Capítulo VII A Capital · Capítulo 7 de 10
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Capítulo VII

Ao outro dia Artur recebeu as últimas provas dos Esmaltes e Jóias e revia-as no seu quarto, quando a porta se abriu e Melchior apareceu com um ímpeto irado. O aspecto de Artur, trabalhando tranquilamente, de robe-de-chambre de veludo, exasperou-o mais ainda, e curvando-se até ao chão disse ironicamente, com uma voz repassada de ódio: — Sim senhor! Fê-la boa! Artur ia falar, mas Melchior, bruscamente, com um gesto vivo: — É simplesmente uma canalhice! Venho aqui com a tipóia, com as raparigas, às nove: nada, tinha saído! Volto às nove e meia, com as raparigas na tipóia: nada! Volto às dez: nada! E aqui me vejo eu com as mulheres, com a tipóia, a bater as ruas, Chiado abaixo, Chiado acima, elas furiosas, o cocheiro desconfiado — enfim, uma indecência! Artur ia explicar... — Para mim — interrompeu Melchior — pândegas consigo, acabaram! E então divagou prolixamente, numa abundância de despeito: — que em Lisboa não se usavam daquelas chalaças... Com quem imaginava ele que estava a tratar? O cocheiro era nada menos que o Teso, que só batia com a melhor rapaziada. E as raparigas?... Tê-las incomodado, obrigado a sair de casa... para quê? Assim perdia-se todo o crédito, era-se mal recebido. Ele queria levar a sua vida direitinha... No fim, ele é que fora responsável... Era homem de bem, gostava de se portar como homem de bem. Enfim, o Sr. Artur tinha-o entalado! Vendo aquela indignação verbosa, aquele olhar fuzilante, Artur acreditou que praticara urna vileza excepcional. Falou em pedir desculpas, ir ele mesmo explicar à Concha... — E é que há despesas — interrompeu Melchior, grave pela responsabilidade tomada. — É que há despesas. O amigo imagina que o cocheiro andou a bater para cima e para baixo de graça? E eu tomei-o por sua conta... E as raparigas?

Artur tirou logo do bolso a bolsinha de trama de prata. Então Melchior, sossegado, responsabilizou-se por arranjar as «coisas decentemente com três librinhas». — E onde diabo estava você? — perguntou, já risonho — outra vez no High-Life? Artur, discreto, teve um sim ambíguo, gozando interiormente as cautelas do conspirador. Estivera numa casa, até tarde... Fora convidado de repente... — Pois eu tive um ferro — disse Melchior, penteando o bigode ao espelho. — E a Concha estava... Oh, menino! Uma divindade! E ficou furiosa... Não, palavra, ela está com muita, curiosidade em o ver. Artur lamentava intimamente aquela ocasião perdida. E para quê? Para ouvir durante hora e meia, escorrer monotonamente, com uma lentidão de água gordurosa, o elogio balofo e mole dos Mártires da Liberdade! Que tolice! Apesar do seu desejo, não ousava propor «outra pândega» a Melchior. Disse apenas, andando em redor da mesa com a cabeça baixa, embrulhando um cigarro: — Tenho pena, tenho pena... Outra vez será, bem? Mas Melchior não o escutava: fora, segundo o seu costume, para a janela, trautear, retorcer os bigodes, a ver «se pescava a segunda dama». Artur, então, foi-lhe mostrar as últimas provas dos Esmaltes e Jóias e corando um pouco, perguntou-lhe se não seria possível anunciar a publicação próxima... — Está claro que sim! E publica-se até uma poesia. Dá chic. Veremos logo isso. Você que faz à noite, nada? Bem, venho jantar com você e combinamos a notícia. — Hem, sou amigo ou não? Artur agradeceu. — E para a venda do volume? — Entenda-se com o Gonçalves, o revisor. Eu lhe arranjo isso: não há-de haver dúvida. Põe-lhe o volume nos livreiros, à comissão. Você não tem trabalho nenhum, senão receber... É necessário dar alguma coisa ao Gonçalves, já se vê. Coitado, homem serviçal, cheio de família...

Deu uma escovadela ao chapéu e «ia-se, que tinha um rendez-vous». Foi ainda olhar à varanda — mas como «se não punha olho no diabo da cantora», saiu trauteando o fado. Terminada a ocupação das provas, os dias tornaram-se muito vazios para Artur. Mas estava então numa situação de espírito tranquilo, muito segura. Em breve, pela publicação do seu livro, pela crítica do «Século» — Melchior prometera-lhe «um folhetim de arromba» — ia ser ilustre; a sua ligação com os republicanos, com o Clube, dava-lhe uma secreta vaidade de revolucionário perigoso; seria completamente feliz se pudesse ver, conhecer a Sra.ª Baronesa de Paradas. Todas as manhãs, agora, por ociosidade, com uma vaga esperança, ia passear pela Rua de S. Bento, esperando sempre que se daria enfim o encontro desejado, recebendo de cada vez uma desconsolação maior daquela longa fachada impassivelmente unida e vazia. Que faria ela lá dentro? Supunha-a lendo, estendida num sofá, ou no jardim que devia haver nas traseiras da casa, bordando sob alguma velha árvore, vendo o pequerruchinho rolar-se pela relva. À noite ia a S. Carlos, sondando todos os camarotes com o binóculo; e os domingos no Passeio, à tarde no Pote das Almas ou pelo Chiado, não cessava de a esperar, de a invocar. Mas não a tornara a ver — e isto punha uma falha discordante na felicidade tão unida dos seus dias. Onde a encontraria? Como? A recordação odiosa da soirée da Coutinho dava-lhe, com o terror da sociedade, o desejo de a ver, de a amar, fora das convenções mundanas, na deliciosa segurança do mistério, de um modo literário e excitante, à Romeu e Julieta. Quereria encontrá-la num parque, numas pequenas ruínas, longe, nalgum recanto pitoresco de vale ou de estrada. Uma manhã, ficou todo alvoroçado, vendo no Século, nas notícias do High-Life, que a Sra.ª Baronesa de Paradas fazia vinte e cinco anos. Mas então Melchior e o Saavedra conheciam-na?... Correu à redacção. Melchior encolheu os ombros: tinha copiado a notícia do Almanaque do ano precedente, eram apontamentos do informador. Talvez o Saavedra soubesse... Também não: ouvira dizer que era uma senhora brasileira... — Mas para que quer você saber? — perguntou Melchior, com um sorriso de malícia, muito curioso. — Ternos conquista? Artur negou frouxamente. — Vá lá homem, conte lá — insistiu Melchior. — Olhinho, cartinha, hem?

Artur não resistiu à tentação de dizer, afectando reserva: — Conhecemo-nos, mas não há nada! — Seu felizardo! — disse o outro, olhando-o com inveja. — Olha o melro, bem? E Artur cofiava o bigode, entumecido de vaidade, o olho enternecido. Melchior então, por um instinto de despeito, afectou não dar importância à aventura que suspeitava: bocejou, estirou-se na cadeira, falou de S. Carlos, do circo, de outras coisas. E de repente: — Então você agora é da panelinha do Nazareno? Artur corou: — Conhecemo-nos. É um amigo do Damião, que foi meu companheiro em Coimbra. Por quê? — Vi-o ontem no Martinho... Você não me viu. Estava em grande cavaqueira com o Nazareno... — E depois de uma pausa: — Faz mal. Fraca sociedade. Artur então protestou: fez o elogio do Nazareno, do Matias; atribuía-lhes todas as virtudes, grandes excelências de espírito. Melchior muito estirado na cadeira, com o ventre saliente, todo envolvido na fumaraça do charuto, disse com desprezo: — Uma corja! Uma corja! Artur escandalizou-se. Eram, disse, os caracteres mais nobres de Lisboa. E irritado pelo tom de escárnio de Melchior, pela sua atitude repoltreada de escrevinhador pedante, afirmou que o Matias, o Nazareno, dentro de dois ou três anos, haviam de governar o País. O partido republicano estava certo de triunfar... Melchior, que limpava as unhas com um canivete, teve um risinho seco: — Ora histórias, amigo! Quatro municipais, de chanfalhos desembainhados, varrem todos os republicanos! A contradição fez perder a Artur a prudência. Falou do Clube, da organização do partido socialista no Porto, em Viseu, em Coimbra: havia quinze mil operários prontos; inventava forças sociais ao serviço da democracia: o dinheiro não faltava e — lembrando-se da presença

