Capítulo IX A Capital · Capítulo 9 de 10
Obra Menu

Capítulo IX

Para se consolarem, nessa noite, foram jantar ao Hotel Central: estavam taciturnos. Artur mal comia e pareceu-lhe mesmo um espectáculo grosseiro e indigno da sua melancolia, o deleite muito expansivo com que Melchior devorou, repetiu o Jambon de York aux épinards. E todavia Melchior estivera lúgubre toda a tarde na redacção, soltando de vez em quando suspiros estrondosos que divertiam o Esteves, e não pudera produzir uma só local, apesar de esforços de parturiente: de facto, o Jambon de York era a sua primeira consolação nesse dia. E limpando os beiços, murmurou ao ouvido de Artur: — Parece-me que merecemos uma garrafinha de Borgonha. Artur consentiu com um gesto indiferente. Parecia-lhe que uma névoa imponderável, parda e funerária cobria as coisas e as fisionomias, e numa grande lassidão do cérebro, via constantemente diante de si formas fragmentadas da Concha ou objectos pertencente à Concha ou sítios e situações, que atravessara com ela. Era um trabalho de reminiscência saudosa, em que procurava reviver as alegrias que perdera; tinha nos membros molezas de noites mal dormidas e na alma uma sensação de vexame; vinham-lhe de repente, como faíscas, ódios sanguinários ao Manolo. Os seus vagos suspiros reprimidos tinham já feito voltar a cabeça a um alemão, de pincenez e barbas doutorais, que, ao seu lado, descascava uma banana com método. Como a noite estava de luar, saíram depois do café: seguiram, sem destino, ao longo do Aterro. — E amanhã é Domingo Gordo!... — rosnou Melchior com um furor sombrio. — Domingo Gordo... — murmurou Artur com tristeza. Outros Entrudos antigos, em Coimbra, passaram-lhe na memória, tão alegres, com as tardes da Sofia, cheias de batinas de onde saem de repente os esguichos de uma grande seringa de latão! E os guinchos divertidos, as lutas de ovos, as quadrilhas à noite no Teatro D. Luís, e os grogues, as felicidades!...

Esperava tanto divertir-se, aquele Entrudo, com a Concha! — Uma partida assim! — murmurou. Imediatamente Melchior enfureceu-se. E de quem era a culpa? Para que tinha metido o espanhol de portas adentro? — Quem podia adivinhar! — Quem podia adivinhar? — exclamou Melchior com tanta ira que Artur recuou, temendo uma violência: — Bastava ter olhos! Para que estava o desavergonhado do andaluz sempre metido no quarto? Mas você, com a sua boa-fé de Oliveira de Azeméis!... E necessário conhecer Lisboa! E necessário ter olho! — E repuxando com um dedo a pele da face, esgazeava a órbita, junto à cara de Artur, de um modo medonho. Rompeu então em impropérios contra a Concha. Era uma bêbeda! Tinha os vícios mais nojentos. Cada palavra que dizia era uma mentira vil. Pregava daqueles calotes a toda a gente. Era baixa de natureza. Fazia-se passar pela filha de um negociante... Não estava mau, o negociante! O pai era um trapeiro de Madrid, e ela fora, desde os doze anos, das que andam pela Puerta del Sol a chamar os soldados para o vão das portas! E tinha dado uma doença asquerosa ao conde de Vila Rica, pobre velho! Artur revoltou-se. Era mentira! Melchior escandalizou-se: fez revelações, citou nomes, datas, sítios; e como um homem que vê sobrenadar sujidades nas águas de um enxurro, Artur viu passar na verbosidade do localista todas as infâmias da Concha. Parecia-lhe incrível! — Porque me não disse você? — Eu não sou acusa-cristos... E então injuriou o Manolo: se o tivesse ali, fazia-o em pedacinhos! E como o Borgonha lhe exaltara a loquacidade, atirando o chapéu para a nuca, estendeu o seu ódio pelo espanhol a toda a Espanha; cobriu de vitupérios essa nação ilustre — que era um covil de pulhas! Bastava só olhar-lhes para as finanças, os caloteiros! E a administração? Uma ladroeira! E o exército? Uma cobardia indecente! E ainda se falava em União Ibérica! Que viessem para ele! Calou-se um momento e brandindo a bengala para o céu:

— Ah! se eu torno a acreditar em mulheres! Artur ficou petrificado. Que lhe tinha ela prometido ou jurado, então? E viu de repente na cólera do Melchior, não o interesse do amigo, mas o despeito do amante. O quê, também ele! Aquela suspeita foi-lhe dolorosa. E andando em silêncio, olhava pelo canto do olho o perfil espesso, a figura grossa, o andar pesado. Ela dera-se a um grotesco daqueles? Era de mais! Ao menos a paixão pelo Manolo tinha sua justificação: era bonito, era valente, era romanesco, era divertido! Mas este, o Melchior, pelintra, caloteiro, cobarde, debochado, imbecil, bêbedo? Pouh! Todos os defeitos de Melchior lhe apareciam agora, disformes, monstruosos. Envergonhou-se da sua amizade, como corara do seu amor! Que amante!... E que amigo! Veio-lhe como um desejo infinito de outro meio, mais limpo, mais elevado, mais digno. E à esquina da Calçada do Alecrim, despediu-se do jornalista secamente. Ia decidido a esquecer a Concha. Pisando com um pé nervoso a Rua do Arsenal, construía já o plano de uma nova existência: arrancaria do seu cérebro, como se tira da pele uma pústula, a lembrança daquela prostituta de instintos vis, infectada de vírus — que lhe preferira o Melchior, a porca! Recomeçaria a trabalhar: afinal, o seu destino era fazer obras de arte e não viver agachado nas saias enxovalhadas de uma muchacha de bordel! Depois dos Amores de Poeta, escreveria outro drama, comédias em verso! Forçaria a celebridade como quem viola uma mulher! E seria um grande homem, enquanto ela, abandonada pelo emigrado, roída de doenças, erraria esfomeada pelo lodo do beco do Monete! E ele, teria outros amores, dignos do seu alto coração e da sua posição nas Letras! Renovaria as relações com a baronesa, que desleixara — idiota! — por aquela meretriz barata. Oh! — Quando entrou no quarto, todo o seu futuro lhe aparecia tão reluzente de felicidades, que já considerava providencial que «o estafermo se tivesse pirado!» — Ainda bem! Respiro! Ouff! Mas o aspecto do robe-de-chambre dela, a sua camisinha de dormir dobrada aos pés da cama, todo aquele cheiro de mulher de que o ar estava impregnado, deram-lhe uma comoção tão brusca que os seus nervos se distenderam: uma saudade infinita amoleceu-lhe a alma e atirando-se de bruços sobre a cama, rompeu a chorar! Ah, mas não havia de ficar assim, sem

uma vingança! Pensou em lhe escrever uma carta cheia de todas as infâmias que Melchior lhe revelara, ameaçando-a de lhe escarrar na cara, se ela ousasse, encontrando-o, erguer os olhos para ele. Mas para onde dirigiria a carta? Estaria ainda em Lisboa? Imaginou afligi-la de ciúmes, tomando outra espanhola — a Angelita, que ela odiava — e enchendo-a de vestidos e jóias... Mas o dinheiro? Em cinco semanas tinha gasto quinhentos mil-réis! E com quem! Com aquela criatura vil. — E este desperdício aumentou o seu ódio. Acabrunhou-a de injúrias; rasgou em pedaços a sua fotografia; decidiu não lhe enviar os baús — ou remetê-los, tendo inutilizado à tesourada os vestidos e esmagado a martelo as jóias que ela lhe extorquira — porque lhas extorquira, a ladra! Quis adormecer, mas não podia. A ideia de que ela, àquela hora, delirava doida nos braços do Manolo, de que nos intervalos da lubricidade, com os corpos lassos, muito unidos, caçoavam dele, riam, chamavam-lhe «o asno do português», dava-lhe um ódio, cortado de um pungente ciúme carnal, que o fazia torcer-se sobre o enxergão, atirando punhadas ao travesseiro. Como Melchior, sentiu ódio à Espanha. Oh, se houvesse uma guerra! Com que júbilo de vingança iria pelo País, lançando proclamações, armando aldeias, arremessando contra a fronteira massas esmagadoras de patriotas! E decidiu-se a escrever folhetins sobre a Espanha, «pondo-a mais rasa que a lama!» Foi sob estas impressões que toda a noite sonhou com invasões e batalhas: via-se à frente de Portugal armado em massa, passando o Caia, invadindo a Espanha, à Átila, e vindo, com a fúria irreprimível de um elemento, abater-se sobre Madrid aterrada; aí, sentia-se semideus, era Aquiles: estava nu, tinha um elmo pelágico e arrastava três vezes em torno das muralhas, que lhe pareciam as de Tróia, entre um pranto de viúvas subindo para a mudez do céu, o corpo branco e exangue do Manolo. Depois, era em Lisboa, na celebração da vitória: aí, era o Cid: tinha uma armadura refulgente de emblemas; estava num palanque coberto de panos leves de seda, ao lado do Rei, de D. Luís de Bragança, que trazia sobre a cabeça, enterrada até aos olhos, uma enorme coroa de imperador da península. Amarrada a um pelourinho, nua, torcia-se a Concha, a quem verdugos experientes, com músculos de atletas, iam arrancando a pele a chibatadas; defronte, a perder de vista, estendia-se uma negrura de formas humanas: eram as raças de Espanha, cativas, com os

pulsos arroxeados e cangas nos pescoços, que sargentos de caçadores, torcendo o buço e meneando a chibata, iam levando para os descampados onde deviam, plebe vil, estrumar os campos de trigo e enxofrar as vinhas. Quando acordou ao ruído da porta que se abria, a voz do Manuel chamou-o à realidade: — É a Conchita que quer os baús. Está lá em baixo o galego... — Não vai nada! Não sai nada! — exclamou Artur com uma violência que ainda participava do seu sonho de invasão. Aconchegou-se nos lençóis, quis readormecer. Não pôde: faltava-lhe aquele corpo lindo tão conhecido, que ele enlaçava logo ao acordar, ainda lânguido de sono. Saltou da cama e começava a vestir-se, quando o Manuel, entreabrindo a porta subtilmente, adiantou o rosto banhado de satisfação: O Manolo manda dizer que se os baús não vão, manda cá um polícia ou vem ele com um chicote... Artur voltou-se como uma fera, mas o Manuel acudiu: — Usted fica mal! Usted dê as roupinhas! Olhe que usted tem transtorno! A sua voz era tão antipática, que para o não ver, por lassidão, por nojo, para acabar por uma vez com a Concha, com o Manolo, e vagamente assustado de um escândalo, gritou furioso: — Leve tudo! Leve com os diabos! Deixe-me! — Usted está com o ferrito! — disse muito jovialmente o Manuel. O homem era-lhe tão odioso, que resolveu sair do hotel. E como se sentia vexado diante da Mercedes, da criada, dos dois espanhóis tenebrosos, foi nessa manhã almoçar à Áurea. Só quando viu nas ruas as lojas fechadas, se lembrou de que era Domingo Gordo. Como o passaria? Demorou o almoço, leu todos os jornais, a Ilustração Francesa, e às duas horas, tomava o seu café, quando, na mesa ao pé, se veio sentar o calvo, o Videirinha, a quem o criado, decerto habituado, serviu logo um cognac com sifão. O Videirinha cumprimentou Artur com afabilidade e decerto «para entabular cavaco», disse com bonomia:

