Capítulo III
O comboio de Madrid, atrasado, acabava de chegar: o trem ia partir. Fora, chovia, ventava forte, e Artur seguia com os olhos uma lanterna avermelhada que errava, do lado dos rails, na noite tenebrosa, quando a porta se abriu vivamente, e um sujeito esbaforido apareceu, atirando para o assento uma maleta envernizada, um rolo de plaids, outro de bengalinhas, um cesto atado com fitas de seda azul e uma almofada de folhos. Vinha abafado numa peliça, e a alta gola erguida, o gorro de peles sobre os olhos, apenas deixavam ver uma face rosada e nutrida e uma bela barba aloirada. Artur supô-lo logo estrangeiro — mas o indivíduo, depois de se instalar, cumprimentou cortesmente, dizendo: — Que terrível noite! — Terrível — concordou Artur. Julgou-o então um diplomata, vindo de Madrid ou de Paris. Examinava-lhe a rica peliça, a charuteira com uma coroa de prata em relevo, de onde escolhia um breva, as luvas muito grossas, de uma pele áspera e branca, e pensava, fascinado, que aquela figura digna atravessara salões reais, roçara personagens históricos. — Para Lisboa, creio eu? — perguntou-lhe o sujeito. — Sim, vou para Lisboa — disse Artur. — Que tal S. Carlos este ano? Artur cuspilhou uma película de tabaco e corando um pouco: — Este ano?... Este ano, muito bom. — Valha-nos isso — disse o indivíduo. E ficou imóvel, com as pálpebras cerradas, fumando com beatitude. Artur receou logo outras perguntas sobre Lisboa, famílias fidalgas, músicos, e não querendo revelar ignorância plebeia, ia afectar uma sonolência fatigada, repoltreando-se no
seu canto — quando viu o sujeito desapertar as fitas do cesto e tirar para o regaço um cãozinho amarelo, que lhe pareceu semelhante a um sapo, de focinho negro e achatado, vincado de duas rugas velhas, e olhos redondos e estúpidos. — Tem tido uma jornada trabalhosa — disse o sujeito. — Tem vindo no cesto? — Desde Paris, pobre John! Levou-o aos lábios como uma coisa preciosa e santa, e deu-lhe sobre o ventre macio e liso beijinhos chilreados. Chamou-lhe ainda pérola, anjo. Acalentou-o sob a peliça, contra o coração. E exclamava, compenetrado, para Artur: — É um amor! — E depois de uma fumaça: — É para a Sra.ª Marquesa de Folhes... Conhece talvez? Artur disse baixo: — Sim... — Ah, conhece? — exclamou o indivíduo, com a face clareada de riso. Inquieto, Artur acudiu: — De nome! — Ah!... Excelente senhora. Acomodou maternalmente John no cesto, sobre o seu leito de algodão, e estirando discretamente os braços, declarou que o que tinham a fazer era dormir até Lisboa. S. Exª dava licença que corresse o transparente da lâmpada, não? Perfeitamente. Arranjou o travesseiro, estirou-se com um ah de gozo, cruzou as mãos sobre a peliça, e cantarolou com melancolia, como uma oração da noite: Si tu em avais rien à me dire Pourquoi venir auprès de moi?... Bocejou enormemente, e daí a pouco, ressonava com dignidade Artur, fatigado, foi cerrando os olhos, no seu canto, na penumbra do vagão... Parecia-lhe estar numa sala, toda de ouro e veludo, onde a Sra.ª Marquesa de Folhes conversava com a tia Sabina, falando dele...
mas não as ouvia bem por causa de um estrondo de ferragens que rolavam surdamente. De repente, fazia-se um silêncio e acordava: luzes mortiças, ao lado, alumiavam uma estação; vultos abafados, fora, na noite, passavam com lanternas. Chovia sempre; havia um silêncio infinito na negrura dos campos adormecidos, e adiante, na sombra, sem descontinuar, a máquina resfolgava baixo. Depois o comboio rolava de novo, e o seu sonho retomava-o através de uma sensação de frialdade nos pés: reconhecia que era uru lago muito azul, batido de luar; o Rabecaz e ele remavam num bote, com o Almirante ao leme. Então, junto dele, na escuridão, uma voz de timbre andaluz suspirava o seu nome; voltava-se, via dois olhos árabes, cintilando sob uma mantilha espanhola: ia beijá-los, mas a mantilha, escorregando, descobria uma caveira! Acordou com um estremeção... Uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado: — Alhandra! Alhandra! Um ar lívido de madrugada clareava através da neblina chuvosa. Saloios de varapaus, encolhidos nas mantas listradas, passavam; na plataforma, descarregavam-se caixotes; um comboio de mercadorias rolou ao lado, com vagões carregados de pipas, e outros, gradeados, de onde saíam cornos de bois. Depois, um criado de farda passou, correndo, com um ramo de flores na mão. O coração de Artur bateu, invadido da alegria daquela proximidade de Lisboa. O comboio partiu de novo. Pareceu-lhe, através da névoa, avistar uma superfície de rio cor de aço; depois um campo de oliveiras correu ao lado; e os seus olhos, fixos nos vidros embaciados, foram-se cerrando, na fadiga daquela madrugada fria... — Póvoa! Póvoa! Despertou. O sujeito de peliça, sentado, espreguiçava-se. — Ora enfim! Nous voilà! Ergueu-se, ajeitou a peliça, pôs um chapéu de casimira, e entreabrindo o cesto do pug: — Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido o amigo John, hem? Chegamos, percebeu?... Aqui está na pátria de Luís de Camões! Voltou-se para Artur, rindo do seu gracejo:
— Não é má, hem? — e repetiu ao pug que gania: — Aqui estamos na pátria de Camões. A máquina silvava. E Artur, excitado, via agora, à esquerda, estender-se o rio largo e baço, agitado sob o vento. Os montes da outra banda confundiam-se com o empastamento nas nuvens. Uma falua, de vela cheia, cortava a espuma, à bolina, na manhã áspera. Artur devorava com os olhos aquelas vizinhanças de Lisboa: uma fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, altas chaminés de tijolo. Nos Olivais, o sujeito da peliça, julgando ver um amigo entre a gente na plataforma, precipitou-se para a portinhola, gritando: — Oh, visconde! oh, visconde! Mas o comboio partiu. Antigos vagões desmantelados, um alpendre com fardos, correram ao lado — e um empregado, todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, recolheu à pressa os bilhetes. Artur palpitava todo. Lisboa! Era enfim Lisboa! Abaixara a vidraça e o ar parecia-lhe cheio de uma vida mais intensa, todo penetrado da respiração larga da cidade que ainda dormia na manhã húmida. Com um grande estrondo o comboio entrou na estação. A plataforma ficou logo cheia de gente, que ia, arrebatada, com embrulhos, chapeleiras, acotovelando-se. Saloios com os passos pesados das suas solas pregueadas, apressavam-se: havia nas faces um ar estremunhado e pasmado; uma criança chorava desesperadamente, e, quando à porta de saída o empregado lhe quis ver as malas, Artur, empurrado, atarantado, envergonhado, não encontrava as chaves. As mãos tremiam-lhe, sentia-se tímido, quase tinha saudades da casa das tias, da pequenez de Oliveira de Azeméis. E depois, com o seu bilhete de bagagem, muito embaraçado, quase aflito, errava pela grande sala de espera, dando aqui e além um olhar aos anúncios, onde se lia em grandes letras nomes de cidades – Sevilha, Córdova, Madrid, Paris — que lhe representavam civilizações magníficas e lhe davam um acanhamento maior. Enfim, um carregador, que parecia ocupado por deleite próprio em resmungar blasfêmias, levou-lhe com um ar soturno o baú a uma caleche, e o cocheiro bateu para o Espanhol. À beira do assento, com as mãos nos joelhos, Artur, através dos vidros embaciados, ia
olhando avidamente as fachadas das casas, os cartazes nas esquinas, a prolongação das ruas. Galegos curvados sob o barril chapinhavam na lama, gente passava encolhida sob os guardachuvas. Teve um espanto ao ver de repente os arcos do Terreiro do Paço, o rio, mastreações de esquadras! Pela Rua da Prata, ia lendo avidamente as tabuletas. Quem viveria naquelas altas casas, cerradas ainda? Àquela hora, decerto, os jornalistas, as duquesas, dormiam, depois das agitações intelectuais e amorosas da noite... — E uma felicidade exuberante encheu-lhe subitamente o peito. A caleche parou. Da escada do Espanhol, sombria, saía um cheiro enjoativo de amoníaco. Um criado, de suíças e cabeleira esguedelhada, que o tratou por usted, levou-o para um quarto pequeno, forrado de papel verde. A janela abria para um saguão melancólico e a água que caía da goteira cantava em baixo num balde de zinco. Daí a pouco, encolhido nos lençóis, Artur dormia profundamente. Acordou ao ruído da porta: o criado, em mangas de camisa, com um par de botas na mão, dizia repreendendo-o: — Então usted não vai comer? São cinco horas. Já usted vê! La comida é às cinco. Cinco horas já! Artur sentia os rins doridos; o tom crepuscular do quarto, um ruído de pratos que ouvia ao lado, o rabujar de uma criança, deram-lhe uma vaga tristeza. O criado, então, revirou as botas na mão, considerou um momento com melancolia o elástico esfiado e o tacão tombado, e rosnou: — Estão na última... Artur fez-se vermelho. — Pois quando usted quiser comer, é lá em baixo — acrescentou o homem. E antes de sair, arrastando os sapatos achinelados, repetiu ainda, indicando com tristeza as botas:— Estão na última! Já usted vê! Servia-se a sopa, quando Artur se veio sentar timidamente à mesa. Defronte dele, dois espanhóis, de barbas de azeviche e faces cavadas, comiam, soturnos, com as capas ao ombro; na outra extremidade estava uma rapariga gordita e baixa, bonita, de robe-de— chambre
escarlate e penteado alto; ao pé dela um indivíduo calvo, de cachaço fradesco, muita cor nas faces rechonchudas, um bigodito grisalho, via-as jantar, com uns olhinhos de ternura babosa, fazendo entre os dedos bolinhas de pão. Artur admirou um momento as altas fachadas fronteiras, «tão nobres»! Depois, escutou os espanhóis, que devoravam e falavam baixo, desconfiados; e tendo distinguido os nomes de Castellar, Py y Margall, Contreras, Salmeron, concebeu logo uma imensa admiração por eles. Eram republicanos perseguidos; decerto se tinham batido em barricadas, conspiravam; e como um deles estendia o braço para as azeitonas, Artur apressou-se a chegar-lhe o prato respeitosamente. O indivíduo disse, com gravidade, «gracias, caballero» e Artur, muito lisonjeado, pensou que mais tarde poderia conhecê-los, ouvir-lhes episódios históricos, ligarem-se em simpatias revolucionárias! Que boa ideia vir para o Espanhol! Tudo ali lhe agradava — o aparador envernizado, o espelho com o caixilho resguardado por urna gaza corde-rosa, e o retrato de Prim, num cavalo empinado, agitando um estandarte. E foi quase com orgulho que, depois do café, acendeu o seu charuto e se foi encostar à varanda: a tarde limpara, as ruas secavam sob o norte frio; uma carruagem que passou, com dois criados de casacos brancos, fê-lo pensar que talvez fosse Ela, a sua desconhecida do vestido de xadrez: quando se agachou para espreitar, entreviu um homem gordo de lunetas! Mas todos os seus desejos de amores, de luxo, de celebridade, tinham-se posto a chalrar como pássaros acordados. Examinava avidamente as toilettes dos homens; achou adoráveis duas senhoras que atravessavam a calçada, com os vestidos apanhados, mostrando as saias brancas que lhes batiam o tornozelo. Nunca imaginara Lisboa tão vasta, tão aparatosa, e parecia-lhe que as ideias deviam ter decerto a amplidão das ruas, e os sentimentos a elegância dos vestuários. A rapariga de robe-de-chambre escarlate veio então debruçar-se à varanda próxima: erguia o rosto, olhava o céu e o tempo. Artur achou-a deliciosa, com o seu pescoço muito branco, as formas copiosas, toda roliça e cálida. — Quem é esta senhora? — perguntou ele para dentro ao criado que levantava a mesa, cantarolando. O moço chegou-se, espreitou:
— É a Mercedes. — E fitando as botas de Artur com um bamboleamento triste de cabeça esguedelhada, repetiu ainda: — Estão na última. Já usted vê!... Artur encolheu os ombros, furioso. De resto, observando os homens na rua, já pensara que o seu fato de Oliveira era mal talhado e provinciano: por isso só saiu à noite, depois de aceso o gás. Com que deleite pisou enfim as lajes ainda húmidas dos passeios, respirou a friagem de Inverno, o ar de Lisboa, que, depois do pesadume das ruazitas de Oliveira, lhe parecia ter a vitalidade oxigenada onde se dilatam as faculdades! Embasbacava para as vitrinas alumiadas das lojas; estacava, pasmando para os rostinhos pálidos das mulheres que passavam; voltavase com admiração para seguir as carruagens de criados perfilados; e da claridade do gás, da vastidão das ruas, da multidão sussurrante, vinha-lhe como que uma sensação de actividades espalhadas, de paixões, de grandezas vagas que o perturbava: era como se a atmosfera estivesse saturada das emanações de uma vida rica, sábia, idealizadora e ardente! Mas sentiase acanhado: apesar de apetecer prodigiosamente uma gravata azul que viu num mostrador, não ousou entrar na loja; o trotar das parelhas entontecia-o; o andar desenvolto dos homens, falando alto, dava-lhe um medo pueril de agressões; tinha vergonha do seu velho paletot, mais curto que as abas da sobrecasaca que trazia; sentiu-se mesmo agradecido a um sujeito que lhe pediu lume, cortesmente, como se recebesse dele um ato de benevolência. O homem, depois de acender o charuto, disse para outro que esperava, assobiando: — Para o Martinho, hem? E Artur foi-os seguindo timidamente, ansioso por ver o Martinho! Pareceu-lhe esplêndido, com a acumulação dos chapéus altos entre os espelhos doirados, sob uma névoa de fumo de tabaco, no brouhaha contínuo das conversas. Não se atreveu a entrar. À porta um grupo palrava, e Artur contemplava-o de longe, com devoção, pensando que deviam ser poetas e estadistas... Subiu-lhe então de repente ao cérebro um vapor excitante de emanações intelectuais: teve pressa de entrar naquela existência — relacionar-se, regalar-se das discussões sobre Arte e Ideal, «ser também de Lisboa»! Chamou uma tipóia, e mandou bater para a Praça da Alegria, para a casa do Damião!
