Capítulo VIII A Capital · Capítulo 8 de 10
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Capítulo VIII

No primeiro dia, quando desceu à sala de jantar do Espanhol a buscar charutos – Artur encontrou os mesmos hóspedes que o habitavam, meses antes, à sua chegada a Lisboa. Lá estava a espanhola bonita e gordinha, com o seu robe-de-chambre escarlate e o homem calvo, de cachaço grosso e rostinho vermelho, vendo-a comer, extático, com olhinhos beatos e chorosos. Os dois republicanos espanhóis sentavam-se no mesmo lugar, cabisbaixos, as capas ao ombro, mais pálidos, mais tenebrosos. Havia, de novo, um homenzarrão barbudo que parecia um contratador de gado, e um sujeito de óculos azuis e nariz agudo, que devia ser tabelião na província. E em volta da mesa, com a travessa do cozido, o Manuel — o Manuel que tanto desesperara Artur, outrora, lastimando-lhe as botas rotas — arrastava as chinelas, esguio, amarelo, com a sua cabeleira seca, cor de rato e esguedelhada. A mesma gaze cor-derosa protegia o caixilho doirado do espelho, e Prim, inalteravelmente, levantava ao ar a sua bandeira, desfraldada. O Manuel pareceu satisfeito de ver Artur: — Então, usted, hem! Ora usted!... — dizia-lhe, enquanto Artur escolhia os charutos. — Então por onde andou usted? — A viajar — disse Artur. — Ora usted! E a comidinha às sete, hem? Usted será bem servido! Para evitar a mesa redonda, tinham tomado, ao pé do quarto de dormir, outro quarto, que, tirada a cama, fora improvisado em sala de jantar. A cômoda servia de aparador; e para dar alegria e conforto, tinham-lhes dependurado um canário defronte da janela. As primeiras semanas foram deliciosas. O Inverno ia muito doce e luminoso e sucediamse os dias de sol, num grande azul, de onde caía um calorzinho suave e uma alegria macia. As varandas, que deitavam para a Rua da Prata, alegravam o quarto. Era a primeira vez que Artur vivia com uma mulher em intimidade conjugal; as mais

pequenas coisas: a goma das saias, os atacadores do colete, os bordados das camisinhas, interessavam-no como revelações; admirava cada vez mais «a sua Conchazinha», achando um gozo raro em cada um dos seus movimentos. Nos atos mais insignificantes — quando lavava os braços nus, quando esticava as meias nas pernas ou enfiava uma fita cor-de-rosa nos passadores da camisa — encontrava o sabor inesperado de uma voluptuosidade nova. Rondava em volta dela com uma curiosidade devota, ora interessado pelos cabelinhos da nuca, ora pela forma das unhas, ora por certo requebrar da cintura; não amava os seus olhos com o mesmo amor com que amava os seus peitos ou as suas orelhas pequeninas, porque cada parte do seu corpo, como se fossem personalidades diferentes com influências especiais, lhe inspirava um entusiasmo particular. Melchior definira-o como um baboso e punha nesta expressão um fundo de inveja e de vago despeito. Como a Concha era muito preguiçosa, levantavam-se tarde. Ordinariamente almoçavam na cama: uma criada que falava um espanhol misturado de português e que depressa se tornara a íntima da Concha, trazia o almoço «aos pombinhos», às onze horas. E era para Artur uma delícia todas as manhãs renovada, ver a Concha com os peitinhos ao léu, um casabeque de flanela escarlate pelos ombros, mover sobre o tabuleiro os braços brancos e partir os ovos quentes delicadamente com o gume da faca, arrebitando o dedo mínimo: depois, no choco da roupa quente, corpo contra corpo, saboreavam um cigarrinho. Artur cada dia lhe achava as maneiras mais senhoris. Mesmo nos ardores amorosos, tinha uma reserva de dama. Ao deitar-se, nunca lhe dava um beijo sem primeiro fazer o sinal da Cruz: assim se vê um livro de orações sobre a cômoda de um lupanar. Artur atribuía estas delicadezas às suas convivências ilustres e não se fartava de lhe ouvir a história dos seus amores com o conde ou visconde carlista: interrogava-a mesmo sobre a maneira como ele a amava, a abraçava, se lavava, gostando de penetrar nos detalhes íntimos de uma vida aristocrática e de beijar a boca onde se tinham pousado os lábios de um Grande de Espanha; contudo sentia uma satisfação íntima em o saber enterrado nalgum desfiladeiro das montanhas de Navarra. Pelas duas horas vinha o Pancho, o cabeleireiro, penteá-la: era um gordalhufo, amarelo

como um limão, de bigodes negros como tinta; usava a mesma camisa de chita, de colarinho muito decotado, quatro, cinco semanas a fio; e manejando, com as suas mãos papudas e moles de pomada, os longos cabelos negros da Concha, conversavam — tratando-se por tu por serem do mesmo pueblo. Eram sempre histórias de outras raparigas espanholas a quem Pancho construía os altos penteados — o que fazia a Trina, o que dissera a Angelita, quem era o querido da Lola... Como falavam no rápido acento andaluz, em calão, Artur não os compreendia e aquele tu familiar do cabeleireiro irritava-o surdamente. Mas a Concha não podia dispensar o Pancho, porque não se sabia pentear. Não sabia, de resto, fazer nada, nem pregar um botão, nem dar uma passagem: quando tentava pegar numa agulha, tinha logo dores de cabeça. Cada dia Artur se surpreendia mais com aquele temperamento: ora tinha rajadas de animação, e então agitava-se pelo quarto, batendo os móveis com as longas saias muito engomadas, abrindo e fechando as janelas, arrumando e desarrumando a roupa nas gavetas, cantarolando, batendo as palmas sem razão, toda petulante de vida animal; ora, embalando-se numa cadeira de baloiço, com o corpo mole, os braços descaídos, abandonada numa madracice vaga, os olhos meio cerrados, fumava infindáveis cigarros; ou então, sentada em cima da cama, encruzada como uma turca, o pezinho numa das mãos, a face murcha, parecia um bicho entorpecido, nos fins do Inverno. Mas animava-a sempre a presença de Melchior. Ele vinha geralmente de tarde, entrando com rompante jovial, trazendo um espalhafato pândego àquele quarto amodorrado. Tornarase imediatamente o «amigo íntimo». A Concha beijava-o diante de Artur, que sorria, tranquilo, confiado: na sua ignorância das mulheres, não sentia ciúmes, porque a Concha lhe dissera um dia «que o Melchior era muy feo». Ele, de resto, afectava com ela um modo paternal, fazendose velho, dando-se ares de avô; dava-lhe lições de guitarra, fazia-lhe recados, ajudava-a mesmo, às vezes, a laçar as botinas, com as mãos trêmulas que se demoravam com gulodice nos tornozelos finos da rapariga. Artur, sossegado, deixava-os sós, saía; e se um vago ciúme o remordia na rua, tranquilizava-se ao entrar, abrindo a porta do quarto com um imprevisto intencional, encontrando-os muito longe um do outro, numa atitude indiferente, ela, baloiçando-se com um bocejo pálido, ele, muito vermelho, ferindo os bordões da guitarra.

Ultimamente, Melchior tomara o hábito de vir jantar com eles; ia então abaixo combinar com o Manuel petiscos espanhóis: arroz à Valenciana, bacalhau à Biscainha... À mesa, Artur, a quem era difícil falar espanhol, refugiava-se num silêncio extático, olhando a Concha com um ar beato. A conversação de Melchior parecia-se com a do Pancho: eram os mesmos can-cans sobre a Lola, a Trina, a Angelita, os queridos. A Concha parecia considerar Melchior como da «sua gente», conhecedor das pequenas, ao facto dos segredinhos e das concubinagens; tinham simpatias comuns, de uma baixeza igual; Melchior era um amigo dos lupanares: conhecia-lhes o estilo, os hábitos, as preocupações. A Concha, por vezes, respondia bruscamente a Artur quando ele se queria introduzir naquelas conversas, «que ele daquilo não entendia nada». Afirmara-lhe mesmo que só o Melchior é que «sabia tratar com espanholas». Por isso, quando ele não estava, parecia aborrecer-se. A maior parte do tempo passavao à janela, muito vestida, cheia de anéis; conhecia já todos os vizinhos de vista, as lojas, a cor dos cabelos dos caixeiros. Artur ia de cadeira para cadeira, com um livro que mal lia, o charuto nos dentes, satisfeito de a ver, gozando a presença do seu corpo bonito. Ela, às vezes, por bondades que lhe vinham, e com a seriedade forçada de quem cumpre um dever, procurava falar-lhe das coisas que julgava o interessariam; e como o sabia escritor, conversava sobre política. Mas as suas opiniões desolavam Artur: admirava muito um poeta de que ninguém ouvira falar, um certo Lopez que ela conhecera e lhe fizera versos; depois, dizia-se Isabelista, chamava pilo a Castelar, ladrões aos republicanos. Artur queria argumentar, educá-la, mas faltavam-lhe as frases espanholas, tinha medo de a «secar» e limitava-se a sorrir com uma condescendência de grande homem. E todavia, admirava-a, achava-lhe talento, espírito: as suas expressões vivas, dando-lhe a surpresa do acento e da língua, pareciam-lhe sempre pitorescas e afligia-se que ela apenas soubesse soletrar, e só pudesse, em letras garrafais, assinar o seu nome. Para a divertir, à noite, ia aos teatros, ao Price, e Melchior acompanhava-os; nas noites mais tépidas passeavam até Belém de caleche descoberta: eram horas deliciosas para Artur, muito estendido no assento da tipóia, o braço pela cinta da Concha, o coração afogado de