— Domingozinho Gordo! — E verdade, Domingo Gordo... — respondeu Artur. Videirinha imediatamente se veio sentar ao pé dele e com uma voz de pêsames, baixo:— Lá soube o desgosto! Sinto muito! A minha Mercedinha também sentiu muito. Artur, furioso com a compaixão do Videirinha, respondeu impaciente: — Que tolice! Desgosto? Ora essa! Alívio! Eu. estava farto dela! Videirinha, não acreditando, bebeu discretamente um gole de cognac. E fazendo estalar a língua, erguendo muito as sobrancelhas: — São grandes golpes! São grandes golpes! A Mercedinha até tem estado doente... Artur, que recordava o entusiasmo da Mercedes por Manolo, teve uma piedade desdenhosa «pela imbecilidade do calvo» e disse com um sorriso: — Parece boa rapariga. Videirinha esteve um momento calado, o olhar afogado num êxtase imbecil, e com uma voz muito doce: — Não há melhor, não há melhor! — E é bonita — disse Artur, que o gozava, achando-o «um tipo». O Videirinha teve um vago encolher de ombros muito lânguido, como se exprimisse um: — nem falemos nisso! Olhou um momento Artur — e puxando de uma carteira de marroquim, tirou, pôs sobre a mesa, uni pequeno nastro enxovalhado de cinco ou seis polegadas, que parecia uma medida. Esticou-o com os dedos sobre a mesa, delicadamente, olhou-o com uma concupiscência beata e disse ternamente: — O pezinho! A medida do pezinho! — Muito pequenino— disse polidamente Artur. — Não há melhor! — Contemplou-o novamente: — Quando não estou com ela, ponho diante de mim a medida do pezinho e estou horas a olhá-lo, a regalar-me por dentro. — Suspirou: — Não há melhor! Guardou com devoção o nastro e inclinando-se para Artur:

— Eu ponho em si esta confiança porque sei que é cá da confraria — amante das belas espanholas! Esteve um momento a olhar vagamente para o ar, com paixão, e recostando-se, de pálpebras cerradas: — Tem-me dado muita consolação! — E confiou então a Artur que lhe andava a ensinar francês: — Agora vou dar-lhe a liçãozinha, anda no verbo rendre. Tem uma memória! Depois, ela lê o jornal, gosta muito de ler o jornal e eu coço-lhe a cabecinha! Depois, se há alguma coisa a coser, na máquina de costura... Eu coso muito bem à máquina, até ela me diz: oh! pupu... Chama-me pupu, tem gracinha, não? Diz-me ela: oh pupu... Que ia eu a dizer? Esta cabeça! Ah! Diz-me ela: oh! pupu, até dá gosto ver-te costurar... Coitadinha, faz-me muita justiça... Depois fazemos uma sonecazinha... – Revirou os olhos e com uma voz grave, tocando no joelho de Artur: — Meu caro senhor, digo-lhe isto porque sei que aprecia as belas espanholas — são grandes gozos! E como eram três horas, para a não fazer esperar, pagou o cognac, pôs com cuidado o seu chapéu branco, ergueu-se, repuxou as calças para a barriguinha saliente e vindo debruçarse sobre a mesa, quase ao ouvido de Artur: — Vamos hoje ao Casino, mascarados. A minha Mercedinha vai muito bem, vai de pajem. Eu também vou bem... vou de húngaro. Chut! Guarde o segredo, hem? E abalou com o seu passinho miúdo. Artur espreguiçou-se, folheou ainda a Ilustração e pensando: — pobre idiota! — saiu, foi andando até à Rua Nova do Carmo. A rua estava cheia de gente que se movia devagar, numa madracice de pasmaceira; pelas janelas, algumas com as vidraças tiradas, senhoras apareciam, fugiam,, figuras debruçavam-se com um ar excitado. Cartuchos de farinha estalavam com uma poeirada branca, revoadas de feijões estralejavam sobre os chapéus; sujeitos enfarinhados tinham gestos furiosos; outros seguiam com um desdém secado; aqui, além, máscaras maltrapilhas passavam com pressa, como indo tratar de um negócio, ou exibindo-se com esgares lunáticos, fazendo destoar subitamente guinchos idiotas; patrulhas rondavam com um ar enfastiado e uma atmosfera baixa, parda, pesava lugubremente,

penetrando os corpos, dando às expressões um tédio mole. Artur, receando uma cartolada no chapéu, um esguicho na cara — insultos muito irritantes para quem traz a alma magoada — retrocedeu rapidamente até ao hotel. Mas, ao passar no corredor sombrio, um vulto destacou-se do vão de uma porta e esmagou-lhe placidamente um ovo de cheiro no pescoço; deu um grito à frialdade do líquido e voltando-se, furioso, viu a face do Videirinha banhada de júbilo: — Foi a Mercedinha que mandou! Foi ela que mandou! Diz que é para o distrair. Tem gracinha, não? Tem-me enfarinhado todo, a Mercedinha... — E divertir-se, é divertir-se — disse Artur subindo a correr para o quarto. Sentou-se com um livro à janela e, ora lendo, ora olhando a rua, viu cair o crepúsculo — menos triste que o seu coração. Na sombra do quarto a coberta branca do leito alvejava vagamente: ele via-a ali, como tantas vezes a vira, dormindo, as longas pestanas descidas sobre a face pálida, um dentinho luzindo entre os lábios docemente entreabertos e os dois globos brancos dos seios aparecendo entre as rendas da camisinha. E aquela visão era tão nítida, que, com um longo soluço de saudade, ergueu-se, arremessou-se sobre o leito, abraçando ao acaso a coberta. Foi jantar nessa noite a um restaurante da Baixa. E cheio de ódio contra o ruído dos trens rolando para os teatros, contra os grupos festivos exaltados de vinho, contra os pares de máscaras de luvas brancas — veio encerrar-se de novo no quarto. Desejaria um claustro de convento, um rochedo em que batesse o luar, junto ao mar gemente, um sítio distante, que fosse, pela tristeza, como a decoração condigna da sua alma triste. Então fez versos; e com a imaginação afinada pela saudade, produziu com facilidade, escrevendo até tarde, enquanto gritos de bêbedos se repercutiam pelas ruas e perpetuamente rolavam as tipóias, de teatro para teatro. Terminou, alta noite, uma última estrofe — em que dizia que a sua vida, penetrada até às profundidades pelo amor da Concha, não teria outros amores, senão como tendas que se erguem para uma noite e se desmancham ao alvorecer. Àquela hora, no Teatro D. Maria, a Concha e o Manolo, de dominó, apaixonadamente enlaçados, giravam com furor numa valsa,

aos compassos estridentes da Filha de Madame Angot! Ficou ao outro dia na cama até muito tarde e à noite, depois do jantar, decidiu, para «matar o tempo», ir a S. Carlos. Tinha uma vaga esperança de encontrar lá a baronesa. Chegava à esquina do Rossio, quando viu a figura magrinha do Damião, de paletot alvadio, guarda-chuva no braço, que vinha conversando com Nazareno. Que felicidade! Era na sua mágoa como uma consolação, uma força, uma direcção que lhe chegava... Correu para ele com os braços estendidos: — Oh, Damião! Damião recuou, fitou-o, disse simplesmente: — Eu não falo a canalhas! Deu um passo para o lado, travou do braço de Nazareno e seguiu. Artur ficara como cataléptico: queria correr, os pés pegavam-se-lhe; queria falar, a língua prendia-se-lhe; sentia ferver-lhe o cérebro e um calor, onde havia um zumbido, escaldar-lhe as orelhas; as luzes do Rossio faiscavam-lhe em ziguezagues ante os olhos, e as pessoas, com um rumor abafado, pareciam-lhe mover-se no ar. Dois dominós apressados empurraram-no: despertou. Os beiços começaram a tremer-lhe, lágrimas humedeceram-lhe os olhos. A palavra de Damião — canalha! — atravessou-lhe o cérebro, o rosto, os ouvidos, com o estampido, o impulso de uma bofetada. Sentiu um desespero, um desejo sanguinolento de vingança: vinham-lhe agora à língua as palavras vibrantes que deveria ter atirado ao Damião; sentia agora no braço a força da bofetada que lhe devia ter dado na face... Mas aquele ímpeto ardeu um instante e extinguiu-se como um rastilho de pólvora; e abatido, prostrado, foi seguindo ao comprido das casas para o Terreiro do Paço, inconscientemente, com passos moles que oscilavam. Sentia um espanto, uma revolta aterrada contra o Destino. Por que merecia tudo o que lhe sucedia? Que tinha feito? Era bom, era amante, era inteligente, era honrado — e a cada passo que dava na vida surgia-lhe uma indiferença, um escárnio, uma humilhação, uma traição, uma desfeita! Teve a consciência da sua fraqueza moral, da sua debilidade efeminada! Revoltou-se contra si mesmo... Tinham-lhe chamado canalha, e ficara aparvalhado, numa

tremura! Teve ódio à estrutura anêmica do seu corpo, à languidez romanesca da sua alma: sentiu-se um fraco, um maricas, um trêmulo, um piegas... De que servia na vida? Mais valia morrer, desaparecer como uma bola de sabão que quebra num cuspo de espuma! Para que viver? Não tinha dinheiro, nem posição, nem uma amizade, nem um amor! Que lhe restava? Ir enterrar-se em Oliveira de Azeméis? Per— tencer ao Vasco, pisar num almofariz semente de linhaça, perpetuamente? Não! Então... E a morte aparecia-lhe com a doçura de um repouso e a atracção de um refúgio. Deus fizera-lhe a vida amarga para o desgostar dela, obrigá-lo a sair, dar lugar a outro mais forte, como numa hospedaria onde se desgosta o hóspede pobre, para dar lugar ao hóspede rico. Ele que compreendia tão bem o amor, não encontrava uma mulher que lhe desse um olhar compassivo; ele que sentia em si ideias, imagens, estilo, não tinha um diabo que dissesse uma palavra do seu livro, lhe desse uma migalha daquela celebridade de que tinha fome! Aproximava-se cheio de simpatia, de calor, ávido de ser útil — recebia um empurrão! Fora direito à Sociedade, com tanta admiração por ela — e recebera por acolhimento alguns olhares secados, ombros soberbamente voltados; lançara-se para a República, vibrante de entusiasmo — e fora repelido com vaias e assobios! A Concha, que ele adorava, safava-se-lhe! O Damião que admirava, insultava— o! De que lhe servia viver, caminhando assim, envolvido na sua má sorte como numa atmosfera iniludível? Um ar frio e húmido envolveu-o: estava junto à muralha do Terreiro do Paço. O rio agitado, na maré crescente, batia tristemente na escuridão, contra as escadas do Cais; entre os botes amarrados, a água tinha tenebrosidades frias; vultos de navios faziam na noite escura redobramentos de sombras, e aqui, além, num mastro, tremulava um fanal mortiço. — Era só subir ao parapeito, saltar, estava livre... Seria a agonia de um momento, uma sufocação estrebuchada, goles de água engolidos — e a paz!... Então pareceu-lhe que estava morto já, que o encontravam inchado, verde, todo coberto de lodo: reconhecê-lo-iam e o mistério dramático da sua morte encheria os jornais, dar-lhe— ia uma trágica celebridade!... Os Esmaltes e Jóias seriam lidos: procurar-se-ia neles o segredo da sua resolução, como num documento de amargura; folhetins compará-lo-iam a Chatterton, a Gérard de Nerval... A Concha choraria, a baronesa amaria a sua memória!... E aquela glória em volta do seu cadáver