do «amigo Abílio» no Clube da Rua do Príncipe — jurou que toda a burguesia de Lisboa, proprietários, banqueiros, pertenciam ao partido republicano... Melchior fitou-o um momento com a expressão vitoriosa de quem obtém a confissão de um crime: — Ah! o amigo também é do Clube? Artur, vermelho, pensando que necessitava para o seu livro o apoio conservador do «Século», negou. Não pertencia, mas enfim a verdade era a verdade... O partido republicano era forte... — Meia dúzia de maltrapilhos — rosnou Melchior, cuja verbosidade usual parecia esterilizada. Calaram-se. E daí a momentos Artur saiu, descontente. Melchior nem levantou a cabeça do papel: disse-lhe apenas um adeus amigo extremamente seco. A injustiça feita aos seus amigos fazia-lhos parecer mais dignos, mais superiores. E como as palavras de Melchior o tinham revoltado, jurou dedicar-se aos republicanos, como aos únicos homens de justiça e de verdade que até aí encontrara. Não deixou mesmo, nessa noite, de contar ao Nazareno a sua questão com o «tolo do Melchior». Mas o Nazareno não conhecia no «Século» senão o Saavedra, que, disse, «era um corruptozinho que merecia na cara a badine que usava na mão». Artur, então, lembrou a necessidade de mostrar ao País a força do partido: achava prejudicial que o Clube tivesse, havia quinze dias, suspendido as suas sessões. O motivo era o Matias estar preparando o seu grande Programa de Organização Democrática, e parecer-lhe inútil reunirem-se antes de possuírem aquela base de trabalho, de acção, que era, segundo o Nazareno, «uma das grandes obras que se tinham escrito neste século». — O Matias leu-me ontem a primeira parte. Depois de Proudhon, não se tornou a escrever nada tão forte e tão elevado. O amigo verá! No entanto Artur estava inquieto por causa da «sua questão com o Melchior»: não conhecia que largo fundo de indiferença pelas ideias há nos espíritos inferiores e, julgando têlo escandalizado no seu fervor monárquico, receava perder a notícia, o prometido folhetim no

«Século», e até os serviços do velho Gonçalves, pai de tantos filhos! Por isso, na manhã seguinte, ficou encantado encontrando Melchior, que vinha, risonho e florido, «almoçar com o caro Artur». Justamente, Artur recebera, ao acordar, uma carta da tipografia anunciando a terminação do volume e remetendo a conta da impressão. Melchior examinou-a, achou— a muito moderada, prometeu mandar o Gonçalves à tipografia e assegurou que depois do almocinho ia fazer uma notícia catita. E com efeito, ao outro dia, Artur pôde ler, com o coração afogado em vaidade, os elogios do «Século»: «É hoje posto à venda o livro de poesias do nosso ilustre amigo Artur Corvelo, os Esmaltes e Jóias. É um belo volume de 250 páginas, nitidamente impresso na excelente tipografia de Castro & Irmão. Vamos ler e falaremos de espaço desta interessante estreia do inspirado poeta. É natural que a crítica se ocupe largamente deste magnífico volume. Em seguida damos um pequeno extracto, que nos parece uma verdadeira jóia onde não falta o esmalte». E seguia-se a transcrição de uma pequena poesia, em que Artur, retomando uma antiga imagem do velho Gautier, comparava a sua alma cheia de desejos, a um pombal atulhado de pombas. Recebeu pouco depois, da tipografia, os volumes destinados a ofertas — e de robe-dechambre, com uma chávena de café ao lado, passou uma manhã deliciosa, escrevendo dedicatórias na primeira página, num estilo lapidar, poético, afectando na irregularidade da letra a desordem da inspiração. Remeteu um exemplar às tias, outros ao Carneiro, à Corcovada, ao Rabecaz, ao Vasco da botica, ao Nazareno, ao Matias, a D. Joana Coutinho, ao Padilhão, a Vítor Hugo, e outro ainda a Garibaldi, com estas palavras: «Ao sublime herói da espada, o humilde cismador da lira». Mandou pôr volumes nos quartos de Meirinho e de Carvalhosa e num último exemplar escreveu apenas: «15 de Maio. Estação de Ovar. Remember.» Por entre as folhas pôs duas violetas esmagadas e sobrescritou para o palacete da Sra.ª Baronesa de Paradas, a S. Bento.

Depois, sentado à janela, com um exemplar na mão, ficou longo tempo a saborear o delicioso orgulho que ele lhe trazia; o cilindrado do papel dava uma doçura inesperada à harmonia das rimas e a cor de canário da capa, com o seu nome em elzeviriano, enternecia-o; lia aqui, além, versos, trechos, e ora tinha palpitações de vaidade por belezas que impressas lhe pareciam de um brilho particular, ora se assustava com incorrecções de forma subitamente apercebidas, que lhe tinham escapado nas provas e que decidia emendar na segunda edição. Entrou nessa noite no Martinho, comovido. Decerto o volume, tornado popular pela notícia do «Século», fora já folheado. No rumor das conversas, parecia-lhe sentir o seu nome, trechos do livro citados; deviam decerto olhá-lo, examiná-lo; e calculava os seus movimentos, a maneira de se encostar na cadeira, de passar a mão pelo cabelo, para dar de si uma ideia mais favorável e como que a revelação pública do seu gênio íntimo. Nazareno, que tomava o seu café, ainda não lera o livro, mas vira a notícia do «Século». — Palavra, fiquei surpreendido — acudiu Artur. — Depois da minha questão com o Melchior, imaginei que me fariam guerra. Mas não. No fundo, são bons rapazes — e é necessário estar-se bem com os jornais... — Decerto— disse Nazareno que parecia refletir. E depois de um momento: – Então o amigo é lá muito da gente do «Século», hem? Artur afirmou que tinha alguma influência no «Século». — Estimo — disse Nazareno — porque então vamos arranjar uma coisa... Procurou na algibeira e tirou um rolo de tiras de papel. E baixando a voz: — É necessário fazer publicar isto... Artur teve um deslumbramento: pensou que por fraternidade revolucionária, Nazareno fizera um estudo sobre os Esmalte e Jóias; e a sua desconsolação foi grande quando o outro, com os cotovelos na mesa, o seu ar um pouco soturno, lhe disse — que era um artigo do Matias sobre o livro do Damião. Publicara-se havia uma semana e intitulava-se a Renascença em Portugal. Nazareno afirmou que era um livro concebido num espírito muito livre, de grande estilo, de uma alta