Recomeçara a chover e o lajedo reluzia à luz do gás. E encostado ao fundo do cupé que trotava ao comprido das grades escuras do Passeio, Artur ia pensando no fato novo que faria e nos filósofos que ia decerto encontrar «na catacumba» do Damião. Ao toque da campainha, uma mulher de pele muito branca e fitas vermelhas no cabelo fê-lo entrar numa sala esteirada, para lhe dizer que o Sr. Damião tinha partido para o Algarve. Examinou rapidamente Artur, e acrescentou logo — que, se S. Sª desejava quartos, os do Sr. Damião estavam devolutos... — Não, obrigado, eu vinha só procurá-lo. — Ai, pode V. Sª entrar. — E numa voz muito cantada, muito lisboeta: — O Sr. Damião estava muito contente. É a casa mais sossegada do bairro, tudo na maior limpeza. A Sra.ª D. Ermelinda até me diz sempre: Oh, D. Joana (é o meu nome, minha mana é Adelaide) oh, D. Joana, diz-me a Sra.ª D. Ermelinda, a senhora faz mal em ter tanto cuidado com os hóspedes, olhe que não lho agradecem! E vai eu, digo-lhe: Oh, D. Ermelinda (damo-nos muito) digo-lhe eu, olhe que é gênio; em não tendo tudo a preceito, estou num frenesi. O Sr. Damião tinha um quarto só. Tenho também o Faria, há-de conhecer, o Fariazinho... Aquela verbosidade sem motivo entontecia Artur. Repetia, cumprimentando: — Sim, eu hei de voltar. — Ai, pode vir agora. Eu não sou de cerimônias. Até a D. Ermelinda me diz sempre: Oh, D. Joana, por quem é, a senhora deve-se pôr no seu lugar. E digo-lhe eu: Oh, D. Ermelinda, que quer, são gênios! E todo o mundo me estima. O Fariazinho está em minha casa há dois anos. Pode-lhe perguntar... — Pois eu hei de voltar — interrompeu Artur, atarantado. Deu as boas-noites, desceu rapidamente a escada. Aquela ausência do Damião contrariava-o. Estava muito desconsolado. Contava com o Damião para o guiar, lhe mostrar Lisboa, apresentá-lo a escritores, escutar o seu drama, e a sua partida para o Algarve parecia alargar em torno dele uma solidão inesperada. Felizmente tinha as cartas de apresentação do Rabecaz. Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro de Alcântara,
penetrou sob as árvores e foi encostar-se às grades. A cidade cavava-se em baixo, no vale escuro, picado dos pontos de luz das janelas iluminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquelas luzes, debaixo daqueles tectos, que fermentação de vida! Quantos amores, quantos mistérios, crimes talvez! Ali, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres aristocráticas, nas suas salas, falavam de amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa! Voltara-lhe a mesma sensação, sempre repetida, de uma capital vasta, com uma intensa vida social, e olhava, vagamente exaltado, como se todas aquelas existências acumuladas lhe mandassem ao coração o bafo das paixões que lhes supunha. Uma aragem fria fê-lo encolher-se no seu paletot cor de pinhão. Foi descendo, parando junto às vitrinas, voltando-se para os rostos pálidos das mulheres, meio escondidos sob mantas de lã ou véus escuros, seguindo com os olhos as lanternas das carruagens ricas, que punham claridades sobre os casacos claros dos lacaios. Descendo sempre, chegou junto do rio. Estava escuro, havia um friozinho cortante, e as luzes dos mastros tremeluziam na noite. Veio-lhe, sem razão, uma melancolia, um sentimento de solidão. Àquela hora, todos estavam nas suas casas bem mobiladas, no brilho das soirées, no conforto das convivências íntimas; as mulheres recebiam os seus amantes, amigos discutiam, fumando, em volta do punch... Como conseguiria fazer conhecimentos, relacionar-se, viver, jurar, naquela grande cidade rumorosa? Agora tudo lhe parecia mais difícil, e as grandes fachadas sombrias das casas espalhavam em torno dele uma sensação de isolamento, de inacessibilidade... — V. Exª quer favorecer um chefe de família desempregado? — disse uma voz lamentosa ao pé dele. Artur aprumou-se e tirou cinco tostões da algibeira, que meteu na mão que lhe estendia um sujeito de chapéu alto e sobrecasaca coçada, a gola presa com um alfinete. Aquela miséria entrevista entristeceu-o mais. O Aterro, longo, solitário, com um ventozinho frio, deu-lhe um sentimento de melancolia; o coração confrangeu-se-lhe, sentiu a necessidade de voltar para o Hotel, ver luz, estar debaixo de um tecto, reler o seu drama, para
se fortalecer com a certeza do seu talento, e contar o seu dinheiro, para se animar com a evidência dos seus recursos. Pôs-se a caminhar depressa pela Rua do Arsenal; mas no Terreiro do Paço perdeu-se: confundia as ruas largas, já um pouco desertas, paralelas, infindáveis. Andou, voltou: tinha vergonha de perguntar pelo Espanhol. Numa rua estreita, vozes, por trás de tabuinhas verdes, chamavam-no com psiu! psiu! familiares; dois bêbedos assustaram— no, cambaleando, praguejando — e atarantado, já aflito, chamou uma tipóia que passava devagar. — Para o Hotel Espanhol! — disse, subindo para a tipóia. O cocheiro fitou-o um momento, admirado, mas imediatamente bateu a parelha. Artur sentou-se e acabava de fechar a vidraça, quando o carro estacou. — Então? — Cá estamos, meu amo. O Espanhol é aqui. Artur saiu, vexado. — Quanto é? — perguntou timidamente ao cocheiro. — Uma placazinha... Com medo de uma questão, Artur pagou. — Muito obrigado a V. Exª, meu fidalgo — disse o homem. No corredor do hotel, de uma porta vivamente alumiada, saíam sons de guitarra: uma voz mordente de mulher cantava num tom de malagueña: A la puerta de mi casa Hay una piedra muy larga, Lá, rá, lá, lá... E mãos batiam em cadência, ao repenicar dos bordões. Imóvel, com o castiçal na mão, Artur escutou: vozes espanholas falavam desenvoltamente, rolhas de cerveja estalaram. Pensou que devia ser a rapariga do robe- dechambre escarlate e os emigrados que recordavam canções das suas províncias, e aquilo pareceu-lhe muito poético.