concupiscência; defronte, o charuto de Melchior fumegava e os seus olhos, sob a aba do chapéu carregado para a frente, devoravam a Concha, muito branca na sua mantilha negra. E com camarotes, tipóias, jantarinhos, o dinheiro ia-se! O conto de réis que Artur trouxera, estava quase «devorado». Foi por isso que pensou em recolher o produto da venda dos Esmaltes. O revisor do «Século», encarregado de fazer o giro dos livreiros, voltou com 800 réis — preço de dois exemplares vendidos. Artur ficou aterrado, sucumbido. E julgando que devia haver engano, negligência, talvez maroteira do revisor, foi ele mesmo na manhã seguinte percorrer as livrarias. Porém, não se atrevia a interrogar, julgando-se conhecido e prevendo a resposta. Enfim, na Rua do Ouro, depois de folhear alguns livros, de examinar títulos, tomou um exemplar dos Esmaltes: abriu-o aqui, além, afectou interesse, perguntou o preço, pagou e recebendo o troco de uma libra, disse com um ar distraído: — Tem-se vendido muito disto? — E o primeiro — disse o homem retomando a pena para continuar a sua correspondência. E Artur saiu, embatucado, enrolando nas mãos nervosas o seu próprio volume. Acusou o público e a cidade de estupidez. Que admirava que uma burguesia embrutecida e de crânio mole fosse indiferente à Poesia e às ideias nobres? Ser poeta num mundo tão torpe era uma «chapada tolice». Quando um tal desdém espera as expansões preciosas das almas delicadas, elas devem refugiar-se numa mudez orgulhosa e triste. E o que ele faria, que diabo! Se pegasse na pena, seria para escrever algum dramalhão com bons direitos de autor, ou algum Rocambole bem pago e vendido às cadernetas! E o mais, regalar a Carne! E refugiou-se com desespero na posse da sua Concha. Já não lhe importava o dinheiro! Quando se lhe acabasse o pouco que tinha – Deus daria! Toca a extrair da hora presente todo o gozo, como o sumo fresco de uma laranja! E por uma petulância nervosa, comprou para a Concha um vestido de seda, dois chapéus, e decidiu satisfazer-lhe os desejos incessantes de luvas, rendas, fitas e frascos de perfumes.

A Concha, de resto, tinha uma mobilidade extrema de caprichos e de apetites: penava por uma sombrinha que via numa vitrina e depois de a usar com exaltação um ou dois dias, aborrecia-se, jurava que «lhe não ia bem». Artur encontrava muitas vezes na saleta uma velha de capote e lenço, grande buço, falas doces, muito cumprimentadora — que, apenas ele entrava, erguia-se, metia um cabazinho debaixo do capote, agachava-se numa mesura, ia buscar a um canto um enorme guarda-sol de seda tingida e saía subtilmente, ciciando: — Criadinha de V. Exª. A Concha acompanhava-a até ao corredor, fechando a porta sobre si, e ali ficavam a cochichar horas esquecidas; voltava, vermelha, dizendo que era uma mulher muito decente, que comprava vestidos e arranjava coisas muito baratas em segunda mão. — Mis cosas, mis cosas! Estava, com efeito, trocando constantemente objectos, pondo um par de brincos no prego para obter uma renda inútil, vendendo a renda para ter mais um par de meias de seda, toda tontinha de fantasias. E ultimamente para ir às lojas, segundo dizia, saía só de manhã e de tipóia. Um dia que aquelas passeatas o irritaram mais, Artur fez-lhe uma observação despeitada. A Concha voltou-se com a grande atitude de uma esposa ofendida, passou-lhe nos olhos negros como que o clarão de um tiro e de cabeça erguida, perguntou-lhe se a tomava por uma escrava! Era o resultado de viver com um português! E dos seus lábios descaídos escorria um desprezo imenso. Nunca o seu conde lhe fizera uma tal ofensa! Mas esse era um fidalgo, um homem que sabia amar e respeitar uma mulher. E deixando-se cair numa cadeira, começou a choramingar. Qué desgraciada era! Artur, aniquilado pelo seu grande ar, enternecido pelas lágrimas, prostrou-se de joelhos diante dela, jurou-lhe que ninguém a amava como ele... Que dispusesse da sua vida! Era capaz de casar com ela... Mas a Concha respondeu-lhe friamente que não imaginasse fazer-lhe uma grande honra. Já outras vezes Artur, nalgum momento de delírio mais expansivo, lhe falara em

casamento, mas de um modo gracejador, ligeiro, e aquela palavra tornava-a sempre muito séria. E um dia mesmo, ela confessara-lhe que vários homens ricos, de grandes nomes, tinham querido casar com ela: em Madrid, antes dela vir para Portugal, um marquês oferecera-lhe a sua mão e um palácio. — Que marquês? — Mi marquês! Aquele marquês que aparecia assim subitamente no seu passado — de que Artur julgava conhecer os episódios mais miúdos — irritou-o extraordinariamente. Exigiu a história dessas relações e a Concha acabou por lhe jurar que era um velho repugnante: por isso o recusara. Mas dias depois, deixou escapar, falando ainda do marquês — que se tornara um assunto sempre presente — que era um rapaz mui guapo. E acrescentou que a perseguia para que ela voltasse para Madrid. Artur concebeu então um ciúme grotesco pelo personagem: se a via macambúzia, supunha-a cheia de saudades do marquês; se a ouvia segredar com a criada, imaginava que eram recados do marquês: chegou mesmo a suspeitar que ele estivesse em Lisboa, disfarçado, para lha roubar e sentia que alguma coisa de funesto se tramava contra o seu amor. Um dia, mexendo numa gaveta dela, encontrou um lenço muito fino, com um monograma sob uma coroa. Enfureceu-se: uma coroa! De quem? — Mi marquês! — disse ela friamente. Artur, pálido, fez o lenço em tiras e ficou logo a tremer, receando uma rajada de cólera, um rompimento. Mas ela, tranquilamente, com uma serenidade de ser frágil martirizado, apanhou as tiras uma a uma, fazendo beicinho choroso, como uma criança que levanta os pedaços de uma boneca partida, uniu-as, beijou-as, contemplou-as murmurando: — Mi marquês, mi marquês! Daí a pouco Artur encontrou as tiras preciosas, esquecidas, arrastando-se entre a roupa suja. Aquilo serenou-o como uma prova de indiferença pelo marquês. De resto, se às vezes, de dia, os modos dela, as suas distracções, os seus amuos, os seus suspiros sem razão lhe

davam um vago ciúme — o fogo com que ela à noite o apertava nos braços nus, era como a evidência deliciosa do seu amor. E ia-se prendendo tanto a ela pela trama subtil do hábito, que já nem saía à rua. Não trocaria aquele quarto, com saias amarfanhadas por cima das cadeiras e trouxas de roupa enxovalhada debaixo da cama, pelas galerias do Vaticano; as paisagens do Paraíso não lhe dariam mais satisfação e enternecimento do que a contemplação das fachadas sujas dos prédios vizinhos. Havia ali, naquele espaço abafado, um cheiro de mulher, de pó-de-arroz, de dormido, que o deleitava, e, estirado na cama, com o cigarro na boca, ouvindo o Melchior tocar o fado e vendo a sua andaluza arrastar a saia, tinha horas regaladas de madracice, de torpor lascivo; o gemer da viola, o gingar da Concha, mergulhavam-no num sentimentalismo baixo e pandilha; estendia então os braços para ela, reclamava-a e os olhos cerravam-se-lhe numa voluptuosidade morna, sentindo-lhe por baixo do roupão a flexibilidade cálida da cinta sem espartilho. Não lia um livro, nem um jornal. Todo o movimento de espírito lhe era odioso, como se a alma fatigada, amodorrada na baixeza muito quente, no choco daquela vida de galo, se recusasse a toda a ascensão para alguma coisa de mais elevado. Quase lhe custava lavar-se, arranjar-se: o corpo comprazia-se-lhe na porcaria. E levantava-se da cama de chinelas, com um derreamento canalha do corpo, para ir para a mesa de jantar, onde ficava até às dez horas, bebendo com Melchior copinhos de genebra. Depois, vinham os fados, as malagueñas, e ele de novo estirado sobre a cama, de pernas abertas, num embrutecimento de bestialidade satisfeita, só erguia a voz para dizer num tom idiota, julgando-se «catita», vagas palavras espanholas que aprendera: — Vivan las niñas! Chiquita, no digas eso!... Aqueles dias de preguiça, porém, cessaram quando a Concha declarou que queria ir jantar à mesa redonda. Dizia que a aborrecia comerem ali, naquela saleta um pouco escura, sós; que ficava um cheiro de comida desagradável; que a sala em baixo pelo menos era alegre; que se via gente. Artur, contrariado, vendo naquele desejo uni começo de saciedade, apoiado pelo Melchior — que achava que não havia nada como «a pandegazinha ali à cachucha» — resistiu. Mas a Concha, ao outro dia, a cada prato que lhe apresentava o criado, tinha um gesto triste de recusa,. com um suspiro. Artur afligiu-se: que diabo, era uma criancice!