ciência, «a verdadeira iniciação em Portugal da crítica histórica e literária». Uma grande obra de democracia, enfim! Era útil para o partido, para os interesses da inteligência, fazer em torno do livro um ruído de artigos: como eles não tinham jornal, era necessário — de resto era até conveniente — que os jornais conservadores popularizassem o volume. Ele não conhecia jornalistas, mas ao ver a notícia do «Século», sabendo que o amigo Corvelo conhecia a redacção, lembrara-se... Hem? — Sim — disse Artur — falo ao Saavedra. Até tenho muito gosto... Sou amigo do Damião. — Dá dois folhetins — disse Nazareno. Artur levou o manuscrito, mas estava contrariado. No momento em que ele necessitava do folhetim do «Século» para os Esmaltes, achava imprudente reclamá-lo para o livro do Damião. Nazareno parecia-lhe egoísta. Era abusar, que diabo! Tinha agora um vago medo de que o Saavedra consentisse na publicação, e que o livro do Damião tivesse um sucesso ruidoso, em que o seu volumezinho lírico desaparecesse, como um suspiro numa trovoada. Pensou em guardar o manuscrito até que saísse o folhetim do «Século» sobre os Esmaltes... Ou ainda, poderia dizer a Nazareno, com um gesto desolado, «que o patife do Saavedra, nem à quinta facada»... Mas então, o patife era ele, Artur. Que estúpida ideia, a de Nazareno! Detestava-o agora, e sentia-se inclinar vagamente para as opiniões do Melchior sobre «a cambada dos republicanos». Mas ao outro dia, por um sentimento de lealdade — que a claridade límpida da manhã concorreu decerto a fortalecer — foi ao «Século». E sem calor, cumprindo estritamente e unicamente o' que prometera, estendeu o manuscrito a Melchior, dizendo: — Estimava que você publicasse isto no seu jornal. É sobre o livro do Damião, um amigo meu. Melchior remexeu as tiras de papel azul quase com medo. Vinha do Matias, dos republicanos, e parecia-lhe que sob aquela letrinha miúda se devia tramar alguma coisa de funesto para o «Século», para a Monarquia, para os prazeres tranquilos da Baixa. Deu um olhar desconfiado a Artur e disse devagar, coçando a cabeça:

— Enfim, eu falarei ao Saavedra, eu não quero compromissos... Você bem vê... É uma responsabilidade... Você tem empenho? Artur hesitou: porém, a honestidade venceu e disse com firmeza: — Tenho! — Bem! E Melchior fechou o manuscrito à chave, com precaução, como se fosse dinamite ou outra qualquer substância explosiva. Artur passou esse dia e o seguinte fazendo o giro dos livreiros onde se vendiam os Esmaltes e Jóias, para gozar, vendo o volume nas vitrinas, as primeiras doçuras da publicidade. Não ficou satisfeito: ora o volume não estava bastante em evidência, ora o achava colocado ao pé de algum livro francês, cujo frontispício ilustrado absorvia a atenção; estes detalhes descontentavam-no. As vitrines dos livreiros pareciam-lhe além disso bem indiferentes ao público: homens, senhoras, passavam, na pressa da ocupação ou no vagar da vadiagem, parando diante das ourivesarias, das camisarias, das modistas — nunca diante dos livreiros. Não encontrava nas fisionomias nada que revelasse a impressão dada pelos seus versos: o livro parecia passar sobre a cidade como uma gota de água sobre guta-percha. À noite, no Martinho, em S. Carlos, roçava-se pelos grupos, na esperança ávida de ouvir o seu nome: chegavam-lhe fragmentos de palestras sobre política, fundos, jogo, mulheres, nunca sobre os Esmaltes e Jóias. Entrava desconsolado no hotel e punha-se a reler o volume: tudo lhe parecia então vulgar, imitado, mal rimado, chato, e vinham-lhe desesperos mudos e como que um pungente sentimento de solidão e de treva. Uma ideia consolava-o: àquela hora a linda baronesa tivera o livro, lera-o e palpitava de emoção, vendo que o simpático rapaz da estação de Ovar era um poeta! Esperava uma resposta, um bilhete-de-visita, uma flor seca dentro de um sobrescrito, um amo-te numa folha de papel perfumado. Nada veio. Das pessoas a quem ofertara o livro não recebera nenhuma palavra animadora. Carvalhosa nem lho agradecera; Meirinho dera-lhe no corredor um obrigadinho seco. O Padilhão dissera-lhe, do outro lado da mesa: — Lá recebi, está um volumezinho bonito.

Só Nazareno lhe dera uma opinião crítica: — Você tem a forma, agora é procurar a ideia. Compreende-se, num primeiro livro de poesia, o gênero lírico. Mas é necessário não repetir. Vítor Hugo fez as Orientais, uma composiçãozinha ridícula, mas tomou a sua desforra nos Châtiments. Agora é pôr de lado o amor e os lírios e falar-nos de coisas mais sérias. — E o artigo sobre o livro de Damião? Artur afirmava — segundo lhe dissera repetidamente Melchior — que o Saavedra o ia ler... Naturalmente publicava-se. Talvez saia amanhã, acrescentava. Ele veria. Mas o que realmente queria ver, todas as manhãs, o que ambicionava com palpitações do coração ao abrir o «Século», era o folhetim prometido sobre os Esmaltes. Não o encontrava. E vinha-lhe então uma grande irritação, por não ver o artigo do Matias sobre o livro de Damião. E era aquele o pretexto que tomava para se indignar contra Melchior, ir à redacção, e, ao princípio com modos tímidos, depois, mais secamente, lembrar-lhe «a sua palavra». — Oh, menino, o Saavedra lá tem o folhetim... Mas era necessário decidir, que diabo! — insistia ele, furioso contra Melchior, que, obtusamente, não compreendia que a promessa que ele verdadeiramente queria ver cumprida, não era sobre o livro do outro — bem lhe importava! — mas sobre o seu... Sobre o seu! Melchior, porém, compreendera: muito lealmente, tentara, numa noite de luta, produzir um folhetim sobre os Esmaltes e Jóias; chegara a obter meia coluna em que falava da «nitidez da edição e da grande inspiração». Mas faltavam quatro colunas e meia e nem duas chávenas de café, nem charutos fumados à janela com a testa à aragem da noite, nem pitadas de rapé para aliviar o cérebro, nem passeios furiosos pelo quarto, nem a cabeça apertada entre as mãos, como um limão a que se exige o sumo — nada forçara a sua vasta fronte calva, que parecia conter um mundo, a produzir uma linha mais! E desistira, furioso contra uma «tão extraordinária falta de veia». Artur agora subia quase todas as manhãs ao «Século», pretextando ir dar uma vista de olhos aos jornais: mas na sua presença, na sua voz, na maneira de se sentar, Melchior sentia errar uma vaga acusação — já o temia como a um credor.

— Amanhã, falo ao Saavedra — jurou-lhe um dia. E na manhã seguinte, vendo-o entrar, ergueu-se logo, e dizendo-lhe baixo que ia decidir a questão, foi bater discretamente com os nós dos dedos à portinha verde do gabinete do Sr. Diretor. — Entre! Melchior entrou, fazendo a Artur um gesto em que lhe prometia ser enérgico. Mas daí a momentos voltou e logo da porta abriu os braços, enterrando a cabeça nos ombros, exprimindo toda a sorte de impossibilidades. — Então? — perguntou Artur. — Diz que não! — fez o outro arregalando os olhos. — E levando-o para o vão da janela: — Não deu explicações, diz que não! É um livro comunista, cheio de horrores... O artigo do Matias também. Enfim, diz que não! Artur não pareceu muito irritado. Enrolava um cigarro com a cabeça baixa e de repente, um pouco vermelho, com a voz ligeira de quem se recorda de uma minudência: — É verdade, a propósito, e o folhetinzito sobre os Esmaltes? Melchior corou, mas não querendo confessar a sua miséria intelectual: — Que quer você, também diz que não! — Ora essa! — Falei-lhe — continuava o outro, com gestos desolados — é por causa da Ode à Liberdade, da Sátira à Sociedade: diz que não. O jornal está com o governo; se estivesse na oposição, então... Diz que não! — E baixando a voz: — Um asno! Artur galgou a Calçada do Correio, falando alto de indignação. Na sua necessidade de desabafar, de rugir, correu ao quarto de Nazareno. Não o encontrou. Então foi sentar-se para o Passeio, debaixo de uma árvore, e ali ficou ruminando a sua cólera. Uma grande doçura parecia cair do alto azul, puríssimo; o rumor da cidade chegava por fragmentos abafados, como se ficasse preso, enleado nas ramagens meio despidas. Um jardineiro regava. E na rua onde a areia reluzia ao sol tépido, duas crianças muito loiras corriam, vigiadas por uma inglesa vestida de Verão, de lunetas azuis, que lia num banco, com um King Charles no regaço. Mas