Uma voz forte de homem elevou-se então: fazia estalar os dedos, e num ritmo de gaitade-foles, cantarolava: Doces galleguiños aires, Quittadoiriños de penas... Houve risadas, a porta fechou-se bruscamente. Artur foi subindo devagar. Viera-lhe uma recordação de quando era pequeno e estivera um Verão no Porto, com seu pai, na estalagem do Leão de Ouro. Pelas tardes quentes do domingo, cheias de pó, o criado levava-o a uma horta, para os lados da Lapa: comiam tremoços ao pé de um faval, onde sussurrava a água das regas, e iam ver os galegos dançar debaixo do parreiral, ao som da gaita-de-foles que fazia mu-i-ñe-ra! mu-i-ñe-ra! Depois a caneca de vinho verde passava em redor; sentiam-se ao lado os pah! secos do jogo da bola; então uma galega erguia-se, e com as tranças loiras caídas sobre o colete escarlate, os braços abertos, punha-se a girar devagar ao churre-churre dos pandeiros! — Há quanto tempo isso fora! Se seu pai o pudesse ver agora, em Lisboa, com dinheiro no bolso, manuscritos no baú! E reconfortado, estirou-se na cama, murmurando com voluptuosidade: «Estou em Lisboa, estou em Lisboa» Ao outro dia, depois do almoço, por um sol magnífico, Artur preparou-se para ir visitar, com a sua carta de recomendação, o sobrinho do Rabecaz, o Sr. Venâncio Guedes. Para se apresentar com chic, comprou, num armazém de fato feito, um paletot de pano azulado com gola de veludo, que lhe aconselhou um caixeiro de ar profundamente infeliz; depois, num sapateiro, ornou-se de botas de verniz, e assim equipado, de luvas pretas, numa bela caleche, dirigiu-se ao largo do Carmo. Um indivíduo barrigudo, de fartas suíças cor de azeviche, abriu-lhe a porta, e com uma voz de trombone, roncou para dentro: — Um sujeito que o procura, Sr. Venâncio! — Mande entrar, Sr. Ferraz! O Sr. Venâncio, à mesa, almoçava. Os gestos miudinhos com que partia os seus ovos quentes, a sua carinha amarelada, de beiços finos, o cabelo correctamente acamado,
revelavam um individuozinho meticuloso, muito admirador do seu diretor-geral. Abriu a carta do Rabecaz, e começou a lê-la, puxando os pelos do bigodinho loiro, aparados à tesoura. No quarto próximo, por trás de um reposteiro azul, uma voz cantava aos berros: Aceita o sabre de meu pai! Aceita o sabre! Aceita o sabre! Nas paredes pendiam gravuras violentamente coloridas, onde se distinguiam damas e cavaleiros entre paisagens idílicas; um papagaio, no poial de pedra da janela, meneava-se no seu poleiro,, e o Sr. Ferraz esperava, com uma das mãos papudas apoiada à mesa, a outra encostada com chic ao quadril obeso. O Sr. Venâncio pousou a carta, ajeitou nervosamente o robe-de-chambre sobre o peito, e com uma vozinha acre, às fisgadas: — Mas eu não conheço literatos! Eu não conheço literatos, meu caro senhor! Quer que o apresente. Mas a quem? A quem? Se eu não conheço ninguém! Aceita o sabre, o sabre, o sabre, Aceita o sabre do papá. Pan, pa, pa, pa, pum! gritava a voz estridente. — Eu vivo muito retirado, meu caro senhor. Vivo para as minhas ocupações. Não conheço dessa gente... Artur, já envergonhado, acudiu: — O tio de V. Exª disse-me que talvez V. Exª soubesse a morada do Sr. Melchior Cordeiro... Venâncio teve um pulinho de contrariedade: — E V. Sª a dar-lhe! Eu não conheço ninguém! O reposteiro azul abriu-se, e um rapaz de grandes bigodes apareceu, exclamando com ímpeto:
— Salta o almocinho! Papagaio real! Ferraz amigo, os manjares! — Tu conheces um Melchior Cordeiro? — disse Venâncio, voltando-se para ele, acamando nervosamente o penteado. O outro estacou, baixou levemente a cabeça a Artur, e retorcendo vivamente o bigode com ambas as mãos: — Melchior Cordeiro, Melchior Cordeiro... — murmurava. Artur olhava-o quase com ansiedade; na rua, pregões cantavam, e para o lado do quartel soavam cometas de exercício. — É um jornalista — lembrou Artur. — Não conheço! — E dirigindo-se jovialmente ao papagaio: — Papagaio real! Viva a Carta Constitucional! — Já vê — disse Venâncio, com regozijo mal reprimido. — Ninguém conhece semelhante gente. — E pôs-se com satisfação a esgaravatar os ouvidos. Artur, profundamente despeitado, tomou o chapéu. — E o senhor meu tio ainda se embebeda todas as noites? — perguntou o Venâncio, continuando a partir os seus ovos. Artur, petrificado, balbuciou: — Não me consta, não me consta... Mas o sujeito barrigudo abrira a porta, e descendo a escada, furioso, Artur sentia ainda os gritos do papagaio e a voz jubilante do outro cantar desesperadamente: Aceita o sabre, o sabre, o sabre! Aceita o sabre, o sabre do meu papá! No largo, a manhã resplandecia. Depois dos dias de chuva, aquele sol delicioso dava à cidade a alegria de um renascimento: até dois moços que num pátio lavavam uma carruagem a baldes de água e os galegos que palravam à beira do chafariz, pareciam tão satisfeitos como os canários que gorjeavam nas janelas. Mas Artur estava como que desencantado: Damião
partira, o famoso Melchior perdia-se no vago, e naquela cidade tão cheia sentia a concavidade da solidão! A sua vontade, que à maneira de um inválido precisava ser constantemente estimulada e ajudada, recaía desfalecida: a celebridade, as relações, os amores — tudo o que em Oliveira lhe parecera de conquista tão fácil, à mão, recuava agora para cimos inacessíveis: tinha a sensação de massas de obscuridade, sufocantes como abóbadas, que o encarceravam no anonimato. As vitrinas das lojas, os altos prédios, as carruagens, davam-lhe uma opressão indefinida; sentia circular em redor um enorme egoísmo burguês, feito do orgulho do dinheiro e do desprezo das ideias; e os rostos, como as fachadas, tomavam para ele um aspecto obtuso e duro que alguns pobres versos delicados nunca poderiam comover! O sentimento da sua solidão sensibilizou-o: se adoecesse, pensou! E, entontecido pelo movimento, abstracto, infeliz, ia descendo o Chiado, com os pés torturados pelo verniz novo aquecido, sentindo-se «gebo», odiando Lisboa, furioso com o sapateiro! Quando entrou no hotel, atirou-se para cima da cama, e para se reconfortar com a certeza do seu talento, pôs-se a reler, aqui e além, os Esmaltes e Jóias. Mas os versos que em Oliveira lhe pareciam de um ideal tão nobre, lidos agora ali, em Lisboa, tinham um tom de pieguice pueril, no meio das vagas grandezas que sentia em redor e dos vastos interesses que suspeitava. Veio-lhe uma desesperação, achou-se «burro», pensou mesmo em voltar para Oliveira; retinha-o, porém, uma curiosidade da Cidade, a esperança de a ver, a Ela, e o desejo das satisfações que lhe podia dar o dinheiro — teatros, mulheres... Que diabo! tinha ali no baú, em libras, um conto de réis! E espreguiçou-se sobre o leito com voluptuosidade, como se recebesse de repente, de todos os rostos lindos que entrevia, das vozes que na véspera lhe faziam psiu! psiu!, por trás das tabuinhas verdes, um eflúvio afrodisíaco. E desceu para o jantar, resolvido «a atirar-se nessa noite à pândega». Como na véspera, os dois espanhóis lá estavam, e, soturno, ao pé da Mercedes, o sujeito calvo e baboso. Esperando a sopa, Artur abriu o Jornal do Comércio que estava sobre a mesa, deu um olhar de lado à espanhola — e, de repente, lembrou-se de que talvez no hotel conhecessem o Melchior, um jornalista! Perguntou imediatamente ao criado, que entrava com a sopa. — Ah! o Melchiorzinho! — disse o moço; e dirigindo-se ao calvo: — Ó Sr. Videira, usted
sabe onde está o Melchior? — O Melchiorzinho? — respondeu o calvo. — Na redacção do «Século». Para os lados da Rua do Carvalho. — Já vê usted! — disse o criado com satisfação. Artur, na sua alegria, indiferente ao jantar, agarrou o chapéu, correu à rua, tomou uma tipóia, foi à redacção do «Século»: o Sr. Melchior tinha saído, podia encontrá-lo ao outro dia, à uma hora da tarde. Aquela visita preocupou Artur toda a noite. Melchior era um jornalista, um literato e a conversa rolaria decerto sobre livros, estilos, escolas; desejava mostrar-se elevado nas críticas, original nas frases; preparou mesmo duas definições pitorescas de Lisboa e da Província: «Lisboa é a estação central da inteligência.» «A Província é a penitenciária do espírito.» E ao outro dia, muito comovido, apeava-se à porta da redacção. Um rapazito de blusa azul fê-lo atravessar um pátio sujo, penetrar num corredor carunchoso, e abrindo uma porta: — Um sujeito, Sr. Melchior! A uma larga mesa coberta de oleado, dois indivíduos trabalhavam. Um deles, de cabelo à escovinha, escaveirado e de lunetas defumadas, cortava tiras num jornal, com uma tesoura de alfaiate; o outro, baixo e grosso, com a cabeça fincada entre os punhos, parecia absorvido no estudo de uma folha de papel escrevinhada: ergueu-se bruscamente, inquieto. Era Melchior. Tinha a calva precoce, chamada do deboche, sobre a qual repuxava um cabelo fino como teias de aranha; sob o nariz carnudo, arqueava-se um bigode espesso. Abriu a carta do Rabecaz, de pé. As suas mãos papudas tinham uma ligeira tremura habitual, e apenas leu as primeiras linhas: — Ah, perfeitamente!... Tenha a bondade de se sentar. Pois não! Por quem é, sente-se! E como vai ele, o maganão? Hem? Sempre patusco? Se V. Exª me permite, eu acabo aqui um pequeno trabalho e sou todo seu. Tenha a bondade de se sentar. Isto está um pouco desarranjado. Se quer ler os periódicos... Artur tomou um jornal e sentou-se ao pé da janela. Nas paredes, maços de jornais
desdobrados pendiam de ganchos, resmas de periódicos atulhavam os cantos e um tênue véu de poeira cobria tudo: os papéis, as cadeiras, o velho mapa de Portugal e Espanha; a rua, fora, tinha um silêncio pacato; numa janela fronteira, um pintassilgo cantava na gaiola, e as tesouras enormes do sujeito de lunetas iam retalhando os jornais. — Ó Esteves, trouxeram as chegadas? — disse de repente Melchior. E a um sinal afirmativo do outro: — Ditas, fazes favor? Esteves procurou entre a papelada uma tira rabiscada a lápis e começou imediatamente, numa voz um pouco rouca, extremamente monótona: «O conselheiro Abílio de Azevedo, de Vila Nova de Famalicão, hospedado nos Embaixadores... Melchior escrevia, murmurando alto: — «Chegou o nosso prezado amigo o Exmo. Sr. Conselheiro Abílio... Nova de Famalicão...» — Com um l só? O outro moveu afirmativamente a cabeça e prosseguiu: «O visconde da Ameixoeira, de Viseu, e sua respeitável família... O nosso assinante Tadeu Carneiro... O ilustre proprietário Eustácio Alcoforado...» — Não, este partiu, partiu para Bordéus. — Partiu ou chegou, menino? É que não é a mesma coisa! — exclamou Melchior. Deu uma risadinha, voltado para Artur, tomou uma fumaça do charuto e pediu a Esteves que «por caridade lhe ditasse os anos». Esteves, com um gesto lasso, tirou de uma gaveta um Almanaque, com folhas brancas intercaladas, bocejou profundamente e começou no seu tom soturno: «Dia 14 de Dezembro... O comendador Figueiredo... grandíssimo besta! A Sra.ª D. Ernestina da Conceição Valadares... O engraçado actor Maldonado...» Melchior suspendeu a pena e olhando para Esteves fixamente: — Está lá engraçado? Isso é de há dois anos! Agora ele faz papéis sérios. Esteves refletiu, tirando películas dos beiços: — Põe o esperançoso. O esperançoso? um homem que representava havia doze anos!... E olhavam-se embaraçados, na urgência de um adjectivo.