tentava-o estranhamente: porque não? Porque não?... Certos reflexos mais negros da água chamavam-no com intenções de pupilas humanas; reteve-o o horror do frio, a ideia da roupa molhada colada ao corpo e uma vaga inércia, a preguiça de tomar uma resolução tão violenta... E ao mesmo tempo, sentia-se enternecido, com uma saudade romanesca da sua própria existência extinta. E olhava a água, de pé, com a cabeça toda em febre... Uma voz fina, muito lisboeta, disse ao lado: — O senhor viu por acaso tirarem-me o chapéu? Voltou-se como que estremunhado. Era um sujeitinho barrigudo, nédio, de repas grisalhas, que repetiu: — O senhor viu tirarem-me o chapéu? — Eu? Não! — disse Artur impaciente. — Homem, esta! Tinha-me encostado ali... Jantei em casa do Gonçalves, do Gonçalves da Rua dos Retroseiros, há-de conhecer, o Gonçalves, o da Câmara... Jantei com ele, vim depois dar o meu passeio higiênico: sento-me ali um bocado... vem-me uma quebreira, talvez da pinguita do Porto — o Gonçalves tem bom Porto, tem bons vinhos. O sogro é negociante de vinhos... De repente sinto um friozinho na calva: tinham-me tirado o chapéu! O senhor não viu? — Não vi — disse Artur, afastando-se, furioso com aquele importuno. Mas o sujeito pôs-se a andar ao lado dele e com gestos curtinhos, a voz muito cantada: — Homem, esta! Eu não é pelo chapéu, diabos levem o chapéu! É pelo ferro! E que háde dizer minha senhora? Oh, menino, de onde vens tu sem chapéu? Ora, ora! Se as lojas estivessem abertas! Que eu não é pelos três mil-réis! É porque não estão abertas! Senão ia ao Roxo, está claro que ia ao Roxo. O Roxo conhece-me bem. Mas que ferro! Um chapéu novo! Então não viram! Ir para casa sem chapéu! Sempre vai uma ladroeira pela Baixa! Se fosse o lenço! Bem me importava com o lenço! Mas o chapéu! É o ferro! É o ferro! O senhor não viu? — Oh, senhor, já lhe disse que não! — E Artur apressava-se, indignado daquela interrupção burlesca à sua trágica meditação. Mas o sujeito ia-lhe ao lado, querendo acertar o passo pelo dele, loquaz, excitado;

acompanhava-o pelo Terreiro do Paço, repetia a história da soneca, falava no jantar do Gonçalves, contou casos de outros roubos, até que à porta do Espanhol, já enervado, desesperado, Artur interrompeu-o: — Bem, eu moro aqui, adeus! Mas o outro reteve-o pelo botão do paletot e Artur, imobilizado, teve de o ouvir. — O senhor compreende, eu sou muito conhecido na Baixa, não posso sair por aí fora sem chapéu. Que há-de dizer minha senhora? Que ela é uma santa: sou casado há vinte e cinco anos e nunca me deu senão gostos. É dos Pereiras, dos Pereiras de Santo Amaro. É das melhores, uma santa! Mas enfim ir para casa sem chapéu! Começa logo a Joaquina — e então a Joaquina! É a criada; boa criada, trabalhadeira... Começa logo: Olha o senhor que vem sem chapéu! Pudera, se mo tiraram. Que eu é pelo ferro! Artur tinha lágrimas nos olhos. O homem não lhe deixava o botão do paletot: ele recuava para a ombreira da porta, retraía-se; o sujeito seguia-o. Então não se conteve: — Oh, senhor! Que tenho eu com isso? — Eu é que tenho, que eu é que fiquei sem o chapéu! Artur enfureceu-se, bateu com o pé, berrou: — Mas eu não lhe tirei o chapéu! O sujeito recuou, assustado, e vendo sem dúvida pouca segurança naquele pátio escuro, saiu vivamente para a rua. Debaixo do candeeiro, acamando as madeixas grisalhas, murmurou desconsoladamente: — Ora um ferro assim. Aqui vou eu sem chapéu! Artur entrou no quarto e num desabafo de ira, arremessou o chapéu contra a parede, atirou uma cadeira ao chão com um pontapé e estendeu-se sobre a cama, vestido, prostrado, embrutecido, com a garganta tomada de lágrimas, desejando uma doença que o matasse, um cataclismo, um terramoto... E por fim adormeceu, pensando, mais consolado, que seria ridículo ter-se suicidado, porque se poderia atribuir a sua morte ao desgosto de haver sido abandonado por uma espanhola de bordel! Acordou ao ruído de argoladas no portão. Sobre a mesa, a vela extinguiu-se no castiçal.

Devia ser tarde: o Manuel, ou fora ao Casino ou dormia bêbedo. Outra argolada atroou o pátio. Era talvez a Concha, arrependida, ou o Damião com uma explicação!... Saltou da cama, correu à varanda: — Quem é? — Io — disse uma voz espanhola de mulher. Ainda estremunhado, pareceu-lhe a voz da Concha! E, trêmulo, agarrou no castiçal, desceu correndo. Não sabia se a expulsaria ou se a arrebataria para o quarto, devorando-a de beijos... Ao abrir o ferrolho, as palpitações do coração sufocavam-no. A porta rolou — e achou-se defronte de um Aquiles de capacete e luvas brancas, a túnica enxovalhada, o manto escarlate flutuante e um gládio ao lado, que lhe gritou com voz de máscara, ganindo: — Eh, seu Arturzinho! Eh, pandegazinha! Artur recuara — e o Aquiles, tirando uma máscara de bigodes retorcidos, mostrou a face luzidia e jovial do Videirinha. Atrás, um pajem, com o gorro equilibrado sobre um penteado complicado, perna roliça, quadris enormes, gralhava: — Muchas gracias! Y Manuel? Se ha dormido el tio ese / Es usted muy amable, Arturito! Buenas noches! Gracias! O castiçal tremia na mão de Artur, pálido de desconsolação. E o Videirinha, deixando passar adiante o pajem de quadris roliços: — Vimos do Trindade — disse ao ouvido de Artur. — A Mercedes fez furor com as perninhas. Olhe-lhe agora as perninhas! E os olhinhos do Videirinha dilatavam-se numa luxúria parva para o pajem, que sobre as escadas, derreado, içando-se pelo corrimão, mostrava a cinta fina, as enormes redondezas posteriores, uma coxa bojuda e os altos tacões das botinas de cetim verde! O Manuel acordou-o na manhã seguinte, com uma carta de Oliveira de Azeméis. Abriu-a com um vago susto, pensando que podia ser a notícia do Carneiro ter fugido com os seus últimos quinhentos mil-réis! Era do Vasco da botica e dizia: «Meu prezado amigo:

Sua tia Sabina está mal, mesmo muito mal. Diz o Dr. Azevedo que está por dias e a pobre senhora teima em ver o meu amigo. Conta os dias e as horas e só pede a Deus que a não leve, sem que volte «o seu menino». Pode o meu prezado amigo imaginar quanto isto nos aflige e contamos que venha quanto antes, para os fins competentes. Creia, meu prezado amigo, na estima do Vasco da Conceição Pedroso.» A tia Sabina a morrer! Santo Deus! Era o único coração que o amava, que se ia também! Saltou da cama, gritou pela conta do hotel. Pagou-a — restavam-lhe três libras, era o bastante para a jornada e fazia à pressa, muito comovido, a sua mala, quando Melchior apareceu. — Vou-me embora! A minha tia está muito mal! Melchior ficou desapontado. — Ora! E eu que o vinha buscar para irmos ao baile do D. Maria! Artur mostrou-lhe a carta do Vasco: — Veja você! Vou esta noite... Mas que diabo, não corria pressa — dizia Melchior. Não era um perigo urgente, podia muito bem partir na manhã seguinte. Era ridículo ir na terça-feira de Entrudo. Quanto mais ele, que nunca vira o Entrudo em Lisboa!... Passava a noite no baile e metia-se no comboio da manhã. E vendo que Artur continuava a arrumar a roupa, apressadamente: — Sabe você porque queria que fôssemos ao D. Maria? Porque temos lá a Concha esta noite! Vi agora o desavergonhado do Manolo a falar com o bilheteiro. Estava a arranjar camarote, o pulha! Eu queria que lá fôssemos, para passear-lhes diante da cara, a rir, a falar de mulheres, a mostrar uma indiferença... Que ela estoira de raiva! Artur torcia o buço, olhando o baú; vinha-lhe um desejo furioso de rever a Concha, de a insultar pelo desprezo, valsar com outras espanholas, mostrar que nem amuava, nem se afligia, nem chorava, mas que folgava como um boi solto! Disse com uma voz ambígua: — Ele, com efeito, tanto faz eu estar à noite ou de manhã... — Está claro! — exclamou Melchior.