Ela declarou simplesmente que enquanto jantassem ali, naquele cacifo, jurara a Nossa Senhora da Atocha não tocar com os seus ricos beiços nem uma bucha de pão. Artur, furioso, exclamou: — Bem, Manuel! Amanhã jantamos em baixo! Ela saltou-lhe ao pescoço, recompensando-o com um beijo chilreado. O seu fim era humilhar a outra espanhola, a Mercedes. Há muito que se preocupava com aquela «colega», segundo a expressão faceta de Melchior. Sabia pela criada o que vestia, que roupa branca tinha, que forma de perna, o que lhe dava o amante, os namoros, tudo! E quando se certificou que possuía mais vestidos, melhores anéis, outro chic, decidiu «enterrála». Não lhe queria mal: desejava só fazê-la chorar de raiva! No dia em que foram jantar à mesa redonda, levou horas a escarolar-se, a experimentar vestidos, a perfumar-se; obrigou Artur a pôr muita pomada no cabelo, uma camélia no fraque, para parecer guapo, e tomando o seu grande ar de duquesa, desceu, com um ruge-ruge de sedas, pelo braço de Melchior. A pobre Mercedes, desprevenida, tinha o seu roupão escarlate, o cabelo mal penteado e, ao pé, o seu calvo, de colarinho enxovalhado, cocando-a com os olhinhos afogados de concupiscência. As duas mulheres atravessaram-se com dois olhares traspassantes como punhaladas; toda a cor do roupão de Mercedes lhe subiu às faces e a Concha, sentando-se com modos de princesa que se vê obrigada a comer numa taberna, encostou o cotovelo à mesa, a mão à face, com todas as pedras dos anéis dardejando sobre a outra. Durante todo o jantar fê-la desgraçada. Tinha maneiras enjoadas de tocar nos pratos, segredinhos para Artur, com olhares de tédio para a fealdade do calvo; falava a Melchior com império, como uma rainha a um cortesão, e a cada momento dava pancadinhas na manga do vestido, para fazer sentir a riqueza da seda. A outra não comia, petrificada: tinha mesmo repelido com uma fúria reprimida um gesto terno do calvo; e quando, a uma ordem da Concha, Artur pediu uma garrafa de champagne, ergueu-se, pálida de raiva, e saiu arrastando a saia, seguida do calvo, curvado, que apertava contra o peito as abas do seu chapéu branco com um ar lamentável. Ao outro dia, a Mercedes apareceu à mesa com um vestido de seda azul, de decote

quadrado, toda cheia de jóias, e duas camélias no cabelo. Nessa tarde, pela primeira vez, sentou-se à mesa um rapaz espanhol, muito bonito, de uma palidez deliciosa, olhares afogados numa languidez fluida, um buçozinho que parecia desenhado a tinta-da-china, janota, com o cabelo muito frisado e dois caracóis à capoul sobre a testa. Parecia conhecido da Mercedes e do calvo: trocavam através da mesa algumas palavras. Mercedes olhava-o muito, e a Concha, ao fim do jantar, vendo o rapaz, muito delicado, partir avelãs para ela, mordeu os beiços furiosa. O seu desejo de a humilhar tornou-se então uma preocupação ardente; exigiu a Artur outro vestido; queria ir todas as noites ao teatro, para que a outra soubesse, «se ralasse». Às horas em que a via à janela do primeiro andar, mandava buscar uma tipóia descoberta, descia as escadas com grande espalhafato, ia-se recostar na caleche, rindo alto, fingindo-se muito animada, gritando pelo Melchior, pelo Artur, e que lhe esquecera a sombrinha, e que lhe fossem buscar o lenço de renda... Pessoas na rua paravam, pasmadas daquela vivacidade, admirando-a. A Mercedes, em cima, se não tinha tempo de se retirar da varanda, afectava olhar o céu ou o prédio fronteiro, ou, de costas voltadas para a rua, falava, ria para dentro do quarto. A Concha desesperava-se daquela indiferença, chamava-lhe os nomes mais hediondos, e apenas chegava ao Aterro, mandava voltar para trás, para o hotel, para a «apanhar ainda à janela», dar-lhe o espectáculo do seu chic, da sua grande cauda, das suas meias de seda cor-de-rosa, ao saltar do estribo da tipóia. — E no entanto, Artur pagava ao cocheiro, pensando: — Mais dez tostões deitados à rua! Porque recomeçava a preocupar-se com o dinheiro. Desejava escrever ao Carneiro, pedindo-lhe o outro conto de réis que lá tinha em depósito, mas hesitava; sentia que o gastaria depressa, naquela vida pródiga. E depois! Deixar a Concha? Era matar a pobre criatura que o amava, que por um sentimento de regeneração, para se tornar digna dele, ia-se cada dia fazendo «mais senhora», a ponto de ir ouvir missa todos os domingos, querer aprender piano e soletrar depois do almoço, laboriosamente, o Diário de Noticias. Podia lá deixá-la! Seria vil! E era possível também voltar a Oliveira de Azeméis, recair naquele

embrutecimento morno, com partidas de bilhar na Corcovada e passeios por entre os pinheirais da estrada, aos domingos de tarde, no pó do macadame? Uma dessas manhãs, quando estavam na saleta — o Pancho penteava a Concha – Melchior apareceu e atirou-se para uma cadeira com um ar tão abatido, que Artur, sempre bondoso, lhe perguntou com muito interesse: — Que aconteceu? O outro fitou-o com ansiedade e apertando as mãos dramaticamente: — Oh, Artur, você é que me pode salvar! Preciso sem falta, amanhã, de dez libras. Senão, estou perdido. Oh! Artur... Artur interrompeu-o, desolado. Tinha de seu catorze libras — era tudo o que restava de um conto de réis — devia a conta do hotel, não podia... O outro deu uma punhada furiosa no ar: — E a minha sorte! — rosnou com rancor. — Você compreende, homem... — Basta, homem! Raio de vida! E foi harpejar a guitarra com furor, vendo pentear a Concha. Artur — que devia ir buscar um camarote para o Price, porque a Concha queria lá ir, para «enterrar» a Mercedes com um chapéu novo — saiu, muito contrariado. Aquela precisão do Melchior colocava-lhe a realidade diante dos olhos, brutalmente: estava a tinir! Daí a dias, não teria sequer para uma tipóia! E depois, custava-lhe negar dinheiro ao Melchior; era o íntimo, o confidente; era tão bom para a Concha, tão serviçal, tão alegre... Quando entrou, estava resolvido a pedir quinhentos mil-réis ao Carneiro; em todo o caso, para economizar, que diabo!... não largaria as dez libras ao Melchior. Antes de tudo, ele! Pousava o chapéu sobre uma cadeira, quando a Concha, direita, nobre, cruzando os braços, lhe perguntou com severidade o que significava aquilo de não querer tirar o pobre Melchior de apuros! Era necessário ser ingrato! Que amizade! Ah, bem via agora que os portugueses eram uns para os outros como tigres! Ah, se fosse o conde ou o marquês! Outra gente!