Então Artur adiantou o rosto, risonho, obsequiador, e disse: — O impressionante, talvez. — Magnífico; — exclamou Melchior, escrevendo regalado. E, um momento, olhou Artur com respeito. — Que mais, Esteves? Vá, homem, vá! «O vereador Fernando Cardoso... A inocente filha da Sra.ª D. Elvira Cunha Rego... O distinto poeta Augusto Roma, ilustre autor dos Idílios e Devaneios...» Uma porta lateral abriu-se, e uma face branca e balofa, com lunetas de ouro e um bigode tão preto que parecia de crepe postiço, mostrou-se, dizendo com voz de papo: — O Melchior, redige aí uma notícia da chegada do Meirinho, de Paris... O homem já me falou nisso três vezes. Trouxe-me uma lapiseira, coitado. Sete ou oito linhas catitas. E a porta fechou-se. Melchior tomou-se grave, esfregou as mãos devagar, acendeu reflectidamente outro charuto, e com os cotovelos sobre a mesa, os olhos cerrados, pôs-se a coçar lentamente a calva; depois, escreveu, riscou, releu, recomeçou e por fim, recostando-se na cadeira, murmurou exausto: — Não estou de maré. Hoje não vai... Nesse momento, o sujeito de lunetas de ouro voltou de dentro, de chapéu na cabeça, calçando as luvas: — Fizeste? Melchior confessou que estava pesado da cabeça. — Escreve lá, homem! — disse o de lunetas de ouro, encolhendo os ombros com o desdém de um ricaço de ideias: — «Temos entre nós o nosso prezado amigo João Meirinho, um dos ornamentos mais brilhantes do nosso high-life. S. Exª que é igualmente estimado em todas as capitais da Europa...». Hesitou, passou os dedos pelas sobrancelhas e com a testa muito franzida, «...da Europa, onde as suas qualidades eminentes o tornam o alvo dos respeitos de todas as classes, é sempre bem-vindo à formosa cidade do Tejo, onde...». — Há dois ondes — advertiu baixo Melchior. — Deixa haver! Põe: «...a cuja sociedade ele traz a animação, que é o distintivo da
brilhante...». — Há dois brilhantes — corrigiu Melchior. A observação, diante de um estranho, decerto irritou o sujeito, que replicou secamente: — Mete-te lá com a tua vida! — Põe: «...da esplêndida capital da França, esse esplen... esse resplandecente centro da Arte e das Letras». — Ora aí tem o menino, uma noticiazinha chic! Ia a sair, mas Melchior, erguendo-se cerimoniosamente: — Quero-lhe apresentar o Sr. Artur Corvelo, um poeta; o Sr. Saavedra, o nosso diretor. Saavedra apertou, protectoramente, a mão que Artur lhe estendeu com servilismo — e pondo o chapéu mais ao lado: — Ah, esquecia-me. O João Carolino, do Ministério do Reino, deu-me um folhetim para amanhã... Manda para dentro, e ele vem rever as provas. E antes de atirar o manuscrito sobre a mesa, abriu, leu alto: «À BEIRA-MAR. — Sentado numa penedia, deixo o pensamento vogar sobre a superfície líquida, onde os doirados raios do Sol poente espargem mil cambiantes de luz. E com a alma arrebatada, contemplo a pasmosa maravilha da criação. Oh! materialistas, escondei o rosto na vergonha de vossa perversa blasfêmia! Vinde a este penedo, se quereis ter a certeza da existência de Deus. Vinde a este penedo, gigante de granito...» — Está opulento — murmurou. Atirou o manuscrito a Esteves, abaixou a cabeça a Artur e saiu trauteando. Melchior ergueu-se logo e com um sorriso: — Estou às suas ordens, Sr. Corvelo! O Esteves, aqui te deixo as notícias, hem! — E de pé, ia-lhe passando pequenas tiras de papei, de que lia as primeiras linhas, numa verificação rápida: — «Foi despachado aluno pensionista, etc... Foi aprovada a tarifa especial, etc... Parece que o Sr. Vieira não aceita a nomeação, etc... O conhecido Mesquita faz leilão da sua casa de penhores, etc... Foi aceite, pela Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, a proposta do marchante Augusto, etc... Houve ontem uma desordem no beco do Monete,
etc.». Aí tens as duas anedotas que vinham no jornal espanhol. A chegada do Meirinho. É o que há. Não vem mau o número de amanhã... Foi interrompido por nós de dedos que batiam à porta, e, quase imediatamente, dois homens entraram. Pareciam operários: um deles, atarracado, tinha uma face honesta que atraía, mas foi o outro, franzino e amarelo, quem tomou a palavra. Um pouco embaraçado, puxando os pelos do bigodito e batendo com o chapéu na coxa, devagarinho, começou, enchendo a voz: — Nós somos filhos do trabalho... — Hesitou, procurou, na presença dos jornalistas, embelezar as suas frases: — Somos da fábrica de fiação da Pampulha, e, como V. Exª sabe, estamos em greve... A comissão entendeu que deveria publicar um comunicado, para dar coragem, para levantar os ânimos... — Pareceu consultar o companheiro, acrescentou, corando: — Ainda que haja alguma despesa... Que as circunstâncias... — E estendia o manuscrito. Melchior e Esteves entreolharam-se: — Não — disse Melchior — não é nada; os senhores estão em greve e o «Século» está na oposição... Sai amanhã, podem ir descansados. — A justiça é por nós — balbuciou o rapaz. Pareceu querer colocar uma frase final, hesitou, fez um sinal ao companheiro, e saíram ambos devagar, gingando levemente. Esteves abrira o comunicado e parecia surpreendido. Melchior então, curioso, foi olhar por cima do ombro dele, e leu alto: «IRMÃOS DO TRABALHO! Quando do alto do Gólgota, o Redentor do gênero humano, já exangue, soltou o grito supremo, foi para proclamar uma aurora de paz e de esperança e arrancar a cadeia da escravidão dos pulsos dos filhos da democracia...» E continuava assim, em duas laudas, falando da «gargalheira de ferro dos tiranos», do «credo da liberdade», da «arca da aliança». Explicava a greve da Pampulha, como sendo a «aurora que raia para as vítimas do despotismo»; aconselhava os operários «a que refrigerassem as frontes fatigadas no puro seio das filhas do povo»; e depois de novas
amplificações sobre o Cristo, terminava: «a vossa comissão grita-vos do alto da colina: coragem, heróis do trabalho, coragem!» — Hem! — fez o Melchior, atônito. — Para ser de um operário! Está esplêndido! Manda-o pôr na segunda página, caramba! Também Artur estava surpreendido. Que cidade, Lisboa, em que dos empregados aos tecelões, todos tinham a preocupação da eloquência e a fé na publicidade! Não se conteve, soltou a sua frase: — Lisboa é a estação central da inteligência... Mas o rapazito de blusa entrou vivamente na redacção: — Está ali outra vez o homem do hotel com a conta! Melchior atirou-se com um salto para a saleta interior e pela porta entreaberta, com grandes gestos, a voz abafada: — Que não estou, que fui para o campo! Ouviu-se, fora, um vozeirão irritado e o rapazito, esganiçando-se, replicar, quizilado; depois, houve um silêncio, e Melchior, com cautela, mostrou a face inquieta: — Foi-se? Esteves, que assobiava a Sonâmbula, moveu afirmativamente a cabeça. — Pois estou às suas ordens — disse Melchior, subitamente tranquilo. Tirou do bolso a carta do Rabecaz e sentando-se: — Pois aqui está o que me diz o maganão do Rabecaz: «aí vai o amigo Artur Corvelo, com versos muito catitas e um drama que é de arromba. Aquela cabeça é um mundo! Quer conhecer a bela rapaziada literata e como seu bondoso padrinho lhe deixou grossa maquia, aí o tens, que quer florear na Capital e encher o ventre da bela pândega». Artur protestou logo: — Não, eu venho sobretudo por causa do drama. — Há tempo para tudo! — disse Melchior, com um grande gesto. — E então demora-se? — Naturalmente. — Pois eu estou às ordens, disponha de mim. Com franqueza... Quando é que V. Exª está
em casa? Eu vou por lá, almoçamos, conversamos, e vamos por aí ver o que há. Serve-lhe? Artur agradeceu, comovido. Melchior foi a um pequeno lavatório que havia ao canto, lavou as mãos e aproximando-se, a puxar as calças para a cinta: — Amanhã, por exemplo, hem? — Perfeitamente. Estou no Hotel Espanhol. — O Esteves, esses livros que aí mandaram para anunciar, leva-os ao Salomão, mas não os largues a menos de três tostões cada um, pelo amor de Deus! — E voltando-se para Artur: — Andiamo? À porta, porém, lamentou não poder acompanhar Artur; tinha um rendez-vous. — Sabe o caminho, não é verdade? Bem. Amanhã, às onze, no Espanhol! Almocinho simples! All right! Criado de V. Exª. Mas não veio na manhã seguinte, nem ao outro dia. E Artur, já inquieto, e querendo ao mesmo tempo aproveitar a oportunidade de mostrar estilo, resolvera escrever-lhe um bilhete muito literário: «Decerto os altos trabalhos desse rochedo de Sísifo, que se chama a Imprensa, têm-no absorvido e esqueceu-se de que prometeu vir partilhar comigo do leite e castanhas, de que fala o divino Virgílio...». Tinha fechado o sobrescrito e limpava com água-de-colônia uma nódoa do fraque preto, para sair, quando a porta se abriu devagar e apareceu Melchior. — Ia-lhe justamente mandar uma carta! — exclamou Artur. Melchior alegou afazeres, uma pessoa das suas relações que estivera doente... — Mas estava a limpar o fatinho, pelo amor de Deus, não se interrompa! Examinou o fraque e observou como entendedor: — Isso, só com benzina. Artur corou, atirou o fraque para uma cadeira e negligentemente: — É um fraque velho — disse — tenho de mandar fazer fato... Melchior tomou um ar muito sério: — Com franqueza, aconselho-lhe. Em Lisboa é necessário andar bem vestido. Que tal lhe parece isto? — E rodava nos calcanhares, devagar, mostrando o fato de cheviot claro. — Muito chic, não é verdade? Pois, aqui para nós, mas não o diga, por quem é, não o diga... Dezasseis
mil-réis. No Strauss eram quarenta. Hem! Que espiga! E em conclusão, provou-lhe que devia fazer fato no «seu homem», que era o Vitorino, o Vitorino dos Calafates. — Está decidido, bem? Vamos ao Vitorino? Artur aceitou logo, com reconhecimento — e desceram para o almoço. O criado pareceu rever com alegria o sô Melchiorzinho. Melchior também se regozijou de encontrar o Manuel; perguntou-lhe mesmo se ainda estava no hotel o Vicente... E a Justina, que era tão bem feitinha? Ah, o Espanhol já não era o mesmo! Era igualmente a opinião do Manuel. E tiveram ambos um bamboleamento saudoso de cabeça, deitando o olhar desanimado pela sala, como na muda contemplação de ruínas. — Usted é que sabe — suspirou o Manuel — usted é que sabe! O almoço foi longo, copioso, muito saboreado. E, com grande prazer de Artur, Melchior falou longamente de Lisboa. O que havia de melhor, segundo ele, era a bela rapaziada! Porque lá isso de soirées, bailes — histórias! No fim, para que se estava neste mundo? Para gozar, ter amigos alegres, um bom jantarzinho, uma pandegazinha, umas mulherzinhas de vez em quando. E para isso, não havia como Lisboa! — O amigo verá! — exclamou, batendo no ombro de Artur. Parecia simpatizar com ele; ao café, propôs-lhe mesmo que deixassem as excelências; o melhor era você cá, você lá, e liberdadezinha... Ele gostava de liberdade... — Como todo o homem inteligente e que tem o espírito moderno — disse Artur, que procurava, com insistência, elevar o tom do diálogo. — Não é lá de política que eu falo — acudiu Melchior, chupando o fundo do cálice de cognac — isso são histórias! O que eu digo é cá esta liberdadezinha! Uma cavaqueira com um bom amigo, uma comidazinha num hotel conhecido... bela rapaziada. O mais é parvoíce! Artur, que a preocupação poética torturava, disse então, um pouco embaraçado, com um sorriso artificial: — A propósito de liberdade... Se o meu amigo não acha maçada... queria que me desse a sua opinião sobre alguns versos... sobretudo uma Ode à Liberdade. Talvez não desgoste... Melchior bebeu de um trago outro cálice de cognac e limpando precipitadamente os