Artur viu de repente, longe, em Oliveira, a face da tia Sabina, com uma palidez de agonia, voltando-se ansiosamente para a porta por onde ele devia aparecer... — Fazemos um jantarzinho chic, carregamo-nos, e viva a folia! Por um resto de senso moral, Artur tentou resistir: — O diabo é o dinheiro! — Que dinheiro? Para jantar, teatro, uns grogues, ponha uma libra. O que tem Você? Três libras? Restam-lhe pois duas. É de sobra para a jornada... Mas Artur necessitava uma razão mais forte, de ordem moral; foi Melchior quem lha forneceu, dizendo: — E até pode fazer mal à pobre senhora, você aparecer assim de repente... Era verdade, era isso! Podia-lhe fazer mal. Mandaria primeiro um telegrama a dizer que ia... Boa ideia a do Melchior! E de tarde — depois de terem visto, no alto do Chiado, o enfarinhamento pândego das pessoas da «primeira sociedade», foram jantar ao Central, concordando que a ida de Artur, nessa noite, «podia matar a pobre velha». Não encontraram a Concha no D. Maria, mas Artur, que bebera abundantemente «para se pôr à altura», segundo a frase de Melchior, tinha agora o desejo irritado de a ver. Foram ao Trindade, depois a S. Carlos. Sondavam os camarotes com o binóculo: viram a Paca, a Lola, a Carmen, penteados que denunciavam andaluzas, mas não a viram a ela! — Que o diabo a carregue! — disse Melchior com ira. — Está no choco com o canalha do federalista. Vamos ver as cancanistas ao Casino — e a Concha que vá à... E atravessando para o Casino, praguejava alto de indignação. A fachada do Casino flamejava. Um grupo de gente pobre estacionava à porta, com olhares de urna inveja triste para as janelas alumiadas e sonoras, para as máscaras apressadas. Os dominós de paninho mostravam à extremidade das mangas mãos grossas de operários e por baixo, pedaços de calças pelintras sobre botas cambadas; sons de instrumentos de metal sobressaíam em cima, vagamente, no brouhaha contínuo e no rumor do soalho batido.

No bengaleiro encontraram Carvalhosa, com o jovial deputado Abreu, de fala algarvia, que depositavam as badines. — Vem-se à Saturnal — disse pretensiosamente o Carvalhosa. — Às cancanistas! — exclamou Melchior, já excitado pelo ruído do baile. — Perneemos! Perneemos! — ganiu aflautadamente e de um modo espremido o ilustre Abreu, da maioria, que parecia avinhado. Subiram. O salão estava cheio, abafado, de um calor morno que parecia feito de exalações de suor. A luz crua dos lustres de gás feria as cores claras e duras das paredes, da decoração, e ressaltava, fazendo flutuar uma radiação quase espessa. No estrado, o regente agitava furiosamente a batuta, impelindo as vagas estridentes de uma instrumentação grosseira — e uma multidão de paletots, de chapéus altos, de dorsos curvados numa curiosidade sôfrega, concentrava-se em volta do can-can. Artur, excitado, penetrou por entre a massa de gente e esganiçando o pescoço, em bicos de pés, conseguiu ver as francesas: eram quatro e destacavam-se pelos cabelos loiros cor de manteiga; uma delas, baixinha, roliça, vestida de marinheiro, com o chapéu de oleado para a nuca, o pescoço papudo à mostra, os quadris enormes apertados a estalar numa calça branca, saracoteava-se com movimentos que lhe faziam saltar os seios flácidos na camisola azul; outra, leve, esguia, endemoninhada, vestida à húngara, pulava com grandes gestos de magricela, batendo furiosamente o soalho com os altos tacões das botas orladas de peles; uma terceira que estava mascarada de vivandeira, parecia pesada, velha, meneando-se por dever, gravemente; mas a mais admirada era uma bacante, uma grande loira de formas soberbas, que punha nos olhos em redor um vago brilho de concupiscência burguesa. Trabalhavam em fila, numa quadrilha, com quatro mariolas — um pierrot que parecia desengonçado; um chicard que fazia flutuar as abas enormes da casaca grotesca, apanhando-as com gestos torpes, lançando-as para o enorme nariz de papelão com dois tufos de estopa loira sob as ventas; um homenzinho roliço, com um capacete de bombeiro de onde subia um longo penacho escarlate; e o último, um amador português, que trazia um dominó de paninho, e já sem fôlego, debatendo-se como doido, com o capuz caído, mostrava uma guedelha suja, toda empastada de transpiração. Em redor

gozava-se. Havia nos rostos uma dilatação lúbrica, hílare, e bravos estalavam às pernadas mais arremessadas. As cabeças apertavam-se na admiração babosa do chic estrangeiro e até velhotes, de lábio pendente, arregalavam olhares que lambiam as formas das pernas, dos peitos, a cor dos cabelos. Trocistas avinhados excitavam as bailarinas com gritos: eh! eh! viva! larga! A bacante, sobretudo, entusiasmava o público: como o tirso a embaraçava, tinha-o posto nos braços de um sujeito gordo, de lunetas de ouro, que o conservava, imóvel, com respeito e orgulho. Os braços livres, a criatura delirou: adiantava-se com as mãos na cinta, o peito para diante, os seios em relevo, com um gingar frenético dos quadris, e baloiçando-se, atirava as pernas até ao penacho do bombeiro, que sacudia os braços como um boneco epiléptico, dando êhs! agudos! Só a igualava o chicard: adiantava-se de esguelha, atirando para fora os quadris, num arqueado canalha, agitando os cotovelos furiosamente, com movimentos torpes do ventre: recebia no queixo o sapato do marinheiro, redondo como uma pata, e como ferido, atirava as mãos para o chão, dava uma cabriola, repulava sobre os pés — e então, entre uma sussurração de deleite em redor, os quatro pares enlaçando-se, redemoinhavam num galope desesperado. Mas o bombo bateu os compassos finais — e o can-can terminou entre uma vozearia, um estalar de palmas. A sala ficou logo cheia até aos cantos de uma multidão que se mexia devagar, como uma massa mal decomposta. As francesas, arquejantes, eram seguidas de grupos sôfregos, apaixonados e em redor da bacante, para a tocar, apalpar, a ver de perto, havia empurrões, pragas. Um sujeito, não se contendo, agarrou-lhe as tranças: a criatura, furiosa, deu-lhe uma bofetada — houve alarido, e um polícia sonolento, descolando-se da ombreira da porta, adiantou-se, rolando os bugalhos dos olhos prateados e imbecis. Artur errava por entre a gente. Havia uma poeirada suspensa no ar num cheiro acre de suor e de paninho tingido; dominós entreabertos deixavam ver calças ignóbeis. Toda a prostituição barata mostrava as formas de uma gordura balofa ou de uma magreza esfomeada: havia vivandeiras, noites com véus de crepes, pajens, criaturas cobertas de vestuários confusos de uma pelintrice triste; os braços tinham os cotovelos coçados, calejados da posição habitual, debruçada nas varandas; falava-se com uma excitação ansiosa,

estonteada, bestial; bêbedos provocavam questões, e dos pares unidos sentiam-se subir as paixões mórbidas e brutais do bordel. Quase sufocado, Artur veio atirar-se para o sofá, no patamar. A multidão passava constantemente, com um arrastar pesado de solas; gente abafada abanava-se, vozes de máscaras ganiam, e nas salas de jogo, por vezes, o pião chinês em movimento punha no ar o seu grande zumbido surdo. — Isto está brilhante! — veio-lhe dizer Melchior com os olhos excitados. — Vamos nós mascarar-nos, menino! Estava todo orgulhoso por ter passeado a bacante pelo braço: prometera-lhe uma local. Falou da ceia, «uma grande orgia» e pedindo meia libra a Artur para fazer face aos grogues, desapareceu. O Carvalhosa que passava com as mãos enterradas nos bolsos, parou diante de Artur:— Então, poeta do ideal, aqui neste covil da luxúria? Artur sorriu, lisonjeado. — Perneemos! Perneemos! — gania o Abreu, da maioria, que seguia atrás, devagar, aprumando-se com esforço, satisfeito de si, e que parecia não poder extrair outras palavras do cérebro embrutecido. Artur sentiu então um desejo de movimento, de alegria, de troça. Desceu ao café a aquecer-se com um grogue. As mesas do botequim estavam cheias, numa algazarra: dominós desmascarados absorviam cabazes, grogues; as vozes agudas dos criados retiniam; bengalas furiosas, batendo no mármore das mesas, reclamando álcool; e os pares, amancebados por uma noite, beijocavam-se sem pudor. Artur não pôde obter o seu grogue — mas o cheiro de fêmea, os tons dos ombros nus, o vapor quente dos grogues com rodelas de limão — excitaram-no, deram-lhe uma vibração de lubricidade. E ia procurar o Melchior para se mascararem, quando o viu aparecer com a bacante pelo braço, rubro de vaidade, o peito alteado. Então, como o Melchior conhecia o criado, o Bento, obtiveram, ao canto de uma mesa, três cognacs, e o localista apresentou Artur à bacante, como «um grande poeta». Estavam

cercados de uma fumaraça de cigarros suspensa no ar morno; sentada num mocho, com as pernas magníficas estendidas, a pele de tigre caída sobre a linha dos rins, numa atitude orgulhosa, a bacante escutava vagamente os discursos de Melchior, que num francês medonho lhe fazia declarações. Os seus olhos eram de um pardo-escuro, grandes, duros, e os lábios tão vermelhos que pareciam sanguinolentos; havia nos seus membros fortes, nervosos, alguma coisa de ondulante, de vibrante, que lembrava os movimentos de um tigre. Bebendo o seu grogue, erguia muito o copo, deitando a cabeça para trás, pondo em relevo a linha da garganta muito branca, de uma brancura de loira, e as formas rijas e soberbas do seio. Artur admirava-a, cheio de desejo. Ela fitou-o, passou-lhe negligentemente os dedos pela face e àquele contacto, sentiu da nuca aos calcanhares uma vibração de concupiscência: o seu vestuário pagão excitava-o, dando-lhe vagas ideias de mitologias clássicas que o faziam pensar em Baco, levado num carro atrelado de tigres, e nos mistérios dos bosques sagrados, onde bacantes, por um céu de tempestade, se apossam de um poeta de membros de efebo, e o deixam exausto sob carícias devoradoras, ao som irritante de tamborins. Não se atrevia a falar-lhe — e fumava, comendo-a com os olhos acesos. Em redor, a algazarra aturdia: havia copos quebrados; uma altercação pôs a uma mesa um delírio de berros e dois indivíduos engalfinhados rolaram no chão: uma mulher gania; dois municipais intervieram com uma brutalidade pretensiosa. Mas Melchior insistia com a bacante para dançarem uma polca. Falava-lhe com os olhos arregalados, roçando-se por ela, todo tonto do cheiro das suas formas fortes. Ela enfastiou-se e repelindo o cognac. — Assez, mon bonhomme, assez! Levantou-se, agarrou o braço de Artur e com uma pirueta, arrastou-o: — Il m'embête ce grós là! E deixaram Melchior, furioso, vasculhando as algibeiras à procura de troco para o Bento, rosnando obscenidades. A bacante levara Artur para o salão de entrada, onde espelhos alternavam com arbustos numa decoração pelintra. Quis saber o nome dele, e numa risada:

— Artur! J'ai trouvé un Artur! C'est mon Artur!... E passeava ao comprido do salão, junto dos espelhos para onde lançava a cada momento o olhar, com movimentos lentos, ondulados, que lembravam sempre a Artur o andar de um tigre. E tinha uma sensação estranha que o entontecia, lhe fazia perder o sentimento real da vida, do lugar em que estava — vendo passar, no fundo azulado dos espelhos, o seu paletot escuro junto àquele corpo de bacante clássica. Mas ela declarou-se arrepiada, encolhia-se no seu maillot e pediu a Artur outro grogue, chamando-lhe mon chéri. Cheio de vaidade, ele não duvidou que lhe inspirara um capricho e voltaram ao botequim. A bacante bebeu o grogue de um trago, sem uma careta: no seu olhar flutuava um embaciado de embriaguez e o seu queixo grosso dava à sua expressão uma intenção bestial. Quando Artur pagou o grogue, ela tomou todo o troco e atirou-o negligentemente ao criado, que se curvou em dois, dizendo: — Obrigado à Madama. Mas a bacante queria falar à outra francesa, ao marinheiro, que a uma mesa próxima, entre homens, cantarolava: «Quand les canards s'en vont à l'eau», com uma voz nasal e canalha que extasiava caixeiros inflamados; e Artur, aproveitando esse instante, correu a alugar um dominó. Voltou entusiasmado, embrulhado no largo vestido de paninho que lhe comunicava pelo seu cheiro de Carnaval, uma petulância de máscara. Vendo Carvalhosa, agarrou-se a ele, fê-lo rolar, gritando-lhe ao ouvido, com uivos: — Eh! ilustre orador! O deputado repeliu-o com tédio: — Eh, bruto! Artur, um pouco bêbedo, ia injuriá-lo, enumerar as tolices dos seus discursos, vingar-se de todas as amarguras que ele lhe causara, quando viu passar a bacante com um sujeito de jaquetão que empunhava uma bengala de castão homicida. Seguiu-a pela escada, desesperado, com um ciúme violento. O do jaquetão passava-lhe o braço pela cinta, pousando-lhe a mão grossa e escura sobre os rins, falando-lhe no pescoço. Artur sentia um desejo agudo de o insultar, arrebatar-lhe a bacante, mas receava o bengalão,

facadas de fadistas, os municipais. E, muito contrariado, torcia o forro das algibeiras, sem uma decisão, rondando em volta dela — quando um polícia, aproximando-se do sujeito de jaquetão, lhe fez uma observação sobre a bengala. O homem desculpou-se e desceu rapidamente ao bengaleiro. Então a bacante, abrindo molemente os braços, gritou com uma voz avinhada: — J'ai perdu mon Artur!... Ele precipitou-se — e como a orquestra rompera numa polca, lançaram-se na sala, enlaçados. Era a primeira vez que Artur dançava. A bacante, indiferente ao compasso, pulava ao acaso, com grandes pernadas, arrastando-o, levantando-o quase do chão, colando-o contra si, soprando alto, com o olhar doido. Artur agarrava-se a ela, todo excitado de desejo: a sala parecia-lhe oscilar vagamente, e as cabeças dos pares — guedelhas, capuzes de dominó, capacetes, chapéus de camponesas — agitando-se em volta dele num ritmo pulado, estonteavam-no. — Basta! Basta! — dizia. Ela não o escutava, muito lançada: a pele de tigre despegou-se-lhe dos ombros — atirou-a a um sujeito, que, boquiaberto, a admirava; e livre, com o seu grande corpo todo em relevo, ia em reviravoltas furiosas, pateando o soalho sonoro. Artur julgava tê-la toda nua nos braços — e com a bestialidade do desejo misturando-se ao estonteamento das voltas, sentiase desmaiar, e parecia-lhe, um pouco enjoado do grogue, que era sobre o seu estômago que o tambor ressoava. Pararam, arquejantes. A bacante queria beber, e desceram as escadas de rajada, acotovelando gente grave. Encontraram Melchior abancado com uma vivandeira magrinha, que parecia prudente e metódica, e os dois amigos, depois de terem consultado a um canto sobre os fundos de que dispunham, decidiram cear num gabinete. Abancaram a uma mesa. Sobre a toalha, já toda manchada de vinho, uma espinha de linguado arrastava. A bacante, a arquejar, a grande massa dos cabelos descomposta, atirara-se para o sofá de estofo esgarçado e torcendo os braços reclamava Artur. Ele atirou-se de

joelhos, disse-lhe frases líricas, queria levá-la já e oferecia-lhe no Espanhol o lugar, a posição da Concha. Ela ria do seu francês, mas jurava que o adorava. — Je t'adore! — e ficava com a boca aberta, prolongando as sílabas num idiotismo avinhado. Examinou-o então pela primeira vez, quis saber se era sólido: apalpou-lhe os braços, a barriga das pernas; depois expôs as suas belezas, contou que fora modelo, e agarrando Artur pelo pescoço, rolou-se com ele pelo divã. A vivandeira, com os beiços franzidos, parecia escandalizada. Além disso, Melchior esquecia-a, roçando-se pela bacante, com os olhos acesos, furtando-lhe beijos no pescoço. A vivandeira por fim enfadou-se: — O que os senhores quiserem, menos indecências! E como o Bento entrava com os bifes de cebolada, abancaram. A ceia foi longa. A bacante, que misturava cognac no champagne, tinha uma loquacidade doida: cantou cançonetas obscenas, declarou-se republicana, deblaterou contra a religião. De resto, dizia, em Paris tinha carruagens e os seus amantes eram príncipes. Mas o que ela queria agora, declarou, era a orgia, o vício, o crime! E ria, beijava Artur, esguedelhava Melchior, dizia finezas à vivandeira, que a olhava sem compreender, fascinada da verve, chocada da troça. Mas sem razão a bacante enfureceu-se: os seus olhos tinham uma violência escura, amaldiçoou a sua mãe e gabou-se de ter, em Marselha, esfaqueado um amante... Agarrou mesmo uma faca e ameaçou Artur. Melchior, pálido, começava a assustar-se: — Tolices não valem, tolices não valem! E a vivandeira, apanhando rapidamente o kepi, o barrilinho e as luvas, dizia: — Eu em alhadas não me quero achar; sou uma rapariga sossegada. Os senhores podem tirar informações... Mas a bacante, subitamente calma, começou a comer com uma gula afectada, rindo sem motivo, metendo os dedos no molho, limpando-os ao cabelo de Artur. E Melchior, tranquilo, recomeçou a gozar. — Hem, meu amigo, bela pândega... E queria você ir para Oliveira de Azeméis!

Artur sentiu uma pancada no coração: viu de repente a casa, lá longe, o quarto da tia Sabina e a face agonizante sobre o travesseiro de folhos engomados; uma campainha tocava na rua, vozes entoavam o Bendito: era o padre Joaquim com os Sacramentos, seguido de vizinhos de opa escarlate... E no quarto, cheio do terror da morte e dos aparatos da agonia, corriam as lágrimas de Ricardina e soavam lugubremente as orações da Joana... Para expulsar esta alucinação, bebeu de um trago um copo de cognac. E quando saíram do gabinete, cambaleava, e jurava à bacante, com a voz entaramelada, que havia de casar com ela. Ao chegarem ao salão de baile, a quadrilha final começava e o can-can electrizante de Orphée aux Enfers fez-lhe reviver a excitação. O baile tomava o aspecto de uma troça bêbeda: pessoas desmascaradas tinham expressões de fadiga imbecil, outras agitavam-se, bruscas, de mau humor, violentas; só alguns, roucos de gritar, iam ainda balbuciando pilhérias. Artur, diante da bacante, debatia-se furiosamente: o álcool dava-lhe a raiva dos movimentos convulsivos: punha uma cólera no bater dos pés, um frenesi no agitar dos braços; o capuz do dominó caíra-lhe, o botão do colarinho saltara, e com a face lívida, manchada, suada, torcia-se numa demência, soltando ganidos. Mas ao som estridente da orquestra, o galope começou: era uma confusão amarfanhada de corpos engalfinhados, arremessando-se desengonçadamente, com pulos grotescos, patadas desesperadas no soalho... Uma poeirada sufocava, e o regente, com o colete repuxado, a camisa aparecendo-lhe na cinta, agitava a batuta, impelindo os agudos. A espaços, nos ritmos mais pausados, toda aquela grossa multidão se balançava, tomando fôlego, como uma vasta aspiração arquejante... Mas logo os compassos electrizantes estalavam: o regente desengonçava-se, as faces inchadas sopravam nos clarinetes, e os estridores das flautas e os uivos das rabecas partiam, impelindo o galope, como chicotadas sonoras atiradas aos rins da canalha. Todos se arremessavam. Caudas de vestidos descosiam-se, tranças postiças caíam sobre as costas penduradas por um gancho, vozes agudas gritavam numa exaltação impetuosa; e turcos, Aquiles, dominós, pastorinhas, fadistas, prostitutas e bêbedos, cambaleantes — iam num tropel de troça esbandalhada, com um desengonçamento demente, num turbilhão circular — enquanto o ponteiro negro já marcava, gravemente, a primeira hora triste de Quarta-feira de Cinzas.

A última sensação clara de Artur foi a sua entrada numa tipóia, com uma mulher: doido de álcool, abraçado a ela, num frenesi, procurava mordê-la; ela repelia-o, socava— o; ele arremessava-se e lutavam, esguedelhando-se, enquanto a tipóia rolava a trote largo, na rua já clara, onde as leiteiras iam tocando as suas vacas. Quando acordou, ao meio-dia, achava-se deitado num cubículo escuro, de cheiro infecto. O seu olhar estremunhado, vagamente inconsciente, fixava-se numa cortina escarlate, que a luz de uma saleta, fora, traspassava. Estava em mangas de camisa, com as botas calçadas. Ao seu lado, uma mulher estirada ressonava alto. Ficou um momento entorpecido, sem memória, ouvindo, fora, alguém mexer em louça, um arrastar de chinelas. Então o baile, o can-can, a bacante, reviu tudo nitidamente, como na véspera, à luz crua do gás... Sentia um mau gosto na boca, uma dor lancinante na nuca e tinha a certeza, sem a ver, que a criatura a seu lado não era a bacante e devia ser medonha, suja, com um hálito pestífero. Como viera ali parar, àquele catre de que sentia o enxergão de palha mole? E quase tinha medo de saber, de ver: achava-se bem naquela escuridão, com todo o corpo derreado, uma sonolência vaga errando-lhe no cérebro, nas pálpebras. E então, imóvel, com os olhos cerrados, como se nas trevas bestiais em que o seu espírito estava ainda afogado uma aurora espiritual se levantasse devagar, começou a recordar, a ver diante de si toda uma paisagem do Mondego, por uma tarde de Verão: nos salgueiros espessos, onde a sombra está enleada e adormecida, os pássaros chilram alegremente; nas colinas de uma doçura suave de linhas, casas branquejam e sob o céu de um azul-claro, transparente, o rio corre, com um vagar saudoso, numa toalha límpida em que pedaços de areia reluzem; alguma coisa de doce, discreto, terno, erra no ar subtil, e, devagar, um bote onde negrejam batinas vem encostar debaixo dos chorões, junto à entrada melancólica da Quinta das Lágrimas... Via-se ali, passeando com amigos, na doçura pacífica da tarde clara, falando de poetas, recitando versos, ou então, calado, perdido nalgum cismar romântico e nobre. Depois, via um pedaço da estrada de Oliveira de Azeméis a Ovar, onde, no fundo de terras baixas, um regato corre, entre altas ervas, todo escurecido pela sombra que derramam as árvores debruçadas; uma frescura eleva-se da água, da erva verde... E sentava-se ali, com um livro, cheio do enternecimento que lhe davam aquelas florescências