aquela paz de jardim burguês não o calmou. O mundo oficial, de que o «Século» era a expressão literária, parecia-lhe agora vil, de uma vileza pequena, piegas, com alguma coisa de senil e de estúpido: nunca se sentira tão decidido a servir as ideias de Nazareno! O seu livro, agora, repelido, ignorado da imprensa, parecia-lhe sublime. A recusa do Saavedra, atribuía-a à inveja, talvez à influência inimiga do Roma. E pensava em coisas vagas que faria, que escreveria, para provar a sua força, fazer sentir a importância do seu talento... Mas pouco a pouco, no amolecimento que lhe dava aquele tépido meio-dia de Inverno, veio-lhe como que a indefinida consciência da sua inabilidade para a luta: necessitaria ter uma amizade forte ou um amor inspirador, apoiar-se a alguma coisa de duradoiro, de consolador... O quê? E as duas crianças, correndo, brancas e cor-de-rosa, frescas como flores, apetitosas como frutas, dando-lhe vagos desejos de paternidade, fizeram-no pensar na família, numa casa bonita, toda sonora de risos de crianças, onde o frou-frou de um vestido pusesse no ar ambiente uma ternura subtil. Lembrou-lhe a filha do Carneiro. Pouh! Usava uma cuja postiça e nunca poderia compreender as necessidades do seu espírito, nem as belezas dos seus versos. Depois, a província aterrava-o. Mas Lisboa impacientava-o já. E vinhalhe como que uma desconsolação de tudo, uma sensação de mal-estar: bocejou enormemente, ergueu-se, foi arrastando os passos, enfastiado, até ao hotel. Já nem se sentia indignado contra o Saavedra, porque na sua natureza linfática, tudo se amolecia, fenecia depressa — indignação ou entusiasmo — como num ar sem oxigênio todas as plantas se estiolam. À noite, no Meirinho, contou tranquilamente a Nazareno a resposta do Saavedra. O republicano fez-se pálido de raiva e a sua indignação, exprimindo-se com violência, chegou a despertar, a aquecer de novo a cólera de Artur. Tudo provinha deles não terem um jornal... Um jornal fá-los-ia respeitados, temidos, dar-lhes-ia uma voz, uma posição... — E onde está o dinheiro? — exclamou Nazareno. Artur, pensando no seu conto de réis, lá na província, na burra do Carneiro, calou-se, encolhendo os ombros. Contou então ao Nazareno, como para o consolar e mostrar bem a sinceridade do seu

despeito, que o Saavedra recusara também a inserção de um folhetim sobre os Esmaltes. Nazareno, porém, não parecia a Artur bastante indignado: — Pois não lhe parece uma grande maroteira, Nazareno? O outro fez um vago gesto de assentimento e depois de uma pausa: — O Matias já folheou o seu volume. Acha-o muito erótico... Artur mordeu os lábios e voltou para o hotel desesperado com aquela opinião. Que entendia o parvo do Matias de versos e de estilos! Aquela tendência de querer reduzir toda a Arte, mesmo a Poesia, a um auxiliar subalterno de ambições políticas, parecia-lhe de espíritos estreitos, egoístas. E deitou-se descontente do Saavedra, do Matias, de Lisboa, de si, da vida. Acabava de almoçar na manhã seguinte, quando Melchior apareceu com uma face radiante. Atirou um número do «Século» para cima da mesa, exclamando: — Ora receba lá esse presentinho! Que surpresa! Era uma notícia, a primeira que dizia: «O ilustre autor dos Esmaltes e Jóias, que tanta sensação têm causado, o nosso prezado amigo Artur Corvelo, muito conhecido na nossa sociedade aristocrática onde as suas maneiras, o seu espírito, o tornam alvo das maiores atenções, tem enfim terminado o seu grande drama Amores de Poeta, que brevemente será representado num dos nossos primeiros teatros. O drama, que por alguns trechos que ouvimos nos parece primorosamente escrito, é um estudo de costumes da alta sociedade e por assim dizer um protesto contra as teorias subversivas, que, aqueles que em Portugal pretendem introduzir as ideias republicanas, espalham para destruir a família, a religião. a elegância e tudo o que constitui o patrimônio da gente bem-educada. Os Amores de Poeta são dedicados a um Augusto Personagem. O público espera ansiosamente este debute teatral do inspirado vate.» Artur, atônito, exclamou com os olhos muito abertos para Melchior: — Ora essa... Dedicado a um Augusto Personagem? — Hem! — exclamou o outro com triunfo. É bem jogada, hem? É um achado! É catita! Que lhe parece? Compusera aquela notícia sobre o drama para o consolar da perda do folhetim sobre os versos e, orgulhoso do «achado" — a ideia da oferta do drama ao Rei, ou à Rainha — repetia

com os olhos brilhantes: — É catita! É de chupeta! Artur, embaraçado, disse: — Mas não é verdade, homem! Pode-se supor que é o Rei. — Está claro que se supõe! Para isso é que eu escrevi! Faz um efeitarrão! — Mas se o Rei sabe... É abusar. O outro teve um grande movimento de ombros: — Ora sebo! Nem ele sabe, nem se importa! E se for necessário, você dedica-lho! Faz um efeitarrão... Não há empresário que o não queira levar... Artur, no meio da sua vaidade satisfeita, tinha uma vaga contrariedade. Que diriam os republicanos, vendo-o assim designado como «o menino-bonito» da alta sociedade, fazendo dedicatórias aos tiranos? Torceu o bigode, parecia assustado. — Ainda você não está contente! — exclamou Melchior, despeitado daquele acolhimento cheio de embaraço a uma local que devia ser recebida com exclamações vitoriosas. Artur disse: — Não, estou. Estou penhorado, Melchior, mas... — Mas quê, com mil-diabos! E esta? — É que tenho amigos... O Nazareno, o Matias... Parece uma traição... A face de Melchior tornou-se grave: — Você vai por um mau caminho, Artur. — E sem o deixar falar, com uma verbosidade repentina, continuou: — Você se se mete com essa gente está perdido. Eu conheço Lisboa. São muito malvistos. Se você quer furar e que se fale de si, que se lhe represente o drama e tratar com gente fina, deve deixar essa cambada. Que é que eles lhe podem dar? Divertimentos? Onde?... Empregos? Que é deles?... Posição? Nicles! Levá-lo à sociedade? Olha quem, os pelintras! Então para quê? Você pode aspirar a muito: é o que diz o Saavedra. Mas é necessário estar com a gente decente. Veja você: por que não apanhou você o folhetim no «Século»? Por causa dessas histórias de Odes à Liberdade, e Marselhesas e toda essa

choldra! Você tem dinheiro, não é verdade? Para que se há-de meter com maltrapilhos? O que eles querem é explorá-lo, homem! Artur escutava-o, abalado. — E além disso — ia dizendo Melchior... Um criado entrou com uma carta para Artur. Era um simples cartão-de-visita: D. JOANA CÂNDIDA DE MENESES COUTINHO a agradecer o delicioso volume de versos. Um rubor de orgulho espalhou-se-lhe no rosto. Estendeu o cartão a Melchior, que exclamou com o ímpeto alegre de quem, combatendo, se apossa de uma arma nova: — Aí tem você! Vê? Se ela soubesse que você pertence à canalha do Matias, recambiava-lhe o livro, tão certo como eu estar aqui. — Foi muito amável — disse Artur, relendo as palavras escritas no cartão. E revia a sala de D. Joana Coutinho, as toilettes de seda, os homens de casaca: ali apreciava-se a poesia amorosa, elegante — e pensava em Nazareno, habitando num quinto andar, com uma sobrecasaca coçada, relações pulhas, os dedos queimados do cigarro e hostil ao lirismo. E aquele simples agradecimento de D. Joana aparecia-lhe como uma porta que se abria sobre a Sociedade e de onde saiam aquelas emanações de luxo, de amores patrícios, de graças femininas que intimamente o cativavam sempre. O Melchior, que diabo, tinha talvez. razão. Disse-lho. — Está claro que tenho! — E retorcendo o bigode aproximou-se da varanda. Mas teve logo uma exclamação e com um grande gesto para Artur: — Pst! Venha cá, homem, venha depressa! Artur correu: viu apenas uma tipóia que descia o Chiado a trote largo, com duas cabeças cobertas de mantilhas à espanhola. — Era a Concha — fez Melchior, dando uma punhada no peitoril da varanda. — Que linda que ia! E a Paca... Oh, menino! — E exaltado: — Quer você uma coisa? Vamos ao Clube com elas. Hem? E brilhavam-lhe os olhos. Artur teve um ímpeto de mocidade, de ardor; disse vivamente:

— Valeu! — Caramba! — fez o outro. E decerto para se preparar à excitação nocturna, reclamou uma gotinha de cognac. O mesmo criado entrou com outra carta para Artur. — E o dia das cartas — disse ele, com uma vaidadezinha. E de repente, teve a ideia, pela letra que não conhecia, que era da baronesa: a alegria das suas feições foi tão clara que Melchior perguntou, com os olhinhos vivos: — Cartinha de amor? Era de Nazareno. Dizia que ao outro dia, às 9 horas da noite, Matias lia o seu grande trabalho. «Sem falta, caro concidadão!» Artur meteu a carta no bolso afectando discrição. — Rendez-vouzinho, hem? — fez Melchior, já invejoso. Artur julgou não mentir, dizendo: — Rendez-vouzinho, para amanhã! — Seu felizão! — fez o outro. — E para ocultar o despeito, emborcou o cálice de cognac com o seu chic especial, atirando-o de um golpe para as goelas. Estalou com a língua e pousando o copo: — Hoje andaluza, amanhã baronesa! Veja se a república lhe dá dessas pechinchas! E Artur sorria, torcendo com fatuidade o bigode. Partiram às nove horas, numa caleche descoberta: levavam a Concha e a Carmen. Melchior que parecia entusiasmado, mandara o Teso bater pelo Chiado e direito no assento, com o chapéu ao lado, o charuto flamejante, atirava adeuses com a ponta dos dedos para os grupos escuros da Havanesa e do Baltreschi. Artur, um pouco embaraçado, encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez mais mimosa, mais tocante, ao seu rosto de feições finas, de um tom melancólico; os seus olhos árabes, húmidos, bem rasgados, tinham na sombra uma negrura mais profunda; recostava-se com um abandono lânguido mas senhoril, retraindo castamente os pezinhos para não encontrar as botas de Artur. Logo no Aterro, Melchior começou com as suas pilhérias: fazia declarações inflamadas à Carmen —

uma grossa andaluza, de grandes carnes e olhos banhados num fluido negro como tinta — beijocava-lhe as mãos papudas, chamava-lhe num espanhol grotesco: mi palomba, flor de benediccion!... remexia-lhe no vestido, atraía-a pelos braços, fazendo-a rir, de um riso cálido de cócegas e de pândega. Para lhe imitar a animação, Artur quis tomar desajeitadamente as mãos da Concha, mas ela, com dignidade, censurando decerto as expansões públicas de concupiscência, retirou-as brandamente. Aquela frieza chocou Artur: desesperava-se por não poder falar espanhol e cativá-la com a eloquência da fraseologia poética. Então recostou-se, calado, a olhar a noite: uma doçura infinita errava no ar que tinha uma vaga cor de anil deslavado; brancuras de luar banhavam pedaços de fachadas; e a tipóia corria a trote, com o Teso muito direito na almofada, de cabeça baixa, o pingalim alto, as pontas da faixa a esvoaçar, batendo no seu estilo catita. — Então isto não é melhor que todas as soirées do High-Life? — disse Melchior. – E em passando as portas, salta a bela malagueña! E aconselhava Artur a que se atirasse à Concha e «que se pusesse à altura das circunstâncias», que isto de pândega sem animação era dinheiro deitado à rua! — Eh, Teso, é bater! é bater! Tinham passado Pedrouços, adormecido e escuro, e a Carmen, muito solicitada, entoou a sua malagueña: Melchior, mascando o charuto com entusiasmo, seguia o compasso, saracoteando a cintura e fazia o acompanhamento, batendo as mãos em cadência. A voz da rapariga era acre e mordente e as notas arrastadas, os á-á-áhs muito modulados, perdiam-se pela noite, misturados ao trotar batido das ferraduras, ao rodar da tipóia no areado do macadame. No alto silêncio azulado brilhava uma Lua imóvel, muito serena, e um ar vivo passava, salgado das emanações do rio. Artur sentiu um fluxo de ternura triste, de enleio poético afogar-lhe o peito e recostando a cabeça, suspirou. Então, muito terna, a Concha debruçou-se para ele, e, chamando-lhe Hijo mio, quis saber o que o fazia sofrer. Ele carregou a voz de ternura, para dizer: nada! Ela apertou-lhe a mão docemente — e Artur não duvidou do seu amor. Mas Melchior tinha entoado o fado: fazia uma voz especial, estrangulada, do nariz,

rouquenha, afadistada: Eu fui um dia ao Dafundo, Ai! Em companhia do Amore!... Mas interrompeu-se: o fado sem guitarra não ia. No Clube é que haviam de cantar, se lá estivesse o Zé das Três. Artur é que havia de ver! Era de chorar! E declarou que tinha fome. Também, iam fazer uma ceia real! Abraçou os joelhos da Carmen, que dava gritinhos, e, para animar o Teso, aconselhou Artur a que lhe desse um charuto. Chamava-lhe o Tesinho. — Tenho feito muitas pândegas com ele. Não é verdade, ó Tesinho? Hem? No tempo do Sr. Visconde. Hem? — Viva o salero! Lhegamos, niñas! Estavam com efeito diante do hotel do Clube. Melchior saltou vivamente — mas ficou à portinhola, escutando, petrificado: do hotel saíam gritos de mulheres, uma luz corria no primeiro andar. — Temos chinfrim — disse o Teso, atirando a manta às ancas dos cavalos. As raparigas tinham descido, já assustadas; contudo entraram. No corredor, um homem cruzou-os, correndo, com uma toalha e uma bacia na mão; uma mulher, de saia muito engomada, passou aos gemidos, aos ais! E Artur, com a Concha muito trêmula agarrando-selhe ao braço, Melchior, pálido, um pouco encolhido atrás da Carmen, dirigiram-se à sala da esquerda, alumiada, de onde saíam os choros dilacerantes de uma mulher rouca. Junto da mesa, um homem, com o busto todo nu, o rosto lívido, os cabelos empastados num suor frio, erguia ao ar o braço direito, todo coberto de uma pasta de sangue escuro que gotejava devagar: o chão estava encharcado de uma humidade negra. Sobre a toalha da mesa, repuxada a um canto, negra de vinho entornado, estavam pratos quebrados, estilhaços de copos, e uma rapariga que duas mulheres acalmavam, seguravam, chorava convulsivamente, arrepelando-se, com os olhos esgazeados, a face manchada de vermelho. Um indivíduo gordo e calvo, de ar importante, procurava vedar o sangue, mas a toalha enrolada ensopava-se depressa: as carnes estavam dilaceradas por facadas transversais e apenas lavado com muita