Artur, envergonhado, balbuciou que realmente negara dinheiro ao Melchior — mas porque imaginava que era para jogar — e queria tirar-lhe o vício! Falou então de Melchior com exaltação: era o seu melhor amigo! Por ele daria a vida! Teve frases líricas, disse coisas sobre o Orestes e Pílades. E a Concha, que nunca o compreendia quando ele falava depressa ou com estilo, voltou-lhe as costas, dizendo que, então, devia portar-se como um caballero. Artur, nessa mesma noite, deu as dez libras a Melchior, dizendo vagamente «que recebera uns dinheiros». E então abriu-se com ele: contou-lhe que as tias, apesar de ricas, começavam a espantar-se daquelas despesas; a sua fortuna particular, dele — porque a tivera, em bom metal — ia-se esgotando; era necessário pensar em arranjar dinheiro... A única maneira, era fazer representar o drama... Melchior estendeu a mão aberta, como para o impedir de continuar: — Eu me encarrego disso. Nem mais uma palavra. Isso é comigo. Onde está o manuscrito? — Você compreende, Melchior; depois, se o drama rende, é o que quiser... — Nem mais palavra. Venha o manuscrito! E nessa certeza, Artur escreveu uma carta ao Carneiro, dizendo que «para negócios» desejava quinhentos mil-réis. Daí a dois dias, estava ainda na cama quando Melchior rompeu pelo quarto com um aspecto triunfante. Tinha falado nessa manhã ao empresário! Pilhara-o de boa maré e prometera uma resposta dentro de quinze dias. Naturalmente a coisa ia! Hem? Não havia outro como o Melchiorzinho! E no seu entusiasmo, fazia cócegas nos pés da Concha, por cima da roupa. Ela dava gritinhos, encolhia-se contra Artur, que, radiante, lhe prometera um vestido novo para a primeira representação. Melchior lembrou logo que se devia dar uma ceia aos actores. A Concha bateu as palmas, já exaltada à ideia de se sentar, presidindo a uma festa, entre o Cunha galã, e a Maria Joana ingênua. Era ainda uma maneira de fazer ferro à outra! Porque a luta continuava, mais áspera. O que desesperava a Concha era que a Mercedes possuía as relações, a amizade do espanhol bonito; ele agora jantava ao pé dela: e eram

risadinhas, segredinhos, amabilidades, ao lado do calvo, extático, que parecia gozar aquela animação da sua espanhola. A Concha mostrava-se indignada daquela intimidade; achava a Mercedes obscena: coquetear com aquele peralvilho nas barbas de um homem tão bom, tão baboso! Senão era mesmo de uma perdida! E tomava ao jantar atitudes de puritana severa, ofendida pelos espalhafatos de uma meretriz. Mas os seus olhos, por vezes, tinham clarões para o espanhol. A Mercedes, muito fina, reparava — e logo exagerava a sua familiaridade com ele, falando-lhe muito de perto, pousando-lhe os dedos sobre o braço, com o olhar rendido. A Concha mexia-se na cadeira, toda nervosa — e o espanhol, com gravatas resplandecentes, puxava os punhos da camisa de chita, torcia o buçozinho, recostado com languidez, sorrindo à Mercedes, dando à Concha olhares langorosos. Cada dia a Concha subia para o quarto mais exaltada. Tinha agora muitos segredinhos com a criada; e Artur, mais de uma vez, indo ter com ela à janela, vira na varanda de baixo o rapazola, encostado numa atitude «catita» que lhe fazia sobressair sob o jaquetão os belos quadris de mulher, soprando o fumo do charuto e revirando para cima os seus grandes olhos gaditanos. Aquilo irritava-o. Sabia que era um emigrado de Cádis comprometido na revolta de Salvochea. Achava-o bonito e a sua presença inquietava-o. Mas tranquilizou-se ouvindo, uma noite, a Concha dizer com grande desdém a Melchior, que parecia ter pelo emigrado um rancor feroz: — Mira! Se es un niño! Se es un polo! Más feo!... — E declarara mesmo com cara enjoada, que detestava homens com rostos de mulheres. Pouh! Até o achava ridículo! De resto Artur andava de novo tomado por ambições literárias. Uma noite de aplausos, e entrava na publicidade, na glória, nos folhetins! Era a desforra resplandecente das suas humilhações obscuras. Relembrava certas cenas do drama, mais queridas, e não duvidava do triunfo. Que vida então! Os aplausos da multidão, misturar-se-iam à doçura dos beijos da Concha; porque ela amá-lo-ia mais, vendo-o célebre, namorado por outras, considerado como glória nacional! E as felicidades seguir-se-iam todos os dias, a todas as horas; à noite, as palmas de uma plateia electrizada; a ceia com o bom Melchior, com outros amigos; depois, os delírios da Concha apaixonada; e de manhã, na caixa do teatro, as librinhas a saltar!

No entanto a resposta do Carneiro não vinha! Artur começou a ter repentes agudos de susto. Se o homem tivesse fugido, ou falido? Se se recusasse a dar-lhe contas? Se fosse necessário um processo? Santo Deus! Às horas em que o carteiro passava, tinha palpitações ansiosas — e como não vinha carta, mal podia almoçar, com a garganta contraída, o olhar vago, pensando que talvez fosse o seu último almoço com a Concha. Mandara mesmo um telegrama ao Carneiro — e uma manhã, mais inquieto, como um homem que prepara de antemão a explicação de uma desgraça provável, confessou à Concha que estava à espera de uns dinheiros que não vinham! Era o diabo! Receava até que houvesse dificuldades com o correspondente... Ela acolheu a notícia, com absoluta indiferença. As suas maneiras tornaram-se singulares: andava muito nervosa: a janela parecia ser o centro da sua existência; chegava-se um momento à varanda, voltava, esfregando as mãos, com a cabeça baixa, contrariada; outras vezes, parecia debruçar-se, tão radiosa, tão interessada, que Artur, ao vê-la, chegava-se com curiosidade; mas não descobria nada: apenas, na varanda do quarto do espanhol, uma cadeira vazia com um jornal dobrado em cima. Os segredinhos com a criada redobravam a Concha parecia adorá-la, não a podia dispensar, reclamando— a constantemente, enchendo-a de presentes, de fitas velhas, de botinas, de camisas já muito usadas; e quando Artur estranhava esta intimidade, ela respondia que uma mulher precisava de ter uma amiga para desabafar: não tinha outra à mão; queria porventura que ela, uma senhora, fizesse amizade com a meretriz do primeiro andar? Não — então caluda!— E de que falam vocês? — De ti! Mas apesar daquele amor que Artur julgava cada dia mais forte — era por vezes brusca com ele; repelia-lhe enfastiada os abraços: uma mulher, dios mio, não podia estar sempre lambuzada pelas beijocas de um marmanjo! Às vezes, à noite, ao deitarem-se, sob o pretexto de alguma enxaqueca, não consentia que Artur lhe tocasse, nem com a ponta da unha — deixando a paixão do autor dos Esmaltes e Jóias desapontada, como um cão a quem se retira uma febra. Outras vezes, vinham-lhe ardores súbitos, a horas singulares, sem razão. Artur explicava estas mudanças etnograficamente, pela sensibilidade muito refinada das raças

andaluzas — e cada dia a achava mais adorável. Seria completamente feliz se o Carneiro respondesse! Por fim, o respeitável Carneiro respondeu, numa larga folha de papel pautado, em que explicava a demora da remessa por uma jornada que fizera «à Invicta Cidade, onde o tinham chamado exigências dos seus negócios, bem como levar ao Teatro de São João, a ver uma peça lírica, sua jovem Adelaide, que...». Artur, enfastiado, atirou a carta para o lado e releu com satisfação a letra de câmbio sobre um negociante da Baixa. Não resistiu mesmo a comunicar a sua alegria à Concha, e agitando a letra disse com um ar negligente, ricaço: — Dinheirinho fresco. — Ah! — fez ela secamente. Aquelas indiferenças escandalizavam Artur. Não as compreendia: quando ele, por ternura, para lhe dar todos os privilégios de uma esposa, a queria fazer partilhar intimamente dos seus interesses, dos seus sentimentos, enobrecendo assim aquela ligação — ela retraíase, repelia toda a comunhão muito íntima, evitando entrar nos seus planos e nos seus segredos, dando-lhe o seu corpo, mas reservando-se a alma e a vontade. Parecia querer conservar-se unicamente concubina. Artur sentia alguma coisa de subtil errar entre eles, separá-los; as suas naturezas, como as suas epidermes, tocavam-se sem se penetrarem e Artur, tendo uma mulher com quem comia, dormia e coabitava, sentia contudo, por vezes, uma dolorosa falta de simpatia, uma inactividade triste das suas faculdades afectivas. E para não se parecer a si mesmo inteiramente destituído de afeições alheias, a sua alma refugiavase na lembrança da tia Sabina, como um ser que procura um elemento próprio. Pensava mesmo em lhe escrever, quando, um dia, recebeu dela uma longa carta. Que boa surpresa! A letra era quase ininteligível, mas por todas as folhas do papel errava um bom calor de amizade e os ganchos dos seus FF e dos seus TT eram como curvas de abraços. Dizia: «Meu querido menino. Espero que esta te encontre bom, o que todos os dias peço a Nossa Senhora de toda a alma e