frescas e as águas humildes... Patas de insectos roçavam a superfície do ribeiro quase parado; os musgos cobriam as pedras do seu aveludado tenro e florzinhas azuis, roxas, tímidas, pequeninas, exalavam um vago aroma agreste; madressilvas, agitadas num movimento do ar, faziam errar o seu perfume adocicado; um silêncio doce, em que só se ouvia o gotejar do fio de água, dava um abrigo terno às almas delicadas — e a sua dilatava-se, enchendo-se da serenidade das coisas, cobrindo-se de transparências, e exalando como um aroma próprio, uma simpatia ascendente. De repente, a mulher a seu lado saltou para o chão e com passadas moles que faziam ranger o soalho, foi beber água ao jarro: espreguiçou-se, equilibrando-se ainda mal nos pés e correu a cortina escarlate: uma luz larga entrou, bateu nos olhos de Artur — e ficaram pasmados um para o outro, sem se conhecerem, tristes. Artur, sem uma palavra, saltara também para o chão e enfiava o paletot que ficara aos pés da cama, enquanto a mulher apertava atabalhoadamente uma saia, com tonturas ainda, que a faziam, por momentos, encostar a mão à parede, soprando com força. Artur tinha agora uma curiosidade, em que havia uma repugnância, de saber se tinha beijado aqueles beiços, ainda roxos do vinho da véspera. e tocado aquele corpo mole, caído, gasto, que exalava um cheiro acre; mas não se atreveu a perguntar. Não disseram uma palavra: a mulher vestia-se à pressa — e Artur, remexendo nos bolsos, atirou para a mesa, a pagar a hospitalidade, os seus últimos dez tostões. Era tudo o que possuía. Depois procurou o chapéu, mas não aparecia; e a mulher, então, com uma voz rouca, como se lhe faltasse a campainha da laringe, disse: — O senhor deixou-o talvez no baile, no alugador de fatos... E como ela mesmo se mascarara de homem, pôde dar a Artur o chapéu que usara — um chapéu desabado, imundo, sem fita, e todo pisado de solas de botas. Quando entrou no Espanhol, ouviu um murmúrio de vozes no patamar, ao pé da janela do saguão. Era o Manuel que parecia de maus humores, falando a duas mulheres vestidas de preto. Mas vendo Artur: — Olhe — disse logo à mais idosa — fale com este senhor. Este é um amigo. Este lhe

dirá. A mulher ergueu para Artur um rosto pálido, macerado, que fora bonito, e onde se sentia a passagem constante de lágrimas e o cansaço das vigílias. — É a mulher do Videirinha — disse o Manuel, encolhendo os ombros. A criatura pôs de leve a mão no braço de Artur, como para o reter, para o implorar — e com uma voz triste: — Se V. Exª o conhece, podia-lhe ir dizer... Há três dias que me não aparece. Vive aqui com uma mulher... Eu não tenho em casa um bocado de pão, nada que empenhar! Mato-me a trabalhar... — Soluços sufocaram-na um momento, e vendo Artur olhar para a outra, a mais nova, com uma face doce e triste: — E a minha filha... — disse. — Ele não me dá um real do que ganha no emprego! Eu não quero importunar... Queria só que ele me desse alguma coisa, pouco que fosse, eu poupava-o... Só para ter um bocado de pão em casa... Artur rebuscava maquinalmente nas algibeiras. Ela tocou-lhe outra vez no braço, com dignidade: — Nós não pedimos esmola... Queria que V. Exª lhe falasse, lhe dissesse que estamos aqui. Dez tostões que fossem... — As lágrimas corriam-lhe ao comprido do nariz amarelo e afilado. O Manuel então interveio: — Já lhe disse a usted: o Videirinha está a dormir! Não gosta que o vão incomodar. Já usted vê! — Mas sou sua mulher, é a sua filha — disse ela toda trêmula de indignação, de vergonha. — Já usted vê! Se o Videirinha não gosta... A rapariga, então, puxou pelo xaile da mãe e com a voz comprimida, toda desfalecida do vexame: — Deixe lá, minha mãe, vamos... A ideia daquela criatura bonita e honesta com fome, deu a Artur um fluxo de indignação: — Espere um instante — disse.

Galgou as escadas, foi bater com força à porta da Mercedes. — Que é? — perguntou a voz do Videirinha. E imediatamente, dando volta à chave, apareceu estremunhado, a face inchada, gordinho, em camisa, mostrando o peito cabeludo e grisalho, medonho. — É a sua mulher, a sua filha — disse Artur que odiou nesse momento aquela figura roliça e imbecil. Videirinha fez um grande gesto: — Fale baixo, amiguinho! A Mercedinha está a dormir! Veio muito cansadinha! Que querem elas, que querem elas? Nem pode uma pessoa gozar a vidinha em sossego! — Querem um pedaço de pão — disse Artur, que sentia desejos de o esbofetear. O Videirinha coçou a calva. Parecia furioso: deu uma punhada colérica na coxa e em bicos de pés entrou no quarto. A janela cerrada tinha as frestas desenhadas pela luz de fora; na penumbra, vagas brancuras de saias destacavam-se, e saía de dentro um cheiro a abafado, a pó-de-arroz e a deboche. Videirinha, sempre em bicos de pés, voltou então, meteu quatro tostões na mão de Artur e agarrando-lhe a manga, ao ouvido: — Veja se as empurra para fora, amiguinho! Que se a Mercedinha sabe! E ela então que embirra com cenas! Está a dormir como um anjinho... Viemos do D. Maria às três horas. Fomos cear ao Mata... E com a pinguinha do champagne, ela ficou!... Ah, que noite, amiguinho, que noite! E puxava-lhe pela manga, ávido de contar... Artur desprendeu-se, enojado. Quando a mulher, em baixo, recebeu os quatro tostões, teve-os um momento na mão aberta, com um sorriso amargo. Às faces pálidas da filha subiu uma cor de vergonha. — Eu sinto... — balbuciou Artur. — Deus lho pague –. disse ela simplesmente. — Chega para um bocado de pão. Manuel passava reflectidamente a mão pelo queixo: — Já usted vê! O Videirinha tem bom fundo... É baboso pela pequena, é o que é.

Sem uma palavra as duas mulheres cumprimentaram Artur, e muito juntas, como para se esconderem uma na outra, encolhidas nos seus pobres vestidos negros, desceram sem ruído. Artur subiu ao quarto, empurrou as portadas abertas da janela, como se a presença de outras fachadas, da rua, da cidade, lhe causassem asco. Despiu com nojo o fato amarfanhado do baile e da cama da outra — e daí a pouco, prostrado, dormia. Quando acordou, o quarto estava escuro, como se, fora, já tivesse caído o crepúsculo: havia um grande silêncio no hotel. Então, vindo do lado do Rossio, ouviu um rufar de tambores, compassado, monótono, em que se sentia o crepe que os cobria. Escutou, meio erguido: o som, distante, parecia adiantar-se muito devagar; instrumentos de metal, como que velados pela distância, ressoavam em compassos lentos de marcha fúnebre. Aquilo vinha com uma lentidão aparatosa de funeral. E então, de repente, pensou na tia Sabina, lá longe: talvez àquela hora um enterro pobre saísse da casa, com a cruz alçada adiante, e o caixão curto da velha pequenina levado pelos irmãos da Misericórdia!... E ele sem um real para partir! Os sons fúnebres aproximavam-se. Saltou da cama, cobriu-se à pressa e correu à janela: uma tarde parda, enevoada, triste, pesava sobre a cidade. Gente vestida de escuro debruçavase pelas varandas; e ao longe, no Rossio, negrejava uma multidão. No espaço livre da rua, lajeado de pedrinhas miúdas, duas fileiras de tochas, de chamas tristes na tarde nublada, caminhavam em préstito; tons roxos de opas sucediam-se, e ao fundo, com um balanço leve, a impulsos ligeiros, uma cruz negra, com um enorme Cristo branco crucificado, adiantava-se, alta no ar: distinguiam-se os longos cabelos lúgubres caindo sob a coroa de espinhos, a toalha alva enrolada à cinta... E sem cessar, com tonalidades sombrias de tambores, a marcha fúnebre, abafadamente, ressoava. Era a Procissão de Cinzas. Então a troça pandilha do Casino flamejou um momento na sua memória: teve como que a sensação funerária de uma grande penitência espalhada na cidade ainda quente do deboche do Entrudo, nas fachadas ainda mascaradas de ovos, nas faces ainda amarelas das noitadas, no ar, onde devia flutuar ainda a poeirada fina dos cartuchos de pós. Na sua sacada,

em baixo, a Mercedinha, com uma manta vermelha pela cabeça, ajoelhava compungidamente. Então sentiu o desejo de se entristecer também, de se misturar ao arrependimento da cidade, de receber de perto as emanações expiatórias dos andores e das tochas. Enfiou à pressa um paletot, calçou os botins, e quase correndo, foi postar-se à esquina, penetrando na massa de gente. O pálio roxo passava entre lâmpadas erguidas alto; de— baixo, um grupo, onde reluziam oiros de capas e branquejavam sobrepelizes, adiantavase com pompa entre um fumo leve de incenso; os compassos funerários da marcha espalhavam-se na tarde triste, sobre as cabeças curvadas da população ajoelhada. E Artur, dobrado, penetrado de um vago terror, sentindo passar alguma coisa de Deus, pediu do fundo da sua alma, seguindo com os olhos o Cristo crucificado, que a tia Sabina não morresse! Nessa noite foi ao «Século» procurar Melchior. Tinha uma pressa inquieta, aflita, de deixar Lisboa. A cidade causava-lhe horror, e aspirava a Oliveira de Azeméis, como um homem prostrado de cansaço e enlameado da jornada aspira ao recolhimento do seu quarto e ao conforto das suas chinelas. Se Melchior não lhe pudesse dar as dez libras que lhe devia, ao menos que o ajudasse a arranjar dinheiro num agiota! Melchior porém não estava: escrevera ao Esteves que não podia vir naquela noite. — Há-de estar ainda a cosê-la — disse o Esteves, interrompendo o seu eterno assobio. Artur foi a casa dele: a patroa, uma bela pessoa de quarenta anos, «não vira o Melchiorzinho desde o Sábado Gordo». — Ainda cá não pôs os pés, nem para mudar a camisinha do corpo! Então Artur, de um café, escreveu uma carta a Meirinho, em que lhe pedia, com circunlóquios afectuosos, o pagamento das dez libras que lhe emprestara. E ele mesmo foi levá-la ao porteiro do Universal, que pareceu admirado de o ver: — Então por onde se tem andado? — Estive fora — disse Artur. — Pois está mais magrinho! Está mais magrinho! Ao outro dia voltou ao «Século». — Ainda se não dignou aparecer — disse-lhe logo o Esteves.