água, o sangue recomeçava a correr, caindo em gotas pesadas. O rapaz imóvel, mudo, corajoso, perdia a cor; os olhos embaciavam-se-lhe. Todos os rostos estavam amarelos de terror: perguntava-se baixo pelo médico; uma criada, toda esguedelhada, esfregava o chão; e o dono do hotel, em mangas de camisa, as calças muito erguidas pelos suspensórios, ia pedindo que «se retirassem, que não fizessem barulho», afirmando «que não era nada, que fora por acaso», seguido da mulher, que, de peitos à mostra, em camisa de dormir, procurava acalmar uma criança estremunhada que se torcia, aos berros. Melchior, muito branco, quis partir imediatamente; nem deixou o Teso dar uma sopa ao gado: empurrou à pressa as espanholas para dentro da caleche, subiu, e fechou rapidamente a portinhola, como para se refugiar na tipóia, trêmulo, cheio do terror das desordens, dos fadistas, da polícia e do sangue. — Isto só a nós! — disse ele a Artur. — Declarou que tinha tonturas: — Vá, Teso, é largar. E largar, que diabo! A volta para Lisboa foi lúgubre: as raparigas falavam baixo, tomadas de um vago terror; tinham reconhecido o rapaz — era o Álvaro, o querido da Adelaide, da Rua do Norte. Fora questão de ciúmes, decerto; e gabavam-lhe a coragem, a brancura da pele, vagamente enamoradas dele. Melchior, mudo como uma estátua, sem veia, torcendo nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, no susto de assaltos possíveis, apressando o Teso, ávido de se encontrar em Lisboa, no sossego das ruas populosas, sob a proteção da patrulha. Só começou a tranquilizar-se quando a tipóia rolou pela Rua do Ouro. Era uma pândega estragada! E deblaterava agora contra tudo o que até aí fora celebrando: os fadistas, a solidão do Clube e as relações de prostitutas. Foram cear ao Silva. E aí, bem seguro dentro das quatro paredes do gabinete, à luz quente do gás, recobrada a loquacidade, contou outras desordens a que assistira, a maneira como salvara o célebre Viola de uma facada do Rei de Copas, e os abas que tinha esbofeteado. Estimava agora ter visto aquele chinfrim e foi à sala procurar pessoas conhecidas a quem repetia prolixamente «o caso», assegurando que se não fosse ele, o pobre diabo escoava-se em sangue.

No entanto, no gabinete, esperando as ostras, Artur revirava olhos ternos para a Concha, construindo laboriosamente frases espanholas: e para lhe dar uma alta ideia do seu valor, recitava-lhe ardentemente dois versos de Espronceda que sabia de cor: Porque vuelve a la memoria mia Triste recuerdo del plácer perdido? Ao outro dia, quando às 10 horas da manhã entrou no hotel para mudar de roupa, vinha enamorado da Concha. Na intimidade da alcova, ela contara-lhe a sua vida. Não era filha de um general — segundo a versão de Melchior — mas seu pai, cunhado de um capitão, negociava honestamente em vinhos, numa localidade que ela não quis revelar. Seduzida — inocente que era então! — pelo filho de um marquês, fora esconder a sua glória e a sua vergonha num terceiro andar da melancólica Rua de S. Juan de Dios, em Madrid. O seu amante, cujo título era confuso, ora conde, ora simplesmente visconde, era um carlista fanático, que se alistara nos bandos de Saballo e morrera junto a Estela, num encontro de cavalaria. Ela — pobrecita! — só, miserável, depois de ter empenhado uma por uma todas as suas ricas jóias — rubis, pérolas, diamantes, que o carlista lhe dera com uma profusão de Grande de Espanha, vira-se forçada — ah, bem forçada — a aceitar o amor de um diretor de caminho-de-ferro, um primeiro andar em Fuencarral e um coche. Este coche parecia ser a glória eminente do seu passado: fazia-o rolar constantemente através da sua história — ora vitória aberta aos tépidos aromas dos arbustos do Retiro, ora cupé acetinado, correndo silenciosamente sobre a neve da Fuente — puxado por um cavalo branco que se chamava Miramolinos... Mas os ciúmes ferozes do diretor de caminhos— de-ferro, a sua bengala tão dura aos pobres ombros tenros, obrigaram-na um dia a vir refugiar-se em Lisboa, com o «vestidinho que trazia no corpo», numa casa amigável e hospitaleira da Rua de S. Roque... Mui desgraciada! Depois, falara mais particularmente dos seus sentimentos. Dizia-se simples como uma criança, amorável como uma pomba. Para ela, luxos, teatros, toilettes, pouh! eram misérias! O

seu ideal era ter uma casita sua e um homem novo que a estimasse e a tratasse como uma senhora. Ela mesma coseria os seus vestidos e era fácil de alimentar como um passarinho! Alguns gravanços, muita ternura — e era feliz! Ia revelando estes pormenores do seu passado e do seu carácter, ao mesmo tempo que se despia e mostrava as belezas da sua nudez. As suas desgraças davam um encanto tocante às suas formas; havia como uma harmonia entre as fragilidades sentimentais de sua alma e a delicadeza fina das suas linhas. Artur escutava-a, fascinado pela sua pele e enternecido pela sua biografia, cheio de ardores libidinosos e de piedades cristãs! E enquanto ela punha devagar pó-de-arroz ao espelho, com o peitinho ao léu onde corriam veias azuis de uma doçura aristocrática, Artur, em redor, de olho aceso e imaginação cativada, impacientava-se no desejo de a possuir e comovia-se à ideia de a regenerar! Depois, alta noite, ela fez novas revelações sobre o diretor de caminho-de-ferro. Era um monstro que lhe puxava pelos cabelos, a amarrava por um tornozelo ao pé de um buffet e a deixava assim, como uma cabra presa a uma estaca, com um copo de água e caramelos... Até uma vizinha, D. Angélica Lorenzo, chorava todas as lágrimas dos seus olhos... Artur torcia-se, tomado de um ódio infernal pelo diretor de los Ferrocarriles. — Mas por que era ele assim, esse bruto? Ela suspirou e revelou-lhe ao ouvido, que «era por ser fria com ele»... Mas então — com homens de quem não gostava, não podia ser senão fria. E dava-lhe assim a entender que a exaltação voluptuosa que mostrara era uma certeza do seu amor por ele. Àquela revelação, Artur, apertando-a doidamente nos braços, jurou-lhe que a amava e que a faria feliz: prometeu-lhe que voltaria essa noite mesmo — e que lhe traria uma sombrinha cor de peito de rola, que ela vira no Valente e lhe tirava o sono. Todo o dia, passou-o saboreando, ruminando as felicidades da noite. Sempre, desde Coimbra, desde as suas leituras de Musset, as Andaluzas — les Andalouses aux seins brunis — se tinham conservado para ele como um ideal de voluptuosidade; e a posse de uma, enfim, e tão tocante, tão infeliz, tão ingênua, tão aristocrática, dava-lhe como que o orgulho de uma iniciação. Comprou-lhe a sombrinha e dois pares de luvas — desejaria dar-lhe diamantes,