beiços: — Às ordens! E levantaram-se ambos. Artur, ao subir para o quarto, sentia «cólicas». Ia, enfim, mostrar a sua literatura a um jornalista, a um crítico, a um lisboeta... Abriu o manuscrito com uma tremura nas mãos: — Que tal lhe parece o título, Esmaltes e Jóias? Melchior, que se sentara aos pés da cama, pesado do almoço, disse, agradado: — Tem chic. Artur procurou a folha, cuspilhou, e começou: ODE À LIBERDADE Ei-la que se ergue na colina santa A Santa Liberdade. Contempla o céu e desgrenhada canta: Acorda, humanidade! E seguia-se, no mesmo desenho estrófico, um longo monólogo da Liberdade: amaldiçoava os Reis, bendizia os povos; dizia-se «virgem imaculada, visão aérea, pomba da arca e bonina do vale»; prometia searas aos humildes, gargalheiras aos grandes; exaltava a túnica de Cristo e as algemas de Espártaco; e, brandindo no ar da manhã uma espada mística, terminava clamando: A hora já soou, a Aurora vem... Baqueia a realeza! E já se ouve na cidade além, Rugir a Marselhesa! — Que lhe parece? — perguntou Artur, ainda ofegante de excitação declamatória. — Está forte, está forte que tem diabo! — E Melchior, olhando-o quase com terror,
acrescentou: — Safa, o amigo tem ideias muito exaltadas! É logo Comuna para a frente, hem? Irra! — Mas se me dá licença, escapou-lhe aí uma cacofonia. É quando a Liberdade entra e diz que arrasta o manto... Ora leia. Artur releu, inquieto; era uma das suas estrofes queridas: Chamais-me, Cidadãos? Eu aqui estou: Alas à Liberdade! Nunca cauda mais pura se arrastou Nas lajes da cidade? — Aí está! — exclamou Melchior. — Cacofonia. Eu digo isto, o amigo desculpe. Mas vê, nunca cauda... cá-cau... cacau! Eu peço desculpa, mas às vezes são coisas que escapam! E aqui em Lisboa, a crítica começa logo a pegar! É muito severa, é de tremer! Começam logo a achincalhar; cá-cau, cacau do Brasil, chocolate... É o diabo! O amigo tenha paciência. São coisas em que é necessário muita cautela! Artur estava escarlate; aquela cacofonia na sua ode envergonhava-o tanto como um piolho que lhe encontrassem na gola do fraque; riscou logo o verso com rancor. Aquilo, naturalmente, escapara-lhe ao copiar. E para se desforrar — quis ler a Rosa do Vale. Mas Melchior acudiu: — Olhe que já se faz tarde para o Vitorino, veja lá! — E com um tom profundo: — E melhor irmos ao Vitorino! Como lhe devia uma conta e o Vitorino se impacientava, Melchior aproveitava com júbilo aquela oportunidade de «o adoçar» levando-lhe um freguês rico — e ia pela rua, muito chegado a Artur, aconselhando-lhe despesas: — Faça casaca, deve fazer casaca! Em Lisboa é essencial... E é a especialidade do Vitorino! — E apertando-lhe o braço, muito grave: — E sobrecasaca... É de rigor! Subiram a um terceiro andar, e numa saleta com transparentes cor de oca na janela e raros cortes de pano numa prateleira envidraçada, o Vitorino, um magricela coxo, cor de
limão, recebeu-os aos pulinhos sobre a muleta; havia um vago cheiro a refogado; num quarto próximo ouvia-se o rabujar de uma criança e o tiquetique de uma máquina de costura — que fez lembrar a Artur o estabelecimento triste do Serrão, o seu alfaiate de Oliveira. Desejaria ter ido a alguma casa célebre, com rimas de fazendas no chão, figurinos pelas mesas e altos espelhos nas paredes, mas dominado pela loquacidade do Vitorino, pelos conselhos entusiastas de Melchior, na vaga inércia mole que lhe dera o almoço e o sol cálido da rua, consentiu em encomendar uma casaca, uma sobrecasaca, calças, e um fato de mescla, sem entusiasmo, muito descontente com as fazendas; aludiu mesmo, mais por complacência com o Melchior do que por influência do seu antigo sonho, a um robe-de-chambre de trabalho, apertado por cordões de borla. — Também se lhe faz, também se lhe faz — acudiu o Vitorino, excitado. — De veludo — disse timidamente Artur. — Cáspite! — exclamou o Melchior, curvando-se profundamente. — Que freguês, hem? Daquilo não pilhava o sô Vitorino todos os dias! O Vitorino correra a buscar amostras de veludilho — quando, do quarto próximo, saiu uma mulher bem-feita e de pele muito branca, com uma criança estremunhada ao colo, toda rabugenta. Melchior abriu vivamente os braços com uma exclamação: — Viva o fidalgo! Então como vai a D. Teresa? Como vai isso? E precipitou-se a beijocar o pequerrucho, chamando-lhe seu caro amigo, fazendo-lhe berimbau no beicinho, cócegas na barriguinha, roçando-se muito pela mãe. — Tem estado com uma perrice — disse ela. — Seu maroto, seu maroto — roncou Melchior com voz de papão. E mostrando-o a Artur: — Que beleza, hem? que beleza! O pequeno, assustado dos bigodes de Melchior, recomeçou a berrar. O jornalista, muito servil, afagou-o, fez glou-glou com a língua, seguiu mesmo a mãe ao quarto, apalhaçando-se, e, daí a momentos, decerto para acalmar a criança, Artur ouviu-o repenicar a viola-francesa, cantarolando um fado de pretos. O Vitorino, diligente, ia tomando as medidas a Artur.
— É cá muito de casa, o Melchior! Grande cabeça! A calcinha larga em baixo, hem? — Sim, larga... — Há-de ser servido a preceito. Quando saíram, a D. Teresa veio até ao patamar; o pequeno sossegara, com duas grossas lágrimas nas pestanas. Melchior foi logo puxar-lhe as rosquinhas do pescoço, lambuzou-lhe a face de beijocas, chamando-lhe amor, príncipe; — depois, apertou longamente a mão ao Vitorino, falou-lhe ao ouvido, abraçou-o mesmo pela cinta. — Grande gente! — dizia, descendo a escada. — E a mulher não é feia — observou Artur. — Trago-a de olho — disse Melchior. Na Rua do Ouro pareceu espantado de serem já três horas. — Que diabo! Tenho um rendez-vous às três e meia! Não ocultou mesmo que era questão de fêmea... Mas custava-lhe largar o amigo Artur. Que bela manhã tinham passado, hem? Caramba, podiam fazer uma coisa! Ele vinha buscá-lo às cinco e iam ambos jantar ao Hotel Universal! Havia de ver que jantar! E que bela rapaziada! Valeu, hem? Às cinco! Artur voltou logo para o hotel. A cacofonia na Ode à Liberdade, torturava-o desde manhã, e como esperava ler as outras poesias a Melchior, toda a tarde, curvado sobre o manuscrito, de lápis na mão — com a atenção esmiuçadora de um jardineiro sobre um canteiro de rosas — catou cacofonias nos versos. Melchior, muito pontual, encontrou-o ainda trabalhando: — Com os versinhos a contas, hem? Sentou-se pesadamente na cama e retorcendo os bigodes: — E que tal de mulheres, lá por Oliveira? — Um horror! — Pezinho descalço, cheirinho a suor! — E reclinando-se com satisfação: — Não deixa de ter seu cabimento... Artur achou-o «grosseirão», mas sorriu para o lisonjear — e confessou que desejava lerlhe a Rosa do Vale.
— Olhe que se faz tarde para o Universal! — exclamou logo Melchior, pondo-se de pé. — Arriscamo-nos a não achar lugar! No Universal é muito sério! Deu uma penteadela rápida no cabelo, nos bigodes e olhando-se satisfeito ao espelho: — Verá que rapaziada! Muito chic! Artur lembrava-se das descrições do Rabecaz: decerto ia encontrar no Universal literatos, deputados, diplomatas, cantores, um mundo de civilização superior — e um pouco envergonhado do seu fraque preto, quis, ao menos, comprar luvas claras. — Homem! — disse Melchior — também eu preciso de luvas! Mas que ferro, tinha-lhe esquecido o dinheiro! Artur, imediatamente, antes de entrar na loja, ofereceu o seu porta-moedas aberto. Que diabo, entre rapazes... — Você calha-me, Artur, você calha-me! — exclamou Melchior, com um ímpeto irreprimível de simpatia. E ambos, de luvas claras, subiram o Chiado, de braço dado — decididos tacitamente a estimarem-se, ligados já por uma amizade nascente. Tinha-se servido a sopa, quando entraram na sala do hotel. E no primeiro relance, o aspecto das mesas, com brilhos de vidros e de plaqués faiscando sob a luz crua dos lustres de gás, os ramos de flores fazendo centro à ordenação das sobremesas, as pessoas bem vestidas que julgava ilustres, as gravatas brancas dos criados, deram a Artur um vivo deslumbramento, imobilizaram-no junto da porta, um pouco embaraçado, passando, com um gesto errante, os dedos pelo bigode. Mas Melchior, que se apossara de duas cadeiras ao pé de um sujeito pálido, chamava-o, muito alto: — Para aqui, amigo Artur, ficamos aqui ao lado do Carvalhosa! Ao adiantar-se, perturbado, com as palmas das mãos suadas, tropeçou num criado, que se voltou, furioso, e Melchior, imediatamente, apresentou-o ao Sr. Carvalhosa, o ilustre deputado. — Eu conheci V. Exª em Coimbra — disse Artur com um esforço, corando. Conhecera-o, quando Carvalhosa publicava meditações democráticas na Ideia, fazia
discursos líricos no teatro acadêmico e era ilustre por vícios que lhe tinham deixado para sempre, na face, uma amarelidão de héctico. No terceiro ano levara um R — e passara desde então a ser na Briosa o republicano mais ardente. Porém, nomeado deputado do Governo por influência de um tio, apresentado em Lisboa a Pares do Reino, introduzido em algumas casas onde recitava, entusiasmara-se pelas Instituições e concebera um respeito desmedido pela Monarquia. Tinha uma gula imensa da pasta da Marinha — e falava de papo sobre questões de política, à porta da Casa Havanesa, torcendo a ponta da pera com os dedos queimados do cigarro. Era conhecido pelas suas imagens — safadas pelo uso de gerações, como velhos patacos do tempo do Sr. D. João VI — e os jornais faziam sempre preceder o seu nome do adjectivo inspirado! Abaixou a cabeça a Artur e falou um momento a Melchior com condescendência, como do alto de uma nobre escadaria intelectual. Era da Província, vivia na Província e sentia-se bem, ao ouvi-lo, que os proprietários graves dos Arcos de Valdevez deviam dizer dele na Assembleia, com admiração e desconfiança: — Grande cabeça, mas muito poeta! — Então deixou Coimbra? — perguntou ele a Artur. — Há dois anos! Melchior apressou-se a citar com verve: Coimbra, terra de encantos Do Mondego alegre flor... Artur terminou Logo: Venho pagar-te em meus cantos Tributo de antigo amor! E o Carvalhosa emendou: Venho pagar-te em escarros Tributo do meu rancor!
