disse ao Matias — eu quero ir recebedor para Belém. Eu cá sou franco... E desapareceu, encolhido no paletot — porque começara a chuviscar. Quando Artur chegou ao hotel, o porteiro disse-lhe que viera ali um sujeito procurá-lo às nove horas, voltara às nove e meia, depois às dez, depois às dez e meia. Da última vez, estava tão furioso que dera punhadas na mesa, rogando pragas. Pela descrição — gordote, já entrado, grandes bigodes — Artur reconheceu Melchior.

1/1
Menu

Fazer anotação