como um devoto que orna um ídolo. E ia pelas ruas com um vago sorriso beato, o corpo lasso, a alma suavemente enternecida, pensando nela, parecendo-lhe que a cidade tinha uma elegância mais amorosa, que o céu era mais azul, e respirando com languidez alguma coisa de romântico e de triste que lhe parecia errar subtilmente no ar. Pensou mesmo com tédio no Clube Democrático, onde tinha de ir nessa noite; julgava bem secante o aparato maçador de uma sessão republicana — agora que só respirava bem no ar abafado do quartito da Concha. E como quis ir vê-la, beijá-la depois do jantar, eram quase dez horas quando chegou ao Clube. No meio de um silêncio grave, Matias acabava de ler o seu grande escrito — O Programa de Organização Democrática. Como todas as cadeiras estavam ocupadas, Artur, um pouco acanhado, ficou de pé, encostado à parede. A sala estava quente das respirações e da intensa atenção apaixonada. Matias parecia pálido de fadiga: a sua voz seca, lenta, tinha agora, lendo a peroração, um vigor exaltante e em todas as fisionomias, nas atitudes, havia a animação satisfeita de quem respira um ar regenerador. A primeira parte da leitura fora um libelo amargo contra o Regime Constitucional, deduzido por factos e cifras, e que regozijara todos os descontentamentos como a expressão bem clara de ódios indefinidos; depois, a parte prática do programa, mostrando os meios de estabelecer a República, apaziguara enfim os ambiciosos, que, até aí, no Clube, só tinham escutado uma vaga fraseologia balançando-se ao acaso; finalmente, a peroração, as grandes frases, com apelos à Justiça e invocações à Liberdade, electrizava os mais obtusos, como uma bela rajada de instrumentação. Todos pareciam compreender, querer, sentir: Artur desconhecia aqueles rostos que vira vazios e aparvalhados e que encontrava agora expressivos e determinados; e ele mesmo se sentiu vibrar, em harmonia com a eloquência revolucionária daquela prosa elevada — quando Matias terminou com uma larga apóstrofe à República Universal! Os bravos! romperam; um brouhaha animado elevou-se; e então, no rumor, Artur viu o Malaquias, o homem sujo e amarelo, que falava voltado para o secretário, agitando um jornal.

— Peço a palavra, peço a palavra! — exclamava. Erguera-se e ia falando baixo a uns e outros com grandes gestos dos seus braços magros. Alguns olhares voltavam-se vivamente para Artur e três sujeitos cochichavam com Nazareno, que parecia mais pálido e muito excitado. — Peço a palavra! — bradou o Malaquias, brandindo o jornal. A campainha retiniu e subitamente cavou-se um silêncio disciplinado. Malaquias então olhou em redor com triunfo: a sua larga boca fendida alargava-se mais num sorriso perverso e acariciava o queixo com os dedos magros, como que ruminando um gozo íntimo. Depois de bambolear a cabeça, começou a dizer na sua voz mastigada e aguda, que, antes de discutir o profundo trabalho que todos acabavam de ouvir com admiração — o Matias fez uma grande cortesia — era do seu dever, do dever de todos — e curvava-se respeitosamente para os lados — proceder a um ato de justiça. Quando ele, na última sessão, exigira garantias para os novos membros admitidos, por exemplo o juramento, bem sabia o que dizia... — Bem sabia o que dizia! Eu não sou nenhum tolo! — e agitava os braços, esganiçando a voz. — Mas os mestres... — e com a boca arreganhada, baixava a cabeça humilhando-se ironicamente: — Mas os mestres... E aí têm o resultado! Eu não quero fazer verrinas, mas se me dão licença, sempre lhes passo a ler o que se diz num jornal, a respeito de um certo membro ultimamente admitido e os cidadãos verão o que convém fazer! Artur sentira uma pancada no coração: no jornal que Malaquias brandia reconhecera, aterrado, o «Século»! Olhares indignados fitavam-no, e o silêncio era tão grande que se ouvia vagamente, por momentos, na cervejaria próxima, as agudezas de uma rabeca com acompanhamento de harpa, tocando o can-can da Bela Helena. O Malaquias, então, desdobrou o jornal devagar, com solenidade, pigarreou e disse:— Ora escutem os senhores este mimo: «O ilustre autor dos Esmaltes e Jóias, que tanta sensação tem causado, o nosso amigo Artur Corvelo...». Santo Deus! Era a notícia do Melchior...

Quis interromper, explicar, mas a língua pesava-lhe como um pedaço de chumbo; olhava ansiosamente para uns, para outros, procurando uma proteção: mas só via faces duras, vagamente enfatuadas de serem chamadas a sentenciar. O Malaquias ia lendo lentamente, sublinhando com malignidade, pondo intenções profundas, mesmo nas vírgulas. A frase em que os Amores de Poeta eram designados como um protesto contra as ideias republicanas foi seguida de exclamações indignadas! Uma voz soltou: — Oh! que maroteira Artur pensava em fugir, abalar pela escada abaixo, quando o Malaquias, voltando-se para ele com olhos arregalados de triunfo, o braço acusador, leu com ênfase: «os Amores de Poeta, são dedicados a um Augusto Personagem!» Então um rumor de cólera correu pelas cadeiras. Havia interjeições de desprezo, risadas de piedade; alguns, mais escandalizados, voltavam-se para Artur, ameaçadores. E Matias, imóvel, tomava um aspecto rígido, à Fouquier-Tinville, de juiz de onde sai a morte. Malaquias elevou a voz aguda: — Eu, agora, só pergunto se o Sr. Corvelo pode continuar a fazer parte do Clube! — Não! Não! — berraram. — Eu só quero saber se um homem que frequenta os salões, e dedica aos tiranos... — Não! Não! Fora! Malaquias voltara-se para Nazareno: — E o Sr. Jácome, que foi... Mas Jácome estava já de pé, terrível, pálido da raiva. E com uma vivacidade estridente: — Meus senhores, eu só esta noite li esse jornal! Meus senhores, eu fui enganado na minha boa-fé! — E batia desesperadamente no peito. — Acolhi como um amigo, quem era apenas um espião... Artur, lívido, com um suor frio nos cabelos, trêmulo como uma vara verde, estendia os braços, e numa voz estrangulada: — Eu peço para me explicar. Vossas Excelências... — Nada de Excelências! — berraram-lhe.

— Os senhores podem estar certos que eu não sabia da notícia... Não é verdade... O Jácome gritou, mostrando-lhe o punho: — Mente! — E voltando-se para Matias: — Esse homem declarou-me há dias que era íntimo dos redactores do «Século»... Eu dei-lhe um artigo sobre o livro do Damião, para ele obter a publicação... Era uma pura questão literária... nada de política... Esse senhor veio-me dizer que o artigo não saía porque o diretor do jornal o achava cheio de ideias revolucionárias, quando é evidente, agora, que foi ele quem impediu a publicação... — Juro! — bradou Artur. — Mente! — gritou Nazareno, batendo violentamente com o pé. — O juramento conta pouco para os traidores. Veio aqui espiar... E eu que o apresentei, confessando o meu erro, peço a expulsão desse homem! Soaram apoiados! frenéticos, de uma cólera comunicada. O Matias fez retinir a campainha e no silêncio profundo, ouviu-se de novo, em baixo, as vagas arcadas da rabeca. — Convido o Sr. Artur Corvelo — disse Matias com solenidade — a sair imediatamente da sala! — Fora! Fora! Artur, desorientado, deixara cair o chapéu: um pontapé arremessou-lho contra a parede; agachou-se para o apanhar; um assobio silvou e o homem ascético, erguendo-se, gritou-lhe uniu ímpeto à Mirabeau: — E diga lá ao Augusto Personagem que o mandou, que nós aqui estamos, sem medo, a preparar o dia da Justiça! — Bravo! Bravo! Vozes trocistas ganiam injúrias: — Recados ao Augusto Personagem! — Lamba-lhe as botas! A campainha do Matias retiniu, zelosa da gravidade democrática. E Artur, aturdido, como ébrio, com as faces a estalar, achou-se na escada escura, aos tropeções pelos degraus; e através dos zumbidos nos ouvidos, as agudezas da rabeca perseguiam-no com motivos