— Bravo! Bravo! — exclamou Melchior com ruído. — Essa é das boas!... Aquele curto fragmento de diálogos, também pareceu a Artur muito fino, muito da Capital, e recostou-se na cadeira, com uma satisfação comovida. Toda a sua vaidade se dilatava ao sentir-se ali, a uma mesa rica, entre indivíduos que supunha personagens eminentes da Política, das Letras ou da Finança; todos os detalhes lhe agradavam — a luz forte do gás, os molhos, a atenção dos criados, os sifões — mas movia os braços com um cuidado acanhado, como se receasse quebrar alguma coisa, observando-se, impondo-se modos delicados. A sua alegria foi completa, quando um sujeito que estava a seu lado e no qual não reparara, se voltou para ele e lhe disse com amabilidade: — Então, mais descansadinho da sua jornada? Não o tinha reconhecido! Era o sujeito do vagão, que trazia um cãozinho no cesto. Falaram das fadigas do comboio, do cão, da chuva no Entroncamento. Então Melchior, reparando no diálogo, estendeu precipitadamente a mão por trás da cadeira de Artur, exclamando: — Oh João Meirinho, desculpe, homem, não tinha dado por você! — Lá vi, lá vi! — acudiu logo Meirinho, com o rosto nutrido, luzidio de reconhecimento. — Lá vi, muito boa noticia! Todos gostaram muito. E de amigo, é de amigo. — E indicando Artur: — Fomos companheiros de viagem. Artur, lembrado agora da notícia que vira compor no «Século», ficou todo alvoroçado com a amizade daquele «ornamento do high-life», estimado em tantas capitais da Europa. Julgou delicado dizer-lhe: — Eu tinha lido a notícia... — Fazem-me o favor de me estimar — disse Meirinho, enternecido — fazem-me o favor de me estimar! Tornou-se então muito afável com Artur; ofereceu-lhe da sua água Apollinaris para misturar com o vinho, deu-lhe notícias do cãozinho: tinha chegado óptimo, fazia o regalo das meninas! Era um amor! Depois, falou de si. Havia muita verdade na local do «Século»: em geral era estimado, e
a razão era esta: é que gostava de obsequiar! Não imaginava o Sr. Corvelo as encomendas que trouxera de Paris! Vivia em Paris, modestamente, porque não era rico... Bom Deus, longe disso! Mas vinha de dois em dois anos a Lisboa. Paris, que deliciosa terriola, não é verdade? Ah, tinha lá bons amigos! Até o duque de Grammont lhe dizia sempre: Merignô, vous êtes tout à fait des nôtres! Ah, lá isso, era estimado... Mas, no fim, este cantinho do nosso Portugal era muito apreciável. E depois, havia outra coisa: em Lisboa não sofria tanto de nevralgias... Falava com uma voz baixa, afectuosa, acariciando a sua bela barba clara, com a mão bem tratada, onde reluzia um brilhante; tinha na sobrecasaca a roseta da comenda de Carlos III de Espanha. E era tão afável que, ao assado, já dizia a Artur: — meu prezado amigo, meu bom companheiro de viagem! Quis saber se ele vivia em Lisboa. — Não? Ah, a província é muito apreciável... Há muita bondade na nossa província, muita bondade. Eu, por exemplo... Interrompeu-se para responder a um sujeito de aspecto pomposo, belo rosto cor de cera e bigodes tão lustrosos que pareciam envernizados — que do outro lado da mesa lhe perguntava por que não fora na terça-feira a casa de D. Joana Coutinho: — Não pude, meu bom Padilhão! A Sra.ª Marquesa não consentiu, positivamente não consentiu. Tínhamos uma deliciosa partida de manilha... Pediu então detalhes da soirée: D. Frederico ralhara muito ao whist? Tinha estado a divina Viscondessinha de Lordelo? E tu que fizeste, Padilhão? O indivíduo alteou o peitilho lustroso e muito decotado: — Na terça-feira passada? «Oboé» e «Emília das Neves». Gostaram muito. — Conhece a D. Joana Coutinho? — perguntou Meirinho baixo a Artur. — Não. — Ah, pois era um salão adorável. Excelente música, lindas mulheres, dançava-se, recitava-se. Iam muitos estrangeiros. — Deliciosas terças-feiras — disse com beatitude, cerrando os olhos. Sob a influência daquela intimidade e do jantar, Artur aclimatava-se; tinha mesmo perguntado, acentuando o seu desembaraço, a Carvalhosa:
— V. Exª não voltou a Coimbra? — O forçado livre não revisita as galés — respondeu Carvalhosa secamente. Artur procurou inutilmente uma frase pitoresca: não a achou, e, calado, começou a escutar aqui, além, curiosamente. As conversas interessavam-no prodigiosamente e nas palavras triviais, novas para ele, parecia entrever, sob as amplificações da imaginação, revelações de existências superiores. Uma discussão, ao alto da mesa, sobre a dissolução da Câmara, cheia de nomes de ministros e de citações de oradores, deu-lhe a admiração da Vida Política, grandiosa pelo domínio dos fortes, pitoresca pelas emoções da intriga e enobrecida pelos idealismos da eloquência. Sujeitos que falavam pesadamente de Bancos, letras, fundos, corretagens, interessaram-no pela Vida Financeira, onde se revolvem milhões e o gênio dos Nucingens, como em Balzac, cria tesouros. Ao seu lado, uma questão sobre S. Carlos excitou o seu amor do teatro. Meirinho recomeçara a elogiar as terças-feiras de D. Joana Coutinho e a vida social aparecia-lhe, com todo o romance dos amores aristocráticos, acompanhada de árias ao piano, em salas espelhadas, onde se movia, graciosamente, a gentil senhora do vestido de xadrez! Que pouco tinha pensado nela, naquele primeiro deslumbramento que lhe dera Lisboa! Decerto, muitos daqueles homens a conheciam, mas eram quase todos de meiaidade, de figuras fatigadas, com interesses positivos, e não sentia ciúmes, na certeza de que nenhum a poderia interessar. E de todo aquele «cavaco» ruidoso se desprendia para ele o indefinido conjunto da vida de Lisboa, complexa, intensa, fortemente dramática — onde, como sobre um fundo luminoso, se destacava a figura delicada da senhora do vestido de xadrez, que adorava agora, naquela dilatação da sensibilidade que lhe dava a excitação do jantar. Tinha-se servido o café e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. Com os cotovelos na mesa, em atitudes pesadas de fartura, sujeitos falavam com intimidade; ao fundo da sala, numa altercação áspera, um indivíduo de lunetas gritava, perguntando se o tomavam por tolo; um homem de pele corada, enfartado, arrotava tranquilamente; o Padilhão queimava cognac no café, e o Melchior, excitado, discutia com o visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizento, a primeira dançarina de S. Carlos.
Mas Meirinho erguera-se e indo bater no ombro de Melchior: — Você quer vir cá a baixo ao quarto do Sarrotini? E mais cá o amigo! — acrescentou, dando palmadinhas no ombro de Artur. — Pronto — exclamou Melchior. E de pé, puxando as calças, o charuto flamejante: — E daqui para S. Carlos, hem, Artur? Vai dia cheio! –chamou o criado: — Dá a conta a este senhor, ó Vicente; depressa, hem? Bom jantarzinho. Meirinho! Artur também achara o jantar excelente. — Melhor que no Espanhol — acudiu Melchior — não é verdade? Você, Artur, o que devia era vir para cá, para o hotel. Aqui goza-se! Meirinho disse com autoridade: — E para quem se quer relacionar, nada melhor. Artur já entrevira, com delícia, aquela possibilidade. E descendo para o quarto de Sarrotini, o tapete do corredor, o retinir de uma campainha eléctrica, um criado apressandose com um tabuleiro onde tilintavam louças, o som distante de um piano, iam-no persuadindo tentadoramente. Que interessante seria, viver ali! — Quem é o Sarrotini? — É o segundo baixo de S. Carlos — disse Melchior. — Grande pândego! Abriram a porta do quarto, mas Melchior, avistando um sujeito de gaforina frisada, que fumava, languidamente estendido no sofá, não entrou: tinham de ir a S. Carlos, não se podiam demorar. Junto da porta, o Sarrotini, de jaquetão de veludilho sobre calças cor de alecrim, grosso e vermelho, abraçou Melchior, «el ilustre periodista»; apertou a cinta de Meirinho, «diletto amico»; deu um shake-hands apaixonado a Artur, falando um italiano misturado de espanhol, verboso e jovial. Artur olhava curiosamente a saleta: várias pessoas conversavam animadamente, bebendo café; em torno das luzes de um piano aberto, havia uma imponderável névoa de fumo de charutos, e um sujeito de óculos de ouro preludiava, com o olhar errante no tecto; sobre uma mesa estava uma rabeca, livros de música enchiam uma poltrona, e de pé, com gestos vivos, um rapaz de fato claro, falava violentamente: discutia-se Arte — e Artur,
entusiasmado, ouvia os nomes de Courbet, Corot, Delacroix... Mas houve um chuta! E um moço pálido, de buço claro, aproximou-se do piano, ajeitou os cabelos para trás das orelhas com um gesto doce, falou baixo ao pianista de óculos de ouro, e cerrando os olhos, com a cabeça inclinada, os lábios entreabertos, cantou. Pela letra, Artur reconheceu ser o dueto de Romeu e Julieta: era uma melodia de uma adoração mística e contemplativa, e a voz do moço pálido subia, numa suplicação extática, ao dizer: Ce em est pas l'alouette. Non, ce em est pas le jour; C'est le doux rossignol, confident de l'amour... Artur escutava, encantado: parecia-lhe ver, no ritmo da música, dois braços trêmulos elevarem-se dos degraus de uma escada de seda para um balcão gótico, de onde se debruça uma forma branca, enquanto o rouxinol canta nos maciços de um antigo jardim... Mas Melchior, fechando a porta, travou-lhe do braço e foi-o levando pelo corredor, ainda deslumbrado daquela soirée de Literatura e de Arte, tão rapidamente entrevista. — Aquilo é que é passar noite — disse ele. — O amigo devia vir cá para o hotel — disse Meirinho. Melchior insistia, achava que era melhor. E Artur, com um vago sorriso, antevia soirées como aquela, cheias de conversas originais, escutando música, na preguiça enternecida das digestões ricas. — Talvez não haja quarto — lembrou, já seduzido. — Ora essa! — exclamou Meirinho. E como o guarda-livros passava assobiando, chamou-o logo, levou-o para um canto, e, como se tratasse um negócio grave, falou-lhe com animação: era um hóspede a mais; ele, o que queria, era que o hotel prosperasse, hem! E esperava que compreendessem que ele fazia tudo para chamar hóspedes... O guarda-livros tinha justamente, no terceiro andar, «um quartinho a calhar». E Melchior que se deleitava à ideia de vir jantar repetidamente com Artur, exclamou logo «que o deviam ir ver já, para dar o seu parecer...».