Artur sentou-se a esperar por ele, lendo os jornais, ao pé da janela. Lembrava-se vagamente de uma outra manhã, havia meses, em que naquela mesma cadeira esperara também, enquanto Melchior fazia rascunhos de locais! Ele estava então em toda a vibração da esperança: chegava de Oliveira de Azeméis, ia ser célebre pelos seus poemas, ia encontrar-se com a linda senhora do vestido de xadrez, a vida era-lhe fácil, larga, doce — tinha no seu baú, em bons cartuchos, um conto de réis, e, de longe, a amizade da tia Sabina seguia-o... Pobre tia Sabina que, agora, agonizava sem que ele tivesse sete mil-réis para correr a dar-lhe o último beijo! Como tudo mudara! Até o tempo — que nessa outra manhã era luminoso e vivo, e agora aparecia nublado, pardo, lúgubre como o seu coração! A porta abriu-se e o Saavedra entrou: remexeu negligentemente os jornais, compondo com as mãos calçadas de luvas verdes os vidros da luneta. Teve um adeusinho com os dedos para Artur e passou para o seu gabinete. Ah! Não mudara, aquele! Tinha sempre a mesma face balofa, satisfeita, o mesmo peitilho de camisa lustroso e importante — e seguia na vida imperturbável, contente, escrevendo todas as noites as mesmas banalidades, as mesmas mentiras, naturalmente feliz, como o pintassilgo que chalrava na janela fronteira. — O Melchior tarda — disse Artur. E saiu, resolvido a procurar o Meirinho. Mas não ousava entrar-lhe pelo quarto a pedir-lhe as dez libras. Foi primeiro ao Espanhol ver se tinha respondido à sua carta humilde. Não respondera. Voltou ao Chiado, muito infeliz. Foi duas vezes quase até à porta do Universal, mas um acanhamento enleava-o: adiava — e enfim, reflectindo, para se animar, que a tia Sabina contava os minutos, já à beira da morte — decidiu-se a entrar, muito nervoso. Perguntava por ele ao porteiro quando o viu descer a escada, com o peito alto, a barba correcta, um ar de benevolência, as abas do paletot forrado de seda deitadas para trás, vergando a badine, as mãos muito apertadas em luvas claras. Apenas viu Artur, parou, numa hesitação curta, mas logo, adiantando-se para ele, sem transição, com a fisionomia grave:— Sinto que o cavalheiro se tivesse incomodado por uma bagatela. Nunca imaginei que eu lhe inspirasse tão pouca confiança...

Artur acudiu: — Pelo amor de Deus! Não é isso. E que estou sem vintém. Quero-me ir embora, a minha tia está muito mal... Meirinho teve um sorriso incrédulo, amargo: — Percebo perfeitamente. Receou perder a sua conta... — Fitou o chão, e com uma voz quase solene: — Tenho quarenta e cinco anos, tenho vivido no estrangeiro, tenho visto tudo, sou conhecido — e nunca sofri uma afronta... — Pelo amor de Deus, Meirinho! Acredite. Eu, era só... Meirinho curvou-se: — Bem, se não foi com intenção ofensiva, se foi irreflectidamente, dessas coisas que se fazem à toa, sem antever as consequências — perfeitamente. Não falemos mais nisso. Somos amigos, jantámos muito tempo juntos, fomos ambos à Sociedade — quero conservar de si boas recordações. Não falemos mais nisso... Então, divertiu-se no Carnaval? — Sim — disse Artur muito vexado — sim, diverti-me. Meirinho passou a mão pela barba e com as pálpebras meio cerradas: — Tivemos uma deliciosa soirée costumée em casa da Sra.ª Marquesa de Folhes. Deliciosa!... Eu fui de Henrique IV. Fizeram-me o favor de apreciar, de elogiar. Fazem— me o favor de me estimar... E ia andando para a porta. Artur, enleado, vermelho, não ousava agora falar em dinheiro. — Apareça — disse-lhe Meirinho, acendendo o charuto ao fósforo que lhe oferecia o guarda-portão: — Apareça! O Padilhão tem uma imitação nova, soberba! O Gato de Telhado, uma obra-prima! E desceu a rua, a cabeça alta, o peito erguido, vergastando o ar com a badine. Artur já não podia partir essa noite se não encontrasse o Melchior! Outro dia perdido! Por um hábito antigo, deteve-se um momento à porta do Baltresqui: defronte, estacionava um cupé, com um cocheiro grave, correcto, de casacão branco; imóvel junto à portinhola, um trintanário, muito vermelho, acariciava as luvas escuras. Uma senhora comia

ao balcão, limpando com o lenço migalhas de folhado: era baixa e grossa e parecia grávida. Quando voltou para o cupé, o caixeiro seguia-a com um embrulho de papel pardo. Uma pobre, então, adiantou-se com a magra mão entendida, uma criança embrulhada no xaile preto: e enquanto a senhora grossa lhe dava dez-réis com um gesto de nojo, Artur pôde verlhe as feições: era tão trigueira que parecia mulata, e na sua carinha pequena, de traços amarfanhados, torcidos, os olhinhos pareciam apenas dois buraquinhos negros. Içou-se para o cupé com dificuldade — e a parelha trotou, subindo o Chiado. O caixeiro, que ficara à porta cumprimentando, disse então alto, para dentro, para o balcão: — A charlote russe, às cinco horas, para a Sra.ª Baronesa... A S. Bento. Artur teve um sobressalto: — Perdão — disse, pondo a mão no braço do caixeiro: — Quem é esta senhora? — E a Sra.ª Baronesa de Paradas, que mora em S. Bento. Ficou petrificado. Oh! E fora àquele bicho que enviara o seu livro de versos! Fora para a janela daquele monstro que ele mandara toda a sua alma, na adoração dos seus olhos! Eram as paredes da sua horrível casa que lhe tinham feito bater tão docemente o coração! Caiu-lhe na alma todo o vexame da sua existência: achou-se grotesco — e por falta de sete mil-réis não podia fugir, livrar-se daquela estúpida cidade, onde tudo o torturava agora! Então, num desespero, voltou ao «Século». Pisava o lajedo da rua com raiva; tinha vontade de empurrar, maltratar as pessoas que passavam ao pé dele com ares pacíficos e satisfeitos! Odiava agora Lisboa, de um ódio múltiplo, pueril, absurdo. Chegou esfalfado ao «Século». O Melchior ainda não aparecera. — Eu, a minha ideia — disse tranquilamente Esteves — é que o homem está no Limoeiro! Veio-lhe então uma fadiga enervada, uma indiferença hostil. Veria sem pestanejar perecer a humanidade. Voltou ao hotel, e jantou só, lugubremente, diante dos dois espanhóis tenebrosos. À noite, saiu sem destino. Não tinha dinheiro... nem para tomar um café!

Vendo o Teatro de D. Maria iluminado, foi errar um momento no peristilo: leu os cartazes, bebeu um copo de água no botequim e saía com as mãos nos bolsos, cabisbaixo, quando passou diante dele, rápida, uma senhora pequenina, com uma capa branca de teatro, uma grande cauda de seda escura. Reconheceu-a logo: era Ela! Era ela, a senhora do vestido de xadrez! Atrás, com a gola do paletot erguida, vinha o marido, o do bigode loiro, com o leque, o binóculo, um ramo de flores. Exaltado, viu-a subir para as frisas — e então, com a sensação dolorosa de uma facada, veio-lhe a ideia de que nem tinha dinheiro para um bilhete! Rangeu os dentes de raiva! Mas talvez o Melchior já estivesse no «Século». Galgou a rua, arquejando. Não estava... Nem o Esteves, nem o Saavedra, nem ninguém a quem pudesse arrancar cinco tostões! Desceu, como uma pedra que rola, até ao Espanhol, para pedir ao Videirinha. O Manuel, assobiando, levantava a mesa. — O Videirinha saiu agora mesmo. Já usted vê! Pensou que a dona do hotel poderia bem emprestar duas placas a quem gastava ali centos de mil-réis! Perguntou por ela. — A senhora? A senhora está para o Campo Grande com a cunhada. Então, desesperado, Artur perdeu o pudor, e chegando-se ao Manuel, pondo-lhe a mão no ombro: — Oh, Manuel, tu tens aí quinze tostões? O Manuel abriu os braços, desolado: — Nem um chavo. Tinha dois mil-reizitos, mas dei-os agora mesmo ao Videirinha, para ir à batota. Já usted vê! Se não estava às ordens! Já usted vê! Maldição! Veio-lhe uma ideia: ir ao Férin, ao livreiro, onde o conheciam, ver se tinham vendido alguns exemplares dos Esmaltes e Jóias. Quando chegou, iam fechar a porta, e com a face abrasada de vergonha, interrogou baixo, à parte, o caixeiro. A sua voz ansiosa revelava tanta necessidade que o caixeiro deu-se a um grande trabalho, procurando nos livros, desejando encontrar alguns assentamentos; e foi com pesar que o bom rapaz lhe disse: — Não, não se tem vendido nenhum... Também, têm sido dias de festa...

Voltou ao «Século», pela quarta vez, já envergonhado. Na redacção deserta o gás ardia silenciosamente. Então, suado, sem respiração, com os pés doridos, voltou ao D. Maria. Talvez estivesse alguém conhecido nos camarotes, ou encontrasse o Meirinho, o Padilhão, o Carvalhosa... Pediria dinheiro fosse a quem fosse, mesmo ao Roma! — porque agora, não a podendo ver, afigurava-se-lhe — o quê? tinha a certeza! — que se ela o fitasse um momento o havia de reconhecer, e todo o seu destino mudaria! O amor dela tornar-se-ia a sua força, o seu fim, a sua direcção: voltaria a Lisboa com os seus quinhentos mil-réis, refugiar-se-ia numa trapeira, gastando-os avaramente, tostão a tostão — e trabalhando, fazendo uma grande obra, furaria! E a sua consolação única, naquela existência pobre e laboriosa, seria alguma carta recebida, um olhar de longe, no Chiado, ou uma entrevista rápida, um beijo fugitivo — como outrora Rafael e Elvira! Oh, devia vê-la, com todos os diabos! O segundo ato começara quando ele foi, humildemente, pedir ao porteiro das cadeiras se lhe dava licença de entrar um momento «para ver um camarote». O homem, grave, no seu boné de galão, abriu o batente verde — e Artur viu-a logo, numa frisa defronte, com o seu perfil pálido e doce que o vestido escuro tornava mais tocante. Todo o seu antigo amor se precipitou na sua alma, agitando todas as sensibilidades passadas, como uma rajada que entra numa sala, agita os papéis, as bambinelas, as franjas do pano da mesa, e dá a tudo uma vibração viva. Ela trazia um medalhão sobre o peito! Uma madeixa fofa, leve, caía-lhe sobre a testa de um polido de marfim! E os seus olhos grandes, doces, negros, fitavam-se sobre o palco. Eram aqueles olhos que ele queria que se voltassem para ele: fixava-os, atraía-os, magnetizava-os, mas eles não se moviam, pregados numa horrível criatura de vestido de seda amarela, que torcia os braços no palco, com esgares de boca. Então sondou a plateia com um olhar que adquirira uma sensibilidade extrema, procurando ansiosamente uma face amiga, conhecida. Ninguém. Nos rostos vagamente pasmados, só descobriu o velhote, que em casa de D. Joana Coutinho lamentava a irreligião das massas. — Viu? — disse o porteiro, baixo. — Um momento — suplicou Artur. E fitou-a ainda, com toda a alma nos olhos! Oh, por piedade, que se voltasse um