estridentes da Filha de Madame Angot. Nessa noite, a Concha, acordando, não o encontrou ao seu lado: saltou da cama em camisa e à luz mórbida da lamparina, viu-o no sofá de cima, abatido, com a face enterrada nas mãos. — Que tinha? Que era? Tanto carinho abalou-o, enterneceu-o e numa explosão de sensibilidade: — Amas-me, querida? Se o amava!... Abraçou-se a ela, sepultou o rosto no seu peitinho, entre as rendas da camisa, como num derradeiro refúgio e jurou-lhe que daí por diante, viveriam sempre juntos! Tomara aquela resolução sobretudo por desespero: sentia-se como um homem que em torno de si só vê portas baterem-lhe violentamente na cara. A Sociedade desdenhava-o, a Democracia expulsava-o, o Público desprezava o seu livro, a Literatura repelia-o, o Amor ideal fugia-lhe. Só aquela doce rapariga o acolhera com dedicação e sinceridade! Pois bem, recompensaria tanto afecto: dar-lhe-ia a casita sossegada que ela ambicionava, um amor poético e moço, toilettes, a consideração de esposa. Que lhe importava a Sra.ª Baronesa da Rua de S. Bento? Nem uma palavra respondera ao livro enviado com um amor tão discreto! E quase a detestava por fazer parte daquele mundo egoísta, seco, artificial, que na sala de D. Joana Coutinho lhe dera olhares de lado, que não comprava o seu livro, que o não reconhecia como um «grande homem»... E os republicanos? — Idiotas! Cretinos! Odiava-os agora. E depois de tanta injustiça, de tanta hostilidade, o amor da Concha, na sua sinceridade fácil, parecia-lhe delicioso, digno de dominar a sua vida. Instalar-se-ia confortavelmente com ela: mandaria ao diabo as vaidades da Sociedade e as ambições de Justiça! Estava desiludido! A lição fora formidável; daí por diante, só acreditaria nas felicidades da carne — comer bem, rolar nas boas molas de uma tipóia, possuir as belezas de uma andaluza! E o mais — à tábua! Melchior, consultado ao outro dia na redacção do «Século», aprovou ruidosamente estas resoluções. Até que enfim o Artur tinha juízo! Essas coisas de sociedade, de literatura, eram

histórias! Gastar o dinheiro com uma bela rapariga, isso entende-se. Ao menos goza o seu dinheiro! Artur não lhe revelara o desastre do Clube. Mas dissera-lhe, ao conversarem sobre o plano de concubinagem com a Concha: — Oiça lá outra coisa: estou com vontade de escrever um folhetim a dar uma desanda nas republicanos! Melchior ficou atônito: — Por quê? Artur hesitou: — E que, agora que os conheço melhor, está-me a parecer que são uma súcia de patifes... Melchior fitou-o: — Pilharam-lhe dinheiro! — exclamou radiante. Artur, por vingança, tendo de dar a Melchior uma explicação daquele ódio tão súbito, disse vagamente: — Fizeram-me uma porcaria... — Calotezinho? Que lhe dizia eu! Uma canalha! E soma grossa? Por um resto de honestidade, Artur disse, corando: — Não falemos mais nisso. Mas Melchior falou e certo agora do apoio de Artur, deblaterou contra «aquela corja». — Mas por que os detesta você tanto, Melchior? Melchior fez-se grave, afectou preocupações políticas, resmungou: questões de princípios! — mas de um modo tão ambíguo que Artur suspeitou de ódios pessoais naquela indignação filosófica, e lembrando-se agora vagamente de ter ouvido a história de uma «coça» que outrora o Nazareno dera no robusto Melchior em pleno Martinho. Insistiu então em publicar uma desanda no Clube Democrático. Mas Melchior coçou a cabeça, deu alguns passos pela saleta, com as mãos enterradas nas algibeiras:

— Você bem vê, homem, o jornal é muito sério. Não queremos discussões com essa gente. Fingimos que não sabemos que existem. Que diabo! E depois são doidos. São capazes de vir tomar satisfações, e eu sou obrigado a quebrar-lhes a cara. Que lha quebro! Se lha quebro! Quebro-lha tão certo como estarmos aqui! Mas enfim, você compreende, sempre é desagradável! Artur irritava-se de se ver privado daquela desforra. Pensava que o Melchior, que provocara o insulto do Clube com a sua estúpida notícia, devia agora facilitar-lhe a vingança. Teria mesmo rompido com ele, se lhe não fosse necessário para a representação do drama e para futuras locais; além disso, a Concha morria-se por ele: Melchior adulava-a, fazia-a rir, ensinava-a a tocar guitarra; ela chamava-lhe, rindo: mi abuelo, e Artur contava, quando vivesse com a Concha, tê-lo por confidente, cortesão, amigo, dependente e bobo. Foi por conselho de Melchior que se decidiu a ir viver com a rapariga para o Hotel Espanhol. Era a instalação mais pronta e evitava os embaraços de criadas, cozinheira, etc. E depois, é divertido, tinha dito Melchior. Sem contar que é mais chic! A Concha ficara enlevada com este plano e daí a dois dias Artur despediu-se do Universal. Quando, feita a mala, olhou em redor, pela última vez, aquele quarto de reps azul que lhe dera tantas satisfações de vaidade, onde se criara tantas ilusões, sentiu uma comoção. Teve saudades do criado, um velho muito trigueiro que o servia. Quis tornar a ver a sala de jantar que lhe agradava tanto, quando, depois do almoço, soprava à varanda cheia do bom sol de Inverno, o fumo do seu charuto caro, ouvindo ao lado os tlim-tlins da loiça e em baixo o Chiado, no seu rumor de vida rica. No corredor, encontrou Carvalhosa: — Então o amigo deixa-nos? Artur, lisonjeado, apressou-se a dizer: — Oh, por poucos dias! — Não morreremos de dor! — rosnou o outro com um aceno negligente de cabeça. Artur sentiu uma cólera congestioná-lo. Canalha! pensou — e desceu com pressa, ávido

do Espanhol e das suas delícias. — E para onde quer que mande as cartas, se houver? — perguntou-lhe o porteiro, contente da espórtula. Artur, com uma vaga esperança que a baronesa ainda respondesse — pediu que lhas guardassem. E para se dar importância, mesmo diante do porteiro, acrescentou com mistério: — Mas muito secretamente! Que ninguém veja! O seu baú, o seu saco de noite, já estavam na tipóia. E ao fechar a portinhola, mandou bater para o Rossio — porque, por vaidade, não quis fazer conhecer diante do porteiro que mudava para o Espanhol. O trem rolou, e Artur, com um olhar para as varandas do hotel, murmurou sentimentalmente: — É outra página da minha vida que se volta... Avante! Foi nessa noite com Melchior buscar a Concha. As companheiras estavam na sala, em redor dela, como uma família em torno da noiva numa manhã nupcial. A governanta, que se declarou comovida, levou Artur para um quarto e ali, durante vinte minutos, foi-lhe mostrando as dívidas da Concha: contas do cabeleireiro, da lavandaria, do sapateiro... Artur, aturdido, assustado, impaciente, pagava — sentindo fora os gritinhos cálidos das pequenas que Melchior beliscava. Enfim, voltou à sala, e os adeuses começaram. A Lola, íntima amiga da Concha, rompeu num choro exagerado, desproporcional, que irritou a governanta, descontente que ela «estivesse a fazer-se feia, com tanta lágrima». Depois, a Concha quis ir à cozinha, despedir-se do cozinheiro «que era de su pueblo» e de outra rapariga que estava em cima, no segundo andar, doente de um furúnculo. Voltou com os olhos vermelhos, Melchior troçava-a, contorcendo-se em prantos cômicos. Elas chamavam-lhe perdido, bandido! Todas vieram ao patamar: os beijos, os abraços, os segredinhos, o chalrar das vozes já impacientavam Artur — e a Concha, arrancando-se àquelas expansões de despedida, desceu finalmente. Mas as vozes agudas seguiam-na pela escada. Ela respondia: era um chilrear de passarada. — Adios, hija!

— Adios, Lolita! — De usted expreciones a Pancho! — Que se le vea a usted, Arturito! — Carmita, hila, que no se haga usted olvi dada! — Adios! adios! Melchior rompeu adiante, o chapéu para a nuca, radioso, faceto, cantando o coro nupcial da Lúcia. E Artur, atrás, descia com a Concha pelo braço, um triunfo de noivo pela alma, o olho brilhante, o peito alto — na posse, enfim, da sua andaluza!

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