acabo de saber pelo Vasco que mandaste ir um ror de moedas, que até me parece pecado. Ora pois se tu soubesses o que nós aqui nos assustamos, por te saber tão longe e talvez doente nessa terra tão grande e sem os teus jantarinhos a horas, e aflige-nos ver que gastas tanto, o que custou a ganhar a teu padrinho, nessa Babilónia sem religião. Eu não tenho passado bem, o que é a velhice; é esta vida que não quer ir mais para diante e assim quem sabe se te tornarei a ver, e todos os dias peço a Nossa Senhora que te guarde, porque o mereces. Dizem-me que até os papéis falam em ti, o que me tem assustado, ainda que o Vasco diz que os papéis falam só de gente que é importante e do Estado. O Albuquerquezinho vai indo, graças a Deus, bem e já fez este mês doze paciências sobre quinze, o que é um bom mês. Adeus, meu filho, que Deus esteja contigo no teu coração. A tia recomenda-se e tem estado com o seu defluxo. A Ruça anda-te a fazer ceroulas, de uma peçazinha de linho, que eu fiz de economias, e o bichano engasgou-se o que me deu cuidado, e o Inverno tem estado mau para os velhos. Se puderes voltar, vem, pois me diz o coração que Nossa Senhora me chama e vou encontrar a paz da alma e os outros que já lá estão. O Albuquerquezinho recomenda-se e é sempre o mesmo santo homem. Não deves abusar aí das comidas, que me dizem ser tão más. Adeus meu filho, possas tu em todas as tuas coisas ser tão feliz, como eu não fui, e agora vejo que a morte vem perto e com um abraço arrochado da tua tia que te quer Sabina.» Artur ficou com a carta na mão, a alma longe: estava lá, na casinha de Oliveira de Azeméis, tão sossegada, tão doce; uma boa réstia de sol onde o bichano dormia estirava-se pela sala de jantar, o velho relógio batia o seu tiquetaque, a tia Sabina fazia a sua meia; ao meio-dia na torre, todos os galos cantavam, e no silêncio da vila adormecida, uma nora ia chiando... A Concha fê-lo levantar dos pés da cama onde ficara sentado, cismando: andava à procura de uma liga, com os cabelos desfeitos, a cara pesada de sono; saias enxovalhadas arrastavam pelas cadeiras; um ar relentado amolentava; no toucador, entre escovas peladas, havia postiços de cabelo. A Concha acordara mal-humorada, e diante da sua fisionomia desagradável, Artur pensava vagamente, que para além daquele quarto onde ele vivia numa concubinagem mole, havia ares lavados, campos frescos e existências dignas em interiores

asseados: desejou alguma coisa de mais elevado, de mais puro... Melchior apareceu à porta e como a Concha se vestia, Artur foi com ele para a saleta, levando ainda na mão a carta da tia Sabina. — Cartinha de casa? — perguntou o jornalista. — Da minha tia... — Com cheta! — e os olhos de Melchior reluziram. Artur respondeu, corando: — Mandou algum dinheiro. — E cardá-la! E é quantia grossa? — Sofrível. — E cardá-la! E cardá-la! — repetiu Melchior com entusiasmo. — Fica por minha conta! — disse Artur afectando um cinismo catita. Daí a dias, Artur desceu à sala de jantar, a buscar charutos — uns certos Intimidades de Carvajal, famosos no hotel. Manuel mostrou-lhe a última caixa vazia: — Já vê usted... Artur parecia contrariado: então o espanhol bonito, que a uma mesa lia o seu jornal tomando café, ergueu-se muito afavelmente, e ofereceu a sua charuteira: — Son eguales. Fume usted. Artur agradeceu, embaraçado. Mas o espanhol insistia com expansão e Artur, depois de aceitar um charuto, embrulhava-se numa frase espanhola, quando o emigrado, sorrindo, lhe disse que podia falar português: ele compreendia-o, até o hablava; de resto os dois idiomas eram tão parecidos... eram como um só povo, porque espanoles y portugueses son hermanos!... Artur, contente de se poder exprimir em português — a necessidade de falar espanhol torturava-o — e querendo ser amável, perguntou-lhe se estava há muito em Lisboa.Havia quatro meses. E com loquacidade familiar disse que era um republicano federal, que se batera nas barricadas de Cádis e estava condenado à morte. Um destino tão patético impressionou Artur. O rapazola pareceu-lhe grande como

Danton; e por uma necessidade súbita e instintiva de lhe canalizar as simpatias, declarou-se também republicano, falou vagamente no Clube Democrático, disse-se entusiasta de Castelar. Tinha aceitado um café e ambos à mesa, soprando o fumo dos charutos, penetravam-se de uma simpatia comum. O emigrado tinha uma voz vibrante e cálida. A vivacidade andaluza dava aos seus gestos, à expressão da sua fisionomia móbil, uma sedução singular. Parecia conhecer Artur de há muitos anos: fez-lhe logo confidências políticas, deblaterou contra os Borbons, profetizou a república universal e chamou a Vítor Hugo um Deus, tratando Artur por Hijo mio. Artur surpreendia-se de encontrar ideias literárias e sociais, que julgava admiráveis por condizerem com as suas, num rapazola que tinha o ar, os modos, de um chulo de raparigas. E falou então com entusiasmo da Espanha, do país de Cervantes, grande raça... O espanhol electrizou-se, jurou-lhe que nunca encontrara um português que estimasse tanto; e para celebrar um pacto de amizade ao antigo modo andaluz, mandou buscar ao quarto uma garrafa de manzanilla especial... «um licor divino». Beberam, apertaram-se as mãos. Artur achou o vinho delicioso e o espanhol cantou com verve a ária de Robinson: Pero el Xerez... Dá fuerza al hombre, fuego a la mujer... Convidou Artur a ir a Cádis: queria-lhe mostrar os sítios onde se batera e onde os federais tinham feito proezas. Havia de ver o seu amigo Salvochea, um herói! De resto, esperava a amnistia e lamentava deixar Portugal: era um país que admirava pela sua liberdade de imprensa e pela beleza das portuguesas! E a propósito, como lembrando-se de repente, perguntou-lhe quem era aquela rapariga com quem estava. — É a minha pequena — disse Artur, corando um pouco. O outro bocejou, repoltreou-se na cadeira, disse negligentemente que a sua querida tinha ficado em Sevilha... De resto, presentemente, a política devia prevalecer sobre o

sentimento: quando o povo sofre não se pode pensar em prazeres! A sua querida, agora, era a Pátria! Obrigou-o a aceitar outro charuto e dizendo que ia escrever a sua correspondência, saiu assobiando a Reps! Artur galgou a escada para ir contar à Concha o conhecimento que fizera, feliz em mostrar a simpatia que inspirara a um espanhol tão bonito e tão ilustre. A Concha fez-se escarlate, deu duas voltas pelo quarto com a cabeça baixa, contemplando o bico das botinas, foi arrumar as escovas sobre o toucador, um pouco trêmula, e por fim disse com uma voz ambígua — que achava cara de mau ao seu patrício, «su paisano». Mas de repente, acometida de uma jovialidade brusca, arrebatou Artur pela cinta e fê-lo rodar numa valsa. Daí a pouco, o criado entrava com uma caixa de charutos Intimidades; era um presente do espanhol, que mandava o seu cartão-de-visita: D. MANUEL MANRIQUE ROJAS Y CUEVAS Artur ficou muito lisonjeado e a Concha declarou, com a autoridade de uma mulher experiente da sociedade, que era necessário convidá-lo a jantar. Artur admirou um tacto tão fino e à tardinha, quando a Concha, muito vestida, toda perfumada, se ia sentar à mesa enfastiada de esperar, Artur, que desde as quatro horas saíra, apareceu trazendo pelo braço D. Manuel Manrique; ela fez-se muito vermelha, o seio arfou-lhe e baixando as pálpebras, curvou-se num cumprimento digno. O jantar foi muito alegre. D. Manuel interessou profundamente Artur. Fê-lo rir, contando episódios picarescos da sua fuga para Portugal, com quatro duros na algibeira; entusiasmou-o pelas viagens, descrevendo-lhe a Havana, os cafezais, as florestas tropicais, as danças dos negros e os profundos céus abrasados; exaltou-o pelos romantismos da guerra civil, explicando a defesa heróica das barricadas na Caile da Aduana, em Cádis, e espantou-o pela grandeza dos seus planos políticos, fazendo-lhe antever uma grande federação das repúblicas latinas, em oposição aos despotismos saxônicos e eslavos. E ia declamar contra o papado e