momento! Era a paixão, o sacrifício, o amor, a fé — tudo o que há de doce e elevado — que ali estavam a um canto, por trás do braço do rabecão, a implorar uma coisa bem simples: — que voltasse devagar os olhos para ele. Mas não os voltou. O monstro do vestido amarelo dava brados medonhos. E ela admirava-o, o seu corpete arfava, enquanto o marido, ao lado, catava um a um os pelos do bigode. — Então, viu? — disse o porteiro impaciente. — Obrigado, vi. Saiu alquebrado, envelhecido. Foi devagar para o hotel, subiu ao seu quarto. E só então, de repente, se lembrou que podia ter levado algum fato a uma casa de penhores! Mas era tarde, sentia-se prostrado, enervado, com um tédio de tudo, um desejo de dormir muito tempo, infindavelmente, numa imobilidade de morte! Atirou-se para cima da cama — e, vencido, começou a chorar baixo, com a cabeça enterrada no travesseiro! Ao outro dia, enfim, encontrou Melchior na redacção do «Século», que, com o ar compenetrado de uma felicidade secreta, torcia com satisfação os enormes bigodes. — Onde esteve você, homem? — gritou-lhe Artur. — No choco — disse Melchior. E não quis dar explicações. Quando Artur lhe contou as suas aflições e que queria partir por força nessa noite, Melchior moveu os beiços e coçando a cabeça: — Homem, eu não tenho agora as dez libras... — Não falemos nisso, Melchior. O que eu quero, é alguém que me vá pôr no prego uns fatos, as pistolas do Meirinho... — Pronto, pronto! — exclamou Melchior agarrando o chapéu. — Se é isso, pronto. Vamos ao Chiado procurar o Rei-Bamba! Mas não o encontraram: um rapazola coxo disse-lhes que devia estar no Baldanza; foram lá, mas o Gregório, sempre exagerado, jurou pela honra da sua mãe que o Rei fora ao Largo de Camões fazer um recado. No Largo de Camões um cocheiro afirmou tê-lo visto subir — e por sinal, bem torto! — para a Rua de S. Roque. Apanharam-no ao pé de S. Pedro de Alcântara, inteiramente bêbedo, mas grave, misterioso, de falas sepulcrais, escutando com um ar

profundo. Prometeu ir ao Espanhol daí a meia hora, buscar a trouxinha. Foi muito pontual — e vinha mais bêbedo. Levou o robe-de-chambre de veludo, a casaca, o binóculo, as pistolas — tudo metido num saco de roupa suja. Melchior e Artur foram esperá-lo para a porta da Áurea. Quando voltou, passados três quartos de hora, já não podia falar, mas equilibrava-se com dignidade e depositou misteriosamente na mão meio aberta de Artur, um cartucho com onze mil-réis. Recebeu a espórtula e saiu devagar, acabrunhado. Então, quando sentiu o dinheiro na algibeira, Artur teve subitamente uma vaga saudade enternecida de Lisboa, da vida que deixava. A cidade, coberta de um bom sol, com os seus cartazes nas esquinas, as lojas dos livreiros abertas, as carruagens rolando, parecia-lhe ser o único lugar possível para uma existência inteligente: se não conseguira chamar a atenção da senhora do vestido de xadrez na véspera, poderia ser mais feliz outras vezes! Nunca o Melchior lhe parecera tão afectuoso; e achava, de repente, nas fisionomias que passavam, um vago tom inesperado de simpatia. Comovido, disse: — Ao menos, pela última vez, jantemos juntos,, Melchior. O localista só então pareceu compenetrar-se de que Artur partia realmente. Enterneceu-se. Que ferro! Quando eles começavam a entender-se, a travar amizade, a estimar-se! Foi ele mesmo ajudá-lo a fazer a mala, a embrulhar as botas em jornais. Em baixo, no quarto da Mercedes que tinha a janela aberta, alguém tocava guitarra. Melchior deu um olhar às paredes, aos móveis e pensando decerto na Concha: — Ah, quartinho, quartinho! Artur que acamava com cuidado a sua sobrecasaca azul, suspirou: reunindo agora os objectos dispersos pelo quarto, recebia de cada um a recordação brusca de uma felicidade: um programa do Price lembrou-lhe a primeira noite em que lá fora, para se encontrar com a Concha que viera na companhia da Paca — ainda então não viviam juntos, e amavam-se! Um colarinho da Concha,, trouxe-lhe quase as lágrimas aos olhos: guardou-o devotamente a um canto do baú. E depois,. eram cartas do impressor, o bilhete-de-visita de D. Joana Coutinho, velhos pares de luvas gris-perle!...

O jantar no Cruz foi triste. Que diferença do primeiro jantar no Universal! E vinham-lhe outras recordações daquele Inverno: a pândega ao Clube, as noites de S. Carlos, nas torrinhas, com a Concha... Artur sentia a garganta presa.. E Melchior, lúgubre, só repetiu o paio com ervilhas, porque, disse — «era um prato que lhe fazia bem à alma». — Mas você volta, Artur? — Se o drama for, venho aos ensaios! Como, se o drama for? Isso ficava por conta dele! E Melchior batia compenetradamente no peito. E que não largava mais o empresário! Em quinze dias lá tinha uma resposta em Oliveira de Azeméis! — E de resto, se sua tia morre e lhe deixa a cheta, temo-lo cá outra vez... Artur não hesitou em dizer, que, nesse caso, estabelecia-se em Lisboa. E pensava na pobreza da tia Sabina, triste, doce criatura, que o que tinha era coração! — Lisboa, amigo — disse Melchior resumindo — é o consolozinho da alma! — E escorropichou o copo de termo. Vieram ao Largo de Camões tomar uma tipóia para os levar a Santa Apolónia. O cocheiro era ainda o Teso. — Para o Clube, meu amo? — exclamou logo. — Não; para o Espanhol — disse Artur, satisfeito de ver que o Teso o reconhecera; e aquilo aumentou a sua saudade de Lisboa. O Chiado, muito claro, estava na sua hora viva, e Artur, direito no assento, ia devorando com os olhos os lugares que amava: a Casa Havanesa, a janela do seu quarto, lá em cima no Universal — que ferro ir-se! — e o Baltresqui, com os lunchs às duas horas, e o Godefroy, onde comprava frasquinhos de feno para a Concha! Ah! O cartaz de S. Carlos fez-lhe morder os beiços de comoção: revia o lustre, o largo palco, os coros; outras carruagens passavam, com librés, indo para lá! — E ele partia!... — É verdade — disse de repente Melchior — que fez você com a francesa? — Não sei, homem. Achei-me ao outro dia com um diabo de uma criatura que nunca tinha visto. E você?

Então Melchior estendeu os pés no assento da frente e encolheu-se com gozo, sem responder. — Diga lá, que fez você? Melchior, imóvel, soprava o fumo do charuto, numa ruminação túmida de gozo. — Diga lá, que diabo! — Regalei a caminha! — soltou por fim. Mas tinham chegado ao Espanhol. Artur subiu ao quarto — e enquanto o Manuel descia o baú, ficou um momento imóvel, olhando as paredes, o leito onde dormira tantas semanas com a Concha, a varanda onde ela tanta vez se encostara, o espelho diante do qual o Pancho remexia as suas tranças negras. — Acabou-se! — disse por fim, descendo. Quis despedir-se do Videirinha, mas Manuel disse-lhe «que ele fora à batotinha». Artur então pensou em lhe deixar um bilhete-de-visita; mas lembrando-se das duas mulheres de negro no patamar da escada, meteu rapidamente o bilhete no bolso. — Quer usted que eu lhe diga alguma coisa? perguntou o Manuel. Artur respondeu: — Dá-lhe dois pontapés no abdômen! Manuel vergou-se, mastigando uma risadinha. Estava todavia sentido pela partida de Artur — e quando ele ia a entrar para a carruagem, não se conteve, tomou-lhe a mão e sacudindo-lha: — Já usted vê! Quando usted voltar, tem cá a bela amizade! Artur ainda deu um olhar à janela do seu quarto, em cima, e o Teso bateu. Quando chegaram a Santa Apolónia teve apenas tempo de comprar o bilhete para a bagagem e correr para a plataforma. Faltavam dois minutos no relógio transparente. Então Artur, depois de acomodar a maleta, estendeu os braços a Melchior: — Adeus, meu velho! Melchior apertou-o, comovido, beijou-o na face. A tanta simpatia, os olhos de Artur arrasaram-se de lágrimas. Sacudiam-se desesperadamente as mãos, com palavras trêmulas!

— Para a vida e para a morte! — Obrigado, obrigado! Um homem de boné agaloado passou: — O comboio vai partir, meus senhores! Artur, com os olhos cheios de lágrimas, precipitou-se para a carruagem. — E vá-me ao empresário, Melchior! — Amanhã! Logo pela manhã! Mas o comboio não partia: gente chegava correndo; carretas de bagagem rolavam; soldados equipados, de mochila, embrutecidos, procuravam uma terceira classe; um eclesiástico parecia doido, vagueando ansiosamente com uma chapeleira de cartão azul na mão; e sem descontinuar, adiante, na sombra, a máquina resfolgava. Melchior, com a mão apoiada à portinhola, mascava o charuto. Não falavam — numa vaga impaciência de se separarem enfim. Artur pensava confusamente na sua partida de Oliveira de Azeméis, nos adeuses de Rabecaz e parecia-lhe já vê-lo na Corcovada, debruçado sobre o bilhar, de perna no ar, dando carambolas catitas. A máquina silvou. Apertaram-se ainda as mãos, nervosamente: — Adeus! — Adeus! — Não esqueça o empresário! — Amanhã! — E escreva! — E você! O comboio rolou devagar. E então Artur, debruçando-se ansiosamente fora da portinhola: — Oh, diabo! Oh, Melchior! Você trouxe o embrulho? — O embrulho? — Ah, o embrulho! — Remexeu nas algibeiras e correndo ao comprido do comboio cuja velocidade aumentava, estendeu um embrulho a Artur, que o arrebatou

sofregamente. Eram dois pares de luvas pretas e um plastron negro que comprara nessa tarde, e que levava para Oliveira, para usar coisas chics, coisas de Lisboa, no luto da tia Sabina.

1/1
Menu

Fazer anotação