Era um quarto com estofos de reps azul e janela para a rua; a mobília, que à noite, à luz do gás, lhe parecia ter um tom rico, tentava-o. Mas a despesa! No entanto, pensava que era indispensável viver ali, para as suas relações literárias... Era mesmo hábil; depois, um artista devia estudar a vida, não nas suas nobrezas, mas no seu luxo. — Tem por vizinha a Baretti, a segunda dama — disse o guarda-livros, piscando o olho. — Rica mulher, caramba! — fez Melchior. E Meirinho, tocando maliciosamente no braço de Artur: — É o que lhe convém! E aquela proximidade de uma cantora bonita, decidiu Artur definitivamente. Meirinho que voltava para o quarto de Sarrotini, foi-os acompanhar até à escada. Parecia mais afeiçoado a Artur desde que Melchior lhe dissera rapidamente «que o rapaz herdara um fortunão do padrinho». Apertou-lhe extremosamente a mão, dizendo: — E à mesa hei-de-lhe guardar um lugarzinho ao pé de mim. E para o que quiser, o meu forte é obsequiar... Hei de levá-lo à casa de D. Joana Coutinho. Artur fez-se vermelho de prazer. Já se lá via, numa soirée, num recanto menos alumiado, murmurando palavras poéticas junto ao rosto de Ela, da senhora do vestido de xadrez, que sorria por trás do leque. — Parece-me boa pessoa este Meirinho — disse ele na rua a Melchior. O outro rosnou, soltando uma baforada de fumo: — Espertalhão! Considerava já Artur como seu e a influência nascente de Meirinho dava-lhe um descontentamento azedado. — Grande espertalhão — acrescentou. E começou a explicar por que não quisera entrar no quarto do Sarrotini: é que estava lá a besta do Guerreiro Mendes... Fazia-lhe mal aos nervos aquele animal! Artur admirou-se: o Guerreiro Mendes? O autor da Margarida, um romance de uma paixão tão intensa, à Werther? — É uma besta! — resumiu com tédio Melchior, que antes do jantar parecera a Artur tão
cheio de bonomia, e que, agora, sob a acção do Colares e do cognac, tinha nas expressões e nas opiniões uma dureza irritada. — Aí tem você S. Carlos: chic, hem? Levou-o logo à bilheteira a comprar duas cadeiras «do lado do Rei» — o diabo do Saavedra não largava a cadeira do «Século»! Em baixo, pediu ao «porteiro amigo», a quem bateu familiarmente no ombro, o binóculo do sô Mesquita; apagou o charuto meio fumado, que guardou a um canto, porque «os tempos não estavam para desperdícios» e tendo cofiado os bigodes — empurrou o batente verde. Como escreveu, no dia seguinte, ao Rabecaz, Artur ficou deslumbrado com S. Carlos: «a majestosa arquitectura dos camarotes, a vastidão do palco, a soberba tribuna real e aquela sociedade elegante, silenciosa, escutando uma divina música, é realmente, amigo Rabecaz, impressionante! Cantava-se a Africana, e o pano erguera-se para o segundo ato. Sentindo-se olhado, ao atravessar para a sua cadeira, Artur, atarantado, com todo o sangue na face, ia pisando sujeitos indignados. — Oh, senhores! — exclamou alguém, torcendo-se furioso na cadeira. Artur, aflito, nem pôde «pedir perdão», e imóvel na sua cadeira, com o chapéu nos joelhos, o espírito esmagado, pasmava para uma decoração de cárcere, onde uma dama gorda, cor de cobre, barbaramente ornada, junto a um catre onde um homem dormia, balançava, cantando, um leque de plumas. A sua voz cálida, revibrante nos agudos, lasciva nas modulações doces, deu-lhe um arrepio de emoção. — É a Sassi — disse-lhe baixo Melchior. — Que lhe parece o teatro? Artur fez apenas um movimento admirativo com as sobrancelhas. Como Melchior disse depois, «durante todo o ato esteve embatocado». Os personagens, com os seus gestos melodramáticos, pareciam-lhe mover-se vagamente na instrumentação substancial e maciça, como numa atmosfera sonora de sonho. Olhava a decoração, as passadas selvagens de Nelusko, as duas colunas do proscênio, tocadas de alto a baixo de um vivo de luz, os camarotes que lhe pareciam muito distantes, a palidez dos rostos sob a luz do gás, e sentia-se envolvido numa harmonia magnífica e incompreensível, em que por vezes seguia, durante um
momento, melodias delicadas que o tumulto da instrumentação bem depressa absorvia. A magnificência orquestral, junto à riqueza social que sentia em redor, davam-lhe uma vaga opressão. Quando o pano desceu, respirou com alivio. — Vamos ver o gado! — disse logo Melchior, erguendo-se. Saudou em redor com a mão: — Olé, visconde! Viva, amigo Silva! — e depois de examinar rapidamente os camarotes, declarou com desdém que não estava ninguém decente — e que ia acabar o charutinho. Intimidado pelo sussurro de vozes que se levantara na plateia, Artur não se mexeu. Os seus olhos saciavam-se dos detalhes, sofregamente. E da alta disposição dos camarotes, de um tom rico e escuro, do lustre com fulgurações de pingentes, pondo na tonalidade sombria relevos claros de envernizados brancos e de doirados, da gravidade monárquica da tribuna, desdobrando a sua cortina de veludo cor de cereja entre as cariátides hercúleas, dos Reis, das toilettes, das casacas dos homens, desprendia-se como que a evidência da grandeza da Capital e da magnificência da Monarquia. As mulheres, sobretudo, impressionavam-no: na compostura dos seus movimentos, na brancura dos seus pescoços, sentia a influência das genealogias que as enobreciam e dos palacetes que habitavam, admirou as luvas de oito botões e as formas dos penteados; desejava saber o que diziam, por que sorriam. Estaria Ela? Procurou-a até às torrinhas, com o binóculo. Não a viu — e invadiu-o uma vaga melancolia. O jantar pesava-lhe, o calor amolecia-o. Nas filas clareadas de fauteuils, reparava agora em homens, de cabelo lustroso e bem cortado, com peitilhos resplandecentes, em atitudes lânguidas. O seu fato coçado separava-o daquela sociedade bem vestida, com ruge-ruge de sedas e gravatas brancas: havia em todas aquelas pessoas a afinidade de uma frequentação permanente, conheciam-se, sabiam, uns dos outros, os sentimentos, as fortunas, o timbre da voz, os parentescos; sentia-se vagamente um intruso: desejou ser titular — e que o Vitorino lhe mandasse depressa a casaca! Depois, pressentia naquela sociedade, instintivamente, uma indiferença pela Arte, pela Poesia, pelo Génio; havia nas maneiras alguma coisa de fictício, incompatível com a preocupação do Ideal, nas conversas, o que quer que fosse de ligeiro, que denunciava a trivialidade das ideias. Parecia-lhe agora que o seu livro, os Esmaltes e Jóias, todas as suas poesias, o seu drama, não seriam bastantes para interessar aquelas indiferenças
— como, ai! o seu dinheiro era insuficiente para igualar aquelas elegâncias. Veio-lhe uma vaga melancolia, pelas excelências do seu coração desconhecido e as cintilações do seu talento inédito. E triste, com a desconsolação de se sentir mal vestido, de ser obscuro, tímido, olhava para o braço do rabecão, apoiado à grade da orquestra, pensando no seu quarto em Oliveira de Azeméis, nas noites vibrantes de trabalho, em tantas aspirações de então, que a presença de uma burguesia rica, próspera e aparentada, lhe fazia agora parecer irrealizáveis. E lembrava-se de Oliveira de Azeméis, como de um elemento natural em que não contrastava. Mas os músicos, saindo debaixo do palco, instalavam-se e afinações de rabeca comam na orquestra: o público voltava e o pano, erguendo-se devagar, descobriu um galeão arrogante e decorativo. Soldados com mosquetes passeavam no castelo da proa. Num cubículo baixo, um fidalgo, de gibão de veludo e gorro de plumas, media com um compasso, sobre um mapa; e cercada de comparsas de faces avelhentadas e gastas, uma dama gorda cantava, sentada numa postura de sarau. A desafinação dos coros irritava os diletantes: havia ohs! de escárnio. «Que escândalo! rosnava-se grossamente, com indignação. «Ih! Jesus!», gania-se com arrepios. Melchior, afectando um horror de crítico, tapava os ouvidos. A dama corava, empalidecia, via-se-lhe um suor aflito — e não tirava de sobre o seio bojudo a mãozinha papuda. Mas uma sineta deu um toque melancólico, e soldados e marinheiros começaram, num canto largo, a orar a S. Domingos. Então, tacões patearam; um sujeito, ao lado, soltou uma brutalidade irritada. Melchior voltava-se para os lados, acusando o ensaiador, a empresa, o Governo, e acabou por se enterrar na cadeira, numa resignação sombria. — Isto nem é S. Carlos, nem é nada! É uma choldra! No entanto, Nelusko, aparecendo junto ao mastro, à proa, soltava, numa grande atitude, o seu Alerta! Alerta marinari Il vento cangia...
Apitos de manobra silvaram e na orquestra passaram os rumores grandiosos de um mar desencadeado, que brama sob a cerração temerosa. Artur, entusiasmado, achava-se em plena História Trágico-Marítima. O período das Descobertas, que só conhecia por fragmentos, sempre tivera para ele uma poesia emocionante, e a antiquada estrutura do galeão, as plumas dos fidalgos, o farol primitivo no castelo de proa, atirando a primeira luz às águas virginais, davam-lhe visões de navegações heróicas: parecia-lhe ver as caravelas do Gama, passando o Cabo; sentia a oração dos homens, com um grande medo no coração; ouvia o brado do mar, dando em vão nos pene dos; os gritos que passam no ar e são a alma errante dos mortos naufragados... e aquelas imaginações da arte exaltavam-no retrospectivamente pelas realidades da história. — Magnífico, Melchior! — disse baixo. O outro acotovelou-o: — Veja-me agora isto. Era Nelusko, que, entre a marinhagem apavorada, com gestos temerosos e cavidades na voz, cantava a cólera do Adamastor. Palmas estalaram, houve gritos de bis! O ruído dos aplausos electrizou Artur; invejou a glória dos maestros. Nelusko, com o suor luzidio sobre a face acobreada, agradecia, curvado, e a respiração ofegante erguia-lhe sobre o peito os colares de contas, barbaramente coloridos. Mas o tenor, depois, desagradou: um murmúrio hostil correu nos fauteuils. — E quando, entre tiros de arcabuzes, o pano desceu, Melchior agarrou o chapéu: — Ora sebo para esta Africana! Vamos a um cigarrinho lá fora. Artur seguiu-o. Estava vagamente fatigado da atmosfera sobrecarregada das respirações, do gás, da admiração, do Colares. Aquela música forte, ressoando-lhe muito perto dos ouvidos, atordoara-o; não encontrara nela a sensação fina que lhe davam as melodias que conhecia, da Lúcia, da Sonâmbula, que lhe espiritualizavam o cérebro e traziam às suas ideias, na alegria ou na melancolia, um ritmo cantante. E no pequeno patamar de pedra, em cima, junto ao bico de gás, fumava calado, ao pé de Melchior, com um amolecimento de todos os músculos, um vago bocejo geral.