contra a Igreja, num furor de impiedade democrática, quando a Concha, muito devota, fez um gesto escandalizado. D. Manuel imediatamente se retractou, e mesmo disse: — Pero nada se hace sin la voluntad de Dios! Aquilo pareceu a Artur de muito bom gosto, de uma alta cortesia, e, electrizado, deu-lhe sem reserva a sua amizade. Falaram então de Lisboa, de Madrid, de teatros, e bebiam fraternalmente — quando Melchior abriu de rompante a porta. Ao ver o espanhol confortavelmente instalado no seu lugar habitual, teve uma expressão tão desapontada, que a Concha deu uma risada: — Es Melchior, el pobre! — Mas logo apresentou-o com gravidade ao emigrado. Melchior arrastou devagar uma cadeira, recebeu com um ar soturno um cálice de curaçau e ficou embezerrado, mudo, torcendo o bigode com os dedos trêmulos, deitando olhares ferozes a Artur, à Concha e ao espanhol. Enfim, não se contendo, ergueu-se, chamou Artur para o quarto de cama e cruzando desesperadamente os braços, numa voz estrangulada, disse: — Então que significa o bêbedo do espanhol metido aqui de casa e pucarinho? Artur explicou o encontro, a oferta de charutos, elogiou o espanhol: era um rapaz de grande talento, tinha ido à Havana... — Ao diabo que o carregue! — Fale baixo, homem! — fez Artur inquieto, indo fechar a porta do quarto. — Qual baixo! Ê um bêbedo! Olha que brincadeira! Estávamos aqui todos três como Deus com os anjos... Está tudo estragado agora! Eu por mim, não torno aqui a pôr os pés... A cólera eriçava-lhe os pelos do bigode. Artur tentava calmá-lo: o D. Manuel parecia-lhe uma pessoa fina... — Você verá! Espere-lhe pela volta! — Mas por quê, que diabo? Melchior hesitou, parecia querer soltar uma revelação, mas depois de encolher desesperadamente os ombros: — A culpa é do Governo! Canalhas de espanhóis! Eu, é gente que odeio!... — E lançou-

se em violentas declamações patrióticas: a União Ibérica era a infâmia das infâmias! Mas que se livrasse um espanhol de se lhe atravessar no caminho! Bebia-lhe o sangue! Positivamente, bebia-lhe o sangue!... Uma risada muito alta, muito cálida, da Concha, dentro, na saleta, interrompeu-o, imobilizou-o: olhou Artur dos pés à cabeça com ódio, com desprezo — e atirando o chapéu para a nuca, rompeu pelo corredor, blasfemando. Quando Artur voltou à saleta, a contar que Melchior abalara, achou a Concha muito animada, com uma cor radiosa nas faces: nunca a vira tão bonita; tinha descoberto que D. Manuel era ainda seu parente e diziam-se já com familiaridade: Conchita, Manolo! O emigrado tornou-se íntimo deles. A Concha não quisera voltar à mesa redonda — para não comer ao pé da «indecente do primeiro andar» — e quando Manolo não vinha jantar com eles, aparecia à sobremesa para tomar o café e fumar um puro. Artur cada dia o estimava mais: a sua alegria petulante seduzia-o; os seus serviços à república inspiravam-lhe respeito; gostava das discussões políticas, com o copinho de curaçau defronte, talhando e retalhando a Europa, segundo planos vagos de uma democracia universal; e tinha momentos deliciosos, ouvindo-o contar anedotas da revolução de 68, cantar cançonetas políticas ou fazer gemer na guitarra as seguidilhas de Andaluzia. Tinha toda a sorte de habilidades: fazia caricaturas com um fósforo apagado sobre um prato, sabia necromancia, jogava a espada — e dava mesmo lições a Artur, no seu próprio quarto, onde lhe fazia admirar retratos de republicanos ilustres que conhecera e de actrizes que tinham sido sus queridas. Com a Concha, era de uma familiaridade fraternal mas discreta, com tons de respeito; divertia-a muito, tirando-lhe as cartas, lendo-lhe a buena-dicha, com profecias complicadas, em que os destinos dela e de Artur apareciam sempre unidos, escorrendo de felicidades, como taças muito cheias. Melchior, durante os primeiros dias, não voltara. Mas uma tarde, Artur entrando no quarto às quatro horas, achou-o instalado ao pé da Concha, retorcendo com satisfação o bigode: tinha feito as pazes com a pequena. Mostrou-se nessa noite mais conciliador com o espanhol, a ponto de se declarar, ele também, republicano e mesmo aceitou com prazer um convite que o emigrado lhe fez para um jantar que dava «a Conchita y al amigo Arturo». Foi

uma festa muito alegre. À sobremesa, na excitação do champagne, juraram estimar-se sempre e formaram uma sociedade de pândega: Artur, Concha & Cª! Artur perdera inteiramente o vago ciúme que ao princípio lhe inspirava D. Manolo; decerto, a Concha era muito afável com ele, quase carinhosa, mas só via naquele sentimento uma amizade de compatriotas que se encontram numa terra estranha e a afeição de parentes remotos. Além disso, a Concha, a sós com ele, nas conversas íntimas do leito, tinha-lhe confessado por vezes que gostava do Manolo, mas que desconfiava dele: achava-lhe «cara de mau»; perguntara-lhe mesmo se sabia quem era a querida dele. Já várias vezes, diante de Artur, ela perguntara a Manolo «quien eran sus amores»; o Manolo torcia o buço num silêncio discreto e instado terminava por dizer com ênfase — que a sua querida era a Pátria! De resto a Concha afirmava que o Manolo, apesar de bonito, não era um tipo para mulheres: muito efeminado, muito maricas! Por seu lado Manolo, na intimidade, a sós com Artur, confessara-lhe, como forçado pela verdade e lamentando a franqueza, que a Concha lhe não parecia bonita; não era feia, sim, mas havia dele ver as mulheres de Cádis! Havia dele ver a sua pequena, a que estava em Sevilha! Isso sim! A Concha... E Artur vivia tranquilo. Deixava-os sós por vezes e quase se escandalizava do gesto indiferente, secado que tinha a Concha, quando às vezes, de manhã, Manolo lhe mandava um ramo de camélias. — Mas é muito amável da parte dele, filha! É muito delicado! Deves gostar! — No me gusta, no me gusta — dizia ela, voltando as costas com o ramo na mão e cobrindo as flores com um olhar doce como um beijo. O que de novo preocupava seriamente Artur era o dinheiro. Desde a intimidade com o Mando, as despesas cresciam. O republicano tinha todos os dias uma ideia cara: irem a Queluz, tomarem uma quarta ordem em S. Carlos, uma ceia na Ponte de Algés, e com as contas do hotel, as tipóias, as luvas, os charutos, tinha dias de duas, três libras! Mas não podia modificar a sua existência. Era cheia de tantas doçuras! A Concha, que perdera agora todos os seus «nervos», andava muito igual, muito amorosa. O emigrado e

Melchior constituíam a Artur uma pequena corte: gostava de os ver à sua mesa, bebendo-lhe o seu cognac, cortejando-lhe a sua amante. Deleitava-se em lhes dar o espectáculo dos seus amores: beijocava a Concha diante deles — o que produzia em Melchior a imediata necessidade de se levantar, de puxar as calças com maus modos, e no espanhol, a de cofiar o buço, com as suas belas pestanas descidas: até que a Concha, um dia, lhe declarou que era faltar-lhe ao respeito, abraçá-la e fazer pieguices diante de gente. De resto, Manolo punha cuidados delicados em lisonjear Artur: recebera, comovido, a oferta dos Esmaltes e Jóias, e dera-se ao trabalho de decorar algumas estrofes da Ode à Liberdade. Prometera-lhe traduzir todo o volume para um jornal republicano de Múrcia e dizia-lhe, à mesa, com arrebatamento: — Don Arturo, es usted el primer poeta del siglo! Es usted Hugo! Es usted un Dante! E assim, com um amigo que o compreendia tão bem, uma amante que lhe queria tanto, o autor dos Esmaltes e Jóias tinha dias em que andava inchado de gozo. Se não fosse o dinheiro! O maldito dinheiro! A resposta do empresário no entanto tardava e Artur instava com Melchior para que voltasse a falar-lhe, o apertasse. Que diabo, a coisa urgia! E havia agora na sua impaciência, não só a necessidade de recursos, mas o desejo de deslumbrar o espanhol com o espectáculo de uma plateia arrebatada. Melchior, complacente, fora ao empresário — que se declarara, «ocupadíssimo, menino, ocupadíssimo» e pedia mais quinze dias! Mas a coisa havia de ir, a coisa havia de ir! Porém Melchior andava de novo desconfiado com o espanhol: irritava-o sobretudo o saber que a Concha retomara o hábito de sair de manhã, duas, três vezes por semana. Ora ia ver a Paça que estava muito doente, ora à modista, ora apenas dar un passeito. Censurou Artur por consentir naquelas passeatas. — A rapariga não há-de estar aqui como num convento — dizia Artur. E acrescentava, girando com fatuidade sobre os calcanhares: — Estou tão certo dela como de mim mesmo! Melchior deixava-lhe cair sobre as costas um olhar rancoroso, cheio de um desprezo

imenso. Não podia, por vezes, disfarçar ataques súbitos de ódio pelo emigrado. De repente, sem razão, embezerrava. A Concha percebia, vinha gracejar com ele, perguntar-lhe o que tinha su abuelito, se estava zangado com su netita, retorcia-lhe o bigode, sentava-se-lhe mesmo nos joelhos, rindo, pulando, enquanto Manolo, muito sério, harpejava os bordões da guitarra ou jogava com Artur o écarté a dois tostões. Melchior, ordinariamente, acalmava-se, mas, só com Artur, desabafava: não podia tragar o Manolo! Não podia! Um dia quebrava a cara ao Manolo... — Mas por quê, Melchior? Melchior calava-se e daí a pouco rosnava: — O Governo é que tem a culpa; consentir nesta súcia de foragidos! Artur espantava-se de um patriotismo tão fanático, tão intolerante. Era necessário também não ser caturra, que diabo! Os Espanhóis eram uma raça nobre... — Uma corja! — rugia Melchior. E dando grandes passadas pelo quarto, sondava com mãos nervosas as algibeiras, como para procurar uma arma: — Um dia rasgo as entranhas a um castelhano! E uma ocasião, não se contendo, disse a Artur numa explosão: — Pois você não vê como ela faz olho ao Manolo? Artur riu. Ora, histórias! Mas aquela palavra, com a lentidão de um veneno absorvido, começou a espalhar-lhe no sangue um ciúme crescente. Observou-os aos dois. Porém, via-os tão naturais, tão francos, tão camaradas, tão inocentes!... Pensou que «disfarçavam» e suspeitou das saídas da Concha. Um dia que a ouvira dizer que ia a casa da Paca, seguiu-a de longe, cosido com as fachadas. Que alívio quando a viu entrar, com efeito, no portal da Paca! Jurou a si mesmo, num relance de reconhecimento, amá-la mais para a compensar da injusta suspeita com que a ofendera. Mas depois refletiu que no prédio da Paca havia mais andares, ou ainda que a Concha poderia ter saído por uma porta traseira. Vaidoso, irritou-se de ter sido simplório e quase desejou que ela fosse culpada. Assim, certa manhã que a sabia lá, seguiu-a

e foi tocar à campainha. Perguntou pela señorita Concha: esperou dez minutos e viu-a aparecer de chapéu, as faces em brasa, os olhos brilhantes. Que era? Por que tinha vindo? Ele riu: passara por ali, lembrara-se de a vir buscar. Mas em casa, de repente, perguntou-lhe quase com severidade, por que lhe aparecera ela tão vermelha? Em lugar de se escandalizar com aquela pergunta repassada de desconfiança, contou-lhe que assistira a uma cena! Ah! A Paca que se julgava perdida, a chorar. O querido a chorar! O pequeno a chorar! Um horror! Mas Artur não estava tranquilo. Tinha a sensação vaga de que ela «se lhe ia escapando». Sentia-a menos sua. E aquela incerteza exaltava o seu amor. Tinha um desejo pungente de lhe saber os pensamentos. Desconfiava de tudo, do Manuel, da criada sobretudo — e sentia uma contrariedade amarga quando via entrar o Manolo. Os serões eram menos alegres; havia silêncios embaraçados, e o emigrado, para os preencher, tinha de esgotar o seu repertório de malagueñas, que a Concha escutava sorumbática, com os braços cruzados, erguendo às vezes para ele ou para Artur o seu olhar muito brilhante. Uma manhã, ouvindo-lhe dizer que ia à Paca, Artur declarou que estava incomodado, que não saía, que desejava que ela lhe fizesse companhia. Ela atirou logo para uma cadeira o vestido que ia pôr e veio interrogá-lo muito ternamente: o que lhe doía? queria deitar-se? — Estou esquisito, passa logo — respondeu Artur, muito satisfeito da prontidão com que ela desistira do «passeio» e vendo na sua solicitude a persistência do seu amor. Estava-se então próximo do Entrudo. Nessa semana, por duas ou três vezes já, Artur impedira-a habilmente de sair; ela não parecera contrariada, somente tinha tristezas, «monices», dizia-se nervosa, queixava-se de enxaquecas. Na sexta-feira — antes do Domingo Gordo — Artur, voltando às duas horas da redacção do «Século», encontrou-a de chapéu, pondo o véu ao espelho. Ia à Paca. — Ora, deixa lá a Paca! — Mas preciso também de ir à modista... — Ora, deixa-te de modistas!

Esperava uma «cena» e ficou admirado, vendo-a tirar sem uma palavra o chapéu, o véu, o vestido, agarrar num lenço que andava a embainhar havia mês e meio, e ir sentar-se, com um suspiro, à janela. Artur, despeitado daquela resignação muda, agarrou num livro, estendeu-se em cima da cama. E o silêncio que se cavou entre eles pareceu-lhe triste e escuro como uma separação. Manolo devia vir jantar nessa noite, mas às três horas o Manuel veio dizer que o Sr. Manrique pedia desculpa, mas que, tendo-lhe chegado um parente de Badajoz, só poderia aparecer à sobremesa. A Concha não se moveu, cosendo devagar, lugubremente, e no silêncio do quarto só se ouvia, subtilmente, voltarem-se as folhas do livro. O jantar foi triste. A Concha, com duas rosetas vermelhas no rosto, não comia; Artur, a quem aquele silêncio infeliz, aquele fastio desconsolado, exaltavam o ciúme, petrificava-se com desespero na sua mudez, o cérebro cheio de frases, de recriminações, de palavras comovidas, que a sua língua, de um peso de chumbo, se recusava a pronunciar. A sobremesa passou, e Manolo não veio. Em lugar dele foi Melchior quem apareceu ao café, e, com um rosto satisfeito, disse logo abruptamente que ao entrar na sala de jantar, vira o Manolo com a Mercedes, unha e carne com ela, muito chegadinhos — e o pobre calvo a babar-se ao lado, o asno! A Concha fez-se pálida, depois escarlate. E subitamente, tornou-se muito amável com o Melchior: fê-lo sentar ao pé dela, «muito juntinhos», queimou-lhe ela mesmo o café, desmanchou-lhe o cabelo, ocupando-se dele, palrando alto, sem um olhar, uma palavra para Artur. — Vocês estão amuados? — perguntou Melchior com o rosto túmido de prazer. Artur teve um sorriso amargo: — Tem estado com os nervos, a menina. Mas a Concha ergueu-se bruscamente, entrou no quarto fechando a porta sobre si e sentiram-na no corredor gritar pela criada. — Que diabo tem ela? — perguntou Melchior, sorvendo placidamente o seu café.

Artur teve uma tentação de desabafar, contar as suas suspeitas; mas, vaidoso, não querendo dar a Melchior o «gostinho» de ver justificadas as suas desconfianças — encolheu os ombros, disse: — Eu sei lá! Mulheres! Melchior deu-lhe de lado um olhar apiedado e desdenhoso e pareceu sorver com delícia a última gota da xícara. Mas a Concha voltara, com os olhos muito brilhantes, um pouco vermelha, toda coberta de pó-de-arroz. Trazia uma excitação artificial, histérica: declarou que se achava disposta a tudo! Quis tocar o fado — mas atirou com tédio a guitarra; deu um pulo para os joelhos de Melchior, ergueu-se, valsou só pela saleta e foi necessário que lhe arrancassem a garrafa de cognac, porque a queria beber de um trago. Continuava a não falar a Artur, nem o olhava; perguntou mesmo a Melchior se queria ir só com ela dar um passeio a Belém — mas só com ela, los dos, como dos nóvios! E Melchior ria, todo banhado de gozo. — Vá — disse com bonomia — vá, faça as pazes com o seu marido! Ela encolheu os ombros com um desprezo soberano e estendeu os braços a Melchior para uma valsa. E trauteando, volteavam pela sala, pulando, tropeçando nas cadeiras, abalando o soalho com risadas sonoras, num grande arranque de troça; desapareceram mesmo um momento no quarto às escuras — e Artur, furioso, ouvia a Concha rir, com risinhos cálidos de cócegas. Não se erguera da mesa, fumando, num desespero lúgubre, com lágrimas na garganta. Quando ela voltou à sala, compondo o cabelo, seguida de Melchior que torcia o bigode, o Manuel levantava a mesa. — Va decir al Sr.. Manrique, abalo, que le esperamos — disse ela. — Listo! O Manuel voltou daí a momentos: — Diz que não pode vir. Estava no quarto da Mercedes, em grande pândega... Toda a animação da Concha murchou, como depois de uma rajada uma bandeira caindo ao comprido do mastro. Deu duas voltas pela saleta e foi para o quarto, às escuras. Foram