Um sujeito que descia das ordens superiores embrulhando um cigarro, pediu-lhe «o favor do seu lume». A sua cabeleira, que parecia estopa negra, saía fora da aba do chapéu; era baixo, seco, com uma face trigueira e rapada de seminarista; usava lunetas azuis e a gravata de fustão com pintas brancas caía-lhe, num laço fofo, sobre a sobrecasaca estreita, apertada até acima. Acendeu o cigarro e agradeceu cortesmente. — Olha que melro! — rosnou Melchior. — Quem é? — O Jácome Nazareno, um republicano da súcia do Matias, um malandro! Artur quis vê-lo melhor, mas o homem já desaparecera entre a multidão escura dos chapéus altos, que ao fundo dos degraus de pedra se movia num rumor pesado, de onde saía uma espessa fumarada de cigarros. O Melchior, que parecia detestá-lo e temê-lo, explicava que era um desses meninos que tramavam contra o Rei, contra os fidalgos e que queriam a Comuna. — Que está você para aí a falar de Comuna, seu Melchior? — disse, parando, um indivíduo alto, de peito côncavo, nariz afilado, que trazia a gola do paletot erguida e tossia secamente. — Olá, Inglês — fez o Melchior — por aqui? Está cá a pequena? O sujeito tossiu, cuspilhou: — Está lá em cima com a Lola. — A sua voz rouca parecia difícil, de respiração escassa; os lábios entreabertos, anêmicos, mostravam os dentes mal tratados. — E como vai isso? — perguntou Melchior. O outro encolheu os ombros, com um jeito triste dos beiços. — Menos Vénus! Menos Vénus! — exclamou Melchior, chalaceando. — Seu gajo — fez o outro, dando-lhe uma palmadinha no estômago, com um tom canalha. E curvado, tossindo, subiu devagar para os camarotes. — Está com a Concha — disse logo Melchior — uma beleza, menino, a melhor
espanhola que tem vindo a Lisboa. Que ele, está aqui, está na cova! Mas a Concha! — E muito entusiasmado: — Vamos a ver se a pescamos! Entraram. Melchior, de pé, explorava as torrinhas com o binóculo: queria que Artur a visse! Era de endoidecer, uns modos de duquesa, uns olhos, uma cintura! Mas não a descobriu — e o pano ergueu-se. No palco, finas arquitecturas ornadas de monstros quiméricos e de ídolos hieráticos, entre palmeiras cor de bronze e florescências sanguíneas de cactos, esbatiam-se numa pulverização de luz abrasada, como uma névoa imponderável de ouro faiscante. Pausadas teorias de sacerdotes com barbas de estopa entravam lentamente, magros guerreiros corriam com gestos desengonçados, e as bayaderas, as carpideiras, formavam um bailado, que ora parecia um rito nupcial, ora um cerimonial funerário: cambraietas esvoaçavam misturando o negro e o branco, discos de metal retinham, e a instrumentação, o canto, tinham gravidades de santuário e molezas de serralho. Em redor, com risadinhas, comentavam-se as dançarinas: havia exames lúbricos de pernas e de quadris, e Artur impacientava-se com aquelas relices de luxúria, cortando sujamente a eloquência da orquestra. Escutava, imóvel, com a pele arrepiada de admiração, devorando a decoração ardente, o girar das bailarinas, e vinham-lhe pensamentos, reminiscências, sentimentalidades vagas, logo dispersas pelas rajadas da instrumentação. Todo o seu ser, levado nas massas de harmonia, vibrava das emoções que elas continham; os seus ombros vergaram-se quase num movimento de adoração, ao aparecer de Celina, triunfal, no seu palkê refulgente de pedrarias, sob dosséis de plumas. Teve o mesmo êxtase que Vasco da Gama, ao penetrar num recanto de bosque sagrado, em que os aromas têm uma sensualidade venenosa, gorjeios raros erram numa flora flamejante e águas brandas gotejam de taças de jaspe; as largas frases de Nelusko encheramlhe o peito do sopro das paixões grandiosas; sentiu, com o dueto, todas as febres de um amor asiático e mortal e quando, aos cantos suaves do galeão que se afasta, o pano desceu, ficou como que esmagado, com um cansaço de alma, piscando os olhos ainda cheios dos deslumbramentos da decoração, trêmulo de todas as sensações sobrenaturais que percorrera.
Melchior, esse, estava desesperado com o tenor, tinha vontade de lhe dar uma desanda... Um sujeito com tons oleosos na pele e um raminho de alecrim no fraque, quis aplacá-lo: era tão bom rapaz, o tenor... — Eu não lhe vou às ceias, eu não lhe vou às ceias — interrompeu Melchior irritado, saindo. — Olha o asno do Melchior — disse o sujeito olhando em redor, atônito. — Forte asno! Que quer ele? E ia seguindo, ao comprido das cadeiras, com grandes gestos, explicando aos que o interrogavam sobre a sua cólera: — É o asno do Melchior! Que quer ele? Forte asno! Artur examinava preguiçosamente os camarotes, quando, de repente, na primeira ordem à esquerda, a viu, a Ela, à senhora do vestido de xadrez! Que surpresa! O binóculo tremia-lhe na mão. Estava com outras senhoras, uma delas, de idade, de luneta de ouro, e decerto, até aí, se conservara no fundo do camarote. Com as costas para o palco, voltava o rosto levemente, olhando em baixo a plateia: Artur reparou no seu vestido, escuro, cor de vinho; a luz contornava docemente a adorável redondeza do ombro e a manga punha-lhe em redor do cotovelo um fofo de rendas brancas; com a mão nua onde reluziam anéis, batia no veludo do rebordo, devagar, distraidamente, como num teclado de piano. Toda a fadiga, toda a melancolia de Artur desapareceram. As coisas ambientes adquiriram um encanto inesperado: uma luz mais viva saía do lustre; já se não sentia isolado nem obscuro! Ela decerto se lembraria, repetiria o doce olhar da estação de Ovar. Esse olhar, queria atraí-lo: fitava-a com intensidade, com magnetismo; tinha vontade de bater as palmas, soltar um grito. Empurrou violentamente uma cadeira: ao lado um velhote que dormitava, encarou-o, estremunhado, com uns olhinhos subitamente arregalados. Sentou-se então, desesperado. Ela agora falava para o fundo do camarote e ele via o seu catogan, onde reluzia alguma coisa de vermelho, flor ou enfeite. Tinham suprimido o dueto das damas — e o pano ergueu-se, mostrando a negra mancenilheira, numa praia áspera, junto a um mar triste, por uma noite de Lua cheia. As
rabecas, em uníssono, romperam os 16 compassos. Aquela harmonia, que lhe pareceu sobrenatural, mística, imobilizou-o: invadia-o uma sensação estranha, como se os arcos das rabecas lhe tocassem sobre os nervos. Ela, agora, olhava para o palco com o binóculo de marfim, e aquela música, que ora parecia a Artur a expressão do vento e do mar numa região desolada, ora o queixume transcendente de uma grande alma ferida, dava-lhe um delírio de amor poético: todo o seu ser sensível se lançava, numa necessidade de adoração, para aquele camarote da primeira ordem; desfalecia à esperança de lhe beijar as mãos; quereria saber-lhe o nome; decidia imortalizá-la num poema e a sua alma estendia-se pelas longas arcadas das rabecas, toda desfalecida de paixão e dolorida de saudade. Celina, entrando lugubremente sob os seus longos creps, reteve-lhe o olhar um momento. Quando se voltou, o camarote estava vazio e um sujeito de casaca, que se adiantara, sentou-se no lugar de Ela, bocejou discretamente e ficou imóvel com a cabeça apoiada ao tabique, catando os pelos do bigode... E Melchior não voltara, e ele não pudera saber quem Ela era! Todo o encanto do teatro desapareceu e o canto de Celina, a instrumentação, pareceram-lhe muito distantes, recuados infinitamente para um fundo vago e luminoso. Um sujeito tocou-lhe no braço: — Olhe que o chamam. Era Melchior que da portinha lhe fazia gestos impacientes. Tinha de ir à redacção, estava-se a fazer tarde... Estivera no palco, ao cavaco. Saíram. Os trens punham no largo escuro fileiras de luzes avermelhadas ou pálidas; grupos recolhiam, onde se destacavam as capas brancas das senhoras. No céu, muito negro, havia uma cintilação de estrelas. Melchior assobiava os 16 compassos e Artur, ao pé, calado, com a gola do paletot erguida, ia pensando em coisas vagas que faria para revelar o seu talento, conhecê-la a Ela, falar-lhe, ser ilustre como Meyerbeer, bem-vestido como o visconde. Reminiscências das melodias do bailado passavam-lhe no cérebro, via a Lua cheia luzir sobre o mar triste, por trás da mancenilheira... — Então, gostou-se, hem? — perguntou Melchior.
— Se lhe parece! Na saleta da redacção, sob o bico de gás, um sujeito de barba grisalha revia as provas. Ergueu os óculos para a testa, fixou Artur, rosnou um olá e depois de tomar uma pitada: — Há mais alguma coisa a mandar, Melchior? Melchior pareceu ter uma ideia, olhou Artur, sorriu, e sentando-se com o chapéu para a nuca, molhou a pena, meditou com os cotovelos na mesa, os olhos cerrados, cofiando o bigode com a mão gorda e trêmula: escreveu, riscou, entrelinhou e por fim, depois de pigarrear: — Ora oiça lá, Artur. Leu: «Chegou à Capital e acha-se hospedado no Hotel Universal, o nosso amigo e esperançoso poeta Artur Corvelo» — Artur fez-se escarlate — «que brevemente vai publicar o seu formoso livro Esmaltes e Jóias. Alguns dos trechos que ouvimos farão por certo sensação». — Hem? Artur, com a voz tomada, bateu apenas no ombro de Melchior repetidamente: — Obrigado, obrigado! O revisor olhava-o pelo canto do olho, cinicamente. Daí a pouco, na tipóia que batia a trote para o Espanhol, Artur resumia o seu dia. Fora maravilhoso: fizera fato, jantara no Universal, conhecera deputados, o baixo Sarrotini, o bom Meirinho, vira-a — a Ela — tão linda no luxo da ópera, entre as harmonias divinas da Africana, e finalmente, pela local, entrava na celebridade! Sentia-se agora em Lisboa como no seu elemento natural; a vida ser-lhe-ia fácil, sem abalos, luminosa: os Esmaltes e Jóias torná-loiam ilustre; pelo Meirinho conhecê-la-ia, a Ela — amar-se-iam; teria outros dias divinos, com bons jantares, uma ópera escutada de casaca nas cadeiras, e Ela, do camarote, sorrir-lhe-ia de um modo disfarçado e lânguido. A tipóia parou. — Quanto é? O cocheiro saltou da almofada: — O que V. Exª quiser. Artur, num movimento de generosidade, de reconhecimento supersticioso ao destino, deu-lhe dez tostões.
— Muito agradecido a V. Exª, Sr. Marquês! No seu quarto, foi direito ao espelho: achou-se bonito, com um ar próspero. Espreguiçou-se, numa voluptuosa confiança na vida. E daí a pouco, sonhava que passeava com Ela, num bosque sagrado, junto de um templo índio: dos tamarindos em flor vinha o cheiro forte do pelo fulvo das feras; um faquir, nu, descarnado, anquilosado, contemplava filosoficamente o umbigo e tigres familiares rondavam, com a língua pendente e vermelha, como pedaços de sangue coalhado.