encontrá-la, daí a pouco, enroscada em cima da cama, dobrada sobre si mesma, numa imobilidade hostil. Respondeu bruscamente que tinha dores de cabeça, febre. Para a distrair, Melchior quis tocar um fado: ela gritou-lhe que se calasse! E como Artur, julgando-a doente, a interrogava com um carinho que implorava reconciliação, ela enfureceu-se: nem podia uma pobre de Cristo estar doente sem ser martirizada! Irra! E como Artur insistia, e o Melchior se agitava em redor do leito, pulou para o chão, e com uma força nervosa extraordinária, empurrou-os para a saleta, furiosa, às punhadas, batendo-lhes com a porta nas costas. — E deixá-la! É deixá-la! — disse Artur — está doida! Fizera-se pálido, receando um escândalo. — Mas que diabo tem ela? — perguntou Melchior, que de mãos nos bolsos, passeava cabisbaixo, com o rosto carregado. Ouviram então a Concha berrar de novo no corredor pela criada e apenas a moça subiu, fechar-se no quarto com ela, dando à chave uma volta colérica. — Que pouca-vergonha! — fez Melchior. — Aqui há marocas. — Estava de pé diante de Artur, fuzilavam-lhe os olhos. Artur não respondera. Erguera-se e passeava melancolicamente, acendendo cigarros que logo arremessava, indo encostar-se à vidraça, a olhar a noite escura, sentindo vagamente, no fundo de toda aquela cólera, o Mando. Decerto, impedindo-a de sair, contrariara um rendez-vous: o Manolo despeitado, para lhe fazer ferro, decidira-se a passar a soirée com a Mercedes, de patuscada, e, ciumenta, a Concha delirava! E o que era! Mas então recordava todas aquelas semanas de amor, o fogo dos seus beijos, os seus juramentos balbuciados na voluptuosidade e mesmo a indiferença que ela mostrara outras vezes, quando, habilmente, ele lhe transtornara outros rendez-vous. E podia duvidar do seu amor? A sua vaidade acumulava-lhe provas, como um pedreiro diligente que acarreta pedras para um muro — e a certeza do amor dela ia-se erguendo, indestrutível, sólida, maciça. Preferia atribuir aquela «cena» aos nervos, ao tempo, aos humores. De vez em quando, ia escutar à porta do quarto: sentia as vozes das duas mulheres cochichar; por fim decidiu-se a bater devagarinho... A Concha gritou que não abria.

— Oh, que desavergonhada! — fez Melchior. E então, censurou verbosamente a debilidade de Artur. Se fosse com ele! Oh, se fosse com ele! Tinha-lhe quebrado já uma bengala nas costas! E expôs a teoria «que as espanholas só à pancada». De resto gostavam de levar! Até se apaixonavam! Citou exemplos, anedotas. Um amigo dele, desde que dera uma coça na Lola, trazia-a como um cordeiro e babada por ele. — Raparigas desta vida, é à bordoada! Eu é que sei lidar com elas — acrescentou, furioso. — Chame-a você, fale-lhe você! — disse Artur, muito desconsolado. Melchior refletiu, torceu o bigode, aprumou a estatura e com um olhar a Artur, que significava: você verá! — foi colar a boca à fechadura e pondo muita sedução na voz: — Abre lá, ó Conchinha! A espanhola atirou-lhe de dentro uma injúria medonha! Melchior recuou, lívido: — Se fosse coisa minha, bebia-lhe o sangue! E então, furioso, excitou Artur: era uma cobardia deixar-se tratar assim por uma bêbeda! Ele pagava-a, não era verdade? Pois então, era não lhe aturar caprichos! Olha que espiga! — Você é um maricas, você não tem sangue nas veias! Arrombe a porta! Artur, envergonhado da sua fraqueza, ergueu-se e disse com decisão: — Eu, o que tenho medo é do escândalo, senão... — Qual escândalo! Você está no seu quarto. Quem paga é você! Ela se se faz fina, que vá para o olho da rua! E Artur, já irritado, excitado pelo Melchior, bateu à porta com força, ordenou: — Abre a porta, Concha! — No quiero! No quiero! No quiero! — berrou de dentro a Concha. — Arrombe! — exclamou Melchior com os olhos injectados. Artur, furioso, atirou um pontapé à porta que fez tremer a fechadura. E de súbito a porta abriu-se, a Concha apareceu, em camisa, e, bruscamente, atirou-lhe uma bofetada que o fez cambalear. Melchior precipitara-se, mas a porta fora rapidamente fechada. Dentro, a Concha

gritava; frascos partiam-se contra o chão, cadeiras arremessadas batiam contra as paredes e a voz aflita da criada dizia, quase chorosa: — Então, hija! Então, hija! Por Dios!... Artur, com a cara marcada, os olhos vermelhos como brasas, ficara no meio da sala, petrificado. E Melchior, com medo da polícia, de escândalos, daqui-de el-reis à janela, calmara subitamente, muito pálido. Disse mesmo, agarrando o chapéu: — Meu rico, eu safo-me, que não estou para me meter em alhadas! Mas, a instâncias de Artur, ficou. E ambos sentados à mesa, com a garrafa de cognac no meio, fizeram até alta noite grogues frios, fumando, cabisbaixos. — Raio de mulheres! — dizia Melchior de vez em quando. — Um desgosto assim! — murmurava Artur. E recaíam num silêncio triste. No entanto, a criada — que três ou quatro vezes, pela porta do corredor, fora abaixo e voltara, parecendo levar e trazer recados — veio, quase de madrugada dizer-lhes, pé ante pé, que a pobrecita tinha adormecido. Como era tarde, Melchior ficou no hotel, e Artur, trêmulo, comovido, entrou no quarto. A Concha, encolhida na roupa, ressonava devagarinho. Artur despiu-se sem ruído, escorregou entre os lençóis, pondo-lhe um beijo cauteloso no braço nu. Acordou daí a pouco — já o dia entrava pelas frinchas da janela — ouvindo um rumor no quarto: a Concha, a pé, abria a porta da saleta. — Que é? — disse ele, estremunhado. — Vou buscar água, que estou a arder. Artur, prostrado das emoções, dos cansaços da noite, acomodou-se na roupa e adormeceu profundamente. Quando acordou — deviam ser dez horas — estava só na cama. Pulou para o chão, abriu a janela ao sol magnífico de um dia adorável. A porta da saleta estava aberta. Viu logo o chambre dela caído no soalho, as chinelas, uma caixa de chapéus aberta! Que era? Onde fora? Ao puxão da campainha, a criada veio correndo e imediatamente começou, com grandes

gestos, a dizer que não sabia nada, que não tinha visto a senhora, que não se queria meter em questões! Artur, aterrado, passou um jaquetão, correu ao quarto do Melchior. Ao ouvir, estremunhado, «que a Concha saíra», sentou-se de um pulo na cama: — Chame o Manuel! O criado veio, fumando o seu cigarro, com a cabeça baixa, o olhinho malicioso, coçando os cabelos por trás da orelha. — Onde está a senhora? — gritou Melchior. O Manuel olhou para um, depois para o outro, e com as mãos na cinta, a barriga para diante, o cigarro na boca, o olho meio fechado ao fumo: — Então ustedes não sabem? — O quê, homem? O Manuel tirou o cigarro e torceu-se devagar numa risada interior, muda. — Acaba, carrasco! — berrou Melchior, com uma punhada no enxergão. — Pirou-se! — fez o outro, com uma voz muito aguda de gozo. — Com o Mando? — exclamou Melchior, sufocado, de joelhos na cama, os olhos esgazeados. — Pois já usted vê — disse o criado, como achando perfeitamente lógico. Melchior voltou-se para Artur que se fizera muito branco e com uma expressão de desprezo, de furor, atirando-lhe as palavras como escarros: — Sua besta! Sua besta! — Mas então — balbuciou Artur — mas então... O Manuel chegou-se para a cama e com sua voz arrastada: — Pois o Manolo e a Conchita estavam juntos há muito. Desde que ele começou a vir aos jantarinhos cá de riba! Viam-se em casa da Paca! Depois usted põe-se a fazer dificuldades. Eh! Já usted vê! O Manolo pelo beiço, a pequena com a paixão... Já usted vê! Artur, vergado pelas pernas, deixara-se cair numa cadeira, à cabeceira da cama. Adorava-a agora, aquela mulher!

A voz arrastada do criado disse ainda: — O Manolo já mandou buscar os baús! Pois era de ver! Usted põe-se a fazer dificuldades... Já usted vê! Artur, tomado de um fluxo de saudade, escondeu a cabeça entre os braços, sobre o travesseiro do leito... — Palerma! — rosnou-lhe Melchior, apopléctico de raiva. — Coma-lhe e beba-lhe! — disse filosoficamente o Manuel. — Atire-lhe usted bons bifes para dentro! Já usted vê! Mulheres! Coma-lhe e beba-lhe usted!

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